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  rico Verssimo

  O tempo e o vento

  O continente

  BIBLIOTECA PBLICA DO PARAN
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  Edio integral

  Copyright (c) 1978 Mafalda Volpe Verssimo, Clarissa Verssimo
  Jaffe e Luis Fernando Verssimo

  Capa: Ana Suely Dobon

  Licena editorial para o Crculo do Livro por cortesia da Editora
Globo S.A. mediante acordo com os herdeiros
  Venda permitida apenas aos scios do Crculo
  Composio. Crculo do Livro Impresso c acabamento: Grfica Crculo
  ISBN 85-332-0788-3
  2468 10 97531
  95 97 98 96

  Uma gerao vai, e outra gerao vem; porm a terra para sempre
permanece. E nasce o sol, e pe-se o sol, e volta ao seu lugar donde
nasceu. O vento vai para o  sul, e faz o seu giro para o norte;
continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos.
  ECLESIASTES - I, 4, 5, 6.

  Sumrio

  O Sobrado - I 9
  A fonte 35
  O Sobrado - II 93
  Ana Terra 101
  O Sobrado - III 209
  Um certo capito Rodrigo 223
  O Sobrado - IV 409
  A teiniagu 421
  O Sobrado - V 597
  A guerra 609
  O Sobrado - VI 699
  Ismlia Car 713
  O Sobrado - VII 843

  O Sobrado - I

  Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade
de Santa F, que de to quieta e deserta parecia um cemitrio
abandonado. Era tanto o silncio  e to leve o ar, que se algum
aguasse o ouvido talvez pudesse at escutar o sereno na solido.
  Agachado atrs dum muro, Jos Lrio preparava-se para a ltima
corrida. Quantos passos dali at a igreja? Talvez uns dez ou doze, bem
puxados. Recebera ordens  para revezar o companheiro que estava de vigia
no alto duma das torres da Matriz. "Tenente Liroca - dissera-lhe o
coronel, havia poucos minutos - suba pr alto do  campanrio e fique de
olho firme no quintal do Sobrado. Se algum aparecer pra tirar gua do
poo, faa fogo sem piedade."
  Jos Lrio olhava a rua. Dez passos at a igreja. Mas quantos passos
at a morte? Talvez cinco... ou dois. Havia um atirador infernal na
gua-furtada do Sobrado,   espreita dos imprudentes que se aventurassem
a cruzar a praa ou alguma rua a descoberto.
  Os segundos passavam. Era preciso cumprir a ordem. Liroca no queria
que ningum percebesse que ele hesitava, que era um covarde. Sim,
covarde. Podia enganar os  outros, mas no conseguia iludir-se a si
mesmo. Estava metido naquela revoluo porque era federalista e tinha
vergonha na cara. Mas no se habituava nunca ao perigo.  Sentira medo
desde o primeiro dia, desde a primeira hora - um medo que lhe vinha de
baixo, das tripas, e lhe subia pelo estmago at a goela, como uma
geada, amolecendo-lhe  as pernas, os braos, a vontade. Medo  doena;
medo  febre.
  Engraado. A noite estava fria mas o suor escorria-lhe pela cara
barbuda e entrava-lhe na boca, com gosto de salmoura.
  O tiroteio cessara ao entardecer. Talvez a munio da gente do Sobrado
tivesse acabado. Ele podia atravessar a rua devagarinho, assobiando e
acendendo um cigarro.  Seria at uma provocao bonita. Vamos, Liroca,
honra o leno encarnado. Mas qual! L estava aquela sensao fria de
vazio e enjo na boca do estmago, o minuano  gelado nos midos.
  Donde lhe vinha tanto medo? Decerto do sangue da me, pois as gentes
do lado paterno eram corajosas. O av de Liroca fora um bravo em 35. O
pai lhe morrera naquela  mesma revoluo, havia pouco mais dum ano -
tombara estripado numa carga de lana, mas lutando at o ltimo momento.
  "Lrio  macho" - murmurou Liroca para si mesmo. "Lrio  macho."
Sempre que ia entrar num combate, repetia estas palavras: "Lrio 
macho".
  Levantou-se devagarinho, apertando a carabina com ambas as mos.
Sentia o corpo dorido, a garganta seca. Tornou a olhar para a igreja.
Dez passos. Podia percorr-los  nuns cinco segundos, quando muito. Era
s um upa e estava tudo terminado. Fez avanar cautelosamente a cabea
e, com a quina do muro a tocar-lhe o meio da testa  e a ponta do nariz,
fechou o olho direito e com o esquerdo ficou espiando o Sobrado que l
estava, do outro lado da praa, com sua fachada branca, a dupla fileira
de janelas, a sacada de ferro e os altos muros de fortaleza. Havia no
casaro algo de terrivelmente humano, que fez o corao de Jos Lrio
pulsar com mais fora.
  Os federalistas tinham tomado a cidade havia quase uma semana, mas
Licurgo Cambar, o intendente e chefe poltico republicano do municpio,
encastelara-se em sua  casa com toda a famlia e um grupo de
correligionrios, e de l ainda oferecia resistncia. Enquanto o Sobrado
no capitulasse, os revolucionrios no poderiam considerar-se  senhores
de Santa F, pois os atiradores da gua-furtada praticamente dominavam a
praa e as ruas em derredor.
  Por alguns instantes Jos Lrio ficou a mirar a fachada do casaro, e
de repente a lembrana de que Maria Valria estava l dentro lhe varou o
peito como um pontao  de lana. Soltou um suspiro fundo e entrecortado,
que foi quase um soluo. De novo
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  se encolheu atrs do muro e tornou a olhar para a igreja. Se
conseguisse chegar a salvo at a parede lateral, ficaria fora do alcance
do atirador do Sobrado, e  poderia entrar no campanrio pela porta da
sacristia.
  Vamos, Liroca, s uma corrida. Que te pode acontecer? O homem te
enxerga, faz pontaria, atira e acerta. Uma bala na cabea. Pronto! Cais
de cara no cho e est  tudo liqidado. Acaba-se a agonia. Dizem que
quando a bala entra no corpo da gente, no primeiro momento no di.
Depois  que vem a ardncia, como se ela fosse de  ferro em brasa. Mas
quando o ferimento  mortal no se sente nada. O pior  arma branca.
Vamos, Liroca. Dez passos. Cinco segundos. Lrio  macho, Lrio  
  macho.
  Jos Lrio continuava imvel, olhando a rua. Ainda ontem um
companheiro seu ousara atravessar aquele trecho  luz do dia, num
momento em que o tiroteio cessara.  Ia cantando e fanfarronando. Viu-se
de repente na gua-furtada do Sobrado um claro acompanhado dum
estampido, e o homem tombou. O sangue comeou a borbotar-lhe  do peito e
a empapar a terra.
  "Vamos, menino!" Quem falava agora nos pensamentos de Liroca era seu
pai, o velho Maneco Lrio. Sua voz spera como lixa vinha de longe, de
um certo dia da infncia  em que Liroca faltara  escola e ao chegar a
casa encontrara o pai atrs da porta com um rebenque na mo. "Agora tu
me pagas, salafrrio!" Liroca sara a correr  como um doido na direo
do fundo do quintal. "Espera, poltro!" E de repente o que o velho
Maneco tinha nas mos no era mais o chicote, e sim as prprias
vsceras,  que lhe escorriam moles e visguentas da ferida do ventre.
"Vamos, covarde!"
  De sbito, como tomado dum demnio, Liroca ergueu-se, apertou a
carabina contra o peito e deitou a correr na direo da igreja. Seus
passos soaram fofos na terra.  Deu cinco passadas e a meio caminho, sem
olhar para o Sobrado, numa voz frentica de quem pede socorro, gritou:
"Pica-paus do inferno! Sou homem!" Continuou a correr  e ao chegar ao
ponto morto atrs da parede lateral da igreja, rojou-se ao solo e ali
ficou, arquejante, com o peito colado  terra, o corao a bater
acelerado,  e sentindo entrarlhe na boca e nas narinas talos de grama
mida de sereno. "A Ia
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  fresca!" - murmurou ele. "A Ia fresca!" Estava inteiro, estava salvo.
Fechou os olhos e deixou-se quedar onde estava, babujando a terra com
sua saliva grossa,  a garganta a arder, e o corpo todo amolentado por
uma fraqueza que lhe dava um trmulo desejo de chorar. Da sombra que a
igreja projetava no cho saiu uma voz:
  - Eta Liroca velho de guerra!
  Num sobressalto Jos Lrio soergueu a cabea.
  - Quem  l? - perguntou.
  - Sou eu.
  - Eu quem?
  - O Inocncio.
  - Ah!
  Olhou melhor. Contra a parede lateral da igreja comeou a distinguir o
vulto dum homem,  altura de cujo rosto lucilava a brasa do cigarro.
Liroca foi se erguendo  lentamente, enquanto o outro ria baixinho um
riso gutural e encatarroado.
  - Pra que toda essa figurao?
  - Que figurao?
  - Essa corrida boba.
  - Ora. . . o Sobrado.
  - Qual! Acho que a munio deles acabou.
  -  bom no confiar muito.
  Liroca sentou-se no cho e recostou-se na parede da igreja.
  - Um trago? - perguntou o outro, passando-lhe a garrafa de cachaa.
  Liroca apanhou-a, levou-a  boca e tomou um gole largo. Era bom
estarem no escuro - refletiu - pois assim o Inocncio no lhe veria o
tremor das mos.
  - Gracias.
  - Tome outro.
  - No. O coronel me mandou te render na torre.
  - Eu sei. Mas tem tempo. Eles pensam que ainda estou l em cima. Vamos
prosear um pouco.  o diabo a gente passar uma tarde inteira sozinho sem
ter viva alma com  quem conversar.
  - Ningum saiu pr quintal?
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  - Ningum.
  - Ningum apareceu nas janelas?
  - No.
  - Que ser que aconteceu? Inocncio encolheu os ombros.
  - Acho que eles esto nas ltimas. Liroca soltou um suspiro.
  - Ns  que estamos nas ltimas.
  O outro ficou um instante em silncio, batendo a pedra do isqueiro
para acender o cigarro que se apagara.
  - Quem sabe?
  - No tem mais jeito. Qualquer dia temos que nos bandear pr outro
lado do Uruguai.
  Um grilo comeou a cricrilar perto. Liroca tirou um toco de cigarro de
trs da orelha, prendeu-o entre os dentes e, esquecido de acend-lo,
ficou olhando para  o cu.
  - Tomara que acabe duma vez esta revoluo - suspirou.
  - Por qu?
  - Estou cansado de andar barbudo, piolhento, dormindo na chuva,
acordando com geada na cara. Cansado de... - Calou-se de sbito.
  - Mas  a guerra, Liroca.
  Animado pela cachaa, que lhe dera um calor bom, Liroca continuou:
  - Vivo com o estmago embrulhado. O cheiro de sangue e de defunto no
me sai das ventas. Sinto-o na gua, na comida, na mo, no vento, em
tudo.
  -  a guerra... - repetiu o outro.
  - Mas  triste.
  - Triste so os nossos companheiros degolados. Triste  o Gumercindo
Saraiva morto.
  Liroca tomou a colocar o toco de cigarro atrs da orelha. Estava mais
calmo. A presena do companheiro lhe dava um certo conforto.
  - Depois que o Gumercindo morreu 
  tudo piorou. Ergueu-se com alguma relutncia e apanhou a carabina.
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  - Bom, tenho de ir andando... - disse, sem nenhuma vontade de subir
para seu posto.
  O outro troou:
  - Tome mais um mate, compadre... Liroca tornou a suspirar:
  - Muito mate tomei eu naquela casa.
  - No Sobrado? 
  - Casa de pica-pau...
  - Os Cambars so gente direita.
  - Inimigo  inimigo. O chefe deles  quem diz: "Inimigo no se poupa".
  - O Licurgo  um bom homem.
  - Todos eles so uns anjos. - Inocncio deu uma palmada na coronha da
arma. - Mas pergunta pra minha Comblain se ela gosta de caar anjo.
  Levantou-se tambm.
  - Bom, Liroca, seja feliz. E d lembranas pr cala-branca.
  - Que cala-branca?
  - O pica-pau que a noite passada se atreveu a sair do Sobrado e ir at
o poo buscar gua. O Bibilo estava na torre da igreja, viu aquela coisa
esbranquiada,  dormiu na pontaria e... pei! O bichinho testavilhou e
caiu de bruos em cima da tampa do poo.
  - Ficou l?
  - Ficou. De rabo pr ar. Est apodrecendo nessa posio. D lembranas
pra ele.
  Liroca estava chocado. Com morto no se brinca - achava ele. At mesmo
um republicano depois de morto deixa de ser um inimigo para ser apenas
um defunto. E h  qualquer coisa de sagrado nos defuntos.
  - Olha aqui, Liroca - murmurou Inocncio, aproximando-se do companheiro
e soltando-lhe na cara o hlito de cachaa. - Tu vais ver como l em
cima da torre, sozinho,  a gente fica com uma vontade danada de tocar
sino. Sabes que noite  hoje?
  - No.
  - Noite de So Joo.
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  -  mesmo?
  - . A noite mais comprida do ano. Toca sino, Liroca. A vila est que
nem tapera. Anima a rapaziada, Liroca. Toca sino!  So Joo.
  Jos Lrio no disse palavra. O outro fez meia-volta, deu alguns
passos e, ao chegar  quina da igreja, voltou a cabea para trs e
disse:
  - Agora v s como  que procede um maragato de vergonha. Ps a
carabina a tiracolo e comeou a atravessar a rua a passo
  calmo, como se estivesse acompanhando um enterro. No meio do caminho
parou, bateu o isqueiro, tornou a acender o cigarro, tirou uma baforada
e depois seguiu pachorrentamente  seu caminho, desaparecendo por entre
as rvores e as sombras da praa.
  Dentro da igreja uma penumbra leitosa azulava o ar. Ao p do altar-mor
tremeluzia a chama duma lamparina. Nos seus nichos as imagens dos santos
pareciam guerreiros  entocaiados, dormindo na pontaria. Liroca comeou a
andar pelo corredor, entre as duas carreiras de bancos. Levava a
Comblain debaixo do poncho, como se quisesse  escond-la aos olhos de
Nossa Senhora da Conceio, padroeira da cidade; caminhava encolhido, na
ponta dos ps, olhando com o rabo dos olhos para os vultos dos santos,
e com a desagradvel impresso de que a qualquer momento ia ser baleado.
De sbito percebeu que estava de chapu na cabea. A Ia fresca! Deus me
perdoe! Descobriu-se,  rpido.
  Entrou no batistrio, levou instintivamente a mo  pia 
  e fez o sinal-da-cruz. Ali ficava a escada que levava ao alto da
torre. Liroca comeou a subir os degraus devagarinho, e ao chegar ao
campanrio foi de novo envolvido  pelo ar frio da noite. Tornou a botar
o chapu, aproximou-se de gatinhas do parapeito e espiou atravs duma
das seteiras. Sentiu um aperto no corao: o Sobrado  se achava agora
to perto, que se por um milagre Maria Valria aparecesse  janela da
gua-furtada os dois poderiam ficar conversando sem precisarem altear
muito  a voz. Mas qual! Agora estava tudo perdido. O destino malvado o
separara talvez para sempre da criatura que ele mais amava no mundo.
 Maria Valria
  simplesmente no simpatizava com ele, de agora em diante passaria a
odi-lo, pois nunca mais haveria de esquecer que Jos Lrio fora um dos
sitiantes do Sobrado  - era um maragato, um inimigo.
  Com o olhar entre triste e assustado, o nariz franzido como que a
farejar mau cheiro, Liroca mirou longamente os cadveres de dois
companheiros que estavam estendidos  no meio da rua,  frente da casa
sitiada. Tinham cado durante um dos primeiros assaltos e at agora
ningum quisera correr o risco de vir buscar-lhes os corpos.
  De repente Liroca teve a sensao de que havia algum mais, ali no
campanrio. Tomado dum vago mal-estar, ergueu a cabea e viu o sino.
Desde menino habituara-se  a considerar aquele sino como uma pessoa to
viva como o vigrio ou o sacristo. Quando ele badalava festivo parecia
dizer - piro sem sal! piro sem sal! Mas Liroca  no podia esquecer que
aquele mesmo sino dobrara a finados no dia do enterro de sua me. Era
por isso que desde ento passara a ligar suas badaladas  idia de
morte.  Muitas vezes pensava assim: "Quando o meu caixo estiver saindo
da igreja esse desgraado vai ficar tocando".
  Agora ali estava o velho sino, calado e imvel, com a sua boca de
monstro muito preta e aberta. Mas... se de repente ele comeasse a
tocar? Essa possibilidade  encheu Liroca dum apagado terror. Na solido
daquela noite seria uma coisa para deixar qualquer cristo fora do
juzo.
  Remexeu-se num desconforto, apoiou o cano da carabina na seteira e
ficou olhando a fachada do Sobrado. Era o diabo. Agora tinha um inimigo
pela frente e outro  suspenso sobre a cabea. Talvez o mais garantido
fosse iar a corda, a fim de evitar que algum gaiato l embaixo puxasse
nela. Sim,  o que eu vou fazer - decidiu.  Mas no fez. Ficou onde
estava, sentindo no rosto a frialdade da pedra do parapeito, e olhando
para o quintal.
  A ordem era clara: se algum viesse buscar gua no poo, ele devia
fazer fogo. gua... gua pra Maria Valria. gua prs sitiados. gua pra
dona Alice. gua prs  meninos. gua pra velha Bibiana. O pior de tudo
era haver mulheres e crianas dentro do casaro. No princpio do cerco o
chefe federalista tinha erguido uma ban-
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  deira branca e mandado o padre Romano propor a Licurgo Cambar que
fizesse as mulheres e as crianas se refugiarem na casa paroquial, com
todas as garantias de  vida e de respeito por parte dos revolucionrios.
Mas Cambar dera uma resposta seca: "O lugar da minha famlia  no
Sobrado. Daqui no sai ningum. No aceito favor  de maragato". O padre
voltou acabrunhado com a resposta. "Sua alma, sua palma" - disse o chefe
federalista. E o tiroteio recomeou.
  Liroca tirou o toco de cigarro de trs da orelha, bateu a pedra do
isqueiro e, tendo o cuidado de esconder no cncavo da mo a brasa do
pavio, acendeu-o. Ficou  pitando 
  numa relativa calma, achando gostosa a ardncia da fumaa nos olhos.
Aquele cheiro de cigarro de palha trazia-lhe  memria recordaes
agradveis: os seres do  Sobrado nas noites de inverno, mate chimarro
com pinho quente, conversas amigas, caf fumegante com bolos de
coalhada...
  Liroca lembrava-se duma noite de minuano em que as vidraas do casaro
matraqueavam e uma negra velha tinha trazido da cozinha uma lata cheia
de brasas. Licurgo  tirara do bolso um pedao de fumo em rama e lhe
dissera com sua voz grave e calma:
  - Experimente deste, Liroca.  forte e de bom paladar. Dona Alice
aparecera depois com uma biscoiteira cheia de
  ps-de-moleque:
  - Coma um, seu Liroca. Fui eu mesma que fiz.
  Sua ltima visita ao Sobrado tinha sido em princpios de 1893. Depois
a poltica azedara tudo: amigos comearam a cortar o cumprimento uns aos
outros, irmos se  estranhavam, famlias se dividiam... Por fim
rebentara a revoluo.
  Liroca estava cansado. Mais de dois anos de guerra civil no era
nenhuma brincadeira. Que estara acontecendo dentro do Sobrado? Dona
Alice, grvida de nove meses,  podia ter o filho a qualquer momento... E
se a criana nascesse bem na hora dum tiroteio? Mundo louco, guerra
louca! Liroca pensava tambm em dona Bibiana - pobre  da velha! - metida
l no casaro, meio gatacega e caduca, decerto sem saber direito o que
se estava 
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  passando. Atirar contra o Sobrado era o mesmo que atirar contra a
velhinha. Barbaridade!
  Soltou um suspiro que parecia ter sado no s do fundo de seu peito,
mas tambm do fundo do peito dos mortos da revoluo, e das profundas da
prpria terra que  comera a carne dos mortos daquela e de todas as
outras guerras - um suspiro sacudido e prolongado, doloroso como um
gemido.
  Eta mundo velho sem porteira! - murmurou Liroca, com a testa apoiada
no parapeito e os olhos postos no quintal. Ficou alarmado: a voz que lhe
sara da boca no  era a sua. Era a voz de seu pai. Naquele momento
Liroca era o prprio Maneco Lrio, tinha sessenta anos e no trinta. O
velho sempre dizia aquela frase quando alguma  coisa absurda ou triste
acontecia. Era a sua maneira de protestar contra um mundo sem coerncia,
sem bondade, sem justia e sem Deus.
  Contava-se que quando cara do cavalo, na carga de lana, ainda tivera
foras para se erguer. Caminhara cambaleante na direo dum companheiro,
com ambas as mos  a segurar os intestinos que se lhe escapavam pelo
talho de lana, e com voz estertorosa dissera: "Mundo velho sem
porteira!" E cara de borco.
  Liroca viu um vulto mover-se no quintal. O corao comeou a bater-lhe
descompassado. No havia dvida: era um homem, ia rastejando como um
jacar, confundia-se  no cho com as sombras das rvores, mas movia-se
sempre na direo do poo. Liroca sentiu o sangue pulsar-lhe com fora
nas tmporas. O toco de cigarro colou-se-lhe  ao lbio inferior. Agarrou
a carabina e levou o dedo ao gatilho. O suor escorria-lhe pela testa e a
respirao escapava-lhe pela boca entreaberta num resfolegar  de
cachorro cansado.
  Atiro? Inimigo no se poupa. Vai buscar gua. gua pra Maria Valria.
gua pra velhinha. Vamos. Faz pontaria enquanto  tempo. Est se
erguendo... est fazendo  descer o balde. Devagarinho, devagarinho,
decerto pensa que no estou vendo... Est agora por trs do
cala-branca. Pontaria, Liroca. Lrio  macho. Vamos. Mete  bala.  um
pica-pau. gua prs meninos. Mas eles mataram o meu pai. Depressa
enquanto ele no vai embora. Um tiro s pra assustar. Isso! Sem mirar.
S para espantar.
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  Ergueu a ala de mira na direo da copa das rvores do quintal e
puxou o gatilho. O claro - o estampido - o coice da arma... Depois um
silncio de alguns segundos.  Liroca olhava o quintal mas no via nada:
tinha uma nuvem diante dos olhos. De sbito, da gua-furtada do Sobrado
partiu um tiro e, ferido de bala, o sino soltou  um gemido, que Liroca
sentiu no corpo inteiro com a fora dum choque eltrico.
  O som do sino chega aos ouvidos de Licurgo Cambar como um dobre de
finados. Pela fresta duma das janelas do Sobrado ele espia o campanrio.
O maragato que ontem  l estava entocaiado matou-lhe um dos melhores
homens. Agora outro companheiro saiu a buscar gua, e  indispensvel 
  que volte a salvo, com o balde cheio, pois  mais fcil suportar a
fome que a sede. No h mais nenhum pingo d'gua dentro de casa e a
cachaa acabou-se tambm.  Felizmente as laranjeiras do pomar esto
carregadas, e no  difcil nem arriscado apanhar laranjas dos galhos
que ficam prximos s janelas dos fundos. Os homens  enganam o estmago
com pequenas raes de charque, farinha de mandioca e rapadura; matam a
sede com caldo de laranja. O pior de tudo  a falta de leite e po para
as mulheres e os meninos.
  Ao pensar nisto Licurgo odeia os sitiantes com um dio apaixonado, e
odeia-se a si mesmo por envolver tambm nesse dio o sogro e a cunhada
que esto com ele ali  no Sobrado e vivem a lanar-lhe olhares
carregados de censura e ressentimento.
  Mas ser que ele, Licurgo, tem culpa do que aconteceu? Nunca imaginou
que as coisas pudessem chegar a este ponto. Do contrrio teria preparado
o Sobrado para o  cerco, armazenado mantimentos para um ms, para dois,
para quanto tempo fosse necessrio. A verdade  que no contava com
aquele ataque sbito dos federalistas a  Santa F, e muito menos com o
curso, desastroso para os republicanos, que tomara o combate pela posse
da cidade. Vira-se de repente quase cercado, ali na praa,  e na
contingncia de retirar-se s pressas para o Sobrado, com os poucos
companheiros que lhe restavam, fechar as portas e resistir. Felizmente
tinham munio em  quantidade suficiente para se defenderem por mais
alguns dias, se no desperdiassem tiro. No incio os ataques tinham
sido ferozes.  19
   Por vrias vezes nos primeiros dois dias do cerco os inimigos
tinham tentado tomar o casaro de assalto, mas haviam sido repelidos com
tantas perdas, que  acabaram desistindo. Miserveis! No tinham tido
coragem nem de vir buscar seus mortos. E desviando agora os olhos da
torre - onde no vislumbra nenhum vulto huLicurgo  olha para os dois
cadveres que esto estendidos
  mano
  h vrios dias ali no meio da rua, a uns oito metros do Sobrado.
Felizmente agora a noite esconde-lhes as feies decompostas, mas 
horrvel v-los  luz do dia,  cobertos de moscas. Quando o vento sopra
de oeste, o cheiro ptrido que emana deles entra no casaro, por todas
as frestas, empestando o ar. Licurgo tem mpetos  de abrir a janela
central, avanar at o gradil da sacada e bradar:
  - Venham retirar essa cachorrada morta! No tenham medo, que ns no
atiramos!
  Noutros momentos em que seu dio no ferve to quente, ele pensa em
acenar com um lenol e mandar um emissrio ao inimigo, oferecendo-lhe
uma trgua para que venham  recolher os mortos.  desagradvel ver esses
cristos insepultos, entregues s moscas ou ento  merc dos cachorros
vadios que s vezes vm cheir-los e lamber-lhes  as caras.
  Por que morreram? Pelo seu partido, pelas suas idias- est tudo
muito bem. Lutaram como homens. Mas acontece que sua morte foi intil,
agora que a revoluo  se aproxima do fim e os federalistas esto
perdidos. H coisa duma semana um emissrio vindo de Cruz Alta lhe
trouxe a notcia de que as foras de Joo Francisco  estavam marchando
para atacar as do almirante Saldanha da Gama, l para as bandas de
Alegrete. Ser provavelmente a batalha decisiva da campanha, o golpe de
misericrdia  nos federalistas. Muitos chefes maragatos j emigraram
para a Banda Oriental. No entanto o coronel Alvarino Amaral insiste em
sacrificar vidas neste cerco absurdo,  por puro orgulho e pelo dio que
tem a ele, Licurgo Cambar, seu adversrio poltico e inimigo pessoal de
tantos anos. Pouco antes da revoluo o canalha dissera  numa roda de
correligionrios: "Um dia ainda hei de entrar no Sobrado de chapu na
cabea e fazer o Cambar me beijar a mo". Licurgo no enxerga mais a
rua nem  os mortos nem a noite: s v em seus pensamentos
  20
  Alvarino Amaral metido num pala de seda, com o chapu de aba quebrada
na frente, o rebenque arrogante erguido no ar, o leno encarnado no
pescoo... Ouve-lhe a  voz gorda e fanfarrona: "Gaspar Silveira Martins
 o maior homem do Brasil. Quando ele fala, os republicanos ficam de
perna frouxa!"
  Licurgo lana o olhar na direo da Intendncia, que fica do outro
lado da praa. Os maragatos tomaram conta dela e apossaram-se de todas
as casas da cidade; mas  nem assim podem dizer que so senhores de Santa
F, pois s entram e saem do pao municipal pelas portas dos fundos, e
no se atrevem a cruzar a praa nem as ruas  que ficam ao alcance das 
  balas do Sobrado.
  Licurgo respira fundo, com um feroz sentimento de orgulho. De certo
modo ele ainda governa Santa F! Maragato algum jamais botar o p no
Sobrado, nem como inimigo  nem como amigo; nem agora nem nunca!
  Tira do bolso uma palha de milho, enrola-a  maneira de cigarro,
acende-lhe a ponta e leva-a aos lbios. Como no h mais nenhum pedao
de fumo em casa, para aliviar  a vontade de fumar ele pita apenas a
palha.
  Rudo de passos. Licurgo volta-se e, na penumbra do patamar, distingue
o vulto da cunhada.
  - Acho que a criana vai nascer esta madrugada - murmura Maria
Valria.
  Fica ali imvel, muito alta e tesa, enrolada num xale escuro, com as
mos tranadas sobre o estmago. Por alguns instantes Licurgo permanece
calado. Nada mais  pode dizer seno repetir o que vem dizendo h quase
uma semana com uma obstinao que s vezes se transforma em fria:
acontea o que acontecer no pedir trgua.
  Maria Valria torna a falar:
  - Acho que o senhor devia mandar buscar recursos.
  Sua voz  firme e seca. E apesar de no lhe divisar bem os olhos na
semi-obscuridade, Licurgo no tem coragem de encar-la.
  - Recursos? Que recursos? - pergunta ele, olhando para o soalho.
  21
  - O dr. Winter est na cidade e pode vir com remdios. Mande um homem
buscar ele.
  - No tem jeito.
  - Tem, sim.
  - Qual ?
  - Pea trgua. Diga que sua mulher vai ter um filho. Os maragatos
compreendem.
  - Os maragatos so uns cobardes. A resposta vem rpida e rascante:
  - No so. O senhor sabe que no so.
  Licurgo fecha-se num silncio soturno. A cunhada prossegue:
  - O senhor sabe que eles so to bons e to valentes como os
republicanos.  a mesma gente, s que com idias diferentes.
  - Que  que a senhora entende de idias? - vocifera Licurgo. Maria
Valria continua imvel.
  - No  preciso gritar. O senhor faz todo esse barulho porque no fundo
sabe que no est procedendo direito.
  Licurgo tira a palha da boca e amassa-a entre os dedos.
  - Isto no  negcio de mulher.  de macho. Maria Valria abranda um
pouco a voz:
  - Deus fez o mundo errado. Eu queria que os homens tivessem filho pelo
menos uma vez na vida, s pra verem como no  fcil.
  Ele tem vontade de gritar: "Que  que uma solteirona entende de ter
filhos?" Mas permanece calado.
  - Ter filhos  que  negcio de mulher, eu sei - continua Maria
Valria. - Criar filhos  negcio de mulher. Cuidar da casa  negcio de
mulher. Sofrer calada   negcio de mulher. Pois fique sabendo que esta
revoluo tambm  negcio de mulher. Ns tambm estamos defendendo o
Sobrado. Alguma de ns j se queixou? Alguma  j lhe disse que passa o
dia com dor no estmago, como quem comeu pedra, e pedra salgada? Alguma
j lhe pediu pra entregar o Sobrado? No. No pediu. Elas tambm  esto
na guerra.
  Licurgo faz um gesto de impacincia.
  22
  - Est bem, prima. Est bem. Mas tudo  uma questo de dias ou de
horas. Os federalistas esto perdidos. Amanh a cidade pode amanhecer
livre.
  - E a Alice pode amanhecer morta. Ela ou o filho. Ou os dois.
  - Ou todos ns - diz Licurgo com voz apertada de rancor.
  - Ou todos ns - repete Maria Valria.
  Faz uma lenta meia-volta e sem dizer mais nada comea a descer a
escada.
  Licurgo encaminha-se para o quarto de dormir. Uma lamparina de azeite
est acesa junto da grande cama de casal, onde Alice se acha estendida,
debaixo de grossos  cobertores de l, muito plida, os olhos cerrados,
os cabelos negros soltos sobre o travesseiro. A fumaa que sobe do prato
de ferro ao p do leito, e no qual ardem  pedrinhas de incenso e
benjoim, d ao ar um cheiro de igreja, que Licurgo sempre associa 
idia de doena e morte. Sentada  cabeceira do leito, a mulata Laurinda
segura a mo de Alice. Quando Licurgo entra, a criada ergue os olhos
para ele, franze a testa numa expresso interrogativa, mas no diz
palavra.
  Se ao menos a gente pudesse abrir uma dessas janelas - pensa Licurgo -
e deixar entrar um pouco de ar! Olha em torno do quarto. O lavatrio com
o espelho oval,  o jarro e a bacia de loua clara; o guarda-roupa
escuro e pesado; o crucifixo 
  de jacarand com o Cristo de prata; o velho ba a um canto - tudo est
como que esfumado na cerrao azulada do ambiente, que a luz da
lamparina mal alumia.
  Licurgo aproxima-se da cama na ponta dos ps e fica a contemplar a
salincia do ventre de Alice, sob os cobertores, e num dado momento
julga perceber nela um movimento  de onda, uma palpitao de vida: a
criana a espernear. Ou ter sido iluso?
  Coitadinho! Vai nascer em tempo de guerra, talvez na hora dum
tiroteio. Se for um homem, no haver momento mais propcio. Mas Licurgo
deseja uma filha. Se ela  nascer de madrugada, h de se chamar Aurora.
Aurora Cambar. Um dia algum dir: "Nasceu numa noite fria de junho,
quando o Sobrado estava cercado pelos federalistas.  Quando o dia
clareou, as tropas republicanas
  23
  libertaram Santa F". Licurgo imagina-se com a filha nos braos,
sente-lhe at o cheiro de leite e cueiros molhados. A revoluo
terminou, as janelas do Sobrado  esto escancaradas e l fora 
primavera. Aurora... Uma linda menina.
  A comoo sobe-lhe do peito  garganta, como uma onda quente e
sufocante, e ele tem de fazer um grande esforo para reprimir as
lgrimas. Um homem bem macho no  chora nunca, haja o que houver. Choro
 coisa de mulher. A ltima vez que chorou tinha dezessete anos; foi
quando viu a me finar-se aos poucos em cima duma cama,  consumida por
um tumor maligno.
  E neste instante Licurgo torna a ouvir mentalmente os sons duma valsa
remota, tocada numa ctara por dedos magros e plidos - os dedos de sua
me. E de novo, por  um rpido instante, sente-se menino; torna a
voltar-lhe aquela esquisita impresso, misto de medo, curiosidade e
estranheza que ele sempre sentia na presena da  me. Seus olhos agora
esto fitos no espelho oval, mas o que ele v  apenas o mrmore duma
sepultura:
  Aqui jaz LUZIA SILVA CAMBAR
  1833-1872 Paz  sua alma!
  Alice sacode a cabea dum lado para o outro, solta um dbil gemido,
seu rosto se contorce, os dedos se crispam sobre o cobertor. A mulata
Laurinda torna a erguer  os olhos para o patro e fica  espera de que
este diga ou faa alguma coisa. Licurgo tem vontade de sentar-se na
beira da cama, acariciar a testa da mulher, beijar-lhe  as faces ou
ento deixar a mo pousar-lhe por um instante sobre o ventre, para
sentir os movimentos da filha. Outra vez as vozes do futuro em seus
pensamentos. "Nasceu  numa madrugada de junho de 1895. Uma moa guapa.
Os olhos so dos Terras, mas o gnio  dos Cambars." Beijar a testa de
Alice, dizer-lhe alguma coisa ao ouvido,  pedir-lhe perdo... Licurgo,
porm, continua de p e imvel, tolhido por um constrangimento
invencvel. H gestos que nunca fez e agora  tarde para comear.
  24
  De repente, voltando a cabea, v a prpria imagem refletida
foscamente no espelho do lavatrio, mas logo desvia os olhos dela, como
se a temesse. Deve estar envelhecido  e desfigurado. H dois dias
mirou-se por acaso naquele mesmo espelho e viu, horrorizado, que seus
olhos tinham uma turva expresso de dio, um desejo de matar.
Compreendeu  que era um homem que a guerra endurecera, que sentia a
piedade desaparecer-lhe da alma. Teve vontade de quebrar o vidro com os
punhos.
  Faz meia-volta e com passos lentos sai do quarto e desce para o andar
inferior. Na escada uma sensao de frio toma-lhe conta do corpo.
Calafrio de febre? Ou ser  a temperatura da casa? Melhor  ir para
junto do fogo, na cozinha. Entra na sala de jantar, que est s escuras.
Perto de cada janela acha-se postado um homem, agarrado   sua Comblain.
H uma sentinela na gua-furtada, e oucra junto duma janela 
  dos fundos. Ao menor movimento suspeito daro o alarma. Apesar de
todos os pesares - reflete Licurgo - s um de seus homens recebeu um
ferimento grave: o Tinoco,  que est deitado na despensa, com um balzio
na perna. A princpio a coisa parecia sem importncia, mas o ferimento
apostemou e tudo indica que o pobre homem est  com o pasmo. Dois ou
trs dos outros companheiros receberam ferimentos leves. Sim, e h
tambm o pobre do Adauto que l est cado de borco sobre a tampa do
poo.   preciso mandar enterr-lo...
  - Onde est o seu Florncio? - pergunta Licurgo, parando no meio da
sala. Ouve-se ento uma voz calma e cansada:
  - Estou aqui, Licurgo.
  Aos poucos os mveis e os vultos da sala se vo delineando mais
nitidamente aos olhos de Licurgo j habituados  penumbra. Ele caminha
na direo do sogro, e diz  em voz baixa:
  - A cousa parece que  pra esta madrugada.
  - Que cousa?
  - O nascimento da criana.
  - A Maria Valria j me tinha dito.
  Silncio. Florncio pigarreia. O genro sabe quanta falta ele sente do
cigarro e do chimarro. Mas no diz nada, nunca se queixa, e esse
discreto silncio  o que  mais irrita Licurgo.
  25
  - Ento?
  - Ento o qu?
  No tom de voz do velho h um mal disfarado ressentimento.
  - Que  que se faz?
  - Vossunc  o dono da casa...
  - Mas o senhor  o pai de Alice.  o mais velho de todos ns. Me diga
com toda a sinceridade: acha que estou procedendo mal?
  O velho tosse, por puro embarao. Mas responde com calma:
  - Que importa o que eu penso? Vossunc sempre faz o que entende. Sou
um homem ignorante mas conheo bem as pessoas. Tenho visto muita coisa
nesta vida. Acho que  vaosunc pode estar procedendo bem como chefe
poltico, mas est procedendo mal como chefe de famlia.
  - Cada qual sabe muito bem onde lhe aperta a bota.
  A sua aperta no amor-prprio - pensa o velho. Mas cala.
  Da cozinha vem o zunzum das vozes dos homens que conversam ao p do
fogo. Agora o velho Florncio Terra fala num tom conciliador, quase
paternal:
  - Olhe, Licurgo, vossunc tem s quarenta anos. Eu tenho quase
sessenta e cinco. J vi outras guerras. Tudo isso passa. A revoluo
termina, os federalistas e  os republicanos ficam alguns meses ou anos
um pouco estranhos, mas o tempo tem muita fora. Um dia se encontram,
fazem as pazes, esquecem tudo. Todos so irmos.  Mas a vida duma mulher
ou duma criana  coisa muito mais importante que qualquer dio
poltico.
  A porta da cozinha abre-se de repente.
  -- Logrei os maragatos! - grita uma voz meio rouca, num tom de
triunfo. - Trouxe o balde cheio d'gua.
  Licurgo precipita-se para a cozinha e aproxima-se do homem que acaba
de chegar.  o velho Fandango. Pe o balde no cho, a seus ps, e fica a
danar de alegria,  atirando braos e pernas para o ar. Alguns
companheiros o cercam em silncio; Licurgo sabe o que eles querem.
  26
  - Bem - diz - a gua tem de ser dividida irmmente entre todos.
Primeiro as crianas e as mulheres. Depois vamos ver quanto toca pra
cada um de ns.
  Maria Valria surge da sombra da sala de jantar e entra na zona
luminescente criada pelo reflexo do fogo.
  - No toca nada - diz ela, brusca, tomando o balde. - A criana vai
nascer esta madrugada e eu preciso de muita gua quente.
  Despeja a gua num tacho, que coloca sobre a chapa do fogo. Sem olhar
para os homens - que lhe observam os movimentos em respeitoso silncio -
ela diz:
  - Chupem laranjas.
  Eles tornam a sentar-se ao redor do fogo, e um deles comea a assobiar
baixinho. Fandango pergunta, muito calmo:
  - Chamando cobra?
  O assobio cessa. A lenha crepita. O reflexo das chamas clareia dum
amarelo alaranjado estas caras barbudas e tostadas. Agora se ouvem,
vindos de fora e de longe,  os sons duma gaita.
  - Os maragatos esto se divertindo - diz um. H um curto silncio.
Depois outro murmura:
  - Mas isso no vai durar.
  Maria Valria acende uma vela nos ties e com ela atravessa a sala de
jantar na direo da despensa. A chama ilumina-lhe 
  o rosto descarnado e severo, um rosto anguloso e sem idade, mas de
grandes olhos escuros e lustrosos. Tem de caminhar com cuidado para no
pisar nos homens que  dormem no cho, agarrados s suas armas. Suas
narinas inflam: cheiro de homem. Suor antigo, sarro de cigarro, couro
curtido. Um cheiro quente, azedo, penetrante,  repulsivo. - Vou mandar a
Laurinda defumar esta sala...
  Maria Valria entra no quartinho dos fundos, onde se encontra o
ferido. Ergue a vela. A luz cai sobre o colcho onde Tinoco est
estendido, enrolado num poncho.  Tem a cara larga e barbuda, um nariz
picado de bexigas, as mandbulas fortes e quadradas. Sob a barba, a
palidez ciantica parece j a dum cadver. De olhos fechados,  o ferido
geme.
  - Como vai, Tinoco?
  27
  Ele faz um esforo para falar, mexe inutilmente o queixo e os lbios,
mas no consegue articular palavra. Maria Valria franze a testa. Ela
conhece estes sintomas:  j viu um homem morrer de
  pasmo.
  Ajoelha-se junto do ferido, pe o castial no cho e ergue a ponta do
poncho. V o p grande e moreno, de dedos achatados e grados, de unhas
que mais parecem  cascos, a perna cabeluda e musculosa... Cheiro de pus.
Faz um esforo e comea a. desfazer a atadura e quando v a ferida a
descoberto, no pode evitar uma careta  de repugnncia. Ao redor do
buraco negro e purulento da bala formou-se um largo halo, dum vermelho
arroxeado. Faz dois dias, ela prpria cauterizou a ferida com  um ferro
em brasa. Intil. A supurao continua.
  - A coisa est feia, Tinoco - diz ela. - Mas no h de ser
  nada, com Deus e a Virgem.
  Tinoco torna a mexer as mandbulas, mas no consegue falar. Maria
Valria ergue-se e deixa a despensa. O mais que poderiam fazer por ele
agora seria dar-lhe cachaa.  Mas a caninha terminou... H outra
soluo: cortar-lhe a perna. Mas quem vai atrever-se a fazer isso a
frio, sem os instrumentos apropriados? O melhor mesmo talvez  seja meter
uma bala na cabea do coitado, para ele no sofrer mais. Maria Valria
estaca de repente junto da porta, como se a mo do horror de tal idia a
tivesse  detido. Santo Deus, como  que posso pensar numa coisa dessas?
A revoluo est mudando todo o mundo. As pessoas no so mais as
mesmas. No h mais bondade. No  h mais pacincia. No h mais...
  Fica de olhos postos na chama da vela. A gaita continua a chorar l
fora. Na cozinha os homens conversam em voz baixa. Maria Valria
encaminha-se para a escada.  Pra junto do primeiro degrau, desnorteada
por uma repentina tontura. Tem no estmago uma sensao esquisita, como
se houvesse dentro dele um punhado de geada. Dor  de fome. Nusea. E se
tomasse um ch de erva-cidr? Mas  preciso poupar gua. gua para a
criana que vai nascer... Comea a subir lentamente a escada. A gaita
tocando l fora... Homens cantando, longe... Hoje  noite de So Joo.
Na mente de Maria Valria est acesa uma grande fogueira, crianas
saltam
  28
  por cima dela, algum assa uma batata-doce na ponta duma vara. Sobre o
braseiro o churrasco chia, a graxa pinga nas brasas, o cheiro apetitoso
espalha-se no ar.  Vozes... "Vamos tirar a sorte, Maria Valria?"
  Ela sobe a escada devagarinho, uma das mos segurando o castial, a
outra agarrada ao corrimo. Tirar a sorte? Bobagem. Pra qu? Pra ver com
quem vais casar. Atira  esta casca de laranja pra trs... Assim. Vamos
ver a letra que a casca formou. Um L. Ah! Eu bem desconfiava. Que nome
comea por um L? Licurgo... Ah! Se eu pudesse  fazer parar o pensamento!
L. Licurgo. Mas o Licurgo no vai casar com a irm dela, a Alice? Claro.
Mas a Maria Valria tambm gosta dele. Licurgo escolheu a outra.  Coisas
da vida... Sorte 
   bobagem. Licurgo. Sorte  bobagem. Alice casou. Maria Valria vai
ficar solteirona o resto da vida. L... Licurgo.
  Maria Valria chega ao patamar, fica um instante ali parada, sentindo
as faces escaldantes.
  S o pensar nessas coisas me d uma vergonha... Decerto estou
vermelha. Melhor  ir ver os meninos...
  Aproxima-se da porta do quarto dos sobrinhos, abre-a devagarinho, faz
avanar a mo que segura o castial...
  - Logo vi! - exclama, spera.
  Rodrigo e Torbio, ambos de camisolo, acham-se junto da janela,
espiando para fora. Voltam-se, num sobressalto, e precipitam-se para a
larga cama onde passaram  a dormir juntos desde que o cerco comeou.
  - Seus alarifes! J deviam estar dormindo. Caminhando de ps no cho!
Querem apanhar um resfriado? Espiando na janela! No tm medo duma bala
perdida?
  Com os cobertores puxados at o queixo, as duas crianas olham para a
tia, mal conseguindo reprimir o riso. Maria Valria aproxima-se da cama
e inclina a cabea  sobre os rostos dos sobrinhos. O sebo da vela pinga
no cobertor. Dois pares de olhos escuros e vivos esto fitos nela. As
crianas sorriem. E pela primeira vez desde  que o stio comeou Maria
Valria sorri. Mas  um meio
  29
  sorriso, rpido e seco, de quem acha que no tem direito de sentir-se
feliz nem por um segundo.
  - Agora durmam direitinho. Amanh quando acordarem o
  irmozinho j chegou.
  A chama da vela projeta, enorme, a sombra de Maria Valria na parede e
no teto do quarto. E quando ela se retira, fica ali dentro a escurido
fria e silenciosa.
  - Torbio... - murmura o mais moo dos meninos.
  - Que ?
  - Donde vai sair o filho?
  - Ora, da barriga da mame.
  Encolhido, com as mos entre as pernas, Rodrigo fica pensando...
  - Como vaca? - pergunta, aps alguns segundos.
  - Como vaca.
  - Di muito?
  Torbio sabe coisas. Na estncia ajuda a peonada a marcar o gado, a
curar bicheira e at j viu muitos animais darem  luz as
  suas crias.
  - Di, sim - diz ele, voltando-se para o irmo. O hlito morno de
Rodrigo bafeja-lhe a testa.
  -  por isso que elas sempre gritam?
  - As vacas?
  - No. As mulheres.
  - .
  - E por que  que na hora de sair a criana botam na cabea
  delas o chapu do marido?
  - Quem foi que te contou isso?
  - Ouvi uma conversa. Mas por que ?
  - Pra ela ter coragem.
  Um silncio. Torbio revolve-se na cama, com a impresso de
  que tem areia nos olhos.
  - Ser que vem tiroteio hoje? - pergunta o outro.
  - Ora, vamos dormir.
  - Mas ser, hein?
  - Se vier a gente ouve.
  30
  - Bio...
  O mais velho no responde. Rodrigo agora est deitado de costas, de
olhos fechados, pensando nas muitas coisas que o preocupam. Por que ser
que os maragatos pararam  de dar tiros? Por que esto agora tocando
gaita? Daqui a pouco mame comea a gritar. No quero dormir, vou
esperar a hora do meu irmozinho nascer. Botam na cabea  dela o chapu
do papai, o chapelo com o letreiro: "Viva o dr. Jlio de Castilhos!"
Ento a barriga da mame se abre e l de dentro sai a criana. Depois
ela comea  a chorar. Vai, ento, botam o nen na cama e ele comea a
chupar nas mamicas da mame, como os porquinhos chupam nas mamicas da
porca. Mas que barulho  esse?
  Um rudo surdo e cadenciado. Rodrigo fica de ouvido atento. Sempre
temeu que um inimigo traioeiro pudesse aproximar-se da casa no escuro e
atirar uma bomba aqui  dentro. O corao comea a bater com mais fora.
Ele imagina tudo... O homem, de leno vermelho no pescoo, poncho e
barba comprida... A bomba  redonda, preta,  com um pavio, bem como uma
que ele viu numa figura... O inimigo vem se arrastando, devagarinho.
Decerto est j debaixo do coqueiro. Agora pula o muro... Est perto  da
janela da varanda... Bate a pedra do isqueiro para acender o pavio. Vai
atirar a bomba...
  - Torbio!
  Sacode o irmo pelos ombros.
  - Que ?
  - Ests ouvindo um barulho?
  - Estou.
  - Que ser?
  - Bobalho.  a cadeira de balano da v Bibiana.
  - Ser mesmo?
  - , sim. Dorme!
  O rudo continua, surdo, regular, como se fosse o pulsar do prprio
corao do Sobrado.
  Sozinha no seu quarto, sentada 
  na sua cadeira de balano, e enrolada no seu xale, a velha Bibiana
espera... O quarto est escuro,
  31
  mas para ela nestes ltimos anos sempre, sempre  noite, pois a
catarata j lhe tomou conta de ambos os olhos. Ela mal e mal enxerga o
vulto das pessoas, mas ouve  tudo, sabe de tudo, conhece as gentes da
casa pela voz, pelo andar e at pelo cheiro. Quando ouviu o primeiro
tiroteio, ficou nesta mesma cadeira, esperando e escutando.  Quando as
balas partiam as vidraas ou se cravavam nas paredes, ela tinha a
impresso de estar vendo - no! - de estar ouvindo uma pessoa de sua
famlia ser fuzilada  pelos inimigos. Medo no sentiu, isso no. Teve
d. E dio. Estragarem o Sobrado desse jeito! Mas guerra para ela no 
novidade. Tudo isso j aconteceu antes, muitas,  muitas vezes. Viu
guerras e revolues sem conta, e sempre ficou esperando. Primeiro,
quando menina, esperou o pai; depois, o marido. Criou o filho e um dia o
filho  tambm foi para a guerra. Viu o neto crescer, e agora o Licurgo
est tambm na guerra. Houve um tempo em que ela nem mais tirava o luto
do corpo. Era morte de parente  em cima de morte de parente, guerra
sobre guerra, revoluo sobre revoluo. Como o tempo custa a passar
quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece  que o vento
maneia o tempo.
  Dona Bibiana se baloua na sua cadeira. H momentos em que no se
lembra de nada. Na sua cabea h apenas uma cerrao. Ouve rudos,
vozes, engole os mingaus que  lhe do, deixa-se levar para a cama - mas
s vezes no sabe quem  nem onde est. Noutros momentos, porm,
volta-lhe tudo. E na noite escura da catarata ela v faces,  vultos,
cenas. De vez em quando l de longe ouve uma voz: "Bibiaaana!"  o
capito Rodrigo que entra como um tufo, arrastando as esporas no
soalho. A pele de seu  homem tem um cheiro de sol; suas barbas parecem
macega, mas macega castanha. Seus olhos... Mas como eram mesmo os olhos
do capito? De que cor? Pretos? Cinzentos?  Azuis? Tinha uma voz forte,
como a do Curgo - disso a velha Bibiana se lembra.
  Ela tem nos dedos murchos um rosrio. Esqueceu quase todas as oraes.
H uma para dia de tempestade. Outra para tempo de peste. Agora ela
precisa rezar pelo bom  sucesso de Alice. Para que botar filhos no
mundo, se mais cedo ou mais tarde a guerra leva as criaturinhas?
  A velha Bibiana gosta do barulho da cadeira nas tbuas do soalho. 
como uma voz, uma companhia. Lembra-lhe outros tempos, outras largas
esperas. Estas batidas  surdas e o uivo do vento, e o matraquear das
vidraas, e o tempo passando...
  - Bio! Acorda, Bio!
  Torbio resmunga, revolve-se na cama.
  - Que ? - Num sobressalto ergue a cabea. - Mame j comeou a
gritar?
  - Ainda no.
  - Ento que ?
  - Se algum inimigo entrar na casa eu me defendo.
  - No seja bobo.
  - Me defendo, sim. Estou armado.
  - Faz de conta?
  - No. De verdade.
  - Como?
  - Tu no conta nada pra ningum?
  - 
  No.
  - Palavra de honra?
  - Por Deus Nosso Senhor.
  - Ento bota a mo aqui.
  Torbio procura a mo de Rodrigo por baixo das cobertas e seus dedos
tocam um objeto frio.
  - Que  isso?
  - O punhal.
  - O do vov?
  - .
  - Onde  que estava?
  - Numa gaveta.
  - Vais te machucar...
  - No vou. Guardo ele debaixo do travesseiro. Se um inimigo entra
aqui, pulo em cima do bicho e o degolo.
  - No pode.
  - Por qu?
  - Punhal no tem fio.
  32
  33
  - Ento finco-lhe a ponta na garganta. Eu j vi sangrar um
  boi.
  Ao imaginar essas coisas o corao de Rodrigo pulsa com mais fora.
Ele v o sangue escorrendo da goela do maragato. E seus pequenos dedos
apertam o cabo do punhal.
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  A fonte
  Naquela madrugada de abril de 1745, o padre Alonzo acordou angustiado.
Seu esprito relutou por alguns segundos, emaranhado nas malhas do
sonho, como um peixe  que se debate na rede, na nsia de voltar a seu
elemento natural. Por fim deslizou para a gua, mergulhou e ficou imvel
naquele poo quadrado, escuro e frio.
  Alonzo olhou em torno da cela. Repetira-se, como ele temia, o sonho
das outras noites. Levantou-se, acendeu a lamparina, lavou-se - e
enquanto fazia essas coisas  o nico som que se ouvia naquele cubculo
era o rascar de suas sandlias nas lajes do cho. Vestiu a sobretnica,
pendurou o rosrio no pescoo, apanhou o Livro  de Horas e saiu para o
alpendre. A brisa picante da madrugada bafejou-lhe o rosto. Havia na
reduo um silncio leve e mido, um certo ar de expectativa, como se
toda a terra se estivesse preparando para o mistrio do amanhecer.
Alonzo amava aquela hora. Era quando tinha uma conscincia mais lcida
da presena de Deus. Tudo  lhe parecia puro, frgil e areo. Dir-se-ia
que ele prprio pairava no ar, sem contatos terrenos. Sentia na boca do
estmago um ponto branco e frio - e essa impresso  de fome, que o
enfraquecia um pouco, dava-lhe uma trmula sensao de leveza,
aguava-lhe o esprito, tornando-o mais sensvel s coisas do Cu.
  O horizonte empalidecia e as estrelas se iam apagando aos poucos. Em
torno da reduo os campos estendiam-se, ondulados, sob a luz gris.
Alonzo olhou para o nascente  e foi de repente tomado
  35
  dum sentimento de apreenso muito semelhante ao mal-estar que lhe
deixara o sonho da noite. Naquela direo ficava o Continente do Rio
Grande de So Pedro, que  Portugal,'inimigo da Espanha, estava tratando
de garantir para a sua coroa. Um dia, em futuro talvez no mui remoto,
os portugueses haveriam de fatalmente voltar  seus olhos cobiosos para
os Sete Povos. Fazia sessenta e cinco anos que, com o fim de estender
ainda mais seu imprio na Amrica, haviam eles fundado  margem esquerda
do rio da Prata a Colnia do Sacramento, a qual desde ento passara a
ser um pomo de discrdia entre Espanha e Portugal. Laguna, posto extremo
dos domnios portugueses  no sul do Brasil, estava separada da colnia
por uma vasta extenso de terras desertas, cruzadas de raro em raro por
grupos de vicentistas que, passando pela estrada  por eles prprios
rasgada atravs da serra Geral, iam e vinham na sua faina de buscar ouro
e prata, arrebanhar gado e cavalos selvagens, prear ndios e emprenhar
ndias. Metiam-se esses demnios Continente adentro, seguiam o curso dos
rios, embrenhavam-se nas matas e, abrindo picadas a golpes de faco e
machado, fazendo estradas  com os cascos de seus cavalos e tropas, iam
ao mesmo tempo rechaando para o oeste e para o sul o inimigo espanhol.
Alonzo ouvira contar a histria dum bandeirante  vicentista que, tendo
encontrado nos campos duma vacaria uma cruz de pedra na qual se lia -
"Viva el-rei de Castela, senhor destas campanhas" - deitou-a por terra
e ergueu ao lado dela um marco de madeira "no qual escreveu - "Viva o
muito alto e poderoso rei de Portugal, dom Joo V, senhor destes
desertos". Os vicentistas  enchiam aquelas paragens com o tropel de seus
cavalos, os tiros de seus bacamartes e seus gritos de guerra. Mas quando
voltavam para So Vicente, levando suas presas  e achados, o que
deixavam para trs era sempre o deserto - o imenso deserto verde do
Continente.
  O governo portugus resolvera ento povoar o Rio Grande de So Pedro,
a fim de facilitar as comunicaes entre Laguna e Sacramento, bem como
para garantir a posse  deste ltimo estabelecimento. Laguna, pois, ficou
sendo o ponto de partida das muitas levas de homens que entravam nos
disputados campos do extremo sul, para abrir  caminho at o rio da
Prata, de onde retornavam
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  com novas da colnia. E naqueles vinte ltimos anos muitos lagunistas
e vicentistas se haviam fixado em vrios pontos do Continente,
estabelecendo invernadas e  currais que mais tarde se transformavam em
estncias. Contava-se at que quase todos eles j tinham conseguido
cartas de sesmaria. E o fato de os portugueses haverem  fundado em 1737
um presdio militar no Rio Grande indicava que estavam decididos a tomar
posse definitiva do Rio Grande de So Pedro.
  Alonzo olhava as bandas do nascente. 
  Era de l que no futuro havia de vir o perigo. Os vicentistas, que
agora eram senhores de estncias de gado naquelas terras lindeiras,
provavelmente descendiam  dos bandeirantes renegados que havia mais dum
sculo tinham destrudo bestialmente as provncias jesuticas de Guara
e Itati. E a idia de que um dia os Sete Povos  pudessem cair nas mos
dos portugueses deu-lhe um calafrio desagradvel. Instintivamente - como
que numa busca de proteo -- Alonzo olhou para a catedral. Pesadamente
plantada na terra, o vulto macio recortado em negro contra o horizonte
do amanhecer, ela parecia uma fortaleza. Sempre que a via, Alonzo
pensava na me. Comeou  a caminhar na direo do templo, enquanto seus
pensamentos o levavam de volta a um dia inesquecvel de sua infncia. O
pai lhe havia infligido um castigo injusto;  apaixonado, o corpo
sacudido de soluos, mas mesmo assim sem conseguir chorar, o menino
Alonzo seguia agoniado pelo corredor de sua casa, na direo da sala
onde  se encontrava a me. O corredor era longo, de altas paredes e teto
abobadado, e seus passos soavam nos mosaicos do cho com ecos de
catedral. Alonzo via dona Rafaela  sentada na sua cadeira de respaldo
alto e lavrado - bela e tranqila no seu vestido de tafet negro, as
mos, faiscantes de jias, tranadas sobre o ventre. Precipitou-se  para
ela, ajoelhou-se diante da cadeira, quis contar-lhe a injustia que
sofrera mas no pde articular palavra. Os soluos pareciam querer
rasgar-lhe o peito, subiam-lhe  como bolas de ferro  garganta. Mal,
porm, os dedos mornos da me lhe tocaram as faces, Alonzo meteu a
cabea no regao materno e desatou o pranto. "Chora, meu  filho -
murmurou ela - chora que te faz bem." E ele chorou, e sentiu-se
aliviado, consolado, desagravado. As mos
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  dela comearam a fazer-lhe nos cabelos uma carcia to leve e
esflorante que ele teve vontade de rir de gozo. E quando a me se ps a
cantar baixinho uma cancin  de cuna, uma paz quente e profunda desceu
sobre Alonzo, que fechou os olhos e adormeceu
  no paraso.
  Sim, aquela catedral lembrava-lhe a me. No vero seu ventre era
fresco; mas como eram clidas no inverno suas entranhas! E no dia em que
os inimigos atacassem  a reduo - e ao pensar nisso os olhos de Alonzo
se voltaram de novo para o nascente - a catedral seria uma cidade
invencvel.
  No cemitrio um lagarto correu por entre cruzes e sepulturas. Do outro
lado da praa um vulto moveu-se contra a parede do Cabildo. Deve ser um
dos guardas-noturnos  - refletiu Alonzo. Nas outras casas - no colgio,
no hospital, nas oficinas, no quarteiro dos ndios - no se notava o
menor sinal de vida.
  Alonzo parou um instante no trio da igreja. Pela porta aberta viu l
no fundo o altar-mor, cujas velas j estavam acesas. Preciso contar meu
sonho ao cura - decidiu  ele. E entrou no templo.
  Ajoelhou-se em silncio junto do padre Antnio e ficou durante longo
tempo em meditao. Por fim o cura ergueu-se, e Alonzo fez o mesmo.
  - Padre Antnio, preciso de seu conselho.
   luz das velas e das lamparinas o rosto do cura tinha um tom
alaranjado. Era uma face redonda e carnuda, de feies tranqilas.
Sumidos nas rbitas, debaixo de  sobrancelhas hspidas e grisalhas, seus
olhos azuis tinham um brilho lquido de vidro.
  - Temos ainda um bom quarto de hora antes do sino tocar. - Puxou a
manga da tnica do outro. - Vamos nos sentar ali...
  Sentaram-se. O cura respirava fundo. Era um homem corpulento e
sangneo, de grandes mos cabeludas. Seus dedos grossos brincavam
distrados com as contas do rosrio.
  - Fala, meu filho - murmurou ele.
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  Por um instante Alonzo ficou sem saber por onde comear. Fazia pouco
que chegara  misso para servir de companheiro ao cura, que pouco sabia
de sua vida e talvez  nada de seu passado.
  - Padre Antnio - disse Alonzo por fim - tenho tido ultimamente sonhos
perturbadores.
  - Lbricos?
  - No! - exclamou o outro, sfrego. E ficou desconcertado ante a
veemncia de sua prpria negativa. - No... - repetiu com mais calma.
  - Como so esses sonhos?
  Houve uma pausa. Um grilo comeou a cricrilar debaixo dum banco, e sua
voz estrdula riscou o silncio. Alonzo calou-se por um momento, meio
enleado, os olhos  postos na imagem de So Miguel, em cuja face de
madeira danava a luz das velas. Agora de repente lhe ocorria que So
Miguel tambm lhe aparecera no sonho da noite.
  - Bom... so confusos, como quase todos os sonhos. Mas num ponto todos
se parecem.  que de repente me vejo a correr por uma rua estreita,
fugindo... Sinto-me  perseguido e estou em agonia. Lembro-me vagamente
de que cometi um crime, mas no sei onde nem quando. S sei que sou 
  culpado e que por isso algum me persegue.
  - Essa rua...  aqui na reduo?
  - No. s vezes  uma rua em Pamplona, onde nasci. Outras vezes ...
sim, agora me lembro bem. Esta noite sonhei com uma rua que eu costumava
ver na gravura dum  velho livro.
  - Que livro?
  - Creio que numa edio do Quixote. No tenho certeza. Padre Antnio,
de olhos semicerrados, sacudia a cabea lentamente.
  - No sonho desta noite - prosseguiu Alonzo - depois da corrida pela
rua, vi-me de volta  cela, caminhando como um sonmbulo para o armrio
onde guardo as minhas  coisas. Meus ps pesavam como chumbo. De repente
So Miguel surgiu na minha frente e me fez recuar. Eu queria alguma
coisa que estava no 
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  armrio, mas o santo sacudia a cabea, fazendo que no, e eu no sabia
se recuava ou avanava.
  Padre Antnio pareceu despertar de repente:
  - Que ias buscar no armrio?
  Fez-se um silncio em que apenas o cricri do grilo continuou, com uma
insistncia cadenciada de goteira. Alonzo hesitou por um instante.
  - Vamos - disse o cura - conta tudo.
  - Nesse armrio estava... estava uma parte de meu corpo cujo nome no
ouso mencionar neste templo.
  O cura fez com a cabea um grave sinal de assentimento.
  - Mas ao mesmo tempo - continuou Alonzo - era tambm outra coisa que
eu ia buscar... No me lembro... Tudo estava muito confuso. Nesse ponto
acordei com uma impresso  de agonia.
  Fora, os galos comeavam a amiudar, e o trecho de horizonte que a
porta do templo enquadrava tingia-se de carmesim.
  -  s? - perguntou o cura.
  -  s. Pelo menos, no me lembro de mais nada.
  Padre Antnio abriu bem os olhos e voltou a cabea para o
  companheiro.
  - Alonzo, no me disseste tudo.
  Alonzo baixou o olhar. Havia algo que reservava para mais tarde,
quando se confessasse ao cura. Mas era preciso contar agora.
  - Padre - murmurou ele - tive uma adolescncia corrupta.
  - Santo Incio de Loiola tambm teve.
  - Aos dezoito anos fui... fui amante duma mulher casada que quase me
destruiu o corpo e a alma. Eu vivia sem lei nem Deus, para desgosto de
minha famlia. No  tentarei justificar-me. Nem entrarei em pormenores.
Quero apenas que tenha conhecimento desse perodo negro de minha vida.
  De novo o cura estava de cabea baixa e olhos cerrados, bem como
costumava ficar no confessionrio, enquanto ouvia os ndios.
  - Desabafa, meu filho, abre a tua alma. De resto, Deus j sabe de
tudo. Estou certo de que Ele j te perdoou. Mas fala...
  - Essa mulher era o centro da minha vida, padre. Fazia de mim o que
queria. Por causa dela cometi as maiores vilezas. Ela
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  costumava dizer-me que o marido a maltratava, que batia nela.
Contava-me essas coisas com tanta fora de convico, com um realismo
to feroz que me fazia chorar.  Aos poucos me fui enchendo dum dio
terrvel por aquele homem que eu mal conhecia. Um dia...
  Calou-se, como se de repente lhe faltasse o flego.
  - Sim? - encorajou-o o cura.
  - Um dia resolvi mat-lo. Cheguei a essa deciso depois duma noite
inteira passada em claro. Pela manh fui  casa de meu rival. Ia
provoc-lo e finalmente mat-lo  num duelo. Eu era um bom espadachim e
ele tinha trinta e cinco anos mais que eu... Quando l cheguei
disseram-me  porta que ele tinha morrido havia poucos minutos,
fulminado por uma apoplexia. Voltei tomado de horror, com a impresso
perfeita de que eu, eu  que o tinha assassinado a sangue-frio. Passei
ento as horas mais  negras da minha vida. Procurei o padre confessor da
famlia e contei-lhe tudo. Foi ele que me mostrou o caminho 
  de Deus. Graas a ele estou aqui...
  O cura soltou um fundo suspiro, descansou a mo no joelho do
companheiro e disse:
  - Isso tudo pertence a um passado morto, no  mesmo? Ou ser que
essas lembranas costumam perturbar-te os pensamentos?
  - Minha verdadeira vida comeou quando sa do confessionrio decidido
a entrar na Companhia de Jesus. O que ficou para trs no passa dum...
dum pesadelo.
  O cura coou a cabea e disse com sua voz spera e gutural, que fazia
os ndios pensarem que ele escondia um chocalho na garganta:
  - Nossa mente, Alonzo,  como uma grande e misteriosa casa, cheia de
corredores, alapes, portas falsas, quartos secretos de todo o tamanho,
uns bem, outros mal-iluminados.  No fundo desse casaro existe um
cubculo, o mais secreto de todos, onde esto fechados nossos
pensamentos mais ntimos, nossos mais tenebrosos segredos, nossas
lembranas mais temidas. Quando estamos acordados usamos apenas as salas
principais, as que tm janelas para fora. Mas quando dormimos, o diabo
nos entra na cabea  e
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  vai exatamente abrir o cubculo misterioso para que as lembranas
secretas saiam a assombrar o resto da casa. O demnio no dorme. E 
quando nossa conscincia  adormece que ele aproveita para agir.
  Alonzo sorriu de leve. - Em Pamplona um dia algum lhe dissera
Isso. - Tinha o rosto dramtico dum monge pintado por Zurbarn, Nas faces
morenas e meio encovadas  azulava uma barba forte. Os lbios eram
grossos, e havia nos olhos castanhos um fogo lento de brasa.
  O cura costumava dizer que amava mais a alma das pessoas que as
prprias pessoas fsicas. Tinha um prazer todo particular em procurar
penetrar nos mistrios da  mente dos ndios, ler-lhes os pensamentos,
seguir-lhes o raciocnio, antecipar-lhes as reaes. Ainda a semana
passada tivera um caso curioso. Estava a encomendar  uma mulher dada
como morta, havia algumas horas, quando o corpo comeou a mexer-se.
Houve pnico entre os ndios presentes, que se puseram uns a correr
desnorteados,  outros a cair de joelhos e a murmurar oraes. A mulher
olhava em torno com olhos aparvalhados. Com o auxlio dum irmo, padre
Antnio levou-a de volta a casa, p-la  num catre, deu-lhe um pote de
leite morno e, depois de v-la reanimada, f-la falar. Por esse tempo os
ndios comeavam a entrar aos magotes na casa da "ressuscitada".  A
ndia, muito plida, as mos postas, contava a sua aventura. Mal sentira
a vida fugir-lhe do corpo vira-se transportada aos cus nos braos de
dois anjos "brancos  como pay Antnio" e de asas da cor das garas. Mas
ah! A subida para o cu no tinha sido fcil, porque verdadeiros enxames
de demnios com cabeas de co, corpos  de vaca e asas de morcego
tentavam arrebat-la das mos dos anjos e lev-la para o inferno. Os
ndios escutavam-na enlevados, ao passo que o cura, cptico, olhava
para a ndia de soslaio, num silncio desconfiado. Resolveu por fim
interrog-la.
  - E depois, chegaste a ver o cu?
  - Cheguei.
  - Conta-me ento como  o cu.
  -  bem como o pay Antnio diz.
  - Viste Deus?
  - Vi.
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  - Como  Deus?
  - Um homem grande, branco, de barbas compridas, sentado num trono de
ouro, em cima duma nuvem. Pay, como Deus  bonito!
  Os ndios estavam boquiabertos.
  - Viste Nossa Senhora? - perguntou um.
  - Vi, sim. Estava com seu manto azul bordado de estrelas de ouro. Ela
sorriu para mim e disse: Como vai?
  Padre Antnio estava fascinado. Os ndios tinham uma imaginao to
viva que s vezes lhes era difcil separar o mundo real do mundo de sua
fantasia.
  E o territrio dos sonhos de padre Alonzo no se pareceria um pouco
com aquelas fantsticas regies em que a velha ndia andara perdida
durante sua morte aparente?
  - Escuta, companheiro - disse o cura. - Que  que guardas no armrio
da cela?
  - As minhas roupas.
  - S?
  - Alguns livros.
  - Que livros?
  - Uma velha edio do Quixote. Os poemas de San Juan de Ia Cruz. Os
Exerccios, de Santo Incio.
  - Que 
  mais?
  A expresso do rosto de Alonzo mudou de repente.
  - Sim! O punhal.
  - Que punhal?
  - Um punhal de prata, relquia da famlia - exclamou ele, com uma
expresso quase exttica. E em, seguida, mudando de tom: -  estranho
que eu tivesse esquecido  por tanto tempo que o punhal estava l...
  - Tens uma estima especial por essa arma?
  Alonzo ficou calado. Parecia no saber como responder  pergunta. O
cura tornou a falar.
  - Tinhas contigo esse punhal no dia em que decidiste ir provocar...
aquele homem?
  Alonzo franziu o sobrolho.
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  - Sim, eu o levava  cinta.
  O cura deu uma palmada na prpria coxa.
  - A est!
  - V alguma relao entre meus sonhos e meu passado dissoluto?
  - Evidentemente! Mas agora me explica por que razo trouxeste contigo
o punhal.
  - A conselho de meu confessor. Quando a graa de Deus caiu sobre mim e
vi a iniqidade em que vivia, despojei-me de tudo quanto tinha, de tudo
que me pudesse lembrar  da vida antiga: objetos, roupas, amigos... Foi
ento que o confessor me sugeriu que guardasse o punhal, pois lhe
parecia perigoso que eu apenas "esquecesse" o passado...
  - ... sem t-lo destrudo de todo - completou o cura, sacudindo
lentamente a cabea. - timo conselho. O essencial  no esquecer nunca
a existncia do inferno,  para melhor sentir as delcias do cu. O nico
meio de fugir ao perigo  enfrent-lo. Procurar esquecer a tentao 
covardia. O que devemos fazer  venc-la, isso  sim.
  Naquele instante o ar foi rasgado pelos sons graves e musicais dos
sinos, que encheram de tal forma o recinto da catedral, que Alonzo teve
a impresso de que de  repente uma onda os engolfava. O sacristo
acordava os ndios da reduo e chamava-os para as oraes. Os castiais
vibravam quele badalar festivo. Os dois padres
  se levantaram.
  O cura teve de gritar para que o outro o ouvisse:
  - Tira o punhal do armrio e coloca-o em cima da mesa,
  bem  vista!
  Tomou do brao do companheiro e impeliu-o docemente na
  direo da porta do templo.
  -  preciso expulsar o demnio desse casaro - continuou, batendo com
a ponta do indicador na testa de Alonzo. - Abrir as janelas, arejar os
quartos. No ano passado  os ndios da reduo foram atacados duma doena
terrvel, porque comiam muita carne crua e essa carne lhes apodrecia no
estmago e intestinos, criando vermes. O  remdio foi dar-lhes um
vomitrio de folhas de fumo.
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  A purga e o vomitrio para a espcie de mal que te atormenta, meu
filho, so a confisso, a orao e a meditao.
  Alonzo escutava-o em silncio. Pararam no trio e olharam em torno.
Raiava o dia. De todas as casas saam homens, mulheres e crianas, que
se encaminhavam para  a igreja. Via-se nas bandas do nascente, onde o
sol comeava a apontar, uma faixa dum amarelo avermelhado.
  Finalmente o sino silenciou e ouviu-se o zunzum confuso das vozes dos
ndios. O interior da igreja estava agora todo iluminado.
  - Abrir tambm o quarto secreto! - exclamou o cura. Preso num raio de
sol, seu rosto resplandecia. - Jogar pelas janelas todas as lembranas
ms e deixar entrar  a luz de Deus, o ar de Deus!
  Ao passarem pelo trio os ndios saudavam os padres. O cura dava-lhes
a bno, sorrindo, e fazia no ar o sinal-da-cruz. A praa enxameava de
gente. Retardatrios  corriam. Mulheres arrastavam crianas. Velhos
caminhavam apoiados em bastes.
  - Padre Alonzo - perguntou o cura - ests preparado para 
  ouvir um segredo?
  O outro sacudiu a cabea afirmativamente. Padre Antnio inclinou-se
para ele e murmurou:
  - Louvado seja Deus, sou um homem feliz!
  E ao dizer isso sua voz chegou a ficar doce e lisa.
  s oito horas os ndios que trabalhavam nas plantaes e na estncia
reuniram-se como de costume na frente da igreja e padre Alonzo fez-lhes
uma pequena preleo.  Disse-lhes que se colhessem muito trigo, teriam
muita farinha; se tivessem muita farinha dariam servio ao moinho; se o
moinho trabalhasse, os padeiros poderiam  fazer muito po; e se todos
tivessem muito po, ficariam bem alimentados; e se ficassem bem
alimentados Deus se sentiria feliz. Acrescentou que naquele ano
precisavam  exportar mais erva-mate e algodo para Buenos Aires, pois
quanto mais coisas exportassem mais dinheiro teriam, no s para pagar
os dzimos ao rei de Es-
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  panha, como tambm para comprar remdios, instrumentos e - oh! sim -
mais coisas belas para a igreja: clices, cruzes, castiais... Quando
ele terminou de falar,  os ndios trouxeram de dentro da catedral a
imagem de Santo Isidro e o cortejo se formou.  frente iam os tocadores
de flautas, tiorbas, clarins e tambores; seguiam-se  os homens que
carregavam nos ombros a imagem do patrono da lavoura; depois vinham os
outros ndios, cujas vozes, que entoavam um canto sacro, subiam no ar
luminoso.  Alonzo ficou a observ-los por algum tempo, e depois que viu
o grupo sumir-se na encosta do outeiro, saiu para as tarefas do dia.
  quela hora o padre Antnio devia estar confessando ndios e ndias e
depois iria dar a aula de doutrina crist. Uma vez Alonzo o surpreendera
a contar s crianas  a histria de Jesus, que ele apresentava aos
alunos como uma espcie de Bom Cacique. Estava to absorto na prpria
narrativa que no viu o companheiro entrar. Era  extraordinrio como
sabia adaptar as parbolas bblicas ao mundo dos ndios, e como dava
realidade, vida s suas personagens. As crianas o escutavam de boca
aberta,  num silncio enlevado.
  Alonzo comeou a atravessar a praa. Havia no ar um cheiro de nvoa
batida de sol, e a brisa que lhe chegava s narinas vinha carregada dum
suave perfume de macela.  Alonzo gostava da paisagem ao redor da
reduo. No era trgica como a de certas regies de Espanha, nem cruel
como a dos trpicos. Era pura de linhas e cores -  coxilhas verdes
recobertas de macegas cor de palha e manchadas aqui e ali dum caponete;
por cima de tudo, um cu azul onde no raro boiavam nuvens. Era simples
e  ingnua, dir-se-ia pintada em aquarela pela mo duma criana.
  Alonzo entrou no hospital. Pairava l dentro um cheiro desagradvel de
corpos suados, misturado com a fragrncia de ervas medicinais - tudo
nessa atmosfera indefinvel  dos quartos onde h muitas pessoas com
febre.
  Alonzo confabulou por alguns instantes com os enfermeiros e depois
saiu a ver os doentes. Deteve-se diante do catre dum ndio que tinha
sobre um dos olhos uma  atadura de algodo. - Como te sentes, Incio?
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  Por um momento o ndio pareceu no ter ouvido. Depois descerrou a
plpebra do olho so e sorriu - mas sorriu apenas com esse olho, que
fuzilou de alegria; o rosto  permaneceu impassvel.
  - Bem - respondeu, seco.
  O caso de Incio - ocorrido havia poucos dias - fora verdadeiramente
impressionante. Descoberto por um de seus companheiros no momento em que
espiava a mulher  dum amigo que tomava banho, nua, fora trazido 
presena do cura, que o repreendeu severamente, pintando-lhe os horrores
que sofreriam no inferno os que pecassem  contra os santos mandamentos.
Num dado momento, embriagado pelo prprio fervor, o padre Antnio
repetiu - e sua voz nesse momento tinha uma qualidade de esmeril  - o
versculo bblico que diz "se teu olho 
  te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti". Tamanha fora
a eloqncia do cura e to grande o arrependimento de Incio, que o
ndio correra para a  oficina, tomara duma pua e com ela vazara o olho
esquerdo. Com a cara lavada em sangue, urrando de dor, procurava furar o
direito, golpeando a prpria testa s cegas,  quando um irmo leigo e
outro ndio o subjugaram. O cura teve de usar todo o seu tato para lhe
explicar que, conquanto seu pecado fosse muito srio, os versculos
bblicos no deviam ser tomados ao p da letra. Mais tarde, naquele
mesmo dia, dissera a Alonzo,  hora da ceia:
  - Imagina tu a loucura de Lutero. Dar a Bblia a ler aos leigos!
  Alonzo olhou para Incio, dirigiu-lhe algumas palavras de conforto e
comeou a afastar-se dele quando o ndio o chamou:
  - Padre!
  - Que ?
  - Quando o ndio morrer ele vai para o cu?
  - Se seguires os mandamentos de Deus, se fores um bom cristo, irs
para o cu
  - E se eu for para o cu, Deus me d um olho novo?
  - Claro, Incio, claro. Deus te dar um olho novo. Um curto silncio.
  - Padre, eu quero um olho azul como o de pay Antnio.
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  - Est bem, Incio. Reza e pede a Deus que te d no cu olhos azuis
como os de pay Antnio.
  O olho so de Incio tornou a brilhar, mas sua face continuou
  sria e rgida.
  Na oficina, Alonzo foi ver o que estavam modelando os escultores e ali
passou uma hora. O ndio Francisco, que nascera e se educara na misso,
era um escultor  consumado. Havia talhado muitas imagens, algumas das
quais se achavam nas igrejas de outras redues. De torso nu e calas de
algodo, ele trabalhava a madeira com  paixo, enquanto o suor lhe
escorria pelo corpo bronzeado. Alonzo ficou a observ-lo por alguns
momentos. Francisco esculpia a imagem dum Senhor Morto. Os outros
escultores ndios em geral davam  face das figuras os seus prprios
caractersticos fisionmicos: olhos oblquos, zigomas salientes, lbios
grossos. Havia pouco  um ndio esculpira um Menino Deus ndio com um
cocar de penas na cabea. Mas o Cristo Morto de Francisco, com sua face
alongada e suas feies semticas, lembrava  estranhamente, na sua
simplicidade dramtica, certas imagens do sculo XI, que Alonzo vira em
igrejas da Europa. Era surpreendente como aquele ndio conseguira dar
uma expresso de dor e ao mesmo tempo de paz ao rosto do
  Filho do Homem.
  Depois de visitar a padaria, a casa dos teares, a olaria e o moinho,
Alonzo foi ao Cabildo, onde o corregedor - um ndio imponente que
ostentava o uniforme amarelo  e encarnado dos soldados espanhis -
discutia com membros do Conselho problemas
  de administrao judiciria.
  Quando escrevia a parentes e amigos da Espanha, Alonzo nunca deixava
de elogiar a organizao das redues, que,  maneira das povoaes
espanholas, era governada  por un cabildo, para o qual os ndios
escolhiam em eleies anuais o corregedor - a autoridade mxima - os
regedores, os alcaides, o aguazil-mor, um procurador  e um secretrio.
Contava-lhes tambm como os indgenas aprendiam, atravs de lies
prticas e vivas, que o indivduo pouco ou nada vale fora da
coletividade a que  pertence. Toda a produo das lavouras e estncias
de gado das redues pertencia  comunidade, e os bens de consumo eram
distribudos igualmente
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  entre todos. A gente dos Sete Povos no conhecia nenhuma moeda, pois
ali vigorava um regime de permutas. Do dinheiro apurado na venda de
erva-mate e outros produtos  que exportava para o rio da Prata, pagava
impostos ao rei de Espanha, sendo o resto empregado na compra de
instrumentos de trabalho, alfaias e outros objetos para  as igrejas. O
que sobrava era finalmente remetido aos cofres da Sociedade de Jesus, em
Roma.
  O governo encarregava-se de dar assistncia s vivas sem arrimo, aos
velhos e aos rfos; as crianas eram educadas segundo os preceitos da
lei de Deus, e preparadas  especialmente para viverem naquele tipo de
sociedade, onde os brancos - em geral instrumentos de corrupo - s
podiam entrar mediante uma licena especial.
  Numa de suas ltimas cartas  famlia, Alonzo escrevera:
  "Se pensais que vivo no meio de brbaros, estais completamente
enganados. Nos Sete Povos comea a nascer uma das mais belas
civilizaes de que o mundo tem notcia.  Enquanto vos escrevo, vejo
atravs da janela a nossa bela catedral, toda de arenito vermelho, com
seu tmpano grandioso, o seu trio com uma longa fileira de colunas,  e
a sua resplandecente cruz de ouro. Seu estilo lembra o de certas igrejas
do fim do Renascimento italiano (o que no  de admirar, pois foi ela
construda por um  milans).
  Os ndios das redues vivem hoje mais cristmente que muitos brancos
de Pamplona, Madri ou Lisboa. Esto j redimidos do feio pecado da
promiscuidade, pois todos  se casam de acordo com as leis da Igreja e
guardam o sexto mandamento; temem a Deus, so batizados e fazem batizar
os filhos; no leito de morte nunca deixam de receber  o Vitico; e
quando morrem so encomendados e finalmente enterrados em campo-santo.
  Pois muitos desses chamados selvagens sabem, alm da lngua nativa, o
latim e o espanhol, e so hbeis escultores, pintores, oleiros, ourives,
teceles, fundidores  de bronze, e msicos. Um destes dias, escutando um
sexteto de ndios que tocava com sentimento e correo peas dum
compositor bolonhs, fiquei de tal maneira comovido  que no pude
reprimir as lgrimas."
  49
  f -
  s dez e meia o sino tornou a badalar. Alonzo recolheu-se  cela para
seus quinze minutos de meditao. Tirou do armrio um estojo de couro
negro e abriu-o. L  estava o punhal, que ele no via nem tocava havia
tantos anos. Era uma bela arma de cabo e bainha de prata lavrada. Alonzo
desembainhou-a: a. lmina triangular de  ao, que ele apertou na mo,
era fria. Fria e m - concluiu. Fechou os olhos e imaginou o que teria
sido sua vida - ou antes, sua morte - se ele houvesse matado  aquele
homem. (Como se chamava ele? Com quem se parecia? No se lembrava de
nada...) Imaginou o horror de sentir nas mos o sangue do outro, quente
como uma coisa  viva. Pensou na agonia das horas que se seguiriam ao
crime, nas noites de insnia, no remorso a espicaar-lhe a conscincia,
no horror e na vergonha da famlia e  finalmente nas torturas do
inferno, onde sua alma iria expiar pelos sculos dos sculos, no s o
crime de homicdio como tambm o pecado da luxria. Alonzo ento  usou
os cinco sentidos para criar o inferno e imaginar-se dentro dele. Ouviu
seus prprios gritos de dor, os berros e as blasfmias dos outros
condenados que vociferavam  coisas obscenas, vituperando Cristo e a
Virgem... Sentiu o cheiro de carne queimada, o fedor ptrido de corpos
em decomposio. Viu pecadores a se estorcerem, esfolados,  purulentos,
chamuscados, dilacerados, carbonizados - mas vivos, vivos sempre,
sofrendo sempre. Sentiu na prpria carne a dor que as queimaduras
produziam. Tinha  pecado: estava perdido para toda a eternidade. O suor
escorria-lhe pelo rosto, pelo torso, e de olhos cerrados Alonzo
debatia-se sempre no inferno. No havia mais  salvao. Todos os
segundos, todos os minutos, todas as horas, todos os dias, todos os
anos, todos os sculos dos sculos - sem um nico momento de alvio, sem
um  nico instante de descanso - significavam dor, dor aguda,
dilacerante. Dor... Doa-lhe a palma da mo, de onde o sangue pingava
lentamente nas lajes do cho. Alonzo  abriu os olhos. A ponta do punhal
penetrara-lhe na carne. Mas agora, suado e ofegante, ele entrevia o Cu.
No ato de Deus que fulminara aquele homem, ele vislumbrara  o desejo do
Altssimo no s de salvar-lhe a alma como tambm de cham-lo para Seu
servio. Ele estava salvo! Agora pertencia a Deus. Como era bom no ter
cometido  o
  50
  grande pecado... Bom! Bom! Bom! Largou o punhal, seu esprito subiu ao
Cu. De braos cados, cabea erguida, olhos cerrados, ele se deixou
levar... Sentia o perfume  celestial, um sopro fresco bafejava-lhe a
fronte. E a luz que se irradiava da face de Deus deixava-o ofuscado. A
reduo, com todos os seus trabalhos evanglicos,  todas as suas
oportunidades de servir o Criador, redimir os ndios era j uma
antecmara do Cu. Era bom estar ali! A sensao de liberdade e gratido
foi to grande,  que toda ela subiu no peito do padre e rebentou-lhe na
garganta 
  num soluo. Alonzo caiu de joelhos junto do catre e rompeu numa orao
que o choro entrecortava.
  Depois, exausto, e sempre ajoelhado, deixou pender a cabea sobre o
leito. Da ferida da mo, o sangue ainda escorria. Mas ele amava aquela
ferida.
  Entardecia e padre Alonzo terminava sua aula de msica. Um dos
estudantes tocara ao rgo, havia pouco, um preldio. Depois um grupo de
instrumentos de arco executara  uma sarabanda, e agora o ndio Rafael
ali estava a tocar na sua flauta a pavana dum compositor italiano. Junto
da janela, Alonzo escutava. Havia no rosto do ndio  uma inefvel
expresso de tristeza - mas uma tristeza de imagem asitica - lustrosa,
fixa, oblqua. Parado no meio da sala, de sobrancelhas erguidas, testa
pregueada,  olhos fechados, ele soprava na flauta, como que esquecido do
mundo.
  E a voz queixosa do instrumento parecia contar uma histria. A melodia
ora se desenrolava no ar como uma fita ondulante - e Alonzo tinha a
impresso de ver a linha  sonora escapar-se pela janela, avanar campo
em fora, acompanhando docemente a curva das coxilhas - ora parecia um
lento arabesco noturno. E aquela pavana, composta  por um remoto
compositor europeu e tocada por aquele ndio missioneiro, despertava em
Alonzo recordaes tambm remotas. Lembrou-se de sua casa em Pamplona.
Frituras  de azeite na cozinha, fragrncia de cravos no jardim - esses
eram os cheiros da casa de seus pais ao entardecer. Alonzo tinha agora
no
  51
  pensamento a imagem da me, sentada como uma rainha na sua cadeira de
respaldo alto, o colo farto, o olhar manso, as mos cruzadas sobre o
ventre - tranquila,  slida e acolhedora como uma catedral...
  A melodia serpenteava sobre as coxilhas. Que pensamentos estariam
passando pela mente de Rafael? - desejou saber Alonzo. Aqueles ndios
amavam a msica. E com  que talento a interpretavam! Que ouvido
privilegiado tinham! Havia na reduo excelentes organistas, harpistas,
corneteiros e cravistas. Tocavam composies difceis,  e at trechos de
pera italiana. Os instrumentos em sua maioria eram fabricados na
reduo pelos prprios ndios, dirigidos pelos padres. A msica havia
sido e ainda  era para os missionrios um dos meios mais efetivos de
catequizao. Tocando seus instrumentos e cantando, eles se haviam
aproximado pela primeira vez dos guaranis,  desarmando-os espiritual e
fisicamente e conquistando-lhes a confiana e a simpatia. No princpio a
msica fora a linguagem por meio da qual padres e ndios se entendiam.
E no teria sido porventura a msica a lngua do Paraso - o primeiro
idioma da humanidade? Por meio da msica os jesutas induziam os ndios
ao estudo,  orao  e ao trabalho. Era ao som de msica e cnticos que
eles iam para a lavoura, aravam a terra, plantavam e colhiam - e era
sempre debaixo de msica que voltavam para  a reduo ao anoitecer. A
msica era por assim dizer o veculo que levava aquelas almas a Cristo.
  A pavana terminou. O ndio abriu os olhos mas ficou imvel, com o
instrumento ainda nos lbios, a mesma expresso de tristeza na face
bronzeada. A interrupo  da melodia chegou a ser quase dolorosa para
Alonzo. Mas, oh! a msica podia ser tambm uma arma do demnio. A pavana
era decididamente perigosa. Ele devia risc-la  do repertrio de Rafael.
Porque aquela composio no elevava a alma a Deus: no era vertical,
mas horizontal, preguiosa, lnguida, quase mrbida.
  - Muito bem, Rafael - disse o padre. - Podes ir.
  No anoitecer daquele mesmo dia, durante a hora de recreio que se
seguiu  ceia, padre Antnio contou aos ndios a histria
  52
  da Paixo de Cristo, preparando-os para as comemoraes da Semana
Santa que se aproximava.
  E j a noite havia descido por completo - uma noite morna, pontilhada
de estrelas e grilos - quando padre Alonzo se retirou para a cela, a fim
de fazer um exame  de conscincia e preparar-se para a meditao do dia
seguinte.
  Pouco depois que o sino grande da catedral deu o toque de recolher,
algum lhe bateu  porta.
  - Quem ?
  - Sou eu. O irmo Paulo.
  - Pode entrar.
  Um jovem magro, metido numa batina parda, entrou.
  - O cura lhe pede que v imediatamente ao hospital. Alonzo ps o
barrete na cabea e saiu em companhia do outro.
  - Incio est passando mal? - perguntou ele ao atravessarem a praa.
  - No, padre. Uma ndia acaba de dar  luz uma criana e est se
esvaindo em sangue.
  Alonzo estranhou:
  - Mas no me consta que nenhuma mulher estivesse esperando filho para
hoje...
  Irmo Paulo tinha um rosto cor de cidra, uma voz mansa e um jeito
humilde. Os olhos encovados quase nunca fitavam de frente o
interlocutor.
  - No  ndia das redues - explicou ele. - Parece ter vindo do
Continente do Rio Grande.
  - Mas no me comunicaram nada!
  O outro encolheu os ombros timidamente.
  - Foi encontrada perto do trigal e recolhida pelos homens quando
voltavam do trabalho.
  - O corregedor foi informado?
  Irmo Paulo fez com a cabea um sinal afirmativo. Luzia no cu um caco
de lua. Talvez amanh houvesse mais uma cruz ali no cemitrio - refletiu
Alonzo. E perguntou:
  - H alguma esperana de salvar a mulher?
  -  um caso perdido, irmo.
  53
  Entraram no hospital. No quarto onde o cura administrava a
extrema-uno  moribunda, boiava a luz amarelenta das lamparinas de
azeite. Alonzo aproximou-se do  catre. A ndia estava deitada de costas,
o sangue escorria-lhe das entranhas, empapava os cobertores e pingava
nas gamelas que os enfermeiros haviam colocado ao  p do leito. O nico
som que se ouvia ali dentro, alm do pingar do sangue, era a voz
esfumada do cura, que ungia com os dedos os olhos da rapariga,
murmurando:  Per instam Sanctam Unctionem et suam piissimam
misericordiam, indulgeat tibi Dominus quidquid oculorum vitio
deliquisti. Amen.
  De olhos muito abertos - olhos de animal acuado - a ndia mirava
fixamente o cura, enquanto de sua boca entreaberta saa um ronco
estertoroso. Devia ter quando  muito vinte anos - calculou Alonzo.
Ajoelhou-se junto do catre e comeou a pedir a Deus que recebesse no
Reino dos Cus a alma daquela pobre mulher, que pecara por  ignorncia,
e a quem decerto nunca fora dada a oportunidade de seguir o bom caminho.
  ... quidquid narium vitio deliquisti. Amen - recitava o cura. E o
sangue pingava nas gamelas... quidquid labiorum linguae vitio
deliquisti. Amen. O cheiro de leo  e sangue entrava pelas narinas de
Alonzo e em seu crebro se transformavam em pensamentos confusos, que
ele se esforava por espantar.
  Ao cabo de alguns instantes em que andou perdido a vaguear entre o cu
e a terra, Alonzo sentiu uma presso de dedos no ombro. Ergueu os olhos
e viu o cura,
  - Est tudo acabado - disse este ltimo.
  Alonzo ergueu-se. Irmo Paulo aproximou-se da morta e com dedos leves
cerrou-lhe as plpebras.
  De outras salas do hospital vinham agora gemidos e lamrias. Como se
tivessem sentido a presena da morte, os outros doentes clamavam pelos
padres, oravam e choravam.
  - E a criana? - perguntou Alonzo. O cura sorriu.
  - Est viva. Venha ver.
  Aproximaram-se dum bero tosco onde, no meio de panos de algodo, o
recm-nascido dormia. Tinha a pele muito mais clara
  54
  que a da me. Alonzo ergueu os olhos para o cura que sacudiu
lentamente a cabea, adivinhando os pensamentos do companheiro e dando a
entender que participava  tambm de suas suspeitas. Aqueles malditos
vicentistas! - pensou Alonzo. No se contentavam em comprar ndios e
lev-los como escravos para sua capitania: tomavam-lhes  tambm as
mulheres, serviam-se vilmente delas e depois abandonavam-nas no meio do
caminho, muitas vezes quando elas j se achavam grvidas de muitos
meses. Aquele  no era o primeiro caso e certamente no seria o ltimo.
O cura observava a criana.
  -  um lindo menino - disse. - Vamos batiz-lo amanh. Tu sers o
padrinho, Alonzo. - Inclinou-se sobre o bero, sorrindo. - Este pelo
menos salvar sua alma -  acrescentou. E depois, mudando de tom: - Que
nome lhe vamos dar?
  - Pedro - respondeu Alonzo, quase sem sentir. O cura repetiu:
  - Pedro... Pedro. No h nada como os nomes simples. Ele se chamar
Pedro.
  Alguns minutos depois, atravessando a praa, rumo da cela, Alonzo
procurava descobrir por que se lhe escapara com tanta espontaneidade o
nome de Pedro. Algum amigo  quase esquecido? No. Algum membro da
famlia? Tambm no. Deu mais alguns passos e de repente estacou, como
se algum o tivesse frechado pelas costas. O homem que  um dia ele
quisera matar chamava-se Pedro. Agora ele se lembrava... Pedro Menndez
Palcio.
  5
  Depois daquela noite, a geada de cinco invernos branqueou os telhados
da misso; e as pedras avermelhadas de sua catedral rulgiram ao sol de
cinco veres mais  ou menos tranqilos. Foram aqueles os tempos de maior
prosperidade dos Sete Povos. Conquanto no Continente do Rio Grande de
So Pedro espanhis e portugueses vivessem  em contnuas lutas por
questes de limites, houve paz nas redues.
  55
  Padres vindos de alm-mar ou de outras misses - pregadores,
cartgrafos, msicos, naturalistas, astrnomos, matemticos, arquitetos
- chegavam, ficavam por algum  tempo e depois se iam, deixando uma marca
de sua passagem: um mapa, um relgio, um rgo, uma imagem, um livro,
uma idia... A populao crescia, novas casas se  construam e novas
cruzes eram plantadas no cemitrio. Batizados, enterros e casamentos se
alternavam; e no raro o cura mal via fechada uma sepultura e j corria
a preparar-se para o batismo dos recm-nascidos, enquanto na igreja
pares de noivos esperavam a hora do casamento. A experincia levava os
padres a arranjar e apressar  o casamento de ndios e ndias mal eles
chegavam  puberdade. A catedral aos poucos se enchia de novas imagens e
enriquecia suas alfaias. O relgio incrustado na  torre maior parecia a
face mesma do tempo, e o sino grande a sua voz.
  A rotina da reduo era quebrada de quando em quando por um
acontecimento sensacional; um ndio mordido de cobra; um tigre que
atacava os terneiros da estncia;  um temporal que destelhava as casas
ou uma chuva de pedra que danificava as plantaes. Duma feita o sol foi
escurecido por uma nuvem de gafanhotos vindos do nascente  e que
ameaavam cair sobre as lavouras. Todos os ndios da reduo saram
correndo de suas casas, gritando com toda a fora dos pulmes, batendo
tambores, matracas,  chocalhos, fazendo soar clarins, dando tiros de
ronqueira, ao mesmo passo que os sinos da igreja atroavam os ares... E
foi tal o barulho que se ergueu da misso,  que a nuvem mudou de rumo e
se sumiu na direo do norte.
  Periodicamente o governador de Buenos Aires mandava buscar nas
redues ndios para empreg-los na construo de edifcios  pblicos.
Os padres indignavam-se ante tais exigncias. Sabiam que esses ndios
jamais voltariam s suas casas, pois morreriam merc dum tratamento
pouco humano  ou, longe da influncia dos missionrios, tornariam a cair
em pecado, entregando-se  heresia, ao amor promscuo,  bebida e outros
vcios.
  Padre Alonzo continuava na reduo. Uma vez que outra, nos veres
muito quentes, ele tinha a impresso de ver o tempo parado sobre os
telhados e campos em derredor,  como que imobilizado
  56
  pelo mormao; moscardos zumbiam e voavam no tempo estagnado. Outras
vezes ele sentia a rotina arrastar-se com lentido, paralelamente s
horas. Mas na maioria  dos dias o tempo voava como o vento. Era quando
ele se entregava a trabalhos absorventes, sempre cheios de imprevistos:
orientar os ndios nas suas criaes artsticas;  lev-los em excurses
pelos campos; preparar as festas; escrever autos e dirigir-lhes os
ensaios; discutir com o corregedor e as outras autoridades problemas de
administrao e de justia. Dentro de suas oraes havia toda a
eternidade; e nas horas de meditao o tempo flua e reflua, avanava
ou recuava mil anos ou ento  se sumia de 
  todo no espao ilimitado de seu esprito, que de repente ficava
esvaziado do seu contedo de tempo, bem como uma lagoa cuja gua se
drenasse por completo. 
  Todos os anos, no dia de Corpus Christi, antes de nascer o sol o
corregedor, os caciques e outros dignitrios da reduo percorriam as
ruas montados em cavalos  ricamente ajaezados. Eram seguidos de
tamboreiros e tocadores de flauta. Diante da igreja detonava-se uma
ronqueira, seu estrondo reboava na praa, espantando as  pombas que
voavam assustadas da torre e do fronto do templo. A populao acordava
e vinha para a missa cantada.
  Quando o sacerdote saa da sacristia, era sempre precedido por oito
jovens danarinos, que marchavam em filas de dois e empunhavam velas
cujas chamas lhes iluminavam  as faces acobreadas e impassveis, como
que talhadas tambm em arenito vermelho. Iam num passo grcil e ritmado,
enquanto quatro bailarinos queimavam ervas aromticas  e outros tantos
tapetavam de flores e folhas o caminho que o celebrante percorria por
entre as alas de fiis, os quais ia aspergindo com gua benta.
  Como era belo ver depois aqueles esbeltos danarinos, disciplinados
como pajens, parados de p, ali no batistrio! Quando o sacerdote subia
para o plpito ou quando  descia, era sempre flanqueado por dois desses
ndios, que levavam ainda nas mos as velas acesas.
  O cheiro do incenso misturava-se com o das flores e ervas. As vozes do
coro enchiam, poderosas, o recinto da catedral. Os objetos de metal
cintilavam  luz do  sol ou ao reflexo das chamas das velas.
  57
  Alonzo mal se podia concentrar em suas oraes, to deslumbrado estava
com tanta cor, to estonteado se sentia com tantos perfumes e sons, to
perturbado ficava  com tanta beleza.
  Terminada a missa solene, havia danas e cnticos no vestbulo da
igreja, perante os padres e os membros do Cabildo.
  As ruas eram preparadas especialmente para a procisso, enfeitadas com
bandeiras, estandartes e arcos de triunfo, aos quais estavam presas aves
vivas - gralhas,  gavies corvos tucanos, garas, colhereiros... Pias,
gamelas e bacias de ferro cheias d'gua e contendo peixes vivos eram
colocadas em diversos pontos por onde devia  passar a procisso. Outros
animais - tigres, gatos-do-mato, veados, antas, tamandus, lees baios -
eram postos ao p dos arcos, dentro de jaulas ou capoeiras.
  Quando a procisso passava ao som de cnticos, as aves guinchavam e
sacudiam as asas, os animais urravam, e do cho se erguia um perfume de
manjerico silvestre  esmagado.
  Um dia Alonzo concluiu que esse era o espetculo mais belo que jamais
vira em toda a sua vida. No entanto o resto do mundo o ignorava! Nas
cortes da Europa ningum  sabia nem podia imaginar que ali naquele mundo
novo e selvagem, no meio de campinas imensas, havia uma catedral mais
bela que muitas da Espanha e da Itlia; e que  naquele momento milhares
de ndios e ndias convertidos ao Evangelho rendiam homenagem ao Corpo
de Cristo. O cu era dum azul rtilo. A catedral reverberava  luz  da
manh, como uma fortaleza impvida cujas paredes fossem de ferro em
brasa. O ar enchia-se de sinos e das vozes de todas as criaturas de Deus
- aves, feras e homens.  Flores e asas e bandeiras de todas as cores
tremulavam nos arcos de triunfo. A procisso movia-se vagarosamente, em
meio duma nuvem de incenso, e nas mos do sacerdote  o ostensrio fulgia
como um sol.
  Uma tarde,  hora do crepsculo (foi no ano de 1750, por ocasio da
Pscoa) Alonzo parou no centro da praa, contemplou a catedral e sonhou
de olhos abertos com  o Mundo Novo. Havia de ser algo to belo e sublime
que a mais rica das imaginaes mal poderia conceber.
  58
  Os povos no mais seriam governados por senhores de terras e nobres
corruptos. Seria a sociedade prometida nos Evangelhos, o mundo do Sermo
da Montanha, um imprio  teocrtico que havia de erguer-se acima das
naes, acima de todos os interesses materiais, da cobia, das
injustias e das maquinaes polticas. Um mundo de igualdade  que teria
como base a dignidade da pessoa humana e seu amor e obedincia a Deus.
Nesse regime mirfico o homem no mais seria escravizado pelo homem. No
haveria  mais exaltados e humilhados, ricos e pobres, senhores e servos.
Que direito tinha uma pessoa de se apossar de largas extenses de terra?
A terra, Deus a fizera para  todos os homens. O que era de um devia ser
de todos, como nos Sete Povos. Todas as criaturas tinham 
  direito a oportunidades iguais. No era, ento, maravilhoso
transformar-se um ndio pago num cristo, num artista, num msico, num
escultor, num ourives, num  arquiteto? Tantos milhares de seres havia no
globo que vegetavam na ignorncia e na misria por falta apenas de quem
lhes iluminasse o entendimento, despertando-lhes  o desejo de melhorar,
de criar coisas teis e belas com a mo e o esprito que Deus lhes
dera!? Mas para conseguir esse mundo ideal era primeiro necessrio
combater  todos aqueles que por indiferena ou egosmo se negavam a
baixar os olhos para os humildes. Alonzo, que fora sempre um estudioso
da Histria, sabia que os homens  em todos os tempos foram sempre
levados ao pecado pelo diabo, e a arma de que o diabo mais se servia era
o desejo de riqueza, poder e gozo. Para conseguir essa riqueza,  essa
fora, e esses prazeres, no hesitavam em escravizar as outras
criaturas. E a melhor maneira de conserv-las em estado de escravido
era mant-las na ignorncia.  Pagavam soldados no s para defender-lhes
as vidas e os bens como tambm para alargar-lhes as conquistas. Mas
esses senhores consistiam numa minoria. Ah! Um dia  esses eternos
humilhados, esses eternos escravos haveriam de tomar conscincia de sua
fora e erguer-se! Mas era indispensvel que tal levante se fizesse no
em  nome do dio, da vingana e da destruio, mas sim em nome de Deus e
da Suprema Justia. A misso da Igreja - e neste ideal extremado Alonzo
sabia que estava s  -
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  devia ser a de promover essa Revoluo. O trabalho da Companhia de
Jesus j havia comeado na Amrica. Era preciso primeiro conquistar o
Novo Continente, livrar  o ndio da influncia do homem branco,
organizar uma grande repblica teocrtica que depois, aos poucos,
poderia estender a outras terras a sua influncia e o seu  exemplo. Ah!
Mas para conseguir esse supremo bem os jesutas seriam obrigados a usar
meios aparentemente ignbeis. Teriam de ser obstinados e implacveis. No
princpio  seria necessrio exercer uma ditadura justa mas inexorvel.
No havia outra alternativa. Seriam os fiadores dessa Revoluo em Nome
de Deus, pois o povo no estava  ainda esclarecido, no sabia o que lhe
convinha, e portanto podia ser facilmente ludibriado pelos poderosos.
Era pois imprescindvel que os sacerdotes exercessem  na terra a
ditadura em nome de Deus at que um dia (dali a quantos anos? Cem?
Duzentos? Mil? Que importava o tempo?) fosse possvel atingir aquele
estado ideal,  conseguir a igualdade entre as criaturas, a paz e a
felicidade universal. Agora, porm, era preciso lutar, pregar, instruir,
influir no esprito das gentes, educar  e disciplinar a juventude,
exercer uma censura feroz em todos os setores da vida daqueles povos a
fim de que eles se habituassem a pensar de acordo com a Idia Nova.  Um
dia haveria sobre a face da terra governos justos e no mais
instrumentos secretos e cruis de Satans. At l, porm, era inevitvel
que os sacerdotes suassem  sangue, no cedessem s fraquezas de seus
coraes, tivessem a coragem de parecer tirnicos. Seriam odiados,
caluniados, perseguidos, apresentados como monstros.  Os senhores do
mundo haveriam de atirar contra eles expedies militares punitivas. Ah!
Mas ele conhecia a Histria. A justia de Deus estava visvel nas
entrelinhas  dos fatos. Que significavam! as guerras contnuas entre
naes, ducados e principados seno que a humanidade vivia em
desentendimento porque era corrupta e ] adorava  o bezerro de ouro? Por
que pases como Portugal e Espanha viviam sempre em guerras? Era porque
faltava entre os povos separados por lnguas e costumes diferentes  um
elemento de unidade espiritual. Esse elemento de unidade, esse
denominador comum das almas s poderia ser um: o temor e o amor a Deus.
Era em nome
  de Deus que eles, soldados da Igreja, tinham de lutar. E no haviam de
recuar ,diante de nenhum obstculo. O fim era bom: todos os meios para
chegar a ele seriam  necessariamente lcitos.
  Naquela hora crepuscular, s vsperas dum domingo de Pscoa, Alonzo
pensou em todas essas coisas. E esses pensamentos no s lhe vinham de
velhos sonhos e cogitaes,  como tambm haviam sido despertados
especialmente pelas notcias que acabavam de chegar  reduo com um
carter de praga, de peste, de catstrofe. Portugal e Espanha,  para pr
termo s rixas em que viviam empenhados, tinham assinado um tratado
inquo, 
  segundo o qual os portugueses cediam a seus velhos inimigos a Colnia
do Sacramento, e os espanhis, em troca, lhes entregavam os Sete Povos
de Misses.
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  Pedro cresceu na misso aos cuidados da famlia do cacique dom Rafael,
e seguido de perto por Alonzo, que tinha por ele uma estima toda
particular. Aos oito anos  sabia ler, escrever, fazer contas, e, alm do
guarani, falava espanhol e podia ler com relativa correo alguns textos
em latim. Era um menino mais alto que o comum  dos ndios da sua idade,
tinha a pele trigueira, os cabelos pretos e lisos, olhos escuros e meio
oblquos, nariz fino e reto, e boca rasgada.
  Grande foi para Pedro o dia em que pela primeira vez serviu de
coroinha. Antes de comear a missa saiu a acompanhar o padre, que
aspergia os ndios. O coro rompeu  a cantar. As mos de Pedro, que
seguravam a caldeirinha, tremiam; e cada vez que o padre sacudia o
hissope no ar, gotas de gua benta respingavam os olhos do menino,  que
piscava. As vozes dos ndios enchiam as naves: Asperges me hyssopo et
mundabor; lavabis me et super nivem dealba"or--- - cantava o coro. Desde
esse dia, sempre  que alguma coisa lhe entrava nos olhos, fazendo-os
arder, ele se lembrava da palavra asperges. Com o passar do tempo foi
descobrindo outras palavras mgicas. Lavabo  passou a significar gua; e
sempre que chovia ele
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  exclamava para si mesmo: Lavabo! Lavabo! Mas a grande descoberta que
trouxe para sua vida uma secreta alegria e mais um mistrio ocorreu
quando ele rezava com  outros meninos a Ladainha de Nossa Senhora.
Estavam todos ajoelhados, de mos postas, fazendo o
  responso rio.
  - Turris ebrnea! - disse o cura.
  E os meninos:
  - Ora pr nobis.
  E num dado momento "aquilo" aconteceu. A voz spera de
  padre Antnio rascou o ar:
  - Rosa mstica...
  Pedro esqueceu a ladainha. Seus lbios no conseguiram pronunciar o
ora pr nobis. Rosa mstica... Estas palavras lhe ficaram soando na
memria com um doura de  msica. Rosa mstica. Ele as repetia baixinho.
Como era bonito! Rosa mstica. Mas que queria dizer? Sabia o que era
rosa. Havia rosas brancas, vermelhas, amarelas...  Mas que seria Rosa
mstica? Pensou em perguntar ao cura ou a padre Alonzo. Mas um temor
secreto impediu-o disso. Ficou acariciando a palavra, guardando-a como
um  segredo, como um pecado. Rosa mstica. Tornou a pensar nela na cama.
Dormiu com ela. Na aula de msica, no dia seguinte, enquanto tocava
rgo, as palavras seguiram  em sua mente a linha da melodia duma
cantata. Rosa mstica. Na aula de doutrina quase se ergueu para
perguntar: "Padre, que  rosa mstica?" Mas no teve coragem.  E um dia,
olhando a igreja na hora em que o primeiro sol da manh lhe incendiava
as paredes, murmurou: "Rosa mstica". E da por diante, sempre que uma
impresso  de beleza o feria, sempre que alguma coisa lhe dava prazer,
ele murmurava: "Rosa mstica". Se uma laranja era doce, Pedro pensava:
"Rosa mstica". "Rosa mstica"  dizia tambm para as msicas que amava,
para as nuvens, para as aves, para a gua, para os peixes. Um dia em que
caminhava com padre Alonzo atravs do cemitrio,  pararam ambos diante
dum tmulo. - Aqui est o corpo de tua me - disse o padre, mostrando
uma cruz ao menino. Pedro olhou para o pequeno monte de terra a seus
ps.  Teve o desejo de abrir a sepultura a ver como era a fisionomia de
sua me. Imaginava-a bela e branca como as santas.
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  Olhando para o cho, esquecido da companhia do padre, murmurou de
repente:
  - Rosa mstica.
  O jesuta, surpreendido, perguntou:
  - Que foi que disseste?
  - Rosa mstica.
  - E sabes quem  a Rosa mstica?
  O menino sacudiu a cabea negativamente, sem olhar para o amigo.
  -  Nossa Senhora, Me de Deus - explicou Alonzo.
  Muito cedo Pedro travou conhecimento ntimo com o diabo. Nas aulas de
doutrina ouvia histria sobre anjos bons e anjos maus. Passou, ento, a
v-los muitas vezes  em seus sonhos e nas suas elucubraes.
Dificilmente conseguia distinguir as coisas que imaginava ou sonhava das
coisas que realmente via quando estava acordado.  Num velho livro que
Padre Alonzo tinha em sua cela, havia uma gravura pela qual Pedro sentia
grande atrao. Era a em que um mau esprito aparecia montado num pobre
pecador, o qual, de quatro ps como uma cavalgadura, 
  se deixava surrar pelo anjo do mal; viam-se ainda outros demnios com
cabea de vaca e de co, asas de morcego e corpos humanos: um deles
empunhava uma clava,  outro tinha um n de vboras em cada mo; um
quarto esprito mau tocava flauta, e, no primeiro plano, um diabo
dirigia o coro dos pecadores, cujas cabeas apareciam,  de faces
contorcidas, acima das chamas do inferno. Pedro aprendeu tambm que o
diabo vigia nossos passos, procura entrar em nossos pensamentos a fim de
nos fazer  pecar. Vivia atento  luta que se travava entre o seu anjo da
guarda e os espritos do mal pela posse de sua alma. s vezes julgava
ouvir esses anjos cados gemerem  na voz do vento, surgirem nas sombras
da noite, entre as cruzes do cemitrio, ou entrarem no corpo dos
morcegos e outros bichos da noite. Sua imaginao povoava  o mundo de
demnios, e esse mundo fantstico no s continuava como tambm se
alargava em seus sonhos e meditaes.
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  Pedro tinha em geral uma vida ativa: aprendia ofcios, doutrina
crist, msica; lia em voz alta as Escrituras Sagradas em latim,  hora
em que os padres ceavam;  no raro ajudava os ndios a limpar o trigo e,
enquanto fazia isso, cantava com eles. Aos domingos, com outros
coroinhas, acolitava o cura na missa. Fazia tambm  parte do coro;
representava nos autos e durante as festas tomava parte nas danas.
Gostava tambm de andar sem rumo pelas coxihas, de arco e flecha, a
caar passarinhos,  a procurar ninhos ou a aprisionar lagartixas vivas.
(Talvez um dia conseguisse at prender numa guampa a teiniagu, a
lagartixa encantada!) Momentos havia, porm,  em que o menino caa em
estado de melanclica meditao, preocupado com o mistrio das pessoas
que via a seu redor: os padres brancos com suas batinas negras; os
ndios cor de terra, vestidos de maneira to diferente dos outros ndios
que no pertenciam a nenhum dos Sete Povos.
  Intrigava-o o mistrio do dia e da noite; do sol e da lua; das
plantas, dos bichos, da chuva, do trovo, do relmpago e do raio. Em
tudo isso ele via, duma maneira  obscura, manifestaes da luta entre o
bem e o mal. E havia sobretudo o grande mistrio da morte. Ele
acompanhava, fascinado, os servios fnebres, gostava de ver  e ouvir,
escondido atrs das colunas do templo, a encomendao dos defuntos. E
era com o corao a bater-lhe descompassado, os olhos muito abertos, que
Pedro via  os cadveres serem postos nas suas covas e depois cobertos
com terra. O latim para ele tinha um som mgico que o deixava comovido,
mesmo quando no compreendia o  que lia ou ouvia. Decorava trechos do
Martirolgio e salmos, que repetia quando estava sozinho. Sempre que
ouvia falar nos outros pases que havia para alm do horizonte,  ficava
olhando  distncia com olhos tristonhos. Padre Alonzo contava-lhe
coisas da Espanha, de seus reis, cavaleiros, santos, sbios, mrtires e
conquistadores.  E s vezes traava na terra com a ponta duma vara mapas
que Pedro examinava com apaixonada e perplexa ateno. Gostava
principalmente das faanhas dos templrios,  e deliciava-se ao escutar a
histria das Cruzadas.
  Outra das suas grandes paixes era a msica. Em geral os ndios das
redues, mesmo os adultos, conseguiam tocar apenas o
  64
  que aprendiam de cor ou ento o que liam na pauta, sendo incapazes de
compor. Pedro era diferente. s vezes tomava da flauta e comeava a
improvisar. Inventava  melodias que ora eram tristes e arrastadas ora
rompiam em trmulos e arabescos alegres, para depois carem de novo numa
melopia.
  Aos dez anos Pedro aprendeu de cor uns versos de San Juan de Ia Cruz
que o padre Alonzo costumava recitar. Era o Cntico espiritual entre el
Alma y Cristo su esposo:
  Adonde te escondiste,
  Amado, y me dejaste con gemido?
  Como el ciervo huiste,
  Habindorne herido;
  sal trs ti clamando, y 
  ya eras ido.
  O menino repetia esses versos com sua voz musical. E a parte de que
ele mais gostava - embora no chegasse nunca a compreend-la - era esta:
  Buscando mis amores,
  ire por esos montes y riberas,
  ni coger Ias flores,
  ni temer Ias fieras,
  y passar  Io s fuertes y fronte rs.
  Recitou-os um dia para o padre Alonzo e, ao terminar, perguntou-lhe:
  - Padre, ento a Alma casou com Cristo? Meio embaraado, Alonzo
respondeu:
  - Simbolicamente, Pedro.
  Mas compreendeu de imediato que havia respondido apenas  si mesmo,
no ao entendimento do menino.
  - Faz de conta - explicou. - A alma duma pessoa religiosa a Cristo 
une-se, casa-se com Ele.
  -  o pay Antnio que faz o casamento? Alonzo sorriu.
  65
  - No, Pedro. No  bem assim.
  Procurou palavras simples para explicar, e como no as encontrasse
achou prudente mudar de assunto.
  Um dia Alonzo chamou Pedro para lhe cortar a tonsura. Para que o rapaz
no cometesse nenhum erro, deu-lhe uma rodela de papel na configurao
exata da tonsura,  e sentou-se. Pedro subiu num mocho, apanhou a tesoura
e ps-se a trabalhar. Era a primeira hora da tarde, fazia calor e Alonzo
sentia os olhos pesados de sono. Um  ar de preguia amolentava tudo, e a
luz do sol parecia escorrer como azeite quente sobre a misso. Num dado
momento a rodela de papel deslizou pelos cabelos do padre,  comeou a
esvoaar no ar como uma borboleta branca. O esprito de Pedro no se
concentrava no trabalho. Nem o esprito nem os olhos, pois estes estavam
fitos, fascinados,  no punhal de prata que se achava em cima
  da mesa da cela.
  - Padre... - chamou Pedro de mansinho. Depois, mais alto:
  - Padre!
  Alonzo abriu os olhos.
  - Que ?
  - De que  feita aquela espadinha?
  - Aquilo no  espadinha.  um punhal. A lmina  de ao. A bainha, de
prata lavrada.
  - De quem  o punhal?
  -  meu. J te disse mil vezes.
  - Ah!...
  Pedro tornou a pr a rodela de papel na coroa da cabea do
missionrio, e por alguns instantes s se ouviu ali na cela o zumbir das
moscas e o pique-pique da tesoura.
  - Padre.
  - Presta ateno no que ests fazendo, Pedro!
  - Quem foi que deu o punhal ao padre?
  - Foi meu pai.
  - E quem foi que deu o punhal ao pai do padre?
  - Talvez meu av. Mas basta! Cuidado... vais me cortar! Os olhos de
Pedro, porm, no se afastavam do punhal.
  66
  - Quando eu crescer posso ter um punhal assim?
  - Para qu?
  - Para me defender.
  - De quem?
  - Dos inimigos.
  - Que inimigos?
  - Os espritos do mal.
  - A melhor arma contra eles  a cruz. -?
  -.
  - Ah!...
  Fez-se um silncio de vrios minutos em que Pedro dividiu a ateno
entre a tonsura do missionrio e a arma.
  - Pronto! - disse por fim, saltando da cadeira.
  Sempre que podia, Pedro entrava furtivamente na cela do padre, tomava
o punhal nas mos, acariciava-o, experimentava-lhe a ponta, punha-o na
cinta e imaginava-se  um guerreiro como o corregedor, o alferes real
Tiaraju, que era o homem que ele mais admirava na reduo. Gostava de
v-lo empunhar o arco e frechar aves em pleno  vo, dar tiros de
mosquete, manejar a lana montado num cavalo a todo o galope, e gritar
ordens para os soldados... Ficava de respirao alterada quando via o
alferes  nos dias de procisso todo metido no seu uniforme de guerreiro
de Espanha, pistolas e espada na cintura, cavalgando seu belo ginete...
  Pedro ficava-se ali na cela a imaginar essas coisas. Depois repunha o
punhal sobre a mesa e retirava-se sem rudo, como uma sombra.
  Um dia dom Rafael procurou o padre Alonzo, trazendo-lhe 
  Pedro e um problema.
  - Padre - disse o cacique, apontando para Pedro. - Este menino anda
dizendo por todo o povo que viu Nossa Senhora.
  Alonzo sorriu e respondeu:
  67
  - Todos vemos Nossa Senhora. Est na igreja, no Seu altar. O ndio
sacudiu a cabea, obstinadamente.
  - No, padre. Ele diz que viu Nossa Senhora em carne e
  osso.
  - Nossa Senhora  esprito... - murmurou o padre, baixando os olhos
para o menino.
  O cacique exclamou:
  - Eu no te disse? - E segurando o menino pelos ombros,
  sacudiu-o todo. - Eu no te disse?
  Os olhos do rapaz estavam postos no missionrio - grandes,
  parados, quentes.
  Alonzo brincou com as contas do rosrio, fazendo um esforo
  para no sorrir.
  - Est bem, cacique. Pode ir e deixe o menino comigo. Vou
  interrog-lo.
  Dom Rafael retirou-se. Houve um silncio. Era na casa dos padres 
hora do anoitecer. Andava no ar um cheiro de carne assada, e vinha de
longe o som das cantigas  dos homens que voltavam da lavoura. Alonzo
aproximou-se do menino, pousou-lhe nos ombros ambas as mos e depois
perguntou, olhando-o bem nos olhos: , - Qual  o  oitavo mandamento?
  - No levantar falso testemunho.
  - Est bem. Sabes, ento, que mentir  pecado...
  - Sei.
  - E sabes que se de repente morresses depois de teres dito
  uma mentira tua alma iria direito ao Purgatrio?
  - Sei.
  - Vais ento falar a verdade?
  - Vou, padre.
  - Perfeitamente.
  Pedro estava parado no meio da sala, de braos cados, os olhos fitos
num plido pedao de cu que a janela emoldurava. Alonzo comeou a andar
calmamente dum lado  para outro, com as mos tranadas s costas. Houve
alguns segundos de silncio.
  De repente o jesuta estacou na frente do menino e perguntou:
  - Viste Nossa Senhora?
  68
  - Vi.
  - Onde?
  - No cemitrio.
  - Quando?
  - Todos os dias.
  - Todos os dias? Que vais fazer todos os dias no cemitrio?
  - Ver minha me.
  - E consegues v-la?
  - Consigo.
  - Mas como, se ela est enterrada!
  - Ela desce do cu.
  Alonzo fitou os olhos no rosto de Pedro e viu nele uma tamanha
expresso de inocncia, que por um momento imaginou que ele pudesse
estar dizendo a verdade. Mas  como estava habituado s fantasias dos
ndios - que viam as mais absurdas aparies - insistiu:
  - Olha aqui, Pedro. Presta bem ateno. A alma de tua me, cujo corpo
est enterrado no cemitrio, desce do... cu?
  - Desce.
  - Todos os dias?
  - Todos.
  - Vem... junto com Nossa Senhora?
  Pedro sorriu e ergueu as sobrancelhas num espanto.
  - Mas ela  Nossa Senhora!
  - Quem?
  - Minha me.
  - Pedro! - exclamou o padre. E quando deu acordo de si estava
sacudindo a criana, bem como havia poucos minutos fizera o cacique dom
Rafael. - Pedro!
  - Que , padre? - A voz do menino era tranqila, doce e meio nasalada
como a voz da chirimia na qual ele tocava suas rnusiquinhas.
  Alonzo no disse nada. Deixou cair os braos, sacudiu a cabea
devagar, respirou fundo e de novo comeou a caminhar dum lado para
outro. Ficou por um instante  junto da janela olhando as cores do
horizonte. E aos 
  poucos sua irritao se transformou em diver-
  69
  tida curiosidade. E foi sorrindo que tornou a aproximar-se do rapaz,
passando-lhe a mo pela cabea. Sua voz tinha um tom amigo e confidente
quando ele perguntou:
  - Ento, Pedro, tua me  Nossa Senhora?
  - Mas no ?
  - Bom... E tu a vs todos os dias no cemitrio?
  - Vejo.
  - Como  ela?
  - Bonita... branca... vestida de azul.
  - De onde vem?
  - Do cu.
  - Sozinha?
  - Vem numa nuvem puxada por anjos.
  - E a nuvem desce sobre o cemitrio?
  - Primeiro faz uma volta ao redor da torre da igreja, depois desce
devagarinho e se some. E ento Nossa Senhora fica ali no meio das
cruzes.
  - E que  que ela diz?
  - Diz: "Como vais, Pedro?"
  - E tu, que respondes?
  - Primeiro me ajoelho e beijo a mo dela, depois digo: "Eu
  bem, e a Senhora?
  - Mas... quando beijas a mo de Nossa Senhora, sentes que elas so de
carne, como as minhas, como as do cacique...?
  - No so de carne.
  - Como so?
  - So de esprito. E tm um cheiro bom.
  - Cheiro de incenso?
  - No. Cheiro de rosa.
  - Rosa?
  - Rosa mstica.
  Perturbado, Alonzo comeou a assobiar baixinho. Por fim tornou a
perguntar:
  - E depois... que acontece?
  - Depois ela me convida para dar um passeio, pega a minha mo e vamos
passear.
  - Aonde vo?
  70
  - Samos os dois voando num cavalo branco. Vamos para aquele lado.
  Pedro ergueu o brao e apontou para o nascente.
  - Para o Rio Grande de So Pedro?
  - Isso mesmo.
  - E que  que ela te mostra l?
  - Campos, ndios, soldados, povos, padres, igrejas...
  - Que mais?
  - E meu pai.
  - Teu pai? Como  ele?
  -  um guerreiro como o nosso alferes real. Tem um chapu de dois
bicos com penachos coloridos... E pistolas... e um cavalo com arreios de
prata e ouro.
  - Como sabes que esse guerreiro  teu pai? -- Nossa Senhora me diz.
  - E tu falas com teu pai?
  - No. S olho...
  - E depois?
  - Depois ns voltamos. Nossa Senhora diz: "Vai para casa, Pedro, seno
o cacique te castiga. Adeus". Eu beijo de novo a mo dela e volto.
  Alonzo segurou o queixo de Pedro e f-lo alar o rosto.
  - Pedro, ests falando a verdade? -- Estou, padre.
  - Por Deus?
  - Por Deus.
  O rosto do menino tinha uma expresso de nsia. O do padre, de pasmo.
  - Sabes que se eu descobrir que mentes nunca mais permitirei que
sirvas de coroinha?
  - Sei, padre.
  - E que nunca mais permitirei que representes nos autos? -- O menino
sacudia a cabea. Seus olhos fitavam os de Alonzo, firmes, sem piscar. -
E que nunca mais  te deixarei tocar msica? - Pedro fazia que sim, e o
padre prosseguia: - E que nunca mais te deixarei entrar na minha cela? -
Uma pausa. Alonzo respirou fundo, lentamente,  como para dominar a
comoo. Depois, destacando
  71
  bem as palavras, perguntou: - Pedro, tu viste mesmo Nossa
Senhora?
  Na penumbra da sala, que apenas a luz do entardecer fracamente
alumiava, o rosto do menino tinha uma pureza de imagem.
  - Vi, padre. Vejo todos os dias...
  Alonzo largou-lhe o queixo. Fez um gesto de desamparo e disse:
  - Est bem. Podes ir!
  Pedro fez meia-volta e se foi em silncio, deixando Alonzo com sua
dvida e sua perplexidade.
  Alonzo ia sendo aos poucos consumido pelo lento fogo que se lhe
acendera no peito desde o dia em que chegara aos Sete Povos a notcia da
assinatura do Tratado de Madri. Era um braseiro de paixo, misto de
revolta nascida da conscincia duma injustia, de mgoa e - embora ele
relutasse em reconhecer - de dio. De faces descarnadas, dum amarelo
lvido a que a barba cerrada emprestava um tom esverdeado, ele comia e
dormia pouco e mal, e vivia num permanente estado de agitao fsica e
espiritual. A roupeta negra lhe ia ficando cada vez mais folgada no
corpo anguloso; a voz se lhe tornava azeda e spera, os gestos nervosos,
e s vezes toda a  vida que havia nele parecia concentrar-se unicamente
nos carves ardentes dos olhos.
  Aqueles ltimos anos haviam sido particularmente difceis e duros,
talvez os mais dolorosos de sua existncia. Outra vez estava ele em face
duma tragdia. Agora,  porm, no se tratava apenas de sua pessoa, mas
sim de dezenas de milhares de criaturas humanas. Ele sofria na carne e
nos nervos o drama dos Sete Povos. No se  conformava com a idia de que
aquela obra abenoada da Companhia de Jesus, aquele trabalho precioso de
mais de um sculo estivesse a pique de desmoronar-se. A princpio
parecera a ele e aos outros padres que a Espanha, percebendo afinal as
desvantagens que lhe traria aquele tratado injusto e absurdo, tudo faria
para
  72
  revog-lo. Era uma insensatez entregar a Portugal, em troca da Colnia
do Sacramento, aquelas ricas terras das misses orientais, com
aldeamentos prsperos, templos  magnficos, estncias, lavouras,
casas... Por outro lado, como seria possvel fazer a mudana de mais de
trinta mil ndios para o outro lado do rio Uruguai sem causar-lhes
danos irreparveis? Como transportar sem riscos mais de setecentas mil
cabeas de gado?
  Alonzo lera e relera os termos do tratado, no qual havia um artigo
que, pela sua cnica simplicidade, lhe ficara gravado na memria:
  "Das Povoaes ou Aldeias que cede Sua Majestade Catlica na margem
oriental do Uruguai, sairo os Missionrios com todos os mveis, e
efeitos, levando consigo  os ndios para aldear em outras terras da
Espanha; e os referidos ndios podero levar tambm todos os seus bens
mveis e semoventes, e as Armas, Plvora e Munies  que tiverem; em
cuja forma se entregaro as Povoaes  Coroa de Portugal, com todas
suas Casas, Igrejas, e Edifcios e a propriedade e posse do terreno..."
  Todas as casas, igrejas, edifcios e propriedades! Por meio dum frio
pedao de papel, el-rei movia as trinta mil e tantas almas daquelas
redues como se elas  fossem utenslios de pouco ou nenhum valor!
  Em fins de 1752 chegara aos Sete Povos o jesuta Lope Lus Altamirando
com a incumbncia de convencer os curas de So Loureno, So Lus e So
Borja a sarem com  parte de seus povos rumo dos terrenos escolhidos
para os novos aldeamentos em terras do Paraguai. Fora, porm, to grande
entre os ndios a indignao contra aquele  padre - a seu ver um agente
secreto da Coroa de Portugal - que Altamirando se vira obrigado a fugir
intempestivamente para no ser morto por um grupo de habitantes  de So
Miguel.
  O padre Matis, o superior das misses, declarara repetidamente que nem
em cinco anos seria possvel fazer aquela mudana em massa que os
representantes de Espanha  e Portugal esperavam se
  73
  processasse dentro apenas do prazo de alguns meses. Para principiar,
era difcil encontrar do outro lado do rio terrenos apropriados para a
instalao das aldeias  com suas lavouras e estncias de gado. Alonzo
horrorizava-se  idia de que para chegar ao terreno que estava
reservado a seu povo, ao norte do Queguai, teriam de  percorrer duzentas
lguas de deserto!
  Durante todos aqueles anos os padres das misses, de um e outro lado
do Uruguai, tinham despachado cartas de protesto. O prprio governador
de Buenos Aires havia  feito uma representao ao rei de Espanha,
mostrando-lhe os inconvenientes daquela permuta, contra a qual se
manifestaram tambm a Audincia Real de Charcas e o  bispado de Crdoba
e Tucumn.
  Tudo, porm, fora em vo. O tratado estava sendo cumprido. A
demarcao comeara. Portugueses e espanhis tinham ficado indiferentes
a todos os protestos. Havia  um, porm, diante do qual no podiam apenas
encolher os ombros: era a manifestao dos ndios, que haviam impedido
de armas nas mos que a primeira partida demarcadora  entrasse em terras
de So Miguel.
   frente desses rebeldes achava-se o corregedor Sep Tiaraju. Bradara
ele corajosamente em face dos representantes de Portugal e Espanha que
Deus e So Miguel  haviam dado aquelas terras aos ndios; e que se a
comisso e os soldados espanhis quisessem entrar nelas, seriam bem
recebidos, mas que os portugueses, esses jamais  poriam o p naqueles
campos.
  A partida demarcadora achara prudente retirar-se para o rio da Prata,
pois fora informada de que estavam reunidos na reduo cerca de oito mil
ndios em armas,  dispostos  guerra. Essa primeira vitria causara
grande contentamento nas misses. Alonzo, porm, no se iludira. Ele
sabia que o gesto de rebeldia dos ndios equivalera  a uma abertura de
hostilidades.
  Pelo inverno de 1753 divulgou-se a notcia de que os exrcitos de
Portugal e Espanha tinham decidido declarar guerra aos Sete Povos.
  J ento lavrava a revolta e a desordem entre os ndios, que no mais
obedeciam aos padres. A disciplina das redues se quebrava. Caciques,
corregedores e alcaides  estavam resolvidos a enfrentar os exrcitos
aliados. E Alonzo via, agoniado, transformar-se
  a vida daqueles povos, onde agora s se faziam preparativos blicos.
Os hinos religiosos eram substitudos pelos cantos tribais de guerra,
entoados com o fervor  do dio. Os estandartes da Igreja tinham sido
postos de lado para dar lugar a bandeiras vermelhas, que os cavaleiros
ndios agitavam ao vento, de povo em povo, para  incitar os companheiros
ao combate. Os padres que tentassem cham-los  razo eram desacatados e
s vezes corriam at o risco de serem agredidos.
  Em tudo isso o que mais espantava Alonzo era ver que a piedade, a
cortesia e as inclinaes pacifistas dos indgenas no passavam dum
tnue verniz que agora se  quebrava para mostrar a natureza verdadeira
daquela gente, que aos olhos dos padres se revelava com a fora
escandalosa duma nudez medonha. A antecipao da luta  com todas as
possibilidades de violncia deixava-os intoxicados. As praas das
redues enchiam-se de rumores de guerra. Nas oficinas j no mais se
esculpiam imagens  nem se forjavam instrumentos de trabalho: agora s se
fabricavam armas e munies. As lavouras estavam abandonadas, pois os
homens vlidos haviam sido convocados  para formar o grande exrcito das
misses. Alonzo decidira - e nisso tivera a reprovao do cura - encarar
a situao com realismo. Achava que os ndios tinham todo  o direito de
resistir, de no entregar aos portugueses a terra que lhes pertencia.
Assim, empenhou-se tambm em ajudar o corregedor nos preparativos
militares: instruir  os guerreiros no manejo das espingardas e das peas
de artilharia que ele prprio ajudava a fabricar. A princpio fizera
essas coisas com fria eficincia; depois  sentira que passava a
trabalhar com interesse e finalmente com uma paixo que chegava a ser
quase voluptuosa.
  Numa tarde, em fins de janeiro de 1756, pouco antes de partir para uma
das batalhas da campanha, o capito Sep lhe mostrara uma carta que
acabara de receber e  cujos dizeres impressionaram Alonzo profundamente,
reforando nele a convico de que os ndios estavam com a boa causa. A
carta rezava assim: "Apenas se aproximem  esses homens que nos
aborrecem, devemos invocar a proteo de Nossa Senhora e de So Miguel e
de So Jos, e de todos os santos, e se forem de corao, as nossas
preces sero 
  74
  75
  ouvidas. Devemos evitar toda a conferncia com os espanhis e ainda mais
com os portugueses, que de todo o mal so a causa. Lembraivos como em
todos os tempos antigos  mataram muitos milhares de nossos pais, sem
perdoarem nem as inocentes crianas, e como nas nossas igrejas
profanaram as imagens que adornam os altares dedicados  a Deus Nosso
Senhor. E como queriam tornar a fazer-nos o mesmo, a ns e aos nossos.
No queremos aqui esse Gomes Freire e a sua gente, que por instigao do
diabo  tanto dio nos tem. Foi ele que enganou o seu rei e a nosso bom
monarca, e por isso no queremos receb-lo. Temos derramado o sangue no
servio del Rei, pelejando  em suas batalhas na Colnia e no Paraguai, e
ainda ele nos diz que abandonemos nossas casas, nossa Ptria! Este
mandamento no  de Deus,  do diabo, mas o nosso  rei anda sempre pelos
caminhos de Deus, no do demnio: assim no-lo tm dito sempre. Ele
sempre nos amou como seus pobres vassalos sem jamais buscar oprimir-nos
nem fazer-nos injustia, e quando souber todas essas cousas, no podemos
crer que nos mande abandonar quanto temos e entreg-lo aos portugueses;
nunca o acreditaremos.  Por que no lhes d ele Buenos Aires, Santa F,
Comentes e o Paraguai? Por que h de somente sobre ns, pobres ndios,
recair a ordem de deixar casas, igrejas, tudo  quanto possumos e que
Deus nos dera? Se querem conferncias, que no venham mais de cinco
espanhis, e o padre, que  pelos ndios, ser intrprete. Desta forma
se faro as coisas como Deus quiser, seno ser o que quiser o demo."
  Alonzo lera a carta e tornara a entreg-la a Sep Tiaraju, que a
metera sob a camisa, no dia em que sara a enfrentar os exrcitos
inimigos mandados para atac-lo,  sob o comando do governador de
Montevidu.
  Alonzo despediu-se do alferes real ali na praa da reduo,  frente
da catedral. E quando o capito Sep montou a cavalo e desapareceu com
seus homens na encosta  do outeiro, Pedro puxou a manga da roupeta do
padre e disse:
  - O capito Sep no volta mais.
  Alonzo lanou um olhar de censura para o menino e murmurou:
  76
  - No digas uma coisa dessas!
  Pedro olhava para o horizonte com seus olhos mansos e lmpidos, e com
aquela expresso de alheamento que tanto impressionava os padres e os
ndios.
  Impaciente, Alonzo segurou o menino por ambos os braos e comeou a
sacudi-lo num frenesi. O rosto de Pedro, porm, no se alterou.
  - O capito Sep vai morrer - repetiu ele.
  O padre sentiu uma sbita nusea. Ele sabia, por amarga experincia,
que as premonies daquela criana sempre se confirmavam.
  - Cala a boca! - gritou.
  Pedro calou-se. Alonzo encaminhou-se, ento, para a igreja, de olhos
baixos, olhando fixamente para a prpria sombra no cho.
  Se Jos Tiaraju morrer - refletiu - estar tudo perdido. E assim, como
temia o autor da carta que havia pouco ele lera, as coisas se fariam no
como Deus as queria  mas sim como o demo as esperava...
  Fora aquela uma guerra cheia de armistcios prolongados, durante os
quais os otimistas nos Sete Povos chegaram a dizer: "O inimigo
compreendeu afinal que no nos  pode vencer. Um exrcito como o nosso,
que tem chefes como Nicolau Languiru e Sep Tiaraju, jamais poder
conhecer a derrota".
  Um dia o prprio cura dissera a Alonzo:
  -  bem possvel que as coisas vo ficando como esto e que ns, pela
graa de Deus, possamos continuar em nossas terras.
  Alonzo, porm, sacudira a cabea, que aqueles anos de provao haviam
embranquecido, e murmurara:
  - No creio. Eles esto apenas a preparar o ataque final. - Disse isso
e mentalmente acrescentou: "Queira o bom Deus que eu me engane!"
  77
  Mas no se enganava. Os exrcitos unidos de Portugal e Espanha
gastaram quase trs anos em aprestos para a batalha decisiva. E durante
esse spero trinio acontecera  algo que deixara Alonzo intrigado e
presa de inquietadoras dvidas.  que desde o primeiro encontro entre os
ndios e a partida demarcadora nas proximidades de Santa  Tecla, ele
assistira ao nascimento e ao desenvolvimento duma lenda e dum dolo.
  Muitas vezes, nas suas horas de solido na cela, ficava ele a pensar
nas coisas que vira e ouvira, e na qualidade fantstica que naquela
atmosfera de nervosismo  e excitao assumiam os fatos e as palavras
mais triviais. Os ndios tinham uma imaginao rica, eram supersticiosos
e estavam sempre prontos a invocar o milagre  para explicar as coisas
que no compreendiam.
  Desde o primeiro momento o corregedor Jos Tiaraju se erguera como um
chefe natural daqueles guerreiros indgenas. Alonzo nunca chegara a
penetrar bem a alma daquele  belo homem de rgida postura marcial, parco
de palavras e de gestos. No estava Sep entre os ndios que revelavam
vocao para a msica, para a escultura, para  a pintura ou para a
dana, mas possua evidentemente outros talentos. Sabia ler e escrever
com fluncia, tinha habilidade para a mecnica e conhecia a doutrina
crist  melhor que muitos brancos letrados que se jactavam de serem bons
catlicos. Ningum melhor que ele domava um potro ou manejava o lao;
poucos podiam ombrear com  ele no conhecimento e trato de terra; e
aquela guerra mostrara que ningum o suplantava como chefe militar e
guerrilheiro.
  Em tempos de paz, muitas vezes Alonzo ficara surpreendido ante as
sentenas que o alferes real pronunciava, na qualidade de corregedor de
seu povo. Resolvia problemas  judicirios com um equilbrio e um senso
de justia que fariam inveja aos magistrados das cortes europias. Sabia
exprimir-se com preciso e economia de palavras,  e nas suas sbias
sentenas Alonzo vislumbrava s vezes uma pontinha de ironia, o que o
deixava a pensar nas ricas reservas mentais daquela raa considerada
pelos  brancos inferior e brbara. Alonzo no saberia dizer ao certo
como tinha comeado a lenda. Desconfiava, porm, que fora Pedro quem
fizera rolar pela
  78
  encosta da montanha a bola de neve que atravs do espao e do tempo
fora engrossando at tomar as propores duma avalancha. Em fins de 1752
Pedro divulgara a  sua verso do famoso encontro entre o alferes real e
os membros da primeira partida demarcadora.
  - Nesse momento -- contara o menino, arrematando a histria - os
espanhis e os portugueses quiseram avanar, mas nosso corregedor
levantou a espada, que era de  fogo como a do arcanjo So Miguel, os
inimigos recuaram assustados e fugiram a toda a brida.
  Ao redor dele homens, mulheres e crianas o escutavam.
  - A espada era mesmo de fogo? - perguntou um dos ndios. Pedro fez com
a cabea um veemente sinal afirmativo.
  - Como pudeste ver tudo isso que se passou to longe daqui, se no
saste da misso? 
  - Tive uma viso - respondeu o menino sem pestanejar. Em outra
ocasio, Sep voltara duma escaramua e ficara no
  centro da praa a arengar seu povo; e falara com tanto ardor que a
cicatriz em forma de meia-lua que tinha na testa comeara a ficar
vermelha e reluzente.
  Pedro contemplava-o, embevecido, e num dado momento sussurrou para as
pessoas que estavam a seu lado:
  - Olhem... Deus botou um lunar na testa de Sep.
  Essa frase passou num cicio pela multido, de boca em boca. Jos
Tiaraju tinha um crescente na testa, como uma luminosa marca de Deus. E
com o passar do tempo  e das batalhas, a estatura do heri foi
crescendo...
  Um dia os povos tiveram notcia dum hbil ardil de Sep. Espalhara ele
pela margem direita do Jacu, onde os adversrios se achavam acampados,
algumas cabeas  de gado e, isso feito, emboscara-se com seus ndios. Ao
verem os animais soltos, os soldados portugueses e espanhis exultaram
e, na perspectiva duma presa fcil,  saram desarmados a repontar o
gado. Foi ento que Tiaraju saiu do esconderijo com sua gente e os
dizimou.
  Poucos dias depois da Pscoa, no ano de 1754, cara sobre a reduo,
com o peso duma clava, a notcia de que Sep Tiaraju
  79
  
  tinha sido aprisionado pelos inimigos. Alonzo viu ento um negro
desnimo tomar conta de sua gente a ponto de por alguns dias reduzi-la a
um estado de absoluta  apatia. E estava ela ainda a lamentar a perda do
chefe quando uma tarde Pedro se pendurou na corda do sino da igreja,
fazendo-o soar num ritmo desesperado de alarma.  Os ndios correram para
a frente do templo e, encarapitado no alto da torre, o menino gritou
para baixo:
  - Sep Tiaraju est livre!
  Contou-lhes que tinha tido uma viso em que o corregedor lhe aparecera
montado num cavalo, a correr pelo meio dos soldados de Espanha e
Portugal, que atiravam  nele com suas pistolas e mosquetes, sem
entretanto conseguir atingi-lo; e Sep lanara-se ao rio, atravessara-o
a nado, sumira-se no mato, na margem oposta, onde  finalmente se reunira
aos companheiros.
  Uma semana depois chegava  misso um mensageiro contando que Sep
havia fugido; e a narrativa dessa fuga coincidia com a viso de Pedro.
  Os ndios, ento, entraram na igreja para render graas a Deus. Pedro,
que rezava ajoelhado ao lado de Alonzo, tocou no brao do jesuta e
cochichou:
  - Padre...
  Alonzo voltou a cabea e perguntou baixinho:
  - Que , meu filho?
  - Jos Tiaraju  o arcanjo So Miguel.
  - No digas heresias.
  - , padre. Eu sei. Olhe para a cara do santo.
  Alonzo olhou para a imagem e muito a contragosto descobriu-lhe nas
feies traos do alferes real.
  - No contes isso a ningum, Pedro.
  Mas Pedro contou. Saiu a espalhar por todos os cantos que o padre
Alonzo lhe afirmara que o corregedor era uma encarnao do arcanjo.
  Doutra feita, estando Sep longe de seu povo em andanas guerreiras,
chegou  misso a notcia de que o capito-general portugus Gomes
Freire, conde de Bobadela,  mandara chamar Tiaraju para uma conferncia.
O mensageiro, testemunha ocular do fato,
  descrevia a cena com abundncia de pormenores. Tudo se passara num
mato, nas imediaes do rio Jacu, onde o conde lusitano se encontrava
acampado com seu exrcito.
  Convidado a vir parlamentar com o capito-general, a princpio Sep
respondera:
  - Se ele quiser conversar comigo, que venha at onde estou. Como,
porm, seus oficiais insistissem, Sep resolveu aceitar
  o convite e foi. Gomes Freire tinha feito estender no cho um grande
tapete, sobre o qual,  maneira de trono, colocara uma cadeira de campo.
Sentara-se nela para  esperar o rebelde, mas tivera antes o cuidado de
cercar-se de guardas e de colocar a pequena distncia os seus drages
faanhudos, armados de lanas e pistolas.  Acompanhado de alguns de seus
homens, Sep fez alto a umas quatro quadras do lugar onde o conde o
aguardava. Apareceu o intrprete, que vinha da parte do chefe portugus,
e disse:
  - Deves vir desarmado.
  
  Sep retrucou:
  - Mas por qu, se o general e seus homens esto armados? Ditas essas
palavras, Tiaraju aproximou-se do conde de Bobadela e, de cabea
erguida, bradou:
  - Bendito seja o Santssimo Sacramento!
  - Apeie e beije a mo do general - intimou-o o intrprete. O ndio
baixou para ele um olhar de desdm e respondeu:
  - Beijar a mo de teu general? A troco de qu? Pensas acaso que estou
na terra dele e no na minha?
  Ao ouvir essa resposta traduzida pelo intrprete, Gomes Freire
exclamou, irritado:
  - Diga a esse ndio que ele  um brbaro. Sep sorriu e respondeu
simplesmente:
  - Diz ao teu patro que ele  mais brbaro que eu.
  O general estava vermelho de clera. Sempre de cabea alada, em cima
de seu cavalo, o corregedor resumiu seu pensamento assim:
  - Vim aqui, general, para te dizer que o exrcito espanhol retrocedeu
e nos deixou em paz. E que tu e teu exrcito devem fazer o mesmo e
voltar imediatamente.   s o que tenho a dizer-te.
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  81
  Gomes Freire ergueu-se e, de punho cerrado, comeou a fazer ameaas.
Tinha gente e armas e coragem em quantidade suficiente para conquistar
os Sete Povos - declarou  ele, apontando com a mo cheia de anis na
direo de noroeste.
  Sep limitava-se a sorrir quando o intrprete, que suava
abundantemente, traduzia as palavras do conde. Finalmente este ltimo
tornou a sentar-se, passou a mo  pela testa mida, e quando de novo
falou foi num tom conciliador. Comeou a fazer grandes promessas: daria
a Sep e seus capites lindos presentes vindos especialmente  de
alm-mar: jias, armas, arreios, uniformes... E como prova de
cordialidade - acrescentava o narrador - o conde, tirando do bolso sua
caixinha de tabaco, chegara  a oferecer uma pitada a Jos Tiaraju, o
qual, fechando o cenho, gritou para o intrprete:
  - Vai-te para o diabo, negro! Pensas que preciso de teu tabaco? Pensas
que no tenho tabaco? Tenho, e do bom, muito melhor que o teu.
  A entrevista terminou intempestivamente. Sem sequer acenar com a
cabea para o capito-general, Tiaraju esporeou o cavalo e se foi.
  Os feitos de Sep e seus guerrilheiros corriam pelos Sete Povos, e
testemunhas oculares das batalhas contavam que no meio da refrega tinham
visto o lunar a fulgir  na testa do corregedor, que passava inclume por
entre as balas, brandindo no ar a espada flamejante.
  Por toda a parte contavam-se histrias de novos milagres de Tiaraju, e
quando este aparecia na misso, todos queriam tocar-lhe as vestes.
Alonzo vira mulheres  ajoelhadas aos ps do guerreiro, a beijar-lhe
reverentemente as mos.
  Um dia Pedro improvisou na chirimia uma msica buclica; e quando ele
terminou, Alonzo, que estivera a escut-lo num silncio reflexivo,
perguntou:
  - Que foi que tocaste, Pedro?
  O menino ficou um momento de olhar vidrado, absorto em seus
pensamentos, e depois respondeu:
  82
  -  uma msica que inventei. Chama-se Lunar de Sep.
  Em princpios de fevereiro daquele terrvel ano de 1756, Alonzo
dirigia-se uma noite para a cela, quando, ao se aproximar dela, ouviu
rumor de vozes l dentro.  Parou um instante, aguou o ouvido. Quem
podia estar no quarto a conversar aquela hora? Acercou-se da porta na
ponta dos ps e abriu-a sem rudo e olhou. O vulto  de Pedro
delineava-se contra o cu noturno que a janela enquadrava. Ficou o padre
a observ-lo em silncio. O menino tinha nas mos alguma coisa que
brilhava  luz  do luar - o punhal - e murmurava palavras que Alonzo no
conseguia compreender. Permaneceu assim durante algum tempo, como se
estivesse conversando com algum...
  - Pedro! - exclamou o padre.
  Sem o menor sobressalto, o menino voltou serenamente a cabea na
direo da porta e disse:
  - Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
  Alonzo aproximou-se dele. Agora via-lhe o rosto  vaga claridade da
noite. Naquele instante as feies da criana lhe feriram a retina com
tal intensidade e numa  to pura impresso de beleza que por alguns
segundos o padre perdeu a voz. Ficou a olhar para Pedro com a boca
entreaberta e lgrimas nos olhos. Finalmente conseguiu  balbuciar: --
Que  que ests fazendo aqui, meu filho?
  - Conversando com o alferes real.
  Por alguns instantes Alonzo ficou de novo mudo. Era mais uma das
"coisas esquisitas" do rapaz. Todos sabiam que Sep Tiaraju estava
longe, tinha sado com seus  homens para enfrentar as tropas aliadas.
  - Nosso alferes est a dezenas de lguas daqui, meu filho. Como podias
estar conversando com ele?
  Pedro apertava amorosamente o punhal contra o peito.
  - Jos Tiaraju morreu, padre.
  - Morreu? Quem te disse?
  - Eu vi.
  - Que foi que viste?
  83
  Mau grado seu, o padre sentia que as pulsaes de seu corao se
aceleravam.
  - Vi o combate. O alferes foi derrubado do cavalo por um golpe de
lana. Vi quando ele quis erguer-se e um homem... um general... de cima
do cavalo varou-lhe o  peito com uma bala.
  Alonzo segurou a cabea do menino com ambas as mos e aproximou-a de
seu rosto como se quisesse ler-lhe os pensamentos no fundo dos olhos.
  - Como podias ter visto isso tudo se o combate foi travado to longe
daqui?
  Pedro respondeu simplesmente:
  - Eu vi.
  - Disseste que estavas conversando com o corregedor.
  - Estava.
  - E que te dizia ele?
  - Dizia que seu corpo tinha sido atirado num mato perto dum rio. E que
a batalha estava perdida.
  - Onde estava ele quando te falou?
  - L em cima. A alma de Sep subiu ao cu e virou estrela. Alonzo
largou a cabea do menino, que fez meia-volta e se
  encaminhou para a janela, puxando o padre docemente pela manga da
sobretnica. Ergueu o dedo e mostrou o crescente:
  - Deus botou tambm na testa da noite um lunar como o de So Sep.
  - So Sep? - repetiu o padre, meio estonteado.
  Sem dizer palavra e sem fazer o menor gesto, Alonzo viu o menino
guardar o punhal entre a camisa e o peito, e sair da cela em silncio.
  Trs meses depois, quando o exrcito dos Sete Povos j havia sido
completamente desbaratado numa batalha campal, e os habitantes do povo
de Alonzo, desesperados,  prendiam fogo  catedral e s casas, para que
elas no cassem intatas nas mos do inimigo vitorioso que se aproximava
- Pedro montou num cavalo baio e, levando  consigo apenas a roupa do
corpo, a chirimia e o punhal de prata, fugiu a todo galope na direo do
grande rio...
  84
  Jos Borges, meu bom homem, de que serve ter nas veias o sangue de
Jacques de Bruges, o gentil-homem flamengo que veio para a ilha nos
tempos do infante Dom Henrique?
  Ele possua terras, vinhedos e trigais; jias, baixelas de prata,
carruagens, cama fofa e mesa farta. Mas tu que tens? S lhe herdaste a
pele clara, os olhos azuis,  os cabelos ruivos. Teu po  escasso, tua
aorda  magra e teus filhos no tm o que vestir.
  Jos Borges, deixa tua ilha, aceita o convite d'el-rei.
  E num dia de estio, e h sol sobre o mar.
  Z Borges na praa de Angra soletra o edital d'el-rei.
  ...fazer merc aos Casais das ditas Ilhas, que se quiserem estabelecer
no Brasil de lhes facilitar o transporte e estabelecimento, mandando-os
transportar  custa  de sua Real Fazenda, no s por mar, mas tambm por
terra at os stios que lhes destinarem para as suas habitaes, no
sendo os homens de mais de quarenta anos  e no sendo as mulheres de
mais de trinta...
  Crescem os olhos de Z Borges, ao lerem as promessas d'el-rei.
  ...e logo que chegarem aos stios que ho de habitar se dar a cada
casal uma espingarda, duas enxadas, um machado, uma enx, um martelo, um
faco, duas facas,  duas tesouras,
  85
  duas verrumas e uma serra com sua lima e travadoura, dous alqueires de
sementes, duas vacas e uma gua...
  E ali na praa de Angra, Z Borges pe-se a sonhar. V suas terras e
rebanhos, come po de seu trigal, bebe vinho de suas uvas, mora em casa
senhorial, vai  missa  no domingo numa carruagem com pajens, tem
escravos que o servem, vizinhos que o adulam, v os filhos j crescidos,
casa as filhas com morgados...
  Volta para casa estonteado e conta o sonho  mulher.
  Ai, meu Deus, Nossa Senhora! Para o Brasil eu no vou. Tenho medo do
mar, dos ndios, das feras e das febres.
  Mas vo. Dizem adeuses chorando aos amigos que ficam. Caminham para o
porto com suas trouxas e bas. O pai, a me e cinco filhos: sete sombras
caladas no cho  da ilha Terceira.
  Naquele exato momento, a mais de mil lguas de distncia, do outro
lado do mar oceano, onde o dia  mais novo, outras sombras se movem no
cho da vila da Laguna.  Um homem e seu cavalo.
  Me chamo Francisco Nunes Rodrigues, mais conhecido por Chico
Rodrigues. Venho do planalto de Curitiba. Meus pais? Se tive, perdi.
Onde nasci no me lembro. Mas  ds que me tenho por gente, ando vagando
mundo.
  Apeia na frente duma venda, entra, pede comida e pouso.
  Pra onde se atira, patrcio?
  Prs campos do Rio Grande de So Pedro.
  Pra l muito povo tem ido, desta vila e doutros lugares. Vi gentes que
saram apenas com a roupa do corpo e a bolsa vazia. Sei que hoje so
senhores de estncias  de gado, com lguas de sesmaria; tem pataces,
onas, cruzados, boas botas e senhoria. Mas ouvi dizer que no Continente
a vida  dura, os ndios so brabos, e   preciso ter cuidado com os
vizinhos castelhanos, com as feras e as cobras e o Regimento de Drages.
  Chico Rodrigues come, enquanto o vendeiro fala.
  Pois , Laguna est morrendo, todo o mundo vai s'embora, rumo desses
campos do Sul. Uns vo prear gado, outros buscar ouro e prata, outros
requerer sesmaria, outros  o que fazem  tropas pra vender em
  86
  So Paulo, Minas e Curitiba. Ai! Laguna est morrendo, bem como a
mulher que na hora de parir o filho comea a se esvair em sangue...
  Mas a vida  assim mesmo. Uns morrem, outros nascem.
  E uma coisa eu lhe digo. Tome nota do meu nome. Inda vai dar muito que
falar um tal de Chico Rodrigues.
   noite no mar. Deitado no convs do navio, Z Borges olha as estrelas
e conversa com Deus.
  Senhor, por que assim nos castigais? Faz sessenta dias e sessenta
noites que no pisamos terra. Matastes dois filhos nossos, que foram
sepultados no mar. Vossas  guas esto furiosas, meu corpo arde em
febre, minha mulher chora e geme, e os filhos que me restam sentem frio,
fome e sede. Senhor, que grande pecado foi o nosso?
  As estrelas luzem tranqilas sobre as ondas e as velas.
  H setenta casais a bordo, mas a Morte embarcou tambm. No se passa
um nico dia em que no lancem um defunto ao mar. So as febres malignas
e o medonho mal-de-luanda.
  Cinzentos como cadveres, homens e mulheres vomitam os dentes com
sangue.
  E de suas bocas purulentas sai um hlito podre de peste.
  Outros rolam nos beliches treme-tremendo de febre. 
  E o capito indiferente aponta para o cu, mostra a algum o Cruzeiro
do Sul.
  O lavrador do Fayal que ontem perdeu o juzo debrua-se  amurada,
olha os horizontes da noite e comea a recitar
  Sobe, sobe meu gajeiro quele mastro real.
  V se vs terras d'Espanha, Areias de Portugal.
  No dia seguinte avistam as areias do Continente.
   aqui que fica o presdio e o sr. general, com seus drages
faanhudos, de cabeleiras compridas, fardamento azul-marinho com debruns
dourados, capacete com penacho  azul e amarelo, espadim  cinta
  87
  e ps descalos. Os famosos Drages do Rio Grande, comedores de milho
e abbora, de poeira e distncias.
  Cinco sombras da ilha Terceira nas areias do Rio Grande. Faltam duas,
para onde foram? So sombras no fundo do mar.
  Z Borges, mulher e filhos embarcam num batelo, sobem a grande
laguna, vo para os campos do Viamo. L encontram outros casais das
ilhas. Mas na Capela Grande  as imagens dos santos tm faces para eles
estranhas.
  Fazem casa de barro com coberta de palha. Comem carne-seca com farinha
e suspiram de saudade da aorda, do po branco, da sardinha, do azeite,
da cebola e do alho.
  Z Borges, meu marido, onde esto as ferramentas, as sementes, a
espingarda, as vacas e a gua que dom Joo V nos prometeu? C estamos
como degredados, El-Rei  de ns se esqueceu.
  Tem pacincia,  mulher, Deus  grande e ningum perde por esperar.
El-Rei nos deu um quarto de lgua de terra onde podemos plantar.
  A mulher chora e diz:
  Sete palmos me bastam.
  E nos anos que se seguiram no houve quem no conhecesse no Continente
de So Pedro a fama dum tal Chico Rodrigues, chefe dum bando de
arrieiros, e que no respeitava  a propriedade de el-rei. Apossava-se de
terras sem requerer carta de sesmaria, assaltava tropas, roubava gado,
andava sempre com uma ndia na garupa e quando algum  num povoado ou
estncia bradava: A vem o Chico Rodrigues! a gritaria comeava, as
mulheres fugiam para o mato, os homens pegavam nas espingardas, era um
deus-nos-acuda.
  O comandante do Presdio ps-lhe a cabea a prmio.
  Contam que um dia Chico Rodrigues quase foi morto de emboscada por um
ndio tape. Derrubou o bugre com um tiro de garrucha, depois arrancou a
flecha que tinha  cravada no peito, aquentou um ferro no fogo e quando
viu a ponta em brasa encostou-a na ferida. Mal franziu o cenho, no
soltou um ai, e quando sentiu cheiro de  carne queimada gritou aos
companheiros:
  At me deu fome, amigos. Vamos fazer um assado. Fizeram. E como no
tinham sal esfregaram a carne nas cinzas
  e comeram.
  Por esse tempo muito povo descia para o Continente, cujas terras e
gados seriam de quem primeiro chegasse.
  Homens da Laguna, de So Paulo, das Minas Gerais e do planalto
curitibano desciam pelos caminhos das tropas.
  Muitos navegavam os rios em busca de ouro e prata.
  Um tal Joo de Magalhes transps a serra do Mar, varou o Continente e
foi parar nas barrancas do Uruguai.
  Muitos requeriam sesmarias. Outros roubavam terras.
  Ladres de gado aos poucos iam virando estancieiros.
  Nasciam povoados nos vales e nas margens daqueles muitos rios.
  As campinas andavam infestadas de aventureiros, fugitivos do Presdio
e da Colnia do Sacramento, homens sem lei e sem ptria, homens s vezes
sem nome. E era  com gente assim que Chico Rodrigues engrossava seu
bando.
  Quais so teus inimigos?
  Os bugres, as feras, as cobras, os castelhanos, e o Regimento de
Drages.
  E teus amigos?
  Meu cavalo, meu mosquete, minhas garruchas, meu faco.
  Em Santo Antnio da Guarda Velha, no Rio Grande, no Rio Pardo, em
Tramanda e Viamo no havia ningum que no tivesse ouvido falar nas
proezas dum tal Chico Rodrigues.
  E de homens como ele havia centenas e centenas.
  As patas de seus cavalos, suas armas e seus peitos iam empurrando as
linhas divisrias do Continente do Rio Grande de So Pedro.
  Queremos as ricas campinas do oeste e as grandes plancies do sul!
  S caranguejo  que fica na beira da praia papando areia.
  Pelos campos do Rio Pardo iam entrando na direo do poente,
demandando as misses. Ou desciam costeando as grandes lagoas, rumo do
Prata.
  E em todas as direes penetravam na terra dos minuanos, tapes,
charruas, guenoas, arachanes, caaguas, guaranis e guarans.
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  A fronteira marchava com eles. Eles eram a fronteira.
  Z Borges, tu plantas trigo, mas cresceu algodo na tua cabea.
  Muitos anos se passaram. Mais cinco filhos nasceram. Como o trigo
cresceram e amadureceram. Dois deles morreram, Duas das moas casaram.
Mas a mais bela de todas,  a ruiva de olhos garos, inda est solteira.
  Maria Rita, como danas bem a Chamarrita!
  Volta, minha Chamarrita,  minha Chamarritona. Trago terra n algibeira
Pra depor na manjerona.
  Encontrei a Chamarrita No mato fazendo lenha, C'o seu colete redondo
Sua saia de estamenha.
  Maria. Rita! Maria Rita! Ser que no amas ningum? Vives fiando e
cantando e ficas calada sorrindo quando os rapazes te dizem
  Aqui tens meu corao, Se o quiseres matar bem podes: Olha que ests
dentro dele, Se o matas, tambm morres.
  Em Viamo se vive na paz de Deus.
  Casas baixas de barro com rtulas pintadas de verde. Cantigas
  das Ilhas.
  Velhas de longas mantilhas pretas com rosrios nas mos, vo aos
domingos  missa em carretas de rodas macias puxadas por lerdos bois.
Fazem promessas, acendem  velas, so devotas do Esprito Santo.
  E os vagamundos aventureiros que passam por ali, riem daquelas gentes
pacatas, que respeitam a lei e odeiam a guerra, que falam cantando e s
vezes lhes preguntam:
  Aonde vades?
  Acham engraadas suas caras, suas casas, suas comidas, suas roupas,
seus cantares, suas danas: o feliz amor, o sarrabaio, a chamarrita. E
nas quermesses de maio  mofam da Pomba do Divino. Mas muitos deles tomam
parte nas cavalhadas, que  a guerra dos cristos contra
  os mouros.
  E quando esses homens sujos, de mosquete a tiracolo, chapu de couro
na cabea, faco na cinta, vem os aorianos suando ao sol das lavouras
de trigo ou mourejando  nas suas oficinas, e as mulheres graves e
caladas em casa curtindo couro, fiando, tecendo, cozinhando, lavando,
cuidando dos filhos - sacodem as cabeas guedelhudas  e no compreendem
como  que um cristo pode ficar parado sempre no mesmo lugar, a fazer a
mesma coisa o dia inteiro, a vida inteira.
  Montam a cavalo e se vo felizes para suas andanas e lidas.
  Os ventos do destino sopram Chico Rodrigues para as bandas do Viamo.
  E num domingo  sada da missa ele v Maria Rita, a de pele branca,
cabelos ruivos e olhos garos.
  Estava cansado de ndias e chinas tostadas de sol com gosto de poeira
e picum. Queria agora mulher branca.
  Foi por isso, s por isso que na noite daquele domingo tirou Maria
Rita de casa.
  E agora l vai ele com a ruiva na garupa.
  Perdi a conta do tempo, mas se no me falha a memria devo andar
beirando os cinqenta.
  Resolvi mudar de vida, requerer sesmaria, fazer casa, parar quieto,
ser um senhor estancieiro, ter mulher, gado, cavalos e filhos, todos com
a minha marca.
  Chico Rodrigues olha para uma rvore forte,  beira da estrada, e
pensa.
  De hoje em diante vou me chamar Chico Cambar.
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  91
  O Sobrado - II
  25 de junho de 1895: Madrugada
  Um grito atravessa o sono de Rodrigo, que acorda sobressaltado.
   a mame - pensa ele. O corao comea a bater-lhe acelerado. O medo
aumenta-lhe a impresso de frio, e ele sente na boca do estmago medo e
fome confundirem-se  numa mesma sensao de vazio gelado e nusea. No
tem coragem para abrir os olhos porque sabe que o quarto est s
escuras. Com o punhal nas mos e as mos apertadas  entre as pernas,
encolhido e meio trmulo, ele escuta... Deve estar saindo o filho -
imagina. Pobre da mame!
  - Bio - murmura.
  Uma pausa. Depois, cochichada bem junto de seu ouvido, a voz do irmo:
  - Que ?
  - Comeou...
  - O qu?
  - A mame. Escuta...
  Mas agora de novo est tudo em silncio.
  - No ouo nada... - sussurra Torbio. 
  - U... Ind'agorinha a mame estava gritando...
  - Decerto foi sonho.
  De novo vem do quarto contguo um grito agudo, como de algum que
tivesse sido subitamente apunhalado.
  - Ests ouvindo?
  - Estou.
  Torbio sente contra as costas as pulsaes descompassadas do corao
do irmo, e na nuca seu hlito morno e mido.
  93
  - E agora?
  Os gritos continuam, cada vez mais fortes e menos espaados. Rodrigo
rompe a chorar em soluos convulsivos.
  - No chora, bobo, no  nada.
  - Mas eu tenho pena dela, Bio.
  - Tapa os ouvidos.
  Rodrigo deixa o punhal apertado entre os joelhos, puxa a coberta sobre
a cabea e cobre os ouvidos com as mos.
   porta do quarto de Alice, Laurinda vem apanhar a chaleira d'gua
quente que Maria Valria acaba de trazer.
  - Agora vossunc espera l fora - diz a mulata.
  - No seja boba! Quero ajudar tambm.
  - Mas vossunc  uma moa solteira!
  - Voc tambm !
  Sem dizer mais nada Maria Valria entra no quarto, resoluta, e fecha a
porta.
  No andar trreo os homens esto em silncio. Os gritos de Alice, que
vm do andar superior, enchem a casa e parecem deixar o ar mais gelado.
Ningum ali na sala  de jantar tem coragem de proferir a menor palavra.
De vez em quando um dos homens pigarreia ou tosse uma tosse seca e
nervosa. L fora a gaita tambm silenciou.  Sentado no seu canto, o
velho Florncio Terra est imvel, de cabea baixa, com as mos
apertando as guardas da cadeira.
  Licurgo sente o suor frio escorrer-lhe pela testa, a saliva grossa
amargar-lhe a boca, arder-lhe na garganta. Os gritos da mulher so como
agulhadas em sua cabea.  Imvel, de p na frente do sogro, ele
espera... A qualquer momento algo de importante tem de acontecer. O
nascimento da filha... Um toque de clarim anunciando que  os
republicanos se aproximam da cidade... Ou ento um novo" tiroteio. 
preciso que acontea alguma coisa que lhe exija uma ao imediata,
porque ele simplesmente  no pode agentar mais esta imobilidade, esta
quietude. Os gemidos de Alice parecem tambm fazer parte do silncio:
so como certas vozes que nos sonhos a gente  mais v do que ouve. Sim,
tudo isto  como um horrvel pesadelo. A escurido fria, o Sobrado
cercado de inimigos, Santa F em poder dos federalistas, Alice l em
cima dando  luz uma
  criana...  preciso que acontea alguma coisa. Por que ningum fala?
Se ao menos um desses homens dissesse uma palavra ou fizesse uma
queixa... Mas qual! Esto  agachados na escurido, mudos, enrolados nos
seus ponchos. O silncio deles arde em Licurgo como uma chicotada..
Porque ele sabe as coisas amargas que aqueles homens  cansados e
enfraquecidos esto pensando dele, de seu chefe, do dono da casa. Mas
por que no falam? Se algum deixasse escapar a mnima queixa ele poderia
gritar:  "Pois vo todos embora! Entreguem-se aos maragatos! No preciso
de vocs! No preciso de ningum!"
  Quando os gritos da mulher cessam de todo, o silncio ali embaixo fica
ainda mais medonho. Alice morreu... Esta idia, que Licurgo vem se
esforando por afastar  do esprito, toma-lhe conta dos pensamentos.
Mas, no. No  possvel. No fim de contas um parto no  coisa assim
to perigosa. Milhes de mulheres tm filhos todos  os anos, em todas as
partes do mundo, nas condies mais difceis. Sua av Bibiana tivera
trs filhos assistida apenas por uma negra velha e suja, e no entanto
mal  botara as crias para fora j estava outra vez de p a cozinhar, a
tirar leite, a lavar a roupa... No. Alice est viva, tudo correu bem e
mais um Cambar chegou  ao mundo.
  Licurgo olha para o vulto do sogro. Seria bom que ele falasse,
dissesse uma palavra de incentivo, de esperana. Mas o velho continua
calado, de cabea baixa.
  De repente Licurgo ouve a prpria voz:
  - Aposto como a revoluo no dura mais nem um ms. Os federalistas j
esto se bandeando pr outro lado do Uruguai.
  Ningum parece t-lo escutado. Suas palavras caem num vcuo frio. 
como se ele tivesse falado dentro dum tmulo.
  No fundo da cozinha um homem franzino ergue-se e encaminha-se de
mansinho para a sala de jantar. O Antero - pensa Licurgo, reconhecendo o
vulto. - "Decerto quer  se entregar. Nunca tive confiana nesse nanico."
Fica esperando, subitamente aquecido pelo fogo duma raiva nascente.
"Dou-lhe um pontap no rabo
  
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  e boto ele porta afora." Mas o homenzinho passa de largo, em silncio,
entra na despensa e fecha a porta atrs de si.
  Antero acende um fsforo. A chama ilumina-lhe o rosto barbudo, no qual
avulta um nariz chato e lustroso; sob as espessas sobrancelhas negras,
os olhos, de esclertica  suja, tm uma fixidez gelatinosa e meio morta.
  Com o pau de fsforo aceso, preso entre o polegar e o indicador, 
acocora junto do ferido.
  Tinoco - murmura com sua voz encatarroada, observando
  o rosto do outro  luz da pequena chama. O ferido no responde, o
fsforo se apaga, e nos dedos trmulos de Antero fica apenas o palito em
brasa. - Tinoco!
  Torna a acender um fsforo. Tinoco abre os olhos e fita-os em Antero.
Seus lbios se movem mas no conseguem articular palavra: sai deles
apenas um ba-ba-ba infantil,  mole e viscoso.
  - Tu no me conhece... - diz Antero com voz apertada. - Sou irmo do
Leovegildo. O Leovegildo Moura, te lembra?
  Tinoco pisca e suas faces tm um estremecimento nervoso. O fsforo se
apaga. Na escurido mida do quarto, Antero prossegue:
  - Te lembra, cachorro? O Leovegildo, que tu matou numas carreiras.
  Morre-lhe a voz no fundo da garganta. H uma pausa em que s se ouve a
respirao spera do ferido.
  - Este mundo  muito pequeno e d muita volta - continua o homenzinho.
- E Deus  grande.
  Solta um suspiro longo, fundo, sentido.
  - Ele era um menino bom que no fazia mal pra ningum. E tu matou ele,
bandido. Ele estava desarmado, covarde. Te absolveram, disseram que foi
defesa legtima.  Mentira! Foi mas  banditismo, malvadeza. Tu matou o
menino por causa de dez mil-ris.
  Risca outro fsforo.
  - Quero ver tua cara outra vez, assassino. Por que tu no fala, hein?
Deus  grande e Deus castiga. Tua lngua est dura, tua queixada est
dura, teu corpo est  duro. Tudo que a gente faz neste mundo, aqui mesmo
paga.
  Muito arregalados, cheios duma expresso de vtrea estupidez, os olhos
de Tinoco esto presos ao rosto de Antero, que continua:
  - Eu podia te queimar esses olhos, no podia? - Aproxima a chama dos
olhos do outro, que se fecham. - Por que tu no te mexe? Por qu? Porque
.tu est paraltico,  tua perna est podre, teu peito est podre, teu
corao, esse sempre foi podre.
  O fsforo se apaga entre os dedos de Antero.
  - Este mundo  mesmo muito pequeno. Quando trouxeram pra casa o corpo
do Leovegildo, nossa me quase morreu do choque. Desde esse dia nunca
mais endireitou, a  coitada. Est me escutando, assassino?
  Risca o quarto fsforo.
  - Olha, canalha, faz anos que estou rezando pra chegar esta hora. Eu
podia te esperar de tocaia e te meter uma bala no peito. Mas isso era
traio. Eu no queria  que tu morresse de repente. Queria mas era te
ver morrendo aos poucos, purgando os teus pecados. Deus  grande. Deus
nos reuniu nesta casa. Foi Deus que me mandou.
  Tira da cinta a faca, aproxima-a do pescoo de Tinoco.
  -- Eu podia te degolar agora, se quisesse. Assim... - Encosta a lmina
no pescoo do outro. - Ests sentindo o fio da minha faca?
  Tinoco comea a gemer baixinho, a baba escorre-lhe pelos cantos da
boca, um suor azedo e viscoso poreja-lhe a testa, entra-lhe pelas
barbas.
  - Mas no sou bandido como tu, ouviu? No quero que teu sangue imundo
suje a minha arma.
  A chama do fsforo se extingue.
  - Tu est perdido. Deus castiga. Tu est fedendo, est podre. Tu vai
morrer. Deus  grande.
  Tinoco tenta dizer alguma coisa, sua mandbula move-se rigidamente por
alguns segundos, mas da boca s lhe sai um gluglu de agonia.
  - Tenho ainda um fsforo aqui. Quero ver essa cara nojenta que os
bichos da terra amanh decerto vo comer. E at a hora da morte tu vai
pensar no menino que tu  matou, bandido.
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  Do peito de Antero rompe um soluo. E com voz sumida ele choraminga:
  - Mas nada disso faz o Leovegildo ressuscitar.
  Acende o ltimo pau de fsforo. Puxa do peito um pigarro e, com
 sbita fria, escarra no rosto do ferido.
  - Este  em nome do Leovegildo. Torna a escarrar-lhe na testa.
  - Este  em nome da minha me, que tu tambm matou de desgosto.
  Ergue-se, com a chama do fsforo a morrer-lhe entre os dedos. E de p
cuspinha ainda sobre o outro, com menos fora, j com certa relutncia.
  - E este  em meu nome.
  Atira a brasa do fsforo no cho e, todo trmulo, sai da despensa, na
ponta dos ps.
  Licurgo sobe as escadas devagarinho, com um mau pressentimento a
oprimir-lhe o peito. L em cima no quarto de Alice tudo parece ter
terminado. No entanto ele no  ouve choro de criana. Que ter
acontecido? Com os dedos crispados sobre o corrimo, ele sobe os degraus
lentamente, sem nenhum desejo de chegar ao andar superior.
  Pelas bandeirolas tricolores das janelas comea a entrar a claridade
plida do dia que nasce. Licurgo fica por alguns instantes imvel junto
da porta fechada do  quarto da mulher. O nico rudo que vem l de
dentro  um surdo rumor de passos. Ergue a mo para bater mas hesita,
fica com o punho no ar, e depois deixa cair o  brao. Nesse momento a
porta se abre, e contra a luz amarelenta do interior da alcova
desenha-se o vulto de Maria Valria. Por alguns segundos ela fica em
silncio,  olhando para o cunhado. Depois sussurra:
  - A criana nasceu morta. Era uma menina.
  Licurgo tem a impresso de que foi baleado no peito. Estonteado,
engole em seco, cerra os dentes, faz um esforo desesperado para conter
as lgrimas.
  - E a Alice?
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  A cunhada encolhe os ombros.
  - No sei... Est muito abatida e precisa dormir um pouco. Licurgo
fica pensando em Aurora. As vozes do futuro agora
  so fnebres: "Coitadinha. Nasceu morta naquela noite horrvel".
  - Quer ver a criana?
  - No.
  Licurgo faz meia-volta e dirige-se para a escada. Suas botas pesam
como ferro sobre o soalho. Maria Valria acompanha-o com o olhar
cansado.
  O vento sopra forte, sacudindo as vidraas do Sobrado, agitando as
rvores do quintal. Estendida na cama, dona Bibiana acorda de repente,
com uma sensao de pnico.  Que foi que aconteceu? Onde estou?
  Ainda h pouco em seus sonhos havia luz, brilhava o sol. Agora o que
ela v  uma sombra confusa. Fica escutando o vento nas vidraas e o
silncio do casaro.  Onde estar sua gente?
  - Maria Valria! - grita ela. - Maria Valria! Licurgo! Nenhuma
resposta. S o gemido do vento, o frio e a escurido.
  Sob as cobertas dona Bibiana cruza os braos e aperta-os contra o
peito. Se ao menos lhe trouxessem um braseiro para botar debaixo da
cama... Ou lhe dessem um  chimarro bem quente... Encolhida de frio e de
medo, ela comea a rezar automaticamente. No meio da orao perde-se,
esquece as palavras, mas aos poucos se vai lembrando  das outras coisas.
O Sobrado cercado... a revoluo... o parto de Alice... Teria nascido a
criana? Menino ou menina? Onde esto todos? Por que no vm me contar
nada? Nunca ningum me conta nada. Valria! Curgo! Rodrigo! Torbio!
Nada. Ningum. S o silncio do casaro, o vento nas vidraas e o tempo
passando...
  - Bem dizia a minha av - resmunga dona Bibiana, cerrando os olhos. -
Noite de vento, noite dos mortos.
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  Ana Terra
     "Sempre que me acontece alguma coisa importante, est ventando" -
costumava dizer Ana Terra. Mas, entre todos os dias ventosos de sua
vida, um havia que lhe ficara  para sempre na memria, pois o que
sucedera nele tivera fora de mudar-lhe a sorte por completo. Mas em que
dia da semana tinha aquilo acontecido? Em que ms? Em  que ano? Bom,
devia ter sido em 1777: ela se lembrava bem porque esse fora o ano da
expulso dos castelhanos do territrio do Continente. Mas na estncia
onde Ana  vivia com os pais e os dois irmos, ningum sabia ler, e mesmo
naquele fim de mundo no existia calendrio nem relgio. Eles guardavam
de memria os dias da semana;  viam as horas pela posio do sol;
calculavam a passagem dos meses pelas fases da lua; e era o cheiro do
ar, o aspecto das rvores e a temperatura que lhes diziam  das estaes
do ano. Ana Terra era capaz de jurar que aquilo acontecera na primavera,
porque o vento andava bem doido, empurrando grandes nuvens brancas no
cu,  os pessegueiros estavam floridos e as rvores que o inverno
despira, se enchiam outra vez de brotos verdes.
  Ana Terra descia a coxilha no alto da qual ficava o rancho da
estncia, e dirigia-se para a sanga, equilibrando sobre a cabea uma
cesta cheia de roupa suja, e  pensando no que a me sempre lhe dizia:
"Quem carrega peso na cabea fica papudo". Ela no queria ficar papuda.
Tinha vinte e cinco anos e ainda esperava casar.  No que sentisse muita
falta de homem, mas acontecia que casando
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  poderia ao menos ter alguma esperana de sair daquele cafund, ir
morar no Rio Pardo, em Viamo ou at mesmo voltar para a Capitania de
So Paulo, onde nascera.  Ali na estncia a vida era triste e dura.
Moravam num rancho de paredes de taquarau e barro, coberto de palha e
com cho de terra batida. Em certas noites Ana ficava  acordada debaixo
das cobertas, escutando o vento, eterno viajante que passava pela
estncia gemendo ou assobiando, mas nunca apeava do seu cavalo; o mais
que podia  fazer era gritar um - " de casa!"- e continuar seu caminho
campo em fora. Passavam-se meses sem que nenhum cristo cruzasse aquelas
paragens. s vezes era at bom  mesmo que eles vivessem isolados, porque
quando aparecia algum era para trazer incmodo ou perigo. Nunca se
sabia. Uma vez tinham dado pouso a um desconhecido:  vieram a saber
depois que se tratava dum desertor do Presdio do Rio Grande, perseguido
pela Coroa como autor de sete mortes. O pai de Ana costumava dizer que
quando  via um leo baio ou uma jaguatirica, no se impressionava:
pegava o mosquete, calmo, e ia enfrentar o animal; mas quando via
aparecer homem, estremecia.  que ali  na estncia eles estavam
ressabiados. A princpio tinham sofrido os castelhanos, que dominaram o
Continente por uns bons treze anos e que de tempos em tempos surgiam  em
bandos, levando por diante o gado alheio, saqueando as casas, matando os
continentinos, desrespeitando as mulheres. De quando em quando grupos de
ndios coroados  desciam das bandas da coxilha de Botucara e se vinham
da direo do rio, atacando as estncias e os viajantes que encontrassem
no caminho. Havia tambm as "arriadas",  partidas de ladres de gado,
homens malvados sem rei nem roque, que no respeitavam a propriedade nem
a vida dos estancieiros. Por vezes sem conta Ana e a me tinham  sido
obrigadas a fugir para o mato, enquanto o velho Terra e os filhos se
entendiam com os assaltantes - agressivos se estes vinham em pequeno
nmero, mas conciliadores  quando o bando era forte.
  Mas havia pocas em que no aparecia ningum. E Ana s via a seu redor
quatro pessoas: o pai, a me e os irmos. Quanto ao resto, eram sempre
aqueles coxilhes  a perder de vista, a solido e o vento. No havia
outro remdio - achava ela - seno trabalhar para esquecer o medo, a tristeza, a aflio... Acordava e pulava
da cama, mal raiava o dia. Ia aquentar a gua para o chimarro dos
homens, depois comeava  a faina diria: ajudar a me na cozinha, fazer
po, cuidar dos bichos do quintal, lavar a roupa. Por ocasio das
colheitas ia com o resto da famlia para a lavoura  e l ficava
mourejando de sol a sol.
  Ana Terra fez alto, deps o cesto no cho e suspirou. O vento impelia
as palmas dos coqueiros na mesma direo em que esvoaavam seus cabelos.
Para que lado ficava  Sorocaba? Os olhos da moa voltaram-se para o
norte. L, sim, a vida era alegre, havia muitas casas, muita gente, e
festas, igrejas, lojas... A povoao mais prxima  ali da estncia era o
Rio Pardo, para onde de tempos em tempos um de seus irmos ia com a
carreta cheia de sacos de milho e feijo, e de onde voltava trazendo
sal,  acar e leo de peixe.
  O olhar de Ana continuava voltado para o norte. O pai prometera
vagamente voltar para So Paulo, logo que juntasse algum dinheiro. Mas
dona Henriqueta, que conhecia  bem o marido, desencorajava a filha:
"Qual nada! Daqui ele no sai, nem morto". E dizendo isso, suspirava. s
vezes, quando estava sozinha, chorava, mas na frente  do marido vivia de
cabea baixa e raramente abria a boca.
  Ana tornou a apanhar o cesto, ergueu-o e descansou-o sobre o quadril
direito e, assim como quem carrega um filho escanchado na cintura,
continuou a descer para  a sanga. Avistou a corticeira que crescia 
beira d'gua e seus olhos saudaram a rvore como se ela fosse uma amiga
ntima. Uma lagartixa passou correndo  sua frente  e sumiu-se por entre
as macegas. Ana pensou em cobra e instintivamente voltou o olhar para a
direita, rumo da coxilha no alto da qual havia uma sepultura. L estava
enterrado o corpo de seu irmo mais moo, que morrera havia alguns anos,
picado por uma cascavel.
  A sanga corria por dentro dum capo. As folhas das rvores farfalhavam
e suas sombras no cho mido do orvalho da noite eram frescas, quase
frias. Ana aproximou-se  da pedra onde sempre batia roupa, e deps o
cesto junto dela. Deu alguns passos  frente,
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  ajoelhou-se  beira do poo fundo, fez avanar o busto, baixou a
cabea e mirou-se no espelho da gua. Foi como se estivesse enxergando
outra pessoa: uma moa  de olhos e cabelos pretos, rosto muito claro,
lbios cheios e vermelhos. No tinha sequer um caco de espelho em casa-,
e no dia em que pedira ao irmo que lhe trouxesse  de Rio Pardo um
espelhinho barato, o pai resmungara que era uma bobagem gastar dinheiro
em coisas inteis. Para que queriam espelho naqueles cafunds onde Judas
perdera as botas?
  Ana Terra sorria: a moa da sanga sorria tambm, e seu rosto era
atravessado pelos vultos escuros dos lambaris que se moviam dentro
d'gua. Ana ficou a contemplar-se  por algum tempo, com a vaga sensao
de que estava fazendo uma coisa muito boba, muito imprpria duma mulher
de sua idade. Agora em seus pensamentos um homem falava  de cima de seu
cavalo. Tinha na cabea um chapu com um penacho, e trazia  cinta um
espadago e duas pistolas. E esse homem dizia coisas que a deixavam
embaraada,  com o rosto ardendo. Era Rafael Pinto Bandeira, o
guerrilheiro de que toda gente falava no Rio Grande. Corriam versos
sobre suas proezas e valentias, pois era ele  quem pouco a pouco estava
livrando o Continente do domnio dos castelhanos...
  Ana Terra guardava a lembrana daquele dia como quem entesoura uma
jia. Estava claro que ventava tambm na manh em que o major Pinto
Bandeira e seus homens passaram  pela estncia, a caminho do forte de
Santa Tecla onde iam atacar o inimigo. O velho Terra convidara-os para
descer e comer alguma coisa. O major aceitou o convite  e dentro em
pouco estava sentado  mesa do rancho com seus oficiais, comendo um
churrasco com abbora e bebendo uma guampa de leite. Era um homem
educado e bem-falante.  Contava-se que sua estncia era muito bem
mobiliada e farta, e que tinha at uma banda de msica.
  Ana estava perturbada em meio de tantos homens desconhecidos -
grandes, barbudos, sujos - que fanfarronavam, comiam fazendo muito
barulho e de vez em quando lhe  lanavam olhares indecentes. Num dado
momento Rafael Pinto Bandeira fitou nela os olhinhos midos e vivos e,
com pingos de leite no bigode, dirigiu-se a Maneco Terra,  dizendo:
"Vossa merc tem em casa uma
  moa mui linda". De to atrapalhada ela deixou cair a faca que tinha
na mo. O pai no disse nada, ficou de cabea baixa, assim com um jeito
de quem no tinha  gostado da coisa. O major, que continuava a olhar
para ela, prosseguiu sacudindo a cabea: "Mas  muito perigoso ter uma
moa assim num descampado destes..." O velho  Terra pigarreou, mexeu-se
na cadeira e respondeu seco: "Mas tem trs homens e trs espingardas em
casa pra defender a moa". E depois disso houve um silncio muito
grande.
  Ao se despedir, j de cima do cavalo, na frente do rancho, Pinto
Bandeira tornou a falar:
  - A sina da gente  andar no lombo dum cavalo, peleando, comendo s
pressas aqui e ali, dormindo mal ao relento pra no outro dia continuar
peleando. - O vento  sacudia o penacho do major. Os cavalos, inquietos,
escarvavam o cho. - Pois , dona, quando o ltimo castelhano for
expulso - continuou o guerreiro, sofrenando  o animal - vamos ficar
donos de todo o Continente, e poderemos ento ter cidades como na
Europa. - Baixou os olhos para Ana e murmurou: - Nesse dia precisaremos
de moas bonitas e trabalhadeiras como vossa merc. Deus vos guarde! -
Ergueu o chapu no ar e se foi.
  Ana escutara-o com o rosto em fogo. O pai ficou de cabea baixa,
calado. Ela se lembrava bem do que o velho Terra e Antnio, o filho mais
velho, tinham dito depois.
  - Pai, eu acho que devia ter ido com eles... - murmurou o rapaz,
olhando os soldados que se afastavam na direo do poente.
  O velho respondeu:
  - No criei filho pra andar dando tiro por a. O melhor  vosmec
ficar aqui agarrado ao cabo duma enxada. Isso  que  trabalho de homem.
  - O major  um patriota, meu pai. Ele precisa de soldados para botar
pra fora os castelhanos.
  O velho ergueu a cabea e encarou o filho:
  - Patriota? Ele est mas  defendendo as estncias que tem. O que quer
 retomar suas terras que os castelhanos invadiram. Ptria  a casa da
gente.
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  E agora ali a olhar-se no poo, Ana Terra pensava nas palavras do
guerrilheiro: "... precisaremos de moas bonitas e trabalhadeiras".
Bonitas e trabalhadeiras.  Bonitas, bonitas, bonitas...
  Ergueu-se, caminhou para o lugar onde estava o cesto, tirou as roupas
para fora, ajoelhou-se, apanhou o sabo preto e comeou a lav-las.
Enquanto fazia isso cantava.  Eram cantigas que aprendera ainda em
Sorocaba. S cantava quando estava sozinha. s vezes, perto da me,
podia cantarolar. Mas na presena do pai e dos irmos tinha  vergonha.
No se lembrava de jamais ter ouvido o pai cantar ou mesmo assobiar.
Maneco Terra era um homem que falava pouco e trabalhava demais. Severo e
srio, exigia  dos outros muito respeito e obedincia, e no admitia que
ningum em casa discutisse com ele. "Terra tem s uma palavra" -
costumava dizer. E era verdade. Quando  ele dava a sua palavra, cumpria,
custasse o que custasse.
  De sbito ali ao p do poo Ana Terra teve a impresso de que no
estava s. A mo que batia a roupa numa laje parou. Em compensao o
corao comeou a bater-lhe  com mais fora... Esquisito. Ela no via
ningum, mas sentia uma presena estranha... Podia ser um bicho, mas
podia ser tambm uma pessoa. E se fosse um ndio? Por  um instante
esteve prestes a gritar, sob a impresso de que ia ser flechada. Sentia
que o perigo vinha da outra margem... Sentia mas no queria erguer os
olhos.  Com o corao a pulsar-lhe surdamente no peito, ela esperava...
Quando caiu em si estava olhando para um homem estendido junto da sanga,
a umas cinco braas de onde  se encontrava.
  Ana Terra apanhou uma pedra com ambas as mos. Se ele avanar pra mim
- pensou - atiro-lhe a pedra na cabea. Era a ttica que usava contra
cobra... Foi-se erguendo  devagarinho, sem tirar os olhos do corpo, que
continuava imvel, cado de borco, os braos abertos em cruz, a mo
esquerda mergulhada na sanga. Ana Terra recuou  um passo, dois, trs...
O desconhecido no fez o
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  menor movimento. Tinha o torso nu, manchado de sangue, e seu chirip
estava todo rasgado. Seus cabelos eram pretos e longos e sua face se
achava quase completamente  escondida atrs duma macega.
  De repente Ana fez uma rpida meia-volta, largou a pedra e
precipitou-se a correr na direo da casa. Ao chegar ao alto da coxilha
avistou o pai e os irmos que  trabalhavam na lavoura e correu para
eles, fazendo sinais com os braos. Antnio veio-lhe ao encontro.
  - Que foi que houve? - gritou de.
  O pai e Horcio largaram as enxadas e tambm se encaminharam para Ana,
que dizia, quase sem flego:
  - Um homem... um homem... E apontava na direo da sanga.
  - Onde? - perguntavam eles. - Onde?
  - Na beira da sanga... deitado... eu vi. Estava lavando roupa... de
repente...
  A garganta lhe ardia, o corao parecia querer saltar-lhe pela boca.
  - De repente vi aquilo... Parece que est ferido... ou morto... ou
dormindo. No sei.
  Ana tinha agora diante de si trs caras morenas, curtidas pelo vento e
pelo sol. Ali estava o pai, com os grossos bigodes grisalhos, o corpo
pesado e retaco, o  ar reconcentrado; Antnio, alto e ossudo, os cabelos
pretos e duros, e Horcio, com seu rosto de menino, o buo ralo e os
olhos enviesados. Em todas aquelas caras  havia um retesamento de
msculos, j uma rigidez agressiva. Escutaram a narrativa rpida e
ofegante de Ana, consultaram-se numa troca de olhares, precipitaram-se
para a casa, apanharam as espingardas e desceram os trs a passo
acelerado na direo da sanga.
  Ana entrou no rancho e contou tudo  me, que estava junto do fogo
botando no forno uma forma de lata com broas de milho. Dona Henriqueta
escutou-a em silncio,  tapou o forno, ergueu-se limpando as mos na
fmbria da saia e fitou na filha os olhos tristes e assustados.
  - Quem ser, Ana? Quem ser?
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  - No sei, mame. Acho que ele est muito ferido. Decerto veio se
arrastando pra beber gua na sanga e desmaiou.
  Dona Henriqueta sacudia a cabea devagarinho. Aquilo no era vida!
Viviam com o corao na mo. Os homens do Continente no faziam outra
coisa seno lidar com  o perigo. Tinha saudade de Sorocaba, de sua casa,
de seu povo. L pelo menos no vivia com o pavor na alma. s vezes temia
ficar louca, quando o filho ia com a carreta  para Rio Pardo, o marido
saa a camperear com o Horcio e ela ficava ali no rancho sozinha horas
e horas com a filha. Ouvia contar histrias horrveis de mulheres  que
tinham sido roubadas e levadas como escravas pelos ndios coroados, que
acabavam obrigando-as a se casarem com algum membro da tribo.
Contavam-se tambm casos  tenebrosos de moas que eram violentadas por
bandoleiros. Seria mil vezes prefervel viver como pobre em qualquer
canto de So Paulo a ter uma estncia, gado e lavoura  ali naquele
fundo do Rio Grande de So Pedro.
  Dona Henriqueta olhava desconsolada para a velha roca que estava ali
no rancho, em cima do estrado. Era uma lembrana de sua av portuguesa e
talvez a nica recordao  de sua mocidade feliz. Casara com Maneco
Terra na esperana de ficar para sempre vivendo em So Paulo. Mas
acontecera que o av de Maneco fora um dos muitos bandeirantes  que
haviam trilhado a estrada da serra Geral e entrado nos campos do
Continente, visitando muitas vezes a Colnia do Sacramento. Quando
voltava para casa, tantas  maravilhas contava aos filhos sobre aqueles
campos do Sul, que Maneco crescera com a mania de vir um dia para o Rio
Grande de So Pedro criar gado e plantar. Antes  dele seu pai, Juc
Terra, tambm cruzara e recruzara o Continente, trazendo tropas. Todos
diziam que o Rio Grande tinha um grande futuro, pois suas terras eram
boas  e seu clima salubre. E eles vieram... E j tinham pago bem caro
aquela loucura. O Lucinho l estava enterrado em cima da coxilha. E
quanto mais o tempo passava mais  o marido e os filhos iam ficando como
bichos naquela lida braba - carneando gado, curando bicheira, laando,
domando, virando terra, plantando, colhendo e de vez  em quando brigando
de espingarda na mo contra ndios, feras e bandidos. Parecia que a
terra ia se entranhando no
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  s na pele como tambm na alma deles. Andavam com as mos encardidas,
cheias de talhos exalos. Maneco  noite deitava-se sem mudar a camisa,
que cheirava a suor,  a sangue e a carne crua. Naquela casa nunca
entrava nenhuma alegria, nunca se ouvia uma msica, e ningum pensava em
divertimento. Era s trabalhar o quanto dava  o dia. E a noite - dizia
Maneco - tinha sido feita para dormir. Que ia ser de Ana, uma moa,
metida naquele cafund? Como  que ia arranjar marido? Nem ao Rio Pardo
o Maneco consentia que ela fosse. Dizia que mulher era para ficar em
casa, pois moa solta d o que falar.
  Dona Henriqueta respeitava o marido, nunca ousava contrari-lo. A
verdade era que, afora aquela coisa de terem vindo pra o Rio Grande e
umas certas casmurrices,  no tinha queixa dele. Maneco era um homem
direito, um homem de bem, e nunca a tratara com brutalidade. Seco,
calado e opinitico - isso ele era. Mas quem  que  pode fugir ao gnio
que Deus lhe deu?
  - Eles vm vindo, mame! - exclamou Ana, que estava junto  janela.
  Dona Henriqueta aproximou-se da filha, olhou para fora e avistou o
marido e os filhos, que carregavam lentamente um corpo.
  - Minha Nossa Senhora! - murmurou. - Que ser que vai acontecer?
  Dentro de alguns minutos os homens entraram em casa e deitaram o
desconhecido numa das camas.
  - gua, gente! - pediu Maneco. - Depressa.
  Ana Terra caminhou para o fogo, apanhou a chaleira de ferro tisnado,
despejou gua numa gamela e levou-a ao pai. Foi s ento que, numa
sbita sensao de constrangimento  e quase de repulsa, viu o rosto do
estranho. Tinha ele uma cara moa e trigueira, de mas muito salientes.
Era uma face lisa, sem um nico fio de barba, e dum bonito  que chamava
a ateno por no ser comum, que chocava por ser to diferente das caras
de homem que se viam
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  naquelas redondezas. A tez do desconhecido era quase to acobreada
como a dos ndios, mas suas feies no diferiam muito das de Antnio ou
Horcio. Os cabelos,  lisos e negros, desciam-lhe quase at os ombros e
o que impedia que ele parecesse efeminado era a violenta masculinidade
de seus traos. Havia ainda para Ana um  outro elemento de inquietao e
estranheza: era aquele torso nu e musculoso, aquele peito largo e suado,
que subia e descia ao compasso da respirao.
  De sbito Ana viu-lhe o ferimento no ombro esquerdo, um orifcio
arredondado do tamanho duma ona, j meio apostemado e com sangue
coalhado nas bordas. Ficou vermelha  e perturbada, como se tivesse
enxergado alguma parte secreta e vergonhosa do corpo daquele homem.
Desviou os olhos dele imediatamente.
  Maneco Terra falava em voz baixa com os filhos.
  - O chumbo ainda est l dentro - dizia. - Este animal perdeu muito
sangue.
  Antnio tirou a faca da cintura, foi at o fogo, aqueceu-lhe a ponta
nas brasas e depois voltou para junto do ferido.
  Ana no podia esquecer aquela cara... Estava inquieta, quase ofendida,
e j querendo mal ao estranho por causa das sensaes que ele lhe
provocava. Era qualquer  coisa que lhe atacava o estmago, dando-lhe
engulhos; mas ao mesmo tempo tinha desejos de olhar para aquele mestio,
muitas vezes, por muito tempo, apesar de sentir  que no devia, que isso
era feio, mau, indecente. Veio-lhe  mente uma cena de seu passado.
Quando tinha dezoito anos visitara com os pais a cidade de So Paulo  e
uma tarde, estando parada com a me a uma esquina, viu passar uma calea
que levava uma vistosa dama. Toda a gente falava daquela mulher na
cidade. Diziam que  tinha vindo de Paris, era cantora, uma mulher da
vida... Ana sabia que no devia olhar para ela, mas olhava, porque
aquela mulher colorida e cheirosa parecia ter  feitio, como que puxava
o olhar dela. Era loura, estava toda vestida de sedas e rendes, e tinha
o pescoo, os braos e os dedos coruscantes de jias. Uma mulher  da
vida, uma ordinria... Ana contemplava-a de boca aberta, fascinada, mas
ao mesmo tempo com a sensao de estar cometendo
  110
  um feio pecado. Pois tivera havia pouco a mesma impresso ao olhar
para aquele desconhecido.
  Antnio terminou a operao, aproximou-se da me com a faca manchada
de sangue, e mostrou-lhe o pedao de chumbo grosso que tinha na palma da
mo.
  - Ser que a ferida vai arruinar? - perguntou dona Henriqueta.
  Antnio sacudiu os ombros, como quem diz: A mim pouco se me d.
  O homem continuava estendido no catre, imvel. Maneco Terra mirou-o
por algum tempo e depois disse:
  - Tem jeito de ndio.
  - Mas no  ndio puro - observou Antnio em voz baixa. -  muito alto
pra ser ndio, e a pele dele  mais clara que a dos bugres.
  Houve um curto silncio. Maneco Terra sentou-se num mocho e comeou a
enrolar um cigarro.
  - No gosto da cara desse diabo - resmungou.
  - Nem eu - disse Horcio.
  - Quando ele acordar, d-se comida pra ele e manda-se embora - decidiu
o dono da casa.
  Os filhos no disseram nada. A um canto do rancho Ana, que olhava
fixamente para o ferido, apontou de repente para ele e perguntou:
  - O que  aquilo?
  Antnio seguiu com o olhar a direo do dedo da irm, deu alguns
passos para a cama e meteu a mo por baixo da faixa que o desconhecido
tinha enrolada em torno  da cintura e tirou de l alguma coisa. Os
outros aproximaram-se dele e viram-lhe nas mos um punhal com cabo e
bainha de prata lavrada. Antnio desembainhou-o, rolou  a lmina nas
mos calosas, experimentou-lhe a ponta e murmurou:
  - Linda arma!
  O punhal passou pelas mos do velho Maneco e depois pelas de Horcio.
  - Onde ser que o ndio roubou isso?
  111
  Ningum respondeu. Maneco Terra guardou o punhal na gaveta da mesa,
apanhou uma espingarda e entregou-a  filha.
  - Sente aqui, segure esta arma e fique de olho nesse homem, que ns
vamos voltar pra lavoura. Se ele comear a se mexer, mande sua me nos
avisar ou ento d um  grito. Mas no largue a espingarda, e se ele
avanar, faa fogo.
  Maneco Terra e os filhos saram. Tinham as calas de ganga escura
arregaadas at meia canela, e suas camisas, muito curtas e sujas,
esvoaavam ao vento.
  Ana sentou-se, com a arma de fogo sobre as coxas, o olhar fixo no
desconhecido.
  O sol j estava a pino quando o homem comeou a mexer-se e a
resmungar. Os Terras tinham acabado de comer e Ana tirava da mesa os
pratos de p-de-pedra. O ferido  abriu os olhos e por muito tempo ficou
a olhar para as pessoas e as coisas do rancho - a olhar dum jeito vago,
como quem no compreende ou no se lembra... Depois  soergueu-se
devagarinho, apoiado nos cotovelos, apertou os olhos, mordeu os lbios e
soltou um gemido. Os Terras, sem afastar os olhos dele, mantinham-se
imveis  e calados onde estavam, numa espera meio agressiva. O
desconhecido ento sorriu um sorriso largo e demorado, levantou a mo
lentamente num gesto de paz e disse:
  - Amigo.
  Os Terras continuaram mudos. O ndio ainda sorria quando murmurou: -
Louvado seja Nosso Senhor.
  Tinha uma voz que no se esperava daquele corpo to vigoroso: macia e
doce.
  Os outros no faziam o menor movimento, no pronunciavam a menor
palavra. Mas o ndio sorria sempre e agora repetia: amigo, amigo,
amigo...
  Depois inclinou o busto para trs, e recostou-se na parede de barro.
De repente seu rosto se contorceu de dor e ele lanou um olhar oblquo
na direo do ombro  ferido.
  112
  Nesse instante Maneco Terra deu dois passos na direo do catre e
perguntou:
  - Como  o nome de vosmec?
  O outro pareceu no entender. Maneco repetiu a pergunta e o ndio
respondeu:
  - Meu nombre  Pedro.
  - Pedro de qu?
  - Me jamam Missioneiro.
  Maneco lanou-lhe um olhar desconfiado.
  - Castelhano?
  - No.
  - Continentino? , - No.
  - Donde , ento?
  - De parte ninguna.
  Maneco Terra no gostou da resposta. Foi com voz irritada que
insistiu: - Mas onde foi que nasceu?
  - Na mission de San Miguel.
  - Qual  o seu ofcio?
  - Ofcio?
  - Que  que faz? Em que trabalha?
  - Peleio.
  - Isso no  ofcio.
  Pedro sorriu. Tinha dentes fortes e alvos.
  - Que anda fazendo por estas bandas? - insistiu.
  No seu portugus misturado com espanhol, Pedro contou que fugira da
reduo quando ainda muito menino e que depois crescera nos acampamentos
militares dum lado  e doutro do rio Uruguai; ultimamente acompanhara os
soldados da Coroa de Portugal em suas andanas de guerra; tambm fizera
parte das foras de Rafael Pinto Bandeira  e fora dos primeiros a
escalar o forte castelhano de San Martinho...
  Maneco Terra voltou a cabea na direo dos filhos e olhou-os com ar
cptico.
  - Tem prova disso? - perguntou, tornando a voltar-se para Pedro.
  113
  Este ltimo comeou a apalpar a faixa e de repente seu rosto ficou
srio, numa expresso de apreensiva surpresa.
  - Donde est meu punhal?
  - No se apoquente - retrucou Maneco Terra - est bem guardado.
  Pedro continuou a apalpar a faixa. Finalmente achou o que procurava:
um papel dobrado, muito'amarelo e seboso. Desdobrouo com mo trmula e
apresentou-o ao dono  da casa. Maneco Terra no moveu sequer um dedo.
Encarou Pedro com firmeza e disse:
  - Aqui ningum sabe ler.
  Pronunciou estas palavras sem o menor tom de desculpa ou
constrangimento: disse-as agressivamente, com uma espcie de feroz
orgulho, como se no saber ler fosse  uma virtude.
  Pedro ento leu:
  "A quem interessar possa. Declaro que o portador da presente, o
tenente Pedro Missioneiro, durante mais de um ano serviu num dos meus
esquadres de cavalaria,  tomando parte em vrios combates contra os
castelhanos e revelando-se um companheiro leal e valoroso. Rafael Pinto
Bandeira."
  Horcio e Antnio entreolharam-se, ainda incrdulos. Maneco Terra
perguntou:
  - Com quem vosmec aprendeu a ler?
  Sabia que no existia uma nica escola em todo o Continente.
  - Com os padres de Ia mission - respondeu Pedro. E imediatamente
ps-se a recitar: - Lavabis me et super nivem dealbabor.
  Viu todos aqueles olhos postos nele, as caras srias e desconfiadas,
sorriu largamente e esclareceu:
  - E latim. Lngua de padre. Quer dizer: A chuva cai do cu. Lavabis 
chuva. Dealbabor  cu.
  Ana estava de boca entreaberta, atenta ao que Pedro fazia e dizia.
  O latim pareceu no impressionar Maneco Terra, que perguntou, brusco:
  - Como foi que vosmec veio parar aqui?
  114
  - Fui atacado por uns desertores do Presdio, a umas trs lguas desta
estncia. Entonces consegui montar a cabalo e vir vindo, perdendo muita
sangre no caminho.  Depois ca de flaco, o cabalo fugiu, senti olor de
gua, estava loco de sed e vim de rasto at a beira da sanga. Entonces
todo quedou escuro.
  Pedro tornou a deitar-se, como se de repente se sentisse muito fraco e
cansado. Maneco Terra ficou por algum tempo a mir-lo, com ar indeciso,
mas acabou dizendo:
  - Essa histria est mal contada. Mas d comida pr homem, Henriqueta.
  Anos depois, sempre que pensava nas coisas acontecidas nos dias que se
seguiram  entrada de Pedro naquela casa, Ana Terra nunca chegava a
lembrar-se com clareza  da maneira como aquele forasteiro conseguira
conquistar a confiana de seu pai a ponto de fazer que o velho
consentisse na sua permanncia na estncia. Porque Maneco  Terra, apesar
de todos os seus sentimentos de hospitalidade, estava decidido a mandar
Pedro Missioneiro embora, logo que o visse em condies de deixar a
cama. Resolvera  at dar-lhe um cavalo, pois no seria justo largar um
vivente sozinho e a p por aqueles desertos.
  F-lo dormir no galpo a primeira noite. Durante o dia seguinte
Antnio e Horcio foram levar-lhe comida e fazer-lhe novos curativos. A
ferida sarava com uma rapidez  to grande que Antnio no pde deixar de
exclamar:
  - Vosmec tem sangue bom, moo!
  Pedro limitou-se a dizer que Nossa Senhora, sua me, o protegia.
  Dentro de poucos dias mais estava de p, e as cores lhe tinham voltado
s faces.
  Os Terras estavam trabalhando na lavoura quando Pedro se apresentou
para ajud-los. Vestira uma camisa e umas calas velhas que Antnio lhe
dera e tinha a cabea  amarrada por um leno
  115
  vermelho que lhe cobria tambm a testa. (Bem como os castelhanos -
observou Maneco Terra, com desconfiada m vontade.) Acabou, porm, dando
uma enxada ao ndio  e refletindo assim: "Ora, eu precisava mesmo dum
peo". Mas no se sentiu bem com aquele estranho a trabalhar ali a seu
lado. Tinha-lhe um certo temor. Entre suas  convices nascidas da
experincia, estava a de que "ndio  bicho traioeiro". No conseguia
nem mesmo tentava vencer o seu sentimento de desconfiana por aquele
homem de cara rapada e olhar oblquo. Era preciso mand-lo embora o
quanto antes. Se Pedro conhecesse o seu lugar e no se aproximasse das
mulheres da casa nem tomasse  muita confiana com os homens, ainda
estaria tudo bem...
  Ora, aconteceu que Pedro trabalhou aquele dia sem conversar. Comeu a
comida que lhe levaram e quando a noite chegou recolheu-se em silncio
ao galpo. No dia seguinte  acordou antes do dia raiar e foi ordenhar as
vacas no curral. Ao sair da cama, dona Henriqueta encontrou uma vasilha
cheia de leite  porta da cabana.
  Aos poucos o mestio ia-se fazendo til. Os dias passavam e Maneco
Terra, que aceitava os servios dele com alguma relutncia, ia deixando
sempre para o dia seguinte  a resoluo de mand-lo embora. Pedro falava
pouco, servia muito e s se dirigia  gente da estncia quando era
interpelado ou ento quando precisava pedir alguma  informao ou
instruo.
  Um dia meteu-se no mato e voltou depois de algumas horas trazendo para
dona Henriqueta favos de mel de abelha e uma canastra cheia de frutas
silvestres. Doutra  feita fez um arco e flechas e saiu a caar s
primeiras horas da tarde; voltou ao anoitecer, trazendo s costas um
veado morto - com o sangue a pingar-lhe do focinho  - e trs jacutingas
presas num cip. Ps o produto da caa junto da porta do rancho, numa
oferenda silenciosa.
  Mas Maneco e os filhos ainda no estavam convencidos de que o caboclo
era pessoa de confiana. O papel que lhes fora lido, assinado por Pinto
Bandeira, podia ser  autntico mas tambm podia no ser. Pelas dvidas,
eles mantinham o punhal de Pedro fechado a chave numa gaveta, e
conservavam o ndio sob severa vigilncia. E agora  que ele tinha um
arco e flechas, passaram a temer vagamente
  116
   uma emboscada, e por mais duma madrugada Maneco Terra ficou de
olho aceso, a pensar em que na calada da noite Pedro podia entrar na
casa e mat-los todos,  um a um, enquanto dormiam. - O melhor mesmo 
mandar esse diabo embora - refletiu certa manh. Aconteceu, porm, que
nesse mesmo dia Pedro se ofereceu para domar  um potro - e f-lo com
tanta habilidade, com tamanho conhecimento do ofcio, que Maneco Terra
ao anoitecer j no pensava mais em despedi-lo. Aquele bugre era o
melhor domador que ele encontrara em toda a sua vida! Nunca vira ningum
que tivesse tanta facilidade no trato dum potro! Era como se ele
conhecesse a lngua do  cavalo, e com sua lbia tivesse o dom de
conquistar logo a confiana e a amizade do animal... Pedro precisava
ficar, pois havia muitos outros potros a domar. Quem  recebeu com maior
alegria a notcia da proeza do Missioneiro foi dona Henriqueta, que
ficava sempre em agonia quando algum dos filhos ou o marido subia para o
lombo  dum cavalo selvagem. Maneco levara certa vez uma rodada medonha,
e desde esse dia sentia umas dores nos rins. Doutra feita Antnio cara
do cavalo e quebrara uma  costela. Que dessem agora aquele servio ao
bugre! Era um achado.
  E assim Pedro Missioneiro foi ficando na estncia dos Terras, e passou
a morar numa barraca de taquara coberta de palha, que ele mesmo ergueu
na encosta da coxilha,  no muito longe da sanga.
  Por essa poca os ventos da primavera tinham amainado, e pelo cheiro
do ar, pelo calor que comeava, pelo aspecto dos campos e das rvores,
os Terras sentiram  que entrava o vero.
  Pedro construiu um forno de barro perto do curral, e um dia montou a
cavalo e saiu sem dizer aonde ia. Horcio viu-o partir e disse  me:
  - Sempre que o Missioneiro sai a cavalo, me parece que no vai voltar
mais...
  117
  - Volta, sim - garantiu-lhe dona Henriqueta, que j comeava a ter uma
certa afeio pelo ndio. - Uma coisa me diz que ele volta.
  E Pedro voltou mesmo. Voltou trazendo grande quantidade de argila.
Ningum lhe perguntou o que ia fazer com aquilo. O mestio passou o dia
a trabalhar junto do  forno aceso e no dia seguinte acercou-se de Ana,
trazendo-lhe o odre e os cinco pratos de argila que modelara. A moa
murmurou uma breve palavra de agradecimento,  sem contudo olhar para o
ndio. No tinha coragem para encar-lo de frente. Quando o via, sentia
uma coisa que no podia explicar: um mal-estar sem nome, mistura  de
acanhamento, nojo e fascinao. Chegou  concluso de que odiava aquele
homem, que sua presena lhe era to desagradvel como a de uma cobra.
Desde aquele momento  passou a ter um desejo esquisito de judiar dele,
fazer-lhe todo o mal possvel. Um dia botou-lhe cinza fria na comida.
Noutro, sem que ele visse, atirou um punhado  de sal no pote em que ele
ia beber leite. E numa ocasio em que Pedro se inclinou para apanhar
algo que cara ao cho, e ela viu aparecer uma nesga da carne de seu
torso tostado, desejou subitamente cravar as unhas naquela pele at
tirar-lhe sangue. Envergonhou-se imediatamente desse desejo, que lhe
pareceu doido, e por isso  mesmo odiou ainda mais aquele homem estranho
que lhe despertava sentimentos to mesquinhos. Mas o que maior mal-estar
lhe causava, o que mais a exasperava, era o  cheiro do suor de Pedro que
lhe chegava s narinas quando ele passava perto, ou que ela sentia nas
camisas dele que tinha de lavar juntamente com a roupa do pai  e dos
irmos. O cheiro de Pedro era diferente do de todos os outros.
  E agora que o ndio tinha sua barraca ali no caminho da sanga, nem
mais lavar a roupa em paz ela podia. O diabo do homem no lhe saa do
pensamento. Tomara que  ele v embora! - dizia Ana para si mesma, muitas
e muitas vezes por dia. Era um ndio sujo, sem eira nem beira. Como
podia ela preocupar-se tanto com uma criatura  assim! Quando estava
batendo a roupa nas pedras, ao p da sanga, Ana sempre tinha presente a
idia de que fora ali que ela vira o Missioneiro pela primeira vez...  E
agora lhe parecia que l de sua barraca ele a estava espiando: chegava a
sentir o olhar de
  118
  Pedro como um sol quente na nuca. Por tudo isso Ana temia a sanga e
deixara de tomar banho no poo.
  Numa noite de aguaceiro, depois do jantar, quando dona Henriqueta e a
filha lavavam os pratos e os homens conversavam ainda junto da mesa,
Pedro bateu  porta  e pediu licena para entrar. Ao ouvir-lhe a voz,
Ana sentiu um calafrio desagradvel. Aquela voz lhe fazia mal: era doce
demais, macia demais; no podia ser voz  de gente direita... "Pode
entrar!" - exclamou o velho Terra. Ana baixou os olhos. Ouviu o mole
rascar dos ps descalos do ndio no cho do rancho. Continuou a lavar
os pratos.
  - Vosmec me d permisso pra tocar alguma cosa? Maneco Terra
pigarreou.
  - Tocar?
  - Frauta - explicou Pedro. E mostrou a flauta que tinha feito duma
taquara.
  Os Terras entreolharam-se em silncio.
  - Est bem -- disse Maneco. Seu rosto, diante de Pedro, nunca assumia
uma expresso amiga. J agora a desconfiana e o temor duma traio
haviam desaparecido nele  quase por completo; mas ficara um certo
desajeitamento que s vezes se traduzia na maneira spera com que ele se
dirigia ao ndio.
  - Tome assento - disse o dono da casa, com ar de quem dava uma ordem
de trabalho.
  O rancho no era grande. Constava duma s pea quadrada com
reparties de pano grosseiro. A maior das divises era a.em que se
achavam todos agora. Ali faziam  as refeies e ficavam nas noites frias
antes de irem para a cama: era ao mesmo tempo refeitrio e cozinha, e a
um canto dela estava o fogo de pedra e uma talha  com gua potvel. O
mobilirio era simples e rstico: uma mesa de pinho sem verniz, algumas
cadeiras de assento e respaldo de couro, uma arca tambm de couro, com
fechos de ferro, um armrio meio desmantelado e, sobre um estrado, a
velha roca de dona Henriqueta. Numa das outras reparties ficava a cama
do casal, sobre a qual,  na parede, pendia um crucifixo de madeira
negra, com um Cristo de nariz carcomido; ao p da cama ficava um
mosquete carregado, sempre pronto para o que desse e viesse.
  119
  \ '
  Na diviso seguinte estavam os catres de Antnio e Horcio; e no
"quarto" de Ana mal cabia uma cama de pernas de tesoura, debaixo da qual
se via o velho ba de  lata onde a moa guardava suas roupas.
  A luz da lamparina de leo de peixe iluminava pobremente a casa,
despedindo uma fumaa negra e enchendo o ar dum cheiro enjoativo.
  Pedro sentou-se, cruzou as pernas, tirou algumas notas da flauta, como
para experiment-la, e depois, franzindo a testa, entrecerrando os
olhos, alando muito  as sobrancelhas, comeou a tocar. Era uma melodia
lenta e meio fnebre O agudo som do instrumento penetrou Ana Terra como
uma agulha, e ela se sentiu ferida, trespassada.  Mas notas graves
comearam a sair da flauta e aos poucos Ana foi percebendo a linha da
melodia... Reagiu por alguns segundos, procurando no gostar dela, mas
lentamente  se foi entregando e deixando embalar. Sentiu ento uma
tristeza enorme, um desejo amolecido de chorar. Ningum ali na estncia
tocava nenhum instrumento. Ana no  se lembrava de jamais ter ouvido
msica de verdade naquela casa. s vezes um dos irmos assobiava. Ou
ento eram as cantigas tristonhas e desafinadas de sua me.  Ou dela
mesma, Ana, que s cantava quando estava sozinha. Agora aquela melodia,
to bonita, to cheia de sentimento, bulia com ela, dava-lhe um aperto
no corao,  uma vontade danada de...
  Tirou as mos de dentro da gua da gamela, enxugou-as num pano e
aproximou-se da mesa. Foi ento que deu com os olhos de Pedro e da por
diante, por mais esforos  que fizesse, no conseguiu desviar-se deles.
Parecia-lhe que a msica saa dos olhos do ndio e no da flauta -
morna, tremida e triste como a voz duma pessoa infeliz.  A chuva
tamborilava no teto de palha, batia no cho, l fora... E Pedro beijava
a flauta com seus beios carnudos. s vezes a msica se parecia com as
que Ana costumava  ouvir na igreja de Sorocaba, mas dum momento para
outro ficava diferente, lembrava uma toada que um dia ela ouvira um
tropeiro assobiar ao trote do cavalo...
  A chama da lamparina danava, soprada pelo vento que entrava pelas
frestas do rancho. As sombras das pessoas refletidas nas
  120
  paredes cresciam e minguavam. Com a cabea apoiada numa das mos,
Maneco Terra escutava. Horcio olhava para o teto. Antnio riscava a
madeira da mesa com a ponta  da faca. Havia lgrimas nos olhos de dona
Henriqueta - lgrimas que lhe escorriam pelas faces sem que ela
procurasse escond-las ou enxug-las. E mesmo na tristeza  seu rosto no
perdia a expresso de resignada serenidade.
  De repente Ana Terra descobriu que aquela msica estava exprimindo
toda a tristeza que lhe vinha nos dias de inverno quando o vento
assobiava e as rvores gemiam  - nos dias de cu escuro em que, olhando
a soledade dos campos, ela procurava dizer  me o que sentia no peito,
mas no encontrava palavras para tanto. Agora a  flauta do ndio estava
falando por ela...
  A msica cessou. Fez um brusco silncio, que chegou a doer nos nervos
de Ana. Agora s se ouvia o rudo da chuva e o chiar da chama da
lamparina batida pelo vento.
  Maneco puxou um pigarro e perguntou:
  - Onde foi que aprendeu a tocar?
  - Na mission. Tambm sabia tocar chirimia.
  Maneco abriu a gaveta da mesa, tirou de dentro dela o punhal e
atirou-o para Pedro, que o apanhou no ar. No explicou nada. Achou que
no era necessrio. O ndio  recebeu a arma num silncio compreensivo.
Examinou-a por alguns instantes, p-la  cinta, ergueu-se e, sem dizer
palavra, foi-se. No momento em que ele abriu a porta,  Ana Terra por um
instante viu, ouviu e sentiu a chuva, o vento, a noite e a solido.
  7
  Os dias se faziam mais quentes e mais longos. Pelos clculos de Ana,
dezembro devia estar no fim quando Antnio saiu para o Rio Pardo com um
carregamento de milho  e feijo. Dona Henriqueta fez-lhe encomendas:
precisava de uma faca de cozinha, de fio para fiar, dum corte de cassa e
duns emplastos para as suas dores do lado.  E quando a carreta se sumiu
para as bandas do nascente, ela voltou para dentro da casa e foi rezar
ao p do crucifixo.
  121
  Numa noite de lua cheia Horcio saiu para o campo a caar tatu e
voltou pela madrugada trazendo uma mulita magra. No dia seguinte a me
preparou a caa para o  almoo e Maneco e Horcio mostraram-se
satisfeitos, pois a carne de mulita era muito apreciada por todos.
Pedro, porm, recusou-se a com-la com uma veemncia que  quase se
aproximava do horror.
  - No gosta? - perguntou dona Henriqueta.
  - Nunca provei.
  - Pois ento prove.
  O ndio sacudia a cabea obstinadamente.
  - Mas no tem outra coisa - avisou ela. - S tatu e abbora.
  Pedro fazia que no com a cabea, ao mesmo tempo que sorria, olhando
para o prato. Maneco aproximou-se dele e disse:
  - Que luxos so esses?  uma das melhores carnes que conheo.
  Pedro explicou que no costumava comer carne de mulita.
  - Mas por qu? - perguntou Horcio.
  - Porque um dia a mulita e os filhos dela ajudaram a Virgem Maria no
deserto - explicou ele.
  - Mas que bobagem  essa? - estranhou Maneco Terra. Voltaram todos
para a mesa, junto da qual Ana Terra ficara
  ouvindo tudo mas evitando olhar para Pedro e mostrar-se interessada no
que ele dizia. O ndio sentou-se, pachorrento, junto da porta e,
enquanto os outros comiam,  contou-lhes uma histria.
  Havia muitos, muitos anos o rei dos judeus ordenara a seus soldados
que matassem todas as crianas das redondezas e por isso a Virgem Maria
e seu marido So Jos  fugiram para o deserto, levando o Menino Jesus
dentro dum carrinho puxado por um burro. Mas o burro por desgraa
empacou no meio do caminho, ao passo que os soldados  que perseguiam os
fugitivos se aproximavam cada vez mais...
  Ana escutava, sem erguer os olhos do prato. No seu esprito o deserto
era verde e ondulado como os campos dos arredores da
  122
  estncia, e os rostos da Virgem e do Menino pareciam-se com os das
imagens que ela vira na Matriz de Sorocaba.
  Pedro prosseguiu:
  - Entonces a Virge viu que estava tudo perdido. Pero apareceu a mulita
na estrada e Nossa Senhora dije: "Mulita, usted tem filhos? D-me uma
gotita de leite para  meu filho que est jorando de fome". A mulita deu,
pero solo uma gotita, mui poo. O Menino continuou jorando. Entonces
Nossa Senhora dije: "Mulita, v a jamar tuas  filhas". Mulita contestou:
"Muitos filhos tengo, pero muieres poas". Pero jamou as filhas, que
dieram leite ao Menino. E Jesus quedou mui quieto.
  Ana escutava Pedro, fascinada. Nunca havia encontrado em toda a sua
vida uma pessoa assim. s vezes o ndio lhe parecia louco. Tudo nele era
fora do comum: a cara,  os modos, a voz, aquela lngua misturada... E
Ana ouvia-o de olhos baixos, imaginava Nossa Senhora no alto duma
coxilha, tendo a seu lado o carro com o Menino dentro,  So Jos coando
as barbas, aflito, o burro empacado, e as mulitas fmeas dando cada uma
sua gota de leite para matar a sede de Jesus...
  Maneco e Horcio tambm escutavam, mastigando e olhando para o prato.
  As filhas da mulita sumiram-se no deserto, s a me ficou junto da
Santa Famlia. E os soldados do rei dos judeus aproximavam-se cada vez
mais, com suas espadas  e lanas e caras malvadas. So Jos empurrava o
burro, mas o animal continuava empacado. A Virgem, ento, num desespero,
tornou a falar com a mulita: "Mulita, ajuda-nos  com tua fora, puxa o
carro de meu filho". J se avistavam os soldados no horizonte, e suas
armaduras reluziam ao sol. A mulita comeou a puxar o carro, mas se sua
vontade de ajudar era muita, sua fora entretanto era pouca. O tropel
dos cavalos dos centuries chegava j aos ouvidos da Virgem e de So
Jos. "Depressa, mulita!"  - gritou a Me de Deus, chorando de medo.
"Mande chamar seus filhos para puxar o carro do meu filho." Ento a
mulita respondeu: "Virgem Santssima, minha ninhada   mui grande, mas
meus filhos machos so poucos". Mas chamou os
  123
  poucos filhos que tinha, e eles vieram e puxaram o carrinho do Menino
Jesus.
  - Pro mulita anda despacito - explicou Pedro - e os soldados do rei
dos judeus teniam cabalos veloces. Quando jegaram cerca da Virge, hubo
uma grande tempestade  de arena que dejou os soldados todos cegos e
perdidos.
  Dona Henriqueta perguntou:
  - E a Santa Famlia se salvou?
  Maneco lanou-lhe um olhar de reprovao: aquilo era ento pergunta
que uma mulher velha fizesse? Pedro sacudiu a cabea afirmativamente:
  - Si, dona, salvou-se. E a Virge disse: "Mulita, como paga do leite de
tuas filhas e da fora de teus filhos, daqui por delante sempre que
tengas ninhadas, seran  solamente de machos ou solamente de fmeas".
  Calou-se. Maneco, que tinha terminado de comer, empurrou o prato para
o centro da mesa, tirou uma palha de trs da orelha e comeou a fazer um
cigarro.
  - Bobagens - murmurou. -  uma histria que nunca sucedeu.
  O ndio no disse nada. O velho Terra picava fumo com a faca na mo
direita, deixando cair os pedacinhos negros na palma da esquerda.
Horcio perguntou:
  - Onde foi que aprendeu esse causo?
  - Na mission.  um causo de verdade.
  - Bobagens - repetiu Maneco.
  Tinha ouvido falar em muitas histrias de assombrao e tesouros
enterrados. Mas no acreditava nelas. Naquela terra aberta, sem socaves
nem altas montanhas,  sem mato brabo nem muitas furnas; naquele
escampado no havia segredos, nem lugar para fantasmas e abuses. Medo
ele s podia ter de gente viva mal-intencionada  e de bichos. Quanto a
tesouros enterrados, s conhecia os que lhe dava a terra como fruto de
seu trabalho de sol a sol, dia aps dia, ano aps ano. Era um homem
positivo, que costumava dar nome aos bois e no gostava de imaginaes.
No acreditava
  em milagres e achava errado dizer que mais vale quem Deus ajuda do que
quem cedo madruga. Deus ajuda quem com o sol se levanta e com o sol se
deita, cuidando de  suas obrigaes.
  - Pode ser bobagem - arriscou dona Henriqueta, levantando-se e
comeando a recolher os pratos. - Mas  bonito.
  - E sem serventia - completou o marido - sem serventia como quase tudo
que  bonito.
  Horcio cuspiu no cho, olhou para o ndio e perguntou:
  - Ento  por isso que vosmec no come carne de mulita?
  - A mulita ajudou a Virge - respondeu Pedro simplesmente. - E Nossa
Senhora  minha me.
  Maneco Terra prendeu o cigarro nos dentes, bateu o isqueiro e
acendeu-o. Puxou uma baforada de fumo e depois ficou contemplando Pedro
atravs da fumaa, com seus  olhos apertados e incrdulos.
  Antnio Terra voltou com a carreta de Rio Pardo e, depois de pedir a
bno aos pais, de dar duas palmadinhas no ombro de Ana e Horcio, numa
acanhada pardia  de abrao, comeou a contar as novidades da vila.
Assistira aos festejos da entrada do Ano Novo - o 78, explicou - e vira
o entrudo, os fogos, o leilo e as cavalhadas.  Falou com entusiasmo nos
uniformes dos oficiais da Coroa e louvou o conforto de certas casas
assoalhadas de madeira. Maneco escutou-o meio taciturno. Sempre temera
que os filhos um dia o abandonassem para ir morar no Rio Pardo. Gente
moa - achava ele - gostava muito de festa, de barulho e de bobagens...
   mesa do almoo conversaram ainda sobre Rio Pardo. O sol batia de
chapa no toldo de palha e a cabana estava quente como um forno. Ana via
os irmos comendo e  suando, as caras barbudas e reluzentes, a testa
gotejando, as camisas empapadas. O panelo de feijo, com pedaos de
lingia e toicinho, fumegava no centro da mesa,  e moscas voavam no ar
pesado. Na cabea de Ana soava
  124
  125
  uma flauta: a melodia que Pedro tocara naquela noite de chuva no lhe
saa da memria, noite e dia, dia e noite.
  Antnio comeou a contar das estncias que vira, de suas vastas
lavouras de trigo, do nmero de pees e escravos que certos estancieiros
ricos possuam. Tivera  ocasio de beber o excelente vinho feito pelos
colonos aorianos com uva nascida do solo de Rio Pardo! Maneco
escutava-o pensativo. Um dia ainda haviam de ter tambm  ali na estncia
um grande trigal, e mais campo, mais gado, mais tudo. Mas no tinha
pressa. Seu lema era: "Devagar mas firme".
  Pensou no pai, que passara metade da vida a viajar entre So Paulo e o
Rio Grande de So Pedro, sempre s voltas com tropas de mulas, que
vendia na feira de Sorocaba.  Uma vez o Velho ficara dois anos ausente;
correra at o boato de que ele havia sido assassinado pelos ndios
tapes. Um belo dia, porm, Juc Terra reapareceu trazendo  na guaiaca
muitas onas de ouro e a carta de sesmaria dumas terras do Continente
que ele dizia ficarem nas redondezas dum tal rio Botucara. Quando a
mulher se queixava  de que ele era um vaga-mundo e tinha
bicho-carpinteiro no corpo, o velho Terra meio que entristecia e com sua
voz grossa e lenta dizia: "Vosmec pensa que gosto  dessa vida de judeu
errante? O que eu quero mesmo  um stio, uma lavoura, um gadinho e uma
vida sossegada. Um dia inda hei de me estabelecer nos meus campos do
Continente". Dizia isso com orgulho, batendo na guaiaca onde guardava
sua carta de sesmaria. Mas o coitado morrera sem realizar o seu desejo.
E ao pensar agora nessas  coisas, Maneco olhava para a arca de couro
dentro da qual guardava a carta de posse da terra que ele, a mulher e os
filhos neste momento pisavam, da terra que tinha  comido as carnes do
Lucinho e que um dia se fecharia tambm sobre seu corpo.
  Antnio descreveu para Ana o baile a que assistira no Rio Pardo. Falou
com especial entusiasmo nos seus esplndidos violeiros e gaiteiros, e
nos bailarins que  danavam a chimarrita e a tirana que era uma beleza!
  - Vi lindas moas - acrescentou, levando  boca com ambas as mos uma
costela de vaca e arrancando-lhe com os dentes a
  126
  carne junto com a pelanca. - Por sinal fiquei at gostando duma delas.
Chama-se Eullia. Danamos toda a noite de par efetivo.
  Maneco Terra espetou no garfo um pedao de carne, e antes de lev-lo 
boca repetiu um ditado que aprendera nos campos da Vacaria:
  - Pra essas guas de cidade no h cabresto nem palanque. No queria
que os filhos casassem com moa da vila, dessas
  que no gostam de campo e s pensam em festas, roupas e enfeites.
  - Me disseram no Rio Pardo - continuou Antnio - que em Porto Alegre
um homem foi preso por ordem do Senado da Cmara s porque no quis ir a
uma procisso.
  Maneco enristou a faca na direo do filho e disse:
  -  por essas e por outras que eu prefiro viver nos meus campos. Aqui
fao o que quero, ningum me manda. Sou senhor de meu nariz.
  - Mas uma vila tem as suas vantagens, papai - arriscou Horcio.
  - Que vantagens? Pra principiar so cercadas de muros e valos, como
uma cadeia. Depois tm duas coisas que eu no gosto: soldado e padre.
  - Mas que ia ser de ns sem os soldados? - perguntou Antnio. - Essa
castelhanada vive nos atacando.
  - Ora! No momento do aperto eles chamam os paisanos. Quem foi que mais
ajudou a expulsar os castelhanos? Foi Pinto Bandeira.  um oficial de
tropa? No.  um estancieiro.  E assim outros e outros...
  - Mas numa cidade ao menos a gente est mais seguro, Maneco - disse
dona Henriqueta, que se levantara para ir buscar a caixeta de pessegada.
  - Fresca segurana! - exclamou o marido. E enumerou casos que sabia:
crimes e banditismos ocorridos no Rio Pardo, na Capela do Viamo e Porto
Alegre.
  - L a gente recebe cartas - arriscou Ana, que sempre achara bonito
uma pessoa receber uma carta.
  - Passo muito bem sem essas cousas - retrucou-lhe o pai. - Carta no
engorda ningum.
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  Houve um silncio. Depois Antnio comeou a contar de como iam
adiantadas no Rio Pardo as obras da Matriz. "Dizem que daqui a um ano,
ou ano e pouco, vai ficar  pronta... " Maneco no prestava ateno ao
que o filho dizia. Seu olhar perdeu-se pelo campo, que ele via pelo vo
da porta. O ar tremia, era uma soalheira medonha.  Longe, contra um cu
desbotado, urubus voavam. Uma vaca mugia tristemente.
  Maneco recordava sua ltima visita a Porto Alegre, onde fora comprar
ferramentas, pouco antes de vir estabelecer-se ali na estncia. Achara
tudo uma porcaria.  L s valia quem tinha um ttulo, um posto militar
ou ento quem vestia batina. Esses viviam  tripa forra. O resto, o
povinho, andava mal de barriga, de roupa e  de tudo. Era verdade que
havia alguns aorianos que estavam enriquecendo com o trigo. Esses
prosperavam, compravam escravos, pediam e conseguiam mais sesmarias e
de pequenos lavradores iam se transformando em grandes estancieiros. Mas
o governador no entregava as cartas de sesmaria assim sem mais
aquela... Se um homem sem  eira nem beira fosse ao pao pedir terras,
botavam-no para fora com um pontap no traseiro. No senhor. Terra  pra
quem tem dinheiro, pra quem pode plantar, colher,  ter escravos, povoar
os campos.
  Maneco ouvira muitas histrias. Pelo que contavam, todo o Continente
ia sendo aos poucos dividido em sesmarias. Isso seria muito bom se
houvesse justia e decncia.  Mas no havia. Em vez de muitos homens
ganharem sesmarias pequenas, poucos homens ganhavam campos demais, tanta
terra que a vista nem alcanava. Tinham lhe explicado  que o governo
fazia tudo que os grandes estancieiros pediam porque precisava deles.
Como no podia manter no Continente guarnies muito grandes de soldados
profissionais,  precisava contar com esses fazendeiros, aos quais
apelava em caso de guerra. Assim, transformados em coronis e generais,
eles vinham com seus pees e escravos para  engrossar o exrcito da
Coroa, que at pouco tempo era ali no Continente constitudo dum nico
regime de drages. E como recompensa de seus servios, esses senhores
de grandes sesmarias ganhavam s vezes ttulos de nobreza, privilgios,
terras, terras e mais terras. Era claro que quan-
  do havia uma questo entre esses grados e um pobre-diabo, era sempre
o ricao quem tinha razo. Maneco vira tambm em Porto Alegre as casas
de negcio e as oficinas  dos aorianos. Apesar de ser neto de
portugus, no simpatizava muito com os ilhus.
  Era verdade que tinha certa admirao pela habilidade dos aorianos no
trato da terra e no exerccio de certas profisses como a de ferreiro,
tanoeiro, carpinteiro,  seleiro, calafate... Reconhecia tambm que eram
gente trabalhadora e de boa paz. Achava, entretanto, detestvel sua fala
cantada e o jeito como pronunciavam certas  palavras.
  Dona Henriqueta partia a pessegada, Horcio palitava os dentes com uma
lasca de osso.
  - Me contaram tambm - prosseguiu Antnio - que a gente tem de tirar o
chapu quando passa pela frente do pao.
  Maneco mastigou com fria um naco de pessegada.
  - Um homem s tira o chapu na frente de igreja, cemitrio ou de
pessoa mais velha e de respeito - sentenciou ele, acrescentando: - Como
nesta estncia no tem  igreja, nem cemitrio nem ningum mais velho que
eu, s tiro o chapu quando quero.
  Os outros no disseram nada. Comeram em silncio a sobremesa, com os
olhos j meio cados de sono. Depois os homens se ergueram e foram
dormir a sesta e as mulheres  puseram-se a lavar os pratos.
  De longe vinha agora o som da flauta de Pedro. Ana sentia os olhos
pesados, a cabea zonza: seu corpo estava mole e dolorido, como se
tivesse levado uma sova.  Olhou para fora, atravs da janela, mas no
pde suportar o claro do sol. Moscas voavam e zumbiam ao redor da mesa.
Um burro-choro comeou a zurrar, longe.
  - Acho que estou doente - murmurou ela.
  - Deve ser o incmodo que vem vindo - disse a me, que tinha as mos
mergulhadas na gua gordurosa da gamela.
  Ana no respondeu. Continuou a enxugar os pratos. O som da flauta
aumentava-lhe a sensao de calor, preguia e mal-estar.
  - Se ele parasse de tocar era melhor... - murmurou. Nunca pronunciava
o nome de Pedro. Quando se referia ao
  ndio dizia apenas "ele" ou "o homem".
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  - Deixa o coitado! - retrucou dona Henriqueta. - Vive to sozinho que
precisa se divertir um pouco.
  Ana estava inquieta. No fundo ela bem sabia o que era, mas
envergonhava-se de seus sentimentos. Queria pensar noutra coisa, mas no
conseguia. E o pior era que  sentia os bicos dos seios (s o contato com
o vestido dava-lhe arrepios) e o sexo como trs focos ardentes. Sabia o
que aquilo significava. Desde seus quinze anos  a vida no tinha mais
segredos para ela. Muitas noites quando perdia o sono, ficava pensando
em como seria a sensao de ser abraada, beijada, penetrada por um
homem. Sabia que esses eram pensamentos indecentes que precisava evitar.
Mas sabia tambm que eles ficariam dentro de sua cabea e de seu corpo,
para sempre escondidos  e secretos, pois nada neste mundo a faria
revelar a outra pessoa - nem  me, nem mesmo  imagem da Virgem ou a um
padre no confessionrio - as coisas que sentia  e desejava. E agora ali
no calor do meio-dia, ao som daquela msica, voltava-lhe intenso como
nunca o desejo de homem. Pensava nas cadelas em cio e tinha nojo de  si
mesma. Lembrava-se das vezes que vira touros cobrindo vacas e sentia um
formigueiro de vergonha em todo o corpo. Mas esse formigueiro era ainda
desejo. Decerto  a soalheira era a culpada de tudo. A soalheira e a
solido. Pensou em ir tomar um banho no poo. No: banho depois da
comida faz mal, e mesmo ela no aguentaria  a caminhada at a sanga, sob
o fogo do sol. A sanga era para Ana uma espcie de territrio proibido:
significava perigo. A sanga era Pedro. Para chegar at a gua  teria de
passar pela barraca do ndio, correria o risco de ser vista por ele.
  A gua do poo devia estar fresca. Ana imaginou-se mergulhada nela,
sentiu os lambaris passarem-lhe por entre as pernas, roarem-lhe os
seios. E dentro da gua  agora deslizava a mo de Pedro a acariciar-lhe
as coxas, mole e coleante como um peixe. Uma vergonha! O que ela queria
era macho. E pensava em Pedro s porque, alm  do pai e dos irmos, ele
era o nico homem que havia na estncia. S por isso. Porque na verdade
odiava-o. Pensou nos beios midos do ndio colados  flauta de
taquara. Os beios de Pedro nos seus seios. Aquela msica saa do corpo
de Pedro e entrava no corpo dela... Oh! Mas ela odiava o ndio.
Tinha-lhe
  130
  nojo. Pedro era sujo. Pedro era mau. Mas apesar de odi-lo, no podia
deixar de pensar no corpo dele, na cara dele, no cheiro dele - aquele
cheiro que ela conhecia  das camisas - no podia, no podia, no podia.
  - Se ele parasse de beijar! - exclamou ela. E percebendo que tinha
dito beijar em vez de tocar, ficou vermelha e confusa.
  Deixou cair um prato, que bateu no cho com um rudo fofo. Dona
Henriqueta olhou para a filha, apreensiva, e disse:
  - V se deitar que  melhor.
  Sem dizer palavra Ana Terra caminhou para o catre.
  Como era noite de lua cheia, depois do jantar os Terras vieram ficar
um pouco na frente da casa, antes de irem dormir. O cu estava dum azul
muito plido e transparente,  e Ana teve a impresso de que o lucilar
das estrelas acompanhava o cricri dos grilos. Subia do cho, no ar
parado, um cheiro morno de capim e terra que tomou muito  sol durante o
dia.
  Maneco Terra fumava, distrado, olhando para sua lavoura e pensando
vagamente no dia em que em lugar do milho, da mandioca e do feijo
tivesse um grande trigal.  Precisaria de contratar pees e comprar
escravos. Em vez de mandar uma carreta a Rio Pardo, passaria a mandar
duas ou trs. No futuro construiria uma casa maior,  toda de pedra.
Compraria tambm mais gado, mais cavalos, mais mulas. Sim, e ovelhas,
talvez at porcos. Faria tudo devagar - devagar mas com firmeza.
  Antnio e Horcio conversavam em voz baixla sobre o que tinham de fazer
no dia seguinte. De quando em quando dona Henriqueta suspirava baixinho.
E de repente, em  meio dum silncio picado pelo cricrilar dos grilos,
ela disse:
  - Precisamos dum cachorro.
  Tinham tido um perdigueiro que, fazia muito, havia morrido duma
mordida de cobra-coral. Desde ento Maneco vivia a 
  131
  prometer que mandaria buscar um ovelheiro no Rio Pardo, mas nunca
mandava. E agora, ouvindo a observao da mulher, ele perguntou:
  - Quem foi que falou em cachorro?
  - Ningum. Eu  que me lembrei. Sinto falta de cachorro aqui em casa.
  Maneco ficou pensando no pai, que tanto gostava de cachorros. Parecia
mentira que um dia, havia muito tempo, o velho Juc Terra passara por
aqueles mesmos campos  com seus companheiros vicentistas. Maneco
imaginava o velho em cima do cavalo, metido no seu poncho, com o
chapelo de couro na cabea, o mosquete a tiracolo e o  faco de mato 
cinta. Decerto ele acampara ali numa noite de lua como aquela, e antes
de dormir ficara pensando no rancho que um dia havia de erguer no alto
da  coxilha...
  Ouviu-se o guincho duma ave noturna. Um vulto encaminhava-se para a
cabana e nele os Terras reconheceram Pedro. O ndio aproximou-se em
silncio e pediu licena  para sentar-se junto deles. Maneco disse:
  - Tome assento.
  Pedro sentou-se a uns cinco passos de onde estava o grupo e ficou
calado.
  - Amanh vamos parar rodeio, Pedro - disse-lhe Antnio.
  - Mui lindo - respondeu o ndio.
  - Vosmec v no bragado - instruiu-o Maneco. - O Antnio vai no
alazo, o Horcio no baio.
  - Mui lindo - repetiu Pedro.
  E de novo o silncio caiu. As estrelas brilhavam. Pedro olhava para a
lua. Ana esforava-se para no atentar nele, para ignorar sua presena.
Sentia que agora,  na noite morna e calma, no o odiava mais. Chegava a
ter pena dele, da sua solido, da sua pobreza, do seu abandono, da sua
humildade servial.
  Longe, contra a silhueta negra dum capo, um fogo vivo brilhou por uns
instantes e depois se apagou.- Olha l! - exclamou Horrio, estendendo a
mo.
  Os outros olharam. A chama, que tornara a aparecer, agora se movia
pela orla do capo. Em poucos segundos apagou-se outra vez.
  - Boitat - sussurrou Pedro.
  -  o fogo de algum carreteiro acampado - disse Maneco.
  - Puede ser, puede no ser - disse o ndio.
  - Muitas vezes vi fogo assim de noite no alto da serra - contou
Antnio. - Nunca fiquei sabendo o que era.
  - Boitat - tornou a dizer Pedro como se falasse para si mesmo. E
acrescentou: - A cobra de fogo.
  - Vosmec acredita mesmo nisso? - perguntou Maneco, coando a barba.
  - Vi muitas.
  Antnio soltou uma risada seca:
  - Esse ndio viu tudo...
  - Anda por a muita histria mal contada - observou Maneco. - Um bugre
velho que viveu no Povo de So Tom um dia me falou na tal teiniagu...
Isso  inveno  de ndio.
  - Mas hai - disse Pedro.
  E como os outros deixassem morrer o assunto e ficassem em silncio,
ele acrescentou:
  - A teiniagu j desgraci um sacristn.
  Repetiu com algumas modificaes a histria que Maneco Terra ouvira da
boca do velho ndio missioneiro.
  Os mouros de Salamanca, mestres em artes mgicas, ficaram loucos de
raiva quando foram vencidos nas Cruzadas pelos cristos. Resolveram
ento vir para o Continente  de So Pedro do Rio Grande, trazendo
consigo sua fada transformada numa velhinha. Os mouros tinham dio de
padre, santo e igreja, e o que queriam mesmo era combater  a cruz. Mal
chegaram ao Continente fizeram parte com o diabo, que transformou a
linda princesa moura na teiniagu, uma lagartixa sem cabea que tambm
ficou conhecida  como o "carbnculo". No lugar da cabea do animal, o
tinhoso botou uma pedra vermelha muito transparente, que era um condo
mgico. Quando o sol nasceu, seus raios  deixaram a pedra to brilhante
que ningum podia olhar para ela sem ficar meio cego. Ora, o encontro do
diabo com a princesa se deu numa furna a que chamaram Salamanca.  E em
sete noites de sexta-feira o demnio ensinou  teiniagu onde ficavam
todas as furnas que escondiam
  132
  133
  f i,
  11
  tesouros. E como era mulher e mui sutil, a princesa aprendeu depressa.
  Houve uma pausa. De novo o fogo brilhou longe,  beira do mato. Ento
dona Henriqueta perguntou:
  - E depois? Pedro prosseguiu:
  - Habia na mission de San Tom um sacristn, muchacho mui triste. E
una tarde, a Ia hora de Ia siesta, cuando los curas dormiam, o muchacho
caminou para a laguna  que habia cerca, una laguna que parecia un
caldern de gua fervendo, parecia que o diabo vivia adentro, os peixes
morriam, as jervas secavam... Entonces o sacristn  viu salir da gua um
bicho pequeno... Era a teiniagu, com sua cabeza de sol. O sacristn
quedo como loco, porque sabia que si prendiera a teiniagu ganava una
fortuna.  Entonces tomo una guampa con gua e meteu a teiniagu adentro
dela, e levou o bicho para su cela e Io alimento com mel de lechiguana.
Estava tan contento que batia  no peito, dizendo que ia quedar rico com
aquela pedra, ei hombre ms feliz do mundo. Pro un dia a teiniagu se
transformo numa princesa moura, mui linda, e ei sacristn  quedo loco de
amor, e fu tentado, e peco. Busco ei vino de Ia igreja, vino de missa,
e se emborracho com Ia princesa e quedo desgraciado...
  Maneco queria encurtar a histria, porque lhe era ainda desagradvel
aos ouvidos a voz de Pedro e sua lngua confusa. Alm disso o fato de
todos estarem escutando  com ateno aquele mameluco, dava-lhe uma
importncia que ele no merecia. Por isso, aproveitou a pausa que Pedro
fizera e falou:
  - Os padres ento chegaram, viram o sacristo bbedo, a cela
desarrumada, sentiram cheiro de mulher e compreenderam tudo. O sacristo
foi posto a ferros, e quiseram  que ele confessasse o que tinha
acontecido. Mas ele no confessou. Foi ento condenado  morte e quando
levaram ele pra praa, o sino tocava finados e todo o Povo  de So Tom
veio olhar. Quando o carrasco ia matar ele, comeou a soprar uma ventania
danada, ouviu-se um barulho e todos ficaram mui assustados, os padres
atiraram  gua benta no povo e comearam a rezar. Ouviu-se um ronco de
fera e a teiniagu
  134
  saiu da lagoa com a cabea erguida, falseando. Saiu derrubando
rvores, esbarrancando as terras. Foi assim que o ndio velho me contou,
se estou bem lembrado.
  Pedro sacudia lentamente a cabea.
  - Diziam que era o fim do Povo de So Tom, ou o fim do mundo. Pero
hubo un milagre. Una cruz apareci no cu.
  - E o sacristo? - perguntou Horcio, que ouvia a histria de ccoras,
arrancando talos de capim com dedos distrados.
  - O sacristn quedo solho, abandonado, com as manos presas em cadenas.
  - Dizem que depois foram pr cerro de Jarau - prosseguiu Maneco Terra.
- O sacristo e a princesa. L no cerro havia uma Salamanca onde estava
escondido um tesouro  mui grande.
  - H quem diga que as salamancas existem - arriscou Antnio.
  - Un dia encontei um castelhano que tinha entrado na furna de Jarau -
disse Pedro.
  - E que foi que ele encontrou l? - indagou Horcio com um risinho
incrdulo.
  - Dobles de ouro, onas, pedras preciosas, mucha plata. Mui lindo.
  - Decerto era um castelhano contador de rodelas - murmurou Maneco.
  Pedro prosseguiu, sereno:
  - O hombre dijo que Jarau est guardado por pumas e tigres, por almas
penadas, por culebras calaveras. Mui feo. Un dia eu quero entrar na
furna do Jarau.
  - No acredito nesses tesouros escondidos... - declarou Maneco Terra.
  Antnio ergueu-se, espreguiou-se e disse, abafando um bocejo:
  - Eu bem que queria descobrir os tesouros que os padres enterraram nas
misses.
  - Patacoadas! - exclamou Maneco Terra, erguendo-se tambm. - Nosso
tesouro est aqui mesmo.
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  E com a cabea fez um sinal que abrangia o campo em derredor.
  Do seu canto Ana olhava com o rabo dos olhos para Pedro, que
continuava sentado imvel, com ambos os braos ao redor dos joelhos,
olhando fixamente para a lua.
  A hora de deitar-se Ana ouviu a voz da me, que dizia ao marido:
  - Nunca sei quando esse ndio est brincando ou falando srio.
  Maneco pigarreou, gemeu baixinho, estendeu-se no catre, ficou calado
por algum tempo e depois resmungou:
  -  um mentiroso.
  E apagou a lamparina com um sopro.
  10
  Aquele vero foi seco e cruel. Quando o spero vento norte soprava Ana
Terra ficava de tal maneira irritada, to brusca de modos e palavras,
que dona Henriqueta  murmurava: "O que essa menina precisa mesmo  casar
duma vez..." Ana revoltava-se. Casar? O que ela precisava era mudar de
vida, visitar de vez em quando o Rio Pardo,  ir a festas, ter amigas,
ver gente. Aquela solido ia acabar deixando-a doida varrida... Mas na
presena do pai no dizia nada. Recalcava a revolta, prendia-a no
peito, apertava os lbios para que ela no se lhe escapasse pela boca em
palavras amargas. Nas noites abafadas dormia mal, s vezes levantava-se,
ia para a frente  da casa, ficava olhando as coxilhas e o cu, tendo nos
olhos um sono pesado e na cabea, no peito, no corpo todo uma nsia que
a mantinha desperta e agitada. No  raro, altas horas da noite acordava
com uma sede desesperada, metia a caneca na talha, bebia em longos goles
uma gua que a mornido tomava grossa; e ia bebendo,  caneca sobre
caneca, para no fim ficar com o estmago pesado sem ter saciado a sede
nem aliviado a ardncia da garganta. Muitas vezes o sono s lhe vinha de
madrugada  alta, e, vendo pela cor do horizonte que o dia no tardava a
raiar, conclua que no
  adiantava ir para a cama, pois dentro de pouco teria de acender o fogo
para aquentar a gua do chimarro. O remdio, ento, era molhar os
olhos, lavar a cara,  caminhar ao redor do rancho para espantar a
sonolncia.
  Uma tarde,  hora da sesta, Ana Terra tornou a sentir aquela agonia de
outras tardes e noites. Era uma sensao que no saberia descrever a
ningum. Seria fome?...  Havia acabado de almoar, estava de estmago
cheio; logo no podia ser fome. Tinha a sensao de que lhe faltava
alguma coisa no corpo, como se lhe houvessem cortado  um pedao do ser.
Era ao mesmo tempo uma falta de ar, uma impacincia misturada com a
impresso de que alguma coisa - que ela no sabia bem claramente o que
era  - ia acontecer, alguma coisa tinha de acontecer. Revolveu-se na
cama, meteu a cara no travesseiro, procurou dormir... Intil. Ficou de
novo deitada de costas, ouvindo  o espesso ressonar dos homens dentro da
cabana. Viu uma mosca varejeira entrar por uma fresta da janela e ficar
voando, zumbindo, batendo nas paredes, caindo e tornando  a levantar-se
para outra vez voejar e zumbir... Ana seguia com o olhar os movimentos
da varejeira e acabou ficando tonta. Cigarras rechinavam l fora. E
mesmo sem  ouvir o barulho do vento Ana sabia que estava ventando, pois
seus nervos adivinhavam... Era o vento quente do norte a levantar uma
poeira seca. Ana sentia o suor  escorrer-lhe pelo corpo todo. O vestido
se lhe colava s costas. Puxou toda a saia para cima do peito e ficou de
coxas nuas e afastadas uma da outra, desejando gua,  um banho  sombra
das rvores. Imaginou-se descendo a coxilha, rumo da sanga. Por que no
fazia isso? Sim, seria melhor ir para fora. Mas no foi, era como se o
suor a grudasse aos lenis escaldantes. Comeou a mover a cabea
devagarinho dum lado para outro, sentindo o latejar do sangue nas
tmporas, que comeavam a doer-lhe.  Agora sim ela ouvia o vento. No
era um sopro uniforme: de vez em quando amainava, de repente vinha uma
rajada mais forte, e Ana ouvia tambm o crepitar mido da  poeira
caindo no cho e na coberta da casa. As plpebras pesavam-lhe,
fechavam-se. Veio-lhe um torpor de febre, e de repente, num mundo
confuso, Ana sentiu que um  touro vermelho lhe lambia as pernas,
enquanto ela se retorcia toda
  136
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  arrepiada de medo, nojo e desejo... A lngua do touro era viscosa,
babava-lhe as coxas, e a respirao do animal tinha a mornido mida do
vento norte. E de repente,  trmula e aflita, Ana se encontrou de novo,
de olhos abertos, vendo o teto de palha da cabana, ouvindo o ressonar
dos homens e o zumbido da varejeira que agora refulgia,  verde-azul,
presa momentaneamente numa rstia de sol.
  Meio sem saber o que fazia, atirou as pernas para fora do catre e
ergueu-se. Sentindo na sola dos ps a terra morna do cho, caminhou sem
rudo para a porta, abriu-a  devagarinho e saiu. Fora, o sol envolveu-a
como um cobertor de fogo. Ana Terra comeou a descer a encosta que
levava  sanga. A luz ofuscava, e havia no ar um vapor  trmulo que
subia do cho escaldante. As rosetas lhe picavam os ps nus, mas ela
continuava a andar. Quando viu a corticeira, precipitou-se a correr.
Deitou-se   beira da sanga, puxou a saia para cima dos joelhos,
mergulhou as pernas na gua, com um dbil suspiro de alvio, e cerrou os
olhos. Ouvia o farfalhar das folhas,  sentia a quentura rija da terra
contra as costas, as ndegas e as coxas e assim ficou num abandono
ofegante, cansada da corrida e ao mesmo tempo surpreendida de  ter
vindo. Pensou vagamente em atirar-se no poo, mas no teve coragem de
mover-se. Uma cigarra comeou a rechinar, muito perto. Ana sentia um
aperto nas tmporas,  a cabea dolorida, as ideias sombrias, como se o
sol lhe houvesse chamuscado os miolos. Ficou num torpor dolorido e
tonto, escutando o murmrio da gua, o canto  da cigarra, o farfalhar
das folhas e o pulsar surdo do prprio sangue.
  Num dado momento sua madorna foi arranhada por um estralar de ramos
secos que se quebram. Teve um retesamento de msculos e abriu os olhos.
Tigre ou cobra - pensou.  Mas uma dormncia invencvel chumbava-a 
terra. Voltou um pouco a cabea na direo do rudo e vislumbrou
confusamente um vulto de homem, quase invisvel entre  os troncos das
rvores, bem como certos bichos que tomam a cor do lugar onde esto. Ana
ento sentiu, mais que viu, que era Pedro. Quis gritar mas no gritou.
Pensou  em erguer-se mas no se ergueu. O sangue pulsava-lhe com mais
fora na cabea. O peito arfava-lhe com mais mpeto, mas a paralisia dos
membros continuava. Tornou  a fechar os olhos. E
  ouviu Pedro caminhar, aproximar-se num rudo de ramos quebrados,
passos na gua, seixos que se chocam. Apertava os lbios j agora com
medo de gritar. Pedro estava  to perto, que ela sentia sua presena na
forma dum cheiro e dum bafo quente. Sentiu quando o corpo do ndio
desceu sobre o dela, soltou um gemido quando a mo dele  lhe pousou num
dos seios, e teve um arrepio quando essa mo lhe escorregou pelo ventre,
entrou-lhe por debaixo da saia e subiu-lhe pelas coxas como uma grande
aranha  caranguejeira. Numa raiva Ana agarrou com fria os cabelos de
Pedro, como se os quisesse arrancar.
  11
  Os dias que se seguiram foram para Ana Terra dias de vergonha,
constrangimento e medo. Vergonha pelo que tinha passado; constrangimento
perante Pedro, quando o  encontrava diante das outras pessoas da casa; e
medo de que estas ltimas pudessem ler nos olhos dela o que havia
acontecido. Aquele momento que passara com o ndio   beira da sanga lhe
havia ficado na memria duma forma confusa. Lembrava-se duma exaltao
tocada de horror, dum doloroso dilaceramento misturado de gozo, e tambm
do desespero de quem faz uma coisa que teme s para se livrar da
obsesso desse temor. 
  No fim de contas; que era mesmo que ela sentia por Pedro? Amor? Nojo?
dio? Pena? s vezes se surpreendia a querer que ele morresse de
repente, ou ento que fosse  embora, deixando-a em paz. Talvez fosse
melhor que aquilo no tivesse acontecido... Ou melhor, que Pedro nunca
tivesse aparecido na estncia. A agonia em que vivia  desde o primeiro
dia em que pusera os olhos naquele homem persistia ainda. E agora ela
tinha novos cuidados porque, alm de todas as coisas que sentia antes,
vivia  num estado de apreenso insuportvel. Chegava  concluso de que
o horror de que o pai e os irmos descobrissem tudo era o sentimento que
dominava todos os outros,  at mesmo o desejo de ser de novo tomada pelo
ndio. Temia tambm que os homens da casa cometessem alguma
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  violncia. Eles tratavam Pedro como um ser inferior e no lhes
passaria nunca pela cabea a idia de que Pedro Missioneiro jamais
pudesse fazer parte da famlia.  Ana conhecia casos de pais que matavam
as filhas ao sab-las desonradas. Honra se lava com sangue!
  E o tempo passava...  noite Ana dormia mal, pensava muito e temia
mais ainda. Procurava convencer-se a si mesma de que podia viver sem
Pedro, continuar como era  antigamente. Achava que tudo tinha acontecido
s por causa do calor e da sua solido. Mas se por um lado ela queria
levar os pensamentos para essa direo, por outro  seu corpo ia sempre
que possvel para Pedro, com quem continuava a encontrar-se  hora da
sesta no mato da sanga. Ficava com ele por alguns instantes, com o
corao  a bater descompassado. Falavam muito pouco e o que diziam nada
tinha a ver com o que faziam e sentiam. Eram momentos rpidos,
excitantes e cheios de sustos. E no  dia em que pela primeira vez ela
sentiu em toda a plenitude o prazer do amor, foi como se um terremoto
tivesse sacudido o mundo. Voltou para casa meio no ar, feliz,  como quem
acaba de descobrir uma salamanca - ansiosa por ruminar a ss aquele gozo
estonteantemente agudo que a fizera gritar quase to alto como os
quero-queros...
  O vero terminou, o outono comeou a amarelecer as folhas de algumas
rvores e ps um arrepio no ar. E um dia, quando lavava roupa na sanga,
Ana sentiu uma sbita  tontura acompanhada de nusea. Ficou, ento,
tomada de pnico, porque lhe ocorreu imediatamente que estava grvida.
Por longo tempo quedou-se imvel ajoelhada junto  da gua, com as mos
cheias de espuma, os olhos postos na corrente, pensando no horror
daquela descoberta. Voltou para casa aniquilada. Que fazer? Pedro estava
ausente,  tinha ido com Horcio levar uma tropa  estncia de Cruz Alta
do Rio Pardo. Pensou vagamente em fugir ou em ir  vila sob qualquer
pretexto e l procurar uma dessas  mulheres que sabem de coisas para
fazer desmancho. Tinha ouvido falar numa erva... Se contasse  me
talvez ela a pudesse ajudar. Mas no teve coragem.
  Dias passaram. Os sintomas se agravaram. Ana comeou a observar a lua,
viu-a passar por todas as fases: seu incmodo mensal no veio. No havia
mais dvida. Num  temor permanente passou
  a olhar para o ventre, a apalp-lo, para ver se ele j comeava a
crescer. E quando Pedro voltou, uma noite ela saiu da cama sem rudo - o
ar estava frio, o capim  mido de sereno, o cu muito alto - foi at a
barraca do ndio, contou-lhe que ia ter um filho e ficou ofegante 
espera duma resposta. Houve um curto silncio,  ao cabo do qual Pedro
murmurou:
  - Mui lindo.
  De repente Ana desatou a chorar. Estavam ambos sentados no cho lado a
lado. Pedro enlaou-a com os braos, estreitou-a contra si e as lgrimas
da rapariga rolaram-lhe  mornas pelo peito. Ana sentia contra as faces
as carnes elsticas e quentes do homem, e o bater regular de seu
corao. Chorou livremente por algum tempo. Pedro  nada dizia,
limitou-se a acariciar-lhe os cabelos. E quando ela parou de chorar,
ps-lhe a mo espalmada sobre o
  ventre e sussurrou:
  - Rosa mstica. Ana franziu a testa.
  - Qu?
  - Rosa mstica.
  - Que  isso?
  - Nossa Senhora, me do Menino Jesus.
  Ana no compreendeu. Outra vez lhe passou pela mente a idia de que
talvez o ndio no fosse bem bom do juzo.
  - Pedro, vamos embora daqui!
  Ele ficou em silncio. Um quero-quero guinchou, e sua voz metlica
espraiou-se na noite quieta.
  - Vamos, Pedro! Pedro sacudiu a cabea.
  - Demasiado tarde - respondeu.
  Ana no entendeu bem o sentido daquelas palavras, mas como o ndio
sacudisse a cabea, ela viu que ele dizia que no, que no.
  - Mas por qu? Por qu? Se meu pai e meus irmos descobrem, eles nos
matam. Vamos embora.
  - Demasiado tarde.
  - Que  que vamos fazer ento?
  - Demasiado tarde. Voy morrer.
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  - Pedro!
  - Eu vi... Vi quando dois hombres enterraram mi cuerpo cerca dum
rbol. Demasiado tarde.
  - Como?
  - Dois hombres - murmurava Pedro. - Mi cuerpo morto... cerca dum
rbol.
  - Um sonho?
  - No. Eu vi.
  - Mas como?
  - Demasiado tarde.
  Ana agarrou os ombros do ndio e sacudiu-o.
  - Ento foge sozinho.
  - Demasiado tarde.
  - Foge, Pedro. No  tarde, no. Depois nos encontramos... em qualquer
lugar.
  Parou, sem flego. Pedro sorriu e murmurou:
  - Rosa mstica.
  E deu-lhe o punhal de prata que trazia  cinta.
  Ana voltou para casa com a morte na alma. Ia pensando naquela coisa
que lhe crescia no ventre. Dentro de poucos dias no seria mais possvel
esconder que estava  grvida.
  Ao chegar perto da cabana comeou a temer que o pai ou um dos irmos a
ouvisse entrar e perguntasse quem era. Comeou a andar devagarinho, na
ponta dos ps, o  corao a bater-lhe num acelerado de medo. De repente
uma sombra avanou para ela. Ana no pde conter um grito de espanto, um
grito que lhe saiu do fundo da garganta,  quase como um ronco. Ficou de
boca aberta, com a respirao subitamente cortada... O vulto delineou-se
com mais nitidez, e ela reconheceu a me. As duas mulheres  ficaram
frente a frente, paradas, sem dizer uma nica palavra, sem fazer o menor
gesto. E aos poucos Ana percebeu que a me chorava de mansinho, sem
rudo: os soluos  mal reprimidos sacudiam-lhe os ombros ossudos. Dona
Henriqueta aproximou-se da filha e choramingou:
  - Que ser que vai acontecer agora, Ana?
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  A moa atirou-se nos braos da me, abafou os soluos contra seus
murchos peitos e ali ficou fazendo um esforo dilacerador para no
soltar o pranto, e sentindo  que o frio do cho lhe subia pelo corpo,
lhe penetrava as carnes e lhe enregelava os ossos.
  - E agora, mame, e agora? - perguntava ela.
  - No h de ser nada com Deus e Nossa Senhora, minha filha.
  Num sbito acesso de nervos, quase gritando, Ana desabafou:
  - Mas eu vou ter um filho!
  - Santo Deus! - murmurou dona Henriqueta. E quando ela pronunciou
estas palavras de espanto Ana sentiu na orelha seu hlito morno. - Santo
Deus! Esse homem s  veio trazer desgraa
  pra nossa casa...
  - Me, e se eu tomasse um remdio pra botar o filho fora?
  - No diga isso, minha filha!
  - Ento como vai ser?
  - O nico jeito  contar tudo pr Maneco. Mais cedo ou mais tarde ele
tem que saber.
  - Mas ele me mata, mame!
  Dona Henriqueta tremia, e foi sem muita convico que disse:
  - No mata, no. Teu pai  um homem de bem. Nunca pegou em,arma a no
ser pra defender sua casa.
  - A honra, a honra, a honra! - dizia Ana com voz rouca, agarrando com
fora os ombros da me. - A honra, me. Ele vai
  me matar.
  - No mata, minha filha, no mata.
  - E o Antnio? E o Horcio?
  - Eles s fazem o que o pai manda.
  Ana deixou cair os braos, endireitou o busto, afastou-se um passo.
Depois lentamente enxugou as lgrimas com as pontas dos dedos.
  - Tenha coragem, minha filha. Vamos contar tudo ao teu pai. Conta-se
aos poucos. No precisas dizer que ests grvida...
  Da sombra que a cabana projetava no cho avanou outra sombra. E
Maneco Terra falou:
  - No precisa dizer nada. Eu ouvi tudo.
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  Foi como se Ana tivesse levado uma bordoada na cabea.
Amoleceram-se-lhe as pernas e os braos, o sangue comeou a pulsar-lhe
nas tmporas e no pescoo com tamanha  fora que ela ficou estonteada.
  - Maneco... - balbuciou dona Henriqueta. E no pde dizer mais nada.
  Ana deixou-se cair, primeiro de joelhos, depois resvalou para um lado,
deitando-se sobre a coxa direita, apoiando o busto com o cotovelo
fincado no cho. Maneco  continuava imvel onde estava. Antnio e
Horcio saram da cabana e dona Henriqueta, horrorizada, viu quando eles
se encaminharam para o fundo do terreiro e comearam  a encilhar os
cavalos em silncio. O luar nos campos era doce e calmo.
  Agora, deitada no cho, tomada duma invencvel canseira, Ana Terra,
sem compreender bem o que via, seguia com os olhos os movimentos dos
irmos que montaram nos  seus cavalos e, levando um terceiro a cabresto,
seguiram a trote na direo da sanga. Ouviu quando o pai lhes gritou:
  - Bem longe daqui...
  Henriqueta no reconheceu a voz do marido. Estava de tal modo alterada
que ela teve a impresso de que era um estranho que falava. Na mente de
Ana soava a voz  de Pedro: "Dois hornbres... enterraram meu corpo cerca
dum rbol. Dois hombres... Dois hombres".
  Quis gritar mas no teve foras. A saliva se lhe engrossara na boca e
uma garra parecia comprimir-lhe a garganta. O corpo inteiro tremia, como
se ela estivesse  atacada de sezes. Estendeu-se no cho de todo o
comprimento, sentindo na orelha, no pescoo e nas faces a frialdade da
terra.
  Maneco Terra fez meia-volta e encaminhou-se lentamente para a cabana.
Poucos minutos depois dona Henriqueta seguiu o marido. Ao entrar
encontrou-o sentado, encurvado  sobre a mesa, com a cabea metida nos
braos, soluando como uma criana. Estavam casados haviam quase trinta
anos e aquela era a primeira vez que ela via o marido  chorar.
  12
  Antnio e Horcio voltaram ao clarear do dia. Estavam plidos e tinham
nos olhos tresnoitados uma apagada expresso de horror. Nada disseram ao
entrar; ningum  lhes perguntou nada. Estendida no catre, Ana ouviu o
rudo dos passos dos irmos, abriu os olhos e ficou a seguir o movimento
de suas sombras que se projetavam no  pano que separava seu quarto da
diviso maior. Viu quando um deles atirou uma p no cho. Compreendeu
tudo. Numa sbita revolta desejou erguer-se, correr para os  irmos,
meter-lhes as unhas na cara, arrancar-lhes os olhos, mas ficou imvel,
sem nimo para mover-se ou falar.
  Estava exausta, com um frio de morte no corpo, um vazio na cabea.
Tudo aquilo lhe parecia um pesadelo, que a luz da lamparina e o frio da
madrugada tornavam ainda  mais medonho.
  Dona Henriqueta comeou a servir o chimarro ao marido e aos filhos. A
cuia passou de mo em mo, a bomba andou de boca em boca. Mas ningum
falava. Maneco apagou  a lamparina e a luz alaranjada ali dentro da
cabana de repente se fez cinzenta e como que mais fria. As sombras
desapareceram do pano onde Ana tinha fito o olhar.  Ela ento ficou
vendo apenas o que havia nos seus pensamentos. Seus irmos tinham levado
Pedro para bem longe: trs cavalos, e trs cavaleiros andando na noite.
Pedro no dizia nada, no fazia nenhum gesto, no procurava fugir, sabia
que era seu destino ser morto e enterrado ao p duma rvore. Ana
imaginou Horcio e Antnio  cavando uma sepultura, e o corpo de Pedro
estendido no cho ao p deles, coberto de sangue e sereno. Depois os
dois vivos atiraram o morto na cova e o cobriram com  terra. Bateram a
terra e puseram uma pedra em cima. E Pedro l ficou no cho frio, sem
mortalha, sem cruz, sem orao, como um cachorro pesteado. Agora estava
tudo  perdido. Seus irmos eram assassinos. Nunca mais poderia haver paz
naquela casa. Nunca mais eles poderiam olhar direito uns para os outros.
O segredo horroroso havia  de roer para sempre a alma daquela gente. E a
lembrana de Pedro ficaria ali no rancho, na estncia e nos pensamentos
de todos, como uma assombrao. Ana pensou  ento em matar-se. Chegou a
pegar o punhal que o ndio lhe dera, mas compreendeu logo que
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  no teria coragem de meter aquela lmina no peito e muito menos na
barriga, onde estava a criana. Imaginou a faca trespassando o corpo do
filho e teve um estremecimento,  levou ambas as mos espalmadas ao
ventre, como para o proteger. Sentiu de sbito uma inesperada, esquisita
alegria ao pensar que dentro de suas entranhas havia um  ser vivo, e que
esse ser era seu filho e filho de Pedro, e que esse pequeno ente havia
de um dia crescer... Mas uma nova sensao de desalento gelado a invadiu
quando  ela imaginou o filho vivendo naquele descampado, ouvindo o
vento, tomando chimarro com os outros num silncio de pedra, a cara, as
mos, os ps encardidos de terra,  a camisa cheirando a sangue de boi
(ou sangue de gente?). O filho ia ser como o av, como os tios. E um dia
talvez se voltasse tambm contra ela. Porque era "filho  das macegas",
porque no tinha pai. Tremendo de frio Ana Terra puxou as cobertas at o
queixo e fechou os olhos.
  Quando o sol saiu, os trs homens foram trabalhar na lavoura. Dona
Henriqueta aproximou-se do catre da filha, sentou-se junto dele e
comeou a acariciar desajeitadamente  a cabea de Ana. Por longo tempo
nenhuma das duas falou. Ana continuava de olhos cerrados, reprimindo a
custo as lgrimas. Por fim, numa voz sentida, bem como nos  tempos de
menina quando Horcio ou Antnio lhe puxava os cabelos e ela vinha
queixar-se  me, choramingou:
  - Me, eles mataram o Pedro.
  Dona Henriqueta limitou-se a olhar para a filha com seus olhos
tristes, mas no teve coragem de falar. O sofrimento dava-lhe ao rosto
uma expresso estpida. Ela  no queria acreditar que os filhos tivessem
feito aquilo; mas j agora no restava a menor dvida.
  - Decerto eles s mandaram o Pedro embora... - disse, sem nenhuma
convico.
  - No, no. Eles mataram o Pedro, eu sei... Que vai ser de mim agora?
  - Deus  grande, minha filha. Tem coragem.
  - Se eu tivesse coragem eu me matava.
  - A vida  uma coisa que Deus nos deu e s Ele pode nos tirar.
  -- Ou ento eu ia embora...
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  - Mas pra onde?
  - Pra o Rio Pardo, pra qualquer outra parte...
  - Mas fazer o qu?
  - Trabalhar, viver a minha vida.
  - Com esse filho na barriga?
  - Um dia ele nasce.
  - E tu vai ter ele na rua ou numa estrebaria, como um animal? No,
minha filha, teu lugar  aqui. Teu pai diz que pra ele tu est morta.
Mas eu sou ainda tua me.  Teu lugar  aqui.
  Ana sacudia a cabea, obstinadamente. Sabia que sua vida naquela casa
dali por diante ia ser um inferno.
  -- Eles mataram Pedro - repetiu.
  Dona Henriqueta no respondeu. O mugido duma vaca no curral lembrou-a
de que tinha de ir tirar leite, comear o seu dia, seguir sua sina.
Soltou um fundo suspiro,  puxou para cima uma mecha de cabelo grisalho
que lhe cara sobre a testa, levantou-se, apanhou o balde e saiu. E a
prpria Ana lembrou-se de que tinha de lavar roupa  - a roupa dos homens
que haviam assassinado Pedro - cerzir calas, comear enfim seu dia de
trabalho. Levantou-se da cama com grande esforo, de pernas bambas,
braos  moles, meio estonteada e a ver diante dos olhos manchas escuras.
Comeou-a apanhar as roupas, com gestos automticos. Por fim encheu o
cesto, levou-o  cabea e  tambm saiu.
  E assim as duas mulheres comearam mais um dia. E quando a noite
desceu encontrou-as a dar comida para os homens,  luz da lamparina
fumarenta. E dentro da casa  aquela noite s se ouviu a voz do vento
porque ningum mais falou. Nenhum dos homens sequer olhou paja Ana, que
s se sentou  mesa depois que eles terminaram de  comer.
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  Vieram outros dias e outras noites. E nunca mais o nome de Pedro foi
pronunciado naquela estncia. O inverno entrou e houve horas, longas
horas em que o minuano  arrepelou as macegas e
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  cortou o ar como uma navalha. Vieram as chuvas, que prenderam na
cabana os cinco membros da famlia, que s vezes se reuniam junto do
fogo, onde os homens ficavam  a falar da lavoura, do gado, do tempo.
Para Mnneco Terra a filha estava morta e enterrada: no tomava
conhecimento de sua presena naquela casa. Antnio e Horcio  tratavam
Ana com uma aspereza meio constrangida, que lhes vinha duma conscincia
culpada. Ao lhe dirigirem a palavra, no olhavam para ela de frente, e
ficavam desconcertados  quando, para lhe evitar os olhos, baixavam a
cabea e davam com o ventre crescido da irm.
  Quando no chovia Ana descia para a sanga. Agora levava duas cargas: a
cesta de roupa e o filho, que cada vez lhe pesava mais. Muitas vezes
pela manh seus ps  pisavam a geada do caminho. E na gua gelada seus
dedos ficavam roxos e entanguidos. Durante todo o tempo que passava
junto da sanga, a lembrana de Pedro permanecia  com ela.
  Um dia, olhando o bordado branco que a espuma do sabo fazia na gua,
teve a sensao de que Pedro nunca tinha existido, e que tudo o que
acontecera no passara  dum pesadelo. Mas nesse mesmo instante o filho
comeou a mexer-se em suas entranhas e ela passou a brincar com uma
idia que dali por diante lhe daria a coragem  necessria para enfrentar
os momentos duros que estavam para vir. Ela trazia Pedro dentro de si.
Pedro ia nascer de novo e portanto tudo estava bem e o mundo no  fim de
contas no era to mau. Voltou para casa exaltada...
  Mas num outro dia foi tomada de profunda melancolia e escondeu-se para
chorar. Ficou na frente da casa, olhando o horizonte e esperando que
longe surgisse o vulto  dum cavaleiro - Pedro voltando para casa; porque
ele no tinha morrido: conseguira fugir e agora vinha buscar a mulher e
o filho. Um entardecer sentiu o repentino  desejo de montar a cavalo e
sair pelo campo em busca do cadver de seu homem: levaria uma p,
revolveria a terra ao redor de todas as rvores solitrias que
encontrasse...  Mas montar a cavalo no estado em que se encontrava?
Loucura. Seu ventre estava cada vez maior.
  E Ana notava que quanto mais ele crescia, mais aumentava a irritao
dos irmos. O pai, esse nunca olhava para ela nem lhe dirigia a menor
palavra.
  Comia em silncio, de olhos baixos, pigarreando de quando em quando,
conversando com os filhos ou pedindo uma ou outra coisa  mulher.
  Em meados da primavera Antnio mais uma vez foi a Rio Pardo e de l
voltou trazendo mantimentos e artigos que os pais lhe haviam
encomendado.
  Contou que aquele ano os ndios tapes tinham atacado os colonos
aorianos nas vizinhanas da vila: ele vira algumas lavouras devastadas
e muitas cruzes novas no  cemitrio. Falou tambm das festas da
inaugurao da nova Matriz e, depois de muitos rodeios, comunicou ao pai
que estava gostando duma moa, filha dum agricultor  do municpio, e que
pensava em casar-se com ela.
  - Se vosmec me d licena... - acrescentou humildemente. Maneco Terra
ficou um instante em silncio e depois respondeu:
  - Est bom. Vamos ver isso depois. Quero tomar informaes da moa e
da famlia dela.
  E no se falou mais no assunto nos dias que se seguiram.
  Findava mais um ano e os pssegos do pomar j estavam quase maduros
quando Ana comeou a sentir as primeiras dores do parto. Foi num
anoitecer de ar transparente  e cu limpo. Ao ouvirem os gemidos da
rapariga, os trs homens encilharam os cavalos, montaram e se foram, sem
dizer para onde.
  Dona Henriqueta viu-os partir e no perguntou nada. Naquela noite
nasceu o filho de Ana Terra. A av cortou-lhe o cordo umbilical com a
velha tesoura de podar.  E o sol j estava alto quando os homens
voltaram, apearam e vieram tomar mate. Ouviram choro de criana na
cabana, mas no perguntaram nada nem foram olhar o recm-nascido.
  -  um menino! - disse dona Henriqueta ao marido, sem poder conter um
contentamento nervoso.
  Maneco pigarreou mas no disse palavra. Quando o pai saiu para fora,
Ana ouviu Horcio cochichar para a me:
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  - Ela vai bem?
  - Vai indo, graas a Deus - respondeu dona Henriqueta. - Est com os
ubres cheios. Tem mais leite que uma vaca - acrescentou com orgulho.
  Naquele instante Ana dava de mamar ao filho. Estava serena, duma
serenidade de cu despejado, depois duma grande chuva.
  Trs dias depois j se achava de p, trabalhando. E sempre que ia
lavar roupa levava o filho dentro da cesta, e enquanto batia nas pedras
as camisas e calas e  vestidos, deixava a criana deitada a seu lado. E
cantava para ela velhas cantigas que aprendera quando menina em
Sorocaba, cantigas que julgava esquecidas, mas  que agora lhe brotavam
milagrosamente na memria. E a gua corria, e a criana ficava de olhos
muito abertos, com a sombra mvel dos ramos a danar-lhe no rostinho
cor de marfim.
  Pelos clculos de Antnio deviam j estar no Ano-Novo. Uma noite,
depois do jantar, Horcio disse:
  - Se no me engano, estamos agora no 79. Maneco Terra suspirou.
  - Eu s queria saber que nova desgraa este ano vai nos trazer...
  Disse estas palavras e comeou a enrolar tristemente um cigarro.
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  Um dia dona Henriqueta sugeriu timidamente ao marido que levasse o
neto ao Rio Pardo para que o vigrio o batizasse. Maneco pulou, furioso:
  - No Rio Pardo? Ests louca. Pra todo mundo querer saber quem  o pai
da criana? Ests louca. Pra arrastarem meu nome no barro? Ests louca
varrida.
  - Ento o inocente vai ficar pago?
  - O melhor mesmo era ele ter nascido morto - retrucou o velho.
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  Ana escutou a conversa, serena. Habituara-se de tal modo  situao
que j agora nada mais a indignava ou irritava. Um dia havia de aparecer
na estncia um padre  e ento batizariam Pedrinho. Se no aparecesse,
pacincia...
  Maneco continuava a ignorar a existncia tanto da filha como do neto.
Mas Antnio e Horcio tinham abrandado um pouco no tratamento da irm.
Dirigiam-lhe a palavra  com mais freqncia e menos aspereza, embora
continuassem a evitar-lhe o olhar. E dona Henriqueta, que sofria com
esse estado de coisas, alimentava a esperana de  que com o passar do
tempo tudo voltasse a ser como antes. Achava que quando a criana
crescesse e comeasse a querer subir para o colo do av, Maneco acabaria
por  se entregar ao neto. Era casmurro, teimoso como uma mula, mas tinha
bom corao. Dona Henriqueta conhecia bem o seu homem, por isso esperava
e confiava. E quando  algum desconhecido passava pela estncia, descia
para tomar um mate e fazia perguntas sobre Ana e o filho - enquanto os
homens da casa ficavam num silncio meio  agressivo - dona Henriqueta
apressava-se a explicar:
  - Minha filha  viva. O marido morreu de bexigas, faz meses.
  Aquele inverno Maneco Terra foi ao Rio Pardo com um dos filhos e
voltou de l trazendo trs escravos de papel passado. Dois deles eram
pretos de canela fina, peito  largo e braos musculosos; o outro era
retaco, de pernas curtas e um jeito de bugio. No dia em que eles
chegaram Ana foi at o galpo levar-lhes comida. Antnio  - que estava
irritado porque o pai apesar de lhe ter aprovado a escolha da noiva
aconselhara-o marcar o casamento para dali a um ano - exclamou ao ver a
irm entrar:
  - V agora se vai dormir tambm com um desses negros! Ana estacou de
repente no meio da sala, de cabea alada,
  olhos fuzilando, como uma cobra pronta a dar o bote. Olhou firme para
o irmo e cuspiu a palavra que havia muito recalcava:
  - Assassino!
  Antnio ergueu-se num prisco.
  - Cobardes! - exclamou Ana, olhando tambm para os outros homens. -
Mataram o Pedro - desabafou ela. - Assassinos!
  151
  - Cala essa boca pelo amor de Deus! - implorou dona Henriqueta.
  Antnio estava plido.
  - Tu e o Horcio! - gritava Ana, espumando na comissura dos lbios. -
Dois contra um, cobardes!
  Horcio estava de cabea baixa. Antnio deu alguns passos e ergueu a
mo para bater na irm. Mas a me se precipitou para ele e se lhe
dependurou no brao.
  - No, Antnio! Isso no!
  Maneco Terra fumava em silncio, olhando fixamente para seu prato
vazio, como se nada visse nem ouvisse.
  - Assassinos! - repetiu Ana. - Todos deviam estar mas era na cadeia
com os outros bandidos!
  Antnio desembaraou-se da me e correu para fora.
  Pedrinho tinha comeado a berrar. Ainda arfando, Ana aproximou-se do
catre, tomou o filho nos braos, desabotoou o vestido e deu-lhe o peito.
A criana acalmou-se  em seguida, e por algum tempo no silncio do
rancho o nico som que se ouviu foi o dos chupes que ela dava no seio
da me.
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  Os anos chegavam e se iam. Mas o trabalho fazia Ana esquecer o tempo.
No inverno tudo ficava pior: a gua gelava nas gamelas que passavam a
noite ao relento; pela  manh o cho freqentemente estava branco de
geada e houve um agosto em que quando foi lavar roupa na sanga, Ana teve
primeiro de quebrar com uma pedra a superfcie  gelada da gua.
  Em certas ocasies surpreendia-se a esperar que alguma coisa
acontecesse e ficava meio area, quase feliz, para depois, num
desalento, compreender subitamente  que para ela a vida estava
terminada, pois um dia era a repetio do dia anterior - o dia de amanh
seria igual ao de hoje, assim por muitas semanas, meses e anos  at a
hora da morte. Seu nico consolo era Pedrinho, que ela via crescer, dar
os primeiros passos, balbuciar as primeiras palavras.
  Mas o prprio filho tambm lhe dava cuidados, incmodos. Quando ele
adoecia e no sabia dizer ainda que parte do corpo lhe doa, ela ficava
agoniada e, ajudada  pela me, dava-lhe chs de ervas, e quando a
criana gemia  noite ela a ninava, cantando baixinho para no acordar
os que dormiam.
  De quando em quando chegavam notcias do Rio Pardo pela boca dum
passante. Contaram um dia a Maneco Terra que Rafael Pinto Bandeira tinha
sido preso, acusado de  ter desviado os quintos e direitos da Coroa de
Portugal e de ter ficado com as presas apanhadas nos combates de So
Martinho e Santa Tecla. Ia ser enviado para o  Rio de Janeiro e
submetido a conselho de guerra. E o informante acrescentou:
  - Tudo so invejas do governador Jos Marcelino, que  um tirano.
  Maneco no disse palavra. No era homem de conversas. No se metia com
grados. O que ele queria era cuidar de sua casa, de sua terra, de sua
vida.
  De toda a histria Ana s compreendeu uma coisa: Rafael Pinto Bandeira
fora preso como ladro. E imediatamente lembrou-se daquele remoto dia de
vento em que o comandante,  todo faceiro no seu fardamento e seu chapu
de penacho, lhe dissera de cima do cavalo: "Precisamos de muitas moas
bonitas e trabalhadeiras como vosmec".
  Muitos anos mais tarde, Ana Terra costumava sentar-se na frente de sua
casa para pensar no passado. E no seu pensamento como que ouvia o vento
de outros tempos  e sentia o tempo passar, escutava vozes, via caras e
lembrava-se de coisas... O ano de 81 trouxera um acontecimento triste
para o velho Maneco: Horcio deixara a  fazenda, a contragosto do pai, e
fora para o Rio Pardo, onde se casara com a filha dum tanoeiro e se
estabelecera com uma pequena venda. Em compensao nesse mesmo  ano
Antnio casou-se com Eullia Moura, filha dum colono aoriano dos
arredores do Rio Pardo, e trouxe a mulher para a estncia, indo ambos
viver no puxado que tinham  feito no rancho.
  152
  153
  Em 85 uma nuvem de gafanhotos desceu sobre a lavoura deitando a perder
toda a colheita. Em 86, quando Pedrinho se aproximava dos oito anos, uma
peste atacou o  gado e um raio matou um dos escravos.
  Foi em 86 mesmo ou no ano seguinte que nasceu Rosa, a primeira filha
de Antnio e Eullia? Bom. A verdade era que a criana tinha nascido
pouco mais de um ano  aps o casamento. Dona Henriqueta cortara-lhe o
cordo umbilical com a mesma tesoura de podar com que separara Pedrinho
da me.
  E era assim que o tempo se arrastava, o sol nascia e se sumia, a lua
passava por todas as fases, as estaes iam e vinham, deixando sua marca
nas rvores, na terra,  nas coisas e nas pessoas.
  E havia perodos em que Ana perdia a conta dos dias. Mas entre as
cenas que nunca mais lhe saram da memria estavam as da tarde em que
dona Henriqueta fora para  a cama com uma dor aguda no lado direito,
ficara se retorcendo durante horas, vomitando tudo que engolia, gemendo
e suando frio. E quando Antnio terminou de encilhar  o cavalo para ir
at o Rio Pardo buscar recursos, j era tarde demais. A me estava
morta. Era inverno e ventava. Naquela noite ficaram velando o cadver de
dona  Henriqueta. Todos estavam de acordo numa coisa: ela tinha morrido
de n na tripa. Um dos escravos disse que conhecia casos como aquele.
Fosse como fosse, estava  morta. Descansou - disse Ana para si mesma; e
no teve pena da me. O corpo dela ficou estendido em cima duma mesa,
enrolado na mortalha que a filha e a nora lhe  haviam feito. Em cada
canto da mesa ardia uma vela de sebo. Os homens estavam sentados em
silncio. Quem chorava mais era Eullia. Pedrinho, de olhos muito
arregalados,  olhava ora para a morta ora para as sombras dos vivos que
se projetavam nas paredes do rancho. Ana no chorou. Seus olhos ficaram
secos e ela estava at alegre porque  sabia que a me finalmente tinha
deixado de ser escrava. Podia haver outra vida depois da morte, mas
tambm podia no haver. Se houvesse, estava certa de que dona
Henriqueta iria para o cu; se no houvesse, tudo ainda estava bem,
porque sua me ia descansar para sempre. No teria mais que cozinhar,
ficar horas e horas pedalando  na roca, em cima do estrado, fiando, 
  suspirando e cantando as cantigas tristes de sua mocidade. Pensando
nessas coisas, Ana olhava para o pai que se achava a seu lado, de cabea
baixa, ombros encurvados,  tossindo muito, os olhos riscados de sangue.
No sentia pena dele. Por que havia de ser fingida? No sentia. Agora
ele ia ver o quanto valia a mulher que Deus lhe  dera. Agora teria de se
apoiar na nora ou nela, Ana, pois precisava de quem lhe fizesse a
comida, lavasse a roupa, cuidasse da casa. Precisava, enfim, de algum
a quem pudesse dar ordens, como a uma criada. Henriqueta Terra jazia
imvel sobre a mesa e seu rosto estava tranqilo.
  No outro dia pela manh enterraram-na perto do Lucinho, no alto da
coxilha, e sobre o seu tmulo plantaram outra cruz feita com dois galhos
de guajuvira. Quando  voltaram para casa, soprava o minuano sob um cu
limpo e azul. Maneco e Antnio iam na frente, com as ps s costas.
  As mesmas ps que cavaram a sepultura do Pedro - pensou Ana, que
descia a encosta puxando o filho pela mo.
   noite Pedrinho, que dormia abraado  me, apertou-a de leve e
cochichou:
  - Me.
  Ana Terra voltou-se para ele resmungando:
  - Que ?
  - Est ouvindo?
  - Ouvindo o qu?
  - Um barulho. Escuta...
  Ana abriu os olhos, viu a escurido e ouviu o ressonar de Maneco.
  -  o teu av roncando - disse.
  - No , no.  a roca.
  Sim, Ana agora ouvia o rudo da roca a rodar, ouvia as batidas do
pedal, bem como nos tempos em que sua me ali se ficava a fiar e a
cantar. No havia dvida:  era o som da roca. Mas procurou tranqilizar
o filho.
  - No  nada. Dorme, Pedrinho.
  Ficaram em silncio. Mas no puderam dormir. Ana escutava o ta-ta-ta
da roda, que agora se confundia com as batidas apressadas
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  de seu prprio corao e com as do corao de Pedro que ela tinha
apertado contra o peito.
  Devia ser a alma de sua me que voltava para a casa  noite e,
enquanto os outros dormiam, punha-se a fiar. Sentiu um calafrio. Quis
erguer-se, ir ver, mas no  teve coragem.
  -  ela, me? - sussurrou Pedro. -- Ela quem?
  - A vov.
  - Tua av est enterrada l em cima da coxilha.
  - E a alma dela.
  - No  nada, meu filho. Deve ser o vento.
  Em outras madrugadas Ana tornou a ouvir o mesmo rudo. Por fim
convenceu-se de que era mesmo a alma da me que vinha fiar na calada da
noite. Nem mesmo na morte  a infeliz se livrara de sua sina de
trabalhar, trabalhar, trabalhar...
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  Em princpios de 89 Maneco Terra realizou o grande sonho de sua vida.
Foi a Rio Pardo, comprou sementes de trigo e conversou com alguns
colonos que o haviam plantado  com sucesso e que lhe ensinaram preparar
a terra e semear. Maneco voltou para casa contente. Pela primeira vez em
muitos anos Ana viu-o sorrir. Chegou, abraou Eullia  e Antnio,
resmungou constrangido uma palavra para a filha e outra para o neto e
foi logo contando as novidades Rafael Pinto Bandeira - ouvira dizer no
Rio Pardo  - tinha sido absolvido no Rio de Janeiro e voltara de l com
glrias e honrarias. E depois de ter sido durante alguns anos governador
do Continente ("Vejam s, um  homem que j comeu na minha mesa e apertou
a minha mo.") havia casado, na vila do Rio Grande, com uma dama natural
da Colnia do Sacramento. Maneco falara tambm  com Horcio e sentira um
aperto de corao ao v-lo atrs dum balco vendendo cachaa e rapadura
aos caboclos vadios da vila.
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  Durante o ms de junho Maneco e Antnio aprontaram a terra para
plantar o trigo. Toda a gente da casa, inclusive Pedrinho, que ia j a
caminho dos onze anos, foi  para a lavoura. Limparam primeiro o terreno,
arrancando as razes e as ervas. Depois viraram a terra, trabalhando de
sol a sol. Quando voltaram ao anoitecer para  o rancho, Eullia
esperava-os com o jantar pronto: carne de veado, abbora, mandioca e
feijo. Maneco estava excitado e parecia ter rejuvenescido. Fazia contas
nos  dedos, ficava s vezes absorto nos prprios pensamentos, esquecido
da comida que fumegava no prato. Plantaria poucos alqueires, para
experimentar a qualidade da  terra; e naturalmente continuaria com o
milho, a mandioca e o feijo. Se o trigo desse bem, aumentaria o trigal.
Com o produto da venda do primeiro trigo colhido  poderia comprar mais
uma junta de bois, ferramentas e mais escravos. E era preciso arranjar o
quanto antes mais uma carreta.
  - Uma pena  o Horcio no estar tambm aqui com a gente - murmurou
ele de repente, ao cabo de longo silncio.
  Quando cessaram as primeiras chuvas de inverno - julho devia estar
principiando - comearam a semear. Lanaram as sementes nos sulcos
(quanto mais fundo o rego,  melhor - sabia ele). Na noite do dia em que
se fez a primeira semeadura, Maneco teve um sono agitado. Ana ouviu-o
revolver-se na cama e finalmente levantar-se e  sair. Ergueu-se tambm,
foi at a porta e olhou para fora. Era uma noite de lua cheia, de ar
parado e frio. Avistou o pai, que caminhava para a lavoura. Seguiu-o
com os olhos e viu-o ficar olhando longamente a terra, como se o calor
de seu olhar pudesse fazer as sementes germinarem. Quando ele se voltou
e comeou a andar  na direo do rancho, Ana tornou a deitar-se.
  Uma semana depois, certa manh, mal o sol havia raiado, Pedrinho
entrou em casa todo alvorotado, no momento em que o av e o tio tomavam
chimarro e as mulheres  se preparavam para ir tirar leite no curral.
  - Me! - gritou ele. - Me! O trigo est nascendo! Maneco Terra largou
a cuia sobre a mesa, ergueu-se, rpido,
  e ficou olhando para o neto. O menino estava transfigurado e havia
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  no seu rosto uma alegria to radiosa que chegava quase a transform-lo
num foco de luz.
  - O trigo j est aparecendo... - disse ele. - Uma coisinha verde. To
bonita, me, to...
  Calou-se, engasgado. Brotaram-lhe lgrimas nos olhos. Maneco e Antnio
precipitaram-se para fora e correram para a lavoura. As sementes
efetivamente haviam brotado.  A terra era boa! O trigo punha a cabea
para fora, procurava o sol!
  Nos dias que se seguiram foram aparecendo as folhas. E os talos
cresceram. Pedrinho seguia de perto o desenvolvimento das plantas e
todos os dias  hora das refeies  contava o que havia observado.
  Uma tarde, ao voltar da sanga, Ana viu Maneco Terra e o neto
conversando animadamente na frente da casa, como dois bons amigos.
Falavam do trigo. Ela sorriu e  entrou em casa de olhos baixos.
  17
  Depois que as espigas apareceram, sempre que geava os Terras tomavam
duma longa corda, Antnio pegava numa ponta e Maneco na outra e
comeavam a andar de cima  a baixo na lavoura, passando a corda sobre as
espigas, para limp-las da geada.
  Passaram-se os meses, o inverno acabou e quando entrou o vero Maneco
cortou uma espiga, procurou esmagar os gros entre os dedos e, como
encontrasse resistncia,  concluiu: "Est maduro. Podemos colher". E num
dia seco e limpo de fevereiro todos foram para a lavoura com suas
foices. Ana surpreendeu-se vendo o pai assobiar.  Era um assobio agudo,
cuja melodia, confusa e sincopada, tinha o ritmo do trote do cavalo.
  Trabalharam como mouros naquele dia e nos que se seguiram.  noite iam
para a cama exaustos e muitas vezes Ana estava to excitada que no
conseguia pregar olho.  Ficava ento acordada, ouvindo o ressonar leve
do filho, que dormia a seu lado, e pensando no dia em que pudesse ir-se
embora dali com Pedrinho.
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  Depois que os feixes de espigas foram amarrados e guardados debaixo
duma ramada, Maneco Terra voltou para casa  hora do almoo e quando Ana
lhe serviu o prato  de fervido ele quase sorriu para a filha.
  Mas notcias pressagas escureceram aquela alegria. Um tropeiro que
passara pela estncia, rumo do Rio Pardo, contou-lhes, alarmado, que um
grupo de bandidos castelhanos  se encaminhava para ali, saqueando
estncias, matando gente, violentando mulheres.
  Maneco escutou a notcia num silncio sombrio. E quando Antnio lhe
perguntou que deviam fazer, respondeu simplesmente:
  - Esperar.
  O tropeiro se foi, prometendo pedir providncias ao comandante da
praa do Rio Pardo. Podiam mandar os drages para enfrentar os
bandoleiros. No era para isso  que a Coroa pagava seus oficiais e seus
soldados?
  Naquela noite Maneco e Antnio ficaram por muito tempo azeitando e
carregando as espingardas. E os dois escravos revezaram-se no posto de
sentinela no alto duma  coxilha, de onde podiam dominar com o olhar
lguas em derredor. A noite se passou em calma. No dia seguinte os
homens foram para o trabalho e trataram de trazer  o gado e os cavalos
para mais perto da casa. E como se passassem outros dias sem novidade, a
tenso nervosa dos Terras afrouxou e eles comearam a ter esperanas  de
que os castelhanos, temendo aproximar-se demais da vila, onde havia
foras regulares, tivessem mudado de rumo.
  Uma tarde Ana Terra olhou bem para o filho e comeou a ver nele traos
do pai: os olhos meio oblquos, as mas salientes, o mesmo corte de
boca. Pedrinho era  um menino triste, gostava de passeios solitrios e,
agora que completara onze anos, comeava a fazer perguntas. Um dia
indagou:
  - E o meu pai?
  - Morreu - disse Ana - morreu antes de tu nascer.
  -  ele que est enterrado l em cima?
  - No. Uma daquelas cruzes  da sepultura da tua av. A outra  do teu
tio.
  - Mas onde foi que enterraram o meu pai?
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  Antnio, que estava perto e ouvira a pergunta, baixou os olhos e
tratou de afastar-se. Ana Terra sentiu uma apertura na garganta, mas
respondeu firme:
  - Morreu numa guerra, muito longe daqui.
  Um dia surpreendeu o menino a brincar com o punhal de prata.
  - Posso ficar com esta faca, me?
  Ela sorriu e sacudiu a cabea afirmativamente. E Pedro dali por diante
comeou a riscar com a ponta do punhal os troncos das rvores, fazendo
desenhos que surpreendiam  a me: cavalos, bois, casas, ps de trigo,
rvores e at caras de pessoas. Ela olhava e sorria. E consigo mesma
dizia: "Bem como o pai. Sabe fazer coisas".
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  Certa manh, estando Ana e Eullia a fazer po, ouviram vozes
excitadas no galpo e Antnio entrou correndo na cabana seguido de
Maneco e dum dos escravos.
  - Os castelhanos vm a! - gritou ele com voz que a comoo tornava
gutural.
  Eullia ficou mortalmente plida, deixou cair a forma que tinha na
mo. O primeiro pensamento de Ana foi para o filho.
  - Pedrinho! - gritou ela.
  O rapaz apareceu, Ana abraou-o e ps-se a olhar para os lados,
aflita, sem saber que fazer.
  Maneco e Antnio apanharam as espingardas e deram um velho mosquete ao
escravo.
  - Corram pr mato!- ordenou Maneco  filha e  nora. - E levem as
crianas. Ligeiro!
  Ana ergueu nos braos a filha de Antnio, tomou a mo de Pedro e,
fazendo um sinal para a cunhada, gritou:
  - Vamos!
  Saram. O outro escravo, que estava agachado atrs duma rvore,
espiando os castelhanos, gritou para as mulheres:
  - Aproveitem que l de baixo no podem enxergar vosmecs.
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  - Quantos so? - perguntou Ana sem parar nem voltar a cabea para o
negro.
  - Tem mais castelhano que dedo na minha mo - respondeu ele.
  - Tome a criana! - disse Ana, passando Rosa para os braos da me.
  Apertou Pedro contra o peito, beijou-lhe o rosto muitas vezes e disse:
  - Leve a tia Eullia pr fundo do mato, l pr'aquela cova que tu
sabes.
  Os olhos do menino brilharam.
  - Eu estou armado, me! - exclamou ele com orgulho, segurando o punhal
que trazia  cinta.
  Eullia perdera a fala, e o pavor velava-lhe os olhos.
  - Agora corram! - gritou Ana. - Corram! Corram! Pedrinho tomou a mo
da tia e puxou-a. Mal havia dado
  alguns passos, voltou-se:
  - Vem, me!
  Ana acenou-lhe com os braos e gritou:
  - Eu vou depois. Mas acontea o que acontecer, s saiam quando eu
chamar. - Num desespero repetiu: - S quando eu chamar!
  Fez meia-volta e correu para casa, onde Maneco e Antnio combinavam o
que deviam fazer quando os castelhanos se aproximassem. Receb-los a
bala? Era loucura. Estavam  em nmero muito inferior e no poderiam
resistir nem durante meia hora...
  Ao verem Ana entrar, interromperam a conversa, e foi com uma irritao
nervosa que o velho perguntou:
  - Por que no foi pr mato? Ana no respondeu.
  - Corra, Ana! - exclamou Antnio, agarrando o brao da irm e tentando
arrast-la para fora. Mas ela resistiu, desvencilhou-se dele e disse:
  - Se eu me escondo eles nos procuram no mato, porque logo vo ver
pelas roupas do ba que tem mulher em casa. Se eu fico,
  161
  eles pensam que sou a nica e assim a Eullia e as crianas se salvam.
  - E vosmec sabe o que pode l acontecer? - perguntou-lhe
  o pai.
  Ana sacudiu lentamente a cabea. Maneco encolheu os ombros e deixou
escapar um suspiro.
  Combinaram tudo. Antnio sairia para se entender com os castelhanos
enquanto os outros ficariam dentro de casa, preparados para tudo. Se os
bandidos quisessem  apenas saquear a estncia, respeitando a vida das
pessoas, ainda estaria tudo bem. Era s apear e comear a pilhagem... (E
ao decidir isso Maneco pensava com dor  no corao no seu rico trigo,
que l estava debaixo da ramada.) Mas se aqueles renegados no quisessem
respeitar nem as pessoas, o remdio era resistir e morrer  como homem,
de arma na mo.
  Antnio apanhou a espingarda e saiu. Maneco tambm tomou da sua arma e
foi colocar-se junto duma das janelas. Suas mos tremiam e a sua
respirao era um sopro  forte, como a dum touro. O escravo que
empunhava tambm arma de fogo, estava acocorado no cho, perto da porta,
e tremia tanto que Ana temeu que l de fora pudessem  ouvir-lhe o bater
dos dentes; e pela sua cara, dum negro meio azulado, o suor escorria em
grossas bagas. Enquanto isso, o escravo que estava desarmado, segurava
a cabea com ambas as mos e chorava um choro solto e convulsivo.
  Automaticamente Ana comeou a rezar. Seus olhos ergueram-se para o
crucifixo, postaram-se no Cristo de nariz carcomido. Padre nosso que
estais no cu, santificado  seja o Vosso nome.... O corao batia-lhe
com uma fora surda. O tropel se aproximava e ela ouviu, vindo l de
fora, o resfolgar dos cavalos, o tinir de espadas.  Depois, um silncio.
  Uma voz rouca perguntou:
  - Donde estn los otros?
  Ana mal reconheceu a voz do irmo quando ele respondeu, meio
engasgado:
  - Dentro de casa.
  - Que salgan! Bamos!
  - Vosmec pode me dizer. . - comeou Antnio.
  162
  I
  - Perro scio!
  Ouviu-se um estampido l fora. E em seguida Maneco disparou o
mosquete. Pelo vo da porta o escravo atirou tambm. Ana rojou-se ao
cho, de todo o comprimento,  colou-se  terra, enquanto outros
estrondos fendiam o ar e as balas esburacavam as paredes do rancho. De
olhos fechados, Ana ouvia os gritos e os tiros, sentia cair-lhe  poeira
sobre o corpo, enterrava com desespero as unhas no cho. Santa Maria Me
de Deus - pensava ela - rogai por ns pecadores... Da boca entreaberta
saa-lhe com  a respirao uma baba visguenta. De repente ela viu, mais
com os ouvidos que com os olhos, que a parede da frente vinha abaixo. Um
dos bandidos entrava no rancho  a cavalo, distribuindo golpes de espada
a torto e a direito. Ana sentiu to perto o resfolegar do animal que
escondeu a cabea nas mos e esperou agoniada que patas  lhe esmagassem
o crnio ou que espadas lhe varassem o corpo.
  A gritaria continuava. Mos fortes agarraram Ana Terra no ar, e
puseram-na de p. A mulher abriu os olhos: cresceram para ela faces
tostadas, barbudas, lavadas  em suor.
  - Mira que guapa!
  Um dos homens apertou-lhe os seios. E depois Ana viu uma cara de
beios carnudos, com dentes grandes e amarelados - e esses beios, que
cheiravam a cachaa e sarro  de cigarro, se colaram brutalmente aos seus
num beijo que foi quase uma mordida. Ana cuspiu com nojo e os homens
desataram a rir.
  Um suor gelado escorria-lhe pela testa, entrava-lhe nos olhos,
fazendo-os arder e aumentando-lhe a confuso do que via: o pai e o irmo
ensangentados, cados  no cho, e aqueles bandidos que gritavam,
entravam no rancho, quebravam mveis, arrastavam a arca, remexiam nas
roupas, derrubavam a pontaps e golpes de faco as  paredes que ainda
estavam de p. Mas no lhe deram tempo para olhar melhor. Comearam a
sacudi-la e a perguntar:
  - Donde est Ia plata?
  La plata... Ia plata... Ia plata... Ana estava estonteada. Algum lhe
perguntava alguma coisa. Dois olhos sujos e riscados de sangue se
aproximaram dos dela. Mos  lhe apertavam os braos. Donde est? Donde
est? La plata, Ia plata... Ela sacudia a cabea 
  163
  freneticamente, e a cabea lhe doa, latejava, doa... La plata... k plata...
Braos enlaaram-lhe a cintura e Ana sentiu contra as costas, as
ndegas, as coxas, o corpo  duro dum homem; e lbios midos e mornos se
lhe colaram na nuca, desceram em beijos chupados pelo cogote, ao mesmo
tempo que mos lhe rasgavam o vestido.
  La plata... La plata... E Ana comeou a andar  roda, de brao em
brao, de homem em homem, de boca em boca.
  - Bamos, date prisa, hombre.
  Tombaram-na, e mos fortes que lhe faziam presso nos ombros, nos
pulsos, nos quadris e nos joelhos imobilizaram-na contra o solo. Ana
comeou a mover a cabea  dum lado para outro, com uma fora e uma
rapidez que a deixavam ainda mais estonteada.
  - Capitn! Usted primero!
  Ana sentiu que lhe erguiam o vestido. Abriu a boca e preparou-se para
morder a primeira cara que se aproximasse da sua. Um homem caiu sobre
ela. Num relmpago  Ana pensou em Pedro, um rechinar de cigarra
atravessou-lhe a mente e entrou-lhe, agudo e slido, pelas entranhas.
Ela soltou um grito, fez um esforo para se erguer  mas no conseguiu. O
homem resfolgava, o suor de seu rosto pingava no de Ana, que lhe cuspia
nas faces, procurando ao mesmo tempo mord-lo. (Por que Deus no me
mata?) Veio outro homem. E outro. E outro. E ainda outro. Ana j no
resistia mais. Tinha a impresso de que lhe metiam adagas no ventre. Por
fim perdeu os sentidos.
  19
  Quando voltou a si, o sol estava a pino. Ergueu-se, devagarinho,
estonteada, com um peso na cabea, uma dor nos rins. Olhou em torno e de
repente lembrou-se de  tudo. No primeiro momento teve a sensao de
estar irremediavelmente suja, desejou um banho e ao mesmo tempo quis
morrer. Tinha ainda nas narinas o cheiro daqueles  homens nojentos.
Levantou-se lentamente, gemendo. quela hora o claro do sol tinha uma
intensidade que fazia mal aos olhos.
  No havia sombras sobre a terra e o silncio em torno era enorme. Ana
olhou para a ramada: os bandidos haviam levado todo o trigo e as
carretas. O rancho estava  completamente destrudo. E de sbito, num
choque, ela deu com os cadveres... L estava o velho Maneco todo
coberto de sangue, cado de costas: uma bala abrira-lhe  um rombo na
testa. A poucos passos dele, cado de borco, Antnio tinha a cara metida
numa poa de lama sangrenta. Mais alm, um dos escravos com a cabea
separada  do corpo. Por um momento Ana sentiu uma nusea, um novo
desfalecimento. Que fazer? Que fazer? Que fazer? No atinava com coisa
alguma. Julgou que ia enlouquecer.  No conseguia nem pensar direito. De
olhos fechados ali ficou por muito tempo, sob o olho do sol, apertando a
cabea com as mos.
  Foi ento que, de sbito, lembrando-se de Pedrinho, precipitou-se
coxilha abaixo na direo da sanga. Ia de pernas moles, passos incertos,
chorando e gemendo,  e a cada passo uma agulhada como que lhe
trespassava os rins. Ana sentia sede mas ao mesmo tempo sabia que se
botasse alguma coisa no estmago imediatamente vomitaria.  Porque no
podia tirar do pensamento a imagem dos mortos, e ainda sentia o cheiro
daqueles homens imundos. Um banho, um banho... Pensando nisso, corria.
De repente  afrouxaram-se-lhe as pernas e ela caiu de cara no cho e ali
ficou ofegante por algum tempo. Depois fez um esforo, tornou a
erguer-se e continuou a correr. Avistou  a corticeira... E  medida que
se aproximava dela um novo horror lhe ia tomando conta do esprito. E se
l embaixo  beira do mato encontrasse o filho, a cunhada  e a sobrinha
mortos tambm? E ento comeou a desejar no chegar nunca, mas apesar
disso corria sempre. Finalmente chegou  sanga. Pedro! Pedro! Pedro! -
gritou.  Mas ela no chamava o filho. Chamava o pai de seu filho, como
se ele pudesse ouvi-la e vir socorr-la. Era melhor morrer, morrer duma
vez - decidiu de repente. Lembrou-se  dos homens que se haviam cevado no
seu corpo, e sem pensar, num assomo de desespero, atirou-se no poo. A
gua ali cobria um homem alto. Ana deixou-se ir ao fundo,  mas
instintivamente fechou a boca, apertou os lbios, comeou a bracejar,
veio  tona e por fim agarrou-se numa pedra, arquejante, encostou o
rosto nela e
  164
  165
  ficou olhando estupidamente para um pequeno inseto verde que lhe
pousara na mo. Saiu de dentro d'gua, atirou-se no cho e ali
permaneceu - por quanto tempo?  - com a cabea escondida nas mos,
tratando de pr ordem nos pensamentos, para no ficar louca. Levantou-se
e caminhou para o mato.
  - Pedrinho! - gritou. - Pedrinho!
  Ficou escutando. Sua voz morreu por entre as rvores. Nenhuma
resposta. - Eullia! Eullia! - tornou a gritar. Nada.
  - Pedrinho! Sou eu... a mame!
  E ento, de repente, por trs duns arbustos apareceu uma cabea.
  - Meu filho!
  O rapaz correu para a me e atirou-se nos braos dela. Eullia tambm
surgiu, lvida, com a filha adormecida no colo. E Ana ficou olhando para
a cunhada com olhos  estpidos, querendo contar tudo mas sem coragem de
dizer palavra. Quedaram-se por longo tempo a olhar uma para a outra, num
silncio imbecil.
  - Que foi que aconteceu, me? - perguntou Pedro. Ana no respondeu. O
rapaz tornou a perguntar:
  - Os bandidos j foram? Onde est o vov? Onde est o titio?
  Ana olhava sempre para a cunhada. Os olhos de Eullia continham
uma pergunta ansiosa e ao mesmo tempo j refletiam o horror da resposta
que ela sabia que ia  ouvir. Ana finalmente recobrou a voz, e foi com
frieza, quase com alegria que disse:
  - Esto todos mortos.
  Fez meia-volta e, puxando o filho pela mo, comeou a subir  a
coxilha na direo da casa, sem voltar a cabea para trs.
  E durante toda aquela tarde as duas mulheres e o menino ficaram a
enterrar seus mortos. Eullia pouco ou nada pde fazer, pois estava
tomada duma crise nervosa,  e o pior - achava Ana -  que a coitada no
conseguia chorar: soluos secos sacudiam-lhe o corpo, e havia momentos
em que ela ficava apenas a olhar fixamente para  o cho, o rosto vazio
de expresso, a boca semi-aberta, os braos cados, os olhos vidrados.
  166
  Ana auscultou o corao do pai: j no pulsava mais; fechoulhe os
olhos sem emoo e depois foi encostar o ouvido no peito de Antnio,
cujo corao tambm cessara  de bater. Era preciso enterr-los antes que
casse a noite. Enrolou-os nas estopas que serviam de repartio na
casa, tomou da p e comeou a cavar as sepulturas.  Quando ela cansava,
Pedro revezava-a no trabalho. Antes do anoitecer os quatro mortos
estavam enterrados, mas Ana, Eullia e Pedrinho no saberiam mais dizer
em  qual daquelas sepulturas sem nomes nem cruzes estava o corpo de
Maneco ou o de Antnio. Mas que importava? O principal  que tinham sido
enterrados, no ficariam  ali para servir de pasto aos urubus.
  Chegou a noite - uma noite morna, de ar parado - e as duas mulheres
atiraram-se no cho, extenuadas. Eullia ento apertou a filha contra o
peito e desatou o pranto.  Ana no disse nem fez nada, mas estava
contente por ver a cunhada finalmente botar para fora aquele choro que a
engasgava. S fechou os olhos quando, cessados os  soluos, viu a outra
adormecer. Ana Terra dormiu um sono atormentado de febre, acordou no
meio da noite e a primeira coisa que viu foram as quatro sepulturas sob
o luar. Ergueu-se e caminhou na direo da cabana. Lembrava-se agora de
que o pai, ao saber da aproximao dos bandidos, enterrara todo o
dinheiro que havia em casa.  Tomou da p e comeou a cavar a terra bem
no lugar onde estivera uma das camas. Encontrou o cofre de madeira com
algumas onas e muitos pataces. Tomou-o nos braos,  como quem segura
uma criana recm-nascida, e ficou parada, ali no meio das runas do
rancho, olhando para os mveis quebrados que estavam espalhados a seu
redor.  De repente avistou, intata sobre o pequeno estrado, a roca de
dona Henriqueta. Ainda bem que mame est morta - pensou.
  Havia uma imensa paz naqueles campos. Mas Ana comeou a temer o novo
dia que em breve ia raiar. Que fazer agora? Para onde ir? No era
possvel ficarem sozinhas  naquele descampado. Pensou em Hoicio... No,
no tinha coragem de ir para o Rio Pardo: o irmo podia envergonhar-se
dela. O melhor era procurar outro stio.
  167
  Pensou tambm no que iam comer. No tinha ficado nada  em casa. Os
bandidos haviam levado o gado, as ovelhas, as vacas leiteiras e at as
mantas de charque  e as lingias que pendiam do varal, por cima do
fogo.
  Ana respirou fundo e teve um estremecimento desagradvel; tinha ainda
nas narinas o cheiro dos castelhanos... (La plata! Donde est Ia plata?
La plata!)
  Longe, no mato cantou um urutau. Ana Terra voltou para perto de
Pedrinho, sentou-se em cima do cofre e ficou a contemplar o filho, que
dormia. Estava ainda acordada  quando o primeiro sol dourou o rosto do
menino.
  20
  
  Mal raiou o dia, Ana ouviu um longo mugido. Teve um estremecimento, voltou a cabea para todos os lados, procurando,
finalmente avistou uma das vacas leiteiras  da estncia, que subia a 
coxilha na direo do rancho. A Mimosa! - reconheceu. Correu ao encontro
da vaca, enlaou-lhe o pescoo com os braos, ficou por algum  tempo a
sentir contra o rosto o calor bom do animal e \ a acariciar-lhe o plo
do pescoo. Leite pras crianas - pensou. O  dia afinal de contas
comeava bem.  Apanhou do meio dos destroos  do rancho um balde
amassado, acocorou-se ao p da vaca e comeou a ordenh-la. E assim,
quando Eullia, Pedrinho e Rosa acordaram,  Ana pde oferecer a cada um
deles um caneco de leite.
  - Sabe quem voltou, meu filho? A Mimosa.
  O menino olhou para o animal com olhos alegres.
  - Fugiu dos bandidos! - exclamou ele.
  Bebeu o leite morno, aproximou-se da vaca e passou-lhe a mo pelo
lombo, dizendo:
  - Mimosa velha... Mimosa valente... < O animal parecia olhar com seus
olhos remelentos e tristonhos
  para as sepulturas. Pedro ento perguntou:
  - E as cruzes, me?
  -  verdade. Precisamos fazer umas cruzes.
  168
  Com pedaos de taquara amarrados com cips, me e filho fizeram quatro
cruzes, que cravaram nas quatro sepulturas. Enquanto faziam isso,
Eullia, que desde o despertar  no dissera uma nica palavra,
continuava sentada no cho a embalar a filha nos braos, os olhos
voltados fixamente para as bandas do Rio Pardo.
  No momento em que cravara a ltima cruz, Ana teve uma dvida que a
deixou apreensiva. S agora lhe ocorria que no tinha escutado o corao
dum dos escravos. O  mais magro deles estava com a cabea decepada -
isso ela no podia esquecer... Mas e o outro? Ela estava to cansada,
to tonta e confusa que nem tivera a idia  de verificar se o pobre do
negro estava morto ou no. Tinham empurrado o corpo para dentro da cova
e atirado terra em cima... Ana olhava, sombria, para as sepulturas.
Fosse como fosse, agora era tarde demais. "Deus me perdoe" - murmurou
ela. E no se preocupou mais com aquilo, pois havia muitas outras coisas
em que pensar.
  Comeou a catar em meio dos destroos do rancho as coisas que os
castelhanos haviam deixado intatas: a roca, o crucifixo, a tesoura
grande de podar - que servira  para cortar o umbigo de Pedrinho e de
Rosa - algumas roupas e dois pratos de pedra. Amontoou tudo isso e mais
o cofre em cima dum cobertor e fez
  uma trouxa.
  Naquele dia alimentaram-se de pssegos e dos lambaris que Pedrinho
pescou no poo. E mais uma noite desceu - clara, morna, pontilhada de
vagalumes e dos gemidos  dos urutaus.
  Pela madrugada Ana acordou e ouviu o choro da cunhada. Aproximou-se
dela e tocou-lhe o ombro com a ponta dos dedos.
  - No h de ser nada, Eullia...
  Parada junto de Pedro e Rosa, com um vagalume pousado a luciluzir
entre os chifres, a vaca parecia velar o sono das duas crianas, como um
anjo da guarda.
  - Que vai ser de ns agora? - choramingou Eullia.
  - Vamos embora daqui.
  - Mas pra onde?
  - Pra qualquer lugar. O mundo  grande.
  169
  Ana sentia-se animada, com vontade de viver. Sabia que por piores que
fossem as coisas que estavam por vir, no podiam ser to horrveis como
as que j tinha sofrido.  Esse pensamento dava-lhe uma grande coragem. 
Ali deitada no cho a olhar para as estrelas, ela se sentia agora tomada
por uma resignao que chegava quase a ser  indiferena. Tinha dentro de
si uma espcie de vazio: sabia que nunca mais teria vontade de rir nem
de chorar. Queria viver, isso queria, e em grande parte por causa  de
Pedrinho, que afinal de contas no tinha pedido a ningum para vir ao
mundo. Mas queria viver tambm de raiva, de birra. A sorte andava sempre
virada contra ela.  Pois Ana estava agora decidida a contrariar o
destino. Ficara louca de pesar no dia em que deixara Sorocaba para vir
morar no Continente. Vezes sem conta tinha chorado  de tristeza e de
saudade naqueles cafunds. Vivia com o medo no corao, sem nenhuma
esperana de dias melhores, sem a menor alegria, trabalhando como uma
negra,  e passando frio e desconforto... Tudo isso por qu? Porque era a
sua sina. Mas uma pessoa pode lutar contra a sorte que tem. Pode e deve.
E agora ela tinha enterrado  o pai e o irmo e ali estava, sem casa, sem
amigos, sem iluses, sem nada, mas teimando em viver. Sim, era pura
teimosia. Chamava-se Ana Terra. Tinha herdado do  pai o gnio de mula.
  Soergueu o busto, olhou as coxilhas em torno e avistou um fogo, muito
longe, na direo do nascente.
  Boitat - pensou. E lembrou-se imediatamente da noite de vero em que
Pedro Missioneiro, acocorado na frente do rancho, lhes contara a
histria da teiniagu. O  fogo que ela via agora parecia uma estrela
cada, grada e amarelona. E como ela no se apagasse,  Ana concluiu
que devia ser o fogo dum acampamento. Soldados?  Ao pensar nisso tornou
a sentir o cheiro dos castelhanos, e a lembrana de homem lhe trouxe de
novo uma sensao de repulsa e de dio. Mas podia bem ser o acampamento
dum carreteiro, e nesse caso a carreta podia passar por ali no dia
seguinte. Ana Terra comeou a sentir no corpo o calor duma esperana
nova. Iam ver gente, talvez  gente de bem, algum tropeiro continentino
que vinha da vila do Rio Pardo... Tornou a deitar-se mas continuou a
olhar para o 'fogo. Pouco a pouco o sono comeou a  pesar-lhe nas 
  170
  plpebras. Ana cerrou os olhos, dormiu e sonhou que andava numa carreta,
muito devagar, e ia para So Pardo, cidade que ficava muito longe, e
todo o tempo da viagem  ela chorava, porque Pedrolucinho tinha ficado
sepultado no alto duma coxilha: ela mesma o enterrara vivo, s porque o
coitadinho no era bem branco; e por isso agora  chorava, enquanto as
rodas da carreta chiavam e o carreteiro gritava: Ooche, boi! Ooche, boi!
  21
  Na manh seguinte o sol j estava alto quando as mulheres viram
aproximar-se duas carretas, conduzidas por trs homens a cavalo. Um
deles esporeou o animal e precipitou-se  a galope coxilha acima,
estacando ao chegar perto de Ana e Eullia.
  - Buenas! - disse, batendo com o dedo na aba do chapu. Olhou em
torno, viu o rancho destrudo, as sepulturas, tornou a encarar as
mulheres e perguntou: - Mas  que foi que aconteceu por aqui, ainda que
mal pergunte?
  Ana contou-lhe tudo. O desconhecido escutou num silncio soturno e,
quando a mulher terminou a narrativa, ele cuspinhou e disse por entre
dentes:
  - Castelhanada do inferno!
  Apeou e, segurando a rdea do animal, aproximou-se das mulheres,
estendeu-lhes uma mo spera e frouxa e disse:
  - Marciano Bezerra, criado de vosmecs.
  Em breve as carretas e os outros dois homens chegavam ao topo da
coxilha, e Marciano repetiu aos companheiros o que ouvira de Ana. De
dentro das carretas caras  espantadas olhavam. Havia trs mulheres
moas, quatro crianas e uma velha de rosto to enrugado e cor de ocre
que lembrou a Ana um origone.
  As mulheres desceram das carretas e ficaram a olhar para Ana e
Eullia, como se estas fossem bichos raros.
  - Pr'onde  que vo? - perguntou Ana a um dos homens. Marciano Bezerra
apressou-se a esclarecer:
  171
  - Vamos subir a serra. J ouviu falar no coronel Ricardo Amaral?
  - No - respondeu Ana.
  -  o estancieiro mais rico da zona missioneira.  tio-av da minha
mulher. Consegui umas terrinhas perto dos campos dele. Diz que h outras
famlias por l. O  velho parece que quer fundar um povoado.
  - Um povoado? - perguntou Ana, meio vaga. O homem sacudiu
afirmativamente a cabea.
  -  muito longe daqui?
  - Bastantinho - disse o Marciano, picando fumo para um cigarro e
olhando o horizonte com os olhos apertados.
  Ana pensou no cofre. Tinha o suficiente para pagar quela gente pelo
transporte e ainda lhe sobraria dinheiro para comprar alguns alqueires
de terra. Podiam principiar  a vida de novo. Chamou Eullia  parte.
  - E se a gente fosse com eles?
  - Pra onde?
  - Pra esse lugar.
  - Onde  que fica?
  - Pras bandas do norte, subindo a serra.
  - E ns deixamos... isto aqui?
  Ana sacudiu a cabea lentamente. No poderiam mais continuar vivendo
sozinhas naquele descampado.
  - Quem sabe vosmec quer ir pr Rio Pardo? - perguntou ela, encarando
a cunhada. O rosto de Eullia, descarnado e amarelento, era o duma
pessoa doente e j sem  vontade.
  - No tenho mais ningum de meu no Rio Pardo - suspirou ela.
  - Vamos ento com esta gente?
  Eullia sacudiu os ombros magros. - Que me importa?
  Naquele instante Pedrinho brincava com o perdigueiro que acompanhava
os carreteiros; o cachorro sacudia o rabo e lambia as mos do menino.
  Sempre num silncio meio assustado, as mulheres e as crianas tornaram
a voltar para as carretas.
  172
  - Seu Marciano! - chamou Ana Terra.
  O homem aproximou-se, com o cigarro apertado entre os dentes.
  - Pronto, dona.
  - Ns queremos ir com vosmecs...
  Por alguns instantes o carreteiro ficou em silncio, o ar indeciso.
  - Temos dinheiro pra l pagar - acrescentou Ana.
  - Quem foi que falou em dinheiro, moa?
  - Mas vosmec parece que no gostou...
  - No  causo de gostar ou no gostar. Esta viagem no  brincadeira.
  - Eu sei.
  - Podemos levar uns dois ms... ou mais.
  - Eu sei.
  - E que  que vo fazer chegando l?
  - Vosmec no disse que esse seu parente ia fundar um povoado?
  - Pois , disse.
  - Ento? Acho que podemos ficar morando l.
  - Isso .
  Marciano fez meia-volta, foi confabular com os dois outros homens e
depois voltou:
  - Pois ento vamos, no ? - E acrescentou: - De qualquer modo no 
direito deixar vosmecs atiradas aqui sozinhas.
  Ana ps a trouxa s costas e subiu com Pedro para dentro duma das
carretas, ao mesmo tempo que Eullia e a filha se aboletavam na outra.
  Puseram-se a caminho. Marciano picou um dos bois, gritando: Vamos,
boiosco! As rodas rechinaram. Ana Terra estava na frente duma mulher de
tosto amarelado e triste  que, com seus seios murchos, amamentava uma
criana de poucos meses. Num canto da carreta a velha com cara de
origone mirava-a com o rabo dos olhos.
  E assim Ana Terra viu ir ficando "para trs a estncia do pai. Por
algum tempo avistou as runas do rancho, as quatro cruzes perto dele e,
mais longe, no alto  de outra coxilha, a sepultura da
  173
  me e a do irmo mais moo. Seis cruzes... Lanou um olhar de
despedida para a lavoura de trigo e depois ficou olhando para o focinho
tristonho de Mimosa, que  seguia a carreta no seu passo lerdo, com fios
de baba a escorrer-lhe, dourados de sol, da boca mida e negra.
  Seis cruzes...
  Ao anoitecer acamparam perto dum capo, fizeram fogo e uma das
mulheres cozinhou. Comeram em silncio e ningum falou nas coisas que
tinham ficado para trs. No  dia seguinte antes do sol raiar retomaram a
marcha. E o novo dia foi longo e mormacento; e a noite caiu abafada, sem
a menor virao. E vieram outros dias e outras  noites, e houve momentos
em que at em sonhos Ana Terra continuava a viajar, ouvia o chiar das
rodas, os gritos dos homens. E assim cortaram campos, atravessaram
banhados, passaram rios a vau. E vieram chuvas e tempestades, de novo o
cu ficou limpo e o sol tornou a brilhar. Aquela viagem parecia no ter
mais fim. Uma tarde  avistaram a serra. Trs dias depois a subida
comeou. Em muitas noites Ana ouviu o choro de Eullia junto de seu
ouvido.
  - Eu queria mas era estar morta - murmurou ela um anoitecer.
  Ana pensou em fazer um gesto amigo, estender a mo e acariciar a
cabea da cunhada. Mas no o fez. Ficou imvel e disse apenas:
  - No h de ser nada. Deus  grande.
  E em pensamento completou a frase: Mas a serra  maior.
  No outro dia continuaram a subir. Quando a rampa era forte demais, as
mulheres e as crianas tinham de descer, e todos punham-se a empurrar as
rodas das carretas.
  Quanto tempo j fazia que estavam viajando? Ana tinha perdido a conta
dos dias. Seguiam a trilha das outras carretas, entravam em picadas,
embrenhavam-se no mato,  desciam e subiam montes... Numa certa altura da
viagem, uma das filhas de Marciano - a mais moa de todas - comeou a
tossir uma tosse rouca e a chorar. Ana embebeu  um pano em cachaa e
amarrou-o ao redor do 
  174
  pescoo da criana. Mas a tosse continuou e havia momentos em que a
coitadinha parecia prestes a morrer asfixiada.
  E a carreta andava, lenta, aos solavancos. Mimosa, cada vez mais
magra, seguia a caravana com seus olhos tristes, os beres secos. E um
dia, numa volta do caminho,  sem que ningum soubesse por qu, ficou
para trs e desapareceu. Pedro notou-lhe a falta mas no disse nada.
  Ao anoitecer, quando a carreta parou  beira duma lagoa, algum soltou
um grito. Ana pulou de seu canto e foi ver o que era A mulher de
Marciano Bezerra sacudia  a filha nos braos e exclamava:
  - Minha filha, minha filha!
  Ana arrebatou-lhe a criana e trouxe-a para perto do fogo. O rosto da
criaturinha estava completamente arroxeado, seus olhos, muito
arregalados, pareciam querer  saltar das rbitas, o coraozinho no
batia mais.
  Enterraram a menina  beira da lagoa. A muito custo conseguiram
arrancar a me de junto da sepultura e lev-la para a carreta. A velha
com cara de origone estava  muito quieta no seu canto, de olhos secos e
boca apertada.
  Quando retomaram a marcha, ela olhou para Ana e falou:
  - Eu bem disse. Trazer criana numa viagem destas  coisa de gente
louca. - Encolheu os ombros. - Mas acham que a velha est caduca. -
Suspirou. - Eu devia ter  morrido tambm pra ficar enterrada perto da
minha neta. Assim a criana no ficava sozinha.
  Ficou depois a resmungar palavras que Ana no entendeu.
  Marciano Bezerra seguia soturno no seu cavalo, ao lado da carreta, com
a aba do chapu puxada sobre os olhos. E nos muitos dias que se
seguiram, quase no falou.  Chupava seu chimarro em silncio, e de
quando em quando suspirava. Dali por diante ningum mais mencionou o
nome da criana morta.
  Continuaram subindo a serra. O calor diminura, o vento agora era
fresco e de manhzinha e  noite fazia frio. Um dia atravessaram um
tremedal e todos tiveram  de descer das carretas para empurrar-lhes as
rodas, com barro at meia canela. Marciano picava
  175
  os bois, incitava-os com gritos. O suor escorria-lhe pela cara
trigueira, e num dado momento, soltando um suspiro de impacincia, ele
exclamou:
  - Quando urubu anda sem sorte at nas lajes se atola.
  Mas Pedrinho divertia-se  sua maneira quieta e meio silenciosa. Para
ele a viagem era uma aventura. Fizera boa camaradagem com as meninas e
j agora trocava com  elas histrias e risadas.
  Pelas manhs as carretas viajavam atravs da cerrao e Ana temia que
os bois resvalassem e cassem todos naqueles precipcios medonhos. No
queria mais morrer.  Viver era bom: ela desejava viver, para ver o filho
crescer, para conhecer os filhos de seu filho e, se Deus ajudasse,
talvez os netos de Pedrinho. Mas se tivessem  de morrer, era melhor que
morressem todos juntos. E seus olhos ficavam postos na estrada, que a
nvoa velava: e ela mal podia ver o lento lombo dos bois que puxavam  a
carreta. Aos poucos, porm,  medida que a manh passava, a nvoa ia
ficando mais clara, mais clara, at que se sumia de todo, o cu azulava,
o sol aparecia e  l estava um novo dia - quente e comprido e arrastado
como os outros.
  Uma tarde avistaram um rio.
  - O Jacu - disse Marciano. E pela primeira vez Ana viu no rosto dele
algo que se parecia com um sorriso.
  Aproximaram-se das margens, acamparam, e ali ficaram muitos dias,
porque o Jacu no dava vau, e os homens tiveram de fazer uma balsa.
Foram para o mato com seus  machados e comearam a derrubar rvores, a
cortar galhos e cips. Ana ajudou-os nesse trabalho, que para ela era um
divertimento, porque trabalhando ela no pensava,  e no pensando
afugentava as lembranas tristes. Eullia auxiliava as outras mulheres a
preparar a comida e a cuidar das crianas.
  Pedrinho estava encantado. Nunca vira um rio to grande como aquele.
  Era maior, muito maior que a sanga da estncia e devia ter peixes
enormes. Marciano emprestou-lhe linha e anzol e o rapaz ficou uma tarde
inteira a pescar e soltou  gritos de triunfo ao tirar da gua um grande
peixe dourado.
  176
  Finalmente a balsa ficou pronta e as carretas atravessaram em duas
viagens aquele rio de guas barrentas. Na outra margem trs antas bebiam
gua, mas,  aproximao  da balsa, fugiram e meteram-se num mato
prximo.
  - Agora estamos mais perto - disse um dos homens, olhando para o
norte.
  E as carretas retomaram a marcha. E quando Ana j pensava que nunca
mais haviam de chegar, Marciano uma tarde fez parar o cavalo junto dum
copado umbu e gritou:
  - Estamos entrando nos campos do velho Amaral!
  Trs dias depois chegavam ao alto duma coxilha verde onde se erguiam
uns cinco ranchos de taipa cobertos de santa-f. Marciano Bezerra soltou
um suspiro e disse:
  - Chegamos.
  Os homens ajudaram a velha a descer da carreta. Quando ps o p em
terra ela olhou em torno, viu as campinas desertas, aproximou-se de Ana
e cochichou-lhe:
  - Toda essa trabalheira louca s pra chegar nesta tapera? Ana Terra
sacudiu a cabea lentamente, concordando, pois
  tivera o mesmo pensamento.
  22
  Aquele agrupamento de ranchos ficava  beira duma estrada antiga, por
onde em outros tempos passavam os ndios missioneiros que os jesutas
mandavam buscar erva-mate  em Botucara. Por ali transitavam tambm, de
raro em raro, pedindo pouso e comida, viajantes que vinham das bandas de
So Martinho ou dos campos de Baixo da Serra.
  Desde o primeiro dia Ana Terra comeou a ouvir falar no coronel
Ricardo Amaral, dono dos campos em derredor, senhor de dezenas de lguas
de sesmaria e muitos milhares  de cabeas de gado, alm duma charqueada
e de vastas lavouras. Contava-se que o coronel Amaral nascera em Laguna
e viera, ainda muito moo, para o Continente com  paulistas que
negociavam com mulas. Chegou,
  177
  gostou e ficou. Sentou praa no exrcito da Coroa e em 1756 tomou
parte na batalha de monte Caaibat, em que as foras portuguesas e
espanholas aniquilaram o exrcito  ndio dos Sete Povos das Misses.
Contava-se at que fora Ricardo Amaral quem numa escaramua derrubara
com um pontao de lana o famoso alferes real Sep Tiaraju,  a respeito
do qual corriam tantas lendas. Dizia-se que esse guerreiro ndio tinha
na testa, como sinal divino, um lunar luminoso, e os crentes afirmavam
que depois  de morto ele subira ao cu como um santo. Pelo Continente
corriam de boca em boca lindos versos cantando as proezas de So Sep. E
quando algum perguntava ao coronel  Ricardo: "Ento,  verdade que foi
vosmec que lanceou Sep Tiaraju?" - o velho torcia os longos bigodes
brancos e com sua voz grave e sonora respondia, vago: "Anda  muita
conversa fiada por a..." E sorria enigmaticamente, sem dizer sim nem
no.
  Depois da Guerra das Misses, Ricardo sara a burlequear pelos campos
do Continente, e as ms-lnguas afirmavam que ele andara metido numas
arriadas, assaltando  estncias e roubando gado por aqueles descampados.
Mas quem dizia isso eram seus inimigos. No havia nenhuma prova clara
dessas histrias escuras, e a verdade era  que hoje Ricardo Amaral tinha
a fama de ser homem de bem e de gozar grande prestgio com o governo.
Sempre que havia alguma guerra o comandante militar do Continente
apelava para ele e l se ia o senhor da estncia de Santa F, montado no
seu cavalo, de espada e pistolas  cinta, seguido da peonada, dos
escravos e dum bando de  amigos leais.
  Quando os castelhanos invadiram o Continente, comandados por Pedro
Ceballos, Ricardo lutara como tenente nas foras portuguesas, tendo
tomado parte no ataque fracassado   cidade do Rio Grande; apesar de ter
recebido no peito uma bala, continuara brigando, protegendo a retirada
dos companheiros. Dizia-se at que ao gritar as ordens  para seus
soldados, as palavras lhe saam da boca junto com golfadas de sangue.
Anos depois, quando Vertiz y Salcedo invadiu de novo o Continente com
suas tropas,  Ricardo Amaral e seus homens se juntaram s foras do
tenente-general Joo Henrique de Bohm que assaltaram e retomaram a vila
do Rio Grande.
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   Amaral foi dos primeiros a entrar na vila; entrara de espada
desembainhada, no seu cavalo marchador, cumprimentando galantemente as
raras moas que assomavam  meio bisonhas s janelas de suas casas.
  Como recompensa pelos seus servios, o governo lhe ia dando alm de
condecoraes, terras. Murmuravam-se histrias a respeito da maneira
como ele conseguira seus  muitos campos. A lei no permitia que uma
pessoa possusse mais de trs lguas de sesmarias, mas Ricardo Amaral,
seguindo o exemplo astuto de muitos outros sesmeiros,  recebera as suas
trs lguas e pedira mais sesmarias em nome da esposa, dos filhos e at
de netos que ainda estavam por nascer.
  Depois da expulso dos espanhis e do Tratado de Santo IIdefonso,
Ricardo retirara-se para a estncia e, segundo sua prpria expresso,
"sossegara o pito". Entregara-se   criao de gado, comprara mais
escravos, e aumentara as lavouras. Suas carretas saam periodicamente
para o Rio Grande e outros pontos, levando trigo, milho e  feijo. Mas o
de que ele gostava mesmo era da criao. Era com uma certa volpia que
parava rodeio, curava bicheiras, marcava o gado. Era voz geral que o
prprio  Ricardo gostava de sangrar as reses para carnear e que seus
olhos luziam de gozo quando ele sentia o sangue quente do animal
escorrer-lhe pelo brao. Um dia algum  ouviu-o dizer:
  - Criao  que  trabalho pra homem. Lavoura  coisa de portugus.
  Falava com certo desdm dos aorianos que vira em Rio Pardo, Porto
Alegre e Viamo, com suas barbichas engraadas, seus olhos azuis e sua
fala esquisita. Para  Ricardo, trabalho manual era para mulher ou para
negro. Um homem bem macho devia saber manejar a espada, a lana, a
espingarda e a pistola, entender de criao e  ser bom cavaleiro. No
compreendia que se pudesse viver com os ps sempre no cho, agarrado ao
cabo duma enxada ou exercendo um ofcio sedentrio. Para ele o comrcio
tinha qualquer coisa de indigno e desprezvel. Amava os cavalos, e sua
filosofia de vida e seu conhecimento das criaturas e dos animais
levavam-no a traar paralelos  entre os homens e os cavalos. Todos ali
na estncia de
  179
  Santa F e arredores repetiam os ditados do coronel Ricardo, que
costumava dizer que "homem direito tem um plo s", e que "cavalo bom e
homem valente a gente  s conhece na chegada". Queria com isso dar a
entender que conhecia cavalos que numa carreira saam na frente mas
chegavam na rabada, bem como homens que se mostravam  valentes na
arrancada inicial mas no meio da peleja "cantavam de galinha". Ricardo
Amaral gostava de dizer que "quem faz o cavalo  o dono" e, estendendo
essa filosofia  aos pees e aos escravos, procurava mold-los de acordo
com seus desejos e convenincias. Quando um dia o governador Jos
Marcelino de Figueiredo lhe mandou um ofcio,  que Ricardo considerou
ofensivo, sua resposta foi pronta, lacnica e altiva: apenas um bilhete
com estas palavras: "Sou potro que no agenta carona dura de ningum".
  Casara-se com a filha dum curitibano residente no Rio Pardo. Achava
que "mulher, arma e cavalo de andar, nada de emprestar". Mas, apesar
disso, mais de uma vez  tomara emprestadas mulheres de outros. E na
fazenda - contava-se - fizera filhos em vrias chinocas, mulheres de
capatazes e agregados, e at numa escrava, a famosa  Joana da Guin.
  Um dia - por volta de 1784 - Ricardo Amaral viajara para Porto Alegre,
levando consigo muitos cavalos de posta, dois escravos e o mulato
Bernardino, que afirmava  ser seu filho natural. Voltara depois duns
trs meses e, ao chegar a casa, reunira  noite os parentes e amigos e
contara, entre outras notcias da Capital, a sua  visita ao Palcio do
Governo. As lamparinas ardiam na sala grande da casa da estncia e,
sentado na sua cadeira de balano, com um pretinho escravo a
descalar-lhe  as botas, Ricardo Amaral comeou:
  - O governador me deu uma audincia...
  Olhou em torno para ver o efeito da palavra audincia. Era um palavro
importante que cheirava a coisas da Corte, vice-reis, generais e
palcios. Sua esposa sorria,  enamorada dele como sempre.
  - Pois  - repetiu o coronel com sua voz solene. - O governador me deu
uma audincia. Quando entrei no palcio os guardas apresentaram armas.
Apresentaram armas  - repetiu - e ento eu entrei e o general Veiga
Cabral veio ao meu encontro,
  180
  me apertou a mo e disse: "Como tem passado, coronel? Entre e tome
assento. Vossa merc est em sua casa".
  Ricardo soltou a sua risada lenta, que ps  mostra os dentes cor de
marfim queimado. Era um homem alto e corpulento, desempenado apesar de
andar j por volta  dos setenta. Tinha o rosto trigueiro, o olhar de ave
de rapina, o nariz largo e purpreo, os lbios grossos e rosados
escondidos sob um bigode branco e esfalripado  como algodo.
  - Imaginem s. Eu em minha casa no palcio! Bom. Tomei assento e ento
conversei sobre coisas do nosso municpio. Fui mui franco, porque no
sou como quero-quero  que canta pra um lado e tem ninho pra outro.
Dissimulao no  comigo. "General - eu disse - as coisas vo mal assim
como esto...
  Falara-lhe - prosseguiu Ricardo - primeiro nas arbitrariedades de Jos
Marcelino, o antecessor de Veiga Cabral no governo do Continente. Depois
queixara-se do  abandono em que viviam as estncias, da eterna questo
dos limites de terras e da confuso que havia quanto s tropas. Neste
ponto o general lhe assegurara que estava  obrigando todos os
estancieiros a marcarem seu gado e seus cavalos. Ricardo manifestara
tambm a Veiga Cabral suas dvidas quanto  Feitoria do Linho Cnhamo,
que  a Coroa criara. Na sua opinio a empresa estava destinada ao
fracasso. O melhor que o governo podia fazer era ajudar os criadores.
Estava claro que a lavoura tambm  era importante, mas no tanto como o
gado. "A carne, vossa merc sabe,  o alimento mais importante pra nossa
gente. E enquanto houver abundncia de carne tudo est  bem. Porque
ningum vive s de po, mas s de carne pode viver. E se tivermos carne,
teremos charque e as nossas charqueadas s podem ir pra frente. Temos
ainda  o negcio de couros, os chifres, etc. Mais ainda, general, na
guerra no vamos alimentar nossa gente com trigo, milho ou feijo. O que
nos vale numa campanha  o  boi."
  Neste ponto da narrativa Ricardo Amaral piscou o olho, avanou o busto
para a frente e disse:
  - Ento cheguei onde queria. Disse: "General, preciso que o governo me
conceda mais sesmarias para as bandas do poente.
  181
  Vossa merc precisa saber que meus campos ficam a dois passos do
territrio inimigo. Mais cedo ou mais tarde os castelhanos nos atacam de
novo. E quem  que sofre  primeiro? So os povos que esto perto da
fronteira. Preciso ter gente pronta pra brigar". O homem sacudia a
cabea e estava impressionado. Vai, ento, eu disse:  "Para l ser
franco, acho que o territrio das Misses nos pertence de direito".
Veiga Cabral respondeu que estava tudo muito bem, mas que a gente no
devia se precipitar,  pois o Continente ainda no estava preparado para
a guerra. "Est bem - retruquei - est muito bem. Mas vamos nos
preparar." Fiquei srio, meio que me ergui na cadeira  e falei:
"General, preciso de mais terras, pois quanto mais campo eu tiver, de
mais gente precisarei. E quanto mais gente eu tiver, mais soldados ter
o Continente  no caso de necessidades". O homem ficou muito
impressionado e me prometeu estudar o assunto.
  Ricardo reclinou-se para trs na sua cadeira e ficou gozando o efeito
de suas palavras no rosto da mulher, do filho, da nora e do capataz, que
o escutavam num  silncio respeitoso.
  Quando Ana Terra viu pela primeira vez o senhor da estncia de Santa
F, seu esprito j estava cheio das histrias que se murmuravam a
respeito dele. Ricardo  Amaral chegou um dia montado no seu cavalo
alazo, com aperos chapeados de prata, muito teso, de cabea erguida e
um ar de monarca. As largas abas do chapu sombreavam-lhe  parte do
rosto. Ficou sob a figueira grande,  frente dos ranchos, e os poucos
habitantes do lugar vieram cerc-lo - as mulheres de olhos baixos e os
homens de chapu  na mo. Ricardo Amaral no apeou. De cima do cavalo
informou-se sobre as colheitas, ouviu as queixas e resolveu duas ou trs
questes entre os moradores dos ranchos.  Naquelas redondezas ele no
era apenas o comandante militar, mas tambm uma espcie de juiz de paz e
conselheiro.
  Marciano Bezerra aproveitou uma pausa e disse:
  - Coronel, esta  a moa que falei a vossa merc.
  Apontou desajeitadamente para Ana, que segurava a mo do filho.
  182
  - Ah! - fez o estancieiro, baixando os olhos. - Linda moa! - E num
relmpago Ana viu Rafael Pinto Bandeira a falar-lhe de cima do seu
cavalo num dia de vento.  - Vai ficar morando aqui?
  - Se vossa merc d licena - respondeu Ana.
  - No h nenhuma dvida. Precisamos de gente. Um dia inda hei de
mandar uma petio ao governo pra fundar um povoado aqui.
  Abrangeu com o olhar o coxilho.
  - O menino  filho? - perguntou depois, olhando para Pedro.
  - , sim senhor.
  - Onde est o marido de vosmec? Ana no teve a menor hesitao.
  - Morreu numa dessas guerras.
  Contou-lhe tambm o que havia acontecido ao pai e ao irmo. O coronel
escutou em silncio e, depois de ouvir tudo, disse:
  - Um dia essa castelhanada ainda nos paga. Deixe estar... Pedro olhava
fascinado para as grandes botas do estancieiro e
  para as chilenas de prata que lampejavam ao sol.
  Quando ele se foi, o menino puxou o vestido da me e disse:
  - Me, que velho bonito!
  Ana sacudiu a cabea devagarinho e acrescentou:
  - E dizem que sabe ler e escrever.
  Um dia - pensou ela - havia de mandar o filho para uma escola. O diabo
era que no existia nenhuma escola naqueles cafunds. Ouvira dizer que
um homem na vila  do Rio Grande tinha aberto uma aula para ensinar a
ler, escrever e contar. Mais tarde, quando Santa F fosse povoado,
talvez o coronel mandasse abrir uma escola,  se bem que no fundo ela
achasse que uma pessoa podia viver muito bem e ser honrada sem precisar
saber as letras.
  Naqueles dias, ajudados por vizinhos, Ana Terra, Eullia e Pedro
construram o rancho onde iam morar. Tinha paredes de taipa e era
coberto de capim. Quando o rancho  ficou pronto Ana, o filho e a
cunhada, que at ento tinham vivido com a famlia de Marciano, entraram
na casa nova. O nico mvel que possuam era a velha roca  de dona
Henriqueta. Dormiam todos no cho em
  183
  esteiras feitas de palha. Ana conservava sempre junto de si,  noite,
a velha tesoura, pensando assim: Um dia inda ela vai ter a sua
serventia.
  E teve. Foi quando uma das mulheres da vila deu  luz uma criana e
Ana Terra foi chamada para ajudar. Ao cortar mais um cordo umbilical,
viu em pensamentos a  face magra e triste da me. A criana veio ao
mundo roxa e muda, meio morta. Ana seguroulhe os ps, ergueu-a no ar, de
cabea para baixo, e comeou a dar-lhe fortes  palmadas nas ndegas at
fazer a criaturinha berrar. E quando a viu depois com os beicinhos
grudados no seio da me a sug-los com fria, foi lavar as mos, dizendo
ao pai que estava no quarto naquele momento:
  -  mulher. - E a seguir, sem amargor na voz, quase sorrindo,
exclamou: - Que Deus tenha piedade dela!
  Desde esse dia Ana Terra ganhou fama de ter "boa mo" e no perdeu
mais parto naquelas redondezas. s vezes era chamada para atender casos
a muitas lguas de distncia.  Quando chegava a hora e algum mando vinha
busc-la, meio afobado, ela em geral perguntava com um sorriso calmo:
  - Ento a festa  pra hoje?
  Enrolava-se no xale, amarrava um leno na cabea, apanhava a velha
tesoura e saa.
  23
  Muitos anos depois, sentada uma tardinha  frente de seu rancho, Ana
Terra conversava com o filho e dizia-lhe, mostrando meninos e meninas
que passavam:
  - Aquele que ali vai eu ajudei a botar no mundo. Por sinal que o
diabinho saiu berrando como bezerro desmamado.
  E depois:
  - Est vendo a Amelinha? Passou e nem olhou pra mim. No entanto, se
no fosse eu ela estava a esta hora no cemitrio. Nasceu com o cordo
umbilical enrolado no  pescocinho e ia morrer esgoelada.
  184
   Foi numa noite braba de inverno. - Suspirou fundo e acrescentou:
- Este mundo velho  assim mesmo. No h gratido.
  Tendo na mo a cuia de mate - quente como uma presena humana - e
chupando lentamente na bomba, Ana Terra s vezes ficava sentada  sombra
duma laranjeira, na  frente de seu rancho, tentando lembrar-se das
coisas importantes que tinham acontecido desde o dia em que ela chegara
quele lugar. Mas no conseguia: ficava confusa,  os fatos se misturavam
em sua memria. E o que sempre lhe vinha  mente nessas horas eram os
muitos invernos que tinha atravessado, pois o inverno era o tempo que
mais custava a passar. O vento minuano s vezes parecia prender a noite
e afugentar o dia que tentava nascer. Tudo era mais comprido, mais
triste e mais custoso  no inverno.
  Entre as coisas alegres do passado, Ana lembrava-se principalmente dum
vero em que aparecera por ali um padre carmelita descalo, homem de
barbas pretas e sotaina  parda, que chegara montado numa mula, contando
que tinha estado prisioneiro dos ndios coroados. Vinha da vila do Rio
Pardo e ia para as Misses. Falava dum jeito  esquisito, pois era
estrangeiro. Ficou uns dias por ali e os moradores dos ranchos lhe deram
mantimentos e dinheiro. O carmelita rezou uma missa debaixo da figueira
grande, batizou as crianas que ainda estavam pags e casou os homens e
mulheres que viviam amancebados.
  Havia tambm outros dias que Ana Terra no podia esquecer, como aquele
em que pela primeira vez percebera que Pedrinho era j um homem feito,
de voz grossa e buo  cerrado. Ficara espantada ao notar que o filho
estava mais alto que ela. Mas espanto maior ainda lhe causara a
descoberta que aos poucos fizera de que, embora fosse  a imagem viva do
pai, o rapaz tinha herdado o gnio do av: era calado, reconcentrado e
teimoso. Engraado! Maneco Terra e o homem que ele mandara matar agora
se  encontravam no corpo de Pedrinho.
  Ana procurava sempre esquecer os dias de medo e aflio,
principalmente aquele - o pior de todos! - em que, chegando  casa uma
tarde, vira, horrorizada, um ndio  coroado aproximar-se, na ponta dos
ps, da cama onde seu filho dormia a sesta. Quase
  185
  sem pensar no que fazia, apanhou o mosquete carregado que estava a um
canto, ergueu-o  altura do rosto, apontou na direo do ndio e atirou.
O coroado caiu com  um gemido sobre Pedro, que despertou alarmado,
desvencilhou-se daquela "coisa" que estava em cima de seu peito e saltou
para fora da cama j com o punhal na mo  e todo banhado no sangue do
bugre. Vendo o filho assim ensangentado, ela se ps a gritar,
imaginando que tambm o tivesse atingido com o tiro. Os vizinhos
acudiram  e foi s depois de muito tempo que tudo se aclarou. Ana Terra
no gostava de recordar esse dia. Ficara com o ombro roxeado e dolorido
por causa do coice que a arma  lhe dera ao disparar. A sangueira que
saa do corpo do coroado deixara-a tonta. No tinha tido coragem de ir
olhar de perto... Mas um vizinho lhe contara:
  - Ficou com um rombo deste tamanho no pulmo.
  Ana passara o resto daquele dia tomando ch de folhas de laranjeira.
Tinha matado um homem - ela que ajudava tanta gente a nascer! Por muitas
semanas ficou sem  poder comer carne. Mas como o tempo  remdio que
cura tudo, aos poucos foi esquecendo aquilo. Sempre, porm, que algum
queria mangar com ela na frente dum forasteiro,  a primeira coisa que
dizia era:
  - Don'Ana, conte a histria do bugre que vosmec matou. Ela ficava to
furiosa que tinha vontade de dizer nomes feios. E por falar em bugres,
muitas vezes naqueles  anos os coroados
  andaram pelas vizinhanas dos ranchos, fazendo estripulias.
  Num dos primeiros invernos que ela passara ali, Marciano Bezerra tinha
ido um dia encher o corote no arroio que ficava a umas trezentas braas
dos ranchos e voltara  de l branco como papel, perdendo muito sangue
dum brao, e contando que havia sido flechado por um bugre. Nos dias que
se seguiram todos ali ficaram no temor dum  ataque dos coroados, que
tinham sido vistos pelas redondezas em grande nmero. Avisado disso, o
coronel Ricardo armara seus homens e sara  caa dos ndios, que
fugiram para as bandas de So Miguel.
  Essas eram as coisas de que Ana Terra mais se lembrava sempre que
ficava depois do almoo a. tomar mate sozinha debaixo da laranjeira.
Porque, quanto ao resto,  um dia era a cpia de outro
  186
  dia, em que ela trabalhava de sol a sol, em casa e na lavoura, fazendo
servio de homem. Para Ana no havia domingo nem dia santo. De vez em
quando ela saa com  sua tesoura para cortar algum cordo umbilical. Ou
ento ia a algum enterro. Porque pessoas continuavam a nascer e a morrer
naquele fim de mundo.
  Quando a gua da chaleira acabava, Ana erguia-se, entrava no rancho,
botava a cuia em cima do fogo e recomeava a lida do dia. Tinha agora
em casa um espelho,  presente que Pedro lhe trouxera duma de suas
viagens  vila do Rio Pardo. De raro em raro Ana tirava um minuto ou
dois para se olhar nele. Era esquisito... Tinha  a impresso de estar na
frente duma estranha. Examinava-se com cuidado, descobria sempre novos
fios brancos nos cabelos e s vezes nos seus prprios olhos via os
olhos tristonhos da me. Espelho  coisa do diabo - conclua. Quem tinha
razo era seu pai.
  Exatamente no dia em que Pedro Terra anunciou seu noivado com Arminda
Melo, chegaram ali os primeiros boatos de guerra.
  Dias depois o coronel Ricardo apareceu montado no seu cavalo - agora
um tordilho - e exps a situao. Chegara  sua estncia um prprio
trazendo um ofcio em  que o governador do Continente lhe comunicava que
na Europa, Portugal e Espanha estavam de novo em guerra.
  - Isso significa - explicou ele - que temos de pelear de novo com os
castelhanos.
  Estava recrutando gente, pois Veiga Cabral precisava de muitas foras
para guarnecer as fronteiras. O tordilho escarvava o cho, desinquieto.
E em cima do animal  o coronel Ricardo estava tambm excitado. Apesar
dos setenta anos era um homem desempenado e forte, e seus olhos
brilhavam quando ele falava em guerra.
  - Faz muitos anos mesmo que a gente no briga - acrescentou. - J era
tempo.
  Pediu a Marciano que comeasse o recrutamento. Tinha armamento para
uns quarenta homens. Levaria de sua estncia vinte escravos e dez pees,
e esperava arregimentar  mais uns doze ou quinze soldados ali nos
ranchos. Os habitantes do lugar escutaram-
  187
  no em silncio. Antes de se retirar, o coronel Amaral gritou, de
cabea erguida, como se estivesse falando com Deus:
  - O recrutamento  obrigatrio. So ordens do governo! As mulheres
ento desataram o pranto.
  Naquele mesmo dia Ana Terra pediu emprestado a Marciano um cavalo,
montou nele e tocou-se para a estncia do coronel Amaral. Mandaram-na
entrar para a sala grande  da casa, onde ela se viu na frente do senhor
de Santa F.
  - Tome assento - ordenou ele.
  Chico Amaral, filho do estancieiro, azeitava suas pistolas. Por toda a
parte se notavam preparativos guerreiros: alguns escravos limpavam
espadas e baionetas,  outros se exercitavam no manejo de espingardas.
Sentado num cepo, de faco em punho, um mulato fazia ponta numa lana de
guajuvira, assobiando por entre os dentes.  As mulheres da casa estavam
de olhos vermelhos. Mas os homens, com exceo dos escravos, pareciam
muito contentes, como se se estivessem preparando para um fandango.  Um
deles at cantava, tranando um lao perto da porta da casa-grande:
  Esta noite dormi fora, Na porta do meu amor; Deu o vento na roseira Me
cobriu todo de flor.
  Ana olhava, bisonha, para Ricardo Amaral.
  - Ento? - perguntou este ltimo. - Que novidade h?
  - No v que eu vim fazer um pedido a vossa merc... -_ Calou-se,
embaraada. Amaral brincava, meio impaciente, com a argola do rebenque
que estava em cima da  mesa, a seu lado. Ana criou nimo e prosseguiu: -
No v que tenho um filho, o Pedrinho...
  - Eu sei, eu sei.
  - Seu Marciano disse que o menino tem que marchar tambm... - E
acrescentou rpida, a medo - "pra guerra" - como se esta ltima palavra
lhe queimasse os lbios.
  - E que tem isso? Pois ele no  homem?
  - , sim senhor.
  - Ento?
  - Mas acontece que  to moo. Recm fez vinte anos.
  - Moo? Sabe quantos anos eu tinha quando entrei no primeiro combate?
Dezessete!
  Ana Terra tinha os olhos postos no cho. O vozeiro do estancieiro a
intimidava. Ela olhava fixamente para suas grandes botas negras, cujos
canos lhe subiam at  os joelhos, e lembrava-se de que, quando menino,
Pedro lhe dissera um dia ter medo daquelas botas que lhe pareciam um
"bicho preto".
  - Vosmec volte pra casa - disse Ricardo. - Volte e no conte a
ningum que veio me pedir pra dispensar o seu filho. No conte, que 
uma vergonha.
  Ana recobrou a coragem e fez nova tentativa:
  - E se ele morrer?
  - Todos ns temos de morrer um dia. Ningum morre na vspera.
  - Mas o Pedro est pra casar...
  - Casar? O que ele quer mesmo  dormir com a moa. Pois durma, tem
tempo, s partimos daqui a dois dias. Durma e v pra guerra. Depois
case, se voltar vivo e tiver  vontade.
  Ana Terra sentiu uma revolta crescer-lhe no peito. Teve ganas de dizer
que no tinha criado o filho para morrer na guerra nem para ficar
aleijado brigando com  os castelhanos. Guerra era bom para homens como o
coronel Amaral e outros figures que ganhavam como recompensa de seus
servios medalhas e terras, ao passo que  os pobres soldados s vezes
nem o soldo recebiam. Quis gritar todas essas coisas mas no gritou. A
presena do homem - aquelas botas pretas, grandes e horrveis!  - a
acovardava. Fez meia-volta e se foi em silncio. E ia pisar no alpendre
quando ouviu a voz retumbante do coronel que a envolveu, pesada e
violenta como boleadeiras:
  - Estou com setenta anos e prefiro mil vezes morrer brigando do que me
finar aos pouquinhos em cima duma cama!
  Fora, o caboclo ainda cantarolava. Quando Ana passou, ele lhe lanou
um olhar carregado de malcia e lhe dirigiu uma quadra:
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  Fui soldado, sentei praa, J servi numa guarita, Agora sou ordenana
De toda moa bonita.
  Dois ou trs dias depois Ana Terra disse adeus ao filho. Apertou-o
contra o peito, cobriu-lhe o rosto de beijos e a muito custo conteve as
lgrimas. Outras mulheres  despediam-se chorando de seus homens. Havia
um ar de desastre e luto em todas as caras.
  O coronel Ricardo Amaral e os filhos apareceram em cima dos seus belos
cavalos, com pistolas e espadas  cinta. Abriram a marcha, seguidos
pelos outros homens  que, enrolados nos seus ponchos, e na sua maioria
descalos e com as espingardas a tiracolo, acenaram, de cima de seus
matungos, para as pessoas que ficavam.
  Ana Terra, Eullia, Rosa e Arminda, noiva de Pedro, ficaram a
acompanhar com os olhos o grupo que se afastava. Os arreios chapeados de
prata do coronel Amaral  reluziam ao sol. Longe, quando j comeava o
declive da grande coxilha, Pedro fez estacar seu cavalo, torceu o busto,
e acenou tristemente com a mo. As mulheres  responderam ao aceno.
  Foi s ento que Ana Terra percebeu que estava ventando.
  24
  E de novo Ana Terra comeou a esperar... Esperava notcias da guerra;
esperava a volta do filho. Se era dia, desejava que casse a noite,
porque dormindo esquecia  a espera. Se era noite, queria que um novo dia
viesse, porque quanto mais depressa o tempo passasse, mais cedo o filho
voltaria para casa. Muitas vezes at em sonhos  Ana se surpreendia a
esperar, agoniada, vendo longe no horizonte vultos de cavaleiros entre
os quais ela sabia que estava Pedrinho - mas por mais que seus cavalos
galopassem eles nunca chegavam.
  Nos ranchos vazios de homens - s os velhos e os invlidos tinham
ficado - as mulheres continuavam sua lida. E quando,
  dali
  i a muito tempo, chegou um prprio trazendo notcias da guerra para a
famlia do coronel Amaral, elas o cercaram e lhe fizeram perguntas
aflitas sobre seus homens.  O mensageiro no pde contar-lhes muito.
Deu-lhes notcias gerais e vagas... Ricardo Amaral e seus soldados
estavam com as foras do coronel de cavalaria ligeira  Manuel Marques de
Sousa. Tinham invadido o territrio inimigo e tomado as guardas de So
Jos, Santo Antnio da Lagoa e Santa Rosa, e estavam agora se
fortificando  em Cerro Largo.
  Por aqueles dias Eullia foi viver com um vivo cinqento que no
fora para a guerra por ter dois dedos da mo direita decepados.
  - Quando aparecer um padre ns casamos - explicou ela a Ana, de olhos
baixos, na hora em que foi comunicar  cunhada sua resoluo de
juntar-se com o vivo.
  - Que me importa? - respondeu a outra. - O principal  que vosmecs
vivam direito e que a Rosinha tenha quem cuide dela.
  Assim, Eullia e a filha mudaram-se para outro rancho. E Ana Terra
ficou sozinha em casa. E quando se punha a fiar, a pedalar na roca,
freqentemente falava consigo  mesma por longo tempo e acabava
concluindo, a sorrir, que estava ficando caduca.
  s vezes a imagem do filho em seus sonhos confundia-se com a do pai, e
uma madrugada Ana acordou angustiada, pois sonhara que Antnio e Horcio
tinham levado Pedrinho  para longe, para assassin-lo. Ficou de olhos
abertos at ouvir o canto do primeiro galo  hora de nascer o sol.
  Passaram-se meses, e um dia, quando ela viu que o ventre de Eullia
comeava a crescer, pensou logo na sua tesoura e sorriu. Naquele inverno
nasceram seis crianas  nos ranchos, porque antes de partir para a
guerra muitos dos maridos tinham deixado suas mulheres grvidas. E quase
sempre no momento em que ela via uma criana  nascer, a primeira coisa
em que pensava era: ser que o pai ainda est vivo?
  Uma noite de chuva, voltando para casa depois dum parto, caminhando
meio s cegas e orientando-se pelo claro dos relmpagos, Ana pensou
todo o tempo no filho,  imaginou-o a dormir
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no cho, enrolado num poncho ensopado, com a chuva a cair-lhe em cheio
na cara. Teve vontade de apert-lo nos braos, emprestar-lhe o calor de
seu corpo. E em casa,  perto do fogo, ficou ouvindo o barulho manso da
chuva na coberta do rancho. Olhava para a roca e lembrava-se dos tempos
l na estncia, quando a alma de sua me  vinha fiar na calada da noite.
A roca ali estava, velha e triste, e Ana Terra sentia-se mais abandonada
que nunca, pois agora nem o fantasma da me vinha fazer-lhe  companhia.
  L pelo fim daquele inverno um prprio chegou e disse:
  - A guerra anda aqui por perto.
  Muitas pessoas, velhos e mulheres, aproximaram-se dele e ouviram o homem
contar que um tal Santos Pedrozo com uns vinte soldados derrotara a
guarda castelhana de  San Martinho e apoderara-se das Misses. E, com um
largo sorriso na cara marcada por uma cicatriz que lhe ia do canto da
boca  ponta da orelha, acrescentou:
  - Agora todos esses campos at o rio Uruguai so nossos!
  Ana Terra sacudiu a cabea lentamente, mas sem compreender. Para que
tanto campo? Para que tanta guerra? Os homens se matavam e os campos
ficavam desertos. Os meninos  cresciam, faziam-se homens e iam para
outras guerras. Os estancieiros aumentavam as suas estncias. As
mulheres continuavam esperando. Os soldados morriam ou ficavam
aleijados. Voltou a cabea na direo dos Sete Povos, e seu olhar
perdeu-se, vago, sobre as coxilhas.
  No princpio dum novo vero chegou um mensageiro com a notcia de que o
coronel Ricardo tinha sido morto num combate e que os filhos estariam de
volta a Santa F  dentro de trs meses, com os soldados que tinham
"sobrado" da guerra. Na estncia de Santa F houve choro durante trs
dias e trs noites. As mulheres nos ranchos  estavam ansiosas, queriam
saber quantos haviam sobrevivido dos quarenta e tantos que tinham
partido, fazia mais dum ano. O mensageiro entortou a cabea, revirou  os
olhos e respondeu, depois de alguma reflexo:
  - Sobraram uns vinte... - E como visse consternao no rosto das
mulheres, fez uma concesso otimista - ... ou vinte e cinco.
  E se foi, assobiando uma msica de gaita que aprendera nos acampamentos
da Banda Oriental.
  - Mas Pedro est vivo - disse Ana Terra para si mesma. - Uma coisa
dentro de mim me diz que meu filho no morreu. Tomou a mo da futura
nora e arrastou-a para o  rancho, dizendo:
  - Temos de arrumar a casa pra esperar o noivo.
  Um dia Chico Amaral chegou com seus homens. Tinham vencido a guerra mas
voltavam com um ar de derrota. Barbudos, encurvados, de olhos no fundo,
os ponchos em farrapos,  nem sequer sorriram ao verem os parentes. Chico
Amaral tinha recebido um pontao de lana que lhe vazara o olho
esquerdo, sobre o qual trazia agora um quadrado de  fazenda preta. Um
dos seus pees voltava sem um dos braos. Outros haviam recebido
ferimentos leves. Tinham ficado enterrados em territrio castelhano
quinze escravos,  quatro pees e oito rancheiros. Os homens apearam dos
cavalos, abraaram os parentes e amigos e encaminharam-se para seus
ranchos. E as mulheres cujos maridos, filhos,  irmos ou noivos no
tinham voltado, ficavam ainda um instante, meio estupidificadas, a
esperar por eles debaixo da grande figueira. Mas de repente,
compreendendo  tudo, rompiam o choro.
  Ana Terra no pde conter as lgrimas quando viu o filho. Quase no o
reconheceu. Pedro tinha envelhecido muitos anos naqueles meses. Estava
magro, abatido e deixara  crescer a barba, e quando ele desceu do cavalo
e caminhou para a me, esta teve a impresso de que ia abraar o prprio
Maneco Terra.
  No dia seguinte - j descansados e mais bem alimentados - os guerreiros
contavam proezas, descreviam combates, marchas, sortidas... S Pedro
Terra no falava. Por  mais que lhe perguntassem, por mais que puxassem
por ele, no dizia nada. Ficava s vezes com os olhos vagos a olhar para
parte nenhuma, ou ento a tirar lascas  dum pau qualquer com seu faco.
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  Comeou a correr de boca em boca a narrativa das proezas do coronel
Ricardo Amaral. Contava-se que o inimigo estava acampado nas
proximidades do rio Jaguaro com  cerca de duzentos homens. Marques de
Sousa mandou uma diviso de uns duzentos praas fazer reconhecimento.
Quis entregar o comando deles a um de seus capites, quando  o coronel
Ricardo avanou e disse: "Chefe, se vossa merc tem confiana em mim,
terei muita honra em comandar esses soldados". Marques de Sousa
respondeu: "Est  muito bem, coronel. V e seja feliz". Chico Amaral
falou: "Pai, eu quero ir com vossa merc". O velho disse apenas: "Pois
venha. Vai ser divertido". E foi mesmo  muito divertido. Ricardo ps-se
 frente da tropa e encontrou o inimigo formado em fila singela perto do
passo das Perdizes. De lana em riste os nossos soldados  se
precipitaram contra os castelhanos, que abriram fogo. Mas quem foi que
disse que os homens de Amaral pararam? Veio ento o entrer vero. Foi no
alto duma coxilha  e de lado a lado os soldados brigavam como
demnios. Em muitos pontos o capim verde ficou vermelho. E o sangue dos
homens misturou-se e coalhou ao sol com o dos  cavalos. Parece que
Ricardo Amaral recebeu um balao  quando o combate ia em meio, mas
agentou at o fim, perdendo; sangue. Os castelhanos foram completamente
derrotados; os que no puderam fugir morderam o p. Quando Chico Amaral
olhou> para o pai - no fim da peleja - viu-o cair para a frente, sobre o
pescoo do tordilho.  Esporeou seu cavalo e chegou a tempo de enlaar o
velho pela cintura, impedindo-o de tombar ao cho. Ricardo quis dizer
alguma coisa, mas de seus lbios s saiu  um roncq. Morreu dessangrado
nos braos do filho.
  Marques de Sousa mais tarde declarou que aquela vitria do passo das
Perdizes tinha sido decisiva. Porque graas a ela suas foras puderam
atravessar o Jaguaro  sem perigo e entrar mais fundo no territrio
inimigo. Assim os castelhanos perderam Rio Pardo, f Batovi, Taquaremb,
Santa Tecla... 
  Nos meses que se seguiram chegaram ainda aos campos de Santa F boatos
de que os castelhanos se preparavam para voltar,| ao ataque. Mas
contava-se tambm que na  Europa, Portugal e Es-
  panha tinham feito as pazes, e que no Continente tudo continuaria
  como estava.
  Em princpios de 1803 um padre das Misses passou por aquele agrupamento
de ranchos, disse uma missa, convenceu Chico Amaral da necessidade de
mandar erguer uma  capela, batizou doze crianas e fez cinco casamentos,
inclusive o de Pedro Terra e Arminda Melo.
  Em fins daquele mesmo vero Chico Amaral viajou de carreta para Porto
Alegre em companhia da mulher e de seu filho Ricardo, levando uma mucama
preta, um pajem e  dois pees. Voltaram depois de seis meses, e o novo
senhor de Santa F contou aos parentes e amigos o que vira, dissera e
fizera na Capital. O general Veiga Cabral  morrera havia uns dois anos,
fora substitudo por um brigadeiro - que governara apenas quatorze meses
- e agora quem estava na comandncia do Continente era o
chefe-de-esquadra  Silva Gama.
  - Um homem de bem - contou Chico Amaral. - Mas encontrou o Continente em
petio de misria, por causa da guerra. Me contou que a despesa  maior
que a receita...  imaginem!
  Os que o escutavam sacudiram a cabea num mudo assentimento, embora no
entendessem o sentido dessas palavras.
  - Queixou-se do abandono em que vive o Continente - continuou o
estancieiro - e de que no pode fazer nada sem consultar o Rio. Assim as
coisas ficam mui demoradas  e difceis. O remdio, me disse ele,  tomar
as iniciativas sem consultar o vice-rei.
  Chico Amaral sorriu e acrescentou:
  - Ento eu respondi: " melhor passar por insubordinado do que por
incompetente". O governador gostou muito da minha resposta. E me contou
muito em segredo que faz  quase dez anos que a Corte no manda pagar os
soldados do Rio Grande. "Vosmec sabe melhor que eu, major" - ele me
disse- "o que esses pobres-diabos passam. Nem  uniforme tm, andam de
ps no cho e nesta ltima guerra brigaram at com lanas de pau, por
falta de arma de fogo!"
  194
  195
  Chico Amaral mostrava-se satisfeito pela maneira com que fora recebido.
O governador concedera-lhe as trs lguas de sesmaria que ele requereu.)
e, quando ele lhe  contara de seus projetos de fundar um povoado, Silva
Gama lhe dissera: "Faa uma petio ao comandante das Misses. Eu vou
recomendar-lhe que a despache favoravelmente".
  Foi assim que um dia, alguns meses depois, o novo senhor de Santa F
chegou a cavalo e, bem como fazia o pai, postou-se debaixo da figueira,
chamou os moradores  dos ranchos e contou-lhes que o administrador da
reduo de So Joo lhe mandara um ofcio concedendo o terreno
necessrio para a edihcao do povoado. Chico Amaral  leu em voz alta:
"...ordeno a Vmc. que faca medir com brevidade meia- lgua de terreno
no lugar em que pretendem formar a povoao, contendo desde o ponto em
que  desejam ter a capela, um quarto de lgua na direo de cada rumo
cardeal, em rumos direitos de sul a norte, e de leste a oeste."
  Ana Terra escutava, mal entendendo o sentido daquelas frases. Pedro
estava muito atento. Pensava no terreno que lhe ia tocar, e ao mesmo
tempo olhava fascinado para  as grandes botas do estancieiro,
lembrando-se das botas do coronel Ricardo; ainda sentia por elas um
secreto temor, que no fundo era surda malquerena.
  Houve um ponto para o qual o major Amara! chamou a ateno dos
presentes, lendo-o duas vezes com nfase: "Ningum poder ocupar mais
terreno que aquele que lhe   destinado, salvo o caso de compra a outrem
que j possuir ttulo legtimo".
  Cada rua do povoado devia ter sessenta palmos craveiros de largura e
cada morador ia receber um lote de cinqenta palmos contados na frente
da rua e duzentos palmos  de fundo, devendo dentro do prazo de seis
meses requerer ttulo legtimo aos senhores do governo.
  O major Amaral mandou fazer uma planta da povoao por um agrimensor
muito habilidoso que viera do Rio Pardo. Queria uma praa, no centro da
qual ficaria a figueira,  trs ruas de norte
  196
  a sul e quatro transversais de leste a oeste. Meses depois mandou
comear a construo da capela com madeira dos matos prximos. E todos
os homens e mulheres do  lugar ajudaram nesse trabalho. E quando a
capela ficou pronta, foi ela dedicada a Nossa Senhora da Conceio; veio
um padre de Santo ngelo e disse a primeira missa.  E o major Amaral
mandou comprar nas Misses, a peso de ouro, uma imagem da padroeira do
povoado.
  No ano seguinte mandou construir uma casa toda de pedra para sua
famlia, bem na frente da capela, do outro lado da praa. Ergueu outras
casas para alugar  gente  que chegava. E muita gente chegou naquele ano
e nos seguintes. Tropeiros que vinham de Sorocaba comprar mulas nas
redondezas, gostavam do lugar e iam ficando por  ali. E o nome de Santa
F comeou a ser conhecido em todo o municpio do Rio Pardo e fora dele.
  Em princpios de 1804 Chico Amaral fundou uma charqueada e comprou mais
um lote de escravos. Nesse mesmo ano, numa noite morna de maro, nasceu
o primeiro filho  de Pedro e Arminda Terra. Era um menino e deram-lhe o
nome de Juvenal. Quando Ana Terra tomou da tesoura para cortar-lhe o
cordo umbilical, suas mos tremiam.
  E naqueles dias, quando Pedro saa para o mato a buscar madeira para a
casa que estava construindo no terreno que lhe coubera, e Arminda ia
lavar roupa no arroio  - Ana Terra ficava em casa fiando e cuidando do
neto. Quando Juvenal chorava, ela pedalava mais de mansinho e
cantava-lhe velhas cantigas que aprendera com a me,  as mesmas que
cantara um dia para Pedrinho.
  Achava que tudo agora estava bem. O filho era um homem direito e tinha
casado com uma mulher sria e trabalhadora. Eullia vivia em paz com o
marido e Rosinha estava  noiva do capataz do major Amaral.
  Aqueles foram tempos de grande paz. Muitas vezes por ano Ana Terra saa
apressada sob o sol ou  luz das estrelas com a tesoura debaixo do
brao. E gente nascia,  morria ou se casava em Santa F. O nmero de
casas aumentava e a populao j se habituava  voz do sino da capela.
  197
  No inverno de 1806 Ana ajudou a trazer para o mundo seu segundo neto,
uma menina que recebeu o nome de Bibiana. Ao ver-lhe o sexo, a av
resmungou: "Mais uma escrava".  E atirou a tesoura em cima da mesa num
gesto de raiva e ao mesmo tempo de alegria.
  Bibiana tinha j quase trs anos quando certo dia um tropeiro chegado do
Rio Pardo contou a Pedro que havia grandes novidades no Rio de Janeiro.
A rainha e o prncipe  regente tinham fugido de Portugal porque esse
pas havia sido invadido pelos franceses... ou ingleses, ele no sabia
ao certo; mas a verdade era que a famlia real  j estava no Brasil. No
Rio Pardo todos achavam que as coisas iam mudar para melhor.
  O major Amaral agora dava audincias no seu sobrado s gentes do lugar
que lhe iam levar seus problemas ou pedir-lhe conselhos.
  Duma feita, Pedro ouviu o senhor de Santa F conversar, indignado, com
um estancieiro de Viamo que lhe viera comprar uma tropa.
  - Assim no  possvel! - dizia ele, caminhando dum lado para outro na
sala. - Nosso charque s pode ser vendido no Rio de Janeiro a setecentos
ris a arroba e o  charque dos castelhanos chega l por quatrocentos.
Isso tem cabimento? Me diga, tem?
  O visitante limitava-se a sacudir a cabea e a murmurar:
  - So dessas coisas, major, so dessas coisas...
  - E a todas essas, o preo do nosso gado na tablada vai baixando.
  O viamonense comeou a picar fumo reflexivamente. Depois, com sua voz
calma, perguntou:
  - E no que deu aquele pedido que fizeram ao governo pra proibir a
entrada do charque castelhano?
  - Deu em nada! Est claro que o governo tem interesse no caso, pois no
quer perder o imposto de importao.
  -  o diabo... E agora ainda inventaram esse imposto de trezentos e
vinte ris por cabea de rs abatida...
  Chico Amaral cuspiu no cho.
  - Eu s quero ver como  que eles vo arrecadar. Eu s quero ver...
  198
  -  o diabo...
  - Os castelhanos tm 'tudo que querem, fcil e ligeiro. Ns temos que
depender das ordens do Rio. De nada nos adiantou elevarem o Rio Grande a
capitania. No vai  adiantar nada tambm a gente ter a Corte no Rio de
Janeiro. Vamos continuar aqui embaixo abandonados e esquecidos como
sempre. Mas na hora do aperto eles vm com  esses pedidos de auxlio,
porque o pas est mal, porque isto e porque aquilo. Vosmec se lembra
da arrecadao de donativos que fizeram em 1805? Foi o mesmo que  pedir
esmola a particulares. Onde se viu?
  -  o diabo... - murmurou de novo o visitante, enrolando o cigarro.
  - E na hora de pegar no pau furado, na hora de brigar com os castelhanos
a Corte apela  pra ns.
  Parado junto da porta sem coragem de entrar, Pedro escutava o
estancieiro, com os olhos fitos em suas botas embarradas.
  Chico Amaral, que agora mascava com fria um naco de fumo, comeou a
falar no problema do contrabando. Silva Gama fizera o possvel para
acabar com aquele abuso  mas no conseguira nada. Os contrabandistas
traziam negros das colnias portuguesas da frica, tiravam guias para a
Capitania do Rio Grande, mas na verdade seguiam  viagem para Montevidu
e Buenos Aires, onde trocavam os pretos por charque, trigo, couro e sebo
e iam depois vender estas mercadorias em outros pontos do Brasil,  como
se elas tivessem sido produzidas no Rio Grande.
  -  assim que eles fazem concorrncia ao nosso produto! - exclamou
Chico Amaral. - Isso tem cabimento?  por essas e por outras que o nosso
charque no pode competir  com o da Banda Oriental. O couro deles tem
boa cotao, o nosso fica aqui apodrecendo e o remdio  fazer surro
com ele!
  Chico parou na frente do visitante, segurou-lhe o brao, encarou-o e
perguntou:
  - Vosmec sabe qual  a soluo para esse negcio todo? Pois  invadir a
Banda Oriental e arrebentar aquela coisa l. Os castelhanos no podem se
queixar porque  foram eles que comearam essa histria de entrar na
terra dos outros.
  199
  O viamonense sacudiu a cabea devagarinho e disse mansamente:
  - Guerra no resolve nada, major.
  - Que diabo! Guerra resolve tudo.
  Pedro, que tinha ido  casa de Chico Amaral para lhe pedir o
arrendamento de alguns alqueires de terra, onde tencionava plantar uma
lavoura de trigo, achou melhor  voltar, pois viu que o homem estava
excitado.
  Uma semana depois, entretanto, conseguiu o que queria. Chico Amaral
arrendou-lhe um pedao de campo a um quarto de lgua do povoado. Pedro
contratou dois pees e  com eles virou a terra. Nesse dia a mulher e a
me tambm pegaram nas enxadas e os ajudaram. Trabalharam o dia inteiro.
Depois semearam. Passados seis meses, colheram.  Pedro vendeu o trigo e
ganhou um bom dinheiro. Tornou a semear e de novo teve boa colheita. J
por essa poca sua casa estava pronta. Era de tbua, tinha um pomar  e
uma criao de galinhas e porcos.
  Tudo corria bem para os Terras quando comearam a circular rumores duma
nova guerra. Dizia-se que Dom Joo resolvera tomar conta da Banda
Oriental.
  Ana Terra suspirou e disse:
  - Isso  falta de servio. Se esse homem tivesse de trabalhar como a
gente, de sol a sol, no ia se lembrar de invadir terra alheia.
  Foi no ano de 1811. Contava-se que na Banda Oriental havia barulho,
porque os platinos queriam se ver livres da Espanha. Quem  que ia
entender aquela confuso?  Diziam tambm que dom Diogo de Sousa, o
comandante das foras portuguesas na Capitania do Rio Grande, estava
acampado em Baj com seus exrcitos. Tudo indicava que  estava
preparando a invaso.
  Arminda rezava dia e noite diante do Cristo sem nariz. As mulheres de
Santa F encheram a capela no dia em que se confirmaram os boatos de
guerra. E l dentro o  rumor das rezas se misturava com o do choro.
  Quando Chico Amaral apareceu uma tarde, exaltado, em cima do seu cavalo
e mandou tocar sino, chamando os habitantes do
  200
  lugar, Ana Terra saiu com um frio na alma, porque sabia o que ia
acontecer. E tudo aconteceu como ela temia. Dom Diogo de Sousa apelava
para o major Francisco Amaral,  pedindo-lhe que se reunisse o quanto
antes com seus homens s foras portuguesas que iam invadir a Banda
Oriental.
  Pedro teve de abandonar a lavoura para se incorporar  tropa de Chico
Amaral.
  - Uma coisa me diz que desta guerra eu no volto - murmurou ele quando
se preparava para partir.
  Arminda, que chorava com Bibiana agarrada s saias, no disse nada. Mas
Ana Terra, que tinha os olhos secos, botou a mo no ombro do filho e
falou:
  - Volta, sim. - E como se tudo dependesse de Pedro, ela olhou-o bem nos
olhos e disse: - Vosmec precisa voltar. Pense nos seus filhos, na sua
mulher, na sua lavoura.
  Os olhos de Pedro brilharam.
  - Me, tome conta de tudo.
  - Nem precisa dizer.
  Chico Amaral e seus soldados partiram numa madrugada para reunir-se nas
Misses s foras de Mena Barreto. Ana e Arminda tinham passado a noite
em claro, ouvindo  Pedro remexer-se na cama, inquieto. Ao partir ele
estava plido. Sabia como era a guerra. No tinha nenhuma iluso.
  E de novo o povoado ficou quase deserto de homens. E outra vez as
mulheres se puseram a esperar. E em cercas noites, sentada junto do fogo
ou "a mesa, aps o jantar,  Ana Terra lembrava-se de coisas de sua vida
passada. E quando um novo inverno chegou e o minuano comeou a soprar,
ela o recebeu como a um velho amigo resmungo que  gemendo cruzava por
seu rancho sem parar e seguia campo fora. Ana Terra estava de tal
maneira habituada ao vento que at parecia entender o que ele dizia. 
nas  noites de ventania ela pensava principalmente em sepulturas e
naqueles que tinham ido para o outro mundo. Era como se eles chegassem
um por um e ficassem ao redor  dela, contando casos e perguntando pelos
vivos. Era por isso que muito mais tarde, sendo j mulher reita, Bibiana
ouvia a av dizer quando ventava: "Noite de vento,  noite dos mortos..."
  201
  Noite de abril. A luz duma vela, na casa onde se hospeda, o botnico
francs toma uma nota em seu dirio de viagem.
  Observo que quanto mais simplicidade de maneiras e conversa imprimo a
meus atos, menos deferncia recebo.
  Os habitantes da Capitania do Rio Grande esto de tal modo habituados ao
militarismo e ao ar carrancudo dos oficiais, que no acreditam em que
uma pessoa simples  e honesta possa ter importncia.
  Sim, os homens que tinham gales, ttulos de nobreza, lguas de 
sesmaria, botas e cavalos falavam alto e grosso, de cabea erguida.
  E havia tambm os sem ttulos nem terras nem gales, que falavam
alto e grosso e de cabea erguida porque tinham armas, botas e cavalos.
  Mas os gachos sem cavalo, sem armas, sem botas, sem nada; os
pobres-diabos que andavam molambentos e de mos vazias, esses s falavam
alto e grosso entre os de  sua igualha.
  Porque ante os bem montados ficavam de olhos baixos e sem voz.
  De seu s vezes nem um nome tinham. Donde vinham? Ningum sabia ao certo
nem procurava saber. Alguns haviam nascido de chinas ou bugras que
dormiram com tropeiros,  ladres de gado, carreteiros, buscadores de
ouro e prata, preadores de ndios.
  Outros eram sobras de antigas bandeiras,
  retirantes da Colnia do Sacramento,
  escravos foragidos,
  desertores do Regimento de Drages,
  castelhanos vindos do outro lado do Uruguai, das planuras platinas:
gente andarenga sem pouso certo,
  mamelucos, curibocas, cafuzos, portugueses, espanhis.
  Alguns carregavam suas fmeas e crias, mas em geral andavam sozinhos. E
eram mais miserveis que os bugres.
  Ali vai um desses.
  Como  teu nome?
  Joo Car.
  Onde nasceste?
  No sei. Acho que cresci do cho como erva ruim que ningum plantou.
  Tua me?
  Morreu.
  Teu pai?
  Nem ela sabia.
  Tens pele de mouro, mas donde tiraste esses olhos esverdeados?
  Nunca vi meus olhos.
  Joo Car anda sozinho, de ps no cho, quase nu, mal tapando as
vergonhas com um chirip esfarrapado. No inverno, quando o minuano
sopra, ele cava na terra uma  cova e se deita dentro dela. Quando a fome
aperta e no h nada que comer, Joo Car mastiga razes, para enganar o
estmago. E quando o desejo de mulher  muito,  ele se estende de bruos
no cho e refocila na terra.
  Pobre no se casa, se junta. Joo Car um dia se junta com uma china.
Fazem rancho de barro com coberta de capim. E comeam a ter filhos. A
nica coisa que plantam  na terra que no lhes pertence so os filhos que
morrem.
  Os que sobrevivem se criam com a graa de Deus. Um dia vem um homem a
cavalo e grita
  Quem te deu licena pra fazer casa nestes campos?
  Ningum.
  Esta terra  muito minha, tenho sesmaria d'el-rei. Toca daqui pra fora!
  Joo Car junta os trapos, a mulher, os filhos e se vai.
  202
  203
  De pobre at o rastro  triste. Mas h muita fruta no mato, gua nas
sangas e mais os bichos de Nosso Senhor. s vezes at encontram a
fressura de alguma rs recm-carneada:   s limpar a terra.
  Um dia Joo Car chega ao Rio Pardo, ouve os sinos batendo, foguetes no
ar pipocando, v gente na rua gritando. Que foi? Que no foi?
  Proclamaram a independncia! Estamos livres dos galegos!
  Joo Car no compreende. E como precisa de dinheiro para dar de comer 
famlia, aluga a filha mais moa a um negociante.
   virgem?
   sim senhor.
  Quantos anos tem?
  Deve andar pelos quinze.
  Est no ponto.
   sim senhor.
  Os olhos do homem cocam as pernas da chinoca.
  Quanto quer por ela?
  Vossa merc faa preo.
  Dois pataces e uma manta de charque.
  Pode levar a menina.
  Os olhos do homem cocam os peitinhos da chinoca.
  Est fechado o negcio. Mas se ela no for virgem, quero de volta o
dinheiro. E te mando dar uma sumanta de rabo-de-tatu.
  Minha filha, v com o coronel, faa tudo que ele mandar.
  E foi assim que nasceu o Mingote Car.
  Cresceu ali mesmo no Rio Pardo, onde a me, china de soldado, dormia com
os drages a dez vintns por cabea.
  Agora l vai ela levando o Mingote no colo e outro filho sem pai no
bucho. E o vento frio deste julho faz tremular seus molambos.
  ... e as bandeiras e velas do bergantim Protetor que est atracando no
trapiche de Porto Alegre com imigrantes alemes a bordo.
  Sua Excelncia o presidente da provncia, de chapu alto e sobrecasaca,
os espera no porto, no meio de autoridades.
  204
  Da amurada do navio, Willy olha a cidade que os casais aorianos
  fundaram.
  Desembarca meio estonteado, de mos dadas com a mulher: Hn-
  sel e Gretei, coitados, perdidos na floresta.
  Num batelo com as outras famlias de imigrantes sobem o rio dos Sinos,
de guas barrentas e margens baixas, rio sem histria, sem castelos, sem
andinas nem Loreleis.
  Tornam a pisar terra firme, entram num carro de bois.
  Este  o lote que te toca, Willy. Agora no passars mais fome
  como em tua terra natal.
  Willy olha a mata. Verflucht!  preciso derrubar rvores, virar a terra
e antes de mais nada fazer uma casa. Mas o alfaiate Willy no sabe
construir casas. Senta-se  numa pedra e fica olhando as nuvens e achando
que Gotl wird helfen.
  Outras levas de imigrantes chegam. So da Rcnnia, do Palatinado, de
Hesse, da Pomcrnia, da Baixa Saxnia e da Vestflia.
  O ar da antiga Feitoria do Linho Cnhamo se enche do som de machados,
serrotes, martelos e vozes estrangeiras. rvores tombam, picadas se
abrem, e escondidos dentro  do mato bugres e bugios espiam intrigados
aqueles homens louros.
  Heinrich ficou debaixo dum cedro com o peito esmagado. Kurt foi mordido
por uma cobra. Um ndio Jurou o olho de Jacob com um frechao. Schadet
nichts!
  Do  colnia o nome de So Leopoldo.
  Ach mein Gott! No gosto de charque nem de po de milho nem de feijo
com arroz.. Quem me dera ter batatas, sauerkraut, po de centeio e
alguns litros de cerveja!
  Willy experimenta o mate chimarro, queima a lngua, cospe longe a gua
verde e amarguenta. Mas Hans o ferreiro prova e gosta, veste chirip, se
amanceba com mulata  e, vergonha da colnia, muda
  de nome:  Joo Ferreira.
  Uma tarde, em sua casa nova, nas faldas da serra Geral, Werner escreve
ao seu lieber Vetter Fritz, que ficou na Alemanha  .
  ...o governo no nos deu tudo que prometeu, mas com o amor de Deus vamos
vivendo.
  205
    Como no havia mais terras devolutas em So Leopoldo, nos mandaram aqui
par a a serra, onde existem ndios ferozes.
  Graas  divina Providncia no passamos mais fome. Temos comida em
abundncia e nossa terra d feijo branco e preto, milho, arroz e
batata. Imagina, Fritz, batata!  Tambm planto fumo, que  da melhor
qualidade.
  Deves vir tambm para c. A viagem foi longa e dura, passei perigos e
agruras, mas estou certo de que dentro de poucos anos serei um homem
rico.
  Olha, Fritz, tu que tanto gostas de frutas viverias aqui muito feliz,
pois esta boa terra produz limas e limes, bananas, laranjas, ananases,
figos, pssegos, mas,  melancias e meles. Agora vou plantar linho e
algodo, e um dia talvez...
  Werner parou de escrever porque estava na hora de voltar para a lavoura.
Nunca chegou a terminar a carta, pois naquele mesmo dia os ndios
atacaram a picada e mataram  onze colonos. Werner caiu de borco com uma
flecha cravada nas costas. A ltima palavra que disse, babujando a terra
de sangue, no foi o nome do Vaterland nem o  de algum ente amado. Foi:
  Scheisse!
  Um dia um gacho andarengo e pobre passou a p por So Leopoldo.
  Olhou a colnia que j tomava jeito de vila, viu homens trabalhando nas
roas, ferreiros batendo bigorna, seleiros fazendo lombilhos, moleiros
moendo trigo, padeiros  fazendo po,
  e como passasse por sua frente um filho de Willy, grandalho, corado,
feliz, bem montado num lindo alazo, o caboclo teve um sbito mpeto de
revolta e gritou:
  Alemo batata!
  E se foi, desagravado, erguendo poeira do cho com seus ps descalos.
  Depois veio a guerra com os castelhanos. Formaram nas colnias uma
Companhia de Voluntrios Alemes.
  206
  E de vrios pontos da provncia cinco Cars foram levados a maneador
para as tropas nacionais como voluntrios.
  Nunca ficaram sabendo direito contra quem brigavam nem por qu.
  Mas lutaram como homens, e nenhum deles desertou. Eram magros mas rijos.
  Foi nessa mesma guerra que um tal tenente Rodrigo Cambar um dia avanou
a cavalo contra uma bateria castelhana e com um lao de onze braas
laou uma boca de fogo  inimiga e se precipitou com ela, gritando e
rindo, a trancos e barrancos, para as linhas brasileiras.
  Por essa e por outras ganhou uma medalha e foi promovido a capito.
  Pedro Car nessa guerra teve um brao amputado. E nunca recebeu soldo.
  Quando veio a paz voltou  vida antiga.
  Onde foi que perdeu o brao?
  Na guerra.
  No lhe faz muita falta?
  Nem tanto. Graas a Deus me cortaram s o brao.
  E meio rindo ele mostrava sua china, que tinha um filho no colo e outro
na barriga.
  Por essa e por outras foi que a raa dos Cars continuou.
  207
  O Sobrado - Iv
  25 de junho de 1895: Tarde
  Pouco depois do meio-dia, Licurgo sobe  gua-furtada e de l fica
espiando a praa, onde no enxerga viva alma. O homem que est de
planto se queixa:
  - Faz mais de quinze horas que no dou um tirinho. Licurgo mantm-se
calado. Seus olhos esto fitos na fachada
  da Intendncia. L dentro daquela casa est Alvarino Amaral, e nesse
homem Licurgo concentra todo o fogo de seu dio, como se ele fosse o
culpado de tudo: da revoluo,  da morte de sua filha, de toda a
desgraa que cara sobre sua casa...
  - Que ser que houve? - pergunta ele, mais para si mesmo que para o
companheiro.
  - Decerto os maragatos j abandonaram a cidade. Licurgo sacode a cabea.
  - Se tivessem abandonado, algum j tinha vindo me avisar. As vidraas
das casas da praa chispam ao sol. H geada na
  cara dos mortos, ali na rua, e Licurgo olha para eles com nojo.
  - Se a gente pudesse mandar enterrar esses cadveres... - murmura.
  O atirador boceja.
  - Quando bate o vento, no se aguenta o mau cheiro - diz ele,
cuspinhando.
  - Ter algum agora na torre da igreja?
  O outio dirige para o campanrio um olhar mortio, pesado de sono:
  - Acho que no.
  209
  -  esquisito...
  - Parece que os maragatos esto se preparando para abandonar a cidade.
  - Por qu?
  - Ao romper do dia chegou um homem a cavalo. Vi quando ele entrou pela
Rua do Comrcio. Ia fazer pontaria mas achei que era desperdiar bala.
Estava ainda meio escuro  e o diabo vinha muito longe. De repente
desapareceu. Decerto entrou na Intendncia pelos fundos. Depois disso
notei uns movimentos, um vaivm...
  - Vou mandar um homem buscar gua no poo. Fique observando a torre e,
se enxergar algum vulto, faa fogo.
  Espraia mais uma vez o olhar pela praa. Lembra-se doutros tempos,
quando ali havia paz e gente alegre. Pensa na ltima festa do Divino, no
coreto onde tocava uma  banda de msica, nas bandeirinhas de papel
colorido, na quermesse, nos fogos de artifcio, nos jogos... Santo Deus,
quanto tempo faz que essas coisas aconteceram!
  - s quatro vou mandar um homem l render - diz Licurgo.
  E desce. Desce com a sensao de que sua casa no  a mesma de algumas
horas atrs. Antes havia ali dezenove pessoas: treze homens, quatro
mulheres e duas crianas.  Agora existem vinte, mas a vigsima est
morta. "Chama-se Aurora.  uma linda moa. Nasceu numa noite de inverno,
quando a casa dos pais estava cercada pelos maragatos."  Ningum mais h
de dizer estas palavras no futuro, porque Aurora nasceu morta.
  Licurgo desce  cozinha e manda Gervsio - um caboclo retaco de olhos
claros - buscar gua ao poo.
  Entra depois na sala de visitas. Em cima da mesinha redonda est o corpo
da recm-nascida, dentro duma caixeta de marmelada, coberta com uma
toalha. Ao p da caixeta  bruxuleia a chama do ltimo toco de vela que
existe em casa. A um canto da sala, sentado numa cadeira, Florncio
Terra est num silncio resignado. O grande espelho  de moldura dourada
reflete sua figura triste: um velho de rosto moreno, longo e descarnado,
com uma barba grisalha a cobrir-lhe as faces e o queixo, o bigode de
pontas amareladas a
  escorrer-lhe pelos cantos da boca. A seu lado, Maria Valria conversa
com a mulata Laurinda, que acaba de descer.
  - A Alice j acordou? - pergunta a primeira.
  - No, senhora.
  - E dona Bibiana? -J.
  - Onde esto as crianas?
  - No quarto da frente, brincando. Licurgo aproxima-se da cunhada.
  - Quando  que os homens vo comer? - pergunta.
  - Pode ser agora. - Volta-se para Laurinda: - D comida prs homens.
  Laurinda fita nela os olhos surpresos:
  - Mas que comida?
  - Os restos de charque e farinha. Ouve-se a voz cansada de Florncio:
  - Eu no quero nada, Laurinda.
  Licurgo percebe que estes trs pares de olhos esto postos nele.
Sente-se na obrigao de dizer alguma coisa:
  - Acho que hoje  o ltimo dia de stio. A sentinela do sto me disse
que viu uns movimentos esquisitos na Intendncia. Parece que no tem
mais ningum na torre.  No se enxerga ningum na praa. Acho que os
maragatos esto liquidados.
  Os outros continuam calados. Licurgo no ousa encarar a cunhada.
Senta-se pesadamente numa cadeira e fica a olhar para cima da mesinha.
Sua filha morta, dentro duma  caixa de marmelada! Podia ter um
caixozinho branco, com enfeites dourados. Mas est dentro daquela
caixeta, como filha de pobre. Morta, fria, um pedao de carne  sem vida.
E o estmago se lhe contrai numa nusea quando ele pensa, por
associao, em carne de nonato. Se ao menos pudesse fumar! Os lbios lhe
ardem. A falta de  cigarro lhe d a impresso de que sua lngua cresceu,
inchou.
  Maria Valria aproxima-se dele e diz:
  - Precisamos enterrar essa criana, Curgo. Ele ergue os olhos.
  - Enterrar? Mas onde? - pergunta com voz embaciada.
  210
  211
  No poro. No poro? S at terminar o stio. Depois se leva o corpo pr
cemi-
  trio.
  Licurgo torna a baixar a cabea.
  - Est bem. Mas quando?
  - Pode-se esperar ainda umas horas. Mas acho que no adianta nada. 
melhor enterrar j.
  Florncio solta um suspiro.
  - Vou ver a Alice - diz ele, levantando-se e encaminhando-se para a
escada.
  Licurgo esquecera a presena de Maria Valria e, inclinando o busto para
a frente, apoiando os cotovelos nas coxas, esconde o rosto nas mos.
Vem-lhe  mente a imagem  de Ismlia. Que lhe ter acontecido? Pensa
tambm em sua estncia... A esta hora os malditos federalistas decerto
j invadiram os campos do Angico, cortaram o aramado,  arrebanharam o
gado, carnearam, depredaram a casa e - miserveis - provavelmente
serviram-se  vontade no corpo da rapariga.
  A voz de Maria Valria:
  - Vossunc precisa mas  dormir.
  Licurgo ergue a cabea, quase num sobressalto.
  - Dormir? - repete, como se no conhecesse a palavra.
  - V pra cima e se deite.
  Curgo continua sentado, agora com o busto inteiriado, o ar meio
agressivo.
  - No adianta nada vossunc se martirizar desse jeito - insiste a
cunhada.
  - A senhora tambm precisa dormir.
  - J dei uma cochilada h pouco no quarto de Alice. Faa
  o mesmo.
  - Mas no estou com sono.
  - No pode deixar de estar. Faz duas noites que no dorme.
  - Eu sei do que preciso.
  Licurgo odeia que tomem com ele atitudes maternais. Maria Valria
contempla-o por um breve instante e depois torna a falar:
  212
  - Vossunc licando acordado a situao no melhora em nada. A criana
nasceu morta. A Alice est com febre. Os mantimentos se acabaram. O
Tinoco est com pasmo.
   meno do nome de Tinoco, Licurgo franze o cenho. Naquelas ltimas
horas havia-o esquecido por completo. Mas dentro dum segundo Tinoco
torna a desaparecer-lhe  da conscincia, pois Licurgo est tomado por um
sentimento de revolta ante a enumerao de desgraas que a cunhada acaba
de fazer com um ar de quem acha ser ele  o nico culpado de tudo. Comea
a sentir um calor no peito e a custo reprime um palavro: Cadela! Desvia
os olhos do rosto daquela mulher, cujas feies ele sempre  aborreceu e
agora comea a odiar.
  - Por falar nisso - diz ela -  preciso fazer alguma coisa por esse
pobre homem.
  - Mas que querem que eu faa?
  - J lhe disse mil vezes. Bote uma bandeira branca na frente da casa,
pea uma trgua, diga que  pra salvar a vida dum cristo. No. De dois.
Chame o dr. Winter.  Ele pode trazer remdios pra Alice e os petrechos
pra cortar a perna do Tinoco.
  - J lhe disse que no peo favor a maragato.
  - Prefere ento deixar aquele coitado apodrecendo aos poucos l na
despensa?
  - No prefiro coisa nenhuma. Guerra  guerra.
  Curgo grita mas no se sente muito seguro do que diz. E fica ainda mais
furioso por ver que Maria Valria est percebendo sua indeciso, sua
luta de conscincia.
  - O Tinoco est perdido - acrescenta, sem grande convico. - No tem
mais jeito, mesmo que cortem a perna dele.
  - Quem ri que lhe disse? Faz dois dias que vossunc nem entra na
despensa.
  - Tenho tido coisas mais importantes a fazer.
  - Oua o que lhe digo. Ainda h tempo de salvar o Tinoco.
  - Milhares de homens tm morrido nesta revoluo por causa de suas
idias. A vida duma pessoa no  to importante assim. H coisas mais
srias.
  - O seu orgulho, por exemplo.
  213
  Licurgo Cambar ergue os olhos para a cunhada: seus maxilares inferiores
se mexem sob a pele tostada que uma grossa barba negra recobre.
  - Pois bem. O meu orgulho. Eu respondo pelos meus atos. Se depois de
terminado tudo isto eu for chamado perante um tribunal, irei de
conscincia tranqila.
  - Duvido.
  - Nunca fugi  responsabilidade - diz ele, alteando a voz e falando num
tom gutural, como se estivesse engasgado.
  - S grita quem sabe que no tem razo.
  - No estou gritando. Posso falar como entendo porque estou na minha
casa.
  - Todo o mundo sabe disso.
  -  melhor a senhora ir calando a boca. Como chefe poltico tenho
deveres que uma mulher no pode compreender.
  Maria Valria est plida e seus lbios treinem um pouco quando ela diz:
  - De poltica no entendo nem quero entender. S sei que minha irm est
doente e precisa dum doutor e de remdio. S isso  que sei.
  - Mas a Alice no est em perigo de vida.
  - Est com febre alta e ningum sabe o que pode acontecer.
  Curgo faz um gesto de impacincia, ergue-se, d algumas passadas na
sala, pra junto da mesinha, olha por um instante para a caixeta onde
est o corpo da filha e  depois, mais calmo, quase conciliador, diz:
  - Tenho a mais absoluta certeza que amanh o mais tardar os republicanos
chegam e a cidade fica livre desses maragatos.
  Maria Valria fita em Curgo os olhos grados, quase exorbitados:
  - Podemos ento fazer trs enterros ao mesmo tempo - diz ela. - O da
criana, o do Tinoco e o da Alice.
  Curgo cresce para a cunhada, como se a quisesse esbofetear.
  - Cale essa boca, sua...
  Ouve-se um tiro. Outro. E outro. E o tiroteio comea, cerrado. Os
defensores do Sobrado correm para as janelas e pem-se a
  214
  atirar para fora. Licurgo precipita-se para a cozinha. Abre a porta e v
Gervsio que sobe a escada, meio encurvado, com uma mo sobre o peito e
a outra a segurar  o balde. Desce a auxili-lo, toma-lhe o balde com uma
das mos, com a outra enlaa o companheiro pela cintura e arrasta-o para
dentro de casa.
  - A sentinela da torre me viu e fez fogo - diz o caboclo, ofegante.
Deitam-no no cho da cozinha.
  - Onde foi?
  O peo arreganha os dentes.
  - No foi nada. Parece que a bala me pegou de refilo. Licurgo abre-lhe
a camisa.
  - O maragato te tirou um bom pedao de carne do peito - diz ele. -
Tiveste sorte, Gervsio. Por um pouco que no te entra no corao.
  O caboclo continua sorrindo.
  - Patro, faa um churrasco desse naco de carne.
  Um dos companheiros ajoelha-se ao lado dele, lava-lhe a ferida e depois
passa nela uma pena de galinha embebida em creolina.
  - Est doendo, Gervsio?
  - Coisa de nada.
  O ferido soergue-se, olha em torno e diz:
  - Eu dava metade da vida pra ter agora um cigarrinho de palha!
  Depois, olhando para o balde, ajunta:
  - Mas a gua est ali. No perdi uma gota... Um dos homens toma do balde
e diz:
  - . Mas quem  que vai beber isso?
  Os outros olham: a gua est toda tinta de sangue.
  A sala de visitas est deserta. Torbio e Rodrigo entram de mansinho, de
ps descalos e chinelos nas mos, aproximam-se da mesa e ficam parados,
a respirao alterada,  como se estivessem razendo uma coisa proibida.
Conversam num sussurro:
  - Ela est a dentro da caixeta? - pergunta Rodrigo.
  - Est, sim - responde Torbio. - Pequeninha, no ? -.
  215
   
  - Como ser a cara dela?
  - No sei.
  - Vamos tirar o pano pra ver?
  - No.
  - Por qu?
  - Tenho medo.
  Uma pausa. As duas crianas ficam olhando para a toalha que
  cobre a caixeta.
  - Engraado... - diz Rodrigo, entortando a cabea e sorrindo.
  - Que que  engraado?
  - Ela ser nossa irm...
  - E mesmo...
  - E ter nascido morta.
  - Pois ...
  - No adiantou nada. Toda a dor, todos os gritos da me...
  - No adiantou.
  - E agora?
  Bio encolhe os ombros.
  - Agora enterram ela.
  - Onde?
  - No poro.
  - Como  que tu sabe?
  - A tia Maria Valria me contou.
  - E depois?
  - Depois... nada.
  - Que  que acontece quando enterram uma pessoa?
  - Ela apodrece, os bichos comem ela.
  - Que bichos?
  - Ora... os bichos. Rodrigo sacode a cabea.
  - No entendo.
  - Que  que tu no entende? Rodrigo taz um gesto vago:
  - Tudo...
  Torbio ergue a mo e comea a puxar a toalha.
  216
  - No! - protesta o outro.
  - Eu quero s ver a carinha dela. Rodrigo recua um passo, fecha os
olhos.
  - Olha s, Rodrigo. Olha.
  Sempre de olhos fechados, o outro continua a sacudir a cabea, fazendo
que no.
  - Olha, bobalho.
  Rodrigo abre os olhos. Dentro da caixeta de marmelada, aquela coisa
enrolada nuns panos parece uma bonequinha de carne. Rodrigo aproxima-se
mais.
  -  bem direitinha... - diz.
  Esto ambos com os olhos muito prximos do rosto da morta.
  - Tem nariz, tem olhos, tem tudo - murmura Torbio.
  - S no respira.
  - Est morta...
  - Por que ela est dessa cor?
  - Morto fica assim.
  - ?
  - .
  - Como  o nome dela?
  - No tem.
  - Por qu?
  - Porque no foi preciso.
  - Como  ento que ns vamos chamar ela?
  - Mas ns no vamos chamar ela.
  - Eu sei dum nome. - Qual ?
  - A enterradinha.
  - Bobo!
  Olham uma vez mais para a irm. Depois Torbio docemente torna a cobrir
a caixeta com a toalha.
  - Vamos brincar? - convida ele.
  - De
  que
  - De revoluo. Eu sou republicano e tu  maragato.
  - No. Eu sou republicano e tu maragato.
  - Assim no vale. Ento vamos brincar da guerra do livro.
  217 
  - Isso mesmo! Eu sou francs e tu prussiano.
  - Est feito.
  Fazem meia-volta e se vo. Junto da porta voltam-se ainda, e lanam um
olhar para a caixeta. Torbio fecha um olho, leva ao rosto uma carabina
imaginria, aponta  para a irm, dorme na pontaria e depois faz - teu
  Pouco depois das trs horas Licurgo apanha uma p, toma  nos braos a
caixa com o cadver da filha e desce com ela para o subsolo, pelo
alapo da sala de jantar.  J com metade do corpo para baixo do soalho,
ele olha para o sogro, para a cunhada e para os outros homens que, num
silncio respeitoso, se preparam para acompanh-lo:
  - No  preciso ningum descer comigo. Eu posso fazer o servio sozinho.
  Maria Valria fica esperando na sala de visitas, sentada junto do pai. 
Laurinda, com uma expresso de sonolenta tristeza nos olhos escuros,
lamenta:
  - A inocentinha vai ser enterrada sem batismo.
  - Essa criana no tinha pecado, Laurinda - observa Maria Valria num
tom de censura.
  - Mas pagou pelos pecados dos pais, minha filha - diz o velho Terra.
  - No acredito nessas coisas.
  - A gente tem de acreditar. Quando a senhora chegar  minha idade
vai mudar de opinio.
  - Esse negcio de pecado  bobagem.
  - No diga isso. Laurinda pergunta:
  - Se vosmec  herege por que  ento que reza no oratrio?
  - Porque acho que existe um Deus. Um Deus que s vezes nem bom . Mas
existe, governa o mundo, como um chefe, como um...
  Como Licurgo - pensa ela, terminando a frase no pensamento. Um Deus
mando, orgulhoso, absurdo, que s vezes odimos,
  outras vezes amamos, e a cujas ordens sempre acabamos obedecendo, por
bem ou por mal.
  Laurinda dirige-se para a cozinha a fim de preparar a comida de dona
Bibiana e das crianas: uma papa de biscoitos velhos amolecidos n'gua
quente com um pouco de  farinha de mandioca e caldo de laranja.
  Florncio Terra tira a faca da bainha e comea a limpar as unhas num
silncio absorto. Maria Valria cerra os olhos por um instante e encosta
a cabea no respaldo  da cadeira. Imagina o que se est passando l
embaixo. Agora Licurgo abre no cho mido do poro uma pequena cova,
enquanto rates passam pelos cantos sombrios.  Ao p de Licurgo, a
caixeta. Marmelada branca. A criana tinha mesmo uma cor de marmelada
branca. E Maria Valria pensa nas vezes em que j ficou ao p do fogo,
de mangas arregaadas, mexendo com uma p de madeira no tacho onde
fervia a marmelada branca. Nunca mais ela poder fazer ou comer
marmelada sem pensar na criana  morta.
  A voz do pai atravessa seu triste devaneio. Ela ouve o som das palavras
mas no percebe o sentido delas.
  - Hein? - pergunta, abrindo os olhos.
  - De que cor eram os olhinhos dela?
  - Pretos... acho.
  - Que nome iam botar na criana?
  - No sei, papai. Que adianta a gente estar pensando agora nessas
coisas?
  - Ora, minha filha, eu s queria saber. Faz algum mal? Rudo na sala de
jantar: o alapo que se fecha com um es-
  nondo. O velho Terra estremece. Maria Valria levanta-se e caminha para
a pea contgua.
  Licurgo est no meio da sala, com os cabelos revoltos, o rosto lustroso
de suor.
  - Est enterrada - diz ele, seco.
  Atira a p no cho e com passos cansados dirige-se para a escada.
  218
  219
  Alice soergue-se na cama: tem as faces afogueadas, os lbios gretados, e
h em seus olhos uma luz to estranha que Licurgo tem a impresso de
estar diante duma desconhecida.
  - Onde est a minha filha? - pergunta, exaltada. Licurgo hesita por um
instante, mas Maria Valria, que acaba
  de entrar, responde:
  - Tenha calma, menina. Deixe a criana dormir. Depois eu trago ela.
  - Mas onde botaram a minha filha? - torna a perguntar Alice, quase
gritando, a mover a cabea dum lado para outro, numa busca aflita.
  - Est dormindo no meu quarto... - mente Maria Valria.
  - Dormindo?  mentira. Ela nasceu morta. Eu sei... Eu sabia que ela
estava morta. Fazia dias que no se mexia dentro de mim.
  De p junto da cama Licurgo est imvel, como que chumbado ao cho. A
voz de Alice lhe faz mal aos nervos. -lhe to desagradvel ver a mulher
assim descabelada  a gritar, que ele desvia os olhos dela. Detesta as
cenas, sempre achou insuportveis as pessoas teatrais. Mas compreende
tambm que Alice - de ordinrio to quieta  e sensata - est doente, com
febre e no deve saber o que faz nem o que diz. A coisa toda, porm, se
parece tanto com cenas que ele j viu no teatro ou em descries  de
folhetins de jornal, que no pode evitar uma sensao de mal-estar que
lhe pe no corpo um calor formigante.
  - Onde botaram a minha filha? - exclama Alice. - Por que no esperaram
que eu acordasse pra depois levarem ela daqui?
  Maria Valria aproxima-se da cama, toma a irm pelos ombros e obriga-a a
deitar-se.
  - Vamos, Alice. No podes te agitar desse jeito. Fica quieta. Agora,
deitada, com os braos debaixo das cobertas, Alice comea a sacudir a
cabea sobre o travesseiro,  dum lado para outro.
  - Por que deixaste levar a nossa filha, Licurgo? - murmura ela. - Por
qu?
  Licurgo faz um esforo sobre si mesmo para dizer:
  - Tinha que ser, Alice.
  - Mas por qu? - insiste ela. - No podiam esperar mais um pouco, s um
pouquinho?
  De repente a cabea fica imvel, as plpebras se fecham, o rosto se
contorce ao mesmo tempo que as lgrimas comeam a brotar-lhe dos olhos e
a escorrer-lhe pelas  faces.
  - Tragam a minha filha... - pede ela com voz de criana. - Eu sei que
ela est morta. Mas tragam assim mesmo. Eu quero pegar ela um pouquinho.
  Licurgo e a cunhada entreolham-se. Passando a mo de leve pelos cabelos
da irm, Maria Valria sussurra:
  - No adianta ver a criana agora, Alice. Podes ficar mais nervosa.
  Alice abre os olhos:
  - Ento ela nasceu aleijada!  isso. Vocs no querem que eu veja a
minha filha porque ela nasceu aleijada!
  Maria Valria reprime um suspiro de impacincia.
  - No foi nada disso. Ns no trazemos a criana... porque ela j est
enterrada.
  Por alguns instantes Alice no diz palavra, fica chorando de mansinho,
mordendo os lbios, os olhos postos no teto.
  - Enterrada... Ento j levaram ela pr cemitrio?
  H um silncio de alguns segundos. Depois Licurgo diz com voz dura:
  - Foi enterrada no poro.
  - No poro? - balbucia Alice.
  - No havia outro jeito.
  - No poro... - Alice repete a palavra vrias vezes e depois com voz
aflita pergunta: - No vo acertar nenhuma bala no corpinho dela,
Licurgo?
  - No, Alice, no h perigo.
  - No poro... Sozinha, com este frio, no poro... E sem nome... sem
nenhum nome... sem nada.
  Licurgo fica olhando fixamente para a chama triste da lamparina.
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  No seu quarto dona Bibiana termina de comer a papa que Laurinda lhe
trouxe.
  - Ento nasceu morta? - pergunta a velha. - Essa foi
  feliz...
  - No diga isso, dona.
  - U, por que no hei te dizer?
  - A coitadinha...
  - Morreu em boa hora. Essa no tem de trabalhar, sofrer, casar, criar
filhos, e ficar esperando quando os filhos vo pra guerra. Primeiro
precisam da gente, mamam  nos nossos peitos, mijam no nosso colo. Depois
crescem, se casam e tratam a gente como um caco velho.
  - Coma mais um pouco.
  - Era bonita?
  - A criana? Era uma lindeza.
  - Parecia com algum da famlia?
  - Um pouco com o pai.
  - Sangue Cambar no nega... - E a velha sorri. Laurinda tira-lhe o
prato das mos. Dona Bibiana cruza os
  braos sob o xale e comea a se balanar na cadeira.
  - O capito Rodrigo ia gostar de ver a cara da bisneta.
  222
  Um certo capito Rodrigo
  Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o capito Rodrigo
Cambar entrara na vida de Santa F. Um dia chegou a cavalo, vindo
ningum sabia de onde, com  o chapu de barbicacho puxado para a nuca, a
bela cabea de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavio
que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas.  Devia andar l pelo
meio da casa dos trinta, montava um alazo, trazia bombachas claras,
botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dlm
militar  azul, com gola vermelha e botes de metal. Tinha um violo a
tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela
tarde de outubro de 1828 e  o leno encarnado que trazia ao pescoo
esvoaava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau,
amarrou o alazo no tronco dum cinamomo, entrou arrastando  as esporas,
batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com
ar de velho conhecido:
  - Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de
talho!
  Havia por ali uns dois ou trs homens, que o miraram de soslaio sem
dizer palavra. Mas dum canto da sala ergueu-se um moo moreno, que puxou
a faca, olhou para Rodrigo  e exclamou:
  - Pois d!
  Os outros homens afastaram-se como para deixar a arena livre, e Nicolau,
atrs do balco, comeou a gritar:
  - Aqui dentro no! L fora! L fora!
  223
  Rodrigo, porm, sorria, imvel, de pernas abertas, rebenque pendente do
pulso, mos na cintura, olhando para o outro com um ar que era ao mesmo
tempo de desafio  e simpatia.
  - Incomodou-se, amigo? - perguntou, jovial, examinando o rapaz de alto a
baixo.
  - No sou de briga, mas no costumo agentar desaforo.
  - Ooi bicho bom!
  Os olhos de Rodrigo tinham uma expresso cmica.
  - Essa sai ou no sai? - perguntou algum do lado de fora, vendo que
Rodrigo no desembainhava a adaga. O recm-chegado voltou a cabea e
respondeu calmo:
  - No sai. Estou cansado de pelear. No quero puxar arma pelo menos por
um ms. - Voltou-se para o homem moreno e, num tom srio e conciliador,
disse: - Guarde a  arma, amigo.
  O outro, entretanto, continuou de cenho fechado e faca em punho. Era um
tipo inditico, de grossas sobrancelhas negras e zigomas salientes.
  - Vamos, companheiro - insistiu Rodrigo. - Um homem no briga debalde.
Eu no quis ofender ningum. Foi uma maneira de falar...
  Depois de alguma relutncia o outro guardou a arma, meio desajeitado, e
Rodrigo estendeu-lhe a mo, dizendo:
  - Aperte os ossos.
  O caboclo teve uma breve hesitao, mas por fim, sempre srio, apertou a
mo que Rodrigo lhe oferecia.
  - Agora vamos tomar um trago - convidou este ltimo.
  - Mas eu pago - disse o outro.
  Tinha lbios grossos, dum pardo avermelhado e ressequido.
  - O convite  meu.
  - Mas eu pago - repetiu o caboclo.
  - Est bem. No vamos brigar por isso. Aproximaram-se do balco.
  - Duas caninhas! - pediu Rodrigo.
  Nicolau olhava para os dois homens com um sorriso desdentado na cara de
lua cheia, onde apontava uma barba grossa e falha.
  224
  -  da boa - disse ele, abrindo uma garrafa de cachaa e enchendo dois
copinhos.
  Houve um silncio durante o qual ambos beberam: o moo em pequenos
goles, e Rodrigo dum sorvo s, fazendo muito barulho e por fim
estralando os, lbios.
  Tornou a pr o copo sobre o balco, voltou-se para o homem moreno e
disse:
  - Meu nome  Rodrigo Cambar. Como  a sua graa?
  - Juvenal Terra.
  - Mora aqui no povo?
  - Moro.
  - Criador!
  O outro sacudiu a cabea negativamente.
  - Fao carreteadas daqui pr Rio Pardo e de l pra c.
  - Mais um trago?
  - No. Sou de pouca bebida.
  Rodrigo tornou a encher o copo, dizendo:
  - Pois comigo, companheiro, a coisa  diferente. No tenho meias
medidas. Ou  oito ou oitenta.
  - Ha gente de todo o jeito - limitou-se a dizer Juvenal. Rodrigo olhou
para o vendeiro.
  - Como  a sua graa mesmo, amigo?
  - Nicolau.
  - Ser que se arranja por a alguma coisa de comer? Nicolau coou a
cabea.
  - Posso mandar fritar uma lingia.
  - Pois que venha. Sou louco por lingia!
  O capito tomou seu terceiro copo de cachaa. Juvenal, que o observava
com olhos parados e inexpressivos, puxou dum pedao de fumo em rama e
duma pequena faca e  ficou a fazer um cigarro.
  - Pois l garanto que estou gostando deste lugar - disse Rodrigo. -
Quando entrei em Santa F, pensei c comigo: capito, pode ser que
vosmec s passe aqui uma  noite, mas tambm pode ser que passe o resto
da vida...
  225
  - E o resto da vida pode ser trinta anos, trs meses ou trs dias... -
filosofou Juvenal, olhando os pedacinhos de fumo que se lhe acumulavam
no cncavo da mo.
  E quando ergueu a cabea para encarar o capito, deu com aqueles olhos
de ave de rapina.
  - Ou trs horas... - completou Rodrigo. - Mas por que  que o amigo diz
isso?
  - Porque vosmec tem um jeito atrevido.
  Sem se zangar, mas com firmeza, Rodrigo retrucou:
  - Tenho e sustento o jeito.
  - Por aqui hai tambm muito homem macho.
  Houve um silncio desconfiado. Juvenal ps de lado a faca e ficou a
amaciar o fumo, apertando-o na palma da mo esquerda com o lado da
direita.
  Um cheiro de lingia frita espalhava-se no ar. Rodrigo Sorriu e comeou
a bater com a mo espalmada no balco.
  - Como , amigo Nicolau, essa lingia vem ou no vem? Do fundo da casa,
o vendeiro respondeu:
  - Tenha pacincia, patrcio. Rodrigo voltou-se para Juvenal:
  - Ento vosmec acha que no posso passar aqui nem trs horas.
  - No foi bem isso que eu disse.
  - Mas deu a entender.
  - Mais ou menos.
  - E por qu?
  - Tudo pode acontecer, no pode?
  - Quer dizer que ha valentes por c. E decerto eles vo se estranhar
comigo...
  - Mais ou menos...
  Agora Juvenal alisava a palha com a lmina da faca, pachorrento. Seus
olhos continuavam ainda postos no estranho, avaliando-o. Achava
engraada aquela combinao  de bombacha e casaco de soldado. Implicava
um pouco com o leno vermelho. Aquele violo a tiracolo tambm lhe
inspirava desconfiana. Nunca tivera
  226
  simpatia por homem que vive gauderiando. Enfim,  preciso haver de tudo
um pouco neste mundo - concluiu.
  Comeou a falar em coisas vagas: o tempo, as colheitas, uma carreira que
ia realizar-se dali a uma semana... Mas estava ansioso por saber quem
era aquele tal capito  Rodrigo, e de onde tinha vindo. Que era prosa,
logo se via; que era fanfarro, no restava a menor dvida. Tinha
entrado ali altivo e provocante, mas no sustentara  a provocao.
Porque no queria brigar debalde? Ou porque era medroso? No. Juvenal
conhecia bem homem e cavalo. Aquele homem no era covarde.
  - Est na mesa! - gritou Nicolau. - Venha entrando.
  - Vamos comer alguma coisa? - convidou Rodrigo, puxando Juvenal pelo
brao
  - J almocei.
  - Mas venha dar uma prosa.
  Juvenal foi. Sentaram-se a uma mesa de pinho, sebosa e sem toalha, e
sobre a qual estava um prato onde se enroscava uma lingia tostada e
fumegante, ao lado duma  farinheira de pau transbordante de rarofa.
  Rodrigo comeou a trinchar a lingia com alegria. Juvenal bateu o
isqueiro, acendeu o cigarro, tirou duas tragadas e ficou a observar o
forasteiro. J comeava  a achar que ele tinha uma cara simptica. S o
jeito de olhar  que no era l muito agradvel: havia naqueles olhos
muito atrevimento, muita prospia e assim um  ar de superioridade.
Depois, Juvenal sempre desconfiara de homem de olho azul... No entanto,
podia jurar que nunca vira cara de macho mais insinuante. Os cabelos  do
capito eram meio ondulados e dum castanho escuro com uns lampejos assim
como de fundo de tacho ao sol. O nariz era reto e fino, os beios dum
vermelho mido,  meio indecente, e o queixo voluntarioso. Fumando em
calma, Juvenal observava Rodrigo, que mastigava com gosto, o bigode j
respingado de farofa.
  - Quase que nos estranhamos, hein, amigo Juvenal?
  -  verdade...
  Com a boca cheia, meio atirado para trs na cadeira de assento de palha,
Rodrigo olhou bem nos olhos do outro e perguntou, afrouxando o n do
leno:
  227
  - A moada da terra gosta de jogar cartas?
  - Alguns gostam.
  - E o amigo?
  - Eu no jogo.
  - Nunca jogou?
  - Nunca.
  - Pois perdeu metade da sua vida. A gente precisa experimentar de tudo.
  - Hai pessoas de todo o jeito.
  - Pelo que vejo, o amigo  um homem sem vcios.
  - Nem tanto.
  -  casado? 
  - Sou.
  - Com moa da terra?
  - Vosmec at parece vigrio.
  - Faz algum mal perguntar?
  - Mal no faz.
  Houve uma pausa longa, em que Rodrigo se atirou com apetite  lingia.
A cabea da mulher de Nicolau apontou num vo de porta, e seus olhinhos
curiosos e assustados  ficaram espiando o desconhecido por um instante.
Rodrigo ergueu para ela os olhos atrevidos e a cabea desapareceu, num
movimento de ave assustada.
  - Ha muitas moas bonitas neste povo?
  - Algumas.
  - No me refiro s a moas de famlia...
  Juvenal verrumava o outro com seus olhos midos, calado como se no
tivesse ouvido a pergunta. Rodrigo tirou da lingia um espinho verde de
laranjeira e, erguendo-o  no ar, esclareceu:
  - Faz dois meses que no tenho mulhei...
  O cigarro de palha estava colado ao lbio inferior de Juvenal, que tinha
a boca entreaberta e uma expresso de desconfiana nos olhos. Ficou
assim algum tempo e depois  falou, vagaroso:
  - Amigo, acho que vosmec no vai esquentar lugar em Santa F.
  - Quem foi que lhe contou?
  - Eu  que acho.
  228
  - Por qu?
  Rodrigo levou  boca o ltimo pedao de lingia, tendo primeiro o
cuidado de esfreg-lo demoradamente na farofa.
  - Aqui todas as mulheres tm dono - explicou Juvenal Terra. - As que
ainda no tm so moas de famlia e querem casar.
  Rodrigo mastigava ruidosamente, escutando. O outro continuou:
  - E  melhor eu ir lhe avisando, capito, a gente desta terra  de boa
paz, mas no gosta que ningum venha lhe pisar no poncho...
  - Mas eu no vou pisar no poncho de ningum, companheiro!
  - As vezes a gente pisa sem querer.
  Rodrigo encolheu os ombros, empurrou o prato vazio para o centro da mesa
e gritou:
  - Nicolau!
  Quando o vendeiro apareceu, o capito perguntou:
  - Tem sobremesa?
  - Tem pessegada com queijo.
  - Ento traga. Gosto de tudo.
  Nicolau voltou para a cozinha, enquanto Rodrigo ficou palitando os
dentes com o espinho. Juvenal pensou em erguer-se e sair; no sabia por
que continuava ali, conversando  com aquele forasteiro. Sentia por ele
uma atrao inexplicvel. Tinha vontade de saber mais do passado daquele
homem. No era seu feitio bisbilhotar a vida dos outros,  mas achava
tambm que no fazia nenhum mal perguntar quele cristo de onde vinha,
j que ele lhe fizera tantas indagaes.
  - Ainda que mal pergunte - comeou, batendo o isqueiro para acender o
cigarro que se apagara - donde vem o amigo?
  Rodrigo fez um gesto largo e respondeu:
  - Venho de muitas guerras.
  - Andou pela Banda Oriental?
  - Se andei pela Banda Oriental? Mais duma vez.
  229
  Nicolau trouxe a sobremesa num pires trincado, com um garfo sem cabo.
Rodrigo preferiu usar a prpria adaga. Tirou-a da bainha e cortou com
ela um pedao de pessegada,  depois um naco de queijo, espetou-os ambos
na ponta da arma e levou-os  boca.
  - Sentei praa com dezoito anos e em 1811 andei com as foras que
invadiram a Banda Oriental.
  - E que tal foi a coisa? Rodrigo encolheu os ombros.
  - No foi das piores. Deu pra gente se divertir.
  - Meu pai esteve tambm nessa guerra.
  - Como  o nome dele?
  - Pedro Terra.
  - Nunca ouvi talar.
  - Mas ele esteve - afirmou Juvenal, num tom quase agressivo.
  - Est bem. No desminto. S disse que no conheo o nome.
  Uma curta pausa.
  - Entrei em Montevidu em 1817 com as foras do general Lecor -
prosseguiu o capito. - As castelhanas so mui lindas. - Sorriu. - Houve
uma noite que eu fui para  o quarto com trs. E dei conta do recado.
Tinha nesse tempo vinte e poucos anos...
  Juvenal no disse nada. Depois dum curto silncio falou:
  - Meio feio a gente invadir a terra dos outros, no?
  - No tivemos a culpa. O governo da Banda Oriental pediu a proteo do
nosso. Estava malito, porque o Artigas andava fazendo estripulias por
l.
  - A verdade  que ns acabamos tomando conta da terra deles.
  - guas passadas. . .
  - Mas muita gente boa morreu.
  - Ha gente demais no mundo... Mas, como eu ia l dizendo, em princpios
de 21 eu era tenente e estava na guarnio de Porto Alegre quando
soubemos dos acontecimentos  de Portugal.
  - Que acontecimentos?
  - A revoluo do Porto.
  230
  - No ouvi falar nada...
  - Ora, a portuguesada disse que no queria saber mais dessa histria do
rei mandar e desmandar sem dar satisfao a ningum. Queriam que ele
jurasse uma constituio.
  - Me desculpe. Mas nunca ouvi falar nesse negcio. Sou um homem rude.
  - Constituio ... - Rodrigo calou-se, embaraado, e comeou a fazer
gestos, como se estes pudessem substituir as palavras. - ...  um papel,
um regulamento que  um pas tem, dizendo todas as coisas... vosmec
sabe... todas as leis... um negcio desses... compreende?
  Juvenal mirava-o em silncio, com sua cara inexpressiva, o olhar morto.
  - Seja como for, a junta governativa de Porto Alegre no estava muito
disposta a jurar a tal constituio... Ora, chegaram notcias que nas
outras capitanias havia  barulho. Por toda a parte se falava em revolta.
  - Mas contra quem era o barulho?
  - Contra o governo.
  - Mas por qu?
  - Ora... - E Rodrigo comeu os ltimos pedaos de pessegada e queijo. -
Eu sempre digo, se  contra o governo podem contar comigo.
  - Mas o governo s vezes pode ter razo.
  - Mesmo que tenha, isso no vem ao caso. Governo  governo e sempre 
divertido ser contra.
  Juvenal sacudia a cabea devagarinho. No sabia que opinio formar
daquele homem, nem at que ponto podia acreditar no que ele lhe contava.
Precisava levantar-se  e ir embora No era nenhum ndio vadio que
pudesse ficar numa venda conversando  toa. Havia, porm, algo que o
impedia de mover-se. Ele se interessava pelo que  o outro dizia; gostava
da maneira como o capito falava, mesmo que suas palavras s vezes o
irritassem. At a voz do diabo do homem era agradvel: tinha um tom
grave  e ao mesmo tempo meio metlico.
  - Pois o povo compreendeu que o triunvirato estava mas era marombando
pra no jurar a constituio. Nesse ponto estourou a
  231
  revolta no s do povo como tambm das tropas e, claro! l estava o
tenente Rodrigo Cambar no meio do fandango.
  - Houve briga?
  - Quase. Eram mais ou menos duas da madrugada quando fomos pra frente da
casa do governo. Eu era da infantaria, mas levamos tambm umas duas
bocas de fogo, porque  vosmec sabe que a artilharia sempre impe
respeito. Mas a minha arma mesmo  a cavalaria, que  outra coisa. Boca
de fogo faz muito barulho e rede. A espada e a  lana so armas nobres e
no h coisa mais linda neste mundo que uma boa carga de cavalaria em
campo aberto. J viu alguma?
  - Ainda no. Rodrigo ficou surpreso.
  - Nunca esteve numa guerra?
  - No.
  - Nem numa revoluo?
  - Tambm no.
  - Mas j era tempo. Quantos anos tem?
  - Vinte e cinco no lombo.
  -  J era tempo... Mas, como eu ia dizendo, o fandango estava armado.
Outras toras da guarnio apareceram e os oficiais mandaram chamar o
ouvidor, o juiz-de-fora,  o... o vigrio-geral e no sei quem mais.
  Eles
  vieram 
  Rodrigo soltou uma risadinha de desdm.
  - No haviam de vir! Pois levamos aqueles grados todos a grito para ir
buscar a gente do governo.
  Fez uma pausa para tirar do bolso a palha e o fumo, que comeou a picar,
de olho alegre.
- E vieram? - tornou a perguntar Juvenal, sdia est
-  para fazer o outro
continuar a narrativa.
  - Vieram e juraram a constituio ali mesmo no meio da praa. O dia
estava raiando, os galos cantando... Ento o comandante mandou as peas
darem umas salvas. Estava  jurada a constituio.
  232
   Juvenal remexeu-se na cadeira, esfregou no cho os ps descalos.
  - E adiantou alguma coisa?
  - No sei se adiantou ou no. O que sei  que naquele dia houve festa
grossa. Rolou bebida e comida. Houve uma hora que eu senti o bucho to
cheio de vinho e churrasco  que pensei que ia rebentar. S sei que l
pelo anoitecer acordei completamente nu numa cama no sei de quem, num
quarto no sei onde e ao lado duma mulher no sei  de quem nem de onde.
  Soltou outra risada e deu uma palmada na mesa.
  - Onde  que vosmec estava quando proclamaram a independncia? -
perguntou Juvenal.
  - Deixe ver... - disse Rodrigo, pensativo. - Ali! Eu tinha dado baixa e
andava metido em negcios de gado. Vosmec sabe, um homem precisa fazer
de tudo um pouco.  Depois que tomamos a Banda Oriental a situao do
nosso charque e do nosso gado melhorou, e eu ganhei um bom dinheiro
fazendo tropa. Mas quando ouvi falar de novo  em revoluo eu, que j
andava cansado de lidar com boi, vaca e cavalo, comecei a limpar a
espada e azeitar as pistolas... Andavam prendendo muito militar e eu
senti  que a coisa estava para estourar...
  Enrolou o cigarro, acendeu-o no do Juvenal, tirou uma baforada e disse:
  - Mas a independncia veio e o Rio Grande aceitou logo a situao. Foi
pena. Eu tinha muito portugus marcado...
  - E que  que ia fazer com eles se houvesse mesmo guerra?
  - Nada... S ia dar um sustinho nessa gente. No sou prevalecido e s
brigo com homem que pode reagir. Mas ha sujeitos que merecem levar um
bom cagao.
  De novo Juvenal pensou em seus afazeres. No dia seguinte tinha de sair
com a carreta carregada para Cruz Alta, onde ia buscar acar, sal,
fazendas e bugigangas  para a estncia dos Amarais e para a venda do
Nicolau, que era a nica da localidade. Precisava ir dar umas ordens,
tomar umas providncias, mas apesar de tudo isso  ia ficando...
  - E assim o amigo continuou a negociar com gado, no?
  233
     - Qual nada! - Rodrigo atirou os ps para cima da mesa. - Um dia fiz a
mala, montei no pingo, apurei um dinheirinho e me toquei pra Porto
Alegre. Fiquei l me divertindo  at gastar o ltimo pataco.
  - Ha pessoas que no se preocupam com o amanh.
  - Manana es otro dia, como dizem os castelhanos.
  - Quem no tem famlia nem obrigao pode pensar assim. Rodrigo mamava o
seu cigarro de palha com visvel delcia.
  - Escuta o que vou l dizer, amigo. Nesta provncia a gente s pode ter
como certo uma coisa: mais cedo ou mais tarde rebenta uma guerra ou uma
revoluo. - Atirou  ambos os braos para o lado, num gesto de
despreocupao. - Que  que adianta plantar, criar, trabalhar como burro
de carga? O direito mesmo era a nossa gente nunca  tirar o fardamento do
corpo nem a espada da cinta. Trabalhar fardado, deitar fardado, comer
fardado, dormir com as chinocas fardado... O castelhano est a mesmo.
Hoje  Montevidu. Amanh, Buenos Aires. E ns aqui no Continente sempre
acabamos entrando na dana.
  - Ha gente que gosta de paz.
  - No entanto sempre temos guerra ou revoluo...
  - Dizem que na estranja  assim tambm.
  - Nunca ouviu falar nesse tal de Bolvar que levantou o povo desses
pases todos da Amrica do Sul e botou os espanhis pra fora? Nunca
ouviu falar em San Martin?
  - Eu sou um homem rude - repetiu Juvenal, com uma humildade agressiva.
  - Vosmec viu tambm que antes dos orientais conseguirem a sua
independncia tiveram de nos meter no baile?
  - Por falar nisso, vosmec tambm brigou em 25?
  - Naturalmente. Estive naquele combate do Rincn de Ias Gallinas com a
gente do Mena Barreto. - Soltou um suspiro e disse: - Apanhamos que nem
boi ladro.
  Juvenal sorriu de leve. Mas seu sorriso foi um sorriso canino, s de
dentes; o resto da cara no participou dele, continuou numa
impassibilidade sombria.
  234
  - Foi um deus-nos-acuda - prosseguiu o capito. - Nossa gente se
espalhou em desordem e depois foi um caro custo pra reunir de novo a
soldadesca. Em 1827 eu estava  com as tropas do marqus de Barbacena.
Nunca vi tanta misria. Soldados de p no cho, sem uniforme, alguns
quase nus, s cobertos pelo poncho. Eram uns diabos piolhentos  e sujos
mas, justia seja feita, na hora de brigar esqueciam a fome, o frio,
tudo, e chegavam a pelear se rindo e gostando. - Cuspiu no cho com
nojo. - Depois -  prosseguiu - veio aquela batalha desgraada do passo
do Rosrio. Ns ramos uns cinco mil e poucos contra mais de dez mil
inimigos. Nossas tropas tinham umas dez  ou doze bocas de fogo; eles
tinham vinte e tantas, quase trinta. Foi uma barbaridade. Brigar em
campo seco  srio, mas brigar em banhado  mais srio ainda. Nossa
gente estava cansada, tinha feito uma marcha puxada: os castelhanos
estavam fresquitos e bem municiados. Assim mesmo peleamos onze horas sem
comer nem beber gua.  Por falar em gua, estou com sede. Nicolau! Me
traga um pouco d'gua fresca.
  O vendeiro trouxe-lhe uma caneca de barro cheia d'gua, que Rodrigo
bebeu num sorvo s. Depois, enxugando os beios com a manga do dlm,
sorriu e continuou:
  - Pra l dar uma idia da anarquia das nossas tropas, vou l dizer uns
versos feitos por um alferes brasileiro, um tal de David Francisco
Ferreira ou Pereira, nem  me lembro direito do nome dele. Esse homem
tomou parte na batalha, viu a coisa de perto. Escute.
  Recitou:
  Muitas chinas percorriam Pelas margens dos banhados Levando cada uma
delas Aos dez e doze soldados.
  - Pois era mesmo! - comentou Rodrigo. - A soldadesca o que queria era
dormir com as piguanchas. Mas eu me lembro de outros versos:
  235
  Se quereis ser triunfante Mudai desde logo a cena, No ds heris
combatentes Ao cargo dum Barbacena.
  - E era verdade! - exclamou o capito. - Nunca vi pior general. Parecia
que nunca tinha ouvido falar em estratgia.
  Juvenal no conhecia esta palavra, mas nada disse. O outro continuou:
  E assim aconteceu
  Sem nada determinar
  E s entrou nessa luta ,
  Aquele que quis entrar.
  Rodrigo soltou uma risada.
  - Nunca vi uma batalha mais louca. Foi bem como diz o alferes nos seus
versos:
  Fazendo carga no centro Sem dar proteo aos flancos L deixou bastantes
mortos Muitos feridos e mancos.
  - E vosmec no se feriu?
  Rodrigo sacudiu negativamente a cabea:
  - S tive um bicho-de-p arruinado. Parece mentira! Mas oua mais esta
quadra, que  a melhor de todas:
  Tendo nos sido visvel Quase inteira a perdio, O heri Bento Gonalves
Foi a nossa salvao.
  - Mas como? - perguntou Juvenal.
  236
  - Espere que j lhe conto. O inimigo tinha invadido a Provncia e tomado
Baj. Barbacena estava parado com sua gente e todo mundo parecia
desmoralizado, sem coragem  pra dar um passo. Estvamos acampados num
banhado e eu pensei c comigo: No sou sapo pra viver em banhado. Quero
mas  brigar. Comecei a resmungar e um tenente  meu amigo me disse:
"Capito Rodrigo (nesse tempo eu j tinha sido promovido a capito),
vosmec anda falando contra o comandante. Tome cuidado seno podem l
mandar  a conselho de guerra". Eu no disse nada mas resolvi fugir...
  - Fugir? - admirou-se Juvenal.
  - Falava-se muito na cavalaria de Bento Gonalves da Silva e de Bento
Manuel Ribeiro... Uma noite montei a cavalo, logrei a sentinela e me
fui...
  Fez uma pausa. Tirou os ps de cima da mesa, de novo apertou o leno. Na
porta a mulher do Nicolau tornou a espiar e s ento, voltando a cabea,
 que Rodrigo percebeu  que, na sala da frente da venda, outros homens
tambm tinham estado a escut-lo. Isso lhe deu um nimo novo. Quando
voltou a falar foi com voz mais forte e numa  inflexo mais dramtica.
  - Me juntei com a cavalaria dos dois Bentos. Aquilo  que  gente,
amigo. Barbaridade! Que cavaleiros! Levamos a castelhanada a grito e a
ponta de lana at a fronteira.  Depois tivemos umas escaramuas mais,
at que veio a paz.
  Juvenal ergueu-se e Rodrigo fez o mesmo.
  - Vosmec j viu peixe fora d'gua? Pois aqui est um. Na paz me sinto
meio sem jeito.
  - Quer dizer que vosmec recm saiu da guerra.
  - Ainda trago nas ventas cheiro de plvora e sangue.
  - E que  que vai fazer agora?
  Rodrigo olhou em torno, de mos na cintura, peito inflado.
  - Pois nem sei. Estou gostando deste lugar... Caminhou at a janela,
olhou a praa, com a grande figueira
  no centro, as casas em torno e os verdes campos que circundavam o
povoado. Um sol de ouro novo iluminava tudo. Rodrigo respirou fundo e
disse:
  - . Pode ser que eu fique por aqui.
  237
  Juvenal coou a cabea e resmungou:
  - Est me palpitando que o amigo no vai se dar bem em Santa F.
  O capito voltou-se para o interlocutor.
  - Mas por qu?
  - Vosmec  um homem de guerra. A gente deste povoado  mui pacata.
  Rodrigo fez um gesto vago.
  - Pode-se tentar. No se perde nada. Se a coisa estiver muito ruim, fao
a mala, monto a cavalo e caio na estrada. O mundo  muito grande.
  - Grande e louco - sentenciou Juvenal.
  Os homens que os escutavam riram baixinho. Rodrigo olhou para eles e
perguntou:
  - Onde  que vou encontrar pouso para esta noite? Ningum falou. Mas
Nicolau saiu de trs do balco e disse:
  - Se vosmec quiser ficar aqui, tenho um quarto de hspede. No  l
grande coisa, mas serve.
  - Estou habituado a dormir ao relento em cima dos pelegos. Juvenal
estendeu a mo, que Rodrigo prendeu na sua.
  - Bom, capito, tenho de ir andando. Juvenal Terra, seu criado.
  Rodrigo olhou-o bem nos olhos.
  - Capito Rodrigo Cambar, pra servir vosmec. Pode contar com um amigo.
E quando digo que sou amigo, sou mesmo.
  Juvenal fez meia-volta e encaminhou-se para a porta. Levava um mau
pressentimento. Aquele homem veio trazer incmodos para Santa F. Por um
momento a sombra duma dvida  escureceu-lhe o esprito, que era que a
Maruca, sua mulher, ia sentir quando visse aquele homem? Pensou tambm
no que diria seu pai, Pedro Terra, quando soubesse  da chegada do
estranho. E desejou estar presente quando Rodrigo Cambar e o coronel
Ricardo Amaral Neto - o chefe poltico de Santa F - se encontrassem. Ia
sair  chispa: ao batendo contra ao.
  J tinha deixado a venda quando ouviu, l dentro, a voz de Rodrigo:
  238
  - Algum dos amigos por acaso querer jogar uma bisca comigo? Tenho um
baralho na mala...
  No ouviu o resto. Caminhou para casa e - sem saber por qu - quando a
mulher lhe perguntou onde estivera, respondeu que ficara a conversar na
venda do Nicolau,  mas no fez a menor referncia ao recm-chegado.
  E aquela noite as gentes de Santa F ouviram msica de violo na casa de
Nicolau. E l de dentro saiu uma bonita voz de homem, cantando modinhas.
  Pedro Terra que voltava da casa do vigrio pouco antes das nove da
noite, ao passar pela venda ouviu a voz de Rodrigo, parou e ficou
escutando:
  Sou valente com as armas, Sou guapo como um leo. ndio velho sem
governo, Minha lei  o corao.
  Pedro Terra comeou a sentir, desde o primeiro momento, uma inexplicvel
antipatia pelo dono daquela voz - um homem cuja cara ainda no vira nem
desejava ver.
  No dia de Finados Pedro Terra foi com a mulher e a filha ao cemitrio
para levar flores s sepulturas de seus parentes. Era uma manh morna,
de sol muito plido.  O cemitrio de Santa F ficava no alto duma
coxilha, a um quarto de lgua do povoado; era cercado de pedras e as
suas sepulturas todas no passavam de montculos  de terra com cruzes ou
ento de lajes rsticas onde havia nomes gravados em letras singelas. S
havia uma que tinha  forma de capela e era de tijolo rebocado e
caiado: o jazigo perptuo da famlia Amaral. L estavam, entre outros,
os restos mortais do coronel Ricardo Amaral, que morreia s margens do
Jaguaro lutando contra  os castelhanos, e os de seu filho Francisco
Amaral,
  239
  fundador de Santa F. E esse jazigo destacava-se com tamanha imponncia
no meio daquelas sepulturas quase rasas, que era como se at depois de
mortos os Amarais,  famosos por serem homens altos e autoritrios,
continuassem a dominar os outros, a falar-lhes e dar-lhes ordens de cima
de seus cavalos.
  Numa das cruzes havia um nome e uma pequena inscrio:
  ANA TERRA Descansa em Paz
  No havia datas. Esse era um caracterstico das gentes daquele lugar:
ningum sabia muito bem do tempo. Os nicos calendrios que existiam no
povoado eram o da casa  dos Amarais e o do vigrio, o padre Lara. Os
outros moradores de Santa F continuavam a marcar a passagem do ano
pelas fases da lua e pelas estaes. E quando queriam  lembrar-se dum
fato, raramente mencionavam o ano ou o ms em que ele se tinha passado,
mas ligavam-no a um acontecimento marcante na vida da comunidade.
Diziam,  por exemplo, que tal coisa tinha acontecido antes ou depois da
praga de gafanhotos, dum inverno especialmente rigoroso que fizera gelar
a gua das lagoas, ou ento  duma peste qualquer que atacara o trigo, o
gado ou as pessoas. Muitos sabiam de cor o ano das muitas guerras. Os
velhos diziam: "Foi na guerra de 1800..." ou "Foi  na de 1811... ou
1816... ou 1825". Mas no esprito da maioria, principalmente no das
mulheres - que faziam o possvel para esquecer as guerras - essas datas
se misturavam.  Era por isso que o tmulo de Ana Terra no tinha datas.
Ningum sabia em que ano ela nascera; todos, porm, se lembravam de que
a velha morrera exatamente no dia  em que chegara a Santa F a notcia
de que os 33 de Lavalleja tinham invadido a Cisplatina...
  Diante daquele tmulo, naquela manh de princpios de novembro,
achavam-se Pedro Terra, sua mulher Arminda e Bibiana, a filha do casal.
De chapu na mo, os cabelos  grisalhos esvoaando  brisa, Pedro olhava
para a cruz e lembrava-se dum dia - havia muitos anos - em que tinham
vindo enterrar naquele mesmo cemitrio um dos habitantes  do povoado que
morrera com os 
  240
  intestinos furados pelas guampas dum touro bravo. Por sinal o enterro fora
numa tarde de soalheira medonha, e os homens que carregaram
  o caixo a pulso tinham as roupas ensopadas de suor. Ana Terra fizera
questo de ir ao cemitrio, apesar do mormao, e Pedro, que conhecia a
teimosia da me, sabia  que era intil contrari-la. Ficara a velha 
sombra dum cedro, no centro do cemitrio, apoiada no brao do filho, e
no momento em que baixaram o caixo  cova,  ela murmurou:
  - Meu pai e meu irmo foram enterrados no alto duma coxilha. -
Mostrou-lhe as mos murchas. - Eu mesma enterrei os dois com estas mos
que a terra um dia h de comer...  esta terra. - E apontava para o cho
vermelho. - Quero ser enterrada aqui, meu filho, aqui debaixo deste
cedro.
  A terra caa sobre o caixo com um som cavo, quase musical.
  - No quero que ningum chore - continuava a velha. - No  preciso
costurarem nenhuma mortalha pra mim. Qualquer vestido serve. Mas quero
que vosmec prometa que  ningum vai ver a minha cara no velrio.
Promete?
  - No diga essas coisas, mame - repreendia-a Pedro. Mas ela apertava o
brao do filho, sacudia a cabea completamente branca, sorrindo um
sorriso em que a boca  desdentada sugava os lbios, fazendo-os
dobrarem-se sobre as gengivas.
  - Promete? - insistia ela. - Promete?
  Ele no teve outro remdio seno sacudir a cabea e dizer "Prometo".
  - Est bem, meu filho. Eu tambm prometo uma coisa. Prometo nunca mais
voltar depois de morta pra trabalhar na roca, tomo a minha me fazia. -
Fez uma pausa, olhou  fixamente para a cova e depois disse, rindo o seu
riso guinchado: - Mas o hbito tem muita fora. O melhor mesmo  vosmec
tambm enterrar a roca junto comigo. Assim  eu livro a Bibiana da sina
de trabalhar nela.
  Agora Pedro Terra olhava para a cruz e pensava nessas coisas.
  Pensava tambm na vida trabalhosa e triste que a me sempre levara, e>
erguendo os olhos para Bibiana, ficou a contempl-la com uma mistura de
carinho e pena. Que  destino estava reservado para aquela
  241
  criaturinha de Deus? Ele fazia tudo para que ela fosse feliz, trabalhava
como um mouro para que nunca faltasse nada  famlia" Fora infeliz nos
negcios, mas no  por culpa sua. E agora, j na casa dos cinqenta,
ainda trabalhava como um moo de vinte, no que quisesse fazer da filha
uma dessas mulheres sem serventia que passam  o dia dormindo, comendo e
passeando; o que ele no queria era que um dia ela fosse obrigada a
trabalhar como uma escrava para ganhar seu sustento.
  Arminda ajoelhou-se e comeou a arrancar as ervas daninhas que cresciam
sobre a sepultura da sogra. Bibiana depositou ao p da cruz a braada de
margaridas amarelas  que trouxera, e ficou acompanhando com os olhos as
formigas que caminhavam numa fila interminvel, carregando pequenos
fragmentos de folhas e de grama.
  Bibiana tinha um rosto redondo, olhos oblquos e uma boca carnuda em que
o lbio inferior era mais espesso que o superior. Havia em seus olhos,
bem como na voz,  qualquer coisa de noturno e aveludado. Os forasteiros
que chegavam a Santa F e deitavam os olhos nela, ao saberem-na ainda
solteira, exclamavam: "Mas que  que  a rapaziada desta terra est
fazendo?" E ento ouviam histrias... Bento Amaral, filho do coronel
Ricardo Amaral Neto, senhor dos melhores e mais vastos campos dos
arredores do povoado, andava apaixonado pela menina, tinha-se declarado
mais de uma vez, mas a moa no queria saber dele.
  - O herdeiro do velho Amaral? - estranhavam os forasteiros.
  - Sim senhor.
  - Mas o moo  aleijado?
  - Qual nada!  at um rapago mui guapo.
  Ningum conseguia compreender. As outras moas invejavam Bibiana Terra e
no entendiam como era que ela, no sendo rica, rejeitava o melhor
partido de Santa F,  aquele moo bonito a quem elas de muito bom grado
diriam sim no momento em que ele se declarasse. Mas quem ficava mais
perplexo que qualquer outra pessoa era o  prpiio Pedro Terra, que no
atinava com uma explicao para a atitude da filha. Ele no morria de
amores pelos Amarais. Tinha at queixas do velho Ricardo, que  lhe
tirara as terras e
  242
  se recusara a ajud-lo quando o trigo fora guas abaixo. Alm disso,
achava os Amarais prepotentes, vaidosos, gananciosos, e tambm sabia que
Ricardo no fazia muito  gosto no casamento do filho com Bibiana, pois
queria que o rapaz casasse com alguma moa rica de Rio Grande ou Porto
Alegre. Por todas essas coisas Pedro Terra no  insistia com a filha
para que aceitasse Bento Amaral. Mas mesmo assim no compreendia e
ficava vagamente inquieto  idia de morrer sem ver a filha casada com
um  homem de bem. Fosse como fosse, os Amarais eram por assim dizer os
donos de Santa F. E Bento visitava os Terras com alguma freqncia,
tratava-os bem, dava presentes  a Juvenal, a Arminda e principalmente a
Bibiana, que os recebia sem nenhuma alegria, mal murmurando uma palavra
de agradecimento, quase sempre sem olhar para o pretendente.  Pedro
Terra s vezes inquietava-se pensando no gnio da filha. Era
voluntariosa, duma teimosia nunca vista, e dum orgulho to grande que
era capaz de morrer de fome  e de sede s para no pedir favores aos
outros. No entanto, quem olhasse para ela julgaria, pelo seu suave
aspecto exterior, estar diante da criatura mais meiga  e submissa do
mundo. s vezes em casa, depois do jantar, Pedro ficava fumando junto da
mesa, enquanto a mulher e a filha cerziam meias ou bordavam. Nessas
horas  o filho de Ana Terra olhava para Bibiana e pensava em certas
coisas... A me lhe falava s vezes no velho Maneco Terra e em como ele
era teimoso, calado e reconcentrado.  Pedro mal se lembrava do av, mas
certas ocasies chegava quase a v-lo nos olhos da filha e
principalmente no jeito de franzir o sobrolho. Havia nela tambm muito
da av, principalmente a voz. Bibiana tinha crescido  sombra de Ana
Terra, com a qual aprendera a fiar, a bordar, a fazer po e doces, e
principalmente a avaliar  as pessoas. Depois que Ana Terra morrera,
Pedro s vezes tinha a impresso de que ela continuava a falar pela boca
da neta. Bibiana repetia frases da av. Quando   noite ventava e eles
estavam dentro de casa em silncio, esperando a hora de irem para a
cama, a moa de repente murmurava: "Noite de vento, noite dos mortos".
Bibiana via muito os homens com os olhos desconfiados e cautelosos de
Ana Terra. Pedro nunca pudera descobrir a lazo por que a me tinha
tanta malquerena pelos  homens em
  243
  geral. s vezes fugia deles como o diabo da cruz. Era com freqncia que
falava, com m vontade e repugnncia, em "cheiro de homem". No gostava
que Pedro fumasse  perto dela; dizia que isso era falta de respeito, mas
o filho sabia que havia uma razo mais poderosa: sarro de cigarro era
"cheiro de homem". Pedro lembrava-se  de que quando menino ouvira falar
nas propostas de casamento que vrios homens de Santa F haviam feito 
sua me. Sempre que vinha das Misses um padre para dizer  missa, fazer
casamentos e batizados, surgia um pretendente para Ana Terra - um vivo
ou um solteiro de meia-idade. Ela repelia-o, indignada, como se lhe
tivessem  feito uma proposta indecorosa. Pedro no compreendia e s
vezes ficava a pensar que espcie de pessoa teria sido seu pai para que
Ana vivesse assim to ressabiada  de homem.
  Devia ser por influncia da av que Bibiana tinha tanta averso ao
casamento. Era na certa por isso que rejeitava as propostas de Bento
Amaral.
  E agora ali no cemitrio, diante do tmulo de Ana Terra, Pedro
contemplava a filha e via-lhe no rosto uma expresso de grande tristeza,
enquanto ela olhava para  a sepultura da av.
  Pedro Terra tomou do brao da esposa e levou-a consigo em silncio, para
depositar flores nos tmulos de trs de seus filhos que haviam moirrido,
quando ainda adolescentes:  um afogado, outro de bexigas e o terceiro de
bala perdida, por ocasio duma briga, num dia de carreiras.
  Bibiana ficou sozinha mas no deu por isso. Olhava para as formigas que
entravam num buraco que havia sobre a sepultura. Imaginava que aqueles
bichinhos penetravam  na terra e estavam passeando pelo corpo de sua
av. Quis afastar esse pensamento: sabia que agora j no devia haver
nenhuma carne naquele corpo: aquela face querida  era apenas uma
caveira. Lgrimas comearam a brotar-lhe dos olhos. Depois que a velha
morrera, Bibiana se sentira meio desamparada. Costumava confiar-lhe seus
segredos  e as duas muitas vezes ficavam horas inteiras conversando,
costurando, fazendo marmelada ou enchendo lingia. A av contava-lhe
coisas do tempo em que era moa  e morava com a famlia numa estncia
perdida no campo, l para as bandas do Botucara. Agora
  244
  a velhinha estava morta e Bibiana no tinha mais a quem confiar suas
mgoas e suas dvidas. No se entendia muito bem com a me; achava-a
boa, sim, servial, no  havia dvida, mas muito parada, muito... sem
histrias para contar. O pai, esse era um pouco fechado e inspirava-lhe
um respeito que quase chegava a ser temor.
  Bibiana olhava fixamente para a sepultura. A luz do sol, que passava por
entre os ramos do grande cedro, pintava-lhe o rosto de amarelo. As
sombras das cruzes eram  arroxeadas contra a terra vermelha. Um
joo-de-barro que tinha o seu ninho na forquilha onde o tronco da rvore
se dividia, meteu a cabea para fora de sua casa,  como para espiar
aquela gente que visitava seus mortos. Sons indistintos de vozes
chegavam aos ouvidos de Bibiana, que de repente percebeu que os pais se
tinham  afastado.
  Havia no cemitrios quela hora outras pessoas do povoado - homens,
mulheres e crianas - e por entre eles e as cruzes a moa comeou a
procurar os pais com o olhar.  Foi ento que uma figura lhe chamou
subitamente a ateno. Era um homem vestido duma maneira esquisita,
metade soldado, metade paisano. Estava parado a contempl-la,  a pequena
distncia. Tinha ele no pescoo um leno encarnado e quando Bibiana caiu
em si estava olhando com espanto para a cara do desconhecido. Sentiu uma
coisa  esquisita: primeiro foi surpresa, depois constrangimento. Suas
orelhas e faces comearam a arder. Ela baixou os olhos, ajoelhou-se
automaticamente e ps-se a mexer  nas margaridas ao p da cruz, s para
disfarar seu embarao. Mas com o rabo dos olhos viu que o homem ainda
estava parado no mesmo lugar e continuava a olhar para  ela. Seu corpo
foi tomado duma sensao estranha, uma espcie de medo de que ele lhe
viesse falar. Era tambm uma ccega quente, como se aquelas formigas
todas lhe  estivessem passeando pelo corpo. O melhor era correr para o
pai antes que o desconhecido se aproximasse. Quem seria ele? Um
forasteiro, talvez... E o que mais aumentava  o embarao de Bibiana era
o fato de ela estar com os olhos cheios de lgrimas. Ouviu um bater de
asas: o joode-barro sobre sua cabea... O homem deu um passo   frente,
na sua direo. Bibiana ergueu-se, alvorotada, e correu para onde
estavam o pai e a me.
  245
  Rodrigo Cambar seguiu com o olhar a moa de vestido de cassa azul e
leno na cabea. Achara-a to bonita, que tivera o desejo de dirigir-lhe
a palavra, sob qualquer  pretexto. Podia perguntar-lhe de quem era a
sepultura diante da qual estava ajoelhada. Ou simplesmente comear
dizendo - "Bonito dia, no?" Tinha gostado da cara  da rapariga. Mais
que isso: tinha ficado excitado. No era homem que se deixasse fascinar
facilmente. Gostava de mulher, isso gostava... Mas nunca - que se
lembrasse  - tinha ficado to impressionado por nenhuma assim  primeira
vista.
  Viu a moa de azul correr, quase pisando as sepulturas, na direo dum
casal. Sorriu, apertou o chapu nas mos e resolveu aproximar-se do
grupo. No fim de contas  no era nenhum bicho e a coisa mais natural do
mundo era uma pessoa falar com outra.
  Caminhou para Pedro Terra, lentamente, de cabea erguida, e ao
distinguir as feies daquele rosto queimado, teve a impresso de que
elas lhe eram vagamente familiares.  A moa de azul, vendo-o acercar-se,
voltou-lhe bruscamente as costas. Potranquinha arisca - pensou Rodrigo.
E seu interesse pela rapariga aumentou.
  - Com o permisso de vosmec, patrcio! - exclamou ele, dirigindo-se a
Pedro. - Sou de fora e nunca vim a este cemitrio. Podia me informar de
quem  aquela sepultura?
  Apontou para o jazigo da famlia Amaral. Pedro Terra encarou o
desconhecido, de sobrolho franzido e, como quem quer cortar a conversa,
respondeu, seco:
  - Est escrito na porta. Rodrigo no se deu por vencido.
  - Muitas gracias, amigos. Vosmec mora no povo?
  - Moro.
  Ento o forasteiro descobriu com quem se parecia aquele homem de poucas
palavras.
  - No ser por acaso parente do Juvenal Terra?
  - O Juvenal  meu filho.
  - Logo vi. So mui parecidos e tm quase a mesma voz.
  - Donde  que vosmec conhece o Juvenal?
  - Daqui mesmo. Somos amigos. Ele no lhe disse?
  246
  Pedro ento viu com quem estava falando. Era o homem que tocava violo e
cantava na venda do Nicolau. Mirou-o de alto a baixo e retrucou:
  - Ele no me disse nada.
  Enquanto os dois conversavam, as mulheres se tinham afastado e agora
estavam paradas, de olhos baixos e em silncio.
  - Eu sou o capito Rodrigo Cambar, criado de vosmec. Estendeu a mo,
que Pedro segurou frouxamente, por um
  rpido segundo. Querendo estabelecer conversao, Rodrigo disse:
  - Ouvi falar que vosmec esteve na guerra de 1811.
  - Na de 800 tambm. E em muitas outras. Por que pergunta?
  -  que tambm estive na de 811 e em todas as que vieram depois.
  Pedro limitou-se a sacudir a cabea. O capito perguntou:
  - Em que foras serviu vosmec?
  - Andei com a gente do coronel Ricardo Amaral, o primeiro povoador
destes campos.
  Disse isto e achou que j tinha falado demais. Rodrigo olhou para as
mulheres, sorriu com amabilidade.
  - Pelo que vejo so gente da sua famlia.
  - So.
  Nenhuma das mulheres sequer levantou a cabea.
  - Bom - fez Pedro, fazendo para elas um sinal. - Vamos embora.
  Olhando para Rodrigo murmurou:
  - Passe bem.
  Ps-se a caminhar rumo do porto do cemitrio, seguido das mulheres.
Bibiana passou pelo forasteiro de cabea baixa e Rodrigo devorou-a com
os olhos. Viu que ela  tinha as faces coradas como uma fruta madura, e
que seus seios eram pontudos; imaginou como deviam ser rijos e
quentes... Apalp-los seria o mesmo que apertar duas  goiabas maduras.
Sentiu um calor bom em todo o corpo... Mas, percebendo que ia perder a
oportunidade de fazer boas relaes com o pai da moa, deu algumas
passadas  largas e alcanou Pedro Terra j do lado de fora do cemitrio.
  247
  - O amigo me desculpe se sou importuno - comeou a dizer, enquanto o
outro voltava para ele o rosto em que havia uma indisfarvel expresso
de contrariedade. -  Eu queria l pedir um conselho.
  - Mas vosmec nem me conhece...
  - Ouvi dizer que vosmec  um homem mui experimentado.
  - Nem tanto.
  - Acontece que estou numa dvida e precisava ouvir algum. As duas
mulheres aproximaram-se da carroa que os trouxera
  at ali. E quando Bibiana subiu, a saia ergueu-se-lhe um pouco e Rodrigo
vislumbrou-lhe o tornozelo.
  - Que espcie de conselho vosmec deseja?
  - Pois resolvi ficar em Santa F. Sou solteiro, no tenho parentes e
pretendo sentar juzo. Queria empregar direito o dinheirinho que tenho e
no sei bem o que vou  fazer. Vosmec acha que devo plantar ou criar
gado?
  Pedro escrutou-lhe o rosto por um instante e depois perguntou:
  - Vosmec quer mesmo a minha opinio franca?
  - Foi pra isso que pedi o seu conselho.
  - Est bem. O meu conselho  que vosmec monte a cavalo e v embora
daqui o quanto antes.
  Rodrigo sentiu subitamente o sangue subir-lhe  cabea. Teve de fazer um
esforo para no esbofetear aquele atrevido. Ficou muito vermelho,
apertou os lbios e conteve-se.  No podia bater num homem de cabelos
grisalhos que, alm do mais, no chegava a ser to forte quanto ele.
Tambm no podia brigar com o pai da moa de azul...
  Pedro bateu com o indicador da mo direita na aba do chapu e
afastou-se.
  - Vosmec est enganado comigo! - gritou Rodrigo, esforando-se por dar
 voz um tom de jovialidade.
  Pedro subiu para a bolia da carroa e, sem olhar para o outro, pegou do
chicote, f-lo estalar no ar. Os cavalos puseram-se em movimento e a
carroa afastou-se  na direo de Santa F. Por algum
  248
  tempo Rodrigo Cambar ficou olhando as costas de Bibiana: o vestido
azul, o leno branco esvoaando ao vento...
  "Monte a cavalo e v embora daqui o quanto antes." A voz do homem ainda
lhe soava na mente. Que diabo aquela gente tinha visto em sua cara?
Primeiro tinha sido o  filho. Agora o pai. Todos achavam que ele ia
trazer desgraa para o povoado... Mas a verdade era que quanto mais
oposklo encontrava, mais vontade sentia de ficar.
  
  A casa de Pedro Terra ficava numa esquina da praa, perto da capela, com
a frente para o poente. Baixa, de porta e duas janelas, tinha alicerces
de pedra, parede  de tijolos e era coberta de telhas. Os tijolos haviam
sido feitos pelo prprio Pedro em sua olaria e as telhas tinham vindo do
Rio Pardo, na carreta de Juvenal.  Era das poucas casas assoalhadas de
Santa F; dizia-se at que muita gente em melhor situao financeira que
a de Pedro no morava numa casa to boa como a dele.  No era muito
grande. Tinha uma sala de jantar, que eles chamavam de varanda (o
vigrio, homem letrado, afirmava que varanda na verdade era outra
coisa), dois quartos  de dormir, uma cozinha e uma despensa, que era
tambm o lugar onde ficava o bacio em que a famlia tomava seu banho
semanal. (Pedro tinha o hbito de lavar os ps  todas as noites, antes
de ir para a cama.) A cozinha, que era a pea que o dono da casa
preferia, por ser a mais quente no inverno e a que mais o fazia lembrar
outros tempos - cho de terra batida, cheiro de picum, ciepitar de
fogo, chiado da chaleira - ficava bem nos fundos da casa, com uma janela
para o quintal onde  havia laranjeiras, pessegueiros, cinamomos, um
marmeleiro-da-ndia, e o poo. A moblia dos Terras era a mais resumida
possvel. Na varanda, alm da mesa de cedro  sem lustro, viam-se
algumas cadeiras com assento de palha tranada, uma cantoneira de tbua
tosca, e uma talha com gua potvel a um canto. Nos quartos,
camas-de-vento,  bas, e pregos na parede  guisa de cabides. As paredes
eram caiadas e 
  249
  completamente nuas; na da sala de jantar havia uma salincia semelhando um
ventre rolio. (Ana Terra costumava dizer que a casa estava grvida...)
De vez em quando essas  paredes eram cruzadas por pequenas lagartixas
dum pardo esverdinhado, por lacraias ou aranhas - o que dava calafrios
em Bibiana, que sabia de histrias de pessoas  que morriam de mordidas
de bichos venenosos. Sobre a cabeceira da cama de Pedro pendia da parede
um crucifixo com um Cristo de nariz carcomido. Essa imagem - sabia
Bibiana - era um dos poucos objetos que tinham vindo da estncia do
bisav, juntamente com a velha tesoura enferrujada que pertencera a Ana
Terra e que servia para  podar rvores ou cortar fazenda.
  Na noite do dia de Finados, depois de lavados os pratos do jantar,
Arminda e Bibiana ficaram costurando  luz duma vela metida num gargalo
de garrafa. Sentado na  cadeira de balano, a um canto da varanda que a
luz da vela no alcanava, Pedro Terra fumava em silncio, olhando para
a filha. Estava cansado e triste. Sempre  ficava nesse estado de
esprito quando visitava o cemitrio. Desde a morte da me sentia-se
desamparado, como um terneiro que se v subitamente desmamado. Sabia
que um dia a velha tinha de morrer: era uma lei da vida. Mas
habituara-se de tal modo a buscar o apoio dela, a pedir-lhe conselho,
que agora lhe era custoso viver  sem a velha. Pensava na vida que a me
levara e agora ali em sua casa repetia para si mesmo a pergunta que se
fizera no cemitrio diante do tmulo materno. Valia  a pena lutar,
sofrer, trabalhar como um animal para depois ir servir de comida aos
vermes da terra?
  Devia existir um Deus que governa o mundo e as pessoas, um ser poderoso
acima do qual nada mais existe. Mas ningum sabe direito o que esse Deus
pretende. Pelo menos  ele, Pedro Terra, no sabia. O vigrio fazia
sermes e falava em cu e inferno, mas s vezes Pedro se convencia de
que o cu e o inferno esto aqui embaixo mesmo,  neste mundo velho e
triste, que no fim de contas  mais inferno que cu.
  Pedro no tirava os olhos de Bibiana. A filha era uma das poucas
alegrias de sua vida. Mas no chegava a ser uma alegria completa, porque
tambm lhe dava grandes  cuidados. Criar filho
  250
  homem era mais fcil e menos arriscado. Juvenal estava casado, vivia a
sua vida: tratava-se duma questo resolvida. Mas com Bibiana a coisa era
diferente. Estava  com vinte e dois anos e ainda solteira numa terra em
que as moas se casavam, s vezes com catorze ou quinze anos. Ele sabia
duma que se casara no Rio Pardo antes  de completar treze... A sua
pressa em arranjar marido para a filha lhe vinha do medo de morrer duma
hora para outra, deixando a famlia desamparada. Arminda no  era uma
mulher decidida e Juvenal no estava em condies de sustentar duas
casas. Alm do mais, Pedro vivia com um temor negro no corao. Sabia de
casos horrveis:  povoados atacados pelos ndios que saqueavam as casas,
matavam os homens e violentavam ou raptavam as mulheres. Por isso s
vezes lhe passava pela cabea a idia  de que o melhor mesmo seria casar
a filha com um homem decente que a pudesse levar para Viamo, Porto
Alegre ou qualquer um daqueles lugares que estavam menos sujeitos  aos
ataques dos selvagens. Havia ainda e sempre o perigo das guerras; e os
castelhanos no estavam muito longe de Santa F. Ele tinha uma
experincia amarga. Mais  cedo ou mais tarde haveria outra invaso e era
um risco muito grande ter mulher moa em casa num lugar abandonado como
aquele.
  Pedro sentia ainda no corpo o vestgio das guerras em que tomara parte.
Depois de 1811 ficara sofrendo de reumatismo e duma dor nos rins, tudo
isso como conseqncia  de dormir em banhados, de tomar chuva, e de
carregar muito peso. Vezes sem conta tivera de empurrar roda de carroa
e puxar canho, como se fosse um cavalo. Alm  disso, passara fome ou
estragara o estmago comendo carne podre e charque bichado. Aquela era a
sina dos habitantes da provncia de So Pedro. Pagavam muito caro  por viverem to perto da fronteira castelhana. Diziam que no Rio de Janeiro
a vida era diferente, mais fcil, mais agradvel, mais confortvel. (A
idia de conforto,  entretanto, nunca fora muito do agrado de Pedro, que
a associava vagamente a homens efeminados, que nunca pegaram no cabo
duma enxada e usam guas-de-cheiro.)
  Ao pensar na Corte, Pedro pensou em "governo". Para ele governo era uma
palavra que significava algo de temvel e ao mesmo tempo de'odioso. Era
o governo que cobrava  os impostos, que
  251
  recrutava os homens para a guerra, que requisitava gado, mantimentos e
s vezes at dinheiro e que nunca mais se lembrava de pagar tais
requisies... Era o governo  que fazia as leis - leis que sempre vinham
em prejuzo do trabalhador, do agricultor, do pequeno proprietrio.
Antigamente, quem dizia governo dizia Portugal, e  a gente tinha uma
certa m vontade para com tudo quanto fosse portugus, comeando por
antipatizar com o jeito de falar dos "galegos". Mas que se passava agora
que  o pas havia proclamado sua independncia e possua o seu
imperador? No tinha mudado nada, nem podia mudar. No fim de contas dom
Pedro I era tambm portugus. Vivia  cercado de polticos e oficiais
"galegos". Ali mesmo na provncia j se dizia que nas tropas quem
mandava eram os oficiais portugueses; murmurava-se que eles estavam
conspirando para fazer o Brasil voltar de novo ao domnio de Portugal.
  Bibiana ergueu os olhos para o pai. No lhe distinguia bem o rosto ali
no canto sombrio. Mas via a brasa viva do cigarro, diminuindo e
aumentando, e via tambm a  fumaa subir. Ela estava inquieta, com uma
coisa no peito... Era um alvoroo que nunca sentira antes. Por mais que
fizesse, no podia esquecer o homem que vira naquela  manh no
cemitrio. Sabia que se chamava Rodrigo e que estava hospedado no rancho
do Nicolau, ali do outro lado da praa, bem defronte a sua casa. Pensava
na voz  dele e sentia um calor no corpo. No, no era bem calor. Era um
amolecimento morno, uma vontade de... de que mesmo? Ela no sabia
direito. Melhor: sabia mas no  queria saber e s de pensar nisso
corava, ficava perturbada, errava o ponto do bordado. Ainda bem que os
outros ignoravam o que ela estava pensando e sentindo...  Olhou para a
me que, com a testa franzida, embainhava uma toalha feita dum saco de
farinha de trigo. Bibiana empurrou a agulha com o dedal azinhavrado mas
em seguida  se perdeu de novo em pensamentos. Imaginou-se costurando seu
prprio enxoval. Ouvia mentalmente o comentrio das amigas: sabe? A
Bibiana vai casar. No diga! Com  quem? Com o Bento Amaral? No. Com
aquele homem bonito que chegou a Santa F. O capito Rodrigo? Esse
mesmo. Diz que vai ser um casamento muito lindo. O velho Terra  mandou
  252
  matar uma novilha e um porco. Esto fazendo doces. Vem um gaiteiro de
So Borja. Vo danar o fandango. Um homem mui guapo.
  - Que , minha filha? - perguntou Dona Arminda.
  - Nada - respondeu Bibiana, quase sobressaltada. - Por qu?
  - Vosmec est a sacudindo a cabea e falando baixinho... At parece a
sua av. Errou o ponto?
  - No, senhora. - Mentiu: - Espetei a agulha no dedo.
  - No tem dedal?
  - Tenho.
  - Est saindo sangue?
  - No. No foi nada.
  Bibiana sentia arderem-lhe as faces e as orelhas. A noite estava morna,
de ar parado, e da varanda do Nicolau vinham risadas masculinas. Atravs
da janela Bibiana  agora via a grande figueira no meio da praa, ao
luar. Quando menina ela gostava de trepar naquela rvore grande, de
ficar pendurada num dos galhos, balanando os  ps no ar. Gostava tambm
de arrancar suas folhas, pic-las com uma velha faca e fazer de conta
que era uma dona-de-casa e estava preparando o jantar para suas bruxas
de pano. Bibiana ficava horas debaixo da figueira, que ela considerava
como sua propriedade. Era ali que brincava de comadre e de visita com as
outras meninas. Mas  desde o dia em que seu Inocncio Carij amanheceu
enforcado num dos galhos da figueira, Bibiana passara a olhar a rvore
com um certo temor. Fora ela a primeira  a ver o corpo, de manhzinha. A
princpio pensou que o homem estava brincando de se balanar.
Aproximou-se dele e quando lhe viu a cara soltou um grito. Inocncio
estava completamente roxo, de lngua de fora e olhos saltados das
rbitas. Vieram os vizinhos, cortaram a corda e o corpo do enforcado
tombou ao cho com um som  horrvel, como um enorme figo podre que cai.
Um dos homens disse: "Judas tambm se enforcou numa figueira". Ela no
compreendeu... Mas em casa ouviu os pais dizerem  que Inocncio Carij
tinha atraioado um amigo.
  253
  Bibiana olhava agora para a figueira, pensando no enforcado. Mas em
breve esqueceu a rvore e o morto para atirar o olhar na direo da
venda do Nicolau, cuja porta  era um quadriltero de luz amarelenta
aberto na fachada sombria. Era l que ele estava. Bibiana no se
lembrava de jamais se haver interessado tanto cor um homem.  Bento
Amaral, to rico, to cobiado pelas outras moas, no lhe causava
nenhuma impresso, apesar de seus arreios chapeados de prata, de seus
palas de seda, do  anel no dedo, do relgio de ouro. Sabia ler e
escrever e tinha maneiras de fidalgo. Mas Bibiana simplesmente no
sentia nada seno aborrecimento perto dele, e quando  o moo aparecia
ela s desejava que ele fosse embora o quanto antes. No entanto, o
desconhecido que ela vira aquela manh no cemitrio (Ser mau agouro?)
no lhe  sara da lembrana. Bibiana pensou na av. Se ela estivesse
viva, qual seria sua opinio daquele forasteiro? " um homem como os
outros." Mas talvez gostasse dele,  talvez...
  Bibiana tentou concentrar a ateno no que estava fazendo, mas no
conseguiu. No via o bordado: via a cara do capito Rodrigo. Aqueles
olhos azuis tinham um fogo,  uma coisa que puxava a gente, bem como um
atoladouro. Eram olhos que davam medo e ao mesmo tempo atraam. Bibiana
achava que no teria nunca coragem de ficar olhando  muito tempo para
eles. Porque se olhasse muito acabaria tendo uma vertigem. No entanto
sabia que o pai no tinha gostado do capito. Viera do cemitrio
resmungando,  falando mal dele. "Havia de aparecer agora essa peste..."
E dava chicotadas nos cavalos, como se os pobres animais fossem os
culpados do aparecimento daquele estranho.  "Que  que ele pensa de
Santa F?" Lept! Lept! Bibiana nunca vira o pai to exaltado. Por qu,
Santo Deus? Afinal de contas o homem no tinha feito nada de mal...  E
ao pensar em todas essas coisas Bibiana ficava apreensiva, com o receio
de que algo de srio pudesse acontecer. A av sempre lhe falava da
brutalidade dos homens,  que sempre acabam fazendo o que a gente menos
espera, isto , as coisas mais absurdas. Vov Ana costumava dizer que
certos assuntos eram "coisa de homem". Guerra  era coisa de homem;
carreira, briga, jogo e bebida
  eram coisas de homem. O melhor que as mulheres tinham a fazer era
desistir de compreend-los. Desistir e continuar obedecendo e
esperando...
  Pedro Terra pensava nas suas lavouras perdidas. Era a maior mgoa que
tinha no corao. Perdera seus trigais, fazia alguns anos, e com dor de
alma vira desaparecer  com o trigo uma das maiores riquezas do
Continente. Primeiro tinha sido a peste da ferrugem que batera nos
trigais. Ele, ento, tentara plantar outro tipo de trigo  que a ferrugem
no costumava atacar. Fora mais ou menos bem sucedido, mas sobrevieram
outros desastres. A Coroa tinha estabelecido um preo fixo para o trigo
e havia  comprado toda a produo. Ora, esses preos no convinham ao
plantador, mas governo  governo. As vezes a Coroa se apossava das
colheitas, prometia pagar mas acabava  no pagando. Por outro lado, as
sementes escasseavam e o governo nada fazia para ajudar o agricultor. As
lavouras comearam a ficar abandonadas. Era impossvel lutar  contra
duas pestes ao mesmo tempo: a ferrugem e o governo. No era de admirar
que os lavradores acabassem abandonando os trigais. Preferiam criar
gado, pois dava  menos trabalho - diziam - e era mais divertido. De
resto, a faina das estncias parecia-se mais com a da guerra que o
trabalho das lavouras. Os homens do Rio Grande  estavam de tal modo
habituados  luta e s correrias, que quando vinha a paz no se
conformavam mais com o trabalho da terra, em que tinham de ficar
mourejando de  sol a sol, agarrados ao cabo da enxada ou da foice. E
assim, aos poucos, o trigo tinha ido guas abaixo. A coisa comeara l
por 1815, no ano que apareceu a ferrugem.  Pedro lembrava-se bem, pois
fora na poca em que, triste e estropiado, ele voltara da Banda
Oriental. Viera depois da pavorosa seca de 1820. Da por diante as
lavouras  tinham comeado a mermar, a mermar at se acabarem. S se
salvou quem tinha criao. E a salvao dele, Pedro, havia sido a
olaria. Os Amarais exigiram a devoluo  das terras, pois ele no pudera
cumprir o prometido no seu compromisso de compra. E assim ficara apenas
com a olaria e a casa do povoado.
  Pedro Terra suspirou de mansinho e tornou a pensar na me.
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  Foi nesse momento que se ouviram os sons dum violo e um homem comeou a
cantar com uma voz que encheu o ar quedo da noite. Pedro franziu o
cenho, retesou o busto,  apertou forte o cigarro entre os dentes e ficou
escutando. As mulheres tambm ergueram a
 cabea e olharam na direo da
janela. Bibiana, de olhos arregalados, respirava  com dificuldade. Dona
Arminda olhou para o marido, numa interrogao muda.
  - Parece mentira! - exclamou Pedro. - No respeitam nem o dia dos
mortos!
  -  um desaforo - concordou a mulher. E depois, noutro tom. - Quem ser?
  - Oia, quem h de ser! - Pedro ergueu-se. -  aquele sujeito que
encontramos hoje no cemitrio. Conheo a voz.
  Bibiana teve como que um desfalecimento. Pedro aproximou-se da janela e
ficou olhando na direo da venda do Nicolau.
  -  preciso ser muito ordinrio pra fazer uma coisa dessas
  - murmurou.
  As palavras do pai doeram em Bibiana. Entretanto, ela reconhecia que era
mesmo uma falta de respeito, um sacrilgio cantar no dia de Finados. Mas
a voz que vinha  l da venda, morna e clara como a noite, causava-lhe
uma confusa nsia que no fundo era um pressentimento de desastre. Mas
tambm era prazer, um prazer to grande  que chegava a dar-lhe vergonha,
como se ela estivesse fazendo algo de feio e proibido.
  Sentado num mocho, de pernas cruzadas e violo em punho, Rodrigo Cambar
cantava cantigas que aprendera nos acampamentos da Provncia e da Banda
Oriental. Eram modinhas  e quadras que falavam de mulheres, cavalos,
amor e morte. Debruado sobre o balco, Nicolau fitava no cantor os
olhos sonolentos, pondo  mostra os cacos de dentes.  Uma lamparina de
sebo alumiava fracamente a sala. Rodrigo cantava com entusiasmo porque
sabia que
  256
  do outro lado da praa ficava a casa de Bibiana, que decerto tambm o
escutava. Punha na voz muita ternura, falava duma tirana que lhe havia
roubado o corao e  que o martirizava por ser muito arisca...
  Calou-se mas continuou a dedilhar o violo. Depois tornou a soltar a
voz:
  Quem canta refresca a alma, Cantar adoa o sofrer, Quem canta zomba da
morte, Cantar ajuda a viver.
  Nicolau sacudiu a cabea e disse:
  - Que ajuda, ajuda mesmo.
  Um cachorro veio da cozinha, sacudindo o rabo, deitou-se enrodilhado
junto do balco, descansou o focinho sobre as patas dianteiras e fechou
os olhos. Num canto  sombrio apontou a cabea da mulher de Nicolau, que
ficou de olhos grudados no capito, uma expresso de espanto no rosto
lustroso.
  Rodrigo olhava para a porta que enquadrava um pedao da noite e via, no
outro lado da praa, a janela iluminada da casa de Pedro Terra. De
repente uma sombra assomou   porta da venda e fez sumir-se a casa de
Bibiana. Era um homem alto, moreno e grisalho, de batina negra: o
vigrio de Santa F. O capito continuou dedilhando o  violo, tirando
acordes graves, mas de olhos postos no recm-chegado.
  - Boa noite, capito! - disse o padre, sorrindo.
  - Boa noite! - respondeu Rodrigo, parando de tocar.
  - Vosmec pode me dar uma palavrinha?
  - Pois no.
  Rodrigo ps o violo em cima do balco e ergueu-se.
  - Aqui fora, se no  incmodo. Saram ambos para a praa.
  - Linda noite! - exclamou o padre, como para comear a conversa.
  - Mui linda.
  257
  
  Rodrigo olhou de soslaio para o outro. O padre Lara caminhava devagar.
Tinha uma cabea enorme, desproporcional ao corpo raqutico e
desengonado. Havia entretanto  uma qualidade to aliciante em sua voz
grave e lenta, que era possvel a uma pessoa simpatizar com ele,
contanto que no olhasse para seu rosto feio e enrugado,  de pele frouxa
e papada flcida - coisa de estranhar numa cara magra. Os olhos do padre
eram lquidos e as bordas de suas plpebras estavam sempre vermelhas,
como  numa ameaa permanente de teris. Mais ali  luz da lua a
face do vigrio como que adoava, perdia a fealdade e tudo que ele tinha
de melhor se revelava na  maciez envolvente da voz. Os dois homens deram
algumas passadas lado a lado, em silncio, na direo da grande
figueira. Quando se achavam apenas a uns cinco metros  da rvore, o
padre parou, segurou o brao do outro e perguntou:
  - Vosmec se lembra daquela histria das Sagradas Escrituras sobre a
figueira que no dava frutos?
  - No entendo muito desses negcios de religio, padre.
  - Quando Nosso Senhor andava pela terra, um dia ficou com fome e se
acercou duma figueira. Vendo que ela tinha s folhas, disse: "Nunca mais
nasa fruto de ti".  E a figueira secou imediatamente.
  Por alguns segundos Rodrigo nada disse. Limitou-se a olhar para o
vigrio. S agora percebia que o velho tinha uma respirao de asmtico,
e que um ronrom de gato  lhe escapava da boca semiaberta.
  - Vigrio, que  que essa histria quer dizer?
  O padre Lara comeou a esfregar as mos, devagarinho.
  - H homens como a figueira das Escrituras. No tm nada pra dar  o
mesmo que se estivessem secos.
  Rodrigo limitou-se a dizer:
  - . Ha...
  A sombra da figueira era como um borro de tinta no cho que o luar
azulava.
  - Existe muita gente assim no mundo, capito.
  - Mas a troco de que vosmec me conta essa histria das Escrituras?
  O outro fez um gesto vago.
  - Por nada. Porque vi esta rvore.
  Rodrigo no ficou satisfeito com a explicao. Pressentia que aquelas
palavras eram apenas uma introduo para algo de pessoal que o padre lhe
queria dizer. Algum  tinha encomendado sermo ao vigrio. Era melhor
resolver logo o assunto. Tomou do brao do outro e apertou-o com fora;
mas como seus dedos encontrassem um brao  fino e descarnado,
afrouxou-lhe a presso.
  - Padre,  melhor vosmec ir logo dizendo o que quer. Isso de dar voltas
 l com o rio Ibicu. Gosto de gente que vai direito ao assunto. Que 
que vosmec quer  mesmo comigo?
  - Para lhe ser bem sincero, capito, o que eu queria era fazer que
vosmec parasse de cantar e tocar violo.
  -  pecado cantar e tocar violo?
  - Em certos lugares e em certas ocasies . No sabe que hoje  dia de
Finados?
  - Ah! Mas por que no disse logo?
  - Vosmec podia se ofender.
  - Nunca me ofendo quando me pedem. Fico esquentado quando querem me
mandar. Se me pedem com bons modos, fao. Se me do ordens, brigo.
  Acre e mida, a respirao de gato bafejava o rosto do capito. O luar
parecia deixar mais brancos os cabelos do padre. Um galo cocoricou
longamente num quintal;  outros galos responderam em outros terreiros, e
por um instante a noite ficou como que cheia de clarinadas. Rodrigo
lembrou-se de toques de clarim na madrugada.  E quase sentiu a impresso
que tinha quando em campanha era acordado ao alvorecer pelas cornetas: a
cabea vazia, uma dor de fome no estmago, e na boca uma secura  que era
vontade de tomar chimarro. Enquanto os galos cantavam, os dois homens
ali perto da figueira ficaram em silncio. Rodrigo procurava discernir
vultos dentro  da casa de Pedro Terra. Era l que morava Bibiana. Por
trs daquelas paredes estava a cama em que a moa dormia. Daria um
brao, um olho, uma perna para dormir com  Bibiana. S de pensar nisso
sentia prazer. De algum jardim vinha-lhe s narinas um cheiio adocicado
de flor.
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  - Capito...
  Rodrigo voltou os olhos para o padre.
  - Vosmec  um soldado, no ?
  - E vosmec  um padre...
  - Espere, estou falando srio. Como militar vosmec sabe que num
batalho tem de haver disciplina, o soldado tem de obedecer ao seu
superior.
  - Naturalmente.
  - Desde que o mundo  mundo sempre houve os que mandam e os que
obedecem, um servo e um senhor. O mais moo obedece ao mais velho...
  - Isso depende...
  - Deixe-me terminar. O filho obedece ao pai, a mulher obedece ao marido.
Se as coisas no fossem assim o mundo seria uma desordem...
  - Mas quem foi que lhe disse que o mundo no  uma desordem?
  - Capito! Vosmec precisa ler Histria Universal. Precisa ler sobre os
outros continentes, principalmente sobre a Europa. No pense que o mundo
 s a provncia  de So Pedro.
  Rodrigo deu de ombros.
  - Pra mim tem sido...
  - Mas no  para muitos milhes de pessoas. O mundo  muito vasto. A
autoridade suprema dum pas  o rei. Ele tem todo o poder temporal. Mas
o poder espiritual quem  tem  o papa, representante de Deus na terra.
  Aonde querer ele chegar? - refletia Rodrigo, olhando de vis para a
casa de Bibiana.
  - Que diabo, vigrio. Vosmec sempre com voltas. No queria que eu
parasse de cantar? Pois parei. Que  que vosmec quer agora?
  Por um instante o padre lutou com a asma. Finalmente disse:
  - Assim como cada casa tem um chefe, cada cidade tambm tem uma
autoridade. E no  desdouro para ningum obedecer a essa autoridade,
quando as ordens que nos do  so justas, decentes e para o bem geral.
  260
  - Padre, desembuche duma vez!
  - Se vosmec chega a um povoado como o nosso, no pode proceder como se
estivesse ainda num campo sem dono nem lei. Tem de se submeter s
autoridades.
  - E quem  a autoridade aqui?
  - O coronel Ricardo Amaral Neto.
  Era bem o que eu esperava - concluiu Rodrigo. O padre trabalhava para o
mandachuva da terra. Naturalmente fora o velho Amaral quem mandara
construir a igreja, quem  comprara as imagens, quem dava ao vigrio casa
para morar. No seria de admirar que o padre Lara usasse o
confessionrio para arrancar dos habitantes do lugar informaes  do
interesse do chefete de Santa F. Rodrigo conhecia casos...
  - Vosmec podia me ter dito tudo isso em duas palavras sem dar tanta
volta.
  Ficaram de novo em silncio. Rodrigo via em pensamentos a imagem de
Bibiana: a boca carnuda, os olhos oblquos. Parecia uma fruta; dava na
gente vontade de mordiscar  aquela boca, aquelas faces, aqueles peitos.
Naquele momento seu desejo por Bibiana se confundia com uma sensao de
fome e Rodrigo comeou a pensar altemadamente  na rapariga e num
churrasco. O padre lecomeou o sermo, mas Rodrigo no lhe prestava
muita ateno. No podia perder uma noite daquelas na companhia dum
padre.  Para ele padre era preto e agourento como urubu. Onde havia
padre havia desastre ou morte: enterro, extrema-uno ou casamento.
Sempre achara que casamento tambm  era um desastre, uma priso, uma
espcie de morte. No entanto agora a idia de casamento associada a
Bibiana no lhe era de todo desagradvel nem impossvel. Depois  -
concluiu ele com certa irritao - parecia que s poderia dormir com a
moa se casasse com ela... O padre Lara falava, falava... Num dado
momento puxou pela manga  da tnica do capito e perguntou:
  - 
  ou no ?  ou no ?
  - Deve ser, padre, deve ser. Mas vosmec no acha que o sereno vai lhe
fazer mal?
  Como se no tivesse ouvido a pergunta, o vigrio prosseguiu'
  261
  - Ento deixe que eu lhe d um conselho.
  Por que ser que toda gente neste povoado se acha com o direito de me
dar conselhos? - pensou Rodrigo.
  - Pois venha de l esse conselho - disse em voz alta, enquanto com o
rabo dos olhos via um vulto de homem assomar  janela da casa de
Bibiana.
  - Encilhe o seu cavalo e v embora amanh.
  - At vosmec, padre?
  - Oua o que estou lhe dizendo.
  - Mas por qu?
  - Porque Santa F no  lugar para um homem de seu temperamento.
  - Mas serei por acaso leproso, ladro de cavalo ou bandido? Rodrigo
comeava a exasperar-se.
  O padre Lara sacudia a cabea com veemncia e a pelanca debaixo de seu
queixo balouava dum lado para outro, mole como papo de peru.
  - No. Mas sei que vosmec  um homem que veio de muitas guerras, gosta
de jogo, de mulheres e de bebida.
  - E quem no gosta?
  - O capito vai se dar mal aqui. Tivemos outros casos. Ainda no ano
passado...
  Rodrigo interrompeu-o:
  - Palavra de honra que no compreendo, padre.
  - Pois eu compreendo. Tudo est claro como gua.
  - Ento se explique. E por amor de Deus no me venha com voltas.
  O padre Lara puxou o outro pelo brao e ambos comearam a caminhar na
direo da capela.
  O vigrio entrou numa histria muito longa sobre a famlia Amaral, sua
tradio, seus hbitos, suas manias e seu prestgio junto ao governo da
Provncia. Rodrigo  olhava para a casa de Pedro. Viu quando fecharam a
janela. Imaginou Bibiana a despir-se, a tirar o corpinho, a saia...
Aquele pedao de tornozelo que ele vislumbrara  quando a menina subira
para a carroa,  frente do cemitrio, agora se ampliava: era uma perna
bem torneada, um joelho rolio, uma
  262
  coxa... Em breve, excitado, Rodrigo tinha nos braos Bibiana toda nua,
com os seios a balouar, brancos e trmulos como coalhada nova
recm-sada da tigela. E em  pensamento ele a deitou na cama e os dois
estavam enroscados aos beijos quando o padre Lara lhe apertou o brao e
lhe disse junto do ouvido:
  -  quem manda neste povoado e nestes campos ao redor de Santa F.
Ningum fica aqui sem o consentimento dele.  ele quem resolve todas as
questes: uma espcie  de juiz de paz.
  - Mas esse homem nem me viu ainda. Como  que j no gosta de mim?
  - Pois a  que vosmec se engana. O coronel Amaral j sabe quem 
vosmec, donde vem e o que pretende. Ele me disse que no ia permitir
que vosmec ficasse no povoado,  porque no quer saber de barulho.
  - Mas eu no vou fazer barulho, j disse! - gritou Rodrigo. Sua voz
ecoou na praa e depois se dissolveu no ar.
  - Est vendo? Diz que no vai fazer barulho e est quase brigando
comigo. Vosmec tem sangue quente, capito.
  - Que  que vou fazer? Nasci assim e estou velho demais pra mudar.
  O padre aveludou a voz
  - Est bem. Est bem. No vamos brigar. Vosmec no precisa mudar.
Continue como est, se isso lhe agrada. O que eu quis dar a entender com
toda esta arenga  que  o coronel Amaral mandou lhe dizer que no v com
simpatia a permanncia de vosmec em Santa F.
  - Por que  que ele no veio me dizer isso cara a cara?
  - Decerto porque no quis, pois coragem no lhe falta. Tinham chegado 
frente da capela. Rodrigo sentou-se num
  dos degraus de madeira da porta central e o padre o imitou. Por alguns
instantes ficaram ambos em silncio olhando a noite. Na maioria das
trinta e poucas casas  de Santa F quela hora no havia luz. O luar
caa manso sobre os telhados e cobertas de palha, sobre os pomares, as
hortas e os campos em derredor. Rodrigo fitou  o casaro de pedra dos
Amarais, l do outro lado da praa. A fera deve estar dormindo - pensou.
E sentiu desejos de enfrent-la.
  263
  murmurou.
  - Ento o homem no quer saber de mim..
  O padre ronronava a seu lado como um gato velho.
  - Que  que vosmec vai fazer? Pode falar com confiana. Nunca se
confessou?
  - Nunca. Nem a meu pai.
  - Bom. Mas pode se abrir comigo como se estivesse num confessionrio.
Segredo que cai aqui - e espalmou a mo sobre o peito -  como se casse
numa sepultura.
  - Mas no tenho nenhum segredo pra contar. O que pretendo fazer j disse
a meio mundo. Vou ficar.
  - Mas por que  que vosmec insiste tanto em ficar?
  - Porque gostei deste lugar.
  - S por isso?
  - Pra lhe provar que no escondo nada, vou dizer o resto.  porque estou
tambm gostando duma moa que mora aqui.
  - Posso saber quem ?
  - A filha do Pedro Terra.
  - A Bibiana?
  - Essa mesmo.
  O padre fez uma pequena pausa e depois disse, grave:
  - Mas  uma moa muito direita. Se vosmec pensa...
  - Se  direita, tanto melhor. Tenciono casar com ela. O sacerdote ficou
como que espantado.
  - Bom, se  assim... Mas me parece... bom... a coisa vai ser difcil.
  - Por qu?
  - O Bento, filho do coronel Amaral, tambm gosta da moa.
  - E ela gosta dele?
  O padre Lara acariciou com a palma da mo a coroa da cabea.
  - Gostar... no gosta. Mas vosmec sabe. O moo  voluntarioso,  rico,
e no fim de contas a Bibiana vai acabar dizendo que sim. Principalmente
se o velho Ricardo  se meter na histria,
  - Pelo que vejo esse Amaral  um deus.
  - No diga isso, capito. Deus  um s e est no cu. E esse Deus nico
no  apenas senhor de Santa F.  senhor do universo.
  264
  - Deixou o tom solene, ficou mais terra-a-terra ao perguntar: - Vosmec
no  religioso?
  - No. Religio nunca me fez falta.
  - H pessoas que s se lembram da Virgem quando troveja.
  - Quando troveja me lembro do meu poncho.
  - H homens que passam a vida fazendo pouco da Igreja, mas na hora da
morte mandam chamar um padre pra se confessar.
  Rodrigo soltou uma risada.
  - Chamar padre na hora da morte? Acho que nem que eu queira vou ter
tempo pra isso.
  - Quem  que lhe garante?
  - Na minha famlia quase ningum morre de morte natural. S as mulheres,
assim mesmo nem todas. Os Cambars homens tm morrido em guerra, duelo
ou desastre. H  at um ditado: "Cambar macho no morre na cama".
  E ao dizer estas ltimas palavras Rodrigo falava alto e havia em sua voz
um tom de alegre orgulho. O padre ficou por um instante num silncio
abafado. Olhou para  a criatura que tinha a seu lado: a lua lhe batia em
cheio no rosto. De to claros, seus olhos pareciam vazios.
  - Vosmec j pensou no que lhe pode acontecer depois da morte?
  - No.
  - No tem medo de ir para o inferno?
  Rodrigo cruzou as pernas, atirou o busto para trs e recostou-se contra
a porta da capela.
  - Padre, ouvi dizer que no cu no tem jogo nem bebida nem carreiras nem
baile nem mulher. Se  assim, prefiro ir pr inferno. Alm disso as tais
pessoas que todo  mundo diz que vo pr cu por serem direitas e sem
pecado so a gente mais aborrecida que tenho encontrado em toda a minha
vida. Tenho conhecido muito patife simptico,  muito pecador bom
companheiro. Se eles vo para o inferno  para l mesmo que eu quero ir.
  - Vosmec brinca com coisas srias. Mas acredita que h um cu e que h
um inferno, no acredita?
  - Pra lhe falar com franqueza, nunca penso nessas coisas.
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     - Sim, mas quando vosmec comear a envelhecer vai pensar.
  Oua o que lhe digo.
  - Nunca nenhum Cambar macho conseguiu passar dos cinqenta anos.
  Para alm das casas estendiam-se os campos dobrados sob o lagoo enorme
do cu. As coxilhas eram como seios de mulheres - comparou Rodrigo
mentalmente. Seios e ndegas.
  - Mas vosmec nunca pensa em Deus?
  - Uma vez que outra.
  - No reconhece que Ele fez o mundo e todas as pessoas
  que h no mundo?
  - Se Deus fez o mundo e as pessoas, Ele j nos largou,
  arrependido.
  - No diga tamanho absurdo! Se Ele tivesse largado, tudo
  andava de pernas para o ar.
  - E no anda?
  - Me diga uma coisa: por que  que a terra gira em volta do Sol e a Lua,
em volta da Terra, tudo direitinho a bem de haver o dia, a noite, as
quatro estaes? Por  que ?
  - Porque .
  - Isso no  resposta. Me diga por que  que a gente bota semente de
trigo na terra e a semente cresce numa planta, numa espiga com gros, e
o gro se transforma  em farinha e a farinha em po e o po em alimento
para as pessoas. Vosmec j pensou que coisa bem feita, que mquina
perfeita  o corpo humano?
  Rodrigo pensou no corpo de Bibiana. Nu em cima duma cama, os peitos de
coalhada, as pernas rolias, os beios vermelhos. O corpo de Bibiana
devia ser uma perfeio.
  - Me diga outra coisa. H homem no mundo capaz de fazer as coisas que
Deus fez: as criaturas humanas, as plantas, as estrelas, os animais?
Pegue uma florzinha e  veja que maravilha, que delicadeza, que... - O
padre calou-se, ofegante. -J pensou nessa coisa milagrosa que  nascer,
crescer, viver...
  - E envelhecer, e morrer, e apodrecer... - completou Rodrigo, pensando
em que Bibiana um dia havia tambm de ficar velha.
  - Exatamente! Mesmo envelhecer e morrer e apodrecer so coisas
extraordinrias, porque tudo obedece a um grande plano. O corpo humano 
matria e como tal volta   terra de onde saiu. Mas a alma  imortal.
Tudo faz parte do milagre chamado vida. Nada disso podia existir se no
houvesse Deus. Podia?
  - Vosmec que l nos livros  que sabe, padre. No me pergunte.
  - Se Deus tivesse abandonado o mundo, o dia no seguia a noite, o po
no alimentava mais o corpo, o ar se sumia, as plantas no cresciam
mais, os astros se chocavam  no espao e o mundo acabava...
  Mas antes do mundo acabar - pensava Rodrigo - tenho de dormir com
Bibiana Terra. E de novo sentiu fome. Ser que o Nicolau me arranja
alguma coisa para comer?
  - Vosmec deve ter razo, padre. E eu lhe peo desculpas por ser to
atrasado e to herege. Pode ser que eu mude um dia... - acrescentou, sem
nenhuma convico.
  - Se Deus quiser!
  - E se eu tiver tempo.
  Ergueu-se, rindo baixinho, e sentindo as bombachas midas de sereno nos
fundilhos. Um grilo comeou a cantar debaixo dos degraus. Rodrigo lanou
um olhar na direo  da casa de Pedro Terra.
  - Padre.
  - Pronto, capito.
  - Vou lhe fazer um pedido.
  - Faa.
  - No pense mal de mim.
  - Mas eu nunca penso mal de ningum. Sou um pobre velho que quer ajudar
os outros e servir a sua Igreja.
  - Sei que sou meio esquentado e s vezes falo alto demais.  que gosto
muito da vida. 
  - Est se vendo.
  - Viver  muito bom. s vezes a gente tem tanta fora guardada no peito
que precisa fazer alguma coisa pra no estourar.
  - Eu compreendo.
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  - Me criei guaxo. No conheci me. Com doze anos j trabalhava no campo
com a peonada bem como um homem feito. Com dezoito tinha sentado praa e
j andava brigando  com os castelhanos. Da por diante sempre vivi ou
brigando ou correndo mundo.
  O padre sacudia a cabea, devagarinho.
  - Nunca aprendi nenhuma reza nem me habituei a ir  igreja.
  - Mas ainda tem tempo. Nunca  tarde, meu filho.
  - Qual! H certas coisas que a gente ou aprende quando  menino ou nunca
mais. Mas, pra l ser franco, no tenho sentido falta de igreja nem de
reza nem de santo.
  - Nem na hora do perigo?
  - Pois na hora do perigo mesmo  que no penso nessas coisas.
  - Pacincia. Pode ser que um dia vosmec mude. Deus  grande.
  - E o mato  maior, padre.  o que esses caboclos aprendem na luta dura
desde pequeninhos. No podem confiar em Deus e ficar parados. Quem fizer
isso acaba degolado  ou furado de bala. s vezes o melhor recurso 
ganhar o mato. A gente no pode estranhar que essa gente pense assim.
Foi a vida que ensinou...
  - Deus escreve direito por linhas tortas.
  Rodrigo abriu a boca num bocejo cantado e depois disse:
  - Mas o diabo  que ningum sabe ler o que Ele escreve. O padre ia
retrucar, mas calou-se. Houve um curto silncio e
  por fim o vigrio confessou:
  - Quer que eu lhe diga uma coisa? Gosto de vosmec. Pode ficar certo
disso. Gosto.
  - Pois me alegro, vigrio, me alegro. Tenho tido pouca sorte desde que
cheguei.
  - Por que no vai falar com o coronel Amaral?
  - Eu?
  - Sim. V e fale franco com o homem. Pode ser que ele acabe gostando de
sua pessoa.
  - Acha que vale a pena?
  - Que  que vosmec tem a perder?
  - Nada, isso  verdade.
  - Ento? Amanh eu falo com o homem, pergunto a que horas ele pode
receber vosmec.
  Rodrigo fez um gesto que era metade dvida, metade assentimento.
  - Pois... est combinado. Fico esperando suas ordens amanh. - E mudando
de tom: - Vai naquela direo?
  - No. Fico por aqui. Minha casa  atrs da igreja.
  - Boa noite, padre. E no me queira mal.
  - Boa noite. Deus guarde vosmec!
  - Amm - disse Rodrigo automaticamente. E riu-se de ter dito isso sem
sentir.
  Separaram-se. As luzes na casa de Nicolau estavam apagadas. Rodrigo fez
a volta do rancho e entrou no seu quarto pela porta dos fundos. Pensava
ainda em Bibiana  e em algo que comer. Algum tossiu do outro lado do
tabique.
  - Nicolau! - murmurou o capito.
  - O Nicolau saiu. - Era a voz da mulher. - Foi caar tatu.
  Imediatamente o corao de Rodrigo comeou a pulsar com mais fora, uma
frao de segundo antes de ele prprio saber o porqu daquele sbito
alvoroo. O Nicolau  tinha sado de casa e ali do outro lado do tabique
sua mulher estava numa cama... No era nem muito moa nem bonita. Mas
era uma fmea. Fazia tempo que Rodrigo no  tinha mulher. Ou tudo aquilo
no passava de fome? Pensou em Bibiana. Imaginava Bibiana do outro lado
do tabique, deitada na cama, nua...
  - Dona Paula - chamou ele.
  Por um instante no veio nenhuma resposta. Ele sabia que a china o
evitava, como se o temesse. Espiava-o sempre de longe, com seus olhos de
animal assustado.
  Finalmente o capito ouviu uma voz dbil.
  - Vosmec chamou?
  - Chamei, sim.
  - Que ?
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  - Estou com muita fome, dona. Pode me arranjar alguma coisa de comer?
  - No sei. Vou ver. - Havia na voz dela um tom de permanente lamria.
Tinha uns peitos flcidos e uma pele terrosa. Mas no era repugnante. E,
fosse como fosse,  era uma mulher.
  De p, junto da cama, Rodrigo ouvia o rascar das chinelas da companheira
do Nicolau. Sabia que para ir  cozinha Paula tinha de passar pelo seu
quarto. Entreabriu  a porta e ficou esperando de luz apagada. E quando o
vulto da mulher passou, Rodrigo murmurou:
  - Dona Paula...
  Ela estacou, muda. Ele a segurou pelos ombros e puxou-a para dentro do
quarto. Sentiu que ela tremia toda, como se estivesse com sezes, mas
no fez nenhum gesto,  no disse a menor palavra. Arrastou-a para a
cama.
  No dia seguinte, logo aps a sesta, por obra e graa do padre Lara,
Rodrigo se viu frente a frente com o senhor de Santa F. Era numa das
salas do casaro de pedra,  onde os poucos mveis que havia eram escuros
e rsticos. A um canto da pea Rodrigo viu trs espadas e uma espingarda
encostadas na parede. O coronel Ricardo estava  sentado atrs duma mesa
de pau preto. No se ergueu quando o padre fez as apresentaes. No
estendeu a mo para o visitante, nem o convidou a sentar-se. Quando  o
vigrio se retirou, Rodrigo, de p a uns quatro passos da mesa, olhou
bem nos olhos o dono da casa e seu instinto lhe gritou que tinha macho
pela frente.
  Ricardo Amaral Neto era um homem de cinqenta e poucos anos, moreno, de
rosto coberto por uma barba preta estriada j de fios brancos. Usava o
cabelo  escovinha,  tinha um olhar altivo e na ponta do nariz um sinal
dum preto arroxeado, quase do tamanho duma moeda de vintm. Estava em
mangas de camisa, trazia  cinta
  270
  uma faca de prata e, sob a mesa, Rodrigo podia ver-lhe as botas de
couro negro e cano alto.
  Houve um pequeno silncio. O capito tinha j decidido principiar a
conversa quando o outro perguntou bruscamente:
  - Que  que pretende fazer aqui?
  - Ainda no sei, coronel.
  - Este povoado j tem gente vadia que chegue!
  Ricardo Amaral atirou estas palavras como seixos na cara do outro.
Rodrigo recebeu-as aparentemente impassvel, ficou por alguns segundos
calado e depois, com voz  meio apertada, replicou:
  - Se no fosse o respeito que devo a um homem da sua idade, eu fazia
vosmec engolir o que acaba de dizer.
  Ricardo ergueu-se como que impelido por uma mola. Como o av e o pai,
era um homem alto e espadado. Afastou a cadeira com um pontap,
contornou a mesa, pegou duas  das espadas que estavam a um canto, atirou
uma para Rodrigo, que a apanhou no ar, desembainhou a outra e gritou:
  - Defenda-se! Vou lhe mostrar quem  velho. Defenda-se! Rodrigo
continuava imvel, segurando a espada horizontalmente com ambas as mos.
  - Vamos, defenda-se! - repetiu o estancieiro.
  O capito sorria. Sorria porque estava achando divertido ver aquele
homenzarro ali na sua frente, de espada em punho, querendo arrast-lo a
um duelo. Se tambm  se deixasse enfurecer estaria tudo perdido.
  - Acalme-se, coronel - pediu ele, apaziguador. - Vosmec no vai querer
matar um homem debaixo de seu prprio teto.
  S ento Ricardo pareceu cair em si e compreender a situao. Pigarreou
- no prprio pigarro havia um tom de surda raiva - e deixou cair o brao
cuja mo segurava  a espada. Seu peitarrao subia e descia ao compasso
duma respirao acelerada; seu rosto estava purpreo.
  Rodrigo deu alguns passos e encostou a espada na parede. Voltou-se para
o senhor de Santa F.
  - Vosmec veja a minha situao... - disse ele, quase jovial, ajeitando
o leno vermelho. - Se eu matasse o coronel Amaral,
  271
  no saa vivo desta casa. Se vosmec me matasse... eu estava liqidado.
De qualquer modo estou perdido. J v que minha posio  meio
difcil...
  - Mas vosmec me ofendeu! - exclamou Ricardo, pondo a espada em cima da
mesa.
  - Foi vosmec que me ofendeu primeiro - retrucou Rodrigo.
  - Eu podia mandar l prender.
  - Podia, coronel. Podia tambm mandar me enforcar. Mas no manda nem uma
coisa nem outra.
  - Quem foi que lhe disse?
  - Vosmec no manda me prender porque no tem motivos pra isso. No se
prende um homem de bem por um d c aquela palha. E vosmec no manda me
enforcar por uma  razo muito forte.  porque  um homem justo e bom.
  Ricardo voltou-se devagarinho na direo da mesa, lanando um olhar
torvo e enviesado na direo do interlocutor. Depois, dominando a voz,
disse:
  - O melhor mesmo  vosmec ir embora de Santa F o
  quanto antes.
  - Por qu?
  - Porque sim.
  - Que  que h contra mim?
  Ricardo hesitou por um instante, acariciou nervosamente o cabo da faca,
e disse:
  - Vosmec no tem o nosso jeito. Sou um homem muito vivido e vejo logo
quando uma pessoa pode se dar aqui e quando no pode. Logo que me
falaram na sua pessoa, senti  que vosmec no podia esquentar lugar em
Santa F e que mais cedo ou mais tarde ia nos dar trabalho.
  - O coronel est me tratando como se eu fosse um castelhano, um
estrangeiro, um inimigo.
  Ricardo pareceu meio abalado com o argumento. Tartamudeou um pouco antes
de responder, mas o tom firme e teimoso em breve lhe voltou  voz.
  272
  - Conheo um homem at pela maneira como ele anda vestido. Esse seu
leno vermelho  um sinal de fanfarronice.
  - Coronel, vosmec est enganado.
  - Nunca me engano com homem nem com cavalo. Vosmec tem um jeito de
olhar e de falar com as pessoas que faz o sangue da gente ferver.
  - No  minha culpa. Nasci assim.
  E imediatamente Rodrigo percebeu que a voz lhe sara atrevida e
agressiva.
  - Meu av costumava dizer que homem tambm se doma, como cavalo.
  - Nem todos.
  - Pois l pego pela palavra. Se vosmec  potro que no se doma, muito
bem,  porque no pode viver no meio de tropilha mansa. Seu lugar  no
campo. Neste ptreiro de Santa F, moo, s h cavalo manso. Chegam
xucros mas eu domo eles e boto-les a minha marca.
  - J me tinham dito isso.
  - Pois se a coisa no l agrada, mande-se mudar.
  Ricardo virou as costas para Rodrigo, como para dar por terminada a
entrevista. O outro, porm, continuou imvel onde se achava. Estava
resolvido a no deixar-se  convencer nem enfurecer. Se despertasse a ira
do senhor de Santa F, estaria perdido. A vida para ele no povoado seria
insuportvel e o melhor que tinha a fazer  era encilhar o cavalo, montar
e ir cantar noutra freguesia. Mas se ele fosse embora, adeus Bibiana!
  Decidiu tentar outro recurso. Sabia que Ricardo era comandante dum corpo
de cavalaria.
  - Coronel, vosmec tambm  um militar.
  - E por sinal seu superior, capito. No se esquea disso.
  - No esquecerei. Mas peo que vosmec me escute. No fim de contas um
homem tem o direito de se defender, principalmente quando est com a
conscincia limpa.
  Ricardo encarou-o. E naquele instante Rodrigo sentiu que estava diante
de um juiz.
  - Ento que  que tem a dizer a seu favor?
  273
  - Eu mesmo no tenho nada. Mas h muita gente boa disposta a falar por
mim.
  - Aqui em Santa F?
  - Nestes papis, coronel. Com licena de vosmec, aqui est a minha f
de ofcio.
  Tirou um rolo de papis de dentro da tnica e apresentou-os ao
estancieiro, que os tomou, desamarrou a fita que os prendia, botou os
culos e comeou a ler. Eram  cpias de ordens do dia de diversos
generais que Ricardo Amaral conhecia e nelas havia elogios ao capito
Rodrigo Severo Cambar pelo seu comportamento em ao.  Havia tambm um
"a quem interessar possa", declarando que o capito Rodrigo tinha tomado
parte em diversos combates, "portando-se com herosmo, dedicao e
disciplina  a toda prova". A declarao estava assinada por Bento
Gonalves da Silva.
  Por alguns minutos Ricardo ficou de cabea baixa, e Rodrigo percebeu que
o homem lia com alguma dificuldade: seus lbios grossos se moviam,
soletrando as palavras.  O senhor de Santa F tornou d enrolar os papis
e estava amarrando a fita que os prendia quando o capito tirou do bolso
das bombachas um estojo preto e dramaticamente  apresentou-o ao outro:
  - E se isto tambm pode dizer alguma coisa em meu favor...
  - Que  isso?
  - Faa o obsquio de abrir.
  Ricardo Amaral tomou do estojo, com um pouco de m vontade, abriu-o e
viu contra um fundo de veludo roxo uma medalha. Reconheceu a cruz da
Ordem dos Militares. No  pde esconder sua surpresa, e seu rosto
iluminou-se de repente, como se a condecorao irradiasse luz. Logo em
seguida, porm, seu semblante tornou a ficar sombrio.  Ricardo fechou o
estojo, entregou-o ao outro e comeou a esfregar as mos com
impacincia.
  - Isso tudo, capito, prova apenas que vosmec foi um bom soldado.
  Rodrigo estava decepcionado. Esperava que todos aqueles documentos
conseguissem comover o estancieiro e agora, vendo-o irredutvel mesmo
diante daquela condecorao,  comeava a agastar-se.
  274
  - S me admiro  duma coisa - disse Ricardo, com voz mais conciliadora
mas ainda com uma ponta de dvida. - Como  que um homem com os servios
que vosmec prestou  ao governo no teve outras recompensas...
  - Recebi o meu soldo, coronel.
  - No me refiro a soldo. Muitos oficiais depois de deixarem a tropa
receberam sesmarias, viraram criadores ou plantadores.
  Rodrigo sorriu. Lembrava-se de que lhe haviam contado que naquelas
muitas guerras, quando fazia o recrutamento, Ricardo Amaral Neto
preferira sempre tirar pais de  famlia de seus lares e lavouras a
desviar do trabalho de sua estncia pees e escravos. Apesar de
comandante dum corpo de cavalaria nunca fornecera uma nica de  suas
vacas para alimentar os soldados, pois achava muito mais conveniente
requisitar gado e cereais aos pequenos criadores e agricultores.
Murmurava-se tambm que  o coronel Ricardo se valera mais duma vez de
sua autoridade militar para obrigar certos proprietrios a lhe venderem
suas terras a preos baixos.
  Rodrigo encolheu os ombros e disse:
  - Nunca me interessei por essas coisas, coronel. Nasci caminhando como
filho de perdiz.
  - E por que  que agora quer fazer seu ninho aqui no povoado?
  - J lhe disse que gostei de Santa F.  um lugar mui lindo. No dia que
eu achar que ele no me serve mais, monto a cavalo e vou m'embora. S
rvore  que pega raiz  no cho.
  - Pois homem que no  capaz de se apegar  terra no nos serve. O mal
desta provncia tm sido esses aventureiros que vm doutros pontos do
pas s pra se divertirem  ou fazerem negcio e depois vo embora.
  Ricardo, agora visivelmente mais calmo, acariciava as barbas grisalhas
com sua grande mo queimada de sol e estriada de veias dum azul
esverdeado.
  Rodrigo sabia ser simptico, quando queria. Tratou de falar com calma e
brandura, e no seu tom de voz havia agora no a humildade dum pobre que
curva a cabea ante  um potentado, mas sim o respeito carinhoso dum
filho que se dirige ao pai.
  275
  Vosmec ainda no me conhece, coronel. Mas se minha
  palavra valesse alguma coisa...
  Ricardo interrompeu-o:
  Olhe, capito, nunca apreciei as pessoas que pem em
  dvida a palavra dos outros. Se vosmec vai me dar a sua, no tenho
razo pra duvidar dela.
  Rodrigo viu que comeava a pisar em terreno mais firme.
  Empenho a minha palavra de cidado e de soldado
  como nunca lhe darei nenhum motivo de queixa. Quero ficar aqui... Talvez
compre umas terrinhas e comece a criar o meu gadinho. Talvez at me
case...
  Mas vosmec no vai gostar de Santa F. Temos poucos
  divertimentos e um homem habituado a pndegas, fandangos, carreiras,
jogatina e mulheres no pode agentar esta vida. Santa F  terra de
gente trabalhadeira. Tem  pouca festa e pouca moa. E as moas so
direitas, ouviu, capito?
  - Ningum est dizendo o contrrio.
  - Vosmec j foi ao nosso cemitrio?
  - Casualmente estive l ontem.
  Viu aquele tmulo de cruz preta, logo  direita de quem
  entra?
  Rodrigo sacudiu a cabea, numa negativa.
  - No, que me lembre.
  - Pois ali est enterrado o Z Oliveira.
  Fez uma pausa cheia de significao. Depois continuou:
  - O Z tomou a mulher dum dos meus agregados... - Outra pausa. Os olhos
de Ricardo Amaral Neto brilharam por um instante. - O marido meteu-lhe
chumbo no corpo.  O corpo do Z Oliveira ficou que nem peneira...
  - E que foi que aconteceu pra mulher? - perguntou o capito, sorrindo.
  O estancieiro fez um gesto brusco e grasnou:
  - No vem ao caso!
  - Se vosmec pensa que vou tentar tirar a mulher de algum... - comeou
a dizer Rodrigo. Mas o outro no o deixou terminar:
  276
  - O Z Oliveira era um sujeito valente, muito alegre, cantava e tocava
violo. - Com uma voz cheia de intenes veladas, acrescentou: - Sempre
desconfiei de homem  que toca violo.
  Espinhado, Rodrigo no se conteve e replicou:
  - Conheo muito patife que no toca violo.
  Por um breve instante os dois homens se mediram com os olhos, num
silncio feroz. Nenhum piscou. Nenhum falou por vrios segundos. Rodrigo
ento compreendeu que  no havia mais remdio para aquela situao.
Apanhou o chapu que estava em cima duma cadeira e disse, num supremo
esforo para alisar a voz:
  - Bem, vou andando com a licena de vosmec.
  - Pra andar vosmec tem toda a minha licena.
  - E pra ficar?
  - Para ficar, no.
  O capito fez meia-volta, aproximou-se da porta e, j a abri-la,
exclamou: - Mas fico!
  No ouviu o que o outro disse nem lhe viu a cara, pois bateu a porta em
seguida e saiu para o alpendre. Dirigiu-se para a venda do Nicolau,
assobiando, com o chapu  atirado para a nuca, a ruminar com gozo suas
ltimas palavras. Mas fico. Mas fico. Mas fico.
  6
  E ficou mesmo. Nada lhe aconteceu. Porque naqueles dias Ricardo Amaral
fechou a casa no vilarejo e foi passar o resto do vero na estncia,
deixando o campo livre  para Rodrigo, que aos poucos conquistou toda a
populao de Santa F, com exceo de Pedro ferra. Era alegre, cantava,
tocava violo, pagava bebidas e sabia perder  no jogo. Faziam rodas de
truco ou de solo na venda, e em certas ocasies at o padre Lara vinha
jogar. Ficava pitando um cigarro de palha, tossindo e rindo das
histrias  que o capito lhe contava. E muitas vezes, segurando com seus
longos dedos as cartas sebosas do baralho, sacudia a cabeorra e
murmurava:
  - Esse capito Rodrigo  das arbias!
  277
  
  Nicolau estava satisfeito com o hspede e, de p atrs do balco,
servindo cachaa para a freguesia, costumava olhar com ar quase paternal
para Rodrigo. E parecia  continuar ignorando que, sempre que ele saa, a
mulher ia para a cama do outro, silenciosa e trmula, confirmando o
ditado que o capito Cambar com freqncia repetia  aos amigos ntimos:
"Mulher que vai uma vez comigo pra cama, vai sempre".
  De vez em quando Rodrigo saa com os novos amigos a caar veados ou
jacutingas. Aos domingos corria com eles carreiras em cancha reta. As
apostas eram moderadas  e todos se admiravam de nunca haver briga.
Diziam: "O capito Rodrigo  homem que sabe perder". Quase todas as
noites havia reunies na venda do Nicolau depois do  jantar. Rodrigo
tocava violo e cantava, e quando encontrava algum repentista,
desafiava-o para trovar; e, sob risadas, ficavam os dois at tarde no
seu duelo potico.  J se dizia em Santa F que "onde est o capito
Rodrigo no ha tristeza".
  E assim se passaram algumas semanas. Rodrigo no podia tirar Bibiana do
pensamento. Para falar a verdade, no procurava esquec-la. Fizera
muitas tentativas para  falar com a moa, mas no conseguira nada. Aos
domingos costumava ir esperar a sada da missa para ver sua "tirana"
passar, de olhos baixos, muito vermelha, acompanhada  pela me e pelo
pai, o qual, ao avist-lo, mal batia com dois dedos na aba do chapu e
passava de largo. Tinham-lhe contado que Pedro Terra dissera, em certa
roda:  "Esse tal capito Rodrigo  um homem sem serventia. Vive
cantando, bebendo e jogando, e tem raiva do trabalho". Rodrigo
exasperava-se. A moa morava naquela casa  ali do outro lado da praa e
no entanto era como se vivesse em Viamo, em Rio Pardo ou em So Paulo,
porque raramente a via. Pensara em mandar-lhe um recado, escrever-lhe
um bilhete... Um dia chegou a falar com o padre.
  - Vigrio, eu queria pedir um favor a vosmec.
  O padre Lara aproximou o ouvido dos lbios do capito.
  - Diga.
  - Arranje um jeito de eu falar com dona Bibiana. O sacerdote sacudiu a
cabea com veemncia.
  278
  - No conte comigo pra essas coisas. No sou nenhum alcoviteiro. No
quero me meter nesses assuntos.
  - Mas as minhas intenes so srias. Quero casar com a moa.
  - Ento fale com o pai dela.
  - Mas o velho Terra no me d ocasio. No quer saber de mim.
  - Fale com o irmo.
  - Ele no est no povoado.
  - Deve chegar por estes dias.
  - Mas eu sei que o Pedro Terra ouve vosmec. Diga alguma coisa a meu
favor.
  O padre coou a papada. Seus olhos lquidos fitaram o rosto do capito.
  - Vosmec me bota em cada aperto...
  - Ento vai falar?
  - Vamos ver... Talvez. No prometo nada.
  O vigrio procurou safar-se. Mas Rodrigo agarrou-lhe a manga da batina e
disse:
  - Padre, vosmec sabe como sou esquentado. Estou levando este negcio
com bons modos. Mas se perco a pacincia, no respondo pelo que
acontecer.
  - Vosmec  um homem impossvel! - exclamou o sacerdote. E abalou,
furioso.
  Por aqueles dias Juvenal voltou de sua viagem a Cruz Alta. Vendo a
carreta carregada de fardos e caixas, Rodrigo teve uma idia. Depois de
abraar Juvenal, chamou-o   parte e disse:
  - Tenho uma proposta pra l fazer.
  - Que ?
  - Um negcio...
  - Que negcio?
  Estavam sentados debaixo da figueira. A tarde caa calma, e o cu estava
limpo, dum azul liso e desbotado.
  - A venda do Nicolau  uma droga - declarou Rodrigo.
  - Mas  o que temos, no ? - retrucou o irmo de Bibiana, meio spero.
  279
  - Vosmec conhece a loja do velho Horcio Terra no Rio Pardo?
  No hei de conhecer! O velho Horcio  meu tio-av.
  - Pois aquilo  que  loja. Tem de tudo,  grande e bem sortida. Santa
F precisa duma venda melhor que a do Nicolau.
  Rodrigo olhou para Juvenal, mas no viu no rosto deste nenhum sinal de
compreenso ou entusiasmo. Continuou:
  Tenho na guaiaca algumas onas e pataces. No  muito
  mas d pra gente principiar... Pois a minha proposta  a seguinte:
Vosmec tem uma carreta e eu tenho um dinheirinho. Vamos fazer uma
sociedade. Vosmec faz o sortimento  no Rio Pardo e eu tomo conta da
loja aqui.
  O rosto de Juvenal continuou impassvel. Seus dentes amarelentos
apertavam o cigarro apagado. Permaneceu em silncio, olhando para o
casaro dos Amarais, cujas janelas  e portas continuavam fechadas.
  Rodrigo deu-lhe uma palmada jovial no joelho.
  - Que tal?
  -  o qu? Acha ou no acha boa a idia?
  - Pode ser, pode no ser...
  - Mas vosmec no arrisca nada. Eu  que entro com o dinheiro. Vosmec
entra com sua carreta, sua experincia e suas relaes no Rio Pardo.
Comeamos com um negcio  pequeno, depois vamos melhorando a coisa aos
poucos.
  - ... pode ser.
  - Que diabo! Vosmec no se entusiasma com nada. Juvenal sorriu com um
canto da boca.
  - No se pode fazer nenhum negcio no ar. Tenho famlia.
  - Pois ento pense. Pense e me diga o que resolveu.
  - Vou pensar. Juvenal ergueu-se.
  - Outra coisa - ajuntou Rodrigo, levantando-se tambm. - Quero me casar
com a sua irm.
  280
  Juvenal no disse nada. Tirou o isqueiro, bateu a pedra e quando o pavio
prendeu fogo, aproximou dele a ponta do cigarro. S depois de tirar uma
baforada  que falou.
  - J se entendeu com o meu pai?
  - Ainda no.
  - E com a Bibiana?
  - Tambm no.
  - Ela gosta de vosmec?
  - No sei.
  - Como  que diz ento que vai se casar com ela?
  - Mas como  que vou falar com ela se o velho Terra cuida da filha como
cachorro ovelheiro cuida de rebanho?
  Pelos olhinhos de Juvenal passou um rpido brilho pcaro.
  - Decerto  porque ele acha que vosmec  um tigre. Rodrigo fez um gesto
de impacincia. Via agora um vulto no
  ptio da casa de Pedro Terra, sob os pessegueiros carregados de frutos.
Um vestido azul... Sim, era Bibiana que dava de comer s galinhas.
  - Amigo Juvenal, faa alguma coisa por mim.
  - Mas que  que vosmec quer que eu faa?
  - Fale com seu pai, com sua irm. As minhas intenes so boas. No sou
nenhum pesteado.
  Juvenal mirou o outro longamente e depois disse:
  - No acha melhor dar tempo ao tempo?
  Rodrigo desferiu um pontap numa pedra, arremessando-a contra o tronco
nodoso da velha figueira. Estava de bombachas de riscado e camisa
branca, com o leno vermelho  no pescoo, a aba do chapu quebrada na
frente. Juvenal olhou-o com uma mistura de simpatia e m vontade.
Durante toda a viagem a Cruz Alta levara no peito uma preocupao  que
em vo se esforara por vencer. No se sentia seguro sabendo que tinha
deixado sua mulher sozinha em casa, numa terra onde andava s soltas um
homem como o capito  Rodrigo. Nunca tivera nenhuma razo para duvidar
da fidelidade da esposa; a Maruca era uma moa quieta e trabalhadeira,
que nunca dera nenhum motivo para falao.  Mas, por mais que ele
fizesse, no conseguia esquecer Rodrigo Cambar e por isso
  281
  se apressara a voltar. E olhando agora para a cara do capito ali
naquele entardecer quente e sereno, Juvenal no podia ter nenhuma dvida
quanto aos sentimentos  da irm. Apesar de Bibiana no lhe ter nem
mencionado o nome de Rodrigo, ele pressentia que a coitada estava j
irremediavelmente apaixonada por aquele forasteiro.  O diabo do homem
tinha feitio.
  - O que tenho feito aqui nesta terra, Juvenal, chega a ser uma
desmoralizao pra mim. Nunca me rebaixei tanto. Nunca fiquei onde no
me queriam. Sou desses que  quando querem as coisas fazem, sem pedir
licena a quem quer que seja. Mas aqui tenho baixado a cabea. O mundo 
muito grande e eu podia encontrar por a miles  de moas que quisessem
casar comigo. Mas gostei da sua irm e decidi que ela tem de ser minha
mulher. E lhe digo mais. Hei de me casar com dona Bibiana, custe o  que
custar.
  Juvenal no perdeu a calma.
  - Mesmo que ela no queira?
  - Bom, isso  diferente... Se ela no me quiser, monto a cavalo e me vou
embora. Com dor de corao, mas vou. Mas se ela quiser...
  Calou-se. Achou melhor no continuar, porque no queria perder a amizade
de Juvenal. Ia dizer que se Bibiana o amasse, ele a tiraria de casa e a
levaria para longe  na garupa do cavalo. J tinha feito isso com outras
mulheres, em outros lugares. Deixava-as depois no caminho, quando se
cansava delas. Mas com Bibiana ia ser    diferente. Queria a moa para
esposa. Desejava ter uma casa e filhos, muitos filhos.
  Aquela manh no cemitrio, ao dar com os olhos em Bibiana, ele tivera
uma espcie de viso do seu destino. Parecia que uma voz lhe segredava:
"Chegou a hora, capito.   esta".
  - Tenho de ir andando... - disse Juvenal.
  - Pense bem no negcio que lhe propus.
  - Vou pensar.
  - E quando  que me d a resposta?
  - Qualquer dia.
  282
  Rodrigo teve mpetos de dar um pontap no traseiro de Juvenal para
anim-lo, faz-lo tomar interesse pelas coisas. Quando ele se afastou no
seu andar lento, um pouco  gingado, ficou a acompanh-lo com os olhos.
Juvenal tinha as pernas meio arqueadas e seus cabelos, dum negro
lustroso e liso, eram compridos, cobriam-lhe o pescoo  e roavam na gola
da camisa. Havia nele qualquer coisa de lerdo e descansado, como se de
tanto carretear ele tivesse tomado o jeito dos bois.
  Rodrigo voltou-se para a casa de Pedro Terra e ficou a contempl-la.
Bibiana havia desaparecido do ptio, mas l estavam ainda as galinhas a
ciscar o cho. Achou  bonita a casa dos Terras  luz macia do
entardecer. No havia vento e as rvores estavam imveis. Os pssegos
amarelavam entre as folhas verdes dos pessegueiros  e o cho, sob as
rvores, era dum vermelho-escuro manchado de sombras arroxeadas. Dum
outro quintal vinha uma fumaa azulada, cheirando a cip e ramos secos
queimados.  Havia tambm no ar um cheiro bom de carne assada. Nessas
horas Rodrigo sonhava com uma casa, uma boa cadeira e Bibiana. Decidia
que estava cansado de guerras e andanas  e que j era tempo de sentar o
juzo e cuidar do futuro. Pensou nos filhos... Queria que o primeiro
fosse homem. Havia de dar-lhe uma educao de macho. Pediria  ao vigrio
que lhe ensinasse a ler, escrever e a contar... Mas havia de ensinar-lhe
principalmente a andar a cavalo e manejar as
  armas.
  Nicolau apareceu  porta da venda.
  - Est na mesa, capito!
  Despertado de seu devaneio, Rodrigo respondeu:
  - J vou indo.
  Naquela noite no cantou. Todos estranharam ao v-lo to macambzio.
Naquela noite e nas muitas outras noites e dias que se seguiram, Rodrigo
vrias vezes avistou  Bibiana, mas de longe. E por mais que inventasse
pretextos, no conseguiu falar com ela. E quando o pai a levou a passar
uma temporada na estncia dum amigo, o capito  ficou no povoado,
amargando sua saudade.  noite sentava-se sozinho debaixo da figueira,
olhando para a casa de Pedro Terra e imaginando coisas. Freqentemente
tinha  de saciar
  283
  o seu desejo de Bibiana no corpo magro da mulher do Nicolau, o qual
comeava j a desconfiar de tudo mas preferia fingir que no sabia de
nada. Rodrigo tinha pena  do vendeiro e ao mesmo tempo o desprezava. s
vezes ficava irritado com Paula, porque ela no era nova, bonita e limpa
como Bibiana. A chinoca continuava a deixar-se  usar num silncio
submisso e sempre assustado. No princpio esperavam que Nicolau sasse,
para irem para a cama. Ultimamente Rodrigo j no fazia mais cerimnia.
E muitas vezes, quando estavam ambos deitados, ouviam do outro lado do
tabique a tosse ou o ressonar de Nicolau. Por fim Rodrigo no pde
suportar mais Paula: e  uma noite, para evitar que ela viesse para sua
cama, trancou a porta do quarto. E depois, ouvindo entre enojado e
exasperado rudos suspeitos no quarto contguo,  bateu com o p na
parede e gritou:
  - Faam esse negcio sem barulho!
  Revolveu-se na cama e fechou os olhos. O sono, entretanto, no lhe veio.
Ele pensava em Bibiana, nos seus seios brancos, no seu corpo jovem, nos
seus olhos enviesados...  Decidiu que quando ela voltasse da estncia ia
falar-lhe, nem que para isso tivesse de passar por cima do cadver do
pai, do irmo, do padre, do bispo, do diabo!  Pensou tambm em fazer a
mala e ganhar de novo a estrada. Um homem como ele se arranjava em
qualquer lugar... Mas no momento mesmo de formular esse pensamento ele
j sentia, j sabia que ia continuar em Santa F.
  E quanto mais o tempo passava, mais Rodrigo compreendia ser-lhe
impossvel viver sem Bibiana. O que a princpio fora apenas desejo
carnal, agora era tambm um pouco  ternura: era amor. E o capito
Cambar inquietava-se por isso. Porque sempre lhe parecera que o nico
amor digno dum homem era esse que apenas pede cama. O amor  de fazer ou
cantar versos e mandar flores, esse amor de doer no peito, de dar
saudade era amor de homem fraco. Ele cantava versos que falavam em
tiranas, saudade  e mgoa, s por brincadeira, sem sentir de verdade as
coisas que dizia. No entanto, agora estava enfeitiado por Bibiana
Terra.
  E em fins daquele dezembro quente e parado, Rodrigo Cambar pela
primeira vez compreendeu o profundo sentido dum 
  284
  ditado popular: "Quem anda cego de amor no sabe se  noite ou se  dia".
  7
  Um novo ano entrou e em fins de janeiro a filha de Rosa, prima de Pedro
Terra, ia casar com um moo de Porto Alegre que ela conhecera em uma de
suas viagens  capital.  O pai da noiva, Joca Rodrigues - um dos mais
prsperos plantadores de erva-mate de Santa F - decidiu fazer festa
grande no dia do casamento. Pediu emprestado o  gaiteiro da estncia de
Ricardo Amaral, fez matar dois novilhos gordos, dois porcos e quinze
galinhas e ps a mulher e muitas amigas e comadres a fazerem doces,
pes, pastis, roscas e biscoitos. O noivo mandou de presente ao futuro
sogro trs pipas de vinho feito na quinta dos pais. E quando Rosa
Rodrigues - que era econmica  a ponto de parecer sovina - perguntou ao
marido se ele pretendia dar de comer e beber a um batalho, Joca
respondeu:
  - Que diabo, mulher!  a nossa nica filha, e vai fazer um casamento.
Se a gente no festeja uma ocasio dessas, quando  ento que vai
festejar?
  Rosa suspirou, baixou a cabea e meteu de novo as mos na massa de po.
E no dia do grande acontecimento Santa F no falou noutra coisa.
  O noivo viera s. Era um moo baixo, quieto, de grossos bigodes negros e
olhos mansos. Os pais tinham nascido na ilha dos Aores e possuam nos
arredores de Porto  Alegre uma quinta onde cultivavam parreiras e
hortalias, faziam vinho, queijo e linguia e criavam porcos e galinhas.
A chegada do rapaz a Santa F causara alguma  sensao. Qualquer
forasteiro que chegasse, sempre era uma novidade que ocupava a ateno
dos habitantes do povoado, onde a vida de ordinrio se arrastava calma
e igual. Mas aquele homem do litoral, que vestia e falava dum modo
diferente das gentes do interior, de certo modo representava uma parte
da Provncia cujos habitantes  no tinham ainda cortado completamente o
cordo 
  285
  umbilical que os prendia a Portugal. Algumas famlias aorianas cujos
antepassados tinham chegado ao Continente de So Pedro, havia quase
oitenta anos, mantinham  ainda mais ou menos intatos os costumes das
ilhas.
  O noivo da filha de Joca Rodrigues no sabia montar a cavalo com o garbo
e o desembarao dos homens do interior e da fronteira. E quando entrou
no povoado, meio  encurvado em cima dum petio manco e cansado, seguido
de dois escravos, um santa-fezense que estava parado  frente da venda
do Nicolau, gritou, jovial:
  - Cuidado, baiano!
  E outro, mais adiante, vendo como o forasteiro se agarrava  cabea do
lombilho, no se conteve e exclamou:
  - Largue o Santo Antnio, moo!
  O recm-chegado sorriu. Tinha conscincia de estar fazendo figura
triste. Achava-se agora em meio de gente habituada a uma vida e a um
tipo de trabalho que ele desconhecia  quase por completo. Jamais
manejara o lao ou as boleadeiras; no sabia domar potros nem parar
rodeio. Meio encalistrado, distribua cumprimentos amveis para a
direita e para a esquerda, como se quisesse comprar com essa afabilidade
a tolerncia daqueles gachos.
  No levou, porm, muito tempo para se fazer estimado. Como a maioria dos
ilhus, era simples e alegre, duma alegria natural, sem fanfarronada nem
barulho. Gostava  de danar, cantar, era econmico, firme nas suas
opinies e no se expunha a riscos em seus negcios. Apegado  terra,
preferia - como a maioria dos homens de sua  origem - uma vida sbria e
sedentria s guerras, correrias e aventuras. Era religioso,
hospitaleiro e tinha um respeito supersticioso pela lei e pela
autoridade.
  O padre Lara travou logo conhecimento com aquele moo de Porto Alegre,
pediu-lhe notcias da capital e do mundo e recebeu com satisfao os
jornais da Corte que  o recm-chegado trouxera consigo. E, convivendo
com aquele filho de aorianos, o vigrio, que gostava de estudar e
observar as pessoas e as coisas, sorria e achava  que o noivo da filha
de Joca Rodrigues era bem a anttese de Rodrigo Cambar. Sua linguagem -
na pronncia, na entonao e no emprego de certos vocbulos que o
interior  da provncia
  286
  usava pouco ou desconhecia de todo - lembrava a das ilhas, e
aproximava-se muito, na construo das sentenas, do portugus castio
que o padre lia em Manuel Bernardes  e Bernardim Ribeiro. Era uma lngua
cantante, por assim dizer apertada, cheia de si chiados, aa surdos, ee
mudos, ao passo que Rodrigo Cambar pronunciava todas  as letras, falava
uma linguagem clara, como que quadrada no seu escandir de slabas, e
cheia de castelhanismos trazidos da Banda Oriental. Para o moo de Porto
Alegre  uma moa era uma "rapariga"; para seus avs, uma "cachopa"; mas
para Rodrigo, mulher moa era s vezes "muchacha" ou, quando ele queria
depreciar a jovem, "piguancha".  Quando o noivo desejava exprimir
agradecimento, dizia respeitosa e quase solenemente: "Obrigado a vossa
merc"; mas Rodrigo soltava um "Gracias!" rpido, casual  e quase
insolente.
  O padre Lara lembrou-se dos tempos em que fora capelo da igreja de
Viamo. Isso tinha sido pouco antes de 1822, quando j se falava da
surda luta pela independncia  do Brasil. Ele via a m vontade, a
desconfiada reserva com que alguns aorianos e seus descendentes
recebiam ou comentavam as notcias sobre a propaganda libertria.  Para
eles era melhor que o Brasil continuasse sob o domnio portugus. Se o
pas ficasse independente, sabiam que iam sentir-se como que
abandonados.
  Esses aorianos, to apegados a suas terras, lavouras, lojas e oficinas
representavam a ordem, a estabilidade, o respeito s leis, a obedincia
 Corte de Lisboa.  Mas os homens que, como Rodrigo, tinham vindo das
Guerras Platinas, onde estiveram em contato com os caudilhos e
guerreiros castelhanos que procuravam libertar sua  ptria do domnio
espanhol; os homens do interior e da fronteira que amavam a ao, o
entrevero, as cargas de cavalaria, a lida e a liberdade do campo, onde
viviam  longe do coletor de impostos e das autoridades - esses falavam
em liberdade, hostilizavam os portugueses, queriam a independncia.
Representavam a populao menos  estvel porm mais nativista do Rio
Grande. Criavam gado, taziam tropas e eventualmente engrossavam os
exrcitos quando o inimigo invadia a provncia. Alguns brigavam  por
obrigao; muitos por profisso; mas a maioria brigava por gosto.
  287
  E agora, observando o moo de Porto Alegre que viera casar com uma filha
de Santa F, o padre Lara mais uma vez ficava em dvida quanto ao tipo
que mais lhe agradava:  o habitante sedentrio e pacato do litoral ou
aquela gente meio brbara do interior? E conclua um tanto alarmado que,
contra toda a lgica, entre o futuro genro  de Joca - o moo quieto, que
se confessava, tomava comunho e ia  missa - e Rodrigo Cambar, que no
tinha Deus nem lei e zombava da religio, ele, um sacerdote,  preferia o
ltimo, de todo o corao. Era uma questo de simpatia que nada tinha a
ver com suas convenincias ou convices religiosas.
  Para a Igreja os litorneos, os habitantes de lugares como Porto Alegre,
Viamo, Rio Grande e Pelotas, ofereciam uma seara mais rica e segura que
a de outras zonas  da provncia. A Igreja Catlica precisava de
estabilidade e havia nessas cidades, vilas e povoados uma hierarquia
ntida - nobreza, clero e povo - uma diviso muito  conveniente ao
trabalho de evangelizao. Quanto s populaes das estncias e
charqueadas, o problema era diferente e infinitamente mais complicado.
Aquela vida  agreste e livre convidava  violncia,  arbitrariedade e 
insubmisso. As charqueadas eram focos de banditismo. O trabalho das
estncias como que nivelava o patro  ao peo e ao escravo. Muitas vezes
o estancieiro saa a camperear ombro a ombro com aqueles numa faina
igualizadora que oferecia certos perigos, pois criava o risco  de negros
e caboclos quererem gozar das mesmas prerrogativas que seus senhores. O
padre Lara sabia que todos os homens tinham sido criados  ijnagem e
semelhana  do Senhor. Mas reconhecia tambm que, para maior facilidade
e eficincia do trabalho dos sacerdotes de Deus na terra, era necessrio
que houvesse ordem, um sentido  de hierarquia, um escalonamento ntido
da sociedade. Porque a desordem era inimiga da Religio, e se os homens
no reconhecessem nenhum princpio de autoridade na  vida temporal, como
haviam de reconhec-lo na vida espiritual? Por outro lado estava tambm
convencido de que todas as idias de liberdade e igualdade traziam no
seu mago se" mentes de atesmo e anarquia, tanto que as conspiraes
republicanas eram feitas em geral pela maonaria. Lera muitos ensaios
sobre a Revoluo Francesa.  Detestava Marat, Robespierre e 
  288
  Danton. Achava-os uma corja de ateus que negavam o Deus nico e falavam em
nome duma deusa absurda, quando na verdade estavam apenas dando voz a
seus apetites, ambies  e perverses. O mundo - achava o padre Lara -
nunca fora mais feliz que na Idade Mdia. Ateus e hereges chamavam a
essa poca urea da Histria a era do obscurantismo,  a idade negra. Mas
um dia a Idade Mdia haveria de voltar e com ela toda a glria da Santa
Madre Igreja.
  Rodrigo - achava o vigrio - representava  maravilha a mentalidade do
homem do campo, da guerra e do cavalo, que no teme a Deus nem ao diabo.
Aqueles aventureiros  habituavam-se a nunca ir  igreja nem a respeitar
os sacerdotes. No havia em suas vidas ordem ou mtodo ou estabilidade
que lhes permitisse dedicarem pelo menos  um dia da semana ao culto do
Criador. Em alguns lugares da Provncia os homens nem chegavam a saber
quando era domingo. Por outro lado, como podiam eles humilhar-se  diante
de Deus se sabiam que Deus era um homem, e um homem macho - segundo o
rude cdigo continentino - nunca baixa a cabea nem ajoelha diante de
outro homem? Habituados  a guerras, asperezas e violncias, confiavam
mais em seus cavalos, suas armas e sua coragem do que em santos, rezas,
sacerdotes ou igrejas.
  s vezes, estudando as gentes de Santa F, comparando-as com as outras
pessoas que conhecera em outros recantos da provncia, estendendo o
olhar para os horizontes  que por assim dizer cercavam aquelas vastas
campinas em derredor do povoado, o padre Lara ficava a pensar no que
seria aquela populao dali a cem anos... A vida  para ele no era fcil
nem agradvel, por causa da asma, mas gostaria de poder durar tanto como
Matusalm para ver que resultado teria aquela mistura de raas que  se
estava processando na provncia de So Pedro. Sabia que era uma espcie
de tradio entre os Amarais fazer filhos nas escravas, produzir mulatos
e mulatas, que  por sua vez depois se cruzavam com brancos, ndios ou
pretos. Os brancos gostavam muito das ndias. O padre ouvira dizer que
as mulheres ndias se entregavam aos  ndios por obrigao, aos brancos
por interesse e aos negros por prazer. Agora - refletia ele - aquele
moo de sangue aoriano ia casar-se com a filha de Joca Rodrigues,  que
era um paulista neto de portugueses do Minho.
  289
  Fazia j mais de quatro anos que tinham chegado  Feitoria do Linho
Cnhamo, s margens do rio dos Sinos, centenas e centenas de colonos
alemes. No futuro os filhos  desses imigrantes haveriam de fatalmente
casar-se com as gentes da terra e o sangue alemo se misturaria com o
portugus, o ndio e o negro. Para produzir... o qu?  Havia outra coisa
que inquietava o vigrio de Santa F. Era pensar em que entre esses
imigrantes alemes deviam existir muitos protestantes. Chegaria o dia em
que  as igrejas luteranas comeariam a aparecer nas colnias. O governo
devia evitar isso, estabelecendo como condio para um imigrante entrar
no Brasil a sua qualidade  de catlico praticante. Porque a terra da
Santa Cruz pertencia espiritualmente  Igreja Catlica. Muitos anos
antes de os alemes sonharem com aquela parte do mundo,  j havia ali
missionrios da Sociedade de Jesus. O primeiro branco a pisar as terras
do Continente fora o jesuta Roque Gonzales. Todos sabiam disso.
  Na manh do dia em que a filha de Joca Rodrigues ia casar-se com o moo
de Porto Alegre, o padre Lara ficou sentado nos degraus da capela,
falando sozinho, lembrando,  comparando, imaginando... Se ele vivesse
tanto quanto Matusalm, ia ver muita coisa engraada. Mas com aquelas
dores no peito no esperava ir muito longe. Seus olhos  voltaram-se para
o alto da coxilha onde ficava o cemitrio. Por trs daquela cerca de
pedra estava a populao mais tranqila de Santa F; uma gente que no
incomodava  ningum, no falava, no ria, no danava. Suas almas
estavam num outro mundo. Para uns, esse outro mundo era o cu; para
outros, o inferno; para outros, o purgatrio.  Mas para onde iria ele?
Teria o grande privilgio de ver Deus? Imaginou-se entrando no cu,
erguendo os olhos para a face resplandecente do Criador. Convenceu-se
de que sua imaginao no o ajudava. Achava tambm que seria demasiada
pretenso sua esperar que, depois de morto, fosse levado diretamente 
presena de Deus.
  Um homem passou naquele momento e perguntou:
  - Falando sozinho, vigrio?
  O padre Lara caiu em si e ficou meio encabulado. Mas respondeu com
sereno bom humor:
  - Coisas de velho caduco... coisas de velho caduco.
  Depois do casamento na capela houve jantar e baile no terreiro da casa
de Joca Rodrigues. Praticamente toda a populao de Santa F compareceu
 festa com as suas  melhores roupas. Ao anoitecer sentaram-se em bancos
sem encosto (pranchas de madeira em cima de pedras e tijolos empilhados)
ao longo duma grande mesa feita de vrias  mesinhas emendadas e a cuja
cabeceira estavam sentados os noivos, tendo  direita os pais da moa e
 esquerda o padre Lara. Em cima da mesa viam-se pratos e travessas
cheios de pedaos de galinha assada, carne de porco com rodelas de
limo, batatasdoces e aipim. No fundo do quintal preparava-se o
churrasco: dezenas de espetos  fincados em bons nacos de carne estavam
colocados sobre um longo valo raso, no fundo do qual luziam braseiros; a
graxa derretida caa nas brasas, com um chiado,  e uma fumaa cheirosa
subia no ar, enquanto duas pretas de vez em quando mergulhavam ramos de
pessegueiro dentro dum balde com salmoura e depois aspergiam os
churrascos,  trazendo os que ficavam prontos para a mesa, onde eram
disputados aos gritos. Os homens usavam suas facas, que tiravam da
cintura ou das botas, e com elas cortavam  o assado, muitas vezes
respingando o rosto com o sumo sangrento da carne. Nas barbas negras de
alguns deles a farinha branquejava como geada sobre campo de macegas
recm-queimado. O dono da casa dirigia o jantar, gritava para os
churrasqueadores, recomendando: "Um bem assado!" ou "Que venha uma boa
costela! " ou ainda: "Um  gordo aqui pr Chico Pinto!" No princpio da
festa notara-se um silncio um pouco constrangido. Mal, porm, o vinho
comeou a encher os copos e subir  cabea dos  convivas, eles se
puseram a falar mais alto, a rir, a contar histrias, entusiasmados. As
mulheres, mais quietas, limitavam-se a sorrir, de cabea meio baixa. O
terreiro estava iluminado por muitas lamparinas de azeite e sebo dentro
de guampas postas em cima da mesa ou presas nos galhos das laranjeiras e
pessegueiros.
  De seu lugar Rodrigo cocava Bibiana com olhos famintos. A moa estava
junto de Bento Amaral, no muito longe do lugar do capito. Este podia
ver-lhe bem o rosto,  graas  lamparina que
  290
  291
  
  havia sobre a mesa, bem na frente dela. Estava linda no seu vestido
branco, com um fichu no pescoo, os cabelos escuros puxados num coque,
no qual estava metido  um pente espanhol. Bento tinha o rosto voltado
para ela e dizia-lhe alguma coisa. Era um homem grandalho, de cabelos
crespos muito lustrosos e suas grossas; e  era talvez, com exceo do
noivo, o homem mais bem vestido da festa. Bibiana, porm, parecia no
estar muito interessada no que ele dizia, porque enquanto o rapaz
falava ela brincava com uma bolinha de miolo de po, rolando-a entre o
indicador e a mesa, de olhos baixos, sria, o sobrolho franzido. Rodrigo
dizia para si mesmo:  "Vou falar com ela hoje. Vou falar com ela hoje".
Mastigava o seu churrasco com gosto, bebia o seu vinho estralando a
lngua. Sentia aos poucos um calor bom apoderar-se-lhe  do corpo e ao
mesmo tempo ficava um pouco inquieto, pensando no que poderia acontecer
se ele se embriagasse e "perdesse a tramontana". O gaiteiro comeou a
tocar  e os primeiros acordes do instrumento foram abafados pela
gritaria de aplauso. Depois as vozes silenciaram um pouco e o homem -
mulato de cara larga picada de bexigas  - comeou a tocar uma tirana.
Estava sentado numa cadeira, no meio do terreiro, o chapu quebrado na
frente, o barbicacho quase a entrar-lhe na boca; tocava de olhos
fechados, as sobrancelhas erguidas, e segurava a gaita com frentica
paixo, como se estivesse abraando uma mulher. Os noivos comiam pouco,
mas olhavam-se muito  e sorriam um para o outro. O padre estava
empenhado numa conversa com o pai da noiva. Rodrigo olhou um momento
para a filha de Joca Rodrigues: viu-a ali de vu e  grinalda contra um
fundo escuro de rvores na sombra e prometeu a si mesmo que - custasse o
que custasse - dentro de algum tempo quem estaria na cabeceira duma mesa
como aquela seriam ele e Bibiana. Afogou suas vises num novo gole de
vinho, bem no momento em que algum lhe passava por cima do ombro um
espeto com um churrasco  cheiroso e suculento. Largou o copo, segurou o
espeto e gritou: - Sirvam-se, patrcios!
  Muitas mos e facas aproximaram-se do churrasco. O gaiteiro continuava a
tocar a tirana. Rodrigo via por sobre sua cabea um vago brilho de
estrelas e, num relance,  lembrou-se
  292
  das suas noites de guerra, nos acampamentos da Banda Oriental em que,
cansados de brigar, eles se deitavam, alguns com suas chinas. Quase
sempre havia algum que  tocava cordeona ou guitarra e cantava. E ele,
deitado de papo para o ar sobre os arreios, com as mos enlaadas contra
a nuca, ficava olhando as estrelas, pensando  nas muitas mulheres que
tivera, e em como era bom estar ainda vivo. A carne que davam s tropas
era pouca e ruim; a gua que bebiam era turva. Mas era bom estar  vivo.
E agora ali sentado quela mesa - as faces ardentes, uma comicho nas
mos e nos ps - olhando para Bibiana ele conclua mais uma vez que a
melhor coisa do  mundo era estar vivo. S lamentou que no pudesse virar
a mesa com um pontap, dar um empurro em Bento, tomar Bibiana pelo
brao, montar a cavalo, levar a moa  na garupa e ir deitar-se com ela
em meio do campo, sob aquelas mesmas estrelas que o haviam acompanhado
em tantas campanhas.
  Bibiana olhou para ele furtivamente. E no rpido instante em que seus
olhos se encontraram Rodrigo viu, sentiu que a moa o amava. Essa
potranquinha est laada  - concluiu. - J botei nela a minha marca.
Meteu na boca um naco de carne gorda, triturou-o nos dentes fortes e
pensou ainda: Minha marca no sai mais. Nunca mais.  Mastigou bem a
carne e depois ajudou-a a descer goela abaixo com um gole de vinho
tinto. Afrouxou o n do leno. "Est quente, amigo" - murmurou,
dirigindo-se ao  homem que tinha a seu lado. O outro no ouviu e
continuou a comer, de cabea muito baixa, como um porco com o focinho
metido no cocho. Os sons rasgados e chorosos  da gaita enchiam o ar. Um
ventinho morno bulia com as folhas, fazia oscilar a chama das
lamparinas. Homens iam e vinham trazendo churrascos ou levando espetos.  A vida era boa - pensava Rodrigo. Ele havia de casar com Bibiana.
Esta noite tiro a minha dvida. Vou falar com ela.
  Algum pediu silncio. O padre levantou-se, fez um breve discurso e no
fim pediu que bebessem um brinde  felicidade dos noivos. Tiniram copos.
Os convivas estavam  de p, quando novamente os olhos de Bibiana se
encontraram com os de Rodrigo, e por assim dizer chocaram-se de leve
como copos que se tocam num brinde. Minha marca   pra sempre - pensou o
capito.
  293
  Sentaram-se. Foi s ento que Rodrigo comeou a sentir que o observavam.
Voltou a cabea e deu com os olhos de Pedro Terra. Sorriu e fez-lhe um
sinal amvel. O pai  de Bibiana limitou-se a inclinar a cabea, srio.
Mas Juvenal, que estava ao lado do Pai ergueu a mo para Rodrigo num
aceno amistoso. O capito levantou o copo  e gritou-lhe um "Salud!" que
se perdeu em meio, da algazarra.
  Quando o jantar terminou, a mesa foi desmanchada, os bancos arredados e
o terreiro ficou livre para o fandango. No princpio houve um pouco de
acanhamento; os moos  no se decidiam a tirar as moas para danar. Mas
Joca Rodrigues os animou, convidando Rosa para a primeira marca. Depois
puxou os noivos para o terreiro. Joca sabia  que as gentes das ilhas
eram danadeiras e alegres; tinham trazido para o Continente muitas das
danas que se danavam nas vilas e na campanha, como a chimarrita,  o
vira e tantas outras. Novos pares vinham para o centro do terreiro e
Ataliba, o tocador de violo, aboletou-se no seu mocho, debaixo dum
pessegueiro, e comeou  a pontear a guitarra. Algum gritou: "A,
Ataliba velho!" Rodrigo estava encostado no grosso tronco duma
laranjeira e olhava em torno, meio atarantado. A bebida  lhe dera uma
tontura boa e quando caminhava ele tinha a impresso de que o cho lhe
fugia. Mas no estava to embriagado que no compreendesse que estava
embriagado  e que se no se contivesse poderia fazer alguma asneira. No
queria de modo algum entornar o caldo. Desejava falar com Bibiana sem
precisar brigar com ningum. Se  provocasse algum escndalo talvez
perdesse a moa para sempre. L estava ela junto de Bento, que
faceiramente ajeitava o leno, O cachorro! O diamante do anel do
herdeiro do velho Amaral rebrilhava como seu cabelo besuntado de
vaselina perfumada. Rodrigo imaginou-se a atravessar o terreiro, na
direo do moo; viu-se a passar  a mo por aquela cabeleira e a
despente-la... Por um instante
  294
  o desejo de fazer isso foi to grande que ele abraou o tronco, como
para evitar que suas pernas o levassem at Bento Amaral.
  - Vai danar com a rvore? - perguntou-lhe algum. Rodrigo voltou a
cabea e viu o vigrio.
  - Ah! Pois , padre. As moas de Santa F no me querem. O padre Lara
acendeu um cigarro e olhou em torno. Depois,
  lanando um olhar enviesado para Rodrigo, perguntou:
  - Quantos copos de vinho bebeu, capito?
  - Uns dez...
  - Por que no vai dar um passeio na praa e depois volta
  pra c?
  - Est com medo que eu faa alguma loucura?
  - Para lhe ser franco, estou.
  - No se preocupe. Estou enxergando mui claro. No quero fazer barulho.
Quero mas  falar com dona Bibiana.
  O vigrio sacudiu a cabeorra.
  - No faa isso. O Bento pode ficar brabo.
  - Que morda o rabo!
  - Por que no deixa a coisa pra outra vez?
  Rodrigo no respondeu. Olhava a grande roda que se havia formado no meio
do terreiro.
  - Vamos danar o anu! - decidiu Joca Rodrigues. E bateu palmas, pedindo
silncio. As vozes se aquietaram e o pai da noiva dirigiu-se a Bento: -
Vosmec vai marcar.
  - Est feito! - respondeu o moo. Tinha uma voz gorda e
  retumbante.
  - Vamos, Ataliba! - gritou Joca para o violeiro. - O anu!
  Ataliba comeou a tocar.
  - Tudo cerra! - gritou Bento, cujo par era Bibiana Terra. Homens e
mulheres deram-se as mos e fecharam a roda. O
  sapateado comeou. Os homens batiam com as esporas ou o salto das botas
no cho duro do terreiro, enquanto as mulheres meneavam
   o corpo.
  - Cadena! - mandou Bento. Marcava a dana sem alegria nem graa. Dava
ordens: era ainda o senhor de Santa F a falar aos outros de cima de seu
cavalo. E no tom de  sua voz Rodrigo
  295
  
  percebia um certo orgulho, como se ele estivesse sempre a pensar assim:
Sou um Amaral. Eu mando. Sou um Amaral. Eu mando.
  Os pares lhe obedeciam. Quebravam a roda, os cavaleiros postavam-se 
mo direita das damas. As figuras se sucediam e todos pareciam
divertir-se muito.
  Quando houve uma pausa na dana, Ataliba cantou:
  O anu  um pssaro preto Passarinho de vero: Quando canta  meia-noite
D uma dor no corao...
  Folga, folga, minha gente, Que uma noite no  nada; Se no dormires
agora Dormirs de madrugada.
  Dormirs de madrugada - pensou Rodrigo. - Mas com quem? Com quem? E no
tirava os olhos de Bibiana. Via os pares passarem, ouvia o sapateado, a
voz do violeiro...
  Depois do anu danaram a chimarrita e o tatu. E no meio da balbrdia
Rodrigo de quando em quando via os olhos de Bibiana buscarem os seus,
oblquos e ariscos; esperava  longos minutos por esse encontro breve e
leve. A seu lado o padre Lara observava-o disfaradamente. Houve uma
pausa em que a msica cessou. Os homens passavam os  lenos pelos rostos
suados: as mulheres abanavam-se com seus leques ou fichus, sentavam-se,
diziam-se segredinhos com as cabeas muito juntas. O gaiteiro veio
substituir  Ataliba. E quando os pares comeavam a se preparar para a
tirana grande, Rodrigo sentiu que havia chegado sua hora. Tinha esperado
demais. A pacincia dum homem  tem limites. Apertou o brao do
  padre e disse:
  - Padre Lara, no estou bbedo nem nada. Olhe a minha mo. - Estendeu o
brao e abriu os dedos. Estavam firmes, sem o menor tremor. - Vou tirar
a Bibiana pra danar.  Quero que vosmec esteja perto pra ver como vou
me comportar.
  296
  Arrastou o padre consigo. Quando o viram aproximar-se de Bibiana, que j
estava de p, na frente de Bento, os outros pares se afastaram como se
todos estivessem  esperando por aquele momento especial. De repente
houve um silncio. At o gaiteiro parou. Foi um silncio to grande que
Bibiana chegou a temer que os outros pudessem  ouvir as batidas de seu
corao.
  Rodrigo fez uma cortesia na frente da moa e perguntou:
  - Vosmec quer me dar a honra desta marca?
  Ela quis dizer alguma coisa mas no pde falar. O padre Lara olhava para
Bento com uma expresso desolada na cara. Houve um curto segundo de
indeciso. Mas o filho  de Ricardo Amaral falou:
  - Dona Bibiana j tem par.
  Rodrigo no se perturbou, olhou para o outro, firme, e disse com calma:
  - Vosmec me perdoe, mas estou falando  com a moa...
  - Mas eu estou l respondendo.
  O sacerdote tomou do brao de Rodrigo, tentando arrast-lo dali.
  - Capito... - comeou ele a dizer.
  Rodrigo desembaraou-se do padre, e, fazendo nova curvatura para
Bibiana, repetiu o convite.
  - Vosmec quer me dar a honra de danar comigo a outra
  marca?
  Os convivas aproximaram-se e em breve formavam um crculo, no centro do
qual estavam Bibiana, os dois homens que a requestavam, e o padre.
  - J l disse que ela tem par!
  Rodrigo contemplava Bibiana, sem dar nenhuma importncia ao que o outro
dizia.
  - Se vosmec disser que no quer danar comigo - prosseguiu ele - vou-me
embora desta casa. Se vosmec disser que no quer saber de mim, vou-me
embora de Santa F  pra nunca mais voltar. Mas, por favor, diga alguma
coisa!
  Bibiana tinha a impresso de que seu corao era como um pssaro louco,
como um anu que ela tinha encerrado no peito e que agora batia com as
asas e com o bico em  suas carnes, querendo
  297
  fugir. Sentia as pernas moles, a cabea tonta. De olhos baixos, as faces
ardendo, no sabia que responder, e j agora nem sequer escutava o que
os outros diziam.  No queria que aqueles homens brigassem por sua
causa. Mas no queria tambm que Rodrigo fosse embora. Que fazer, meu
Deus? Que fazer?
  - Podemos resolver tudo isso amigavelmente - disse o padre, com voz um
pouco trmula. - Vamos, rapazes. No fim de contas no h motivo.
  Bento Amaral interrompeu-o:
  - Com certos tipos a gente s resolve as coisas de homem
  pra homem.
  Os outros admiravam-se da serenidade de Rodrigo, que encarava Bento a
sorrir. E quando falou, dirigiu-se aos que o cercavam:
  - Vosmecs esto vendo. Esse moo est me provocando... Insolente, Bento
Amaral botou as mos na cintura e disse:
  - Pois ainda no tinha compreendido?
  Bibiana sentiu que algum lhe pegava do brao e a arrastava para longe
dos dois rivais, abrindo caminho por entre os convivas. No ergueu os
olhos mas sentiu que  esse algum era o pai.
  - Vamos l pra dentro resolver isto como cavalheiros... - sugeriu Joca
Rodrigues, batendo timidamente no ombro de Bento.
  - No vejo nenhum cavalheiro na minha frente - retrucou este, mais
mordendo do que pronunciando as palavras. - Vejo 
  um patife!
  O sangue subiu  cabea de Rodrigo, que teve de fazer um esforo
desesperado para no saltar sobre o outro. Com voz surda
  replicou:
  - Por menos que isso j escrevi a faca a primeira letra de
  meu nome na cara dum patife.
  Bento deu um passo  frente, arremessou o brao no ar e sua mo bateu em
cheio numa das faces do capito Cambar. E quando Rodrigo, espumando de
raiva, quis saltar  sobre ele, sentiu que quatro braos o seguravam e
retinham pelos ombros e pela cintura. Esperneou, vociferando, fazendo um
esforo desesperado para se
  desvencilhar:
  - Me larguem! Canalhas! Me larguem! Traidores!
  E atirava pontaps para todos os lados.
  - Larguem o homem! - pedia Bento. - Larguem!
  Atarantados, Joca Rodrigues e o padre no sabiam o que fazer. O vigrio
viu um dio feroz no rosto do capito. Mais que isso: viu um desejo de
morte, de sangue.  Compreendeu tambm que j quela altura dos
acontecimentos, no era mais possvel resolver a questo sem violncia.
No meio da confuso ouviu-se de repente
  uma voz:
  - Isso no  direito! O homem foi esbofeteado e agora no
  deixam ele reagir. No  direito!
  Era Juvenal Terra quem falava.
  - Pois larguem o patife! - dizia Bento. - Larguem! Mas os homens que
seguravam Rodrigo no o largavam.
  - No podemos soltar o capito. Vai haver sangue! - disse um deles.
Juvenal replicou:
  - Depois dessa bofetada no pode deixar de haver sangue. E o padre ficou
surpreendido ao perceber no rosto do filho
  de Pedro Terra uma expresso que s podia ser dio mal contido; uma
surda raiva velava-lhe a voz. E o vigrio pela primeira vez percebeu
como Juvenal detestava Bento  Amaral.
  - No quero briga dentro da minha casa - declarou Joca
  Rodrigues.
  Sem tirar os olhos de Bento, Juvenal tornou a falar:
  - No precisa ser dentro da sua casa, seu Joca. Pode ser em qualquer
outro lugar. O mundo  muito grande.
  Rodrigo sentia arder-lhe o rosto, como se Bento tivesse encostado nele
um ferro em brasa. Sua garganta estava seca e irritada. Seus dentes
rilhavam. Mas ele j no  fazia mais esforo para se
  libertar.
  - Pois estou  disposio do seu amigo - anunciou Bento,
  encarando Juvenal.
  O filho de Pedro Terra apertou os olhos e a voz.
  -  muito fcil dizer isso, Bento, quando a gente tem pai alcaide e
miles e miles de capangas.
  - Que  que vosmec quer dizer com isso?
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    -  Que  muito bonito pr filho do coronel Ricardo se fazer de valento.
Porque neste povoado e em muitas lguas em roda dele quem arranhar o
dedo mindinho de vosmec  no escapa com vida.
  O rosto de Bento estava vermelho de clera, sua testa reluzia e em seus
olhos, que agora estavam fitos no rosto de Juvenal, havia uma expresso
que era ao mesmo  tempo rancor e espanto.
  - No seja desaforado!
  - Que foi que aconteceu pr Juc da Olaria?
  O corao do padre desfaleceu. Ele sabia que o coronel Ricardo tinha
mandado um de seus pees matar o Juc da Olaria porque o rapaz lhe
"lastimara" o filho numas  carreiras.
  - E o Maneco Bico-Doce? E o Mauro Pedroso?
  - Cale essa boca, Juvenal! - interveio Joca Rodrigues, tentando levar o
rapaz dali.
  - No calo, Joca, no calo. Se vosmecs tm medo de falar eu no tenho.
Por muito tempo andei com essas coisas atravessadas na garganta. Agora
chegou a hora. Agora  digo tudo.
  Bento parecia engasgado. Grandalho, o largo peito a subir e a descer ao
compasso duma respirao irregular, o anel a brilhar-lhe no dedo, ele
ali estava como um  touro que se prepara para o arremesso. E as palavras
de Juvenal eram provocadoras como um pano vermelho.
  Nesse momento Rodrigo gritou:
  - Amigo Juvenal, esta parada  minha. Me larguem! Juvenal no tirava os
olhos de Bento.
  - A parada  de vosmec, capito, eu sei. Mas ainda no terminei. Todo
mundo aqui tem medo dos Amarais. Pois eu, se tive algum, agora perdi.
No  o vinho. S bebi  refresco de limo, Posso estar bbado mas  de
raiva. Pois . Ningum diz nada. Ningum faz nada. Ha anos que a gente
vive aqui encilhado pelos Amarais. O velho  Ricardo tirou a terra do meu
pai. Botou a corda no pescoo do coitado, quando ele ficou mal de
negcios. Todo mundo sabe que a maior parte dos campos que esse velho
tem foram roubados. S sinto  ele no estar aqui pra ouvir estas
verdades.
  300
  Bento bufava, mas no dizia nada, como que inibido pela surpresa.
  Os homens que seguravam Rodrigo olhavam para Bento, como a pedir-lhe
instrues. O filho de Ricardo Amaral tornou a passar a mo pela testa
suada e disse, altivo,  dirigindo-se a Rodrigo:
  - Estou  sua disposio.
  - Onde? - Foi s o que o capito pde perguntar. O padre percebeu que no
estado em que ele se encontrava era capaz de beber o sangue do outro.
  - Montamos a cavalo e vamos pr alto duma coxilha. Juvenal
intrometeu-se:
  - E os capangas de vosmec vo atrs e ajudam a liquidar o capito, no
?
  Bento cresceu sobre Juvenal, que ficou firme onde estava, encarando-o.
  - Isso  uma calnia.
  - Pois ento prove que . D ordem aos seus homens pra no seguirem
vosmec.
  Bento olhava em torno, atarantado.
  - Depressa com isso! - gritou Rodrigo, fazendo ainda um esforo por se
livrar dos braos que o prendiam.
  Juvenal continuou:
  - E se vosmec  um homem de honra, prometa aqui diante de toda esta
gente que se o capito ferir ou matar vosmec ele pode ir embora em paz.
Prometa!
  Bento transpirava, arquejante, mas no dizia nada. Era como se aqueles
muitos pares de olhos que estavam postos nele irradiassem calor,
fazendo-o suar e dando-lhe  um mal-estar insuportvel.
  - Est bem - disse, soturno. - Dou minha palavra de honra. - Dirigiu-se
para um dos que seguravam Rodrigo. - Se esse homem me ferir ou me matar
podem deixar ele  ir embora em paz. - Aproximou-se 4o vigrio. - Padre,
vosmec fale com meu pai, explique a ele que empenhei minha palavra de
honra.
  O padre Lara tinha os lbios trmulos e sua respirao parecia mais
agoniada que nunca.
  301
  
  - Meninos, acho que podamos ajustar tudo honradamente sem ser
necessrio um duelo - sugeriu.
  - Agora  tarde, padre! - gritou Rodrigo. - Se eu no botar minha marca
na cara desse cachorro, no me chamo mais Rodrigo Cambar.
  Isso pareceu enfurecer ainda mais Bento Amaral.
  - Vamos embora - disse ele. - O quanto antes. Cada qual no seu cavalo.
S os dois. Seguimos na direo da lagoa... - calou-se, ofegante. -
Chegando atrs do cemitrio,  apeamos...
  - Arma de fogo? - perguntou Rodrigo.
  - Adaga.
  Os olhos de Rodrigo brilharam.
  -  melhor. Leva mais tempo.
  Bento fez meia-volta e foi pedir que lhe trouxessem o cavalo.
Formaram-se os grupos, romperam as conversas. Algumas mulheres tinham os
olhos arregalados de susto  e no podiam falar. Uma delas chorava,
tomada duma crise de nervos, enquanto as negras da casa lhe preparavam
um ch de folhas de laranjeira.
  Quando soltaram Rodrigo, este se aproximou do padre Lara e disse:
  - Tome a minha pistola. - Deu-lhe a arma. - Na casa do Nicolau, debaixo
da cama, tem um ba e no ba uma guaiaca com todo o meu dinheiro. Se eu
morrer d metade  do dinheiro pr Juvenal e fique com a outra metade pra
sua igreja.
  O padre contemplava-o, estupidificado, incapaz de pronunciar uma
palavra, de fazer o menor gesto, de dar o menor sinal de gratido ou de
pesar: apenas ronronava,  de boca semi-aberta.
  Um homem aproximou-se deles e comunicou:
  - O seu Bento diz que daqui a pouquinho est esperando vosmec debaixo
da figueira.  de l que os dois tm que sair.
  Rodrigo foi at seu quarto, acendeu a vela e comeou a procurar os
arreios. Estava excitado, feliz, e no seu nervosismo assobiava baixinho.
Foi ento que percebeu  a presena de algum mais ali no quarto. Num
canto escuro estava um vulto parado. Reconheceu nele a mulher de
Nicolau.
  - Vou pelear, Paula, vou pelear. Ela continuou silenciosa.
  302
  - Vou botar minha marca na cara do Bento Amaral. Rodrigo puxou os
arreios de baixo da cama e apanhou a adaga
  que estava sob o travesseiro. De repente uma idia louca lhe veio 
cabea e lhe tomou conta do corpo como um veneno de ao instantnea.
Deu dois passos na direo  de Paula, agarrou-a pela cintura, ao mesmo
tempo que lhe erguia a saia. Deitou-a no catre e amou-a com pressa e
fria, pensando em Bibiana. Depois se ergueu, botou  os arreios nas
costas, a adaga na cinta, saiu para fora e foi encilhar o cavalo.
  A noite estava clara, morna e mansa. Um vagalume cruzou o ar na frente
de Rodrigo. Era esquisito, mas ele estava com a impresso de que tinha
nos braos a filha  de Pedro Terra.
  Montou a cavalo e dirigiu-se para a figueira grande. Havia junto dela um
grupo, no meio do qual se achava Bento Amaral montado no seu cavalo
tordilho.
  Juvenal Terra transmitia instrues. Bento sairia pela direita e Rodrigo
pela esquerda, a galope, para se encontrarem atrs do cemitrio. No
haveria testemunhas,  pois existia no pas uma lei contra duelos. Os
adversrios deviam apear, arregaar as mangas e brigar. O que escapasse,
viria depois at a praa dar o sinal para  irem buscar o corpo do outro.
Mas se dentro de uma hora nenhum dos dois aparecesse, um grupo devia ir
ver o que tinha acontecido.
  Rodrigo escutou as instrues e aprovou-as com um aceno de cabea. O
perfume da vaselina que vinha do cabelo de Bento fazia seu dio crescer
ainda mais, e o capito  pensava naquele rosto largo, duma boniteza
desagradvel, e j via nele sua marca: a primeira letra de seu nome, um
R maisculo de sangue...
  - Podem ir! - gritou Juvenal.
  Os dois homens esporearam os seus cavalos e se foram. O tropel das patas
encheu a praa e a noite. Pelas frestas de algumas janelas, mulheres
espiavam.
  10
  Chegaram quase ao mesmo tempo ao ponto marcado para o encontro.
Apearam\em silncio e amarraram seus cavalos. Rodrigo
  303
  viu quando Bento, a uns vinte passos de distncia, tirava o chapu, o
casaco e comeava a arregaar as mangas. Fez o mesmo. Da lagoa prxima
vinha um coaxar de sapos.  O crescente no cu parecia uma talhada fina
de melancia. Se eu mato esse homem no posso ficar em Santa F e perco
Bibiana - refletiu Rodrigo. Se ele me mata, perco  tudo.  uma situao
dos diabos.
  Viu a adaga lampejar nas mos do outro. Um vento morno batia-lhe no
rosto, entrava-lhe pelas narinas com um cheiro de gua. No campo
vagalumes pingavam de fogo o  corpo da noite.
  - Pronto? - gritou Bento.
  - Pronto!
  E aproximaram-se um do outro, lentos, meios encurvados. Pararam quando a
distncia que os separava era de pouco mais de cinco passos e ficaram a
se mirar, negaceantes.  Rodrigo ouvia a respirao arquejante do
inimigo.
  - Vou te mostrar o que acontece quando se bate na cara dum homem, patife
- rosnou ele. E sentiu que a raiva o fazia feliz.
  - Quem vai te mostrar sou eu, canalha.
  E dizendo isto Bento avanou brandindo a adaga. Os ferros se encontraram
no ar com violncia e tiniram. No primeiro momento Rodrigo teve de
recuar alguns passos.  Mas logo firmou p no cho e desviou todos os
pranchaos do outro. Bento quis atingir-lhe a cabea com o lado da
adaga, mas o capito aparou o golpe no ar com tal  firmeza, que a arma
do adversrio se lhe escapou da mo e caiu ao solo. Rpido, Rodrigo
deu-lhe um pontap e atirou-a longe, fora do alcance de Bento, que
comeou  a recuar devagarinho, arquejando como um animal acuado.
  - Pode pegar a adaga! - gritou-lhe Rodrigo. - No brigo com homem
desarmado.
  Bento correu, apanhou a arma e tornou a arremeter. Por alguns instantes
os dois inimigos teraram armas; disseram-se palavres, enquanto suas
camisas se empapavam  de suor. Por fim se atracaram num corpo-a-corpo
furioso, cabea contra cabea, peito contra peito. O brao direito de
Rodrigo estava no ar, seguro 
  304
  altura do pulso pela mo esquerda de Bento, cuja direita tentava
aproximar a ponta da adaga do baixo-ventre do adversrio.
  - Vou te botar minha marca na cara, pstula!
  - Vou te tirar as tripas pra fora, corno!
  Empregando toda a sua fora, que o dio aumentava, o capito conseguiu
prender a mo direita do outro entre suas coxas; e depois, imobilizando
com a sinistra o brao  que Bento Amaral tinha livre, com a destra
segurou a adaga e aproximou-lhe a ponta da cara do inimigo, que atirou a
cabea para trs, num pnico, e comeou a bufar  e a cuspir.
  - Te prepara, porco! - gritou Rodrigo. -  agora.
  E riscou-lhe verticalmente a face. O sangue brotou do talho. Bento
gemia, sacudia a cabea e houve um momento em que seu sangue respingou o
rosto de Rodrigo e uma  gota lhe entrou no olho direito, cegando-o por
um breve segundo.
  - Falta a volta do R!
  E num golpe rpido fez uma pequena meia-lua, s cegas. Bento cuspiu-lhe
no rosto, frentico, e num repelo safou-se e tombou de costas, deixando
cair a adaga.
  Rodrigo imaginou que ele ia levantar-se, apanhar de novo a arma e voltar
ao ataque. Mas Bento, sentado no cho, com a mo no rosto, ficou a olhar
atarantadamente  para todos os lados. Os sapos continuavam a coaxar.
Vagalumes passavam entre os dois inimigos. Uma ave noturna saiu de
dentro do cemitrio e sobrevoou a coxilha,  num seco rufiar de asas.
  - No vou te matar, miservel - disse Rodrigo. - Mas no costumo deixar
servio incompleto. Quero terminar esse R. Falta s a perninha...
  E caminhou para o adversrio, devagarinho, antegozando a operao, e
lamentando que no fosse noite de lua cheia para ele poder ver bem a
cara odiosa de Bento Amaral.
  Na casa de Pedro Terra o padre Lara acendia de instante a instante o
cigarro e esquecia-se de fum-lo. Estava desolado. Sabia o que ia
acontecer quando chegasse   estncia a notcia do duelo. Se acontecesse
qualquer coisa de mau a Bento, seu pai poria o
  305
  
  
  mundo abaixo. E ele, Lara, ouviria horrores, seria repreendido por no
ter tido a autoridade suficiente para impedir o duelo. Imaginava o velho
Amaral a trovejar:
  - Por que no mandou me avisar? Por que no fez isto? Por que no fez
aquilo?
  Pedro Terra conservava-se em silncio, de cara fechada. Juvenal
caminhava dum lado para outro. O pai ouvira tudo quanto ele dissera a
Bento Amaral, mas no fizera  nenhum comentrio. Teria ele gostado do
destampatrio? Ou seria que agora pensava com temor nas conseqncias
daquele desabafo? Fosse como fosse, no se arrependia  do que havia
dito. Pouco lhe importava o que os outros pensassem. Estava cansado de
ser mandado, de dizer sempre sim senhor, de pedir a bno aos mais
velhos. Pouco  me importa - pensava ele. E sacudia os ombros para
reforar seus pensamentos.
  Fechada no quarto, deitada na cama, Bibiana chorava, com o rosto metido
no travesseiro. Chorava e pensava na av. Se ela estivesse viva
provavelmente teria uma palavra  para explicar tudo aquilo, para a
consolar. Bibiana no tinha coragem de ir para a sala e fazer frente 
famlia. Tudo aquilo havia acontecido por sua causa. Fazia  j tempo que
os homens tinham ido para a coxilha do cemitrio, mas nenhum ainda
voltara. Ela havia rezado diante do velho Cristo sem nariz e feito uma
promessa.  "Se nenhum dos dois morrer, prometo nunca mais comer doce."
Mas achara a penitncia fraca. Prometeu ento rezar cem ave-marias e cem
padre-nossos e ter uma vela  das grossas sempre acesa aos ps da imagem
de Nossa Senhora da Conceio, padroeira do povoado. A seus Ouvidos
chegava o rumor das conversas da pea contgua. Mas  a voz que ela ouvia
com mais clareza, a voz que no lhe saa da memria era a do capito
Rodrigo. "Se vosmec no quer danar comigo vou-me embora desta casa. Se
no quer saber de mim, vou-me embora de Santa F... " Na penumbra do
quarto Bibiana abriu os olhos midos e de repente teve um pensamento
horrvel. O capito Rodrigo  podia j estar morto... De novo enfurnou o
rosto no travesseiro.
  Ouviu-se um tropel. Pedro, Juvenal e o padre precipitaram-se para o
centro da praa, onde grupos de homens conversavam. Um cavaleiro surgiu
na boca duma das ruas.
  306
  -  o capito... - disse algum.
  - No . O cavalo  o tordilho do Bento.
  Finalmente cavalo e cavaleiro aproximaram-se. E todos viram que era
mesmo Bento Amaral. No apeou. Apertava contra a face um leno todo
ensangentado. Quando falou,  a voz lhe saiu abafada e trmula.
  - Podem ir buscar o corpo... - disse.
  Deu de rdeas, esporeou o animal e saiu a galope na direo do casaro
dos Amarais.
  Juvenal, Joca Rodrigues e mais dois homens montaram em seus cavalos e
dirigiram-se a todo o galope para a coxilha do cemitrio.
  Encontraram Rodrigo Cambar estendido no cho, os braos abertos, a
camisa branca toda manchada de sangue. Juvenal ajoelhou-se ao lado dele
e auscultou-lhe o corao.
  - Ainda est vivo - disse. Acendeu a lanterna que havia trazido, e  sua
luz viu o rosto de Rodrigo, que estava mortalmente plido e de olhos
fechados. Abriu-lhe  a camisa ao peito e descobriu a ferida.
  - Eu bem que estava desconfiado - disse. - Isto no  ferimento de
adaga... Vamos levar o homem ligeiro pr povoado. Pode ser que a gente
ainda salve ele.
  Perto dos muros do cemitrio o cavalo de Rodrigo pastava tranqilamente.
  11
  Juvenal levou o ferido para sua casa e a novidade se espalhou depressa
por toda a vila. A histria apresentava dois aspectos culminantes: Bento
Amaral havia cometido  uma traio: levara uma pistola escondida e
servira-se dela; Rodrigo estava muito mal: uma bala lhe atravessara o
pulmo. Ningum sabia dos detalhes da luta, porque  o ferido no podia
falar e Bento tinha ido embora para sua estncia, sem falar com ningum.
Mas no era muito difcil imaginar o que se passara. Tinham visto Bento
chegar  praa, depois
  307
  do duelo, com uma das faces tapadas por um leno ensangentado; muitos
se lembravam da ameaa do capito: "Se eu no botar a minha marca na
cara desse cachorro no  me chamo mais Rodrigo Cambar". O padre Lara,
por sua vez, declarara que Rodrigo antes de partir para a coxilha do
cemitrio lhe confiara sua pistola; Juvenal guardava  a camisa do ferido
que a plvora chamuscara, provando que o tiro fora disparado 
queima-roupa, decerto quando estavam ambos atracados num corpo-a-corpo.
  - Muito feio - resmungava o padre, quando lhe falavam no assunto. -
Muito feio. Indigno dum homem de honra.
  E sacudia a cabeorra, pigarreava, ronronava, fazia e desfazia o seu
cigarro, imaginando o que ia acontecer quando o coronel Ricardo lhe
viesse falar no assunto.  E se Rodrigo morresse? Era o diacho. E se se
salvasse, levantasse da cama e quisesse vingar-se do outro? Tambm era o
diacho. Lembrava-se do que Juvenal dissera  a Bento no terreiro de Joca
Rodrigues: quela hora o coronel Amaral decerto j sabia de tudo. Uma
desgraa completa!
  A histria da traio de Bento Amaral corria pela cidade de boca em
boca. "O Bento  valente quando anda junto com os capangas" - murmurou
um, olhando a medo para  os lados. Uma velha que fazia renda de bilro em
sua casa disse ao marido: "Eu s queria era ver a cara do seu Bento com
a marca do capito".
  Um novo dia amanheceu e a casa dos Amarais continuou fechada. Agora o
povoado esquecia os Amarais para se preocupar com Rodrigo Cambar. A
venda do Nicolau vivia  cheia de homens que comentavam o caso. Santa F
queria saber o que se passava no quarto da meia-gua de Juvenal Terra,
onde o capito Cambar ardia em febre, entre  a vida e a morte. Tinham
chamado todos os curandeiros das redondezas e diziam que Juvenal no
abandonava a cabeceira do doente. E as notcias mais desencontradas
corriam, espalhadas por gente da casa de Juvenal ou ento por algum que
lhe batia  porta para saber como ia passando o capito. Dizia-se:
  "No passa desta noite. Est botando sangue pela boca". "J extraram a
bala. Mas diz que ficou um buraco deste tamanho nos bofes do homem."
"Est com tanta febre  que a testa dele queima como chapa de fogo."
"Botaram teia de aranha no ferimento." "A
  308
  negra velha Me d'Angola benzeu ele, hoje de manh. Parece que a febre
diminuiu." "Perdeu muito sangue. Est branco que nem vela de cera." "Diz
que est variando  e que s fala na filha do Pedro Terra." "A ferida
parece que arruinou." "Est perdido. A coisa  pra hoje."
  A coisa era a morte. Ao entardecer do quinto dia correu a notcia de que
Rodrigo Cambar ia morrer. O padre Lara paramentou-se e foi levar-lhe a
extrema-uno. Encontrou  o doente quase to branco como a parede caiada
do quarto e com uma barba dum castanho meio dourado a cobrir-lhe as
faces emagrecidas. Parecia um defunto.
  Ao ver o padre, Rodrigo sorriu um sorriso torto de canto de boca.
Respirava com dificuldade e parecia haver em seus olhos uma espcie de
nvoa. Parado aos ps da  cama o padre Lara, de boca semi-aberta,
contemplava-o, penalizado.
  Juvenal, que estava ao lado do vigrio, murmurou:
  - A febre passou. Ele est agora muito fraco por causa do sangue que
perdeu. Temos de meter comida na boca dele por um canudo. No tem fora
pra nada.'
  Rodrigo continuava a sorrir com metade da boca. O padre Lara aproximou
os lbios do ouvido de Juvenal e disse:
  - No  melhor dar a extrema-uno pra ele? Juvenal encolheu os ombros.
  - Isso  l com vosmec, vigrio.
  O cochicho do padre ficou ainda mais tnue:
  - Acho que ele no se escapa desta. Vai morrer de fraqueza.  melhor que
se confesse, tome a comunho e morra na paz do Senhor.
  - Mas como? - sussurrou Juvenal, sem tirar os olhos do doente. - Ele no
pode nem falar.
  - Mas entende o que a gente diz?
  - Entende. Porque quando eu falo ele faz sinal com os olhos ou ento ri.
  - Pois basta isso. J confessei um homem assim. - O padre Lara botou a
mo no ombro de Juvenal. - Agora vosmec faa o ravor de sair do quarto.
  309   
  O dono da casa retirou-se. O padre acercou-se da cama. Comeava a
escurecer dentro daquele pequeno quarto. Uma fita alaranjada de sol
atravessava a parede em diagonal,  atrs do catre em que estava o
capito. O vigrio sentou-se junto do doente e tomou-lhe da mo.
  - Escute aqui, meu filho - disse ele. Verificou que no lhe era muito
fcil falar, pois estava comovido. S agora percebia o quanto estimava
aquele homem. - Vosmec  est muito doente e ento eu achei melhor
vir... Est me entendendo?
  Rodrigo continuava a sorrir e seus olhos tinham uma fixidez
  cadavrica.
  - Quero que vosmec se confesse. No diga nada. No se apoquente. Vai
ser uma coisa ligeira. Est claro que o meu amigo vai sarar. Mas 
sempre bom a gente estar  prevenido...
  O vigrio passou a mo pela testa do doente e sentiu-a fresca e mida de
suor.  bom sinal - concluiu. - Mas assim mesmo acho que ele no
resiste.
  - Escute aqui. - E aproximou-se mais do rosto do outro. - Vosmec no
pode falar, mas pode fazer um sinal com os olhos. Vamos ver se me
entendeu... Se entendeu feche  e abra os olhos. Vamos ver...
  Rodrigo fechou e abriu os olhos.
  - Muito bem. Agora vou lhe fazer uma pergunta. Est contente com a minha
visita? Se no est, pisque duas vezes. Se est, ., pisque s uma. ,-
  Rodrigo piscou uma vez. O vigrio sorriu e os dois homens  ficaram por
algum tempo lado a lado, ambos a respirar com  
  dificuldade.
  - Estamos nos entendendo - disse o padre, esfregando as mos. - Agora
vamos  parte mais importante da nossa conversa. Todos ns temos nossos
pecados. Quem  que  no comete uma faltazinha de vez em quando? Mas a
Igreja instituiu o confessionrio para aliviar as conscincias, para
limpar as almas a fim de que as pessoas possam  tomar a comunho, quer
dizer, participar do Corpo de Cristo.
  310
  Rodrigo tinha fechado os olhos e o padre suspeitou que ele tivesse
mergulhado no sono.
  - Est me ouvindo?
  O ferido tornou a abrir os olhos e piscou uma vez.
  - Muito bem, capito, muito bem. Pois vou lhe poupar trabalho. No
precisamos entrar em detalhes. Basta vosmec dizer com uma piscadela que
se arrepende de todos  os seus pecados...
  Rodrigo piscou duas vezes e o padre exclamou:
  - No? Pisque uma vez, diga que sim. Rodrigo piscou duas vezes.
  O rosto do vigrio era uma careta de aflio.
  - Pense no que h depois desta vida, capito. No perca a sua alma para
toda a eternidade. Vosmec morre e sua alma vai para o inferno. Se
vosmec se confessar e  receber a extrema-uno sua alma se salvar.
Estou aqui no s como sacerdote mas tambm como seu amigo. Tudo o que
est se passando agora entre ns ser conservado  em segredo. Neste
momento s Deus est nos vendo e ouvindo.
  Rodrigo continuava imvel. No sorria mais, e suas plpebras estavam
cadas. Na parede a mancha de sol esmaecia cada vez mais.
  - Por amor de Deus, capito. Diga que sim, arrependa-se de seus pecados.
Se amanh vosmec sarar e sair dessa cama, ningum ficar sabendo que
vosmec se confessou  e comungou. Dou-lhe a minha palavra. Juro perante
Deus. Ningum vai saber. Vamos, capito! No seja cabeudo. No seja
orgulhoso.
  Houve uma pausa em que o vigrio lutou com um pigarro, alisou os cabelos
brancos e tentou descobrir no rosto do outro um sinal qualquer de
rendio. No viu nada:  apenas o sorriso de canto de boca que punha 
mostra parte da forte dentadura de Rodrigo Cambar.
  - Vou fazer mais uma tentativa, para provar que sou seu amigo. Mas quero
lhe dizer que tudo que estou fazendo pelo bem de sua alma 
desinteressado. No fim de contas  quem vai sofrer  vosmec, no sou eu.
Eu cumpro o meu dever. E mais uma coisa. - E neste ponto o padre assumiu
o mesmo tom de voz que usava quando explicava o catecismo  s crianas.
- No pense que Deus
  311 
  precisa muito de sua alma no cu. H muita gente boa l em cima e
vosmec no faz nenhum obsquio a Nosso Senhor se disser que se
arrepende de seus pecados e est  disposto a morrer em paz com a Igreja.
Vamos, capito. Pisque uma vez. Diga que sim. Arrependa-se enquanto 
tempo.
  Rodrigo abriu os olhos e ergueu lentamente a mo direita na direo do
rosto do vigrio. E com um sbito horror, como se de repente tivesse
visto a figura de Satans,  o padre Lara leu naquela mo dessangrada a
resposta do doente. O capito Rodrigo Cambar lhe fazia uma figa! Seus
dentes estavam agora todos descobertos num sorriso  horrvel. O padre
ergueu-se e deixou o quarto precipitadamente.
  12
  
  -A notcia do milagre espalhou-se pelo povoado, graas  sogra de Rosa
Rodrigues, uma beata que vivia na capela a rezar e fazer  promessas.
Depois da visita do  padre Lara - contava ela - o capito Cambar
comeara a melhorar a olhos vistos. Diziam que o moribundo se confessara
e tomara a comunho, e que o Corpo  de Cristo  lhe fora o melhor de
todos os remdios. "J fala, j se senta na cama e j pediu um
churrasco!" - noticiava a velha,; mascando seu naco de fumo e agitando
no ar  as mos midas e' enrugadas. <
  Pouco mais dum ms depois da noite do duelo, Rodrigo deixou a cama
pela primeira vez, com os membros lassos, a cabeaoca e tonta.
Caminhou at a porta da casa  de Juvenal e quando | olhou para a praa e
avistou a figueira grande, sentiu que amava  aquela rvore, aquele
cho, aquele povoado. Entrecerrou os olhos  e focou-os  na casa de Pedro
Terra e, pensando em Bibiana, concluiu  que era bom, muito bom estar
vivo. Quando caiu em si, as lgrimas  lhe escorriam pelas barbas. Ao
perceber  que estava chorando, achou  a coisa to engraada, que
comeou a rir, primeiro baixinho, depois numa gargalhada. E quanto mais
ria, mais as lgrimas lhe vinham  aos olhos. E pareceu-lhe que o riso e
as lgrimas lhe aumentavam
  a fraqueza, e ao mesmo tempo a fraqueza lhe produzia mais riso e mais
lgrimas. Teve de se apoiar na parede para no cair. Ergueu o olhar para
o cu, o sol bateu-lhe  em cheio na cara, como que lhe prendeu fogo nas
barbas. Estar vivo, recobrar as foras, poder de novo montar a cavalo,
andar  toa, livre, conversar com as pessoas,  dedilhar a viola, cantar,
jogar... E, principalmente poder de novo ter mulher, comer e beber!
  Rodrigo ouviu a voz de Maruca Terra:
  - Capito,  melhor vosmec vir pra dentro e deitar um pouco pra
descansar.
  Cambar voltou-se para ela e sorriu:
  -  melhor mesmo, dona.
  Devagarinho aproximou-se duma cadeira e sentou-se. Juvenal apareceu,
vindo do fundo da cozinha, com uma cuia de mate na mo.
  - Que tal um amargo?
  - Vem do cu - respondeu Rodrigo. - Vem do cu. Apanhou a cuia, seus
lbios descorados e ressequidos beijaram
  a bomba; e ele chupou o mate com delcia, enquanto Juvenal limpava as
unhas com a ponta dum punhal.
  - Bonito punhal - disse Rodrigo. -  de prata? Juvenal olhou a arma como
se a visse pela primeira vez.
  - Parece.
  - Onde comprou?
  - Foi a finada minha av que me deu. Era do marido dela.  mui antigo.
  Entregou o punhal a Rodrigo, que o rolou na palma da mo, com cuidado,
passando depois os dedos pela lmina.
  - Bom ao. - Olhou os arabescos da bainha de prata e murmurou: - Nunca
vi um punhal assim. Deve ser estrangeiro.
  Juvenal deu de ombros e repetiu, indiferente:
  -  mui antigo.
  Apanhou a arma e tornou a met-la na bainha. Rodrigo agora sentia, de
mistura com a canseira, um certo enternecimento.
  312
  313
  - Amigo Juvenal, nunca hei de esquecer o que vosmec fez por mim.
  O outro desviou o olhar do rosto do capito como se aquelas palavras lhe
causassem um certo constrangimento.
  - Ora... - fez ele, lanando um olhar para a figueira grande, atravs da
janela.
  - Se lembra quando vosmec disse que eu podia ficar aqui trinta anos,
trs meses ou trs dias?
  Juvenal fez um sinal afirmativo com a cabea.
  - Pois veja como so as coisas... Parece que vosmec sabia o que ia
acontecer. Minha vida esteve por um fio. Bem diz o ditado: "Se Deus 
grande, a vontade de viver   maior".
  O dono da casa apanhou a chaleira preta de picum que tinha a seus ps,
tornou a encher a cuia e passou-a ao amigo.
  - Por falar nisso - disse ele com ar casual. - Que foi que vosmec fez
pr padre Lara que ele ficou to sentido?
  Rodrigo nu, deu um chupo forte na bomba e depois narrou a "cena da
extrema-uno", rematando-a com as seguintes palavras:
  - E no me arrependo do que fiz.
  - A inteno do pobre do homem foi boa - observou Juvenal.
  - E a minha tambm. Nunca acreditei em padre, igreja, santo e essas
coisas de religio. Veja bem, amigo Juvenal. Se eu morresse sem me
confessar e depois descobrisse  que havia outra vida... bom, eu
sustentava a nota e agentava os castigos porque no havia outro
remdio. Se eu me confessasse e no morresse, ia ficar com uma vergonha
danada de ter me entregado s por medo da morte. Todo mundo ia dizer que
afrouxei o garro, e isso, amigo, era o diabo...
  Fez uma pausa, cansado.
  - ... - murmurou Juvenal.
  - Agora, se eu me confessasse, tomasse a comunho e morresse... e se
houvesse um outro mundo e Deus e mais essas lorotas todas, o que  que
acontecia? Acho que Ele  logo ia ver que eu tinha me confessado s por
convenincia e a no me valia de nada o arrependimento.
  Juvenal escutava, tomando em calma seu chimarro. Depois de nova pausa,
acariciando as barbas com as mos trmulas, Rodrigo concluiu:
  - E se eu morresse e no encontrasse nada do outro lado, ento... ento
nada tinha importncia e tudo estava muito bem.
  Juvenal Terra sacudiu a cabea vagarosamente e depois perguntou:
  - Mas vosmec pensou em tudo isso na hora que o padre estava l pedindo
que se confessasse?
  O capito soltou uma risada.
  - Pra falar a verdade, no pensei. Mas fiz a figa s pra ver a cara do
homem.
  Atirou a cabea para trs, porque o riso lhe aumentava a fraqueza e
porque quando ele ria lhe doa o peito e a cabea. Por um instante
Juvenal no ficou sabendo  ao certo se o capito ria ou gemia ou se
fazia ambas as coisas ao mesmo tempo.
  Maruca atravessou a pea onde os dois amigos se encontravam e, levemente
inquieto, Juvenal viu os olhos que o capito botou nela. No foi um
relance casual, mas  sim esse olhar comprido e faminto que ele vira
muitas vezes nos doentes que, estando em rigorosa dieta de leite e
mingau, vem passar algum com um prato cheiroso  de carne assada. 
mais uma vez Juvenal desejou que o amigo j estivesse de volta a seu
quarto na venda do Nicolau.
  - Ah! - fez ele. - Eu ia me esquecendo, capito. O padre Lara me disse
que na noite do duelo vosmec declarou que se morresse metade do seu
dinheiro ia ficar pra  Igreja e a outra metade pra mim...
  -  verdade.
  - Mas por qu?
  - Por que o qu?
  - Por que me fazer seu herdeiro?
  - Ora essa! Porque sou seu amigo.
  Juvenal baixou os olhos. Encheu de novo a cuia, e por algum tempo ficou
a tomar o mate em silncio. Rodrigo pensava agora em suas horas de
febre. Se o inferno existisse,  ele devia ser como a cabea dum homem
que tem febre alta. Por mais que 
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  315
  escarafunchasse na memria, no conseguia lembrar-se de ter visto Bibiana em seu
delrio. Vira, isso sim, caras de gentes mortas, de velhos amigos e
cavalos doutros tempos;  andara pelos lugares de sua infncia, e
principalmente tornara a guerrear as guerras do passado. Olhou para
Juvenal e perguntou:
  - Me diga uma coisa, amigo. Quando eu estava variando na cama, disse
muita bobagem?
  - Que eu ouvisse, no. Vosmec falava, resmungava, mas no se entendia
nada.
  - Sabe duma coisa engraada? Quando variei sempre me parecia que eu
andava a cavalo, em guerras. O que eu sentia era algo mui esquisito:
vontade de terminar a briga,  acampar, dormir, descansar. E quando
pensava que ia fazer isso, l vinha outra guerra ou ento eu estava de
novo na estrada, caminhando num solao brabo, s vezes  atravessando a
vau um rio de fogo. E v briga, v briga! E s me golpeavam na cabea, e
a cabea parecia que ia estourar de tanta dor. Algum me dizia que logo
adiante,  numa canhada, tinha um olho-d'gua. Minha sede era de rachar,
a lngua estava seca... Mas a viagem continuava e o olho-d'gua no
aparecia. Outras vezes...
  Calou-se. O melhor mesmo era no pensar mais naquilo. Estava vivo e isso
era o que realmente importava. Mudou de tom:
  - Acho que posso voltar amanh pra casa do Nicolau. O outro disse
simplesmente:
  - Como vosmec achar melhor.
  - Preciso fazer a barba. Estou com a cara que nem roa abandonada.
  Sem saber bem por qu - mas com uma secreta alegria ao imaginar que
depois de barbeada a cara do capito apareceria magra, plida, sem o
vio e a beleza de antigamente  - Juvenal disse: 
  - Roa abandonada coberta de erva daninha  triste. Mas terra nua onde a
seca matou tudo  muito mais triste.
  Rodrigo respirou fundo e respondeu:
  - No ha seca que dure sempre. Um dia chove e quando a terra  boa ela
torna a viver.
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  - Isso  verdade... - concordou Juvenal, apanhando a cuia que o outro
lhe entregava. - Um dia chove. No resta a menor dvida.
  13
  Quando o outono entrou, Rodrigo Cambar j se sentia to forte como
antes, e quando lhe perguntavam: "Como vai, capito?" ele respondia,
jovial: "Pronto pra outra!"
  Os Amarais voltaram para o povoado e quase toda a gente temeu novo
conflito. Achavam que quando Bento e Rodrigo se defrontassem tirariam as
pistolas e se alvejariam  um ao outro, estivessem onde estivessem.
Juvenal receava que os capangas do coronel Ricardo dessem cabo da pele
do capito numa emboscada, ou ento que o provocassem  num jogo de osso
ou numas carreiras para mat-lo, alegando depois que haviam sido
agredidos. E quando um dia Juvenal disse a Rodrigo de seus temores e
censurou-o  por ele, ainda meio fraco, andar sozinho, o capito deu-lhe
uma palmada no ombro e exclamou:
  - Qual nada, amigo! Eles no se metem mais comigo.
  -  melhor andar prevenido...
  - E por falar nisso, vosmec tambm tem que se cuidar...
  - Eu? Mas por qu?
  - Porque naquela noite no terreiro do Joca Rodrigues vosmec disse umas
verdades duras pr Bento.
  Juvenal olhou pensativo para a ponta das botas.
  - Mas  engraado. Ontem cruzei por ele na rua, pensei que o homem ia
virar a cara, fingindo que no me via.
  - E que foi que ele fez?
  - Me olhou, bateu no chapu e disse: "Buenas tardes, seu Juvenal!"
  - Essa  muito boa! E vosmec?
  - Fiquei meio atrapalhado no princpio. Mas depois disse: 'Buenas
tardes". E fui andando.
  Rodrigo sorria.
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  - Viu a cara dele?
  - Muito bem, no.
  -  pena. Eu s queria saber como ficou a minha marca... - Soltou um
suspiro. - Foi uma lstima eu no ter acabado aquele servicinho...
  Juvenal mirava o amigo sem compreender. Rodrigo esclareceu:
  - No cheguei a terminar o R. Ficou faltando a perninha da frente da
letra. Uma lstima... Era s mais um talhinho de nada...
  Juvenal sorriu seu sorriso lento e meio triste.
  Por aqueles dias de fins de maro o padre Lara procurou Rodrigo e
contou-lhe que o coronel Amaral o chamara para "tratar do assunto.
  - Que assunto?
  - O duelo.
  - Ah! Que foi que a fera disse?
  Estavam sentados debaixo da figueira e era por volta das cinco da tarde.
  - Me pediu que falasse com vosmec e lhe dissesse que ele no aprova o
que o filho fez. Eu queria que o capito visse o velho! Estava furioso.
Chegou a dizer: "Nunca  nenhum Amaral fez isso. Foi uma traio indigna
dum homem de bem e de coragem".
  - E que  que ele quer que eu faa? Que pea desculpas ao Bento? Ou que
v embora?
  O padre sacudiu a cabea
  - No. Ele pede para vosmec esquecer tudo.
  - Mas uma pessoa no esquece uma coisa porque quer: esquece porque
esquece.
  - No  isso. Ele quer evitar novo duelo. Chegou a dizer: "Esto mano a
mano. Ele levou uma bala no peito que quase l arrebentou a alma. Mas
meu filho tem na cara  aquela marca que  uma vergonha pra toda a vida".
  Rodrigo sacudia a cabea com ar de quem no compreende.
  - Veja como so as coisas. Nunca imaginei que o coronel fosse dizer uma
coisa dessas. Isso prova que a gente nunca chega a conhecer direito as
pessoas.
  - Que  que vosmec esperava que ele fizesse?
  - Eu esperava que mandasse me matar... e ainda no estou certo que no
vai mandar... - O padre ensaiou um tmido protesto que no chegou a
tomar forma definida.  Rodrigo prosseguiu: - Ou ento que dissesse ao
filho: "V e bote um B na cara dele; seno vosmec no  mais meu
filho". Pelo menos era isso que eu havia de dizer  ao meu filho...
  Houve um silncio. Meu filho... Aquelas palavras tinham para Rodrigo um
som agradvel. Meu filho: o homem que ia herdar-lhe a espada e o nome...
  - Padre, mais uma vez vou lhe fazer um pedido.
  - Qual ?
  - V conversar com Pedro Terra e diga a ele que quero casar com dona
Bibiana.
  O padre Lara espalmou a mo sobre o peito, como se esse gesto lhe
pudesse facilitar a respirao. Aquele dia morno e pesado agravava-lhe a
asma. O vero fora horrvel:  passara noites em claro, mais sentado que
deitado na cama, sem poder dormir por causa da falta de ar.
  - Vosmec ainda tem esperana de casar com essa moa?
  - Esperana? Tenho a certeza.
  - Se tem, por que  que me pede?
  - Porque no quero fazer nada de estabanado. Estou cansado de ser olhado
como desordeiro. Vosmec pode arranjar tudo. V e rale com o Pedro
Terra. Diga que o Juvenal  j concordou em botar sociedade comigo. Tenho
dinheiro, vamos abrir uma venda aqui em Santa F. Ele vai comprar coisas
no Rio Pardo e eu tomo conta do negcio. -  Fez uma pausa. Olhou para a
fachada da casa de Bibiana e acrescentou, calmo: - Padre, l dou minha
palavra de honra como quero mudar de vida. Estou passando dos  trinta e
cinco, no sou mais criana.
  O vigrio ergueu-se com esforo, gemendo e arquejando.
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  - Est bem. Vou fazer o que posso. Sou um pobre velho que gosta de
ajudar os outros. - Ergueu o indicador diante do nariz de Rodrigo, bem
como fazia com as crianas  nas aulas de catecismo. - Mas vosmec no
merece. O que vosmec me fez numa hora sria daquelas  dessas coisas
que no tm perdo. Foi uma blasfmia horrvel. Vosmec  no merece.
  - Est bem, padre. No mereo. Mas v falar com o homem. O padre mudou
de tom:
  - Ah! Deixe que eu d um recado que o coronel Ricardo lhe mandou: ele
quer que vosmec d o dito por no dito, ou, melhor, o feito por no
feito e fique vivendo  quieto a sua vida.
  -  o que estou fazendo, padre.
  - Tambm disse que vosmec pode ficar no povoado. Rodrigo ergueu-se,
brusco, com a cara iluminada:
  - Ora essa  muito boa! Que eu posso ficar? Pois foi isso mesmo que eu
disse pr'aquele velho no fim da nica conversa que tivemos. Disse que
ficava. E fiquei.
  O padre voltou-lhe as costas, resmungando:
  - Vosmec  um homem impossvel.
  E se foi na direo da capela, muito encurvado, arrastando os ps na
poeira do cho.
  14
  O padre Lara tinha confessado Bibiana por aqueles dias, preparando-a
para a comunho pascal. Sabia agora que a moa morria de amores pelo
capito Rodrigo; e como  conhecia o temperamento dela, achava que era
intil tentar convenc-la de que o partido no lhe convinha. De resto o
padre Lara no estava bem certo disso. Gostava  de Rodrigo: gostava
tanto que lhe perdoara todas as suas ofensas  Igreja, todas as
blasfmias, todos os atrevimentos. Conhecera outros homens assim. Eram o
produto  da vida que levavam, da educao que tiveram. Que se podia
esperar dum menino criado no meio de soldados nos acampamentos ou de
pees e ndios vadios nos galpes,  nos bochinchos, nas canchas de
carreira e de jogo de
  320
  osso? A guerra tinha sido talvez sua nica escola. No entanto o vigrio
sabia que no fundo Rodrigo Cambar era um homem de bons sentimentos.
Talvez desse at um  bom marido. Talvez sentasse o juzo. Fosse como
fosse, agora ele sabia que Rodrigo era um homem muito mais decente que
Bento Amaral. Foi por causa dessas reflexes  e principalmente pela
simpatia que sentia pelo capito que o vigrio decidiu falar com Pedro
Terra. Foi uma noite  casa deste, depois do jantar. Ficaram primeiro  a
fumar e a conversar sobre as colheitas, o tempo e as notcias que tinham
chegado recentemente de Porto Alegre - todas elas cheirando a revoluo
e intrigas polticas.  E num dado momento o padre pediu a Bibiana que
sasse da sala, pois tinha um "particular" a tratar com seu pai. A moa
obedeceu. E quando Arminda fez meno de retirar-se  tambm, o padre
deteve-a com um gesto:
  - No. Vosmec pode ficar. Quero que escute tudo. Transmitiu, ento, o
recado de Rodrigo Cambar: o capito
  queria casar com Bibiana e prometia sentar o juzo. Pedro Terra escutou
o padre num silncio em que havia ressentimento e m vontade. E quando o
vigrio terminou,  ele disse simplesmente:
  - Esse homem no  trigo limpo.
  - A  que vosmec se engana. O capito foi condecorado. Vi a f de
ofcio dele.  um homem de grande valor.
  - Mas no  trigo limpo.
  - Quem foi que lhe disse?
  - Qualquer um v logo.
  O padre deu uma palmada na prpria coxa, mas imediatamente arrependeu-se
do seu entusiasmo. No fim de contas no era lgico que estivesse to
apaixonado pela questo  a ponto de perder a calma habitual.
  - Deus, que  Deus, sabe perdoar tudo, meu amigo - disse ele. - At o
mais miservel dos pecadores pode regenerar-se aos olhos d'Ele.
  - Mas eu no sou Deus. Sou um homem.
  - O capito tambm  um homem. Concordo que ele  um pouco atrevido, um
pouco esquentado, vamos dizer. Mas os Amarais so esquentados. E vosmec
tambm  bastante  esquentado.
  321
  Pedro Terra no sorriu. Brincou com a corrente do relgio, pigarreou
secamente e depois falou:
  - Mas quem foi que lhe disse que a Bibiana gosta dele?
  S naquele instante  que o padre percebeu que os Terras quase sempre
principiavam suas sentenas com um mas; era o sinal de que estavam
sempre discordando do que  os outros diziam. Era a gente mais cabeuda,
mais teimosa que ele conhecia.
  - Eu sei que a Bibiana gosta desse homem. E muito. Arrependeu-se de ter
dito isso. No podia violar o segredo do
  confessionrio. Mas agora era tarde. A coisa lhe tinha escapado... Deus
compreenderia. Deus no era cabeudo.
  - Mas quem foi que lhe disse?
  No havia outro remdio seno mostrar as cartas.
  - Ela mesma me disse.
  - Como  que a Bibiana lhe diz coisas que nunca me disse? Arminda ergueu
a cabea e soltou um balido de ovelha:
  - Ora, Pedro. O vigrio sabe... O padre Lara avanou:
  - Vosmec j lhe perguntou alguma vez se ela gostava do capito?
  - No.
  - Pois a est...
  Pedro mexeu-se na cadeira. Viu uma lagartixa atravessar a parede, por
trs do padre. Seguiu-a com os olhos, mas pensando em Bibiana. Por fim
disse:
  - Ela pode gostar um pouco dele. Mas vai acabar esquecendo. 
ergueu a cabea:
  - Esquecendo? - repetiu. - A Bibiana  bem como a av, dessas que s
gostam dum homem em toda a vida. Essas nunca esquecem.
  Pedro Terra suspirou, inclinou o busto para a frente, descansou os
cotovelos nas coxas e apoiou a cabea nas mos.
  -  triste a gente criar uma filha com sacrifcio para entregar depois
ao primeiro canalha que aparece...
  - J lhe disse que o governo no condecora canalhas! Vosmec est sendo
injusto. Um canalha vem da guerra com a guaiaca
  cheia de onas, de jias e de coisas roubadas. O capito Rodrigo trouxe
apenas o soldo que economizou. No  muito. Eu vi.
  Pedro olhava fixamente para o cho. O padre e Arminda trocaram um olhar
significativo. Vendo que ela estava de seu lado, o vigrio sorriu-lhe,
agradecido.
  - Seja tolerante, Pedro - insistiu ele. - Receba o homem na sua casa,
converse com ele, tenha pacincia.
  Pedro ps-se de p e gritou:
  - Bibiana!
  A moa apareceu.
  -  verdade que vosmec gosta deste tal capito Rodrigo? Bibiana baixou
os olhos. Viu as botas embarradas do pai, mas
  viu principalmente a face do capito Rodrigo. Tinha chegado a hora
decisiva. Se mentisse, perderia o homem que amava. Se dissesse a
verdade, poderia perd-lo tambm,  mas pelo menos ficaria com o consolo
de no ter mentido. Acontea o que acontecer - resolveu - vou dizer a
verdade. Sem erguer a cabea, balbuciou:
  - Gosto, papai.
  - E vosmec sabe que eu no gosto dele?
  - Sei, sim senhor.
  - E mesmo assim quer casar com ele?
  - Eu no sei se ele quer casar comigo...
  - Est visto que quer! Mas vosmec est resolvida a arriscar a ser
infeliz?
  Ela ficou em silncio por alguns segundos.
  - Estou - disse, erguendo o rosto e encarando o pai.
  O padre olhou para Pedro e sentiu um calafrio. O que via nos olhos, no
rosto daquele homem era cime, um cime surdo, escondido, que ardia como
brasa viva sob a  cinza.
  - Vosmec alguma vez falou com esse homem? - tornou a perguntar Pedro
Terra.
  - Nunca, papai.
  - E se eu lhe proibisse de falar com ele, que  que vosmec fazia?
  - Obedecia.
  - E ficava triste?
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  - Ficava.
  - Ficava com raiva de mim?
  - Como  que a gente vai ficar com raiva do pai?
  - Mas no acha que um dia vosmec podia esquecer esse homem?
  - No acho, no senhor.
  - Por qu?
  - Porque sei o que sinto.
  - Escute, minha filha. - A voz de Pedro ficou mais branda e ele chegou a
dar um passo na direo da moa. O padre olhou para Arminda e viu que as
mos dela tremiam.  - Vosmec nunca se interessou por homem nenhum...
  Bibiana meneou a cabea afirmativamente.
  - E vosmec no sabe - continuou o pai - que esse homem no tem nada de
seu a no ser um cavalo, um violo e uma espada?... Que esse homem no
tem nenhum ofcio  e henhuma serventia? No v que vosmec pode ser
infeliz com ele, sempre com medo que ele possa abandonar a casa duma
hora pra outra, e ir pra alguma aventura ou  seguir outra mulher? No
sabe?
  - Sei.
  - E assim mesmo quer casar com ele?
  - Se ele quiser, eu quero.
  O padre agora via na moa a deciso de Ana Terra: o mesmo jeito de
falar, quase a mesma voz. Teve saudade da velha, com quem costumava
manter longas conversas ao  p do fogo, nas noites de inverno.
  Pedro Terra continuou:
  - E vosmec sabe que este casamento vai me deixar muito triste?
  - Sei, sim senhor. 
  - E apesar disso ainda insiste em casar com ele?
  A prpria Bibiana sentiu que era Ana Terra quando respondeu:
  - Parece que  sina um de ns dois ficar triste. Veja s, papai. Se eu
me caso com ele, vosmec fica triste, mas eu fico alegre. Se vosmec me
probe de casar, no  caso, mas fico triste, e
  me vendo sempre triste vosmec vai ficar triste e a mame tambm. No 
melhor s um triste em vez de trs?
  Os anjos falaram pela boca dessa menina! - pensou o padre Lara. Mas
olhando para o rosto do pai de Bibiana viu que ele no tinha gostado do
raciocnio.
  Pedro Terra apertou uma mo fechada contra a palma da outra e fez
estralar as juntas dos dedos.
  - Bom, padre - disse ele - posso ser um pouco teimoso, mas no sou
nenhum animal. Vou falar com aquele sujeito. Mas v logo dizendo a ele
que nunca espere a minha  amizade. Quero que vosmec, vigrio, seja
testemunha do que vou dizer  minha filha. - Dirigiu-se  mulher. - E
vosmec tambm, Arminda. - Encarou Bibiana. - Vou  consentir nesse
casamento pra no dizerem que sou um tirano, mas acho que minha filha
vai ser infeliz. Quero lavar as mos do que vai acontecer. Nunca insisti
com  ela pra casar com o Bento, apesar de saber que  o melhor partido
destas redondezas. Ela no gosta do rapaz, est muito bem. Eu tambm no
gosto muito dele. No  probo ela de casar com esse tal capito. Dou o
meu consentimento com tristeza, mas amanh, quando Bibiana depois de
casada vier bater na nossa porta dizendo: "Papai,  vosmec tinha razo,
meu marido no presta", no quero que ningum me culpe do que aconteceu.
Est tudo bem entendido?
  Por alguns momentos ningum falou. Finalmente Bibiana fez um esforo e
disse, com voz trmula:
  - Vosmec sabe que nunca me queixo de nada nem de ningum.
  Examinando com ateno o rosto daquele homem, o padre Lara viu que ele
sofria. Mas outra pessoa que entrasse naquele momento e no soubesse do
que se estava passando,  no perceberia nenhuma alterao na fisionomia
de Pedro Terra. Era a mesma cara de sempre: tostada de sol, fechada e
apenas melanclica.
  15
  Assim, Rodrigo Cambar se casou pelo Natal de 1829 com Bibiana Terra. O
noivo envergava seu fardamento completo, em
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     cujo dlm luzia a medalha. Bibiana ostentava o mesmo vu e a mesma
grinalda que sua me usara no dia de seu casamento. Pedro Terra estava
vestido de preto e trazia  tambm luto fechado no rosto e foi com m
vontade e constrangimento que recebeu as felicitaes que lhe deram 
sada da igreja. Dona Arminda chorava de mansinho  e seus olhos estavam
vermelhos e tristes. Ao p da imagem de Nossa Senhora da Conceio ardia
uma grande vela de cera que Bibiana mandara vir de Rio Pardo para pagar
uma promessa...
  Os noivos foram morar numa casa de madeira, que Juvenal ajudara Rodrigo
a erguer  entrada do povoado, do lado do nascente. Era na pea grande
da frente que ficava  a venda, com suas prateleiras de pinho - onde se
amontoavam as mercadorias: peas de morim e riscado, cordas, velas,
pedras de isqueiro, facas, pentes, vidros de  gua-de-cheiro - e as
barricas e sacos com bolacha, farinha de trigo, arroz, cebola, acar e
sal. Numa prateleira  parte via-se uma pequena botica com purgantes,
ervas medicinais, emplastros, pomadas e linimentos.
  - Para comear j d... - disse Juvenal ao padre no dia em que lhe
mostrou as prateleiras da loja.
  Rodrigo gozou a sua noite de npcias como quem, depois dum longo perodo
de abstinncia, saboreia um jantar especial, com churrasco gordo e bom
vinho; mas no se  tratava duma refeio comum, dessas em que a gente
come em mangas de camisa,  vontade, mas sim duma ceia de cerimnia...
por exemplo, no Pao do Governo, no meio  de figures, numa mesa com
muitos candelabros e talheres de prata, loua fina e mulheres de
maneiras fidalgas - uma ceia enfim em que o conviva do campo tem de
refrear  o apetite, comer devagar, evitando qualquer gesto que possa
ocasionar a quebra dum copo, dum prato ou da etiqueta. Porque todo o seu
apetite por Bibiana, havia tanto  tempo reprimido, foi um pouco contido
pela sensao de estar diante duma donzela, duma moa cuja timidez e
pudor eram to grandes que quase chegaram a contagi-lo.  Mas nem por
isso o vinho deixou de subir-lhe  cabea; nem por isso ele deixou de
quebrar cristais ou de revelar sua sofreguido. Bibiana se lhe entregou
numa passividade  comovida, trmula e cheia de medo. Quando se viu a ss
com aquele homem,
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  deitada com ele na mesma cama, teve por um rpido segundo quase um
sentimento de pnico e a sensao perfeita de que estava praticando um
ato feio e ilegal pelo  qual teria de responder no dia seguinte perante
os pais, o padre e o resto da populao de Santa F.
  E essa sensao de pecado, essa impresso esquisita de que Rodrigo no
era seu marido e de que ela no passava duma "china de soldado", no a
abandonou nunca durante  toda a lua-de-mel, principalmente quando ela se
via frente a frente com o pai. Mas isso no a tornou menos feliz. Porque
naqueles meses que se seguiram ao casamento,  Bibiana viveu como que no
ar, erguida na crista duma onda clida de felicidade que a estonteava um
pouco dando s pessoas e coisas que a cercavam um aspecto de  sonho.
Cuidar da casa, fazer comida para Rodrigo, lavar-lhe a roupa-branca,
usar as coisas de seu prprio enxoval, tomar conta dos bichos do quintal
- tudo isso  eram prazeres que ela gozava duma maneira miudinha,
prolongada, bem como fazia no tempo de menina quando lhe davam um pedao
de rapadura e, evitando tritur-lo com  os dentes, ela o deixava
dissolver-se aos poucos na boca para que o doce durasse mais. E muitas
vezes, quando estava lidando na cozinha ou no quintal, fazia pausas  ao
ouvir a voz do marido, e ficava escutando, como se algum estivesse a
tocar uma msica bonita na venda. E tudo que ele dizia ela achava
divino. "Quantas arrobas?  Duas? L vai." Havia na voz de seu marido um
tom amigo e simptico quando ele gritava para algum recm-chegado:
"Apeie e entre, patrcio! A casa  de vosmec!" E  era mesmo. Porque
Rodrigo gostava de casa cheia e sempre que podia trazia amigos para
almoar ou jantar. "Coma mais uma costela, compadre!" E sua cordialidade
era  to grande que no raro chegava a ser agressiva. "Mais feijo? Mas
vosmec est me fazendo uma desfeita!" E era quase com brutalidade que
botava feijo no prato  do convidado.
  Lembrando-se de cenas como essas, Bibiana ficava sorrindo e escutando a
voz do capito. E ouvia tambm o tinir dos pataces, vintns e cruzados,
que ele atirava  na gaveta. Rodrigo no sabia fazer nada com calma e
jeito. No punha um objeto em cima da mesa: atirava-o. Quando se despia,
 noite, jogava as roupas para
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  todos os lados. No sabia beber um copo d'gua ou de vinho devagar:
tomava-o em goles largos, fazendo muito rudo e no fim estralando os
beios. At mesmo no sono  continuava fazendo barulho: seu ressonar era
pesado e muitas vezes no meio da noite ela ouvira Rodrigo falar enquanto
dormia. Bibiana no cessava de comparar o marido  com o pai e conclua
que eram to diferentes um do outro como geada e. fogo, e mais difceis
de se misturarem do que gua e azeite. Bibiana criara-se  sombra
daquele  homem calado e srio, bondoso mas seco de gestos e palavras.
Nunca o ouvira soltar uma boa risada: quando ele sorria era um sorriso
entre amargo e triste. Sabia  que o pai era bom, isso sabia; no havia
ningum no mundo melhor que ele. Era capaz de todos os sacrifcios para
fazer a famlia feliz. Trabalhava como um mouro,  era um homem honrado,
no se metia na vida de ningum. Quando falava era em voz baixa, e
pouco; e sempre parecia pensar muito antes de falar. Para Pedro Terra
gua-de-cheiro,  brincos, espelhos e enfeites eram coisas inteis de
"gente que no tem mais o que fazer". Os seus ditados - que ele repetia
sempre que havia oportunidade, como para  que servissem de lio  filha
- davam uma idia de sua maneira de avaliar as pessoas e as coisas.
"Mulher que muito ri no pode ser boa coisa." "Primeiro a obrigao,
depois a diverso."
  Uma vez, no tempo de menina, Bibiana apanhara uma sova da me e quando,
com o rosto cheio de lgrimas, ela fora, soluando, queixar-se ao pai,
esperando que ele  a tomasse nos braos e a consolasse, Pedro Terra, de
mos s costas, baixara os olhos para ela e limitara-se a dizer: "No 
nada. Pata de galinha nunca matou pinto".  Quando, antes do casamento,
Dona Arminda expressou um dia a esperana de que Rodrigo pudesse sentar
juzo, Pedro, tirando da boca uma costela de rs, cuja pelanca  ele
tentava arrancar com os dentes, disse com a voz que a banha fazia perder
a habitual secura: "Cachorro que come ovelha uma vez, come sempre, s
morto se endireita".  Nos dias de tristeza, quando tudo lhe parecia sair
mal - uma colheita pobre, uma peste na lavoura ou no gado, uma doena na
famlia - Pedro Terra suspirava e dizia:  "A vida  como vaca tambeira
que esconde o melhor leite". No deixava Bibiana ir a bailes seno duas
ou trs vezes por ano, e assim
  328
  mesmo em sua companhia; durante todo o tempo das danas ficava sentado a
um canto, sem tirar os olhos dela. Porque tinha medo de que comeassem a
falar da filha,  pois "a boca do povo - dizia -  maior que a boca da
noite, e muito mais malvada".
  Era por tudo isso que Bibiana no se habituava  nova situao. Tudo era
bom demais para ser verdade. Tinha agora seu marido, sua casa, sua
liberdade... Mas Rodrigo  era to diferente do pai, to alegre, to
descuidado, to barulhento, to engraado, que ela s vezes ficava com a
impresso de que estava - ainda para usar uma  frase de Pedro Terra -
levando uma vida de "gente louca" e que portanto essa vida no era
decente nem podia durar.
  E quando Rodrigo  noite a tomava nos braos, erguia-a no ar como se ela
fosse um nen, e comeava a beijar-lhe os cabelos, o pescoo, os braos,
Bibiana desatava  a rir, cheia de ccegas, feliz e ao mesmo tempo
envergonhada, amando-o mas achando-o despudorado - e todo o tempo ficava
a olhar para a porta, para a janela aberta,  receando que algum os
visse naquela indecncia e, acima de tudo, temendo que o pai
aparecesse...
  Num anoitecer em que o padre Lara viera visit-los aps o jantar e
ficara a conversar e a fumar enquanto ela tirava os pratos da mesa,
Rodrigo dera uma palmada nas  ndegas de Bibiana, soltando ao mesmo
tempo uma risada e dizendo: "Certas coisas da vida valem mais que uma
ponchada de onas!"- ela ficara muito vermelha e refugiara-se  na
cozinha, sem coragem de olhar para o vigrio.
  Para Rodrigo todas as noites eram noites de amor. Bibiana ficava um
pouco assustada. Os ardores do marido a sufocavam. E havia no rosto dele
algo que a fascinava  e ao mesmo tempo a atemorizava. Longe dele Bibiana
fazia projetos. Ia pedir-lhe que tivesse modos diante de estranhos; que
a deixasse dormir cedo; que no a acordasse  no meio da noite para fazer
as suas loucuras. Mas quando o via no pedia nada. Submetia-se a todos
os seus desejos. Quando ele entrava numa pea, de repente tudo  como que
esquentava, e ficava mais claro, como se a cara do capito fosse um sol.
Quando o marido falava, ela sentia uma coisa no peito. Quando ele a
tocava, ela  desejava entregar-se, derreter-se, ficar mais pequena
  329
  ainda do que era... Mas havia sempre de mistura com seus prazeres e
xtases um elemento secreto de inquietao - no s o pressentimento de
que aquilo tudo no podia  durar como tambm a desconfiana de que
aquele tipo de amor no era direito, no devia existir entre marido e
mulher.
  O pai e a me apareciam raramente. Quando vinham era para visitas breves
em que o velho falava pouco e nunca olhava Rodrigo nos olhos, apesar de
todos os esforos  que este ltimo fazia para ser agradvel ao sogro.
Quem os visitava mais era Juvenal, que quando no estava em viagem para
o Rio Pardo, ajudava o cunhado no servio  da venda.
  Uma noitinha, depois do jantar, Rodrigo sentou-se num banco, botou a
mulher no colo e comeou a beij-la com avidez.
  - No! - balbuciou ela. - Agora no.
  - S um pouquinho, minha prenda - disse ele, e seus lbios midos e
frescos passearam pelo pescoo da mulher.
  Estava de costas para a porta, atravs da qual Bibiana, apreensiva, via
a rua. Num dado momento avistou dois vultos que se aproximavam. A noite
estava clara e ela  reconheceu neles o pai e a me. Fez um esforo para
se desvencilhar do marido, -mas os braos de Rodrigo a prendiam. E
Bibiana, muda, afogueada, cheia de vergonha,  viu o pai acercar-se da
porta, parar, olhar para ela, de cenho franzido, fazer meia-volta, tomar
o brao da mulher e ir-se embora sem dizer palavra.
  - Por favor, Rodrigo!
  Rodrigo, porm, continuava a beij-la com fria, por entre risos.
Bibiana olhava para a potta, para a noite, e no podia esquecer a
expresso de desagradvel surpresa  e - sim! - de vergonha, que vira no
rosto do pai.
  16
  O vero se foi, entrou o outono e Bibiana - que esperava o primeiro
filho para meados da primavera - comeava a ficar deformada pela
gravidez. Seu ventre estava  muito crescido, as feies
  um pouco intumescidas e o busto mais cheio. Rodrigo contemplava-a numa
confuso de sentimentos. A idia de que ia ter um filho deixava-o
alvoroado, orgulhoso, e  ele contava os dias nos dedos, desejando que o
tempo passasse e outubro chegasse depressa. Havia, porm, em sua alegria
um demento de impacincia. Porque Bibiana  como que se desmanchava aos
poucos ante seus olhos sempre gulosos. A rigidez de suas carnes dera
lugar a uma flacidez descorada e ela de repente como que se fizera  mais
adulta, mais mulher. E ele, que j no se podia entregar aos mesmos
excessos amorosos - pois alm de ser obrigado a cuidados especiais com
a esposa j comeava  a ach-la menos atraente - ficava irritado com a
situao e agora j pensava em outras mulheres.
  Bibiana percebeu isso mas no disse nada. Vivia em constantes acessos de
nervos, chorava s escondidas e enchia-se de medo ao pensar no parto.
Quando comunicava  esses temores  me, Dona Arminda, para a consolar,
dizia:
  - No h de ser nada, minha filha. A tesoura de tua av est a mesmo.
  Mas isso, longe de confortar Bibiana, dava-lhe um terror frio, pois
achava horrvel a idia de cortarem o cordo umbilical da criana com
aquela tesoura negra e  enferrujada.
  Quando chegou a poca de Juvenal ir ao Rio Pardo buscar novo sortimento
para o inverno - pois quando entrasse junho seria praticamente
impossvel atravessar a serra  - Rodrigo ofereceu-se para ir fazer a
viagem daquela vez.
  - Mas vosmec no conhece a estrada - observou o cunhado.
  - No se apoquente. Hei de encontrar o Rio Pardo. Juvenal mirou o
cunhado com seus olhos apertados e cheios
  de suspeita, e disse:
  - Mas tenho medo que depois vosmec no encontre Santa F, na volta...
  Ele percebia tudo. Rodrigo queria um pretexto para se ausentar de casa
por uns dois ou trs meses, para evitar de ver a mulher naquele estado.
Essa era uma das razes  pela qual insistia em fazer a viagem. A outra,
mais poderosa, era o desejo de correr mundo,
  330
  331
  pois Juvenal compreendia - embora parecesse no atentar na coisa - que o
cunhado j comeava a aborrecer aquela vida parada ali atrs do balco a
vender pingas e  a pesar farinha e feijo. Acontecia tambm que no Rio
Pardo Rodrigo poderia procurar chinas. Em Santa F isso no era fcil.
  - Pois est bem - disse. - Desta vez vai vosmec. Quando Rodrigo
participou  mulher a deciso que tomara,
  Bibiana nada disse. Foi para o quarto, deitou-se, apertou o rosto no
travesseiro e chorou. Tinha o pressentimento de que Rodrigo no voltaria
mais. Podia cair num  precipcio na serra ou ento meter-se em alguma
briga no Rio Pardo e ser assassinado.
  Quando se despediu do marido, abraou-o e beijou-o longamente.
  - Eu volto logo, minha prenda - disse ele. - Cuide bem de nosso filho.
  Durante a ausncia de Rodrigo, Bibiana de dia ajudava Juvenal na venda e
ao anoitecer dirigia-se para a casa dos pais, onde pernoitava. Fiava na
roca roupas para  o filho, ia para a cama cedo mas ficava muitas horas
sem poder dormir, pensando no marido. Sentia falta da voz, dele, do
cheiio dele, da presena dele. E  medida  que o tempo passava mais se
fortalecia nela o pressentimento de que nunca mais tornaria a ver
Rodrigo. Era essa mesma suspeita que Bibiana lia nos olhos do pai,  nas
raras vezes em que ele a fitava. Porque agora Pedro Terra evitava olhai
para ela, como se aquele filho que ela trazia no ventre fosse o produto
dum amor ilegtimo,  dum "mau passo". Bibiana ficava constrangida quando
alguma amiga que a visitava ou cruzava com ela na rua lhe pedia notcias
de Rodrigo, pois sentia, no tom de voz  com que as outras faziam a
pergunta, que elas tinham a certeza de que o capito Cambar no voltava
mais. Uma tarde Lcia, a filha de Chico Pinto, perguntou-lhe:
  - Sabes quem chegou hoje?
  - No. Quem foi?
  - O Bento Amaral e a mulher. Dizem que o casamento deles
  foi uma maravilha. Uma beleza, as gentes mais finas de Porto Alegre foram. Foi at o governador!  332
 Houve uma pausa. A outra baixou os olhos para o ventre de Bibiana.
  - Ento, pra quando  o "baile"?
  - Ah, vai demorar ainda. Parece que  l pra meados de outubro.
  Ao se despedirem, Lcia Pinto sussurrou:
  - Esse filho podia ser do Bento, no? Ia ser melhor pra ti e pra ele. Em
vez de morar na venda, tu morava no casaro da praa.
  Bibiana voltou para casa pensando naquelas palavras. E  medida que os
minutos passavam ia crescendo sua indignao. Filho do Bento! Ela estava
satisfeita e orgulhosa  por trazer dentro de si um filho do capito
Rodrigo Cambar. Pensou no Bento e na cicatriz em forma de P que ele
tinha na face. Avistara-o apenas duas vezes depois  do duelo, e o homem
dobrara esquinas, intempestivo, para no se defrontar com ela. Se a
mulher de Bento ficasse grvida e olhasse muito para o rosto do marido,
era  bem possvel que o filho nascesse com aquele P em algum lugar do
corpinho. E assim a marca de Rodrigo passaria tambm para a criana.
  Ao chegar a casa, ao ver as coisas do marido - o uniforme, a espada, a
medalha - sentiu que quem tinha mais forte a marca de Rodrigo era ela
mesma. Tinha-a em todo  o corpo, como que feita a fogo.
  Deitou-se, abraada com o dlm do capito, e comeou a chorar de
mansinho. Da loja vinha a voz calma e seca de Juvenal, que conversava
com os fregueses. E em pensamentos  Bibiana via o marido estirado no
cho, no fundo dum precipcio, com a cabea esmagada; ou ento no
momento em que o enterravam, no Rio Pardo, depois dum duelo. As
lgrimas caam no dlm escuro e ela sentia no rosto o contato fresco
dos botes de metal. Naquele momento Bibiana percebeu que o filho lhe
esperneava no ventre  e por entre lgrimas comeou a sorrir. Talvez
fosse um homem e herdasse o gnio do pai. Imaginou Ana Terra com o
bisneto no colo. Era pena que ela estivesse morta.  E suas lgrimas
passaram ento a ser pela ausncia de Rodrigo e um pouco pela morte da
av.
  333
  O outono se foi, comearam as chuvas e os frios de inverno, e Rodrigo
no chegava. Juvenal inquietava-se porque j era tempo de o cunhado
estar de volta. Fazia-se  perguntas a si mesmo, imaginava coisas negras,
mas no dizia nada  irm para no inquiet-la.
  E em certos dias em que o minuano soprava, enrolada num xale e pedalando
na roca (pois agora que estava cada vez mais pesada no podia ir ajudar
o irmo na venda)  Bibiana pensava na av, que costumava dizer-lhe que o
destino das mulheres da famlia era fiar, chorar e esperar.
  Junho ia em meio quando um dia Rodrigo apareceu com a carreta. Os amigos
o receberam com grande alvoroo. Juvenal alegrou-se de v-lo mas
limitou-se a apertar-lhe  a mo e a dar-lhe duas palmadinhas no ombro,
perguntando apenas:
  - Fez boa viagem?
  Rodrigo no ouviu a pergunta. Precipitou-se para casa, entrou e tomou
Bibiana nos braos, cobrindo-lhe o rosto de beijos. Ela no pde falar,
engasgada.  vista  do marido, cuja voz ouvira antes de ele entrar em
casa, sentira uma onda de calor tomar-lhe conta do corpo. Era como se
ela voltasse  vida depois de estar morta  e fechada num tmulo; era
como se o sol se abrisse de repente depois duma temporada longa de chuva
e cu nublado. Tinha uma bola na garganta, e quando Rodrigo a  beijava e
dizia coisas e tornava a beij-la e a fazer perguntas - seus lbios
permaneciam imveis e frios. E enquanto o marido a apertava nos braos,
o filho lhe  esperneava nas entranhas. Essas coisas lhe deram um
contentamento to grande, to agudo, que Bibiana Terra desejou morrer
naquele momento, morrer porque temia que  no futuro essa felicidade
acabasse.
  Naquela noite Rodrigo contou  mulher, ao cunhado e a outros amigos as
peripcias de sua viagem. Perdera-se na serra, lutara contra tremedais,
matagais e peraus,  mas achara finalmente o caminho. Tinha trazido a
carreta cheia de mercadorias para a venda e muitos presentes para
Bibiana.
  E quando no dia seguinte foram ambos visitar Pedro Terra, a primeira
coisa que Rodrigo disse foi:
  334
  - O tio de vosmec, o velho Horcio, mandou muitas lembranas...
  - Agradecido - respondeu Pedro. E no disse muito mais que isso durante
todo o resto da visita em que o genro contou as novidades do Rio Pardo.
  Outubro passou e o filho de Bibiana no nasceu, contrariando todas as
previses. Mas  uma hora do dia 2 de novembro ela comeou a ter dores
muito fortes e, por  volta das quatro da tarde, uma criana
recm-nascida berrava na casa de Rodrigo Cambar.
  - Logo no dia de Finados! - lamentou-se Bibiana. Estava estendida na
cama, muito plida, de plpebras pisadas. Rodrigo tomou nas suas a mo
da mulher e fespondeu:
  - Mas foi no dia de Finados que ns nos conhecemos, minha prenda.
  A mulher sorriu um sorriso cansado. Dona Arminda entrou no quarto e
fumigou-o com alfazema. Pedro veio olhar o neto e ficou a mir-lo em
silncio, sorrindo com os  olhos.
  Rodrigo exclamou:
  - Mais um Cambar macho!
  O sogro no respondeu. Lanou um olhar enviesado e tristonho para a
mesa, em cima da qual jazia a velha tesoura de Ana Terra.
  17
  Na sua admirao pelo coronel Bento Gonalves, em cujo regimento de
cavalaria servira, Rodrigo pensou em dar ao filho o nome de Bento. Mas
lembrou-se de Bento Amaral  e resolveu chamar ao primognito Bolvar.
Bibiana no gostou do nome, mas no fez o menor reparo: o desejo do
marido era para ela uma ordem. O padre Lara batizou-o  naquele mesmo
novembro: Juvenal e Maruca foram os padrinhos.
  Rodrigo no podia esconder seu orgulho e sua satisfao por ter um filho
macho. Brincava com a criana como uma menina brinca com sua boneca e s
vezes no podia  deixar de dar voz 
  335
  sua impacincia diante do fato irremedivel de que a criana levaria
anos para crescer, fazer-se homem e poder chegar  idade de botar
pistola e espada na cintura  e sair a burlequear pelo Continente.
  - O mundo est errado! - disse ele um dia ao vigrio, quando ambos
conversavam na frente da venda, aps o jantar. - Por que  que cavalo
cresce to depressa e gente  leva tanto tempo?
  O padre, que palitava os dentes com um espinho de laranjeira, encolheu
os ombros e respondeu, meio vago:
  - Deve ser porque cavalo vive menos.
  - Tambm est errado. Um cavalo devia viver tanto como
  uma pessoa.
  O padre Lara olhou para o capito longamente antes de falar. Fazia meses
que vinha notando mudanas nele. O homem simplesmente andava
desinquieto, irritadio. Tudo  indicava que aquela vida sedentria,
atrs dum balco, comeava a entedi-lo. No fora feito para aquilo.
Para falar a verdade, tambm no fora feito para  o matrimnio  ou,
melhor, para ter uma mulher s. E o vigrio se
  inquietava, pois de certo modo se sentia responsvel perante Pedro e
Arminda Terra por aquele casamento, do qual era uma espcie de fiador.
Se o signatrio da letra  de que ele era avalista fugisse e ele fosse
chamado a pagar a dvida, que poderia fazer ou dizer? Soltou um suspiro
e perguntou:
  - Se vosmec fosse o criador do mundo, como  que fazia as coisas e as
pessoas?
  Rodrigo apanhou um seixo, fez pontaria numa rvore e arremessou-o,
errando o alvo.
  - Se eu fosse dono do mundo, fazia algumas mudanas...
  - Por exemplo... - pediu o padre.
  - Acabava com essa histria de trabalhar...
  - Sim, e depois?
  - Fazia os filhos virem ao mundo de outro jeito. Eu vi o que a Bibiana
sofreu.  medonho.
  O vigrio sorria. Aquelas palavras, partidas dum egosta, no deixavam
de ter seu valor.
  - E depois?
  - Dividia essas grandes sesmarias de homens como o coronel Amaral.
  - Dividia? Como? Pra qu?
  - Dividia e dava um pedao pra cada peo, pra cada ndio, pra cada
negro.
  - No v me dizer que ia libertar os escravos...
  - E por que no? Acabava com a escravatura imediatamente. O padre ria, e
o riso encatarroado que o sacudia todo, depois
  se transformou num acesso de tosse que acabou por deix-lo ofegante e
cansado.
  - Vosmec  das arbias, capito. Mas continue com o seu mundo... Que
mais?
  Dentro da casa Bolvar chorava. E Bibiana, ninando-o, cantava as
cantigas de Ana Terra.
  - Ah! Eu ia m'esquecendo. Pra principiar, fazia o mundo mais pequeno,
pra gente poder atravessar todo ele a cavalo, sem levar muito tempo.
  - E como  que vosmec ia se arranjar, indo dum pas pra outro sem
conhecer outra lngua seno a sua?
  - Eu acabava com esse negcio de lnguas diferentes... Rodrigo fez uma
pausa e ficou pensativo.
  - Que mais?
  - Acabava tambm com a velhice.
  - Acabava?
  - Quero dizer, ningum envelhecia mais...
  - Nem morria?
  - Morrer... morria. Mas se morria era de desastre, nos duelos, nas
guerras.
  O vigrio mordeu o palito, fez avanar a cabea na direo do outro:
  - Vosmec no ia tambm acabar com as guerras?
  Rodrigo por instante pareceu confuso. Depois respondeu, lento:
  - Bom... Acabar de todo, no acabava. Porque guerra  divertimento de
homem. Sem uma guerrinha de vez em quando ficava tudo muito enjoado.
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  337
  - Ia ser um mundo bem esquisito...
  - Mas no mais esquisito que este nosso, padre.
  - Se Deus fez o mundo assim foi porque achou que era o
  direito.
  - Mas ha muita coisa torta por a.
  - Que h, h...
  Rodrigo abafou um bocejo. Depois, olhando para os lados como para ver se
ningum o escutava, cochichou:
  - Outra coisa, padre. No meu mundo no ia haver casamento. Um homem
podia ter quantas mulheres quisesse. Dez, quinze,
  vinte, mil...
  - E se dois homens desejassem a mesma mulher? Rodrigo respondeu
indiretamente com uma pergunta:
  - Pra que  que serve a espada? Pra que  que serve a adaga?
  E a pistola?
  O vigrio procurou resumir as aspiraes do amigo atravs do que ouvira
e do que sabia dele por observao direta durante aquele
  ano:
  - Noutras palavras, capito, seu desejo mesmo  andar correndo mundo,
sem pouso certo, sem obrigao marcada, agarrando aqui e ali uma mulher
como quem apanha fruta  em rvore de beira de estrada... De vez em
quando uma partidinha de truco ou de solo, um joguinho de osso, umas
carreiras, e para variar, uma peleia... No  isso?
  Rodrigo sacudiu a cabea lentamente.
  - Mais ou menos.
  O choro do menino cessara, mas Bibiana ainda cantava baixinho. Um co
ladrou para os lados da casa dos Amarais. Por longo tempo os dois amigos
ficaram em silncio,  olhando o cu estrelado. Rodrigo pensava na mulher
com quem dormira todas as noites que passara no Rio Pardo: era uma
mulata clara, de olhos verdes, com uma voz  doce como arroz-de-leite e
um corpo que cheirava a fruta madura quente do sol. O padre Lara pensava
na noite que iria passar... horas de aflio, sem ar e sem sono.  A
solido de seu quarto era to grande que ele s vezes ia para a capela e
l ficava orando e meditando, olhando para a imagem de Nossa Senhora,
  338
  como que a buscar-lhe a companhia. Quase ao amanhecer caa no sono e
dormia no cho, sobre as tbuas duras.
  - Mas o mundo no  o que a gente quer - disse ele, quebrando o
silncio. -  o que .
  - Eu sei que ele  o que . Mas a gente no deve se entregar. Deve lutar
para conseguir as coisas que quer. No h muita gente disposta a dar. s
vezes  preciso  tirar  fora.
  - Cada qual luta a seu modo, meu filho. Cada qual luta por um ideal.
Houve homens que lutaram para libertar o Brasil dos portugueses.
  - Mas os galegos esto a mesmo - retorquiu Rodrigo. - Nas tropas os
oficiais portugueses mandam mais que os brasileiros. No fundo a
independncia no mudou nada.
  - Mas deixe-me terminar o pensamento. Uns lutam de arma na mo pela sua
ptria. Eu luto pela minha f. Vosmec no acha que eu podia encontrar
uma vida melhor se  tivesse ficado em So Paulo e seguido o comrcio
como os meus irmos fizeram? - Rodrigo sacudiu a cabea. - Pois . Estou
aqui porque esta gente em geral vive sem  Deus. Vosmec sabe que um
padre tambm  chamado um pastor. E porque os paroquianos so como
ovelhas.  preciso proteger os rebanhos contra os guars, os tigres,  as
onas-pintadas. Mas de que  que vosmec est rindo?
  Ao luar ele via a cara do capito, toda aberta num sorriso irnico.
  - Me lembrei do coronel Amaral.
  - E que  que ele tem a ver com a nossa conversa?
  - Tem muito. Ele  um leo baio. E dos grandes! E vosmec parece ser
mais do lado dele que do lado das ovelhas, padre.
  O padre Lara empertigou-se sobre a banqueta.
  - No compreendo - disse. Mas compreendia perfeitamente o que o outro
insinuava.
  - Vosmec sabe como ele trata os escravos... - continuou Rodrigo. - Para
ele negro no merece ser considerado gente. Vosmec sabe como ele trata
os pees e os agregados.  E vosmec no ignora que ele tem mandado matar
gente...
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  O padre Lara estava meio sufocado. Que conversa para depois do jantar!
Seu ressentimento, sua confuso lhe tiravam a clareza das idias e ao
mesmo tempo lhe roubavam  o flego. Passaram-se alguns momentos antes
que ele pudesse falar.
  - Mas no h provas! - exclamou por fim.
  - Provas do qu?
  De que foi o coronel Amaral que mandou matar aqueles
  homens.
  E ao dizer estas palavras ele baixou a voz e olhou a medo para os lados.
Rodrigo soltou uma risada:
  - Ora, padre, todo mundo sabe!
  E depois vosmec deve saber que muitas vezes fui falar
  com o coronel para interceder por um escravo, por um peo. Ele
  me ouve muito.
  Rodrigo desabotoou a camisa e puxou-a para fora das bombachas. Sentia
calor. No havia a menor virao na noite clida.
  - Conheci muitos padres por esse mundo velho que tenho corrido. Eles
nunca esto contra o governo.
  - A Igreja no  revolucionria - exclamou o vigrio. - A Igreja no 
lugar de conspiraes. Ela representa o poder espiritual, que est
acima, muito acima do temporal.
  - No me venha com essas palavras difceis, padre, que eu no entendo.
Fale claro. Temporal pra mim  mau tempo. Mas, falando srio, amigo
Lara, c pra ns, no maior  segredo, vosmecs nunca se arriscam a ir
contra o governo, no  mesmo?
  O padre rosnou alguma coisa ininteligvel. Depois sua voz se fez clara e
ele murmurou:
  - No  a Igreja que est com o governo.  o governo que est com a
Igreja.
  - Aha! - e a gargalhada de Rodrigo encheu aquele pedao da noite que
parecia envolver a casa. - Quando ns brigamos com os castelhanos,
nossas bandeiras e nossas  espadas eram benzidas aqui pelos padres
catlicos. E os padres catlicos l da Banda Oriental faziam o mesmo com
as bandeiras e as espadas dos castelhanos. Como   que se explica isso?
  340
  - Isso prova que a Igreja Catlica  universal. Est acima das paixes e
dos interesses dos homens, que so todos iguais perante Deus.
  - Iguais? At os negros?
  O padre teve um levssimo instante de hesitao - no porque
considerasse os negros animais, mas porque lhe passou pela cabea uma
dvida quanto  maneira como o  outro podia usar sua resposta.
  - At os negros, claro.
  - Ento por que  que vosmec nunca protestou contra a escravatura?
  O padre mexeu-se, tomado de mal-estar. Nessas ocasies ele sentia mais
agudamente que nunca aquele fogo no peito.
  - Os escravos nesta provncia so muito mais bem tratados que em
qualquer outra parte do Brasil! Eu queria que vosmec visse como os
senhores de engenho tratam  os negros l no Norte.
  - Eu sei, mas vosmec no respondeu  minha pergunta... Ser que Deus
no fez os homens iguais?
  - Mas tem de haver categorias para haver ordem e respeito. - Usou uma
palavra grande para esmagar o outro. - Tem de haver hierarquia. No fim
de contas esse foi  o mundo que ns encontramos ao nascer, capito. No
podemos mudar tudo de repente.
  Ia acrescentar: "Um dia essas mudanas ho de fazer-se". Mas achou
melhor calar-se. As paredes tinham ouvidos. Alm disso, o capito era
muito conversador. Preferiu  mudar de assunto e dizer:
  - Por que  que vosmec se mostra to do lado dos negros? Por qu? 
porque vosmec no fundo  um homem de bem. Isso  um sinal de que ainda
um dia poder vir a  ser um bom catlico.
  - Nada disso, padre! Sou contra a escravatura s por uma coisa.  que
no gosto de ver homem rebaixado por homem. Ns os Cambars temos uma
lei: nunca batemos em  mulher nem em homem fraco; nem nunca usamos arma
contra homem desarmado, mesmo que ele seja forte. Quando vejo um negro
que baixa a cabea quando gritam com ele,  ou quando vejo um escravo
surrado, o sangue me ferve. Depois que vi certos negros brigando no
nosso
  341
  exrcito contra os castelhanos... barbaridade!... se eles no so homens
ento no sei quem ...
  - Bons sentimentos, capito. Bons sentimentos - disse o vigrio,
levantando-se. - Vou andando para comear a minha via dolorosa.
  Referia-se s andanas habituais da noite: despir-se, ir para a cama,
orar, lutar com a tosse, a falta de ar; depois enfrentar a longa
viglia, e os seus pensamentos  e o medo - que ele no podia dominar -
de morrer sozinho no quarto.
  Rodrigo ergueu-se tambm.
  - Eu vou com vosmec at a capela.
  - No se incomode.
  - No  incmodo. A noite est bonita. - Chegou at a porta da casa e
gritou: - Bibiana, vou levar o padre em casa e j volto.
  A mulher, que tinha o filho no colo e balouava-o dum lado para outro,
fez com a cabea um sinal de assentimento.
  Rodrigo e o padre comearam a andar lado a lado. O luar como que azulava
tudo e as casas lanavam suas sombras negras sobre o cho da rua. Muitas
janelas estavam  iluminadas.
  De mos s costas, a respirao spera, muito encurvado, o padre
caminhava dum jeito que dava a Rodrigo a impresso de que era com
dificuldade que mantinha erguida  a grande cabea. E os dois amigos
continuaram a andar em silncio, escoltados pelas prprias sombras. No
disseram uma nica palavra antes de chegarem  praa.
  Rodrigo olhou para a casa de Pedro Terra e pensou nos tempos em que
Bibiana vivia l dentro e ele no lhe conseguia falar. Comparou
mentalmente a Bibiana daquela  poca com a de hoje. Ele a amava ainda,
sim, no havia a menor dvida. Mas seria intil tentar esconder a
verdade de que j no sentia por ela o mesmo apetite de  antigamente.
  Olhando para o casaro de pedra, o vigrio perguntou:
  - Tem visto os Amarais?
  - Inda outro dia cruzei com o Bento. O padre segurou o brao de Rodrigo.
  342
  - E ele?
  O capito deu de ombros.
  - Virou a cara. Virou mas tive tempo de ver a minha marca... Foi uma
pena eu no ter terminado aquele R. Falta s o rabinho.
  - No pense mais nisso, capito. Vosmec agora  pai de famlia.
  - E ele tambm vai ser ainda este ano. A mulher est de barriga.
  - E o velho?
  - Faz sculos que no vejo.
  - Anda muito entusiasmado, falam que Santa F vai ser vilada e ele quer
ser o presidente da Cmara Municipal.
  - E ser - retrucou Rodrigo. - Todo o mundo vai votar nele. Inclusive
vosmec, padre.
  - Quem foi que lhe disse?
  - Eu  que sei...
  Os dentes do capito estavam  mostra num ricto sardnico. O padre olhou
para ele longamente e depois, entre confidencial e trocista, disse:
  - Meu filho, aprenda uma coisa. Por que  que a Igreja tem sobrevivido
atravs de todos estes sculos? Por qu? Passam os reis, os
conquistadores, os generais, os  filsofos... passa tudo. Mas a Igreja
fica. Alguns pensam que  s porque ela  de origem divina. - Piscou um
olho e pegou na fralda da camisa do outro. - Mas eu  acho, e Deus me
perdoe a irreverncia, que  um pouco porque ns os sacerdotes somos
realistas. Realistas, est ouvindo? Vosmec sabe o que  um realista?
  - Um homem do lado do rei?
  O padre Lara sacudiu a cabea numa ardorosa negativa.
  - No. Um realista  um homem que nunca d murro em ponta de faca. Deixa
que os outros dem... Boa noite, capito, durma bem.
  - Boa noite, vigrio.
  Rodrigo voltou para casa pensando na mulata de olhos verdes que lhe
alegrara as noites no Rio Pardo. Quando entrou no quarto, Bibiana mudava
as fraldas de Bolvar,  que estava acordado em cima
  343
  da cama, sacudindo os braos e as pernas. Rodrigo ajoelhou-srjunto ao
leito, aproximou a lamparina e olhou bem a cara do filho, buscando
parecenas. No conseguia  nunca saber se os olhos da criana eram
pretos ou dum azul-escuro. Do nariz pra cima  a Bibiana - pensava - do
nariz pra baixo  parecido comigo... Sorriu e comeou  a dizer coisas e
a fazer ccegas no ventre do filho.
  - No faa ccegas no menino, Rodrigo! - pediu Bibiana, que tirava
fraldas novas de dentro dum ba.
  Mas Rodrigo no lhe dava ouvidos. Passeava os dedos cabeludos pelo corpo
claro do beb, apertava-lhe as pernas. Seus olhos fixaram-se no sexo da
criaturinha, em  torno do qual ele j inventava histrias e anedotas.
  - J viu, Bibiana?  bem Cambar, este diabo. E vai dar muito trabalho
s moas. Quando ele tiver catorze anos quem vai procurar mulher pra ele
sou eu.
  Vai, fica com ela e esquece o filho - pensou Bibiana, mas no disse
nada.
  - E se me sair marics, que Deus nos livre, atiro ele no primeiro perau
que encontrar no caminho.
  - Nem diga uma coisa dessas!
  Rodrigo derretia-se para o filho, e ao falar com ele sua voz ficava
macia.
  - Mas este no tem perigo. J estou vendo na cara do bichinho. Vai ser
macho mesmo. Capito Bolvar Cambar. Dar muito que falar. Quero viver
bastante para ver  meu filho homem feito e poder andar um pouco com ele
por este mundo velho.
  E em vez de esperar e ter medo por causa de um - pensou Bibiana - vou
esperar e ter medo por causa dos dois. Imaginou o que seria sua vida no
dia em que Bolvar  crescesse e sasse a correr mundo com o pai.
Aproximou-se da cama e comeou a mudar as fraldas do filho, mas tendo
antes o cuidado de polvilhar-lhe as ndegas e  as coxas com farinha de
arroz.
  - Isso! - dizia Rodrigo. - Bota farinha no capito. Cuida bem dele.
Daqui a uns vinte anos no h de faltar mulher que queira fazer isso.
Olha s a cara desse sem-vergonha!  Parece que j entende tudo.
  344
  Bibiana tornou a tomar o filho nos braos e depois deu-lhe o peito.
Rodrigo ficou junto da porta da rua olhando a noite, com um desejo de
montar a cavalo e sair  para o campo. Santa F era triste. Havia ali
poucas diverses. A vila mais prxima, Cruz Alta,
  ficava muito longe... Abriu a boca num bocejo. E de repente
  quase num susto - sentiu-se mais gordo, menos enrgico, um pouco
molenga. Fazia tempo que no brigava, que no se movimentava. Aquela
vida de balco, que lhe enferrujava  os membros, era de matar um cristo
de aborrecimento. Por que se tinha ele metido naquilo? Por qu?
  Voltou para dentro de casa e fechou a porta. Uma hora depois estavam os
dois deitados e, revolvendo-se na cama, Bibiana, disse:
  - Um filho s  ruim, Rodrigo. Fica muito mimado.
  Na verdade ela pensava numa menina, em algum que lhe pudesse fazer
companhia no futuro.
  - Pois podemos tratar disso agora, minha prenda - disse ele,
abraando-a.
  E assoprou a lamparina.
  18
  Um ano depois o padre Lara escreveu no seu registro: "Aos vinte e oito
de dezembro de mil oitocentos e trinta e um nesta capela de Nossa
Senhora da Conceio batizei  e dei os Santos leos a Anita, filha
legtima do capito Rodrigo Severo Cambar, natural da freguesia do Rio
Grande, e de sua mulher Bibiana, natural desta freguesia..."
  Pedro Terra no compareceu ao batizado. Cada vez se afastava mais do
genro, cujo comportamento ultimamente se havia deteriorado de tal
maneira, que era por assim  dizer o assunto predileto de Santa F. Todos
sabiam que ele no vendia um copo de cachaa sem beber outro, junto com
o fregus. Vivia em rodas de solo e bisca e  jogava a dinheiro; aos
domingos ia para as carreiras onde
  345
  
  fazia apostas altas. Gastava tambm um dinheiro com galos de rinha.
Diziam, mais, que freqentava o rancho da Paraguaia, uma ndia velha que
morava l para as bandas  do cemitrio e que cedia a neta de dezoito
anos a quem estivesse disposto a pagar por ela alguns pataces.
Murmurava-se at que Rodrigo, que se enrabichara pela  rapariga, dava
muito dinheiro  av para ter o uso exclusivo da chinoca. Essas
conversas chegavam aos ouvidos de Pedro Terra, que as ouvia sem
comentrio, com uma  raiva surda que era dirigida muito contra Rodrigo,
mas um pouco tambm contra quem lhe trazia as murmuraes. E de mistura
com essa raiva havia um sentimento de  vitria, pois tudo aquilo ele
tinha previsto; nunca se iludira com Rodrigo. Esperava o dia em que
Bibiana lhe viesse chorosa bater  porta para se queixar do marido.
Ento ele lhe diria: "Eu bem que l avisei".
  Imaginou o futuro da filha: daria cria todos os anos e depois que ela
estivesse com uma ninhada bem grande, o marido iria embora, deixando-a
ao abandono com toda  a prole.
  Por isso no foi ao batizado de Anita nem quis v-la. Era o seu protesto
e equivalia a um rompimento definitivo com o genro.
  Bibiana ficou triste mas no disse nada. Sua tristeza entretanto no
durou, porque comeou a entreter-se com a filha, que era ainda mais
bonita que Bolvar e tinha  os olhos azuis. Seu trabalho agora dobrara,
pois, alm de todo o servio da casa, tinha de cuidar de duas crianas
pequenas. Bolvar, longe de diminuir-lhe o trabalho  agora que j
caminhava, criava-lhe mais problemas, pois andava a correr por toda a
casa, saa pelo quintal a perseguir as galinhas e um dia quase virara
sobre a  cabea um tacho cheio de marmelada a ferver.
  Rodrigo freqentemente tomava a filha nos braos e vinha mostr-la aos
homens na venda.
  - Vejam os olhos dela... So como os do pai.
  - No preferia que fosse um machinho? - perguntou-lhe algum certa vez.
  - Que era melhor era. Mas j que veio fmea... pacincia.
  - Mulher d mais trabalho.
  346
  - Isso  verdade. Mas quando ela crescer vou andar de olho aberto. H
muito gavio por a.
  Olhou bem para o rosto da filha e imaginou como ia ser ela quando
ficasse mocinha: seria talvez uma Bibiana de olhos claros.
  Suas atenes, porm, iam mais para Bolvar. Fazia-o montar nos joelhos
e, segurando-lhe ambas as mos, sacudia a perna e dizia:
  - Eta cavalo corcoveador! Vamos avanar, capito Bolvar! Os castelhanos
vm vindo... Upa!
  Divertia-se vendo o filho pronunciar as primeiras palavras. Fazia
projetos: quando ele falasse direito, ia ensinar-lhe alguns nomes. Um
homem deve saber dizer nomes  feios. Dizer nomes  coisa que alivia a
alma.
  Mas havia momentos em que Rodrigo perdia a pacincia com os filhos. Era
quando eles o despertavam  noite com seu choro.
  - Cala essa boca, filho duma me! - exclamava, revolvendo-se na cama.
Bibiana procurava ninar a criana, que chorava. s vezes as duas
comeavam a berrar ao mesmo  tempo.
  - Esgoela esse desgraado - resmungava Rodrigo.
  E uma noite, vendo que as crianas no cessavam de chorar, ergueu-se da
cama, furioso, e foi dormir no quintal, debaixo duma laranjeira.
  Bibiana tomava conta dos filhos, alimentava-os, lavava-os, vestia-os e
afligia-se quando eles adoeciam. Rodrigo no a ajudava em nada. Bibiana
pensara em arranjar  uma criada, visto como o marido se recusava a
comprar uma escrava. Um dia uma menina morena, de sangue ndio, apareceu
 procura dum emprego. Bibiana examinou-a  longamente: viu que tinha um
rosto bonito, um corpo bemfeito, e respondeu:
  - No preciso de criada.
  Sabia o que ia acontecer se a rapariga ficasse. Ajustou uma ndia velha
para cozinhar e ela prpria continuou a lavar a roupa e entregar-se
inteiramente a Anita  e Bolvar.
  Horas havia em que Bibiana se ficava a fiar na velha roca, tendo a seu
lado Anita num bero, e Bolvar a seus ps a brincar com ossos de boi e
sabugos de milho.  Era nessas horas que ela pensava mais, como se o
barulho da roca lhe estimulasse as idias.
  347
  Sentia que o marido mudara. Estava quase sempre com o hlito recendendo
a cachaa e agora com freqncia abandonava a venda para ir jogar
baralho na casa do Chico  Pinto. Dizia-se que as paradas eram altas e
que os homens ficavam jogando, fumando e bebendo, durante horas e horas.
Ultimamente Rodrigo voltava para casa muito  tarde e no eram poucas as
vezes em que ele s chegava ao romper do dia. Deitava-se vestido, dentro
em pouco estava ressonando e s acordava por volta do meio-dia.  Nessas
ocasies Juvenal tomava conta da venda; e quando ele estava ausente em
suas viagens para o Rio Pardo, era Bibiana quem tinha de ir atender a
freguesia. Juvenal  um dia lhe dissera:
  - O Rodrigo desse jeito vai mal. Gasta demais e trabalha de menos.
  Ela no fizera nenhum comentrio, limitara-se a baixar a cabea. Nas
raras vezes em que ia  casa dos pais, temia que eles lhe falassem no
marido, por isso ficava  todo o tempo como que sobre brasas, ansiosa por
ir embora. Notava, porm, que apesar de tudo o pai se mostrava mais
carinhoso e menos severo que antes. Decerto tinha  pena dela. No era s
o pai. Ela via no olhar e no jeito de falar das outras pessoas que em
Santa F se comentava a vida de Rodrigo e se lamentava a sorte dela.  Um
dia uma de suas amigas lhe viera contar que o capito tinha uma amsia,
uma chinoca chamada Honorina, neta da Paraguaia. Ela saltara logo:
  - No acredito! E a outra:
  -  engraado. Todo mundo sabe, todo mundo v.
  - Mas no acredito.
  - O pior cego  o que no quer ver...
  No entanto ela sabia que era verdade. Rodrigo dividia suas noites entre
a mesa de jogo e a casa da Honorina. Bibiana chegara a ver uma noite a
rapariga na ltima  festa do Esprito Santo, toda vestida de vermelho.
Tinha a pele cor de canela, tranas compridas, negras e lustrosas, e um
jeito disfarado e arisco de olhar as  pessoas sem nunca encar-las
direito. Era esquisito - refletia Bibiana - mas ela no tinha
propriamente cimes do marido. Sabia que ele gostava era de mulher, que
no se contentava com uma s. Mais
  348
  cedo ou mais tarde havia de ficar tambm cansado de Honorina e passaria
para outra. O melhor que ela tinha a fazer era fingir que no sabia de
nada. Contanto que  ele no fosse embora, que ela pudesse t-lo a seu
lado - contanto que ele continuasse a ser o seu marido, tudo estava bem.
E pensando nessas coisas, Bibiana pedalava  a roca e fiava, e de quando
em quando interrompia o trabalho para atender a Anita ou para ralhar com
Bolvar.
  Seus pensamentos, porm, voltavam sempre para o marido. No podia
esquec-lo quando ele estava ausente. Aquilo era um vcio. Havia pessoas
viciadas em pitar cigarro  ou cachimbo, pessoas viciadas no jogo de
cartas ou na bebida. O vcio dela era Rodrigo. Suportaria tudo, se
sujeitaria a todos os rebaixamentos contanto que ele  no fosse embora.
Os habitantes de Santa F comentavam os defeitos de Rodrigo, mas se
fossem justos no deviam esquecer suas boas qualidades. Ele era honesto,
leal  e tinha bom corao. Durante aqueles dois anos de casamento -
refletia Bibiana - aconteceram muitas coisas que lhe revelaram o lado
bom do marido. O capito gostava  de ajudar os pobres e era um
mo-aberta incapaz de fazer papel feio por causa de dinheiro. Um dia
passava a cavalo por uma casa quando viu um branco espancando um
escravo; apeou e espancou o branco, deixando-o deitado no cho, quase
sem sentidos. De outra feita viu dois homens que em pleno campo atacavam
um viajante. Rodrigo  no conhecia nenhum deles, mas achou que no podia
passar de largo. "Dois contra um  cobardia!" - gritou. Saltou do
cavalo, puxou a adaga e entrou na luta. Voltou  para casa trazendo o
desconhecido que livrara dos assaltantes. Estavam ambos com as mos e o
rosto cheios de talhos de faca. Chegaram sangrando mas sorrindo,
recordando  a briga e dando grandes risadas. Fecharam-se na sala da
venda e tomaram juntos uma bebedeira.
  "Rodrigo no pode ver briga - dizia Juvenal - porque ele logo compra a
parada." E era verdade. Se algum maltratava um animal em sua presena
ele se enfurecia. Um  dia viu um ndio chicotear um burro que,
emperrado, se recusava a andar. "No surre a criatura!"- gritou. O outro
no lhe deu ouvidos e continuou a maltratar o animal.  Rodrigo ficou
vermelho, precipitou-se para o
  349
  ndio, tirou-lhe o chicote das mos e comeou a fustigar-lhe as costas,
os braos, as pernas, at que o pobre-diabo, assustado, desandou a
correr. Essas histrias  - sabia Bibiana - eram contadas e espalhadas
pelo povoado e pelas vizinhanas. Muitos as comentavam com simpatia e
concluam: "O capito Cambar  um homem de bom  corao". Mas outros
deduziam que ele era antes de mais nada um desordeiro. Bibiana, porm,
preferia resumir seus sentimentos numa frase: " meu marido e eu gosto
dele".
  19
  Em princpios de 1833 Santa F foi sacudida por uma grande novidade: a
chegada de duas carroas conduzindo duas famlias de imigrantes alemes,
as primeiras pessoas  dessa raa a pisarem o solo daquele povoado. Os
recm-chegados acamparam no centro da praa, e em breve toda a gente
saa de suas casas e vinha bombear. Muitos dos  santa-fezenses nunca
tinham visto em toda a sua vida uma pessoa loura, e aquela coleo de
caras brancas, cabeleiras ruivas e douradas, olhos azuis, esverdeados  e
cinzentos - era uma novidade to grande, que a manh de fevereiro mais
parecia um dia santo com quermesse, cantigas e danas na frente da
igreja.
  Os dois chefes de famlia foram imediatamente ao casaro de pedra falar
com Ricardo Amaral Neto. Grupos cercaram as carroas e alguns tentaram
comunicar-se com as  mulheres e os filhos dos colonos, mas sem o menor
resultado, pois nenhum dos estrangeiros parecia falar ou entender o
portugus.
  Antes do anoitecer j havia informaes positivas sobre as duas
famlias. Chamava-se Erwin Kunz o alemo alto, magro, de rosto vermelho
e sardento. Ia abrir uma  selaria no povoado. Tinha mulher e uma filha
cuja beleza deixou alguns dos homens que a viram um tanto perturbados.
Teria uns vinte anos, no mximo, olhos dum azul  vivo e limpo, e cabelos
to louros que pareciam polvilhados de ouro. "Tem cara de imagem" -
disse um. " duma boniteza engraada" - comentou outro. E aqueles homens
habituados s suas mulheres de cabelos e olhos castanhos ou negros -
  350
  criaturas de feies bem marcadas - ficavam um tanto perplexos diante de
Helga Kunz, to branca e delicada, que falava outra lngua e se vestia
duma maneira diferente  das mulheres do lugar. Uns a miravam com
desconfiada insistncia, como que procurando decifrar-lhe o semblante.
Outros a avaliavam como fmea, olhavam-lhe os ps  nus metidos em
chinelos de couro, os seios pontudos. Houve um que disse: "No troco as
nossas chinas por essa alemoa".
  A outra famlia era a de Hans Schultz, que tinha comprado perto do
povoado umas terras onde pretendia plantar batatas, milho, feijo e
linho. Alm da mulher, Hans  tinha duas filhas e cinco filhos em idades
que iam de oito a dezoito anos.
  - Como  que o pai sabe o nome de cada filho? - perguntou um
santa-fezense a outro. - Todos tm a mesma cara.
  - Decerto pela altura.
  Riram-se, olhando para aquelas fisionomias vagas e sardentas, coroadas
de cabelos que mais pareciam barba de milho.
  Kunz e Shultz - que falavam um pouco de portugus - fizeram compras na
venda de Rodrigo e pernoitaram com suas famlias debaixo das duas
carroas, sob a grande figueira.  E muito tarde naquela noite, o padre
Lara, que no podia dormir, saiu para fora e comeou a andar na frente
da igreja. Aproximou-se do acampamento dos alemes, parou  a pouca
distncia dele e ficou olhando... Era uma noite de quarto crescente,
muito estrelada e fresca, e o vigrio podia enxergar os colonos deitados
e adormecidos  debaixo das carroas, enquanto os cavalos, presos  soga,
pastavam perto. Contou as pessoas: doze. Viu ainda brasas vivas nas
fogueiras que eles haviam acendido  para fazer o jantar. O padre ficou
pensando naquelas criaturas que tinham vindo de to longe para tentar a
vida naquele fim de mundo. Pensou tambm em como deviam  achar estranho
ficarem sob o governo dum homem como o coronel Amaral, e como lhes
deviam parecer rudes as caras barbudas e morenas dos homens da
provncia, e brbara  a lngua que eles falavam.
  Sero protestantes? - perguntou o padre a si mesmo. No sabia, mas tudo
indicava que sim. Esperaria o prximo domingo para ver se eles vinham ou
no  igreja.
  351
  As brasas luziam. Um dos cavalos escarvou o cho. O vigrio continuou
seu caminho. Sabia o que algumas pessoas diziam dele. Chamavam-lhe
lobisomem por causa de suas  caminhadas noturnas. No fazia mal. Assim
de boca aberta, todo de preto, a vaguear sozinho pela noite, ele parecia
mesmo um lobisomem. Passou pela frente da casa  de Pedro Terra,
lanou-lhe um olhar de soslaio e parou, porque pela primeira vez notava
uma coisa curiosa: a fachada, com a porta ladeada pelas duas janelas,
possua  uma fisionomia quase humana. E aquela casa, por mais absurdo
que parecesse, tinha um semblante parecido com o do dono: parado e
triste. Ser que os homens constrem  suas casas  sua prpria imagem?
Ou ento, ser que as casas acabam ficando parecidas com as pessoas que as
habitam? E o padre continuou seu caminho, sacudindo a cabea,
resmungando e j agora pensando em Rodrigo e na vida que ele levava, de
perdio e vadiagem. Sabia que seu negcio ia mal, que a venda ficava
cada vez menos sortida.  O pior era que ele via aproximar-se o dia em
que Juvenal fatalmente teria de brigar com o cunhado.
  O vigrio passou pela frente do casaro dos Amarais. O senhor de Santa
F andava agora assanhado com os acontecimentos polticos. Falava-se em
perturbao da ordem.  Os dios partidrios explodiam e tudo indicava
que mais cedo ou mais tarde ia haver barulho. Havia pouco chegara a
Santa F um homem contando que corria pela provncia  o boato de que o
coronel Bento Gonalves, do Partido Liberal, se correspondia com o
general Lavalleja e estavam conspirando para entregar a provncia aos
castelhanos.  Rodrigo, que ouvira a conversa, pulou vermelho e gritou.
  -  uma mentira. Conheo o coronel Bento Gonalves! O homem se
encolhera, intimidado.
  - Bom, moo, no vamos brigar. Estou contando o que ouvi.
  - Mas  uma mentira, repito - retrucou Rodrigo. - E quem falar do
coronel Bento briga comigo.
  O vigrio caminhava e seus passos soavam macios no cho. Um co vadio
atravessou a rua,  sua frente. Outro lobisomem - pensou o padre. E
olhou, numa boca de rua,  para aqueles campos que a imaginao das
gentes da provncia povoava de duendes.
  Aquela hora - sorriu o padre - decerto o Negrinho do Pastoreio andava a
repontar sua tropilha de cavalos negros. Falava-se muito nas salamancas,
principalmente na  do cerro do Jarau, onde diziam haver tesouros
escondidos, sob a guarda de feras e fantasmas horrendos. Contavam que
muitos homens tinham conseguido entrar nessa  salamanca, voltando de l
com a guaiaca cheia de onas, e muita gente garantia ter visto essas
moedas que pareciam pequenos sis. Havia outras histrias: a de So
Sep, o guerreiro ndio que trazia uma lua resplandecente na testa; a da
Me do Ouro, a da mulita, e a da teiniagu, a lagartixa que tinha um
diamante por cabea  e que nada mais era do que uma malvada princesa
moura que desgraava os homens. O padre Lara sorria. Tudo aquilo eram
invenes dos homens que andavam sedentos de  milagres. No entanto
esqueciam os milagres que os santos tinham obrado. Desses havia
testemunho: no eram produtos de nenhuma imaginao. Ele conhecia muitos
homens  que no tiravam o chapu ao passar pela igreja nem tinham f em
santos e anjos; no entanto, esses mesmos homens esperavam um dia
encontrar uma salamanca, acendiam  velas para o Negrinho do Pastoreio e
acreditavam em almas do outro mundo.
  O padre Lara viu luz na casa de Chico Pinto e aproximou-se da janela.
Olhou para dentro e vislumbrou homens em torno duma mesa. Era a roda da
bisca. Reconheceu a  voz de Rodrigo e pensou em Bibiana com pena.
  - A Ia fresca! - exclamava o capito. - Estou perdido. Outra voz:
  - Uma vez  da caa, outra do caador.
  Algum puxou um longo pigarro encatarroado. O padre Lara voltou para
casa pensando: Um lobisomem v e ouve coisas tristes quando sai a
passear de noite. V, ouve  e pensa. E concluiu: No  bom ser
lobisomem, nada bom.
  Chegou a casa, acendeu a lamparina, pegou o brevirio e comeou a ler
at que o sono veio de mansinho e lhe cerrou as plpebras. O livro caiu
ao cho e a cabea  do vigrio pendeu sobre o peito e em breve seu
ressonar enchia o quarto.
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  20
  Atrs do balco Rodrigo olhava melancolicamente para o trecho de rua que
a porta da venda enquadrava. Via, l do outro lado, o quintal dos
Almeidas e para alm dele  o campo, verde e batido de sol - uma sucesso
de coxilhas onde azulavam capes. De vez em quando passavam no cu, dum
azul liso e intenso, grandes nuvens brancas.  Rodrigo foi at a porta e
olhou para o alto. O vento trazia um cheiro bom de capim, e,
aspirando-o, ele como que se embriagava. O fedor de cebola, alho e banha
que  havia dentro da casa nauseava-o. Meter-se naquele negcio tinha
sido a maior estupidez de sua vida. Estava com a sensao de que o
haviam trancafiado num calabouo.  Ia resignar-se e ficar ali preso toda
a vida? Imaginou-se velho e asmtico como o padre Lara, a pesar cereais,
cortar fumo e vender cachaa aos copos, enquanto os  vintns e os
cruzados pingavam na gaveta encardida.
  Algum entrou e disse:
  - Lindo dia!
  Rodrigo no respondeu. Estava de olhos erguidos, mas fechados, recebendo
em cheio no rosto o sol quente e o vento fresco. Pensava em como seria
bom sair pelo campo  a cavalo, a todo o galope, percorrer as invernadas,
tomar um banho no lajeado e depois ficar deitado ao sol...
  - Capito!
  Voltou a cabea e viu um homem junto do balco.
  - Que  que h? - perguntou, contrariado.
  - Me d um pacotinho de purgante de man e um rolo de fumo.
  Rodrigo despachou o fregus num silncio ressentido, recebeu o dinheiro
e por puro hbito disse:
  - Gracias!
  De sbito o outro se lembrou:
  - Ah! Quero tambm uma rstia de cebola... Rodrigo franziu a testa:
  - Raspa! - gritou. O homem estremeceu, ficou atarantado. Era um caboclo
franzino que trabalhava numa atafona. - Fora daqui!
  - Mas capito... - balbuciou ele.
  - Qual capito qual nada! - exclamou Rodrigo. - V embora, seu cachorro!
  O outro fez meia-volta e saiu da venda quase a correr. Um fogo ardia no
peito de Rodrigo, pondo-lhe um formigueiro em todo o corpo. Era uma
sensao de angstia,  um desejo de dar pontaps, quebrar cadeiras,
furar os sacos de farinha, esmagar os vidros de remdio e sair dizendo
nomes a torto e a direito.
  Quando o caboclo lhe pedira uma rstia de cebola, ele de repente vira o
horror, o absurdo da vida que levava. O capito Rodrigo Cambar, que
fora condecorado com  a medalha da cruz dos militares e que possua uma
f de ofcio honrosa; o capito Rodrigo, que brigara em vrias guerras,
estava agora reduzido  condio de bolicheiro:  era da laia do Nicolau.
  Fechou a porta da venda, saiu para o quintal e comeou a encilhar o
cavalo. Olhou o sol: devia ser umas onze horas, calculou. Apertou a
cincha com fria, como se  quisesse partir o animal em dois. Bibiana
apareceu  porta dos fundos da casa com a filha no colo e perguntou:
  - Adonde vai?
  - No sei - respondeu Rodrigo sem olhar para a mulher. Sem chapu nem
botas, montou.
  - Volta pr almoo?
  - No sei.
  Bateu com os calcanhares nas ilhargas do seu zaino, que rompeu a trote
pelo meio da rua, rumo do norte. Em breve o capito viu o campo livre,
incitou o cavalo e  precipitou-o a todo o galope. O vento batia-lhe na
cara, revolvia-lhe os cabelos, fazia-lhe ondular a camisa como uma
bandeira. "Amo, zaino velho!" gritava ele acicatando  o animal com
esporas imaginrias. O zaino galopava e Rodrigo aspirava com fora o ar,
que cheirava a capim e distncia. Quero-queros voaram, perto,
guinchando. Longe,  uma avestruz corria, descendo uma coxilha. O capito
comeou a gritar um grito
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  sincopado e estrdulo, bem como faziam os carreiristas no auge da
corrida. Era assim que os soldados gritavam nas cargas de cavalaria.
Pena eu no ter trazido a  espada! - pensou ele. O procot das patas do
cavalo, o vuu do vento, o guincho dos quero-queros - tudo isso era
msica para seus ouvidos. De repente Rodrigo sofreou  o animal, que
estacou no alto duma coxilha, resfolgando e sacudindo as crinas. Zaino
velho de guerra! Rodrigo olhou em torno e avistou, longe, o lajeado do
Bugre  Morto e teve vontade de tomar um banho. Ps o animal a trote e
dirigiu-o para l. Em breve comeou a ouvir o murmrio da gua; e depois
de atravessar um caponete  chegou s margens do lajeado, cuja gua
faiscava como prata e corria transparente sobre as pedras cor de
ardsia. Rodrigo apeou, amarrou o zaino a uma rvore, despiu-se,
atirou-se no poo e comeou a nadar, espadanando com muito barulho.
Mergulhou, ficou algum tempo debaixo d'gua, depois emergiu, bufando,
com os cabelos colados  na testa e cados sobre os olhos. No seu corpo,
dum branco rosado, gotas d'gua fulgiam como diamantes. Um cheiro de
mel-de-pau lhe chegava s narinas junto com  todos os perfumes do mato.
O capito comeou a cantar cantigas que falavam em mulher. Pensou em
Bolvar e desejou que ele estivesse suficientemente crescido para  estar
ali agora, nadando em sua companhia. Pensou em Helga, a filha do seleiro
Kunz, que s vezes ia  venda fazer compras. Seria bom se pudesse ter a
alemzinha  com ele no lajeado, toda nua. Devia ter um corpo branco como
leite e seus cabelos lembravam-lhe um trigal maduro que ele vira num dia
de sol nos campos de Cima da  Serra. Seria gostoso atufar as mos
naquelas espigas douradas. Cada dia que a rapariga vinha  venda ele lhe
descobria um novo encanto. No princpio fora a voz,  que s vezes era
grave e seca, quase como de homem, mas de repente se fazia fina como o
som dum cincerro de gua madrinha; e aquela mudana - grave e agudo -
lhe  dava assim uma impresso de quente e frio, e isso era uma coisa que
lhe bulia com o sangue... e Rodrigo tambm no cansava de apreciar o
contraste entre os cabelos  cor de puxa-puxa e os olhos dum azul de
aude em dia de cu limpo.
  356
  Deitou-se debaixo da pequena cascata e ficou recebendo a gua fria no
peito, nas coxas e nas pernas, e sentindo contra as costas e as ndegas
a dureza das lajes.  Agora se sentia melhor. Tinha fugido da priso. E
ali sozinho e nu debaixo da cascatinha j no podia acreditar que era
chefe de famlia, que tinha mulher e dois  filhos - sim! - e um
negcio... Que fosse tudo pr diabo! Fechou os olhos e ficou vendo nas
plpebras um campo vermelho onde havia manchas, flores e riscos
esverdeados,  azuis, dourados e pretos. Tornou a abrir os olhos e viu um
rabo-de-palha frechar o ar e entrar na copa duma rvore. Acima do
chu-chu mole e regular da gua o capito  comeava agora a ouvir os
rudos do mato. Era bom... Os bugios tagarelavam nas rvores e um
pssaro-ferreiro batia bigorna. De quando em quando um sopro mais forte
de vento fazia o arvoredo crepitar. Tico-ticos ciscavam o cho, perto da
gua, e por muito tempo Rodrigo ficou olhando, fascinado, para um
sangue-de-boi que estava  pousado num galho seco e que se destacava,
muito vermelho, contra o azulo do cu. Rodrigo ficou assim deitado por
longo tempo. Depois foi estender-se sobre a grama  das margens, e ficou
a secar ao sol. Formigas lhe subiram pelo corpo e ele se sentou para
cat-las, primeiro com pacincia, depois s tapas, num frenesi.
Ergueu-se  de novo e entrou no mato  procura do que comer. Encontrou
alguns sete-capotes e ps-se a devor-los, ficando com uma certa
aspereza na boca. Quando sentiu o corpo  seco, tornou a vestir-se,
montou a cavalo e dirigiu-se para o rancho da Paraguaia. Ao ouvir o
rudo das patas do cavalo, Honorina saiu de casa e veio ao encontro  do
capito. Estava descala, de vestido cor de maravilha e seus cabelos
reluziam, bem como o rosto redondo, de grandes olhos pretos.
  - U! - fez ela.- A esta hora? No esperava.
  - As coisas melhores so as que a gente no espera, minha prenda -
respondeu Rodrigo, apeando e maneando o cavalo. Enlaou a rapariga pela
cintura e entrou com ela  no rancho.
  - Como vai, velha? - gritou para a Paraguaia, que fumava a um canto seu
cachimbo de barro. A ndia respondeu apenas com um grunhido. No seu
rosto pregueado de rugas,  os olhos de surio
  357
  tinham um brilho frio e gelatinoso. Continuou imvel onde estava,
pitando em calma.
  O rancho cheirava a picum e a terra mida.
  - J comeu? - perguntou Honorina.
  - Comi uns sete-capotes no mato - respondeu Rodrigo.
  - Tem passoca e arroz.
  Mas Rodrigo j no pensava mais em comida. Puxou Honorina para o quarto
e disse:
  - Tira toda a roupa. Ela obedeceu.
  A Paraguaia continuou a fumar, ouvindo agora os rudos que vinham do
outro lado da repartio de pano. Seu rosto, porm, no revelou a menor
emoo. De vez em quando  ela cuspia no cho e depois sua boca
desdentada de novo se pregueava em torno da haste do cachimbo. Ao cabo
de meia hora Honorina apareceu e disse baixinho  av:
  - O capito est sesteando.
  A Paraguaia no respondeu. O cachimbo se havia apagado e ento ela
estendeu a mo magra e apanhou um tio debaixo da trempe onde o arroz
fervia numa panela de ferro.
  Por volta das cinco horas Rodrigo acordou, montou a cavalo e dirigiu-se
para o povoado de Santa F. No tinha pressa, por isso deixou o animal
seguir a passo. Sentia  agora saudade da mulher e dos filhos, e uma
pontinha de arrependimento comeou a pic-lo. Era um egosta, um
desalmado: precisava mudar de vida, cuidar melhor da  famlia e da
venda. Mas que diabo! No fim de contas no era escravo nem portugus
para passar a vida dentro de casa vendendo cebola e alho. Era um
soldado, um oficial.  Talvez fosse melhor conversar com Juvenal,
desfazer-se da venda e tratar de outro negcio. Era mais divertido criar
gado, fazer tropas. Ali estava! Ia ser tropeiro...  Um tropeiro viaja,
v muitos povoados e vilas e gente por este mundo velho. E pensando
nisso, Rodrigo de repente sentiu vontade de comer arroz-de-carreteiro.
  Olhou em torno. O sol declinava. Era uma tarde calma, com reflexos
lilases como os de certas cachaas. Na encosta verde duma colina
abria-se um grande quadriltero  de terra avermelhada, onde
  358
  algumas pessoas trabalhavam. Rodrigo reconheceu a lavoura dos Schultz.
L estava toda a famlia a mourejar, menos a me, que decerto tinha
ficado em casa com o filho  de colo a preparar o jantar para sua gente.
Ao aproximar-se da lavoura Rodrigo ia pensando naqueles imigrantes.
Fazia meses que estavam no povoado e viviam quietamente  sua vida.
Trabalhavam de sol a sol, desde o filho mais moo, de oito anos, at o
velho Hans. Uma madrugada, quando voltava da casa de Honorina, Rodrigo
encontrara  na estrada o "batalho do Schultz", que ia para o trabalho;
cada um deles levava a sua enxada, e uma lata com comida. Iam todos de
tamancos e tinham nas cabeas  chapus de palha de abas largas. Rodrigo
no pde deixar de sentir um certo mal-estar quando passou por eles. Na
provncia as gentes antigas afirmavam que trabalho   coisa honrosa e
necessria e muitos continentinos olhavam com desprezo para os
vagamundos e os "ndios vagos". Diziam que Deus ajuda quem cedo madruga.
Pois Deus  havia de ajudar os Schultz! - refletiu Rodrigo. Naquela
madrugada, mal o sol comeava a raiar, l se iam eles para a lavoura,
falando muito alto a sua lngua doida,  e dando grandes risadas. Rodrigo
buscara consolo num pensamento que lhe vinha com freqncia  cabea: "A
vida vale mais que uma ponchada de onas". No fim de contas  eles eram
estrangeiros e tinham vindo com a teno de encher os bolsos de dinheiro
para depois voltarem para sua ptria. E por falar em dinheiro -
refletira - ele  daria de bom grado muitas moedas de ouro para ter uma
noite em sua cama a filha de Erwin Kunz.
  Agora pela primeira vez Rodrigo Cambar via a famlia Schultz em plena
atividade. Aquilo era at bonito. O sol - que ficava mais alaranjado 
medida que caa - atirava  sua luz sobre a lavoura, deixando mais vivo o
vermelho da terra. Era bom a gente ver aquelas gentes de pele clara e
roupas de muitas cores inclinadas a virar a terra,  com a cara escondida
pela sombra dos chapus. Quando Rodrigo passou, Hans Schultz retesou o
busto, ergueu a enxada e cumprimentou-o. O capito fez um sinal com a
mo e gritou:
  - Boa tarde!
  Sua voz como que subiu a encosta, e ele teve a impresso de que se sumia
no ar antes de chegar aos ouvidos dos alemes.   359
  
  Meteu o calcanhar nas ilhargas do cavalo e se foi.
  21
  O ano de 1833 aproximava-se do fim. A populao de Santa F estava
alvorotada, pois confirmara-se a notcia de que em 1834 o povoado seria
elevado a vila. No entanto  o assunto preferido de todas as rodas era a
poltica. Gente bem-informada, vinda de Porto Alegre e do Rio Pardo,
contava histrias sombrias. Depois da abdicao  de Dom Pedro I, as
coisas na Corte andavam confusas. Seu filho, o prncipe Dom Pedro, no
podia ser coroado porque era muito criana. Ali mesmo em Santa F, bem
como acontecia nas carreiras, as pessoas tomavam partido. Uns eram pela
maioridade; outros achavam que o melhor mesmo era que uma junta de
homens direitos e sbios  ficasse no governo. A princpio todos
esperavam que com a abdicao de Pedro I a situao mudasse, pois
achavam que, sendo o imperador portugus, no podia deixar  de puxar
brasa para o assado de Portugal. Mas haviam-se passado mais de dois anos
e tudo continuava como antes. Bento Gonalves, acusado de estar
negociando com  Lavalleja a anexao da provncia  Banda Oriental, fora
chamado  Corte para se defender dessas acusaes e voltara de l no s
completamente desagravado, como  tambm com honras e privilgios novos.
Alm disso trazia a seus > correligionrios do Partido Liberal a
promessa de que um filho da prpria provncia, Fernandes  Braga, seria
nomeado governador.
  Muitas vezes o padre Lara ia conversar com o coronel Ricardo no casaro
de pedra e vinha de l com "notcias frescas", que transmitia a alguns
amigos na venda do  Nicolau ou na do capito Rodrigo. O coronel Amaral
inclinava-se ora para o lado do Partido Restaurador, que desejava a
volta de Dom Pedro I ao trono, ora
  360
  para o Partido Liberal de Bento Gonalves, que se opunha quele. Os
restauradores tinham fundado a Sociedade Militar e Bento Gonalves
trouxera do Rio de Janeiro  a promessa do governo central de impedir o
funcionamento desse clube, que os liberais classificavam de retrgrado.
Tudo parecia resolvido quando o comandante militar  da provncia,
Sebastio Barreto, de novo tentou reerguer a Sociedade. Bento Amaral -
que agora era representante em Santa F do juiz de paz de So Borja -
chegara,  havia pouco, de Porto Alegre e contava que a Cmara Municipal
dera seu apoio aos liberais e que por sua vez o presidente da provncia
censurara esse pronunciamento  da Cmara. Nas ruas da cidade, liberais e
restauradores discutiam, diziam-se nomes, engalfinhavam-se a tapas e
socos. Os restauradores chamavam os liberais de "farroupilhas"  e
"psde-cabra". Os liberais retrucavam, chamando seus adversrios de
"retrgrados", "galegos", "caramurus". Ningum se entendia mais. E -
conclua Bento Amaral  - a coisa estava muito preta. O padre Lara andava
inquieto porque tudo indicava que ia rebentar uma guerra civil.
  - Que rebente! - exclamou um dia Rodrigo, exaltado. - Quanto tempo faz
que esta gente no briga? As espadas e as lanas j esto enferrujadas,
e os homens esto  ficando molengas.
  O padre, porm, lembrava-se de outras guerras e sacudia a cabea,
aflito. E um anoitecer, vendo a famlia de Hans Schultz passar em fila
indiana, de volta do trabalho,  a cantar uma cantiga alem, ele
refletiu:
  - Esses sim  que so felizes. No sabem o que est se passando e, se
vier a guerra, no tero nada a ver com ela, porque so estrangeiros.
Outro felizardo era o  Erwin Kunz - conhecido agora no povoado como "o
Serigote" . Passava os dias a fazer lombilhos e a bater sola, enquanto a
mulher e a filha faziam doces e cucas cujo  cheiro apetitoso o padre s
vezes sentia ao passar pela casa do seleiro.
  Helga, que todos conheciam como "a filha do Serigote", parecia ficar
cada vez mais bonita e gostava de andar com lenos de cores muito vivas
amarrados na cabea.
  361
  A casa de Hans Schultz e de Erwin Kunz ofereciam um contraste ntido
quando comparadas com todas as outras do povoado. Eram graciosos chals
de madeira, muito limpos,  que tinham at cortinas e vasos de flores nas
janelas. Pouca gente do povoado havia entrado nelas, mas os poucos que
as visitavam diziam que l dentro at o cheiro  das coisas era
diferente. O que chamava tambm muito a ateno dos santa-fezenses era
os jardins bem-cuidados que havia na frente de ambos os chals, com seus
canteiros  caprichosos e as suas flores. "Estrangeiro  bicho esquisito"
- comentavam os naturais do lugar.
  No primeiro abril que os alemes passaram em Santa F, r,odos acharam
muito engraada a maneira como eles festejaram sua Pscoa. Contava-se
que ao acordar as crianas  encontraram debaixo de suas camas pequenos
cestos em que havia ninhos de palha cheios de ovos de galinha pintados
de amarelo, azul, vermelho e verde. Os filhos de  Hans Schultz afirmavam
que se tratava de "ovos de coelho", mas um caboclinho da casa vizinha,
de pele terrosa e ventre tmido, que costumava brincar nu no seu
quintal,  observou, cptico, quando lhe contaram a histria: "Coelho no
bota ovo". Os meninos dos cabelos de fogo riram muito quando o pai lhes
traduziu as palavras do pequeno  brasileiro.
  E na vspera do Natal de 1833 os que passaram  noite pela casa de
Schultz tinham visto na sala da frente uma pequena rvore toda coberta
de flocos de algodo e  cheia de velas acesas. Dizia-se que Hans, com
barbas postias e metido num camisolo vermelho, trouxera presentes para
os filhos dentro dum saco. Aos poucos as coisas  se explicaram. Aquele
era um costume alemo: o velhinho barbudo chamava-se Weihnachtsmann, e o
Menino Jesus era conhecido na Alemanha como Christkind.
  O padre Lara comentou na loja de Rodrigo: - Isso tudo pode ser muito
interessante, mas eu fico com o prespio.  mais bonito e muito mais
nosso.
  Eu fico com a Helga - pensou Rodrigo, que sentia crescer seu desejo pela
rapariga.
  Na noite de Ano-Bom houve uma festa grande na praa do povoado, com
quermesse, jogos e fandango. Estavam todos muito
  alegres porque a Assemblia Provincial tinha aprovado a resoluo que
elevava Santa F a vila e a desmembrava do municpio de Cachoeira.
Anunciava-se que em fins  de janeiro haveria ali uma eleio para
escolher os membros da primeira Cmara Municipal; e que dentro de poucas
semanas seria criado um servio regular de correio  entre Santa F, Rio
Pardo e So Corja!
  Razes havia, e de sobra, para aquela festa. E a praa, em cujo centro
foi acesa uma grande fogueira, desde o anoitecer se encheu de gente e do
som de gaitas, violas  e risadas.
  Quando  meia-noite o padre Lara mandou tocar sino para anunciar que o
mundo entrava no ano da graa de 1834, a gritaria comeou. As pessoas se
abraavam, os homens  davam tiros para o ar e o sino da capela badalava
desesperadamente como se estivesse dando um alarma de incndio. Fizeram
uma roda muito grande ao redor da fogueira  e comearam a andar e a
desandar, pulando e cantando. Depois danaram vrias danas: a
meia-canha, a tirana, o tatu, a chimarrita.
  De sua casa, onde tinha ficado a cuidar dos filhos, Bibiana escutava a
msica e as vozes. Sabia que Rodrigo estava no meio daquele povaru,
danando e cantando.  No se apoquentava com isso. Ao contrrio: queria
que ele se divertisse, pois o coitado andava cada vez mais inquieto. O
negcio ia mal: as despesas aumentavam,  a freguesia escasseava. Juvenal
queixava-se de que Rodrigo perdia muito no jogo e ameaava deixar a
sociedade. Assim - conclua Bibiana - era melhor que Rodrigo  se
distrasse, pois enquanto estava danando no jogava nem andava metido
com a neta da Paraguaia...
  Sentado na frente da capela o padre Lara olhava as danas, mas pensava
na guerra. O coronel Ricardo lhe dissera que "a coisa estava pra
estourar, mais dia menos  dia". Levantou-se e comeou a passear por
entre as gentes em busca de Rodrigo. Nunca estava sossegado quando sabia
que "aquele diacho" andava solto. Olhou em torno  e no viu o amigo.
Pouco tempo depois algum gritou: "Que cante o capito Rodrigo!" "Muito
bem!" - aplaudiram vrios homens, batendo palmas. "Capito! Onde est  o
capito?" Cabeas se voltaram para todos os lados, procurando. Rodrigo,
porm, no
  362
  363
  aparecia. Por onde andar esse diacho? - perguntou o vigrio a si mesmo.
Ningum sabia. Decerto est na casa da china - refletiu o padre com
melancolia e uma sombra  de remorso. Tinha conscincia de haver
contribudo para a desgraa de Bibiana. No podia compreender como um
homem branco e limpo pudesse deixar-se enfeitiar por  uma rapariga que
pouco faltava para ser mulata.
  Naquele mesmo instante, atrs do cemitrio, Rodrigo contemplava o corpo
nu de Helga Kunz. Tinham-se amado - fazia poucos minutos - com uma fria
que o vinho, que  ambos haviam bebido na festa, contribura para
aumentar. Agora, de p, o capito olhava para a rapariga, que estava
estendida sobre o capim. Como era branco aquele  corpo! E como os beijos
da "filha do Serigote" tinham um gosto diferente dos de Honorina!
  Rodrigo sentia-se to feliz que tinha vontade de gritar. Helga no
falava. Poucas palavras sabia de portugus. E quando a tivera nos
braos, ela lhe dissera coisas  em alemo - e essa lngua estranha soara
dum jeito que o deixara mais excitado.
  Rodrigo tornou a deitar-se junto da rapariga e fez que ela pousasse a
cabea sobre o brao esquerdo que ele estendera no cho. Os cabelos dela
tinham um cheiro doce.  Nunca em toda a sua vida ele dormira com uma
mulher to loura, to branca e to limpa. Ergueu os olhos e viu o escuro
muro de pedra do cemitrio. Os mortos no tm  olhos para ver - refletiu
- nem ouvidos para ouvir, nem boca para falar. Os mortos no podem amar.
Era bom estar vivo! De vez em quando o vento trazia de Santa F  os
rumores da festa. E as estrelas brilhavam no cu.
  22
  No dia seguinte, algum que vira Rodrigo sair de Santa F a cavalo, rumo
da coxilha do cemitrio, levando a "filha do Serigote" na garupa,
passara a sensacional  notcia adiante. E por alguns dias o escndalo
teve a fora de empurrar para um segundo plano o assunto "poltica" e
at os boatos de revoluo. A histria chegou
  364
  aos ouvidos do padre Lara, dos Amarais e finalmente de Bibiana e Pedro
Terra. Para o padre Lara a coisa no tivera propriamente o carter de
novidade, pois ele sabia  que naquela noite de Ano-Bom o capito Rodrigo
"andava fazendo mais uma das suas"; s no esperava que fosse com Helga
Kunz. Encolheu os ombros num comentrio silencioso  e concluiu para si
mesmo: ela  protestante. O confessionrio faz muita falta para essa
gente. Ao saber do escndalo, Bento Amaral ficou muito vermelho, a
cicatriz  de seu rosto tomou uma cor esbranquiada e comeou a comichar.
Ficou a pensar no que ele como delegado do juiz de paz devia fazer. Se a
coisa continuasse, teria  de chamar Rodrigo Cambar  sua presena para
repreend-lo. Mas a idia de se ver de novo frente a frente com aquele
homem que ele detestava e de certo modo temia,  no lhe era nada
agradvel. A simples meno daquele nome lhe causava um mal-estar
insuportvel. "E dizem que  amigo de Bento Gonalves!" - comentou o
coronel Ricardo  com um tom de voz cheio de intenes secretas. Queria
dizer com isso que no perdia o homem de vista e, no caso de os
"ps-de-cabra" tentarem alguma mazorca, mandaria  prender o capito
antes de ele ter tempo de dizer gua. Pedro Terra repeliu a pessoa que
lhe contou a histria: "No quero saber de nada. Esse homem pra mim no
existe". E no dia em que ficou sabendo da aventura amorosa do genro,
deixou a olaria e saiu a passear pelo campo sem rumo certo para esquecer
as mgoas. Mas Bibiana  no lhe saiu um instante sequer do pensamento.
Recordou o tempo em que ela era menina, tinha uma pele fresca, uma
fisionomia juvenil: agora l estava envelhecida,  com um filho no colo,
outro agarrado s saias e o terceiro j a crescer-lhe no ventre. Esses
eram assuntos que ele tinha vergonha de comentar com as outras pessoas,
at mesmo com Arminda; por isso falava sozinho, conversava com o vento,
que carregava suas palavras para longe.
  Bibiana recebeu a notcia como um soco no peito: ficou por um instante
sem respirao. Estava acostumada s patifarias do marido: sabia que
quando ia ao Rio Pardo  dormia com outras mulheres. Tolerava que ele
sustentasse a casa da Paraguaia e passasse at algumas noites com
Honorina. Mas com Helga a coisa podia
  365
  ser diferente: Rodrigo era capaz de perder a cabea. A rapariga era moa
e bonita. E o fato de ser estrangeira, de falar uma lngua esquisita,
como que lhe dava  aos olhos de Bibiana um certo ar de feiticeira. Ela
ouvia falar nas histrias da teiniagu... Pois a princesa moura que o
diabo fizera virar lagartixa devia ter  uma cara linda e malvada como a
de Helga Kunz. Fiando e cantando para Anita dormir e sentindo os
movimentos do outro filho no ventre, de quando em quando, atravs  da
porta, Bibiana lanava um olhar para Bolvar, que brincava no quintal
com Florncio, o filho de Juvenal; e pensava aflita no que devia fazer
para evitar que a  "alemoa" lhe roubasse o marido; e como no atinasse
com nenhum remdio, chorava, e chorando continuava a fiar, a cantar e a
esperar...
  Depois daquela inesperada noite com Helga, Rodrigo ficara alvorotado,
desejando a segunda, a terceira e muitas outras noites. E a simples
perspectiva de ter uma  mulher cor de leite num dia e uma mulher cor de
canela noutro, enchia-o duma alegria que lhe tornava cada vez mais
difcil passar as horas na venda. Mas aconteceu  que depois da noite de
Ano-Bom no pudera mais nem aproximar-se de Helga. A rapariga andava
arisca e quando passava pela venda nem sequer olhava para ele. O capito
inventava estratagemas para falar com ela. Foi um dia  selaria de Kunz
para encomendar um serigote, e ficou conversando longamente com o
alemo, na esperana de  ver-lhe a filha. Mas no viu; ouviu-lhe apenas
a voz, no fundo do chal. Voltou para casa decepcionado; e sua decepo
se transformou numa espcie de ressentimento,  e o ressentimento em
fria quando um dia se espalhou a notcia de que chegara  vila o noivo
de Helga, um alemo grande, de barbas louras e olhos claros. Morava  em
So Leopoldo, onde tinha uma chcara, e vinha busc-la para a boda.
Helga foi-se com ele, pois o casamento ia ser feito naquela colnia por
um pastor protestante.  E quando a "filha do Serigote" montou a cavalo e
partiu em companhia do noivo para empreender uma viagem que levaria
muitos dias e muitas noites, os moradores de  Santa F trocaram
perguntas e comentrios atnitos ou maliciosos: "Mas ela vai sozinha com
o noivo?" "Vo casar s em So Leopoldo." "Cruzes, que gente!" "Tambm,
depois
  366
  do que aconteceu com o capito Rodrigo..." Mas Chico Pinto julgou
resumir numa frase a explicao de tudo aquilo: "Estrangeiro  bicho
sem-vergonha".
  No dia em que Helga partiu, Rodrigo tomou uma grande bebedeira e nas
semanas que se seguiram aliviou no corpo da chinoca cor de canela a
saudade da alem cor de  leite. Tratou Bibiana e os filhos com
impacincia irritada, cuidou mal do negcio, mergulhou fundo no jogo.
Metia-se em carreiras, apostava alto e s vezes provocava  brigas. Nos
fundos da venda do Nicolau reuniam-se tropeiros e pees, que bebiam
cachaa e jogavam osso: Rodrigo misturava-se com eles e l ficava
durante horas a  jogar, a blasfemar e a contar histrias de guerras,
mulheres, cavalos e apostas. E em certas ocasies, na roda de bisca ou
de voltarete, quando jogava com algum  viajante desconhecido, cuja cara
lhe parecia suspeita, antes de comear o jogo, desembainhava
ostensivamente a adaga e cravava-a na mesa, ao alcance da mo, como  uma
advertncia que j era tambm uma provocao.
  O inverno daquele ano de 34 foi duro, de grandes geadas e chuvas longas.
Numa noite de tormenta Anita, que havia semanas andava adoentada, piorou
subitamente e Bibiana  mandou chamar a me, que fez a criana tomar seus
chs e aplicou-lhe seus linimentos.
  - Onde est o Rodrigo? - perguntou Dona Arminda.
  - Saiu - respondeu a filha, sem erguer os olhos. Balouava nos braos a
filha, que, muito plida, tinha a boca
  entreaberta as plpebras azuladas, a respirao difcil.
  - Aonde  que ele foi?
  Bibiana no respondeu. Ninava a criana e cantava baixinho, no porque
achasse que isso ia ajudar a criaturinha, mas porque era a nica coisa
que podia fazer, e  um pouco tambm porque era hbito. Nenhum dos
curandeiros da vila havia acertado com o remdio. Ningum sabia o que a
criana tinha. Fazia quase um ms que ela definhava,  aos poucos -
nenhum alimento lhe parava no estmago e agora Anita estava que era s
pele em cima dos ossos. Tinham tentado tudo: simpatias, benzeduras,
promessas...
  367

  - Aonde  que ele foi? - repetiu Dona Arminda. Bibiana continuava a
sacudir a filha dum lado para outro.
  - Est na casa do Chico Pinto.
  - Jogando?
  Bibiana sacudiu afirmativamente a cabea. Depois, com todo o cuidado,
ps a filha no bero e cobriu-a com um pelego.
  - A coitadinha est gelada... - murmurou, botando as costas da mo na
testa de Anita.
  Dona Arminda inclinou-se sobre a neta, mirou-a longamente e depois
murmurou:
  - Essa criana vai morrer.
  As palavras caram como geada no peito da me. Por um instante se fez
silncio e as duas mulheres ficaram escutando o uivar do vento. Dona
Arminda acabava de dizer  o que Bibiana temia, o que ela se esforava
por no reconhecer. Anita ia morrer. Era questo de dias, talvez de
horas. Estava j ficando fria e roxa. De sbito,  como que compreendendo
o horror da situao, Bibiana precipitou-se para a filha, encostou o
rosto no peito dela e procurou escutar-lhe as batidas do corao.
  - O coraozinho dela no est batendo mais, mame! Dona Arminda apanhou
um espelho, aproximou-o da boca
  entreaberta da criana e ali o deixou por alguns segundos. Trouxe-o
depois para perto da lmpada e examinou-lhe o vidro: estava embaciado.
  - Est respirando - disse. - Mas  melhor mandar chamar o Rodrigo.
  - Incia! - gritou Bibiana.
  A cozinheira ndia apareceu, enrolada num xale, os olhos como sempre
lacrimejantes.
  - V na casa do seu Chico Pinto e diga pr capito Rodrigo vir ligeiro.
A Anita est muito mal...
  Sentado  mesa de jogo, com as cartas abertas em leque nas mos, Rodrigo
recebeu o recado e murmurou:
  - Diga pra Dona Bibiana que j vou.
  Mal, porm, a ndia desapareceu, ele a esqueceu e esqueceu tambm o
recado, a filha, a mulher, a casa, tudo. Porque aquele jogo o
apaixonava, e porque ele estava  com sorte aquela noite. A parada era
grande e os outros trs homens que se achavam ali ao redor da mesa
estavam perdendo.
  - Que potra! - exclamou um deles. Rodrigo sorria, com os olhos postos
nas cartas.
  De vez em quando vinha um escravo servir cachaa com mel, que o capito
tomava em longos sorvos. E  medida que o lcool lhe ia subindo 
cabea, ele ficava ainda  mais exaltado, as ideias se lhe tornavam
surpreendentemente claras, to claras como caninha destilada em
alambique de barro.
  Pensamentos que nada tinham a ver com o jogo s vezes lhe relampejavam
na mente.
  Juvenal queria desmanchar sociedade... Pois que desmanchasse! Fosse pr
diabo! No precisava dele, no precisava de ningum. Estava ganhando
dinheiro, estava de  sorte, ia levantar-se dali com a guaiaca gorda de
pataces, cruzados e onas. Pagaria todas as dvidas, atiraria o
dinheiro na cara dos credores. E depois... Depois  viria a guerra. Era
mesmo bom que viesse a guerra. No havia nada melhor que uma guerra para
resolver todos os problemas. Conhecia outros homens que quando estavam
quebrados pediam a Deus uma revoluo assim como sapo pede chuva. Guerra
era remdio para tudo.
  - Jogue, capito.
  - L vai e los arrebento!
  Era bom o som da cachaa caindo no copo. O cheiro tambm era bom. Ele
olhava ora para as cartas que tinha na mo, ora para as caras dos homens
alumiadas pela lamparina  que fumegava em cima da mesa.
  O tempo passava. Como o tempo voa - refletiu Rodrigo - quando a gente
est com uma mulher ou numa mesa de jogo! Na venda o tempo se arrastava
como lesma.
  - Vossunc est com sorte hoje, capito.
  - Mandei me benzer por uma negra velha. Bateram na porta. Chico Pinto
foi abrir.
  368
  369
  - Um recado pra vosmec, capito.
  - Que venha!
  Era um rapazote, filho dum vizinho.
  - Capito, Dona Bibiana mandou dizer pra vosmec ir pra casa. A sua
filha est muito mal.
  Aquela voz parecia vir de muito longe, e as palavras que ela dissera no
tinham sentido muito claro. Sua filhinha est muito mal. Muito mal.
Muito mal.
  - J vou! - disse Rodrigo. - Mais uma mo. Feche a porta, Chico. O
minuano est danado.
  O vento entrava, gelando a casa. Um homem tossiu. A chama da lamparina
danou. Chico Pinto fechou a porta.
  - No  bom vosmec ir pra casa? - perguntou, meio bisonho.
  - No sou curandeiro.
  - Mas  pai.
  - Cuide de sua vida! Sente e d as cartas.
  Chico Pinto suspirou e em silncio tornou a sentar-se. O jogo recomeou.
O tempo passava, Rodrigo sentia a bexiga inchada, e dentro do peito uma
fita de fogo que  parecia subir e descer, dando-lhe um enjo. A boca
tinha um gosto amargo e sua saliva estava grossa. Melhor era parar de
beber. Mas no parava. Podia erguer-se,  esvaziar a bexiga e voltar. Mas
no fazia isso, estava chumbado quela cadeira, preso ao jogo,
fascinado. E quando comeou a perder, sua irritao cresceu.
  - Que macaca! - exclamou ele. - Principiei to bem...
  E entraram numa nova mo. Rodrigo examinou as cartas, cuspiu para o
lado, disse um palavro. Os outros homens falavam baixo, esfregavam a
sola das botas no cho.  E quando ficavam em silncio, ouvia-se o vento
l fora.
  - Deve ser tarde - disse um dos jogadores.
  - S galinha  que dorme cedo - retrucou Rodrigo. Um outro soltou uma
gargalhada.
  - Vosmec ri agora porque est ganhando - observou Chico Pinto.
  - U, amigo, tambm sou filho de Deus, no sou?
  Duas horas depois Chico Pinto abafou um bocejo, olhou o relgio e disse:
  - Quase quatro. Vamos deixar o resto pra amanh?
  - Qual nada! - vociferou Rodrigo. - Vosmecs me levaram todo o dinheiro,
me deixaram pelado. No saio daqui sem tirar pelo menos o dinheiro que
trouxe.
  Os outros consultaram-se com os olhos.
  - Est bem - assentiu Chico Pinto.
  Fizeram uma pausa, antes de continuar o jogo. Os homens levantaram-se,
foram at o fundo da casa e voltaram. Um deles disse:
  - Est uma noite medonha.
  Noite medonha... Noite medonha... Rodrigo no se erguia. No sabia que
era que o prendia quela cadeira. Uma teimosia, uma vontade de
contrariar os outros, um medo  de... Medo de qu? Escutou o vento. "Sua
filhinha est muito mal... " Pois que esteja. Mulher no faz falta no
mundo. Que morra! As mulheres so falsas. Helga Kunz   uma cadela. Que
morra! No sou curandeiro. Melhor  no ver nada. No tem mais remdio.
 questo de horas. No me adianta nada ir. No gosto de choro. Um dia
a guerra vem. Tudo se resolve. A guerra e o tempo. Remdio pra tudo.
  Apanhou a garrafa que tinha a seus ps e tornou a encher o copo e a
beber. Cachaa com mel e limo fazia bem ao peito.
  Chico Pinto deu as cartas. Jogaram mais uma mo e Rodrigo perdeu o que
no tinha. O dono da casa levantou-se e disse:
  - Agora vosmecs vo ter pacincia. Vai clarear o dia.
  - No inverno o dia clareia s sete... - retrucou Rodrigo.
  Mas ergueu-se tambm. Botou na cintura a pistola que mantivera no cho,
junto de sua cadeira, e a adaga, que cravara na terra ao lado da pistola
e ao alcance da  mo. Enfiou o poncho e saiu. A ventania esbofeteou-lhe
a cara e ele comeou a caminhar lentamente rumo de casa. Estava tudo
escuro, mas Rodrigo prosseguia levado  pelo instinto. No havia luz em
nenhuma das casas do povoado. Suas botas atolavam-se na lama. O cu
estava negro como carvo e as rvores sacudidas pelo vento pareciam
gemer-ai, ai, ai,
  370
  371
  
  ai... Nos pensamentos de Rodrigo tambm havia um negror de confuso.
Estava cansado, irritado, mas no queria dormir.
  Ao aproximar-se de sua casa viu um risco de luz por baixo da porta.
Ento, de repente, compreendeu a situao. Tinham-no chamado porque a
filha estava mal e ele  no atendera ao chamado. Uma paixo doida pelo
jogo prendera-o  mesa. J agora ele no sabia como fora capaz de fazer
aquilo. Amava a famlia, no era nenhum monstro,  daria um brao, uma
perna, um olho para salvar a vida dos filhos, da mulher, de qualquer
amigo.
  Parado ali na rua, recebendo na cara o vento gelado, ele pensava essas
coisas e olhava para a porta de sua casa. Depois aproximou-se dela e
abriu-a devagarinho.  A lamparina estava  beira da cama onde, deitada
ao lado de Bolvar, que dormia, Bibiana chorava mansamente, enquanto
Dona Arminda lhe passava a mo pelos cabelos.  Rodrigo aproximou-se do
bero da filha e viu que Anita tinha a cabea coberta por um lenol. Ia
erguer o brao para descobrir o rosto da criana quando ouviu uma  voz
de homem:
  - Faz mais duma hora que a menina morreu.
  S ento Rodrigo percebeu que havia outra pessoa na pea. Dum canto
escuro avanou um vulto. Era o padre Lara.
  - Mas no mandaram me avisar! - exclamou Rodrigo com voz rouca e sem
pensar bem no que dizia. Suas palavras morreram no ar. Ele olhou
primeiro para o padre e depois  para Dona Arminda. De repente um soluo
lhe rompeu do peito e ele caiu sobre uma cadeira, chorando desatadamente
e cobrindo o rosto com as
  mos.
  23
  Quando agosto entrou e Bibiana se preparou para ter o filho, Pedro Terra
mandou dizer-lhe que se ela quisesse voltar para casa ele a receberia de
bom grado. Dona  Arminda foi a portadora do recado. A filha respondeu:
  - Diga pr papai que muito obrigado. Mas meu lugar  aqui.
  372
  No queria abandonar Rodrigo. Nem lhe guardava rancor pelo que ele
fizera. Depois daquela noite horrvel em que Anita morrera, ele tinha
mudado por completo. Vivia  em casa, a seu lado, tratando-a com todo o
carinho e no bebia nem jogava mais. Tomava um novo interesse pela
venda, e se os negcios no iam bem - conclua Bibiana  - no era por
culpa do coitado, mas sim da situao geral. Ningum queria pagar as
contas, pois s se falava em guerra civil.
  Rodrigo no abandonou a cabeceira da cama da mulher desde o momento em
que as dores do parto comearam a vir-lhe mais fortes e com menores
intervalos, at o instante  em que a criana nasceu. Ele temia um mau
sucesso por causa da comoo que a morte de Anita causara a Bibiana. Mas
tudo correu bem, e a parteira, a mulata Teresa,  disse rindo:
  - Pistola boa no nega fogo.
  Rodrigo saiu contente e foi levar a notcia ao padre:
  -  outra menina! - exclamou com os olhos velados de lgrimas.
  E permitiu-se beber um copo de cachaa para festejar o acontecimento.
  - Graas a Deus tudo correu bem.
  O padre no dizia nada. Era com certo constrangimento que agora via
Rodrigo. Depois de tudo que acontecera, no lhe era fcil encarar o
homem. No entanto, ainda  no lhe queria mal. O diacho tinha um encanto
to grande que tornava s outras pessoas difcil no gostar dele. Eu s
queria saber - pensava s vezes o vigrio -  se o Pedro tem mesmo raiva
do genro ou se est s fingindo.
  Rodrigo saiu  rua para anunciar aos amigos o nascimento da filha.
Quando lhe perguntaram como ia chamar-se, respondeu:
  - Leonor.
  - Nome de alguma pessoa da famlia de vosmec?
  -  - mentiu Rodrigo. - Da minha me.
  No era. Leonor era o nome duma mulher de trinta anos que ele amara no
Rio Grande quando tinha apenas dezoito. Havia sido um amor distante,
pois ela nunca lhe correspondera  e acabara casando com outro.
  373
  
  O padre Lara batizou a menina naquele mesmo agosto frio e mido. E de
novo Bibiana se sentiu feliz ao repetir com Leonor o que j fizera com
Bolvar e Anita. Isso  e o trabalho da casa ajudaram-na a esquecer as
lembranas tristes e um pouco o medo do futuro. E naqueles dias sombrios
de agosto ouvia-se sempre no quarto dos fundos  da venda o rudo regular
da roca. A mulher de Juvenal levava s vezes Bolvar para sua casa, a
fim de que o menino brincasse com Florncio. Os dois primos cresciam
juntos, brigavam ou brincavam um com o outro, paravam rodeios com bois
imaginrios, que eram ossos de galinha, sabugos de milho ou pedras,
montavam em seus cavalos  que eram cabos de vassoura, ou faziam casas de
barro no fundo do quintal.
  O padre Lara s vezes olhava para o rosto de Bolvar e tentava descobrir
nele traos do pai. Encontrava-os vivos, e ficava meio apreensivo.
Restava saber se o menino  tinha herdado tambm o gnio do capito.
Quando Bolvar fazia uma travessura, o vigrio ria, e a risada se
emendava com a tosse, e a tosse deixava-o afogado e assim,  meio
engasgado, com os olhos cheios de lgrimas, ele dizia, sincopadamente:
  - Este alarife... Este alarife.
  Naquelas noites de inverno o padre Lara no podia sair em suas
caminhadas noturnas por causa do mau tempo. Por isso ficava em casa
lendo os jornais de Porto Alegre  - alguns de data muito atrasada - que
amigos lhe mandavam quando havia portadores. E  luz duma vela, os
culos na ponta do nariz, ele lia, relia e treslia. A situao  no
podia ser pior. Atacava-se o presidente da provncia, o dr. Fernandes
Braga, que havia tomado posse do cargo em maio daquele ano. Dizia-se que
quem realmente  mandava no governo era o irmo do presidente, o juiz de
direito de Porto Alegre, um homem que os liberais acusavam de
retrgrado, vingativo e autoritrio. Todos  haviam recebido o novo
presidente com simpatias e esperanas, mas ao cabo de pouco tempo ele
pusera as unhas de fora: comeara a perseguir os liberais e a encher  as
cadeias de inimigos polticos. Recentemente tinha havido tumulto nas
ruas de Porto Alegre porque o povo apoiara a Constituinte do Rio, que
era de carter liberal.  (A falta que nos faz um imperador! - refletiu
  374
  o padre Lara.) O juiz de direito tomara o arsenal de guerra. O povo
prendera o brigadeiro Carneiro da Fontoura, entregando-o ao juiz
municipal...
  O vigrio de Santa F fez uma pausa, tirou os culos e olhou firme para
a chama da vela... A situao era negra. Quando o povo perde o sentido
de disciplina e de  ordem, quando comea a desrespeitar a autoridade,
ento  porque o desastre est iminente... O pior de tudo era que, como
sempre, a conspirao se fazia na maonaria.  Mas ele no justificava o
regime de terror que o presidente institura. Era uma imprudncia, uma
temeridade, uma provocao...
  O vigrio continuou a ler as notcias e os artigos. Estes pareciam
escritos com dio e sangue. Os jornais liberais acusavam o governo de
despotismo, tirania e corrupo.  Os jornais do governo chamavam os
liberais de traidores, de aliados dos castelhanos, de perturbadores da
ordem e conspiradores...
  O sacerdote tentou orar mas no pde concentrar-se na orao. Doa-lhe o
peito e seus pensamentos estavam confusos. Abriu o brevirio, mas o que
ele via em suas  pginas no eram as oraes e sim as palavras dos
jornais - caramurus, retrgrados, tirano, traidor da ptria, guerra.
  Comeou a preparar-se para dormir. Pensou em Santa F e no que podia
acontecer se a revoluo rebentasse na provncia. Tudo indicava que o
coronel Ricardo e sua  gente se manteriam fiis  legalidade. Fosse como
fosse, nenhuma revoluo contra o resto do pas poderia triunfar. Mais
cedo ou mais tarde seria abafada. Ajoelhou-se,  rezou um padre-nosso e
uma ave-maria com o pensamento dividido entre a orao e a lembrana do
que acabara de ler nos jornais. Seria verdade que os liberais planejavam
mesmo anexar a provncia  Banda Oriental? Ou tudo era intriga? Com quem
estava a razo?
  Deitou-se, cobriu-se, apagou a vela, fechou os olhos e ficou tentando
capturar o sono, como quem procura apanhar um mosquito arisco.
  375
 
  24
  No fim do vero de 1835, quando Juvenal Terra voltou com sua carreta do
Rio Pardo, amigos o cercaram, curiosos, e lhe pediram que contasse "as
ltimas". Juvenal  no perdeu a calma. Primeiro acendeu um cigarro,
tirou uma tragada, apertou os olhos e comeou a falar com seu jeito
lento e seco. O que contou era alarmante, porque  significava guerra.
Mas o tom de voz, a expresso de seu rosto eram os mesmos que ele tinha
quando falava de coisas
  triviais.
  Juvenal vira quando os portugueses de Rio Pardo fizeram desfilar pelas
ruas um Judas que representava - diziam - os brasileiros. Tinha havido
protestos, e quando  um escravo ergueu a voz foi morto ali mesmo. O povo
do Rio Pardo enviara uma representao ao presidente da provncia,
protestando contra as autoridades que ele  nomeara. Como nica resposta
Fernandes Braga mandara prender os signatrios do manifesto.
  - J se sente cheiro de plvora no ar - disse Juvenal. - Se algum
acender um isqueiro, tudo vai pelos ares.
  Ouvira falar de tumultos no Rio Grande e de ameaas de revolta em
Viamo. Conversara com muitos charqueadores que estavam irritados com o
governo central que os  obrigava a pagar seiscentos ris fortes de
imposto por arroba de charque. Os criadores tambm se queixavam,
indignados, de que alm da taxa de dez mil-ris por lgua  quadrada de
campo, os quintos que tinham de pagar sobre o couro "eram uma
barbaridade"; e se quisessem export-lo, Santo Deus, nesse caso o
imposto era dobrado!  No se podia fabricar nada que l vinham os
impostos mais absurdos, os dzimos, como se o Rio Grande fosse uma
colnia e no uma provncia do Brasil. Para cmulo,  at as tropas de
mulas que os criadores rio-grandenses vendiam para tropeiros de Sorocaba
e outros lugares fora do Continente estavam sujeitas a um imposto que
era  cobrado no no lugar de origem do negcio, mas sim nos mercados
onde os muares eram revendidos, de sorte que quem se ia beneficiar com a
arrecadao eram outras  provncias.
  376
  A todas essas So Pedro do Rio Grande vivia abandonado e esquecido pela
metrpole. No lhe davam estradas nem pontes nem policiamento nem nada.
Justia? Ha-ha! Todos  os processos tinham de ser julgados pela Relao
do Rio de Janeiro, para onde eram remetidos e onde ficavam a criar
cabelos brancos.
  Parecia que a Corte achava que os continentinos s serviam para brigar
com os castelhanos, porque quando rebentava a guerra comeavam logo o
recrutamento e as requisies.  Terminada a luta, cessavam de pagar o
soldo s tropas e esqueciam-se de resgatar as requisies. E pouco se
lhes dava que a guerra tivesse dizimado os rebanhos e  destrudo as
lavouras do Continente.
  - E onde  que eles metem o dinheiro do imposto? - perguntou um dos
homens que escutavam Juvenal.
  - Metem no rabo desses caramurus do inferno! - respondeu, azedo, um
velhote de chirip seboso.
  Os outros o miraram de soslaio sem dizer nada.
  - Com tudo isso que pagamos - disse Chico Pinto - no temos nem escolas
prs nossos filhos.
  O velhote cuspinhou para o lado e retrucou:
  - Qual escola, qual nada! No preciso dessas coisas. No sei ler e isso
nunca me fez falta. Tambm no tenho filho pra mandar pr'escola. Mas me
d raiva de ver que  estamos sustentando o luxo da Corte. O nosso
dinheirinho  pra encher a barriga desses condes, duques e bares de
meia-pataca!
  Naquele mesmo dia, Juvenal transmitiu ao pai essas notcias
inquietadoras. Pedro Terra ficou por algum tempo calado, e quando todos
pensavam que ele as tinha esquecido,  ouviram-no dizer:
  - J mataram o trigo, agora vo matar o resto. So pior que gafanhoto,
pior que ferrugem.
  - Quem, Pedro? - perguntou-lhe a mulher.
  - Esses malditos caramurus.
  Num domingo,  hora da missa, o padre Lara pregou um sermo sobre a
obedincia, a ordem e a paz. Sabia que o coronel Amaral - que se
encontrava ento em Porto Alegre  - estava resolvido a manter a todo o
custo a ordem em Santa F.
  377
  .''H
  Em meados de outono o coronel Ricardo voltou da Capital e convocou os
vereadores para uma sesso especial. Contou-lhes que a situao se
agravara e que a revoluo  era questo de meses ou talvez de semanas.
No ato da instalao da Assemblia Legislativa Provincial - ajuntou
Ricardo Amaral - o presidente Fernandes Braga fizera  um discurso muito
franco e corajoso, acusando os liberais de estarem conspirando e
preparando uma revoluo com o fim de separar a provncia do resto do
Brasil e  incorpor-la a uma federao cisplatina. Concluiu:
  - O dr. Fernandes Braga me pediu que organizasse um corpo em Santa F e
que garantisse a ordem aqui e nos arredores. - Bateu com o punho fechado
na mesa. - E hei  de garantir. J estou reunindo gente. Quero que a
Cmara Municipal faa uma proclamao jurando fidelidade ao governo.
Algum tem alguma coisa a dizer contra a minha  proposta?
  Houve um silncio breve ao cabo do qual algum falou:
  - Eu tenho.
  Cabeas voltaram-se para o lugar donde viera a voz. Era Pedro Terra.
Ricardo Amaral franziu a testa, contrariado, e ordenou:
  - Pois ento fale.
  O outro ergueu-se e disse:
  - Acho que este assunto deve ser muito bem pensado.
  - No pode haver dois pesos nem duas medidas! - vociferou o presidente
da Cmara. - Ou estamos com a legalidade ou estamos com os desordeiros
que querem nos entregar  aos castelhanos.
  Sem se perturbar, Pedro continuou no mesmo tom de voz:
  - O coronel Bento Gonalves j foi acusado de traidor, foi chamado 
Corte, defendeu-se e voltou com seu nome limpo e com um cargo de
confiana.
  O rosto do coronel Amaral estava cor de tijolo. Os outros conselheiros
remexiam-se, inquietos, nas suas cadeiras. Um deles interveio com jeito
conciliador:
  - Que , ento, que o amigo Terra prope?
  - Eu proponho... - comeou Pedro.
  378
  Mas Ricardo deu um novo murro na mesa: o secador e o tinteiro de loua
saltaram, um pingo de tinta caiu sobre a madeira sem lustro.
  - Vosmec no prope coisa nenhuma! Esta Cmara representa o governo.
No  uma Cmara de traidores.
  Fez-se um silncio pesado. Pedro Terra e Ricardo Amaral mediram-se com
os olhos, e ficaram a mirar-se como duas cobras que trocam olhares
hipnticos, presas uma  ao sortilgio da outra.
  Finalmente um dos conselheiros disse:
  - Estou com o presidente da Cmara.
  Os outros vereadores sacudiram as cabeas e murmuraram uma aprovao
meio constrangida. Sem tirar os olhos do senhor de Santa F, Pedro Terra
declarou:
  - Mas eu voto contra.
  Afastou a cadeira para trs com o p e quando se preparava para
retirar-se ouviu a voz do coronel Amaral:
  - Vosmec est preso!
  A notcia espalhou-se rpida pela vila. Tinha havido barulho na sesso
da Cmara Municipal e Pedro Terra estava preso. Constava que antes do
anoitecer iam prender  tambm Juvenal e o capito Rodrigo. Na venda do
Nicolau alguns homens reuniram-se para comentar o fato e um deles disse:
"Comeou o fandango! O melhor  a gente  ir pra casa limpar a garrucha e
afiar a espada". E emborcou o copo de cachaa.
  Ao entardecer daquele dia Juvenal, que passara a tarde dando ordens na
olaria do pai, correu  casa do cunhado. Contra seus hbitos, entrou
intempestivo, sem bater   porta, e encontrou Bibiana junto do fogo
ajudando a cozinheira. Bolvar brincava debaixo da mesa e Leonor
choramingava no bero.
  - Vo prender o Rodrigo - disse ele, meio ofegante. - O melhor  ele
tratar de...
  Calou-se de sbito, pois antes de terminar a frase teve intuio do que
havia acontecido. A venda estava fechada. A espada de Rodrigo no se
achava mais pendurada,  como de costume, na 
  379
  
  parede da varanda. E s agora  que Juvenal se lembrava de que no vira o
cavalo do cunhado no quintal.
  Bibiana caminhou para o irmo. Havia em seu rosto uma grande, uma
profunda mas tranqila tristeza.
  - O Rodrigo a esta hora est longe - murmurou ela. Juvenal sentou-se e
comeou a enrolar um cigarro com dedos
  que tremiam um pouco. Por alguns instantes nenhum dos dois falou. Leonor
choramingava ainda e debaixo da mesa Bolvar raspava com os dedos o
barro ressequido das  botas do tio. Bibiana sentou-se tambm e ficou
olhando para Juvenal. Ainda bem que Terra no  espalhafatoso - refletiu
este. Sua gente era quieta, aceitava os fatos  com uma coragem
resignada, e tinha vergonha de fazer cenas.
  - Quando foi que ele saiu?... - perguntou em voz baixa, batendo a pedra
do isqueiro para acender o cigarro.
  - A noite passada.
  - Pr'onde foi?
  - No disse.
  - Como  que estava? Abatido? Bibiana sorriu melancolicamente.
  - Estava louco de contente. Parecia que ia pra uma festa.
  - Deixou algum recado pra mim?
  - Deixou. Disse pra vosmec desculpar ele, mas que essas coisas
acontecem. Deixou o dinheiro da fria na gaveta. Levou s uns pataces,
uma manta de charque e um  saco de farinha. Ah! E uma garrafa de
caninha.
  Juvenal fumava, sacudindo a cabea vagarosamente. Parecia mentira,
refletia ele, mas de certo modo a ausncia de Rodrigo lhe dava um
alvio. Gostava do cunhado,  no podia negar; gostava "por demais" at,
mas acontecia que o comportamento do capito fazia que ele vivesse
sobressaltado. Rodrigo cometera muitas loucuras, tantas  quantas um
homem pode cometer. Botara dinheiro fora com jogo e mulheres, cuidara
mal do negcio, fizera a Bibiana sofrer. Era estabanado, esquentado, e
onde ele  estivesse sempre havia perigo de barulho. No tinha
meio-termo: com ele era risada ou choro, beijo ou bofetada, festa ou
velrio. Ultimamente andava to
  380
  inquieto, por causa daqueles boatos de revoluo, que j nem pensava
noutra coisa. Aquilo tinha de acontecer, mais cedo ou mais tarde. 
agora que acontecera, Juvenal  sentia um alvio. Podia ser absurdo, mas
sentia.
  Olhou para a irm e s ento viu que ela chorava de mansinho e que as
lgrimas lhe escorriam pelas faces. Procurou uma palavra de consolo mas
no achou nenhuma.  Podia levantar-se e ir abra-la, mas o acanhamento
lhe impediu esse gesto. Desviou os olhos dela e murmurou:
  - No h de ser nada...
  Bolvar saiu de baixo da mesa cantarolando, aproximou-se do bero da
irm e ficou na ponta dos ps a espi-la.
  - Pra onde ser que ele foi? - perguntou Bibiana depois de algum tempo.
  - Decerto foi se reunir com a gente do coronel Bento Gonalves. Pelo
menos era isso que ele dizia que ia fazer se rebentasse a revoluo...
  - Mas ser que vai rebentar mesmo?
  - Vai. No h dvida. Vai.
  Juvenal levantou-se e comeou a caminhar lentamente dum lado para outro.
  De repente Bibiana lembrou-se:
  - E o papai? Como vai ser agora? Juvenal deu de ombros.
  - Dizem que vo me prender tambm.
  - E vosmec vai ficar na vila?
  - Pr'onde  que hei de ir? - Mordeu o cigarro apagado e depois
acrescentou: - Algum tem de ficar pra olhar por vosmecs.
  Bibiana pensava na me, em Rodrigo, nos filhos... s vezes as desgraas
chegavam ao mesmo tempo, amontoavam-se, como se uma chamasse a outra.
  A filha rompeu a chorar e ela a tomou nos braos e comeou a
acalant-la. Deve ser fome - concluiu. Sentou-se na cama, de costas para
Juvenal, desabotoou o corpinho  e deu o seio  menina.
  381
  Das panelas em cima do fogo vinha um cheiro bom de arroz com guisado de
charque. Juvenal ficou olhando atravs da janela a estrela do pastor que
cintilava no cu  limpo do anoitecer.
  25
  O estafeta do correio que chegou do Rio Pardo em fins de outubro trouxe
a grande notcia. Tinha rebentado a revoluo e Bento Gonalves da
Silva, chefe supremo das  foras revolucionrias, havia atacado e tomado
Porto Alegre! O presidente da provncia fugira para o Rio Grande e o
chefe farroupilha convocara o vicepresidente  para assumir o governo.
Dizia-se tambm que toda a provncia aderira ao movimento, com exceo
de Pelotas, Rio Grande e So Jos do Norte.
  E naquele novembro ventoso Bibiana passou os dias a trabalhar, a cuidar
dos filhos e a esperar notcias do marido. No sabia por onde andava
Rodrigo, mas "uma coisa"  lhe dizia que ele estava vivo e no muito
longe dali. 
  O padre Lara visitava-a com freqncia e tratava-a com um carinho maior
que o de costume, como que procurando atenuar assim o mal que lhe
fizera, uma vez que se  julgava responsvel por aquele casamento.
  - E o velho? - perguntou o vigrio um dia.
  - Que velho? - perguntou Bibiana, deixando por um instante de pedalar na
roca.
  - O pai de vosmec.
  - Vai bem.
  - Eu sei, mas tem aparecido?
  - Tem...
  - J lhe falou alguma vez no Rodrigo?
  - No. Nunca.
  O cigarro pendia do canto da boca do vigrio. Como sempre, Bolvar
olhava curioso para aquele homem to parecido com um urubu e que, ainda
por cima, havia engolido  um gato que fazia ron-ron-ron em seu peito. O
menino cocava o padre com olhos
  382
  reluzentes de malcia e sorria. E nesse sorriso o vigrio reconhecia
Rodrigo.
  Faziam-se longos silncios naquelas visitas do padre Lara - fundos
silncios em que ele pensava, desolado, nas coisas que via, ouvia ou
lia. Santa F agitava-se  em preparativos guerreiros. Ele sabia de
muitos homens - entre os quais Chico Pinto e Joca Rodrigues - que tinham
fugido para se reunirem s foras dos Farrapos.  Isso deixara o velho
Amaral furioso. Pedro Terra fora solto depois de prometer, sob palavra,
no afastar-se do povoado a nenhum pretexto; mas os homens do coronel
Ricardo no o perdiam de vista dia e noite. Juvenal fora proibido de
fazer suas viagens ao Rio Pardo e vivia tambm muito vigiado. O
recrutamento de "voluntrios"  - muitos dos quais eram presos a maneador
- processava-se em todo o municpio de Santa F e os homens do coronel
Amaral no tinham tato nem piedade. Fazia pouco,  haviam matado a tiros
um lavrador que recusara deixar a famlia e a lavoura para se incorporar
s tropas legalistas. Hans Schultz, seu filho mais velho e Erwin Kunz
tambm tinham sido recrutados. Na hora em que Hans deixou a casa, toda a
famlia rompeu a chorar; mas no dia seguinte antes de nascer o sol foram
todos como de costume  trabalhar na roa, desta vez comandados por Frau
Schultz, que levava o filho mais moo escanchado na cintura. E ao v-los
o vigrio fizera reflexes melanclicas:  o que aquela gente colhesse na
prxima safra seria fatalmente requisitado pelo coronel Amaral, para
alimentar seus soldados; e os Schultz nunca veriam um vintm  daquelas
requisies. Todos os pequenos criadores e plantadores do municpio
andavam alarmados, pois as requisies de cavalos, gado e cereais j
haviam comeado.
  O padre Lara continuava a receber jornais. Pelo que lia neles e atravs
de cartas de amigos, verificava que muitos sacerdotes catlicos estavam
metidos na conspirao  ou tinham aderido  revoluo. No se tratava de
um ou de dois padres, mas de dezenas deles. E ali na casa de Bibiana,
enquanto esta pedalava, o padre sacudia a  cabea repetidamente. No
compreendia como sacerdotes catlicos pudessem dar seu apoio a uma
revoluo cujo chefe era
  383
  um maom.  Estava tudo errado, tudo perdido, tudo muito
  feio.
  - E j houve combates! - disse ele depois de um longo
  perodo de silenciosa reflexo.
  Bibiana, que quase havia esquecido a presena do padre, ergueu a cabea
e perguntou:
  - Que foi que vosmec disse? t
  - Eu disse que tem havido muitos combates.
  - Ah!
  - No primeiro os revolucionrios foram mal - contou o vigrio com alguma
relutncia, temendo afligir Bibiana. - As foras de Silva Tavares e de
Manuel Marques de  Sousa derrotaram os
  Farrapos.
  E no momento de pronunciar essas palavras uma idia lhe veio  mente:
"Um dia todas essas coisas ho de ser Histria" - refletiu ele. Lera j
vrios artigos e livros  sobre Napoleo Bonaparte, o grande
conquistador. Era j homem maduro quando pela primeira vez ouvira falar
nesse famoso general nascido na ilha de Crsega. Fora  depois
acompanhando, interessado, sua carreira. Agora Napoleo se tornara uma
figura conhecida em todo o mundo e estava na Histria ao lado de Csar,
Alexandre,  tila e tantos outros. Mas era muito possvel - concluiu -
que o resto do mundo nunca chegasse a ouvir falar em Bento Gonalves.
No deixava de ser curioso a gente  ver a Histria no momento em que ela
estava sendo feita! Dali a cem anos, como iriam os historiadores
descrever aquela guerra civil? O padre Lara sabia como era  custoso
obter informaes certas. As pessoas dificilmente contavam as coisas
direito. Mentiam por vcio, por prazer ou ento alteravam os fatos por
causa de suas  paixes. Cenas da vida cotidiana que se tinham passado
sob o seu nariz, ali mesmo na praa de Santa F, eram depois relatadas
na venda do Nicolau duma maneira completamente  diferente. Como era
ento que a gente podia ter confiana na Histria? Passou-lhe, ento,
pela mente a lembrana da importncia que tinha para a Igreja Catlica
a tradio oral... Ora, estava claro que com a Igreja, que era divina, a
coisa era diferente. Mas seria mesmo diferente? Essa dvida era indigna
dum sacerdote. Que
  384
  Deus lhe perdoasse a heresia! Mas agora Bibiana lhe estava dizendo
  alguma coisa...
  - Que foi que vosmec disse? - perguntou, como se despertasse dum
cochilo.
  - Que os Farrapos vo mal. O padre Lara sacudiu a cabea.
  - No vo, Bibiana, no vo. No combate do Arroio Grande o general Neto
venceu as foras do Silva Tavares. Mais ainda: Bento Gonalves e um tal
Onofre Pires ameaaram  o Rio Grande e o presidente Braga achou melhor
mandar-se mudar para o Rio. So
  notcias frescas.
  Houve um curto silncio. Florncio, o filho de Juvenal, entrou, montado
num cavalo imaginrio, e convidou Bolvar para iiem atacar o inimigo no
fundo do quintal.  Bolvar botou na cabea um velho chapu de Rodrigo,
apanhou sua espada de pau, montou no seu cavalo invisvel e saiu com o
primo a todo o galope.
  O padre acompanhou-os com o olhar. Depois tirou o isqueiro do bolso,
bateu a pedra, prendeu fogo no pavio e aproximou dele a ponta do
cigarro, enquanto Bibiana lhe  fazia uma pergunta:
  - Por onde andar ele?
  - Ele quem? - perguntou o vigrio, percebendo numa frao de segundo a
inutilidade de sua pergunta, pois estava claro que Bibiana se referia ao
marido.
  - O Rodrigo - disse ela. - Ser que ainda est vivo? A noite passada
sonhei que ele era um soldado alemo.
  - Vosmec j viu alguma vez um soldado alemo? Nunca. Mas no sonho eu
sabia que ele era alemo.
  - No se impressione porque o Rodrigo se arranja. Ele sempre leva a
melhor em tudo.
  - Vosmec se lembra que ele costumava dizer que Cambar no morre na
cama? O pai e o irmo morreram na guerra, muitos tios morreram em
duelo...
  - Me lembro, sim. Nenhuma pessoa foge ao seu destino... Mal havia dito
estas palavras, o padre percebeu que estava
  fazendo uma afirmao hertica. Que diacho tenho eu hoje que <-'stou
aqui a pensar e falar como um ateu de m morte?
  385
  - Vosmec tambm acredita no destino? - perguntou Bi-
  biana.
  O padre deu um chupo no cigarro, depois tirou-o da boca
  e respondeu:
  - Destino  um nome que a gente d  vontade de Deus.
  E, depois de alguns segundos, acrescentou:
  - O Rodrigo pode entrar em mil guerras e duelos, mas se Deus quiser que
ele morra de velho em cima duma cama, ele morrer.
  Bibiana escutou-o, sria e pensativa, e depois disse:
  - Padre, eu no quero que meu marido morra. Quero que ele volte. Mas
acho que o destino dele  correr mundo. Por isso estou preparada pra
tudo. No tenho mais esperana  que ele fique sossegado no seu canto
trabalhando. Decerto a vontade de Deus 
  que ele ande nessa vida.
  - A vontade de Deus  que cada um viva de acordo com os
  dez mandamentos. 
  Bibiana encolheu os ombros, incrdula, e o padre Lara teve a impresso
de que mais uma vez estava a conversar com Ana Terra, como nos velhos
tempos.
  - Mas quem  que sabe o que Deus quer? - perguntou ela. - A paz ou a
guerra? Deus ser do lado dos Farrapos ou dos legalistas? Eu s vezes
fico pensando...
  - Deus quer tudo pelo melhor, minha filha.
  - Mas por que  que sempre acontece o pior?
  O padre Lara lutou por um instante com sua respirao e com
  seus pensamentos.
  - Nem sempre acontece o pior.
  - Pra ns sempre tem acontecido, padre - replicou ela com
  firmeza.
  Ele sabia que aquilo era verdade mas censurou-a:
  - Uma catlica verdadeira no diz essas coisas.
  - Deus me perdoe, mas eu digo o que sinto.
  Pouco tempo depois o padre Lara ergueu-se, gemendo, foi at o bero onde
Leonor dormia, inclinou-se um pouco sobre a criana, sorriu de leve e
disse:
  386
  - Bom, vou andando. At outro dia!
  - At outro dia.
  E muitos outros dias vieram. Entrou o ano de 1836 e a Santa F chegavam
as mais desencontradas notcias da guerra.
  Pedro Terra uma tarde visitou a filha em companhia da mulher, ps
Bolvar sobre os joelhos, e examinando-lhe o rosto com ateno,
descobriu nele traos do pai, principalmente  o jeito arrogante de
olhar. Sacudiu a cabea, penalizado, mas no disse nada. Arminda
passeava cantarolando dum lado para outro com a neta nos braos.
  - Minha filha - disse Pedro, olhando para Bibiana - por que vosmec no
volta pra sua casa?
  Ela ergueu os olhos e fitou-os no pai, que baixou os seus para a ponta
das botas.
  - No, papai. Esta  a minha casa. Quero que o Rodrigo me encontre aqui
quando voltar.
  Pedro Terra ficou meio desconcertado ao ouvir o nome do genro, mas
limitou-se a transformar seu embarao num pigarro prolongado.
  - O padre Lara me disse que h esperanas de paz - acrescentou Bibiana.
  O padre lhe contara, havia poucos dias, que Fernandes Braga tinha
chegado ao Rio, onde dera conta dos acontecimentos da provncia ao padre
Feij, regente do Imprio,  e que este lanara uma proclamao chamando
 ordem os revolucionrios. Tinha mandado um novo presidente para a
provncia, e Bento Gonalves e seus generais estavam  dispostos a dar
posse ao novo governador e depor
  as armas.
  Pedro Terra sacudiu a cabea.
  - No, minha filha. No vai haver paz. Nem pode haver paz com esses
caramurus. Os homens l em Porto Alegre no se entenderam. O governo
imperial deu anistia aos  revolucionrios, mas eles no aceitaram. - Fez
uma pausa curta e depois acrescentou: - So as ltimas notcias. E deve
ser verdade, porque o Ricardo Amaral anda  furioso.
  387
 
  Bibiana olhava para o pai, com a boca entreaberta, o peito a arfar. Suas
esperanas caam por terra. To cedo no veria Rodrigo.
  - E agora que vai ser de ns? - perguntou. - Essa guerra louca...
essa...
  Calou-se, engasgada. Pedro Terra olhava para a filha num triste
silncio. Andava amargurado, tinha a impresso de que dentro dele algo
comeava a apodrecer. "s  vezes parece at que tenho caruncho dentro do
peito..." Agora contemplava a filha, via-a aflita, queria fazer ou dizer
alguma coisa que lhe desse esperana e conforto.  Mas continuou onde
estava, imvel e calado. Por fim, a nica coisa que encontrou para dizer
foi:
  - Vai ser uma guerra braba.
  26
  Foi em fins de abril, num calmo princpio de tarde, que a notcia
explodiu na vila como um petardo. Foras revolucionrias aproximavam-se
de Santa F para atac-la.  Haviam invadido o municpio no dia anterior
e, a menos que fossem repelidas pelos legalistas, entrariam na vila ao
anoitecer. Dizia-se que era um contingente de  cavalaria vindo do Rio
Pardo especialmente para "ajustar contas com o coronel Ricardo e sua
gente". O sino da capela tocou alarma e por alguns instantes deu Santa
F uma impresso de fim de mundo. Mulheres, crianas e velhos saram de
suas casas carregando cobertores, travesseiros, sacos e bas. Eram os
moradores da parte  leste da vila, de onde se supunha viria o ataque:
iam refugiar-se nas casas que ficavam a oeste, para alm da praa.
Muitas mulheres choravam e soltavam exclamaes;  outras, lvidas,
estavam demasiadamente assustadas para dizerem o que quer que fosse.
  Juvenal correu  casa de Bibiana e encontrou-a sentada, dando de comer
aos filhos.
  - Vamos embora daqui - disse ele com um tom de urgncia
  na voz.
  Bibiana ergueu os olhos, franziu a testa e respondeu:
  - Eu vou ficar.
  388
  - No vai ficar coisa nenhuma! Os Farrapos vo entrar por aqui.
  
  -  por isso mesmo.
  - Mas  perigoso, Bibiana. Arrume as coisas e vamos pra minha casa.
  Bibiana no se movia. O sino ainda badalava; era como uma voz pedindo
socorro.
  - Vou ficar.
  - Est louca!
  Juvenal comeou a apanhar coisas ao acaso: um cobertor, um pacote de
velas, um travesseiro...
  - Vou esperar o Rodrigo.
  Juvenal parou  frente da irm e encarou-a.
  - Rodrigo?
  - Ele vem a.
  - Quem foi que disse?
  - Eu sei.
  - Ele escreveu? Mandou algum recado?
  - No.
  - Ento como  que vosmec sabe?
  - Uma coisa aqui dentro me diz que o Rodrigo vem a. E que ainda hoje
vou ver ele...
  Juvenal sacudiu a cabea, meio perdido. Largou o cobertor, as coisas que
tinha na mo e disse:
  - No temos tempo a perder, Bibiana. Resolva duma vez.
  - J resolvi. Vou ficar.
  - Ento me deixe levar as crianas.
  - O Rodrigo vai querer ver os filhos. Juvenal perdia a pacincia.
  - Mas  uma loucura. Vosmec vai arriscar a vida dos inocentes s
porque...
  Calou-se.
  - Est bem, Juvenal. Pode levar as crianas. Mas eu fico. O sino cessou
de tocar. E de repente Bibiana sentiu que o
  silncio era ainda mais medonho que o badalar do sino.
  389
  
  -  uma loucura! - exclamou Juvenal, compreendendo que seria intil
tentar levar a irm dali.
  - A guerra tambm  uma loucura. Tudo  uma loucura. Mas eu fico.
  A capela estava cheia de gente, principalmente de mulheres. O vigrio
deu conselhos aos santa-fezenses, instruindo-os sobre o que deviam fazer
na hora do combate,  e pediu a Deus que protegesse Santa F e seus
habitantes. Todos ento comearam a rezar um padre-nosso em coro. A
orao foi entrecortada de soluos. E quando estavam  a dizer - "agora e
na hora de nossa morte..." - ouviu-se ali na capela um grito agudo.
Cabeas voltaram-se na direo do grito... Uma mulher estava cada ao
cho,  gemendo. Todos compreenderam imediatamente. Era Maria da Graa, a
filha de Chico Pinto. "Ela vai ter a criana!" - exclamou algum. O
padre Lara mandou que todos  sassem da capela e fechou a porta, ficando
ali apenas com Arminda Terra. Mandou chamar s pressas a mulata Teresa.
E quando esta veio e falou, o vigrio sentiu-lhe  o hlito recendente de
cachaa. E ali mesmo na igreja, Maria da Graa teve o filho. As pessoas
que haviam ficado na praa ouviram-lhe os gritos: "Nossa Senhora me
acuda! Nossa Senhora da Conceio!" E Dona Arminda contou depois que a
pobre moa passara todo o tempo com os olhos pregados na imagem da
padroeira da vila.
  Quando anoiteceu os habitantes de Santa F comearam a ouvir o pipocar
do tiroteio. A praa ficou deserta, as casas fechadas. E o ltimo sol
daquela tarde de outono  alumiou ruas mortas. Mas pelas frestas das
janelas olhos espiavam para fora. De casa para casa, vizinhos trocavam
impresses. E assim, por meio desse sistema de  comunicao, naquele
anoitecer eles fizeram correr pela vila as ltimas notcias e boatos. O
coronel Ricardo tinha mandado prender Pedro e Juvenal Terra, pois os
dois se estavam preparando para se unirem aos Farrapos.
  A noite chegou, morna e estrelada. O tiroteio cessou, e o silncio que
se fez pareceu cheio de mau agouro. Duma das meias-guas da praa uma
velha que vigiava a casa  do coronel Amaral gritou para a casa vizinha:
"Os legalistas chegaram. Parece que vo se entrincheirar no casaro'. E
ficou de olho e ouvido atentos. "Um
  390
  homem disse que os Farrapos j tomaram o cemitrio" - anunciou uma hora
mais tarde. E dentro de poucos minutos quase toda a gente sabia do fato.
Algum comunicou  que havia fogueiras no alto da coxilha do cemitrio.
"Vo acampar para passar a noite l" - opinavam uns. Outros diziam: "Vo
atacar a vila ainda esta noite".
  27
  Sentada junto da mesa, no meio do quarto s escuras, Bibiana esperava
com o corao a bater, descompassado. Rodrigo se aproximava - pensava
ela. - Os soldados de  Ricardo Amaral tinham recuado. Ela ia ver o
marido. Aquela escurido parecia pulsar tambm como um corao
assustado. De quando em quando se ouvia l fora uma voz  de homem. Mas o
que havia mesmo era o silncio. E o seu corao louco parecia bater-lhe
no s no peito mas nas fontes, no pescoo, em todo o corpo. s vezes
tinha  a impresso de que at a casa estremecia quelas pulsaes
surdas. E assim ela como que via o tempo passar. No podia fazer nada.
No queria acender a luz para no  chamar a ateno dos legalistas, pois
havia o perigo de eles entrarem e levarem-na dali  fora. De sbito,
num horror, Bibiana pensou em que eles bem podiam estar  preparando uma
emboscada para Rodrigo. Sabiam que o capito procuraria ver a famlia:
podiam ficar entrincheirados, escondidos nas casas vizinhas,
empoleirados nas  rvores do quintal e quando ele se aproximasse, fariam
fogo. Ou ento - muito pior - o prenderiam para o degolar. Ela sabia de
histrias horrveis daquela guerra...  O melhor que tinha a fazer era
ficar alerta e gritar para Rodrigo que tomasse cuidado. Mas quem  que
lhe garantia que Rodrigo estava com os atacantes?
  Um cachorro comeou a uivar - um uivo prolongado, tremido, triste,
triste, triste. Bibiana de repente sentiu frio, tanto frio que pensou em
enrolar-se num xale.  Mas no teve coragem de fazer o menor movimento.
Ficou onde estava, toda encolhida, agora com os braos cruzados,
apertados contra o peito. A cabea comeava a doer-lhe.  Decerto eram as
marteladas do sangue. Ou ento o medo, a aflio...
  391
  
  Ouviu um tropel. E trs tiros, bem destacados, no muito longe. Devia ir
para baixo da mesa? Esconder-se atrs do armrio? Era melhor. Mas no
fez nada. Ficou imvel,  escutando no s com os ouvidos, mas com todo o
corpo. Achou que s tinha uma coisa a fazer. Rezar. Comeou a dizer -
"Ave Maria cheia de graa..." E seus lbios  se moviam, e ela murmurava
a orao como se estivesse cochichando ao ouvido da santa. Disse uma
salve-rainha, e depois um padre-nosso, mas ia repetindo as palavras  sem
prestar ateno nelas, pensando todo o tempo no marido. Queria v-lo
mais uma vez, s uma vez. Deus no ia ser to mau que no lhe permitisse
essa alegria.  Ela j nem ousava pedir o impossvel: que a guerra
terminasse e Rodrigo voltasse para casa. Isso era demais. Bibiana sabia
que as coisas boas nunca aconteciam. Por  isso nem pedia. Mas queria
rever o marido aquela noite. E continuava a
  balbuciar as oraes.
  Quanto tempo ficou ali sentada, esperando, rezando, temendo e sofrendo?
Duas horas? Trs? Perdera a noo do tempo. Talvez fossem dez da noite.
Mas o dia tambm  podia estar raiando. Ela j no sabia de mais nada. O
tiroteio recomeara, cerrado, havia pouco, e muito prximo. Ela ouvira
vozes exaltadas na rua. E agora de novo  estava tudo quieto. ,
  De repente, uma voz l fora:
  - Bibiana!
  A voz de Rodrigo! Bibiana teve um sobressalto. E imediatamente achou que
estava dormindo e que aquilo era um sonho. Mas estava bem acordada...
Sentia a dureza da  mesa sob os cotovelos. Ela estava mas era louca,
ouvindo vozes. Agora ouvia tambm passos... passos no quintal. Comeou a
tremer, a bater dentes e teve de fazer  um esforo enorme para no
gritar.
  "Bibiana!" - outra vez a voz. Ento ela se levantou, area, foi at a
porta, abriu-a e viu um vulto no quintal.
  - Bibiana!
  O vulto aproximou-se. Agora ela lhe via o rosto  luz do luar. Era
Rodrigo, sim, mas ela no podia acreditar.
  O marido tomou-a nos braos, beijou-lhe o rosto. Os lbios dela
permaneceram moles, inertes. Ele lhe dizia coisas, ela sentia
  392
  nas faces a aspereza de suas barbas... Deixou-se levar para dentro de
casa. Rodrigo acendeu uma vela e Bibiana viu-lhe o rosto  luz da chama.
Aqueles olhos... Ficou  meio estupidificada, olhando para seu homem que
lhe fazia perguntas apressadas. E os filhos? E Juvenal? Onde estavam?
  Ouviram uma batida.
  - Quem  l?
  - Sou eu. O Quirtno.
  Rodrigo abriu a porta e Bibiana ouviu o desconhecido dizer:
  - Esto entrincheirados no casaro.
  - Est bem - gritou Rodrigo. - Cerquem aquele chiqueiro por todos os
lados, tomem posio mas no dem nenhum tiro. Daqui a pouco vou assumir
o comando.
  Rodrigo tornou a fechar a porta. Voltou-se para Bibiana e de novo a
tomou nos braos. E quando ela conseguiu falar, a primeira coisa que lhe
ocorreu perguntar foi:
  - Est com fome?
  - Estou, minha prenda. Mas isso no  o mais importante.
  - Est muito cansado?
  - Estou, mas no h de ser nada. Ainda tenho servio pra esta noite. S
vou dormir depois que tomar o casaro e prender os Amarais, o pai e o
filho.
  - Cuidado, Rodrigo!
  Bibiana sentiu que ele estava inquieto, e que no o teria consigo por
muito tempo. O silncio continuava l fora. Nos braos do marido agora
ela sentia o calor voltar-lhe  ao corpo, e a presso dos braos dele lhe
fazia bem, dava-lhe uma sensao de segurana,
  e proteo.
  Atabalhoadamente ele lhe contou coisas: o que fizera naqueles meses, os
lugares por onde andara, os combates em que tomara parte. No chegava a
terminar as frases  que principiava. Gesticulava muito e olhava de
instante a instante para a porta. De repente mudou de tom e disse:
  - Tenho que terminar aquele servicinho. Parece mentira que ri preciso
uma guerra civil para eu poder botar o rabinho no R da cara do Bento.
  393
    - Rodrigo!
  Ele a tranqilizou com um sorriso.
  - Elstou brincando, minha prenda. A cara daquele canalha no me interessa
agora. Mas precisamos tomar o casaro.
  Apertou mais forte a mulher contra o peito e beijou-lhe a boca
longamente. Suas mos correram pelas costas de Bibiana, seus dedos lhe
prenderam a saia, comearam  a ergu-la. Bibiana compreendeu e disse um
no sem desmanchar o beijo, um no abafado, pronunciado dentro da boca
do marido. Repetiu o no enquanto ele a empurrava  na direo da cama.
Continuou a dizer no. Agora ele a levava erguida nos braos. J deitada
na cama, ela ainda relutou.
  - Agora no, Rodrigo.
  Mas ele no lhe deu ouvidos. Tirou o chapu da cabea e atirou-o ao
cho; deitou-se ao lado da mulher e assim vestido como estava, sem ao
menos tirar as botas, tornou  a enla-la com os braos.
  E momentos depois, quando o teve deitado a seu lado, meio arquejante,
Bibiana passou-lhe as mos pelos cabelos e disse:
  - O pobre do meu filho deve estar cansado...
  Por um momento Rodrigo nada disse. Depois, suspirou fundo
  e murmurou:
  - Estou com um sono medonho. Se eu pudesse dar uma cochilada...
  Ouviram-se passos. O corao de Bibiana comeou a bater acelerado. Uma
voz:
  - Capito, est tudo pronto!
  -  o Quirino - disse Rodrigo, baixinho. Depois, gritou: - J vou indo!
  Saltou da cama, botou o chapu. Bibiana tambm se ergueu e se aproximou
do marido, agora mais infeliz que nunca.
  - Por amor de nossos filhos, Rodrigo, tenha cuidado.
  Ele tornou a beij-la na testa, nos cabelos, na boca, dizendo:
  - A vida vale mais que uma ponchada de onas. A gente passa trabalho
numa guerra, mas se diverte muito.
  Apanhou a espada, que deixara sobre a mesa, e exclamou:
  394
  - Me frita uma lingia que eu j volto. At logo, minha prenda!
  Precipitou-se para fora. Montou a cavalo e voltou a cabea na direo de
sua casa. Vislumbrou o vulto da mulher no desvo da porta e gritou-lhe:
- Cuidado com alguma  bala perdida!
  28
  Antes de comear o ataque ao casaro, Rodrigo foi  casa do vigrio.
  - Padre! - gritou, sem apear. Esperou um instante. Depois: - Padre!
  A porta da meia-gua abriu-se e o vigrio apareceu.
  - Capito! - exclamou ele, aproximando-se do amigo e erguendo a mo, que
Rodrigo apertou com fora.
  - Foi s pra saber se vosmec estava aqui ou l dentro do casaro. Eu
no queria lastimar o amigo...
  - Muito obrigado, Rodrigo, muito obrigado. - O padre Lara sacudiu a
cabea, desalentado. - Vosmec vai perder muita gente, capito. Os
Amarais so cabeudos e tm  muita munio.
  - Eu tambm sou cabeudo e tenho muita munio.
  - Por que no espera o amanhecer? Rodrigo deu de ombros.
  - Pra no deixar a coisa esfriar.
  - Olhe aqui. Vou lhe dar uma idia. Antes de comear o assalto, por que
vosmec no me deixa ir ao casaro ver se o coronel Amaral consente em
se render para evitar  uma carnificina?
  - No, padre. "No faas aos outros aquilo que no queres que te faam a
ti." No  isso que dizem as Escrituras? Se algum me convidasse pra eu
me render eu ficava  ofendido. Um homem no se entrega.
  - Mas no h nenhum desdouro. Isso  uma guerra entre irmos.
  - So as mais brabas, padre, so as mais brabas.
  395
  De cima do cavalo Rodrigo ouvia a respirao chiante e irregular do
sacerdote. Lembrou-se das muitas conversas que tiveram noutros tempos.
  - Vosrnec  um homem impossvel... - disse o padre, desolado.
  Acho que esta noite vou dormir na cama do velho Ricardo.
  Sorriu. - Mas sem a mulher dele, naturalmente... E amanh
  de manh quero mandar um prprio levar ao chefe a notcia de que Santa
F  nossa. A provncia toda est nas nossas mos. Desta vez os
legalistas se borraram! At  logo, padre.
  Apertaram-se as mos.
  - Tome cuidado, capito. Vosmec se arrisca demais.
  - Ainda no fabricaram a bala que h de me matar! - gritou Rodrigo,
dando de rdea.
  - A gente nunca sabe - retrucou o padre.
  - E  melhor que no saiba, no ?
  - Deus guie vosmec!
  - Amm! - replicou Rodrigo, por puro hbito, pois aprendera a responder
assim desde menino.
  O padre viu o capito dirigir-se para o ponto onde um grupo de seus
soldados o esperava. A noite estava calma. Galos de quando em quando
cantavam nos terreiros.  Os galos no sabem de nada
  - refletiu o padre. Sempre achara triste e agourento o canto dos galos.
Era qualquer coisa que o lembrava da morte. Voltou para casa, fechou a
porta, deitou-se na  cama com o brevirio na mo, mas no pde orar.
Ficou de ouvido atento, tomado duma curiosa espcie de medo. No era
medo de ser atingido por uma bala perdida.  No era medo de morrer. No
era nem medo de sofrer na carne algum ferimento. Era medo do que estava
para vir, medo de ver os outros sofrerem. No fim de contas -  se
esmiuasse bem
  - o que ele tinha mesmo era medo de viver, no de morrer.
  O tiroteio comeou. A princpio ralo, depois mais cerrado. O padre
olhava para seu velho relgio: uma da madrugada. Apagou a vela e ficou
escutando. Havia momentos  de trgua, depois de novo recomeavam os
tiros. E assim o combate continuou madrugada adentro. Finalmente se fez
um longo silncio. As plpebras
  396
  do padre caram e ele ficou num estado de madorna, que foi mais uma
escura e confusa agonia do que repouso e esquecimento.
  O dia raiava quando lhe vieram bater  porta. Foi abrir. Era um oficial
dos Farrapos cuja barba negra contrastava com a palidez esverdinhada do
rosto. Tinha os olhos  no fundo e foi com voz cansada que ele disse:
  - Padre, tomamos o casaro. Mas mataram o capito Rodrigo. - acrescentou,
chorando como uma criana.
  - Mataram?
  O vigrio sentiu como que um soco em pleno peito e uma sbita vertigem.
Ficou olhando para aquele homem que nunca vira e que agora ali estava, 
luz da madrugada  a fit-lo como se esperasse dele, sacerdote, um
milagre que fizesse ressuscitar Rodrigo.
  - Tomamos o casaro de assalto. O capito foi dos primeiros a pular a
janela. - Calou-se, como se lhe faltasse flego. - Uma bala no peito...
  O padre mirava-o, estupidificado, pensando em Bibiana.
  - E os Amarais?
  - O coronel Ricardo morreu peleando. O filho fugiu.
  O padre sacudia devagarinho a cabeorra, como que recusando aceitar
aquela desgraa.
  - Eu queria que vosmec fosse dar a notcia  mulher do capito - pediu
o oficial.
  O vigrio saiu de casa e comeou a andar na direo da praa quase sem
saber o que fazia. O homem caminhava a seu lado e houve um momento em
que murmurou:
  - Meu nome  Quirino. Quirino dos Reis. Conheci o capito no Rio Pardo.
Brigamos juntos nas foras de Antnio Vicente da Fontoura...
  A praa na luz lvida. A figueira, como uma pessoa, grande, triste e
escura. L do outro lado, o casaro...
  - Perderam muita gente? - perguntou o padre com voz to fraca que o
outro no o ouviu e ele teve de repetir a pergunta.
  - Perdemos seis homens e temos uns quinze feridos. Dos Cciramurus... nem
contei. Mas fizemos uns trinta prisioneiros desde o primeiro combate at
a tomada do casaro...
  397
  
  O padre Lara caminhava na direo da casa de Bibiana. Como havia de lhe
transmitir a notcia? Dizer tudo de chofre? Ou primeiro mentir que o
capito estava ferido...  gravemente, e depois, aos poucos, preparar-lhe
o esprito para o pior? Talvez ela lesse no rosto dele o que havia
acontecido. Talvez j tivesse adivinhado tudo.  Essas mulheres s vezes
tm uma intuio dos diachos...
  - ... mas era um homem - murmurava Quirino.
  - Hein?
  - Estou dizendo que o capito Rodrigo era um homem. O general Bento
Gonalves vai ficar muito triste. - Soltou um suspiro. - Tenho a
conscincia tranqila. Eu bem  que avisei o capito. Era loucura tomar o
casaro de assalto. Eles iam acabar se entregando. Era s esperar. Mas
qual! O capito queria porque queria. - Suspirou,  depois abriu a boca
num grande bocejo que pareceu um ronco de animal. A seguir acrescentou:
- Nunca vi cristo que gostasse mais de brigar que o capito Rodrigo.
  E o padre Lara, que j avistava a casa de Bibiana, murmurou mais para si
mesmo que para o outro:
  - Era um homem impossvel.
  Disse isso com uma certa ternura zangada e as lgrimas comearam a
escorrer-lhe frias pela face.
  Os mortos foram sepultados naquele mesmo dia. Quase toda a populao de
Santa F foi ao enterro do capito Rodrigo Cambar, levando-lhe o caixo
a pulso at o cemitrio.  Pedro e Juvenal Terra ajudaram a desc-lo 
cova, e todos fizeram questo de atirar um punhado de terra em cima
dele.
  De volta do cemitrio, por longo tempo Pedro Terra caminhou em silncio
ao lado do filho. De vez em quando seu olhar se perdia campo em fora.
  - Este ia ser um bom ano para o trigo - disse ele, brincando com a
corrente do relgio.
  Ele no se esquece - pensou Juvenal, sacudindo a cabea. Quis falar em
Rodrigo, mas no teve coragem.
  - At quando ir durar esta guerra? - perguntou.
  - S Deus sabe.
  398
  Juvenal olhava para o casaro de Santa F, do qual aos poucos se
aproximavam. Os telhados escuros estavam lavados de sol. Havia no ar um
cheiro de folhas secas queimadas.  Ao redor da vila estava tudo to
verde, to claro e to alegre que parecia que a guerra continuava.
Juvenal no podia tirar da cabea a imagem do cunhado. E no  conseguia
convencer-se de que ele estava morto, no podia mais rir nem comer nem
amar nem falar nem brigar. Morto, apodrecendo debaixo da terra...
Lembrou-se do  primeiro dia em que o vira. "Buenas e me espalho, nos
pequenos dou de prancha, nos grandes dou de talho." E se viu a si mesmo
saltar dum canto, de faca em punho:  "Pois ". Aqueles olhos de guia,
insolentes e simpticos... O mundo era bem triste!
  Pedro fez alto e olhou para uma grande paineira florida que se erguia na
boca duma das ruas.
  - Tinha mais gente no enterro do capito Rodrigo que no do capito
Ricardo - observou ele como se estivesse falando com a rvore.
  - Rei morto, rei posto - refletiu Juvenal. Retomaram a marcha e Pedro
Terra foi dizendo:
  - Mas tenho pena desses soldados dos Amarais que morreram e foram
enterrados de cambulhada num valo, sem caixo nem nada. Eram uns
pobres-coitados. Muitos at ningum  sabe direito como se chamavam. No
podem nem avisar as famlias. Foram enterrados como cachorros.
  -  a guerra.
  - Eu s queria saber quantas guerras mais ainda tenho que ver.
  Um quero-quero soltou o seu guincho agudo e repetido, que deu a Pedro
Terra uma sbita vontade de chorar.
  Quando o dia de Finados chegou, Bibiana foi pela manh ao cemitrio com
os dois filhos. Estava toda de preto e agora, passado o desespero dos
primeiros tempos, sentia  uma grande tranqilidade. Ficou por muito
tempo sentada junto da sepultura do marido, enquanto Bolvar e Leonor
brincavam correndo por entre as cruzes ou ento se  acocoravam e se
punham a esmagar formigas com as
  399
  pontas dos dedos. Mentalmente Bibiana conversava com Rodrigo, dizia-lhe
coisas. Seus olhos estavam secos. s vezes parecia que ela toda estava
seca por dentro, incapaz  de qualquer sentimento. No entanto a vida
continuava, e a guerra tambm. A Cmara Municipal de Santa F tinha
aderido  revoluo. O velho Ricardo Amaral estava  morto. Bento havia
emigrado para o Paraguai com a mulher e o filho. Diziam que os imperiais
tinham  tomado Porto Alegre. Bibiana no sabia nem queria saber
se aquilo era verdade ou no. No entendia bem aquela guerra. Uns diziam
que os Farrapos queriam separar a provncia do resto do Brasil. Outros
afirmavam que eles  estavam brigando porque amavam a liberdade e porque
tinham sido espezinhados pela Corte. S duma coisa ela tinha certeza:
Rodrigo estava morto e rei nenhum, santo  nenhum, deus nenhum podia
faz-lo ressuscitar. Outra verdade poderosa era a de que ela tinha dois
filhos e havia de cri-los direito, nem que tivesse de suar sangue  e
comer sopa de pedra. O pai convidava-a a voltar para casa. Mas ela
queria ficar onde estava. Era o seu lar, o lugar onde tinha sido feliz
com o marido.
  Bibiana olhou para a sepultura de Ana Terra e achou estranho que Rodrigo
estivesse agora "morando" to pertinho da velha. E no deixava de ser
ainda mais estranho  estarem os dois  sombra do jazigo perptuo da
famlia Amaral, onde se achavam os restos mortais do coronel Ricardo.
Agora estavam todos em paz.
  Bibiana levantou-se. Era hora de voltar para casa, pois em breve o
cemitrio estaria cheio de visitantes, e ela detestava que lhe viessem
falar em Rodrigo com ar  fnebre. No queria que ningum a encontrasse
ali. Em breve tiraria o luto do corpo: vestira-se de preto porque era um
costume antigo e porque ela no queria dar  motivo para falatrio. Mas
no fundo achava que luto era uma bobagem. Afinal de contas para ela o
marido estava e estaria sempre vivo. Homens como ele no morriam  nunca.
  Ergueu Leonor nos braos, segurou a mo de Bolvar, lanou um ltimo
olhar para a sepultura de Rodrigo e achou que afinal de contas tudo
estava bem.
  Podiam dizer o que quisessem, mas a verdade era que o capito Cambar
tinha voltado para casa.
  400
  Dona Picucha Terra Fagundes, conte alguma coisa da sua vida.
  Pra contar no tenho muito. Mas sou filha do velho Horcio Terra,
negociante no Rio Pardo. Me casei muito menina com um tropeiro de
Caapava. Quem me escolheu marido  foi meu fiai, sem pedir minha
opinio. Quando vi, estava noiva. O moo vinha uma vez por semana, mas
ficava na sala proseando com o velho. Eu mal tinha licena pra  espiar
pela fresta da porta. E fomos muito felizes, graas a Deus Nosso Senhor.
  Onde est seu marido?
  Enterrado em cho castelhano. Morreu na Cisplatina.
  Dona Picucha, quantos filhos teve?
  Fui bem como a mulita. Tive uma ninhada de sete machos.
  E os sete se criaram?
  Com o leite destes peitos.
  Deram muito trabalho?
  Nem tanto. S sinto no ter tido mais sete.
  Me perdoe a curiosidade, mas quantos anos a senhora tem?
  Sessenta e seis na cacunda.
  Quem v a senhora no diz.
   muita bondade sua, sei que estou um caco velho. Mas no v embora
ainda. Quero que prove meus bolinhos de polvilho e um licorzinho de
buti. Quem sabe aceita  um mate? S lhe peo que no repare, pois isto
 casa de pobre.
  Dona Picucha Terra Fagundes, toda vestida de preto, pele de marfim,
olhos de noz-moscada, buo cerrado, verruga no queixo, xale xadrez e
chinelas de ourelo.
  401


  Dona Picucha Fagundes, uma coisa vou dizer: quem um dia entrou em vossa
casa nunca mais h de esquecer
  seu cheiro de flor e po quente
  o pintassilgo da gaiola
  os manjerices da janela
  os ratos que espiam nos buracos dos rodaps e que vs tratais como
pessoas da. famlia.
  Quem passou pela vossa casa, ainda que viva cem anos, h de sempre
recordar vossas mos geis que fazem renda de bilro
  vossas mos frescas e secas, boas para espremer queijo
  vossas belas mos afeitas a acariciar cabeas de filhos, netos e gatos
  lvossas ligeiras mos que sabem curar feridas de gentes e bichos
   vossas rapadurinhas de leite
  vosos lenis cheirando a alfazema
  vossos chs caseiros
  vossos culos na ponta do nariz
  vossas cantigas
  vosso oratrio onde sempre h velas acesas
  e a vela solitria que s vezes acendeis no meio do ptio para o Negrinho
do Pastoreio.
  Quem um dia passou pela vossa casa h de guardar para sempre na memria
  os casos que contais de Carlos Magno e os Doze Pares de Frana
  os vossos fabulosos casos de assombraes e mistrios, princesas e
fadas, lagoas brabas e salamancas.
  Dona Picucha Terra Fagundes
  quem vos ensinou essas histrias e rezas e receitas, essas cantigas
antigas e essas estranhas simpatias que tudo podem curar? ;
  Depois da Guerra dos Farrapos dona Picucha no falou mais nas
proezas: de
Carlos Magno, de seus doze cavaleiros. Esqueceu Rolando por Bento
Gonalves, Olivrio por Antnio  Neto, Reinaldo por Davi Canabarro.
Flores Malo por Lima e Silva.
  402
  Entre, patrcio, a casa  sua. No faa cerimnia, tome assento e aceite
um chimarro.
  Eu lhe conto como foi. Nunca vi guerra mais braba nem mais comprida.
Durou dez anos.
  Est vendo aquele pessegueiro l no fundo do quintal? Quando ele
floresceu, em setembro de 35, chegou a notcia que o general Bento
Gonalves tinha dado o grito  da Revoluo. Um ano se passou, e eu
estava ainda comendo compota dos pssegos de 35 quando o general Neto
proclamou a Repblica Rio-Grandense.
  Dei tudo que tinha prs Farrapos. Meus sete filhos. Meus sete cavalos.
Minhas sete vacas. Fiquei sozinha nesta casa com um gato e um
pintassilgo. E Deus, naturalmente.
  Quando eu no estava fazendo po ou doce, fazia renda de bilro, porque
estas mos que vossunc est vendo no sabem ficar sossegadas.
  Sina de mulher  essa: ficar em casa esperando, enquanto os homens se
vo em suas andanas.
  Mas por que ser que o tempo custa tanto a passar quando h guerra?
  Decerto no pode andar ligeiro, tropeando num morto a cada passo.
  E por que s vezes o vento geme tanto que parece ferido?
  Decerto porque viu muito horror no seu caminho.
  Foi uma guerra tremenda. Durou dez anos. Bem dizia o compadre Quinzote.
Em todo o Continente no podia haver ningum de lado, s os urubus, que
pra eles carne de  farroupilha era o mesmo que carne de cararnuru.
  Vossunc deve se lembrar de quando prenderam o general Bento Gonalves.
  Bento Gonalves da Silva Foi preso, foi desterrado, Mas deixou o bravo
Neto Pra cumprir o tratado.
  Quando me contaram que os imperiais tinham levado nosso general pra
Bahia e metido ele no Forte do Mar, acendi uma vela pra
  403
  'l!
  Santo Antnio, que tem honras de sargento, c lhe pedi que ajudasse o
nosso chefe a fugir.
  Santo Antnio me atendeu,  santo mui cumpridor.
  Um dia Bento Gonalves pediu licena aos carcereiros pra tomar um banho
de mar. Deram. Ele se atirou nas ondas e comeou a bracear com vontade,
e quando os guardas  caram em si nosso bravo presidente estava longe 
j entrando na canoa dum amigo, pois tudo era combinao. Veja s que
homem ladino!
  Depois, bem disfarado, entrou num navio que descia c prs mares do
Sul, desembarcou em Santa Catarina, montou logo num cavalo e se tocou
pr Continente.
  Upa! Upa! meu bragado! Tenho pressa de chegar, vou assumir a
presidncia da Repblica Rio-Grandense, e preciso muitas contas ajustar!
  Depois de trs dias de viagem batida chegou numa estncia e gritou:
   de
  casa:
  Apareceu uma velhinha.
  Minha boa senhora, quero que me arranje um cavalo, que me alugue ou que me
venda, o meu est mais morto que vivo, venho de longe, preciso chegar ao
meu destino,   um caso de vida ou de morte.
  A velhinha respondeu:
  Vivo sozinha neste rancho, dei tudo que tinha prs Farrapos e o resto os
imperiais levaram. S me resta um cavalo, que faz todo o servio da
estncia. Esse no vendo  nem alugo, nem por ouro nem por prata nem por
sangue de lagarta. H s um ente no mundo pra levar o meu tordilho.  o
homem que mais venero, e o que mais admiro:  o general Bento Gonalves.
  Mas v se servindo de mate, a chaleira est a mesmo.
  Pois foi uma guerra braba, que judiou com o Continente. Mas dela samos
limpos, passamos todas as provas, honramos o nosso povo.
  Mas c pra ns vou lhe dizer, do lado dos caramurus tambm havia muita
gente boa, que todos eram do mesmo sangue.
  E o tal de Bento Manuel Ribeiro? Ningum entendia esse cristo. Um lia
estava com os imperiais e no outro com os farroupilhas. Havia
  404
  at quem dissesse que duma feita ele entrou na Salamanca do Jara e saiu
 de l com o corpo fechado pra bala e arma branca.
  O meu compadre Quinzote acredita nessas bruxarias. E eu as vezes tambm
acho que alguma coisa deve haver...
  O general Bento Manuel era valente, ligeiro e alarife. O povo at fez
uns versos:
  Pode um altivo humilhar-se, Pode um teimoso ceder, Pode um pobre
enriquecer, Pode um pago batizar-se, Pode um mouro ser cristo, O
arrependido salvar-se Tudo pode  ter perdo S o Bento Manuel, no.
  Mas isso de perdoar  l com Deus Nosso Senhor, que conhece melhor as
pessoas.
  Pois  como lhe digo. Os homens da Revoluo eram feitos duma s pea.
  No sei se vossunc se lembra do manifesto do presidente, do ano 38.
  Tenho guardado o jornal que o meu filho me mandou da guerra. Leia onde
ele marcou.
  "ramos o brao direito e to bem a parte mais vulnervel do Imprio.
Agressor ou agredido o Governo nos fazia sempre marchar a sua frente:
disparvamos o primeiro  tiro de canho, e eramos os ltimos a
receb-lo. Longe do perigo dormio em profunda paz as de mais Provncias,
em quanto nossas mulheres, nossos filhos e nossos bens,  presa do
inimigo, ou nos ero arrebatados, ou mortos, e muitas vezes trucidados
cruelmente. "
  preciso ter senhoria na cabea pra escrever palavras assim.
  405
  Foi uma guerra mui sria, de dios e durezas, ferro contra ferro, olho
por olho, dente por dente.
  Vossunc deve estar lembrado que os republicanos deram alforria pra
todos os negros que se alistaram nas suas foras. Os imperiais quando
pegavam um desses negros  mandavam dar-lhe uma sumanta de duzentos a mil
aoites.
  O governo farroupilha deita ento um decreto, dizendo que dali por
diante toda vez que os caramurus surrassem um negro farrapo eles tiravam
a sorte entre os prisioneiros  e passavam um oficial legalista pelas
armas.
  Vingana, sim senhor. Mas davam morte de homens e no castigo de
cachorro.
  Como o patrcio est vendo, o respeito entrava na guerra.
  Tambm, houve cada uma!
  Os farroupilhas precisaram levar sua frota por mar. Vai ento Jos
Garibaldi inventou de carregar dois navios em cima de carretas puxadas
por duzentas juntas de  bois. Coisa igual nunca se viu, ds que o mundo
 mundo. E assim aqueles dois barcos fizeram lguas por terra do
Capivari at o mar.
  Montado no seu cavalo Garibaldi  o capito. Nas verdes ondas do campo A
sua rdea  o timo.
  Foi por esse tempo que os Farrapos tomaram a vila da Laguna, onde por
sinal nasceu a minha av materna. Garibaldi foi por gua, Canabarro foi
por terra. E acabaram  proclamando a tal Repblica Juliana.
  Tambm foi por esse tempo que Garibaldi conheceu Anita.
  E agora me d licena de falar na minha gente.
  Um dia um capito farrapo, de espada na cinta, leno republicano no
pescoo, bateu na minha porta, tirou o chapu e entrou.
  Venho da parte do general Canabarro. Tenho o pesar de lhe comunicar que
seu filho o tenente Crescendo morreu em ao como um bravo. O general me
pediu que lhe desse  os seus psames.
  406
  Fiquei tonta, meio cega, mas fiz fora pra no chorar. Porque essas
coisas, como tantas outras, a gente deve fazer quando est sozinha.
  Diga ao general Davi que lhe fico muito obrigada.
  E como no tinha mais que dizer, perguntei ao capito:
  Aceita um amargo? Ou uma guampa de leite?
  E depois que ele foi embora, peguei na renda de bilro, porque estas mos
que vossunc est vendo no sabem ficar sossegadas. Mas ai! este corao
de velha  que  ficou sem sossego, e no encontrei pra ele outro
trabalho seno pensar nos ausentes.
  E o tempo continuava a andar num tranco lento de boi lerdo. Entrava
inverno, saa inverno. E a guerra nada de acabar.
  Notcias foram chegando.
  Batalha do Taquari. Nessa perdi dois filhos.
  Cerro dos Porongos. O general Canabarro foi pegado de surpresa: mais
trs filhos meus que se foram.
  O stimo morreu no Poncho Verde.
  Depois veio a paz, com honras prs dois lados.
  Mas a flor do Continente se perdeu.
  Os campos ficaram desertos,
  as mulheres de luto,
  casas viraram tapera,
  cidades empobreceram,
  cemitrios cresceram,
  os urubus engordaram,
  e muita gente at hoje passa necessidade por causa dessa guerra
  e os que antes no tinham nada, depois dela ficaram com menos.
  E agora aqui est a velha Picucha Terra Fagundes, esperando a chamada de
Deus.
  Ah! Ia me esquecendo de lhe dizer que tenho sete netos, todos homens.
  Quando vejo eles, que j esto grandotes, sinto um calafrio pensando
noutra guerra.
  Por falar nisso, vossunc acha fundamento nos boatos que andam correndo
que vai haver outro barulho com os castelhanos?
  Deus queira que seja mentira, mais uma guerra ningum agenta.
  407
  
  Mas v tomando o seu mate Quem sabe aceita uns bolinhos? No faa
cerimnia, a casa  sua.
  E agora se me d licena, vou voltar  minha renda, porque estas mos
que vossunc est vendo no sabem ficar sossegadas.
  Dona Picucha Terra Fagundes, toda vestida de preto, pele de marfim,
olho, de noz-moscada, buo cerrado, verruga no queixo, xale xadrez e
chinelas de ourelo.
  O Sobrado - IV
  408
  25 de junho de 1895: Noite
  Quando anoitece e um companheiro vem substitu-lo na vigia da
gua-furtada, Jango Veiga - o melhor atirador de quantos esto no
Sobrado - vem reunir-se aos companheiros  que se encontram na cozinha,
perto do fogo. Como a lenha acabou, Licurgo mandou queimar algumas
cadeiras velhas e as tbuas das prateleiras da despensa.
  Continua a soprar o minuano, que entra silvando pelas frestas de janelas
e portas.
  - Quem me dera um trago de branquinha! - murmura um dos homens.
  - E um bom assado gordo - diz outro. Uma voz brota dum canto escuro:
  - E uma china bonita de perna grossa pra dormir comigo e m'esquentar.
  - Deixa de prosa, Fandango - retruca Jango Veiga. - Tu est to velho
que nem pode com as bombachas.
  Algum solta uma risada seca e leve, sem muita vontade.
  Joo Batista, um negro que foi escravo de Curgo, aproxima-se do fogo e
remexe nos ties; um claro avermelhado ilumina-lhe a larga cara preta,
coroada por uma  cabeleira dum branco amarelado que lembra um pelego
velho.
  Jango Veiga acaricia a Comblam e conta:
  - A caada hoje foi pobre. Desde que comeou esta festa acho que
derrubei uns oito maragatos: primeiro foram aqueles que pularam o
muro, no primeiro dia. Depois  os loucos que se atreveram
  409
   a atravessar a praa nos provocando. O tiro mais lindo de todos foi
aquele federalista que derrubei da torre da igreja. Mas hoje a caada
foi magra. Dei uns  cinco ou seis tiros, quebrei umas vidraas da
Intendncia e parece que lastimei um maragato que atravessou a rua
correndo.
  - Tu viu ele cair? - pergunta Antero.
  Vi quando ele meio se ajoelhou e depois se ergueu e sumiu
  por detrs duma casa.
  Por que ser que no nos atacam? - pergunta Gervsio,
  que est deitado ao p do fogo. - Um tiroteio no era nada mau pra
gente esquentar o corpo.
  A voz spera do negro Joo Batista raspa o ar frio:
  - E um entrevero era ainda melhor. Um entrevero de arma branca, isso sim
 que ia ser divertido.
  O velho Fandango, que est muito junto do fogo, opina com voz
compassada:
  - Entrevero  pra gente moa. Algum diz:
  - Guerra  que  pra gente moa, companheiro.
  Uma sbita pausa. Muitos olhos se voltam para o velho, que replica,
calmo:
  - Nem sempre quem est na guerra  porque gosta de brigar, menino. s
vezes a gente se mete numa revoluo, numa peleia porque tem vergonha. E
vergonha no  privilgio  de moo.
  A lenha crepita no fogo. O minuano sacode as vidraas, que tremem: 
como se, sentindo frio, o Sobrado estivesse a bater dentes.
  - Por que  que hei de mentir - diz outra voz. - Eu brigo porque gosto.
  - Cada qual com o gosto que Deus lhe deu... - replica Fandango.
  De novo o silncio.
  - Minha barriga est roncando... - queixa-se Gervsio, ao cabo de
alguns segundos.
  - Que novidade!
  410
  - E essa coisa de s comer charque e laranja est me estragando o
estmago.
  Jango Veiga ergue a voz:
  - Na revoluo de 35 meu av uma vez carneou uma rs prs soldados dele
e como no tinha sal, esfregaram o churrasco na cinza.
  - Ch, mico! Isso no  nada. Meu pai uma vez teve de ferver um lao e
um relho pra comer. Noutra ocasio assou uma
  cobra.
  - Cobra? Cruzes! - exclama algum, cuspinhando.
  - Vamos falar noutra coisa?
  Jango Veiga tira do bolso uma palha, enrola-a  maneira de cigarro e
aproxima-se do fogo para acend-la. Volta para seu canto, com aquele
ponto de fogo nos lbios,  e, falando com os dentes apertados, diz:
  - No sei o que estar acontecendo. Esta tarde vi uns movimentos
engraados. Um homem passando a galope pelas ruas detrs, um alvoroo no
ptio da Intendncia. Parece  que est comeando a sair gente na direo
de Cruz Alta.
  - Decerto o prprio que chegou ontem veio dizer que as foras do
Pinheiro Machado esto se aproximando...
  - Se  assim - diz Joo Batista - a coisa no vai durar muito. . .
  H uma pausa. E os homens comeam a ouvir rudos surdos que vm do andar
superior. Um deles murmura, com uma ternura respeitosa na voz:
  -  a velha de novo.
  - Minha Nossa Senhora! - exclama o negro. - Que vontade de sair por essa
porta nem que fosse pelado, com minuano e tudo! No nasci pra viver
fechado. Se um dia  me botassem na cadeia eu morria louco. - Um suspiro
fundo. - Que vontade de montar num cavalo e sair a galope pelo campo!
  - Quando eu sair daqui - diz Fandango - me meto num baile e passo trs
dias e trs noites danando sem parar.
  - Danando? Pois eu vou procurar uma china bem bonita pra ficar uma
semana com ela na cama fazendo ticau.
  411
  Ajoelhado diante do fogo e mexendo nas lenhas com uma haste de ferro,
um velho de cara bronzeada diz:
  - Vocs podem achar que estou caducando. Mas o que eu tenho vontade
mesmo de fazer saindo daqui  ir enterrar esses cristos que esto
apodrecendo por a como cachorro  sem dono. Vocs parece que j se
esqueceram do Adauto, que est morto em cima da tampa do poo, faz dias.
  - Por falar em esquecer - observa Jango Veiga - como
  ir o Tinoco?
  Ningum responde. Mas Antero recebe a pergunta como uma bofetada.
Durante todas estas ltimas horas Tinoco no lhe tem sado da cabea. E
agora, ali no seu canto  escuro, encolhido debaixo do poncho, sentindo o
vento frio que entra pela fresta da porta da cozinha e lhe sobe pelas
pernas - ele pensa no ferido. E cada vez que  se lembra de que lhe
escarrou trs vezes na cara, uma sensao de vergonha lhe toma conta do
corpo. Prevalecido, prevalecido, prevalecido! Ofender um homem ferido
que no pode fazer nenhum movimento  o mesmo que bater em mulher.
  - Esse est liquidado... - diz algum.
  - Um de ns bem podia meter uma bala no ouvido do pobre, pra ele parar
de sofrer.
  - Ento, por que tu no vai?
  - U, se o seu Licurgo me der ordem...
  - Tu  mas  bandido.
  Continuam os rudos compassados da cadeira de balano. De quando em
quando estala uma viga da casa. Um dos homens comea a descascar uma
laranja: o cheiro acre  do sumo da casca enche
  o ar.
  - Nunca pensei em virar papa-laranja! - suspira Fandango.
  - Esse cheiro j me embrulha o estmago.
  - Graas a Deus o charque acabou.
  - Mas ainda tem faiinha.
  - O remdio mesmo  a gente virar bugre - caoa Fandango
  - e comer um dos companheiros.
  - Quem vai ser?
  - Que tal o Antero?
  - Boa idia. Ests de acordo, nanico?
  Antero arrasta os ps, engole em seco e diz:
  - No  negcio pra vocs. Estou muito magro.
  - Boa mesmo era a Laurinda. S aquelas ndegas e peitos davam uns bifes
supimpas. Vamos comer a mulata.
  Nesse momento o vulto de Laurinda avana da sombra da sala de jantar e
sua voz se ouve:
  - Come a tua me, desaforado!
  Laurinda aproxima-se do fogo, ajoelha-se e comea a puxar brasas para o
prato de folha que tem na mo.
  - Senta aqui com ns, Laurinda, e nos conta teus causos de
  bandalheira.
  Laurinda no responde. Ergue-se e torna a sair da cozinha.
  - Vamos calar a boca e dormir - prope um dos homens.
  - No.  muito cedo. Algum canta alguma coisa. Vamos
  ter umas trovinhas, Jango.
  Jango Veiga, que est de novo acendendo a sua palha nas
  brasas, responde:
  - Cantar? No v que tem gente de luto no Sobrado?
  - De luto quase todos estamos. Nesta revoluo no ha quem no tenha um
morto.
  Jango Veiga ajeita a Comblain entre as pernas.
  - E se o Fandango dissesse uns versos pra ns?
  - Esse velho anda com a cabea vazia que nem porongo -
  caoa o negro.
  - Diz aquele verso da nau Catarineta.
  - . Isso mesmo! A nau Catarineta!
  - Verso no enche barriga...
  - Cala boca, bagual! Vamos, Fandango. O velho pigarreia e comea:
  L vem a nau Catarineta! Que tem muito que contar! Ouvide agora,
senhores, Uma histria de pasmar.
  Passava mais de ano e dia Que iam na volta do mar J no tinham que
comer J no tinham que manjar.
  413
  412
  Jango Veiga cerra os olhos e fica escutando a voz do velho. Os versos
lembram-lhe a me, que os recitava quando ele era pequeno. Tinha uma voz
fina, tremida e triste.  Contava que tinha aprendido aqueles versos com
seu av, que viera menino da ilha dos Aores.
  Deitaram sola de molho Pra o outro dia jantar Mas a sola era to rija,
Que no puderam tragar.
  Fandango faz uma pausa. Algum diz:
  - Ns tambm estamos na nau Catarineta.
  - Silncio, galo velho! - repreende-o Fandango. E continua:
  Deitam sortes  ventura Qual se havia de matar; Logo foi cair a sorte No
capito-general.
  O vento  uma msica para as palavras de Fandango. De cabea cada sobre
o peito o velho bronzeado cochila ao p do fogo. Antero continua
pensando em Tinoco: na  sua, lembrana torna a riscar um fsforo e v a
cara esverdeada e barbuda, a boca endurecida, os olhos parados.
Prevalecido! Prevalecido! No  isto que o vento  est dizendo?
Prevalecido! Antero fecha os olhos. A voz de Fandango parece vir de
longe, das bandas do prprio mar que nunca nenhum destes homens viu.
  Vejo sete espadas nuas Que esto para te matar. Acima, acima, gajeiro,
Acima ao tope real! Olha se enxergas Espanha, Areias de Portugal.
  414
  Jango Veiga agora tem doze anos.  uma manh de sol, em pleno inverno, e
a geada endureceu a gua da tina que passou a noite ao relento. Sua me
lava a roupa, com  os dedos duros e roxos de frio. E para no chorar ela
recita com a voz tremida Os versos que aprendeu do av aoriano.
  J vejo terras de Espanha, Areias de Portugal Mais enxergo trs meninas
Debaixo dum laranjal: Uma sentada a coser. Outra na roca a fiar, A mais
formosa de todas  Est no meio a chorar.
  A voz de sua me. A voz do velho. A voz do vento.
  No quarto dos meninos, que uma lamparina alumia, Laurinda bota o prato
com brasas debaixo da cama.
  - Agora durmam! - diz ela para Torbio e Rodrigo, que esto ambos
ajoelhados na cama.
  - Conta uma histria pra ns, Laurinda - pede Rodrigo.
  - Histria nada! Vo dormir.  tarde.
  - Tenho medo do escuro - murmura Rodrigo.
  - Tamanho homem!
  - Conta uma histria, Laurinda.
  Ela hesita; por alguns instantes fica indecisa, mas acaba sentando na
beira da cama e diz:
  - Est bom. Mas uma s. Ento se deitem e se cubram. Os meninos
obedecem. H uma pausa em que s se ouve o
  assobio do minuano, as vidraas tremendo e o ban-ban da cadeira de
balano de dona Bibiana.
  - Conta uma do Pedro Malasarte - sugere Torbio.
  O cheiro de Laurinda... Rodrigo gosta do cheiro de Laurinda. Suor, banha
e cebola. Para ele este cheiro est ligado s histrias que ela conta. 
o cheiro do prprio  Pedro Malasarte.
  415
  - Uma vez Pedro Malasarte ia por uma estrada - comea a mulata - e de
repente sentiu vontade de fazer uma necessidade...
  Os dois meninos comearam a rir. As histrias de Laurinda so to boas!
  - Ento arriou as calas, se agachou e fez. Naquele momento apareceu
um
homem a cavalo na estrada e Malasarte teve uma idia. Tapou a porcaria
com o chapu e quando  o homem veio e perguntou que era que tinha ali
escondido, ele respondeu: " um passarinho muito raro e muito bonito,
que vale uma fortuna". O homem apeou do cavalo  e Malasarte disse:
"Agora eu vou  cidade buscar uma gaiola. O senhor quer ficar aqui
cuidando do passarinho?" "Com muito gosto", respondeu o homem. Ento
Malasarte  ficou srio e disse: "Mas como  que vou ter a certeza que o
senhor no vai fugir com o bichinho?" "Ora - respondeu o homem - eu lhe
dou cinqenta mil-ris como  garantia." E deu. Malasarte botou o
dinheiro no bolso e disse: "Ento me empreste o chapu e o seu cavalo
pra eu ir at a cidade. Volto logo". O homem emprestou  e quando j
estava em cima do animal o Malasarte disse: "No levante o chapu seno
o passarinho foge.  uma beleza. Vale uma fortuna". Vai ento Malasarte
galopou  pra cidade e o homem ficou agachado segurando o chapu.
Passou-se uma hora, duas, trs. O homem comeou a ficar desconfiado. E
quando viu que Malasarte no vinha,  resolveu ver o bichinho...
  Rodrigo e Torbio esto agora sentados na cama, esperando o final da
histria que j ouviram dezenas de vezes.
  - Deitem, seno no conto o resto!
  Eles obedecem, Laurinda puxa as cobertas at o queixo dos meninos e
continua:
  - Vai ento o homem botou a mo debaixo do chapu para segurar o
passarinho e os dedos dele esmagaram a porcaria que o Malasarte tinha
feito...
  Hoje Laurinda no ri, como de costume. Fica calada por algum tempo e
depois abre a boca num bocejo.
  - E o Malasarte? - pergunta Torbio.
  - Malasarte estava na cidade se divertindo com o cavalo, o chapu e o
dinheiro do homem. Agora durmam!
  416
  Levanta-se e sai do quarto depois de soprar a lamparina. Rodrigo fecha
os olhos, apanha o punhal que est debaixo do travesseiro, deita-se de
borco e aperta a arma  contra o peito.
  - Estou sentindo uma dor - choraminga ele.
  - Onde?
  - Na boca do estmago.
  -  fome.
  - Acho que .
  Um silncio. Torbio revolve-se na cama. Depois de alguns instantes
Rodrigo pergunta:
  - E ela?
  - Ela quem?
  - A enterradinha.
  - Est no poro.
  - Eu sei. Mas ser que no sente frio?
  - Morto no sente frio.
  - Como  que tu sabe?
  - Qualquer um sabe.
  - E se a mame morrer tambm... vo enterrar ela no poro?
  - Acho que sim. Enquanto os maragatos estiverem cercando a casa ningum
pode sair.
  Rodrigo aperta o estmago contra o punhal para fazer a dor passar.
Sempre de olhos fechados, pensa numa histria de alma do outro mundo que
Laurinda um dia contou:  a do homem que foi dormir numa casa assombrada
e altas horas da noite ouviu uma voz que gemia: "Eu caio... Eu caio", e
o homem, que era valente, gritou: "Pois caia!",  e caiu a perna duma
pessoa e a voz continuou: Eu caio...", e o homem de novo disse: "Pois
caia", e caiu outra perna e depois os braos, o peito, a cabea...
  Agora o vento parece dizer: "Eu caio... Eu caio. .. Eu caio..." Rodrigo
aconchega-se ao irmo e sussurra-lhe ao ouvido:
  - Estou com medo.
  - Medo de qu?
  - Do escuro.
  - Bobo! - exclama Bio.
  
  Mas ele tambm est de olhos cerrados, procurando no escutar o vento,
nem o ratat das vidraas, nem as vozes misteriosas que cochicham em
seus pensamentos.
  A lamparina arde junto da cama de Alice, que dorme um sono desinquieto
de febre. E Licurgo, que h pouco se deitou vestido ao lado da mulher,
dorme tambm. Sentada  numa cadeira junto do lavatrio, Maria Valria
est de viglia, encolhida sob o xale, os braos cruzados a apertar a
boca do estmago. O frio a deixa como que anestesiada,  incapaz de
sentir o que quer que seja: tristeza, compaixo ou esperana. O que a
mantm de p a ajudar sua gente  ainda um sentimento de dever que lhe
vem principalmente  do hbito. Dona Bibiana tem razo: as mulheres do
Rio Grande so direitas e cumprem suas obrigaes por puro cacoete, e
cacoete hereditrio...
  Maria Valria olha para o cunhado, cujo ressonar forte enche o quarto.
At no sono seu tosto conserva a rigidez agressiva das horas de luta. 
um rosto tenso, sem  repouso, como se mesmo dormindo Licuigo continuasse
a espreitar e a odiar o inimigo. E como suas botas sujas e brutais se
parecem com sua cara! Ali na cama sobre  a coberta branca - meio coisas
e meio bichos - elas avultam estranhas, indefinveis, como certas
imagens de pesadelo. Por alguns instantes Maria Valria fica escutando
o vento e as batidas cadenciadas da cadeira de balano de dona Bibiana.
Se o cerco continuar - reflete ela, olhando para a chama da lamparina -
outros cadveres  iro fazer companhia  recm-nascida (ou recmmorta?)
na terra fria do poro. Alice pode morrer de infeco. L na despensa
Tinoco apodrece aos pedacinhos. Seu pai,  de corao velho e cansado,
no poder agentar o stio por mais tempo. E  s por milagre que a
velha Bibiana ainda est viva.
  Maria Valria contempla o cunhado com um frio dio. Ele no hesitar em
sacrificar toda aquela gente ao seu orgulho de macho. Homens! E de
sbito ela sente vontade  de cuspir. Homens! Botas embarradas, cheiro de
suor, sarro de cigarro e cachaa, faca na cava do colete, revlver na
cintura, escarro no cho. Machos! Aqueles homens  nojentos l embaixo,
enrolados nos ponchos, 
  418
  cuspindo a casa toda, fazendo suas necessidades no poro (em cima, decerto,
da sepultura da menina), empestando o ar com seu hlito podre e lanando
s mulheres olhares  indecentes. Machos!
  Alice agita-se no sono, sacode a cabea dum lado para outro, murmura
palavras incompreensveis. Maria Valria pensa em Ismlia. O que mais
deve doer em Licurgo   a idia de que Ismlia ficou no Angico  merc
dos maragatos. Bem feito! Quem faz, paga. A pobre da Alice! O que ela
sofreu no dia em que ficou sabendo de tudo!  Mas sofreu calada, bem como
sabem sofrer os Terras. No se queixou a ningum, continuou vivendo como
se nada tivesse acontecido. O filho que a Ismlia tinha era  de Licurgo:
todo o mundo sabia disso. No entanto agora ele falava em honra, falava
em decncia, falava em dignidade.
  Santo Deus! Se ao menos parasse este vento!
  Maria Valria encolhe-se sob o xale e pensa nas palavras de dona
Bibiana: "Noite de vento, noite dos mortos".
  Madrugada alta, Maria Valria  despertada pelos gritos de Alice.
  - Socorro! Licurgo! Os ratos!
  Licurgo ergue-se automaticamente, estonteado de sono, sem atinar ainda
com o que se passa. Mas vendo a mulher de p na cama, fazendo meno de
saltar para o cho,  toma-a nos braos e faz que ela se deite de novo.
Alice, porm, reluta, debate-se e continua a gritar.
  - Os ratos! Os ratos!
  Maria Valria ajuda o cunhado a sujeitar a doente.
  - Fica quieta, Alice. Por amor de Deus, fica quieta.
  - Os ratos! Os ratos!
  - Ela est variando - diz Licurgo.
  - Os ratos vo roer o corpo da minha filha! - grita Alice. - O poro est
cheio de ratos. Eu estou vendo. J abriram a cova dela. - Cala-se de
sbito. - Escutem...  no ouvem o barulho dos ratos roendo uma coisa? -
Faz um esforo por se levantar de novo.
  419
  - Depressa, Licurgo Vai salvar a nossa filha Os ratos vo comer a
pobrezinha
  Licurgo olha para a mulher e lhe diz com uma secura untada
  - Sossega, Alice  o vento.
  A teiniagu
     420
  
  Em 1850 a vila de Santa F foi elevada a cabea de comarca (_ seu
primeiro juiz de direito, o dr Nepomuceno Garcia de Mascarenhas, natural
do Maranho, veio morar  com a esposa numa das casas de alvenaria que o
coronel Bento Amaral mandara recentemente construir na Rua dos Farrapos
Era o dr Nepomuceno um homem de estatura mediana,  que impressionava
logo pelo comedimento de gestos, palavras e opinies Andava sempre de
sobrecasaca preta e dificilmente se separava de sua bengala de casto de
prata De olhos empapuados e mortios, voz velada e lenta, tinha um ar
de sonmbulo, acentuado pelo andar tateante e meio cansado, que aos
ntimos ele explicava  ser devido ao fato de ter ps chatos Passava o
juiz de direito por bom latmista, razovel matemtico e exmio jogador
de xadrez Era maom, adoiava Chateaubriand e  nas horas vagas fazia
sonetos
  Juiz ntegro, homem austero, o novo magistrado de Santa F se imps
desde logo ao respeito e a admirao dos habitantes da cidade afeiou-se
de tal maneira quele  lugar, cujos bons ares lhe haviam restaurado a
sade da esposa, que resolveu no mais sair dali E como prova de estima
e gratido a vila e seus habitantes, orgamizou  e mandou publicar por
conta prpria, numa tipografia de Porto Alegre, o primeiro Almanaque de
Santa F, que apareceu em janeiro de 1853, com informaes sobre a
topografia, a geologia, a fauna e a flora do municpio, alm dum
calendrio completo, com conselhos aos agricultores e horticultores, bem
como pginas
  421
  amenas e instrutivas de literatura e humorismo, charadas, logogrifos,
enigmas pitorescos, etc...
  Abria o almanaque uma descrio literria da cidade, feita pelo prprio
dr. Nepomuceno. Comeava assim: "A vila de Santa F, cabea da comarca
de So Borja, e da  qual temos a desvanecedora honra de ser o primeiro
juiz de direito,  uma das flores mais formosas do vergel serrano.
Situada sobre trs colinas e cercada de campinas  onduladas, lembra ela
ao viandante, singelo mas gracioso presepe. Prodigamente dotada pela
natureza, seus bons ares e suas cristalinas guas so propcios 
longevidade,  razo pela qual muitos de seus habitantes, em geral de
costumes morigerados, passam dos noventa anos, como foi o caso
extraordinrio do preto escravo conhecido pela  antonomsia de Sinh
d'Angola, o qual durou mais duma centria, e do cacique Fongue, que viu
pela primeira vez a luz do dia na reduo de Santo ngelo, por volta  de
1750, e o qual ainda hoje por aqui vive em pleno gozo de suas faculdades
mentais".
  O Almanaque oferecia tambm a seus leitores um "escoro histrico" da
vila, no qual o autor prestava uma homenagem  famlia Amaral, cujo
fundador foi "esse venerando  cidado, o coronel Ricardo Amaral, o
primeiro povoador destes campos, um bandeirante na verdadeira extenso
do vocbulo, e que morreu como um bravo, no lendrio  combate do passo
das Perdizes". Vinha a seguir uma referncia de dez linhas ao filho de
Ricardo, Francisco Amaral, "o fundador de Santa F", e depois uma pgina
inteira dedicada a seu neto, o coronel Ricardo Amaral, "que tanto
contribuiu para o engrandecimento deste municpio, de cuja Cmara foi o
primeiro presidente". Aps  a enumerao das qualidades morais de
Ricardo Amaral Neto e de seus feitos na paz e na guerra, a biografia
terminava assim: "... e em 1836 baqueou como um bravo,  de armas na mo,
dentro de sua prpria casa, defendendo a legalidade". Havia por fim trs
pginas dedicadas  personalidade do coronel Bento Amaral - "atual chefe
poltico deste municpio, deputado
  Assembleia Provincial, verdadeiro
varo de Plutarco que perpetua no tempo e na admirao de seus coevos um
nome honrado e uma  tradio de virtudes cvicas e privadas".
  422
  O Almanaque circulou em Santa F e arredores, onde foi lido, comentado e
apreciado. E atravs de seus dados estatsticos e de suas informaes
escrupulosamente colhidos  pelo prprio dr. Nepomuceno - ficaram os
santa-fezenses sabendo que a vila possua agora sessenta e oito casas,
entre as de tbua e de alvenaria, e trinta ranchos  cobertos de capim; e
que sua populao j subia a seiscentas e trinta almas. Informava ainda
o dr. Nepomuceno que Santa F contava com quatro bem sortidas casas  de
negcio, uma agncia do correio - "cuja mala, lamentamos diz-lo, chega
apenas uma vez por semana" - uma padaria, uma selaria e uma marcenaria.
"A cincia de  Hipcrates est representada entre ns pelo ilustrado dr.
Cari Winter, natural da Alemanha e formado em Medicina pela Universidade
de Heidelberg e que fixou residncia  nesta vila em 1851, data em que
apresentou suas credenciais  nossa municipalidade. No podemos deixar
de mencionar o nosso Clotrio Nunes, mdico homeopata bem conceituado, e
o curandeiro conhecido popularmente por Z das Plulas, muito procurado
por causa de suas ervas medicinais cujos segredos diz ele ter aprendido
dos ndios coroados,  dos quais parece ser descendente."
  Causou tambm muito boa impresso a parte do almanaque em que o dr.
Nepomuceno rememorava as guerras em que os filhos de Santa F haviam
tomado parte. "Nossa vila  (e aqui peo vnia para usar o possessivo
nossa, uma vez que me considero um santa-fezense de corao se no de
nascimento) tem pago pesado tributo de sangue e herosmo  no altar da
ptria. Muitos foram os oficiais e soldados que deu para as lutas de que
esta provncia tem sido teatro, e pode-se dizer sem exagero que no
houve gerao  que no tivesse visto pelo menos uma guerra. Durante a
luta civil que por espao de dez anos ensangentou o solo generoso do
Continente, muitos toram os santa-fezenses  que participaram dela, quer
nas hostes farroupilhas quer nas foras legalistas. No me cabe aqui,
como magistrado e como homem isenso s paixes polticas, manifestar
simpatias ou lanar diatribes. O que passou passou e mais vale esquecido
do que lembrado, pois uma luta fratricida  mil vezes mais horrenda do
que as guerras entre  as naes. Graas ao
  423
  
  Supremo Arquiteto do Universo o sol da paz raiou benfazejo no horizonte
da provncia, e os inimigos de ontem se deram as mos e recomearam a
trabalhar juntos em  prol da grandeza da Ptria comum. Mas, ai!, ainda
nem bem se haviam cicatrizado as feridas abertas pela guerra civil e j
de novo eram nossos irmos arrancados ao  aconchego dos seus lares e ao
seu trabalho pacfico, convocados mais uma vez pelo pressago clarim da
guerra. Rosas, o tirano argentino, ameaava a integridade de  nosso
Brasil, e era necessrio fazer frente a essa ameaa. E assim mais uma
vez os santa-fezenses formaram os seus batalhes de voluntrios e nessa
luta, que nem  por ser relativamente curta foi menos cruenta, muitos
foram os filhos desta vila que tiveram atuao destacada. Entre eles 
de justia salientar o jovem Bolvar  Terra Cambar, filho dum intrpido
soldado, o capito Rodrigo Severo Cambar, morto heroicamente num
combate que se feriu nesta mesma vila em princpios de 1836.  Bolvar,
esse denodado jovem, cujo nome parece trazer em si uma destinao
gloriosa, guiou os seus cavaleiros numa carga de lana, destruindo um
quadrado inimigo  e arrancando, ele prprio, das mos dum adversrio a
bandeira argentina! Esse ato de bravura valeu-lhe a promoo ao posto de
pnmeiro-tenente, e uma citao especial  em ordem do dia."
  As anedotas do Almanaque frum muito apreciadas, bem como as poesias,
algumas da lavra do prprio dr. Nepomuceno, e outras de poetas famosos
como Cames, Toms Antnio  Gonzaga e Gregrio de Matos. No "fecho de
ouro" dum de seus sonetos, o juiz de direito conclua com rimas ricas
que sob o veludo da rosa s vezes um acleo se esconde.
  Pouco tempo depois do aparecimento do Almanaque, o sonetista teve
ocasio de sentir na prpria carne a pungente verdade do verso. Sim -
refletiu o magistrado - seu  anurio podiarser comparado a uma linda e
perfumada rosa que a todos deleitara com suas cores e seu perfume. Mas
trazia ela um espinho escondido e inesperado: o  artigo intitulado
"Residncias de Santa F", que ele prprio escrevera sob o pseudnimo de
Atala. Essa pgina, traada com sinceridade e sem a menor inteno de
ofender ou criticar
  424
  quem quer que fosse, desgostara e irritara o coronel Bento Amaral.
Ocupava-se o infeliz ensaio do sobrado que um tal Aguinaldo Silva
mandara construir em Santa F.  Depois de mencionar a simplicidade
rstica da maioria das casas do lugar e de elogiar a solidez e a
sobriedade do casaro de pedra dos Amarais, "to cheio de invocaes
histricas", Atala escreveu: "O forasteiro que chega  nossa vila h de
por certo quedar-se surpreso e boquiaberto diante duma maravilha
arquitetnica que rivaliza  com as melhores construes que vimos no Rio
Pardo, em Porto Alegre e at na Corte. Referimo-nos  casa assobradada
que o sr. Aguinaldo Silva, adiantado criador  deste municpio, mandou
recentemente erguer na Praa da Matriz, num terreno de esquina com as
dimenses de trinta e cinco braas de frente por uma quadra completa  de
fundo. Essa magnfica residncia deve constituir motivo de ldimo
orgulho para os santafezenses. Dotada de dois andares e duma pequena
gua-furtada, destacam-se  em sua fachada branca os caixilhos azuis de
suas janelas de guilhotina, dispostas numa fileira de sete, no andar
superior, sendo que a do centro, mais larga e mais  alta que as outras,
est guarnecida duma sacada de ferro com lindo arabesco; por baixo desta
sacada, no andar trreo, fica a alta porta de madeira de lei, tendo  de
cada lado trs janelas idnticas s de cima. Ao lado esquerdo do
sobrado, no alinhamento da fachada, vemos imponente porto de ferro
forjado ladeado por duas  colunas revestidas de vistoso azulejo
portugus nas cores branca, azul e amarela, e encimadas as ditas colunas
por dois vasos de pedra de caprichoso lavor. O terreno,  a que esse
porto d acesso, est todo fechado por um muro alto e espesso que por
assim dizer (perdoe-se-nos a ousadia da imagem) aperta a casa como uma
tenaz. O  efeito  assaz formoso, pois o "Sobrado" (assim  a residncia
conhecida na vila) d a impresso desses solares avoengos, relquias de
nossos antepassados lusitanos.  No devemos esquecer outro encanto, qual
seja o seu vasto quintal todo cheio de rvores de sombra e rutfcras,
como laranjeiras, pessegueiros, guabirobeiras, lindos  ps de primavera,
cinamomos, magnlias e um esplndido e altaneiro marmeleiro-da-ndia.
  "Convidados gentilmente pelo sr. Aguinaldo Silva para visitar-lhe a
residncia, pudemos verificar que esta se acha dividida em
  425
  
  dezoito amplas peas, mui bem arejadas e iluminadas, com p-direito
bastante alto; e que as portas que separam essas peas umas das outras
terminam em arco, em bandeirolas  com vidros nas cores amarela, verde e
vermelha. Os mveis so de autntico jacarand, muito pesados e severos,
tendo pertencido, como nos informou o dito sr. Silva,  a uma Casa
Senhorial de Recife, e sendo de l trazidos para Porto Alegre num
patacho e desta ltima localidade para c em carretas."
  O artigo terminava com um pargrafo que por assim dizer constitua a
ponta do traioeiro espinho: "Assim, pois, seria o sobrado do sr.
Aguinaldo Silva um solar digno  de hospedar at Sua Majestade dom Pedro
II, caso o nosso querido imperador nos desse a altssima honra de
visitar Santa F".
  Pois esse artigo, escrito com um entusiasmo inocente e desinteressado,
deixara o coronel Amaral furioso.
  - Essa  muito boa! - exclamou ele um dia na loja do Alvarenga. - O
imperador parando na casa do Aguinaldo!  de primeirssima! Uma idia
estpida assim s podia  ter sado da cabea daquele p-de-pato!
  Ficou muito vermelho e comeou a sentir uma comicho na cicatriz em
forma de P que lhe marcava uma das faces. O padre Otero, que tinha ido
comprar um emplastro na  loja, ouviu a exploso, e como era amigo do
juiz de direito, com quem habitualmente jogava longas partidas de xadrez
(apesar de sab-lo pedreiro livre, arriscou:
  - O dr. Nepomuceno no escreveu isso por mal, coronel...
  - No sei se foi por bem ou por mal - retrucou o outro, fitando o olhar
encolerizado na face amarela do vigrio. - O que sei  que escreveu. Ele
devia saber quem   esse Aguinaldo Silva.
  Pigarreou com fria e escarrou no cho.
  Mas, para falar a verdade, em Santa F ningum sabia ao certo quem era
Aguinaldo Silva. Claro, pela entonao da voz, via-se logo que o homem
era do norte. Ele prprio  declarara ter nascido no
  426
  Recife; o que no contava, mas os outros murmuravam, era que tivera de
fugir de l, havia muitos anos, por ter matado a esposa e o homem com
quem ela o trara. "Isso  no  crime" - observara um dia o Alvarenga,
de cuja loja o nortista era bom fregus. - "Um homem de vergonha no
podia fazer outra coisa." Mas pessoas que sabiam  da histria com todos
os pormenores explicavam que o duplo assassnio fora premeditado. Ao
descobrir que a mulher o enganava, Aguinaldo a obrigara a marcar um
encontro  com o amante em seu prprio quarto de dormir. Simulara uma
viagem mas ficara escondido debaixo da cama, e saltara do esconderijo em
dado momento para estripar a  facadas tanto o amante como a mulher.
Havia no drama um detalhe dum trgico grotesco que os maldizentes usavam
como remate humorstico do caso: "O homem estava comeando  a tirar a
roupa quando Aguinaldo saiu de baixo da cama. O infeliz nem teve tempo
de dizer ai: a faca do marido rasgou-lhe o bucho". Risadas. "No fim,
acho que ele  no sabia se segurava as calas ou as tripas." Pausa
dramtica. "Mas tanto as calas como as tripas acabaram caindo no cho."
Novas risadas.
  Eram essas as histrias que corriam em Santa F. Mas ningum sabia de
nada com certeza. Contava-se tambm que depois de passar alguns anos no
Rio de Janeiro e em  Curitiba, com nome trocado, Aguinaldo viera para a
provncia de So Pedro, onde durante a guerra civil andara ora com as
tropas farroupilhas ora com as foras legalistas,  ao sabor de suas
convenincias. Os que o conheciam de perto pintavam-no como um homem
ladino, de olho vivo para os negcios, e que, obcecado pelo medo de ser
logrado  e sabendo que a melhor maneira de a gente se defender  atacar,
tinha a preocupao permanente de lograr os outros. Baixo, de pernas
muito curtas para o trax anormalmente  desenvolvido, era levemente
corcunda e tinha, plantada sobre os largos ombros ossudos, uma cabea
triangular, de pescoo curto, e uma cara de chibo que a pra grisalha
acentuava. Era feio, mas duma fealdade aliciante e simptica, muito
ajudada por uma voz de inflexes macias e musicais. Apesar da cor
amarelada do rosto, tinha uma  sade de ferro e aos setenta e dois
  ainda fazia tropas, dormia ao relento, e campereava com o
  427
  
  entusiasmo e a eficincia dum moo de vinte. Por muito tempo Aguinaldo
recusara vestir-se como os gachos da provncia. Conservara a
indumentria de couro dos vaqueiros  do Nordeste - o que lhe valera
muitas vezes a desconfiana e a m vontade dos continentinos - e mesmo
agora que decidira abandon-la em favor da bombacha, do pala  e do
poncho, conservava ainda o chapu de sertanejo, de abas viradas para
cima, o que, como dizia o dr. Nepomuceno, lhe dava uns ares napolemicos.
Aguinaldo amava  o dinheiro mas no era sovina. Gostava de pagar "comes
e bebes" para os amigos, vivia ajudando os necessitados, e era generoso
para com seus agregados, pees e comissionados.  Quando pela primeira
vez aparecera em Santa F, no ano em que fora assinada a paz entre
farroupilhas e legalistas, causara a pior das impresses. Chegara
escoteiro,  montado num cavalo magro e manco, e fazendo questo de
mostrar a toda a gente que tinha as guaiacas atestadas de moedas de
ouro. Comearam ento a murmurar na vila  que Aguinaldo havia descoberto
uma Salamanca l para as bandas de So "Borja. "Salamanca? Lorotas!" -
retrucavam outros. - "Isso  dinheiro de contrabando. Conheo  pelo
cheiro." E um dia, numa roda de bisca na casa do Alvarenga, o padre
Otero comentou: "Seja como for, no deve ser dinheiro limpo". Mas os
que precisavam de  crdito para seus negcios no se preocuparam com
averiguar a origem dos pataces, cruzados e onas de Aguinaldo Silva,
quando este se aboletou num rancho nos arredores  de Santa F e comeou
a emprestar dinheiro a juro alto. Quando sabia que um lavrador ou
criador estava em dificuldades financeiras, procurava-o, ambicioso, e
oferecia-lhe  um emprstimo, pedindo como garantia terras ou gado num
valor que em geral correspondia ao dobro ou ao triplo do capital
emprestado. Se o homem era bem-sucedido  nos negcios, l voltava o
dinheirinho para a bolsa de Aguinaldo, acrescido dos gordos juros. Mas
se a dvida se vencia e o devedor no estava em condies de liquid-la,
Aguinaldo, sem desmanchar dos lbios o sorriso amigo, sem a menor dureza
na voz cantante, executava a hipoteca. Foi assim que com o passar dos
anos, em que fez tambm  muitas tropas e vendeu-as a charqueadores,
Aguinaldo se apossou
  428
  de vrias propriedades de Santa F - inclusive da de Pedro Terra - e
multiplicou sua fortuna de tal forma que j se dizia estar ele to rico
de campos, gados e moeda  sonante quanto o prprio Bento Amaral.
  Muito religioso, Aguinaldo ia  missa todos os domingos e fazia
donativos  Igreja. O padre Otero gostava de ouvi-lo contar histrias do
serto de Pernambuco em  torno de cangaceiros, cabras valentes, lutas de
famlia e casas assombradas, ficava admirado de ver como aquele caboclo
analfabeto sabia narrar com fluncia e colorido,  com um sabor at
literrio.
  Tambm dava muito na vista em Santa F o apego que Aguinaldo Silva tinha
por dois filhos do lugar: Bolvar Cambar e Florncio Terra. Conversando
certa ocasio com  o padre Otero, Aguinaldo lhe dissera:
  - Esses dois meninos so mesmo que filhos meus. Vosmec sabe, seu
vigrio, perdi toda a minha gente. Da minha famlia s me sobrou uma
neta, a Luzia, que est estudando  num colgio na Corte. Quero que ela
tenha o que eu no tive e o que os pais dela no tiveram. Tudo do bom e
do melhor.
  E um dia quando o vigrio e Aguinaldo se encontravam na praa, debaixo
da figueira, conversando e olhando para o Sobrado, enquanto
trabalhadores lhe caiavam a fachada,  o padre Otero perguntou:
  - Ainda que mal pergunte, amigo, no acha que o Sobrado  um pouco
grandote pra uma famlia to pequena? Vosmec no disse que s tinha
uma neta?
  - Disse. Mas acontece que um dia a Luzia vai casar e ter filhos. E os
filhos da Luzia vo casar tambm e ter famlia. Quero leunir toda a
cambada no Sobrado...
  Ficou um instante pensativo, olhando para a casa. Depois acocorou-se 
maneira dos sertanejos e comeou a picar fumo. E assim nessa posio,
com uma palha de milho  atrs da orelha, contou ao padre que um dia,
quando menino, vira uma cena que nunca mais lhe sara da memria: um
senhor de engenho coando as barbas brancas e sorrindo   cabeceira duma
mesa comprida a que estavam
  429
  sentados, comendo, rindo e conversando, os vinte e tantos membros de sua
famlia - filhos, filhas, genros, noras, netos... Desde esse momento
Aguinaldo decidira  trabalhar como um burro para um dia ter tambm casa
e famlia grande, com mesa farta e alegre.
  - Mas Deus no quis que eu visse minha famlia reunida - murmurou ele,
enrolando o cigarro. - Foi matando todos, um
  por um...
  Ergueu os olhos para o vigrio, ficou a contempl-lo por alguns
segundos, e depois murmurou:
  - Nunca fui ao confessionrio, padre, mas vou lhe contar aqui um segredo
que nunca contei a ningum. - Riu. - No sei por que estou lhe dizendo
isto, mas de repente  me deu vontade...
  Calou-se poi um instante, seus olhos se perderam na direo dos campos.
Depois, baixinho, num cicio, olhando furtivamente para os lados, contou:
  - A Luzia no  minha neta de verdade. Peguei ela num asilo, quando
ainda de colo. Era rf de pai e me. Mas criei a menina como se fosse
minha neta. Um homem no  pode viver sem ningum de seu, pode, padre?
  O vigrio sacudiu a cabeas negativamente. E o nortista acrescentou:
  - Ela no sabe da verdade. Pensa que  minha neta mesmo. O padre Otero
ficou um instante pensativo e depois disse:
  - No desanime, seu Aguinaldo. Vosmec est ainda forte e se a Luzia
casar o Sobrado pode estar cheio de crianas dentro de poucos anos.
  - Se eu viver at l.
  - H de viver, sim, se Deus quiser.
  Aguinaldo fechou um olho, ficou um instante como que dormindo na
pontaria e finalmente perguntou:
  - Mas ser que o Velho quer mesmo?
  Dessa conversa resultou um novo donativo gordo para a Igreja. O vigrio
o recebeu sorrindo e a refletir assim: Esse caboclo pensa que pode
comprar a dinheiro favores  de Deus. Mas bendisse os
  cruzados do pernambucano, pois precisava deles para custear um puxado
que ia fazer na casa paroquial e para comprar uns castiais novos para o
altar-mor.
  Quando Luzia deixou o colgio e mudou-se para Santa F, onde passou a
ser a "senhora do Sobrado", todos acharam que, mais do que ningum, ela
merecia o ttulo. E  durante muito tempo a neta de Aguinaldo Silva foi o
assunto predileto das conversas da vila. As mulheres reparavam nos seus
vestidos, nos seus penteados, nos seus  "modos de cidade", mas,
bisonhas, no tinham coragem de se aproximar da recm-chegada, tomadas
duma grande timidez e duma sensao de inferioridade. Em muitas esse
acanhamento se tiansformava em hostilidade; noutras tomava a forma de
maledicncia. Luzia era rica, era bonita, tocava ctara - instrumento
que pouca gente ou ningum  ali na vila jamais ouvira - sabia recitar
versos, tinha bela caligrafia, e lia at livros. Os que achavam que
Santa F no podia dar-se o luxo de ter um sobrado  como o de Aguinaldo,
agora acrescentavam que a vila tambm "no comportava" uma moa como
Luzia. Para alguns severos pais de famlia tudo aquilo que a forasteira
era e tinha constitua uma extravagncia ostensiva que os deixava at
meio afrontados. E quando viam Luzia metida nos seus vestidos de renda,
de cintura muito fina  e saia rodada; quando aspiravam o perfume que
emanava dela, no podiam fugir  impresso de que a neta do pernambucano era uma "mulher perdida" e portanto um exemplo  perigoso para as moas
do lugar. Por outro lado, o passado escuro de Aguinaldo no contribua em
nada para melhorar a situao da moa. Aqueles homens, dum realismo
rude, olhavam para o Sobrado e para seus moradores como para intrusos e
acabavam dizendo: "Isso no vai dar certo".
  Os rapazes da vila, conquanto se sentissem atrados por Luzia, concluam
quase todos que ela no era o tipo que desejavam para esposa. A moa
causava-lhes um vago  medo que eles no sabiam explicar com clareza, mas
que em geral resumiam para si mesmos numa frase: "No nasci pra corno".
No entanto, desde o momento em que a  rapariga chegara, Bolvar
Cambar e Florncio Terra ficaram fascinados por ela, cercaram-na de
atenes e no perdiam
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  pretexto para visitar o Sobrado. Faziam isso, porm, de maneira
diferente. Bolvar no escondia seus sentimentos: mostrava-se como
sfrego, apaixonado, explosivo.  Florncio, entretanto, 
  mantinha-se reservado, silencioso, mas duma fidelidade canina; portava-se,
em suma, como um cachorro triste que - temendo ou sabendo no ser
querido pela dona - limitava-se  a ficar de longe a contempl-la com
olhos clidos e compridos, cheio dum amor dedicado mas que no tem
coragem de se exprimir.
  Aguinaldo percebera tudo desde a primeira hora e observava, deliciado, a
maneira como a neta tratava os dois rapazes, mangando com ambos, dando a
um e outro esperanas  que ela prpria se encarregava de desmanchar dias
ou horas depois com um gesto, uma palavra ou um encolher de ombros.
  Como era natural a histria se espalhou depressa pela vila: Bolvar e
Florncio, primos irmos e amigos de infncia, estavam apaixonados por
Luzia Silva. Qual dos  dois a moa iria escolher?
  - Escolhe o Florncio - dizia um - porque  o preferido do Velho.
  - No. O preferido do Aguinaldo  o Bolvar - afirmava outro.
  - Mas, no fim de contas, qual  o preferido da moa?
  - Decerto os dois! - maliciava um terceiro. - Ela tem olhos de mulher
falsa.
  - Mas no pode casar com os dois...
  - U... Casa com um e depois fica amsia do outro. Gente de cidade
grande no tem vergonha na cara.
  Um dia algum disse:
  - O Florncio e o Bolvar vo acabar brigando.  uma pena. Primos
irmos... cresceram juntos como unha e carne. Agora vem essa bruaca
estrangeira...
  - Mas ela no  estrangeira. Nasceu em Pernambuco.
  - Sei l! No sendo continentino pra mim  estrangeiro. Em princpios de
1853, quando os santa-fezenses ainda comentavam o almanaque do dr.
Nepomuceno, espalhou-se  por toda
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  a vila a notcia de que Luzia Silva ia contratar casamento com Bolvar
Cambar.
  Um habitante antigo do lugar, que conhecera o capito Rodrigo, murmurou:
- Se o rapaz puxou pelo pai, tenho pena da moa...
  Mas um cfutro, que sabia das histrias que corriam sobre o passado de
Aguinaldo, retrucou:
  - Mas se a moa puxou pela av, a corrida vai ser parelha..
  Acordou sobressaltado, sentindo que havia soltado um grito. Pulou da
cama automaticamente e ficou de p no meio do quarto escuro, na
estonteada aflio de quem se  v de sbito sem memria e no sabe quem
 nem onde est - mas sente que algo de terrvel est acontecendo.
  "Meu filho!"
  Donde vinha aquela voz? Da direita? Da esquerda? De onde?
  "Meu filho!" Quase sem sentir, como uma criana que tem medo da
escurido, ele gritou: "Mame!"
  A memria ento lhe voltou. Era Bolvar Cambar, estava em sua casa, em
seu quarto e fazia algum tempo que se deitara para dormir. Mas o medo
ainda lhe comprimia  o peito, e era mais terrvel ainda porque ele no
lhe conhecia a causa. Alguma coisa o fizera soltar um grito e acordar
assustado, alguma coisa que decerto estava  agora escondida num dos
cantos do quarto escuro... Por isso a voz de sua me era uma esperana
de socorro. Ele queria luz: ele queria a me.
  Uma porta se abriu e Bibiana apareceu com uma vela acesa na mo. A chama
alumiava-lhe o rosto. E por um segundo Bolvar de novo voltou 
infncia. Pareceu-lhe at  sentir o cheiro do leo da lamparina. O rosto
da me lhe deu a sensao de segurana de que ele precisava. Seu
primeiro mpeto foi o de caminhar para ela, buscando  a proteo de seus
seios, de seus braos, de seu ventre. Para ele me e luz eram duas
coisas inseparveis. Quando menino,
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  muitas vezes acordava assustado no meio da noite, comeava a chorar e s
se acalmava quando a me acendia a lamparina e o tomava nos braos para
o embalar.
  - Que foi que aconteceu, meu filho? - perguntou ela caminhando descala
para o rapaz e pondo-lhe a mo no ombro. - Est sentindo alguma coisa?
  - No  nada, me.
  De repente teve vergonha da situao. Um homem de quase vinte e trs
anos portando-se daquela maneira...
  Bibiana empurrou Bolvar para a cama, de mansinho. Bolvar deixou-se
levar.
  - Deita, meu filho.
  Ele obedeceu. Bibiana sentou-se na beira da cama, deps o castial sobre
a mesinha-de-cabeceira e puxou a colcha de algodo, cobrindo o filho.
  - O sonho veio outra vez?
  - Veio.
  Desde que voltara da guerra, Bolvar sonhava periodicamente com o homem
que matara numa carga de lana. Claro, tinha matado muitos outros, em
diversos entreveros:  mas havia um que ele no podia esquecer...
Vira-lhe bem o rosto no momento em que sua lana lhe penetrara o trax,
num estalar de costelas - uma cara contorcida  pela dor e pelo medo, com
o sangue a escorrer pelos cantos da boca...
  E agora, ali junto da me, pensando em tudo isso, Bolvar mais uma vez
teve vontade de desabafar com ela, contar-lhe o que nunca contara a
ningum. Queria dizer:  "Foi de mau que matei ele. O combate tinha
terminado. O quadrado estava rompido. Os argentinos se entregavam. Foi
ento que vi aquele homem. Olhou pra mim, ergueu  os braos e gritou:
Amigo, amigo! Estava doido de medo, o pobre... Estava desarmado...
Esporeei o cavalo, arranquei pra cima dele e enterrei-lhe a lana no
peito.  Eu estava como louco, meio cego... O homem caiu de costas com a
lana espetada no peito e eu fiquei olhando... Era bem moo e estava de
olhos vidrados. Eu matei  aquele homem por maldade. Mas no sou bandido,
me, juro por Deus que no sou!"
  Bolvar olhava para a me mas no dizia nada. Falava apenas em
pensamento, confessava tudo. E em pensamento tambm chorava, tirava
aquela nsia do peito, desabafava...
  Como se tivesse ouvido as palavras que o filho no pronunciara, Bibiana
comeou a passar-lhe as mos pelos cabelos e a dizer:
  - No  nada, Boli. Guerra  guerra.
  Ela sempre lhe contava as histrias do capito Rodrigo e as que sua av
Ana Terra lhe narrara sobre revolues, violncias e crueldades. Parecia
que aquelas mulheres  estavam habituadas 'idia de que um homem para
ser bem macho precisava ter matado pelo menos um outro homem.
  - Sonhei que o morto estava em cima do meu peito - disse Bolvar - e que
o sangue que saa da boca dele escorria pra dentro da minha e me
afogava...
  - Por que no esquece isso, meu filho? O que passou passou.
  - Mas no passou, me. De vez em quando o sonho volta. Cada vez que ele
vem,  o mesmo que matar de novo aquele homem.
  - So os nervos, Boli.  por causa de amanh.
  No dia seguinte ia haver uma festa no Sobrado para festejar o contrato
de casamento de Bolvar com Luzia Silva. Era natural que o noivo
estivesse preocupado.
  Bibiana tomou de novo o castial e ergueu-o diante do rosto de Bolvar.
Viu a chama refletida nas pupilas do filho, uma pequena vela acesa em
cada olho.
  - Agora dorme. Tudo passa. Fecha os olhos e faz fora pra no pensar.
  Bolvar cerrou os olhos e pediu:
  - Deixa a lamparina acesa.
  - A lamparina? - estranhou ela.
  - A vela, digo.
  Lembrou-se dos tempos de menino quando suplicava: "No apaga a luz, que
eu tenho medo".
  Os dedos dela eram frescos e leves sobre sua testa. Sentiu quando ela se
erguia, ouviu-lhe os passos macios nas tbuas do soalho e o rudo da
porta que se fechava  de mansinho. De novo
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  teve a sensao de abandono e de inexplicvel medo. No silncio comeou
a ouvir o tique-taque do relgio sobre a mesinha-de-cabeceira.
  Era o relgio que pertencera a seu av, Pedro Terra. Quando menino.
Bolvar costumava pedir ao velho que lhe deixasse escutar o corao do
relgio. "No  corao,  Boli.  uma mquina" - explicava Pedro. O
corao de Pedro Terra tinha parado para sempre. Mas o do relgio ainda
continuava a bater.
  Bolvar revolveu-se na cama, e ento o pensamento que estava tentando
evitar, lhe veio de novo, com uma fora to terrvel que lhe ps o
sangue a pulsar nas tmporas  com fria entontecedora. O quarto de
sbito como que ficou cheio da presena do negro Severino.
  O suor escorria pela testa e pelas faces de Bolvar, e ele sentia a
camisa pegajosa e mida colada s costas e ao peito. Precisava sair para
o ar livre, procurar  a companhia de algum. Pensou em ir acordar o
primo. Florncio era o seu melhor amigo, a nica pessoa com quem se a
abrir. Sim, devia levantar-se e sair. Mas no  saa. Ficou na cama,
deitado de costas, com a impresso de ter o mundo inteiro em cima do
peito.
  Havia uma coisa que no lhe saa da mente: Amanh Severino vai ser
enforcado por minha culpa. Todos diziam que fora o depoimento de Bolvar
Cambar que o condenara.  O jri se realizara havia mais de ano, o
processo se arrastara, fora mandado em recurso final ao Tribunal da
Relao do Rio de Janeiro, que confirmara a sentena.  Severino ia ser
enforcado no dia seguinte, s cinco da tarde, na Praa da Matriz... Era
a primeira condenao  morte na histria de Santa F. Na expectativa do
grande espetculo, a populao estava excitada, como em vsperas de
quermesse ou de cavalhadas. Iam at botar cadeiras ao redor da forca...
  Havia pouco mais de um ano aquele crime ocupara todas as atenes na
vila e no municpio. Os habitantes antigos do lugar afirmavam que fora o
mais horrvel de quantos  tinham lembrana. Dois tropeiros desconhecidos
haviam pedido pousada numa chcara das cercanias da vila, onde morava um
oleiro vivo servido por um nico escravo,  Severino. Jantaram os
viajantes na companhia do
  oleiro e durante o jantar - em que foram atendidos pelo preto -
declararam ter recebido muito dinheiro da venda duma tropa de mulas. E
como fossem partir no dia  seguinte, antes do nascer do sol, quiseram,
antes de se recolherem, pagar a hospedagem, e um deles tirou uma ona de
ouro da guaiaca recheada de moedas. O dono da  casa - segundo ele
prprio contou mais tarde s autoridades - mostrou-se melindrado com
aquele gesto e recusou receber o dinheiro. Onde se viu um gacho cobrar
hospedagem  em sua casa? Os viajantes recolheram-se ao quarto e no dia
seguinte foram ambos encontrados mortos, com as cabeas esmigalhadas. Ao
descobrir os cadveres o oleiro  - de acordo com seu prprio depoimento
- gritou por Severino e verificou que o negro havia desaparecido.
Aconteceu que na noite do crime Severino pedira guarida  a Bolvar,
dizendo ter fugido do amo por no poder suportar-lhe os maus-tratos.
Bolvar ficou intrigado ao ver manchas frescas de sangue na camisa e nas
calas do  escravo.
  - Que  isso, Severino?
  - Sangue.
  - Eu sei. Mas de quem?
  O negro pareceu hesitar um instante e depois disse:
  - Meu. Foi da sova que apanhei ind'agorinha.
  - Tire a camisa. Vamos botar remdio nas feridas.
  - No carece.
  - Tire a camisa! - ordenou Bolvar.
  Severino ento comeou a tremer e a balbuciar coisas que Bolvar no
entendeu, e num dado momento olhou para a porta com olhos cheios de
pavor, precipitou-se na  direo dela, e fugiu. Foi preso no dia
seguinte nuns matos dos campos dos Amarais e trazido para a vila.
Chamado a depor, Bolvar contara o que vira. Interrogado  pelas
autoridades, o negro chorou, negando ter cometido o crime. Como as
guaiacas das vtimas no tivessem sido achadas, perguntaram a Severino
onde as havia escondido.
  - No escondi nada - choramingou ele. - No matei ningum. No sei nada.
Sou um pobre negro.
  Contava mais, que na noite do crime o patro o acordara a chicotadas e
ameaara-o com um faco, gritando:
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  - Vai-te embora, negro sujo, seno eu te sangro!
  O oleiro, entretanto, negava tudo isso, como negara tambm haver surrado
o escravo na noite em que os tropeiros lhe pediram hospitalidade.
  O jri foi dos mais movimentados em toda a vida de Santa F desde que
ela fora elevada a cabea de comarca. Entre os juizes de fato estavam
Bento Amaral, Aguinaldo  Silva e Juvenal Terra. O promotor foi
implacvel. Achava que um crime daquela natureza no podia ficar impune;
tinha de ser punido com a mxima severidade - "...para  que, senhores
jurados, no fique estabelecido um precedente horrvel que haveria de
trazer a inquietude e o pavor permanentes a todos os senhores de
escravos, a  todas as casas, a todas as famlias". E continuou: "O
depoimento do sr. Bolvar Cambar, pessoa que nos merece a maior
confiana, deixa o caso claro como um cristal.  Na noite do crime o
negro o procurou e estava com as roupas ensangentadas. Que dvida pode
ainda subsistir? Era o sangue das vtimas inocentes, pois se fosse o
sangue do prprio escravo, como ele parecia insinuar, por que se recusou
Severino a mostrar suas feridas ao homem junto do qual buscava
proteo?"
  Severino foi declarado culpado por todos os juizes, menos por Juvenal
Terra, que mais tarde afirmou a amigos: "Esse negro eu conheo desde
menino. Brincou com o  Florncio e o Bolvar. No  capaz de matar uma
mosca. Homem e cavalo eu conheo pelo jeito de olhar".
  Bolvar revolveu-se na cama e ficou deitado de bruos, com os braos
dobrados e os punhos cerrados debaixo do peito, sentindo o bater furioso
do corao. Pensou  no corao do Severino a pulsar naquele pobre peito
escuro e lanhado. Decerto quela hora o negro estava acordado na sua
cela, esperando o clarear do dia de sua  morte. Mas quem Bolvar via em
pensamentos na cadeia no era o Severino homem feito, mas sim o menino
que brincava com ele e Florncio debaixo da figueira da praa.  E esse
menino agora ia morrer s por causa dumas palavras que seu amigo Boli
dissera s autoridades...
  Bolvar procurou pensar em Luzia, esforou-se por se convencer a si
mesmo de que tudo estava bem: ele ia casar com a mulher que amava, com a
mais linda moa de Santa  F: um dia seria o senhor do Sobrado... Mas
era intil. Seu mal-estar continuava: aquela aflio, aquele peso no
peito, a sensao de que algo de horrvel estava  por acontecer... E a
lembrana de Luzia agravava essa sensao. E, sem compreender como,
Bolvar odiou a noiva. Odiou-a por tudo quanto sentia por ela, odiou-a
porque  ela era bela, rica e inteligente. E odiou-a principalmente por
causa de seus caprichos de mocinha mimada. Ele lhe pedira, lhe suplicara
quase, que transferisse a  festa do noivado para outro dia qualquer, a
fim de que a cerimnia no coincidisse com a hora do enforcamento de
Severino. Luzia batera p: "No, no e no!" O padre  Otero interviera,
dizendo que no era direito estarem se divertindo no Sobrado enquanto um
cristo morria ali na praa. Mas Luzia no cedera. Achava que no havia
nenhuma razo para modificar seus planos. J tinham preparado tudo: os
convites estavam feitos, os doces prontos... Se as autoridades
quisessem, que transferissem  a execuo. E Aguinaldo, que sempre
acabava fazendo as vontades da neta, deu-lhe todo o apoio: "Luzia  a
dona da casa e da festa. Ela  quem manda".
  Bolvar sentia o pulsar do prprio sangue no ouvido que apertava contra
a fronha. Seu corao batia com tanta fora que parecia sacudir a cama,
a casa, o mundo.  E batia de medo - medo do que ia acontecer depois que
o dia raiasse...
  De repente Bolvar descobriu por que sentia aquilo. Era a impresso de
que ele, e no Severino,  que ia ser enforcado. Aquela era a sua ltima
noite. No podia  dormir. Era intil tentar. O pavor da morte mantinha-o
de olhos abertos.
  Atirou as pernas para fora da cama e levantou-se. Como era seu hbito,
dormia vestido. Apanhou as botas e comeou a caminhar na direo da
porta, procurando no  fazer barulho. E quando se viu a andar p ante p
na casa silenciosa, teve a impresso de que era um ladro ou de que ia
matar algum... E num segundo passou-lhe  pela mente uma idia confusa e
horrenda: Ele, Bolvar, tinha assassinado os dois tropeiros. Severino
estava inocente. Agora se
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  lembrava. A machadinha, os dois homens ressonando no quarto escuro.
Depois o estralar dos ossos daquelas cabeas, como cocos que se partem.
Bolvar respirava com  dificuldade. Tinha os olhos fechados e procurava
espantar aquela ideia. Devo estar louco por pensar essas barbaridades.
  Continuou a andar, com todo o cuidado. Mas o soalho rangeu e a voz da
me veio do outro quarto: "Bolvar!"
  Por um instante ele no respondeu. Estava trmulo, assustado, como se
tivesse sido descoberto no momento em que ia cometer um crime. A porta
abriu-se, e de novo  l estava dona Bibiana, com os cabelos grisalhos
cados sobre os ombros. A luz da vela, que mal alumiava o quarto, no
chegava at o rosto dela.
  - Que  que o meu filho tem?
  - No  nada, me. S que no pude dormir.
  - So os nervos.
  Houve um silncio. Bolvar calou as botas, e depois disse:
  - Vou caminhar um pouco pra refrescar.
  - Vai, meu filho, mas no demora. Amanh precisas estar bem disposto.
  Bolvar saiu com a impresso de que no voltaria mais, nunca mais.
  Era uma noite calma, e morna, de lua cheia. Bolvar comeou a andar sem
saber ao certo aonde ia, mas seus passos o levaram na direo da casa de
Florncio. Tinha  a impresso esquisita de no estar bem acordado. Seus
ps pesavam como chumbo e p'arecia que o cho lhe fugia s pisadas.
Galos amiudavam nos terreiros e isso deixava  tudo mais estranho - pois
embora ele sentisse que os galos estavam cantando, esse canto no
chegava a mover o ar morto da noite. Houve um instante em que Bolvar
desconfiou de que tudo aquilo era apenas um sonho. Talvez fosse. Talvez
de repente acordasse para verificar que estava ainda em sua cama. No
entanto andava sempre,  via as casas ao luar, os quintais onde rvores

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  escurejavam, as sombras das casas na rua, os frades-de-pedra na (rente da
venda do Schultz, da loja do Alvarenga e da agncia do correio. Ele
estava acordado, no havia  dvida. E agora comeava a doer-lhe a cabea
- uma dor de canseira e de tontura, um mal-estar de febre. Um gato
cinzento passeava por cima dum telhado e seus olhos  fuzilaram. De
repente, num choque, Bolvar lembrou-se dum gato que, quando menino, ele
vira um escravo enforcar no fimdo do quintal, e o guincho estrangulado
do  animal lhe traspassou a memria como uma agulhada. E l de novo
estava Severino pendurado na forca, e o corao de Bolvar a bater-lhe
como um possesso dentro do  peito.
  Decerto estou doente, com febre - refletiu ele ao chegar  frente da
casa de Florncio Terra. Ficou indeciso. Precisava chamar o amigo sem
acordar as outras pessoas  da casa. Entrou pelo porto lateral e bateu
de leve na janela do quarto do primo. No teve nenhuma resposta. Tornou
a bater com mais fora, chamando: "Florncio...  Florncio".
  Esperou. Ouviu um arrastar de ps dentro do quarto. Depois a janela se
entreabriu.
  - Quem ?
  - Sou eu. O Boli.
  - Que foi que houve?
  A cabea de Florncio apareceu.
  - Nada. S que no posso dormir... - comeou a dizer Bolvar. E de
repente sentiu vergonha daquela situao. Estava ali como um menino
assustado pedindo a proteo  dum mais velho. Ficou desconcertado, sem
atinar com o que fazer. Florncio compreendeu tudo e murmurou:
  - Espera um pouquinho que j saio. - E fechou a janela.
  Bolvar encostou-se na parede da casa, tirou do bolso um pedao de fumo,
desembainhou a faca e comeou a fazer um cigarro. Havia no ar um perfume
de madressilvas  e agora, longe, um cachorro comeava a uivar. De novo
Bolvar pensou em Severino. Ele decerto estava ouvindo da cadeia o uivo
do animal, uma lamria agourenta, prolongada  e trmula, que Bolvar
sentia repercutir-lhe dentro do peito. Pensou na "simpatia" que sua me
costumava fazer
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    quando ouvia um cachorro uivar: virava uma chinela de sola para o ar e
imediatamente o uivo cessava.
  O vulto de Florncio apareceu, vindo do fundo da casa. Os dois primos
comearam a caminhar lado a lado, em silncio, ganharam a rua e sem a
menor combinao se dirigiram  para a praa. Era assim que faziam quando
crianas: mal se juntavam corriam a brincar debaixo da figueira grande.
  Pararam por um instante  frente da capela, e Florncio, vendo que o
primo tinha preso entre os dentes o cigarro apagado, bateu a pedra do
isqueiro. E quando o outro  aproximou a ponta do cigarro da brasa do
pavio, Florncio percebeu que os dedos do amigo tremiam.
  - Calma, tenente - murmurou ele. - Calma...
  Era assim que dizia quando estavam na vspera dum combate. Tinham feito
juntos a campanha contra Rosas, e pouco antes de entrarem em ao,
Bolvar ficava to nervoso  que comeava a bater queixo, a tremer e s
vezes rompia at a chorar. Florncio tinha de tomar conta dele, lev-lo
para o mato, met-lo na barraca, abafar-lhe o  choro como podia para que
os companheiros no ouvissem, para que no pensassem que Bolvar estava
com medo. Porque covarde ele no era. Quando ouvia os primeiros  tiros,
quando via o inimigo aproximar-se, o rapaz mudava completamente. Ficava
assanhado como um potro bravo, de narinas infladas, cabea erguida,
ardendo por se  meter num entrevero. E era preciso cont-lo para que no
fizesse temeridades.
  Florncio agora olhava para o primo  luz do luar. Como era difcil
compreender aquele homem! Viviam juntos desde meninos e ele ainda no
conseguira entender o outro,  nunca sabia o que esperar dele. Era uma
criatura desigual: num momento estava exaltado e fogoso, mas no minuto
seguinte podia cair no mais profundo desnimo. Passava  da doura 
clera com uma rapidez que desnorteava os amigos.
  Depois que decidira contratar casamento com Luzia, seu nervosismo
aumentara, e agora ele comeava a portar-se como se estivesse em vspera
de combate.
  Florncio apagou o isqueiro e perguntou:
  - O sonho veio outra vez?
  - Veio - murmurou o primo, puxando uma baforada de fumaa.
  - O mesmo de sempre?
  Bolvar sacudiu a cabea, numa afirmativa meio relutante. Depois, disse:
  - Desta vez o Severino tambm apareceu.
  Florncio sempre achara que os sonhos traziam avisos de coisas que iam
acontecer. Conhecia casos... Mas o dr. Winter afirmava que isso era
crendice, porque os sonhos  nada tinham a ver com o futuro.
  Agora os dois caminhavam calados para o centro da praa e Florncio via
que os olhos de Bolvar estavam postos na forca. Compreendeu ento que
era que estava roendo  o amigo por dentro, mas achou melhor no dizer
nada. O outro que puxasse o assunto, se quisesse.
  Sentaram-se debaixo da figueira, ficaram por algum tempo em silncio,
pensando os dois nos tempos da infncia, quando vinham ali brincar com
Severino. O negrinho  subia na rvore, gil e escuro como um bugio, fazia
piruetas, soltava guinchos. Bolvar erguia ao rosto um pedao de pau,
fazendo de conta que era uma espingarda,  apontava-o para o bugio,
gritava: pei! e Severino, segundo uma combinao prvia, tinha de
atirar-se ao cho e ficar imvel - um bugio morto - at que Florncio
vinha ajoelhar-se ao p dele, encostar o ouvido no peito do "animal" e
depois declarar muito srio para o primo: "Bem no corao". Mal, porm,
ele dizia essas palavras  o negrinho comeava a rir desesperadamente, a
retorcer-se todo e a espernear. Era a hora de Florncio tirar da cintura
a sua faca de madeira e "sangrar" o bugio  bem como os homens da
charqueada sangravam os bois...
  O bugio vai ser enforcado amanh - pensou Bolvar. De novo comeou a
sentir as batidas violentas do prprio corao. Estava sentado com as
costas apoiadas no largo  tronco da figueira, e houve um momento em que
lhe pareceu que a rvore tinha tambm um grande corao que pulsava,
numa cadncia de medo. Aquela figueira sempre  lhe dera a impresso duma
pessoa, duma
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  mulher que tivesse a cabea, os braos e os ombros enterrados no cho e
as pernas erguidas para o ar, muito abertas. Bolvar tinha treze anos
quando descobriu a  semelhana, e desde ento comeou a amar
secretamente a figueira. As vezes ficava montado bem na parte em que as
duas pernas da "mulher" se ligavam ao tronco; enlaava  com ambos os
braos uma das coxas e, de olhos fechados, ansiado e trmulo, ficava ali
longo tempo, com o corao a bater descompassado de prazer e de medo -
prazer  de amar a figueira mulher; medo de que algum aparecesse e o
visse fazendo aquilo. Nunca contara seu segredo a ningum, nem a
Florncio, pois o primo no gostava  de "bandalheiras". E aquela rvore
tinha sido para ele tudo: cavalo, carreta, castelo, abrigo, amante...
Pensou em Luzia, imaginou-a meio enterrada no cho, de pernas  para o
ar. Luzia devia ter pernas bonitas. Ele ia amar Luzia como amara a
figueira. Mas Luzia no era boa como a figueira, Luzia no era amiga
como a figueira...
  Olhou para o Sobrado: grande, branco, imvel ao luar. Por trs daquelas
paredes sua noiva decerto dormia sem remorsos, como uma criana. Tinha
tudo o que queria,  todos lhe faziam as vontades, era como uma rainha.
Um homem ia morrer na forca, mas que era para aquela moa mimada a vida
dum homem, de cem homens?
  Bolvar olhou para o primo, tomado dum sbito desejo de contar-lhe o que
sentia; mas a voz se lhe trancou na garganta. Depois, havia tanta coisa
a dizer que ele  no sabia por onde comear. Ficou olhando
alternadamente para o Sobrado, para a forca e para a cadeia onde
Severino estava preso. Galos cantavam. Dentro de algumas  horas a manh
ia raiar.
  De repente, como se seus pensamentos se transformassem em palavras 
revelia da vontade, Bolvar murmurou:
  -  uma barbaridade enforcarem um homem. Atirou longe o cigarro.
Florncio encolheu os ombros.
  - Barbaridade por barbaridade, h muitas outras no mundo e a gente acaba
se habituando com elas.
  - Mas vai ser uma injustia! - gritou Bolvar. E suas palavras foram
absorvidas pelo ar parado da noite.
  444
  Florncio voltou a cabea para o primo. No lhe podia distinguir bem as
feies ali  sombra da figueira, mas sentiu que no rosto dele havia
sofrimento.
  - Injustia? O jri condenou o Severino.
  - Mas o negrinho est inocente.
  - Qu?
  - Quem matou os tropeiros fui eu.
  Florncio sentiu no peito estas palavras como um soco que lhe cortou o
flego. Mas logo se refez e reagiu:
  - No seja bobo. Vossunc est mas  doente.
  Agora ele ouvia a respirao arquejante do outro, como a dum cachorro
cansado. Bolvar meteu as mos pelos cabelos e comeou a sacudir a
cabea devagarinho. Foi  com voz fosca que disse:
  - Mas se eu fosse me apresentar s autoridades confessando que matei os
dois homens, ningum podia duvidar da minha palavra e o Severino se
salvava.
  O luar era como uma geada morna sobre os telhados. Florncio arrancou um
talo de capim e mordeu-o.
  - Vossunc precisa  dormir, descansar - disse ele simplesmente.
  Bolvar continuava a sacudir a cabea
  - O negrinho vai morrer por minha culpa.
  - No diga isso, Boli. Vossunc fez o que era direito. Contou o que
viu...
  - No sei.
  - Que  que no sabe?
  - Se contei o que vi. No princpio achei que estava talando a verdade.
Mas depois do jri comecei a duvidar. Hoje no sei mais nada... Parece
que o sangue era mesmo  do negro...
  - Nesse caso, quem foi que matou os tropeiros?
  - Sei l! Algum ladro que entrou de noite pela janela. Ou, quem sabe, o
dono da casa.
  Florncio mordia o talo de capim e sua voz estava calma, resignada e
triste quando ele disse:
  - Agora  tarde.
  445
  Bolvar ergueu a cabea e lanou um olhar na direo da cadeia.
  - No  carde. O Severino ainda est vivo.
  - Mas est preso, Boli, e vai ser enforcado amanh. Florncio sentiu a
mo quente e mida do amigo apertar-lhe
  o pulso com uma fora quase furiosa.
  - Florncio, ainda tem tempo!
  O rosto de Bolvar estava agora to prximo que Florncio lhe sentia o
hlito cido.
  - Tempo de qu?
  - De salvar o negrinho.
  - Mas como?
  - Tirando ele da cadeia.
  - Est louco?
  - No, mas sou capaz de ficar se o Severino morrer enforcado. No posso
agentar mais essa morte na conscincia.
  - Mas o que  que vossunc quer fazer?
  - Escuta, tem s dois guardas na cadeia. Ns somos dois... Florncio
agora compreendia. Cuspiu de sbito o talo de capim e sacudiu
vigorosamente a cabea.
  - Vamos at a cadeia - continuou Bolvar - amarramos os guardas, tiramos
o Severino, eu dou um dos meus cavalos pra ele e mandamos o negro
embora. Pode sair na direo  de Cruz Alta, pode ir pra So Borja e
depois pra Argentina, pra qualquer lugar. Qualquer coisa  melhor que a
forca.
  Florncio tirou do bolso um pedao de fumo em rama, desembainhou a faca
e comeou a fazer um cigarro. Bolvar esperava a resposta. S depois de
algum tempo  que  o primo respondeu:
  - Vossunc est bem doido mesmo.
  - No estou, j disse. Ainda tem tempo. Vamos. Florncio picava fumo,
calmo. Ele conhecia o primo. Tudo
  aquilo ia passar. Ainda bem que no havia ningum por ali para ouvir
aqueles despautrios.
  - Vossunc precisa mas  de descansar. Amanh quando raiar o dia tudo
vai ficar direito.
  - No fica. Fica pior.
  446
  - Sabe duma coisa? Um banho no lajeado ia l fazer bem. Vamos?
  Bolvar pareceu no ouvir o que o outro propusera.
  - Vamos tirar o Severino da priso enquanto  tempo - insistiu. - Quando
amanhecer vai ser tarde demais.
  Viam uma janela iluminada na casa da cadeia. Era o candeeiro que passava
a noite aceso. Havia dois guardas que se revezavam na viglia. s vezes
ficavam acordados  jogando bisca e bebendo. Contava-se que no raro
ambos caam no sono... Os olhos de Bolvar agora estavam fitos na
janelinha iluminada.
  Florncio guardou a faca na bainha e comeou a amassar o fumo no cncavo
da mo.
  - Ns tiramos o Severino da cadeia... - disse ele com sua voz calma - e
depois, que vai ser de ns?
  Bolvar encolheu os ombros.
  - Que me importa?
  - Como, homem? No v que  uma coisa muito sria dar escapula pra um
condenado  morte?
  - Pois ento fugimos tambm com ele, vamos pr outro lado do Uruguai.
  - Vossunc perdeu o juzo. No se lembra que amanh  o dia de seu
contrato de casamento?
  - Que me importa? A vida duma pessoa tem mais importncia.
  - Que tem, tem. Mas o caso aqui  diferente. Os jurados acharam que o
negrinho era culpado. Se algum errou no foi vossunc, foi o jri.
  - Mas houve um jurado que no achou o Severino culpado. Foi o seu pai.
Ele disse que conhece as pessoas pelo jeito de olhar. Ele jura que o
negrinho no era capaz  de cometer aquele crime. Tio Juvenal conhece as
pessoas. Ele nunca se engana.
  Florncio alisava agora a palha do cigarro.
  - O papai s vezes tambm se engana. Todo o mundo se engana. Ningum 
infalvel. S Deus.
  - Deus tambm se engana. H muita injustia no mundo.
  447
  - Vossunc precisa  dum banho frio. Por que no encilhamos os cavalos e
vamos at o lajeado?
  De novo galos cantaram: eram como um relgio dando horas. Cada vez mais
se aproximava o fim da noite. Bolvar olhou para o horizonte atravs
duma boca de rua. Temia  ver aquela parte do cu clarear, Mas que era
mesmo que ele temia? A hora do enforcamento? A hora do noivado? O suor
agora lhe entrava pelos cantos da boca, pelos  olhos, e por alguns
segundos ele viu a noite atravs duma cortina lquida: tudo trmulo e
vago. Seus prprios pensamentos pareciam encharcados de suor, estavam
confusos,  misturados, eram como um mingau quente de febre. Pensava
estonteadamente em Severino e em Luzia: ora lhe parecia que fora Luzia
quem mandara matar Severino; ora  era Severino quem estava na cama de
Luzia, montado nela, com seus braos negros a enlaar-lhe as coxas; ora
era Luzia quem estava na cadeia e ia ser enforcada. Depois  imaginava-os
todos a fugir para o Uruguai, a galope, montados em cavalos em plo -
ele, Luzia, Florncio, Severino - perseguidos pela polcia, perseguidos
pelos  galos e pelas barras do dia.
  Levantou-se, brusco.
  - Pois se vossunc no quer ir comigo, eu vou sozinho.
  - Vai onde? - perguntou Florncio, apesar de saber a que o outro se
referia.
  - Tirar o Severino da cadeia. Florncio soltou uma risadinha seca.
  - Mas primeiro tem que lutar comigo.
  Ergueu-se tambm, mas lento, com o cigarro apagado entre os dentes.
  Bolvar olhou para o amigo, cuja calma o enervava. Teve vontade de
esbofete-lo. E - estranho - num relmpago comprleendeu que naquele
momento ele tinha inveja do  outro. Florncio no sofria, era um homem
livre,  ia casar-se com Luzia Silva. Sentiu tambm cime dele, porque
sabia que Florncio sempre gostara de Luzia, e  esta muitas vezes dera
mostras de no lhe ser indiferente. E ali estava agora o primo,
pachorrento, batendo o isqueiro para acender o seu cigarro. Invejava-lhe
tambm  aquela calma, a conscincia 
tranqila, a segurana de suas palavras, de seus gestos, de suas
convices.
  Bolvar olhou de novo para a janela da cadeia. Atravessaria a praa
correndo, armado de pistola e, entrando de repente, faria que os guardas
dessem liberdade a Severino.  "Corre, negro, foge! Tira o meu cavalo da
estrebaria e foge pr Uruguai. Depressa!"
  Passou a mo pelo rosto, enxugando o suor. Sentiu que no podia fazer
nada do que pensava. Era loucura. Severino estava perdido. Ele estava
perdido. Todos estavam  perdidos. Todos menos Luzia. Ela sempre fazia e
tinha o que queria. Ela e Florncio. E ento de repente lhe veio uma
idia. "Eu solto o Severino e fujo com ele pra  Argentina. Florncio
fica e acaba casando-se com Luzia." Ali estava a soluo! Nesse momento
verificou que estava desarmado. Tinha de ir at a casa para buscar
dinheiro  e suas armas. Entraria na ponta dos ps, sem fazer barulho...
Lembrou-se da me. Que ia ser dela se ele fugisse? Por alguns instantes
teve na mente a imagem de Bibiana,  de camisola, os cabelos grisalhos
soltos, uma lamparina na mo... A me morreria de desgosto se ele
fugisse.
  Florncio pitava serenamente. Bolvar aproximou-se da figueira e
passou-lhe a mo pelo tronco spero. Quando meninos eles tinham gravado
seus nomes a ponta de faca  naquele tronco. Como no soubesse escrever,
Severino desenhara ali apenas uma cruz. Agora o coitado ia morrer na
forca, talvez nem o enterrassem como cristo. No  teria de seu nem uma
cruz. Bolvar prometeu a si mesmo que havia de comprar para Severino uma
sepultura com uma cruz e uma inscrio, como sepultura de branco.
Passara  a fria. Lentamente tornou a sentar-se. O cho estava tpido
como um corpo humano. Pensou em Luzia e desejou estar na cama com ela,
no para am-la, mas para ter  um seio onde repousar a cabea cansada e
chorar. Porque a vontade de chorar lhe crescia aos poucos no peito. Por
alguns instantes lutou com ela, mas por fim cedeu,  e o choro rompeu-lhe
da garganta num soluo. Escondeu o rosto nas mos e ficou a soluar
convulsivamente.
  Florncio baixou os olhos para o amigo e pensou: Ele tem medo da Luzia.
Mas no disse nada. Olhou para o Sobrado e pensou na moa. Agora que ela
ia casar com o primo,  deixava de ser
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mulher para ele. Estava tudo acabado. Doena de amor se cura com o
tempo. No fundo ele se sentia feliz por Luzia no o ter escolhido. Feliz
no era bem a palavra: aliviado, isso sim. Luzia no era mulher para ele
nem para Bolvar. Ia casar com o rapaz por capricho ou por birra,
ningum sabia bem ao certo por qu. Amor no era, que Luzia no era
mulher para isso. Pobre do Boli! Se no botasse cabresto na esposa desde
o primeiro dia, estava perdido. Luzia era como certos cavalos que
precisavam de rdea curta. Mas qual! Boli estava cego de amor, ia passar
a vida dominado por ela. Em tudo aquilo s havia uma esperana: era tia
Bibiana, que ia morar tambm no Sobrado. Ela cuidaria de Boli, seria
sempre um escudo para o filho. Luzia era voluntariosa, autoritria,
cheia de caprichos, mas ia encontrar pela frente uma adversria de
respeito. Tia Bibiana tinha a cabea no lugar: era uma mulher dos bons
tempos. Estava habituada a lidar com gente, e tinha a fibra dos Terras -
concluiu Florncio com certo orgulho, tirando uma baforada.
  Nesse instante viu que um vulto se aproximava. Reconheceu os contornos
do dr. Carl Winter. O mdico alemo era inconfundvel. Ningum mais em
Santa F se vestia daquele jeito engraado. Ningum ali usava chapu
alto como chamin nem aquelas roupas estapafrdias.
  A poucos passos da figueira Carl Winter parou.
  - Boa noite, doutor! - exclamou Florncio.
  Por alguns instantes o mdico ainda hesitou mas, por fim, reconhecendo o
rapaz, respondeu:
  - Boa noite, Florncio. Boa noite. Deu mais alguns passos  frente.
  - Que anda fazendo por aqui a estas horas? Virou lobisomem?
  Winter soltou a sua risada em falsete e antes de responder ficou a
acender um de seus charutinhos.
  - Fui chamado para ir ver o coronel Bento. Comeu charque arruinado e
ficou com cibras no estmago.
  - Deve ter sido charque da charqueada dele - observou Florncio.
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  Foi ento que Winter viu Bolvar.
  - Ah! Bolvar. No tinha visto o amigo. Boa noite. Bolvar fungou.
  - Boa noite.
  - Est resfriado?
  - Um pouco.
  Florncio aspirava com certo prazer a fumaa do charutinho do mdico.
Ali em Santa F s ele fumava aqueles charutos do tamanho dum cigarro. O
dr. Winter era um homem fora do comum, que vestia roupas de veludo nas
cores mais extravagantes, com uns esquisitos coletes de fantasia. Fazia
uns dois anos que estava na vila e diziam que tinha emigrado da Alemanha
por se ter metido numa revoluo. Seus inimigos afirmavam que ele no
era formado, mas o dr. Winter tinha em casa um diploma para quem
quisesse ver: era um papel escrito em alemo que ele guardava dentro dum
canudo de lata. O Schultz garantia que o diploma era legtimo.
  Fez-se um silncio. O dr. Winter parecia estar olhando para a forca e
Florncio, temendo que ele falasse em Severino, procurou levar a
conversa para outro rumo.
  -  grave? - perguntou.
  - Grave? - repetiu o mdico.
  - A doena do coronel Bento.
  - Ach! Um purgante de sal amargo resolve tudo. Florncio sempre admirava
a maneira correta com que aquele
  homem se exprimia em portugus; tinha um sotaque muito forte, era
verdade, carregava nos erres, mas quanto ao resto falava fluentemente
como um brasileiro educado, quase to bem como o juiz de direito ou o
padre. E diziam que sabia tambm o seu latim e que em sua casa tinha
muitos livros escritos em lnguas estrangeiras. Florncio continuava a
aspirar a fumaa do charutilho do mdico, de cheiro to forte como o do
seu cigarro de palha.
  - Ainda no se decidiu a pitar um crioulo, doutor? O outro sacudiu a
cabea.
  - Nem a dormir com mulatas - respondeu com voz risonha. - H muitos
produtos desta terra que no so para meu paladar.
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  Florncio sorria. De cabea baixa, protegido pela sombra, Bolvar pedia
a Deus que o mdico fosse logo embora.
  - Pelo cigarro crioulo eu respondo - assegurou-lbe Florncio, mostrando
os dentes num lento sorriso. - Tambm nunca fui apreciador de mulatas.
  - Que  que diz o Bolvar?
  Bolvar no respondeu. Limitou-se a erguer a cabea para o mdico.
  - Ele agora vai sentar o juzo - disse Florncio. - Amanh fica noivo.
  O dr. Winter coou o queixo onde crescia, revolta, uma barbicha ruiva.
  - No acha ento que devia estar na cama descansando? - perguntou com
jeito quase paternal.
  Florncio apressou-se a responder:
  - O homem perdeu o sono e ento viemos pra c palestrar e tomar a
fresca.
  O mdico resmungou qualquer coisa, puxou uma baforada de fumo, cuspinhou
para o lado e disse:
  - Bom. Vou ver se durmo um pouco. Dizem que a noite foi feita para
dormir.
  - Dizem - repetiu Florncio.
  - Boa noite, rapazes.
  - Boa noite, doutor.
  Winter afastou-se na direo de sua residncia. Morava numa meia-gua
atrs da igreja, ao lado da casa do padre. Por alguns instantes
Florncio acompanhou-o com os olhos. Gostava do dr. Winter. Sentia por
ele uma espcie de respeitosa confiana, como a que a gente sente por
uma pessoa sria e idosa. No entanto o mdico no teria muito mais de
trinta anos. Devia ser aquela barba e aqueles culos que lhe davam um ar
assim to respeitvel.
  - Ser que ele notou? - perguntou Bolvar.
  - Notou o qu?
  - Que eu estava chorando... Florncio encolheu os ombros.
  - Sei l! Esse homem parece que no olha pra nada mas enxerga tudo com o
rabo dos olhos.
  Houve um curto silncio e depois Bolvar perguntou:
  - Ser que vo mandar o dr. Winter examinar o corpo?
  - Que corpo, homem?
  - O do Severino, depois que enforcarem ele.
  - Pra com isso, Boli. Que homem custoso!
  Bolvar olhou para o Sobrado e tornou a pensar em Luzia.
  Naquele mesmo instante o dr. Carl Winter - que atravessava a praa com
suas passadas lentas e largas - olhava para a casa de Aguinaldo Silva e
tambm pensava em Luzia. Tinha-a na mente tal como a vira no Sobrado na
festa de seu aniversrio, toda vestida de preto, junto duma mesa, a
tocar ctara com seus dedos finos e brancos. Nessa noite ficara
fascinado a observ-la, e houve um minuto em que uma voz - a sua prpria
a sussurrar-lhe em pensamento - ficara a repetir: Melpmene,
Melpmene... Sim, Luzia lhe evocava a musa da tragdia. Havia naquela
bela mulher de dezenove anos qualquer coisa de perturbador: uma aura de
drama, uma atmosfera abafada de perigo. Winter sentira isso desde o
momento em que pusera os olhos nela e por isso ficara, com relao 
neta de Aguinaldo, numa permanente atitude defensiva. Numa terra de
gente simples, sem mistrios, Luzia se lhe revelara uma criatura
complexa, uma alma cheia de refolhos, uma pessoa, enfim - para usar da
expresso das gentes do lugar - ''que tinha outra por dentro". Ao
conhec-la, Winter ficara todo alvoroado como um colecionador de
borboletas que descobre um espcime raro no lugar mais inesperado do
mundo. Ao contrrio, porm, do que sentiria um colecionador, no desejou
apanhar aquela borboleta em sua rede; ficou, antes, encantado pela idia
de seguir-lhe o vo, de observ-la de longe, viva e livre. Que mistrios
haveria dentro daquela cabea bonita?
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  Boas coisas no havia de ser - conclura ele. O instinto lhe insinuava
isso. Lembrou-se de seu professor de Clnica, segundo o qual em
medicina, como em tudo mais,  o instinto  tudo. Seu olho clnico, ou
seu sexto sentido fazia soar uma sineta de alarme toda vez que ele via
Luzia Silva. E sempre que visitava o Sobrado, enquanto  o velho
Aguinaldo contava com sua voz cantante histrias do serto pernambucano,
ele ficava a examinar furtivamente, com olhares oblquos, a menina
Luzia. Que tinha  ela de to estranho? Talvez os olhos... Eram grandes e
esverdeados... Ou seriam cinzentos? Era difcil chegar a uma definio,
pois lhe parecia que eles mudavam  de cor de acordo com os dias ou com
as horas. Possuam uma fixidez e um lustro de vidro e pareciam
completamente vazios de emoo. Winter descobrira que Luzia fitava  as
pessoas com a mesma indiferena com que olhava para as coisas: no fazia
nenhuma distino entre o noivo, uma mesa ou um bule. Pobre Bolvar!
Winter achava absurdo  que duas pessoas to desiguais estivessem para
casar, morar na mesma casa, dormir na mesma cama e juntar-se para
produzir outros seres humanos. Bolvar mal sabia  ler e assinar o nome:
era um homem rude. Carl no acreditava que Luzia o amasse; para falar a
verdade no a julgava capaz de amor por ningum... Quanto ao rapaz,  era
natural que estivesse fascinado por ela. Winter sabia o quanto era
difcil para qualquer homem que estivesse na presena de Luzia desviar
os olhos de seu rosto.  Reconhecia que ele prprio sentia pela senhora
do Sobrado um certo desejo fsico. Era, porm, um desejo sem ternura, um
desejo frio e perverso.
  Afastou os olhos do casaro e baixou-os para a terra onde se projetava
sua sombra alongada. E ento de repente sentiu o silncio da noite e
aquela impresso de mistrio  que o envolvia sempre que ele caminhava
sozinho de madrugada, pelas ruas desertas. Sentira isso na sua aldeia
natal, em Heidelberg, em Paris, em Berlim. Era como  se nessas horas
solitrias ele fosse uma espcie de fantasma de si mesmo.
  "Melpmene" - murmurou. E imediatamente lhe veio uma idia curiosa:
nunca ningum pronunciara aquele nome naquela vila. Talvez nem naquela
provncia... Depois, mais  alto, como se
  se dirigisse  prpria sombra, repetiu: Melpmene. Nunca - refletiu - eu
sou o primeiro. E o primeiro tambm que passeia sob este cu com estas
roupas. E rindo o  seu riso interior o dr. Winter olhou para a prpria
silhueta no cho e teve mais que nunca conscincia da maneira como
estava vestido: a sobrecasaca de veludo, verde,  as calas de xadrez
preto e branco, muito ligadas s coxas e s pernas, e principalmente
aquele chapu alto, que era um dos grandes espetculos de Santa F.
Sabia  que suas roupas davam muito que falar. Os colonos alemes em sua
generalidade haviam j abandonado seus trajos regionais e adotado os dos
naturais da provncia.  Mas ele, Winter, preferia conservar-se fiel 
indumentria europia e citadina, e continuava a vestir-se bem como se
ainda vivesse em Berlim ou Munique. Por outro  lado, no que dizia
respeito s coisas do esprito, tambm continuava a usar as modas
europias; e no queria mudar, pois sabia que no dia em que se adaptasse
e comeasse  a comer e vestir como os nativos, mais da metade do encanto
de viver naquela terra remota estaria perdida. Winter sempre amara sua
independncia: era um individualista.  No via, pois, melhor maneira de
se afirmar como um indivduo, e de defender sua independncia do que a
de andar vestido daquele modo inconfundvel.
  Antes de entrar em sua rua lanou um olhar enviesado na direo da
figueira grande. Ela lhe dera a impresso duma enorme galinha a acolher
sob as asas aqueles dois  pintos - Florncio e Bolvar. Ele vira
claramente que um dos pintos estava assustado... Se eu fosse me casar
com Luzia Silva - refletiu Carl Winter jogando ao cho  o toco do
charuto - tambm perderia o sono... E
  entrou em casa.
  O cheiro de picum e mofo - que ele tanto detestava mas com o qual j
comeava a habituar-se - envolveu-o num abrao familiar. Winter acendeu
o candeeiro, franzindo  o nariz ao cheiro do sebo frio; brotou dele uma
chama amarelenta e mvel, e aos poucos as coisas daquele quarto como que
foram crescendo da sombra para fazer-lhe  companhia: a cama-de-vento, a
gamela de pau que lhe servia de bacia, o jarro de folha amassada, as
cadeiras de palhinha, a estante com os livros, a mesa de pinho,  sebosa
e guenza,
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  com seus papis, o tinteiro, o secador de loua e a pena de pato... As
paredes caiadas estavam manchadas de umidade.
  Que contraste aquele ambiente oferecia quando Winter o comparava com os
aposentos que tivera na Alemanha! Mas aquela rusticidade, aquela pobreza
davam-lhe um absurdo  prazer como o que uma pessoa sente ao se infligir
certos castigos sem propsito: tomar banhos frios no inverno, dormir em
camas duras.
  Winter pendurou o chapu num prego cravado na parede e comeou a
despir-se lentamente. Ouvia o ressonar pesado da negra Gregria, uma
escrava que ele comprara havia  pouco mais de ano e  qual dera alforria
imediatamente. Ela lhe preparava a comida e tomava conta da casa. Era
uma preta de carapinha amarelenta, velha e reumtica,  de pernas
elefantinas. Sua presena fazia-se sentir duma maneira muito aguda,
impunha-se  vista, ao olfato e ao ouvido, porque Gregria cheirava mal,
era grande,  movia-se com rudo e passava quase todo o dia cantando,
falando consigo mesma ou arrastando pesadamente os ps inchados pela
cozinha.
  Por que era que ele insistia em continuar naquela casa? Extravagncia?
Autoflagelao? Ou simples preguia? Talvez fosse preguia. A verdade
era que costumava divertir-se  imaginando o que diriam seus amigos de
Berlim se o vissem naquele ambiente. Ouvindo os roncos de Gregria, Carl
disse para si mesmo: Eu podia estar morando com Gertrude  Weil numa
casinha limpa de Eberbach, com vasos de flores nas janelas. No entanto
estou nesta pocilga, em Santa F, na companhia da negra Gregria. Ach,
du licber  Gott!
  Estava agora completamente nu. Tinha um corpo muito esguio e ossudo, dum
branco de marfim, pintalgado de sardas e recoberto duma penugem fulva.
Ficou a imaginar  o que aconteceria se um dia sasse a andar assim
despido pelas ruas do povoado. Certamente aqueles homens sairiam a
ca-lo a tiros e as mulheres que o vissem soltariam  gritos de horror.
E s de pensar nisso Carl ficou sacudido de riso. Baixou os olhos na
contemplao do prprio corpo. Era magro e dessangrado como o
Crucificado  de Van der Weyden que ele vira em Viena. Apenas o Cristo da
pintura no
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  usava culos. Nem era ruivo. Nem formado em medicina. Nem... Ach!... Du
bis t ein Hanswurst, Carl!
  Estendeu-se na cama e apanhou um livro de poesias de Heine. Mas no
abriu o volume. P-lo em cima do ventre, achando gostoso o contato
fresco da capa de couro negro.  Cerrou os olhos e em breve verificou que
estava sem sono. Abriu o livro e comeou a ler um poema, mas com a
ateno vaga. Tornou a fechar o volume, soprou a lamparina,  e o ar, que
estava amarelento, ficou azulado: o foco de luz deixou de ser a velha
candeia de rerro para ser a janela escancarada por onde entrava o luar.
E nesse  retngulo violeta Winter comeou a ver o crivo mido das
estrelas.
  Tirou os culos e p-los com todo o cuidado em cima da cadeira, ao lado
da cama. E de repente, como j acontecera antes tantas vezes, sentiu-se
tomado de uma sensao  de estranheza que ele poderia toscamente resumir
nestas palavras: "Eu, Carl Winter, natural de Eberbnch, formado em
medicina pela Universidade de Heiclvlberg, completamente  nu deitado
numa, cama tosca, num quarto mal cheirante, numa casa miservel na
vila de Santa F, perdida no meio das campinas da provncia de So
Pedro do Rio  Grande, Brasil, Amrica do Sul". Como? Por qu? Para qu?
Enlaou as mos sobre o ventre e ficou de olhos cerrados a pensar. Era o
melhor estratagema que conhecia  para aprisionar o sono. Procurava
narcotizar-se com pensamentos at dormir. E nunca conseguia ver claro o
momento em que cruzava a tnue linha que separa o devaneio  do sono.
  Como? Por qu? Para qu? No cometi nenhum crime. No sou nenhum
imbecil. O mundo  muito largo. Eu podia estar no Cairo, em Bombaim, em
Canto, em Caracas. E por  que no em Munique, Berlim ou mesmo
Eberbach...
  Sempre hesitava antes de responder, quando lhe perguntavam por que
deixara a ptria. Certo, no era um "colono" como os outros alemes que
se haviam estabelecido  s margens do rio dos Sinos. No viera  procura
do Eldorado nem da Galinha dos Ovos de Ouro. Refugiado poltico? Talvez
fosse essa a sua classificao. Sua malcia,  entretanto, recusava o
ttulo dramtico e levava-o a lesumir sua histria em poucas palavras:
"Estou aqui principalmente porque Gertrude Weil, a Frulein que eu
amaua, preferiu casar-se com
  457
  
  o filho do burgo-mestre. Isso me deixou de tal maneira desnorteado, que
me meti numa conspirao, que redundou numa revoluo, a qual por sua
vez me atirou numa barricada.  Ora, essa revoluo fracassou e eu me vi
forado a emigrar com alguns companheiros".
  Carl Winter gostava de relembrar a srie de acontecimentos fortuitos que
o haviam trazido de Berlim a Santa F, atravs das mais curiosas
escalas. Desembarcara no  Rio de Janeiro com o diploma, a caixa de
instrumentos cirrgicos e algum dinheiro no bolso, decidido a
estabelecer-se ali, fazer clnica, juntar uma pequena fortuna  para um
dia - depois que seu governo tivesse indultado os revolucionrios e ele
conseguido esquecer Trude Weil - retornar  Alemanha. Achou, porm, que
o Rio era  insuportavelmente quente, tinha um incmodo excesso de
mosquitos e mulatos, alm da ameaa permanente da febre amarela.
Meteu-se com armas e bagagens num patacho  que se fazia de vela para a
provncia de So Pedro - que lhe diziam ter um clima semelhante ao do
sul da Europa - e desembarcou na cidade do Rio Grande, onde julho  o
esperou com ventos gelados que cheiravam a maresia e nevoeiros que o
lembraram agradavelmente dum inverno que ele passara em Hamburgo, quando
adolescente. Apresentou  suas credenciais  prefeitura e, sabendo
existir na cidade uma grande carncia de mdicos, ofereceu-se para
trabalhar gratuitamente no hospital de caridade local.  Foi l que um
dia, fazendo sua visita matinal aos doentes, encontrou deitado num
daqueles catres sujos e malcheirosos, num contraste com as caras
tostadas dos nativos,  um homem louro, extremamente jovem, e de aspecto
europeu. Deteve-se, interrogou-o e verificou que se tratava de um alemo
que viera com as tropas mercenrias que  o governo brasileiro havia
contratado para lutar contra os soldados do ditador Rosas. E o pasmo de
Winter chegou ao auge quando o moo lhe declarou chamar-se Carl  von
Koseritz e ser descendente duma famlia nobre do ducado de Anhalt. Foi,
pois, com uma mistura de surpresa e cepticismo que o mdico ouviu aquele
homem de feies  finas, ali estendido num srdido leito de hospital de
indigentes, contar-lhe que seu irmo Kurt fora ministro do duque e sua
irm Tony, dama de honor da duquesa.
  - Mas como foi que veio parar neste pas, nesta cidade, neste hospital?
  - Fui renegado pela minha famlia - sorriu o moo.
  O mdico ia perguntar: "Por qu?" - mas conteve-se a tempo. era uma
pergunta indiscreta. Talvez o rapaz houvesse falsificado a firma do pai
em alguma letra para  pagar dvidas de jogo... Ou ento, amante de
alguma condessa, tivesse sido obrigado a matar o conde num duelo...
  Von Koseritz, porm, apressou-se a explicar que, sendo estudante em
Berlim, se metera, contra a vontade dos pais, na revoluo de 48. E
acrescentou:
  - E j que estava em ritmo de guerra, achei melhor vir para c com os
"Brumers" para lutar contra o tirano Rosas. Sabe o que eu era? -
perguntou a sorrir com malcia.  - Canhoneiro do 2 Regimento de
Artilharia! - Suspirou. - Mas aconteceu que a tropa se insubordinou e
foi dissolvida. Assim um dia me vi doente e sem recursos nesta  cidade
estranha. Eis a minha histria.
  Winter olhava para o outro numa confuso de sentimentos. Tudo aquilo lhe
cheirava vagamente a pera-bufa. O rapaz, porm, lhe mostrou os
documentos comprobatrios  de sua identidade. Tinha um belo nome: Carlos
Jlio Cristiano Adalberto von Koseritz. Nascera em 1830: estava portanto
com apenas vinte e um anos!
  - E agora? - perguntou Winter. - Que vai fazer depois que der alta do
hospital?
  - Ficar nesta provncia.
  - E plantar batatas como nossos compatriotas de So Leopoldo?
  - No. Abrir uma escola e ensinar; fundar um jornal e escrever...
  - Mas como, se nesta terra se fala o portugus?
  - Dentro de pouco tempo estarei habilitado a escrever nessa lngua to
bem como na minha.
  Era assombrosa a certeza que aquele moo tinha de seu ruturo.
  - E sabe duma coisa, doutor? - perguntou Von Koseritz, passando os dedos
pela barba loura que lhe cobria o rosto - talvez eu ainda venha a me
naturalizar brasileiro...
  458
  459
  - Mas... e sua famlia?
  O outro Carl deu de ombros.
  - Um dia eles vo compreender que no precisei de seu nome nem de seu
auxlio para abrir caminho na vida.
  Aquele dilogo marcara o incio duma boa e slida amizade. E fora por
conselho de Carl von Koseritz que Carl Winter transferira residncia de
Rio Grande para Porto  Alegre. Perguntara-lhe o baro numa carta: "Por
que no vai clinicar na bela cidade que os aorianos ergueram s margens
dum magnfico esturio e no meio de colinas  verdes? Entre as muitas
vantagens que ela oferece, tem a de ficar a pequena distncia de So
Leopoldo, que meu caro amigo poder visitar periodicamente quando sentir
a nostalgia do Vaterland".
  Winter, porm, no tardou a declarar guerra  cidade aoriana. Para
principiar no era o que ele esperava. Gostou do cenrio mas. detestou
os atores. Por outro lado,  no conseguiu razer muita clnica, pois os
mdicos locais o hostilizavam. Os costumes da terra o irritavam tanto
como os habitantes, e por fim Carl, s por birra,  comeou a meter-se em
discusses polticas, o que lhe valeu mais inimizades. Escrevia longas
cartas ao baro dando-lhe conta de seus agravos e idiossincrasias. Von
Koseritz respondia-lhe com sugestes animadoras: "A nica vantagem que
um homem solteiro tem sobre o casado  a da mobilidade. Pois se no
gosta de Porto Alegre,  mude-se. O meu caro doutor  um homem livre. Por
que no tenta as colnias? V visit-las a ttulo de experincia. Talvez
goste delas e fique por l". Winter foi,  no gostou e no ficou.
Concluiu que seus compatriotas o irritavam tanto ou mais que os nativos.
Muitos deles eram estpidos e cheios de preconceitos. Havia-os de  toda
a natureza e de todas as origens, inclusive os que se envergonhavam do
ttulo de "colonos" e declaravam no terem vindo para o Brasil trazidos
pela fome, pelo  desejo de fugir aos impostos ou de enriquecer: eram,
isso sim, exilados polticos. Alguns chegavam a insinuar at vagos
antepassados de sangue azul. Em sua maioria  ficavam indignados quando
algum os julgava mecklenburgueses, pois contava-se que as primeiras
levas de colonos vindas de Mecklenburgo eram formadas de mendigos  e
presidirios.
  460
  Winter encontrara compatriotas que haviam assimilado todos os maus
hbitos dos naturais da terra, e vira at colonos alemes que viviam
amasiados com mulatas e negras,  das quais tinham filhos. Moravam em
ranchos miserveis, andavam descalos e j estavam rodos de vermes e
sfilis. Em sua maioria, porm, prosperavam, moravam bem,  ganhavam
dinheiro, aumentavam as propriedades. Desprezavam o caboclo e eram por
sua vez desprezados pelos estancieiros, dos quais no gostavam, embora
parecessem  tem-los. Era triste ver como em seus bas e sacos, junto
com roupas e tarecos, haviam trazido para o Brasil todos os prejuzos,
rivalidades e mesquinhezas de suas  aldeias natais. No compreendiam -
os insensatos! - que lhes seria possvel passar a vida a limpo naquela
ptria nova.
  Winter decidiu ento procurar a zona rural do Rio Grande, onde no havia
ncleos coloniais alemes. Sempre desejara conhecer as terras que
ficavam para as bandas  de oeste. Um dia comprou uma bssola, um mapa e
um cavalo e meteu-se pelo interior da provncia. Queria ir at as runas
das redues jesuticas, cujas lendas tanto  o seduziam. E assim, de
estncia em estncia, de povoado em povoado, melhorando e enriquecendo
cada vez mais seu portugus, fazendo curas aqui e ali e recebendo  como
pagamento hospitalidade, mantimentos ou dinheiro, ri penetrando o
interior, subiu a serra e, antes de entrar na zona missioneira, chegou a
Santa F num entardecer  de maio. Pernoitou na vila e ficou de tal modo
fascinado pelo lugar, que resolveu ali permanecer por algum tempo,
esquecido da visita s Misses. Que havia naquele vilarejo pobre que
tanto lhe falava  fantasia? No sabia explicar. Gostara daquelas ruas
tortas, de terra batida e muito vermelha, em contraste com o intenso
verde das campinas em derredor. Achara um encanto rude e spero nas
casas e nas caras das gentes, na pracinha de rvores copadas, nos
quintais lamacentos onde roupas secavam  ao sol. Por uma razo
misteriosa Santa F lhe parecera uma vila familiar, que ele conhecia dum
sonho ou duma outra vida: tinha a impresso de haver j cruzado aquelas
ruas num passado muito remoto e s agora descobria que sempre desejara
voltar ali. No entanto aquele conglomerado de casinholas sem estilo nem
histria no se parecia  em
  461   nada com sua cidade natal de Eberbach. Por ali no corria nenhum rio que
lhe pudesse lembrar o Neckar, no se via nenhuma elevao de terreno que
sugerisse a serra  de Odenwald. E estava claro que s num pobre esprito
de pardia ele poderia comparar o sobrado de Aguinaldo Silva com o velho
castelo dos tempos de Barba-Roxa,  uma das relquias histricas de
Eberbach. Mas a verdade era que Winter pensara passar apenas uma semana
em Santa F e no entanto l estava havia j mais de dois  anos! Por qu?
Por qu? Por qu?
  Por alguns instantes, de olhos sempre cerrados, Carl Winter ficou a
passar a mo pelo trax, sentindo o relevo das costelas. Por qu? Um
mosquito esvoaava-lhe em  torno da cabea, tocando em surdina seu
violino miudinho. Mas por qu? Dona Bibiana dera uma explicao simples:
Santa F tinha feitio. E explicara: "O meu homem,  o falecido capito
Rodrigo, um dia chegou pra passar a noite na vila e ficou aqui o resto
da vida, que infelizmente foi mui curta". Sim, Santa F devia ter um
poderoso  sortilgio. Gregria acreditava em mandinga. (Luzia Silva
devia ter mandinga naqueles olhos de rptil.) Desde que chegara  vila,
Winter fazia projetos de "ir embora  na prxima semana". Ficar era
absurdo, no havia nenhuma razo pondervel para isso. Podia ir para
Buenos Aires, ou voltar para qualquer capital europia onde houvesse
teatro, msica (que falta ele sentia de teatro e de msica!) e museus
onde de quando em quando pudesse encher os olhos e o esprito com a
beleza das obras dos grandes  mestres. Queria um lugar que lhe
oferecesse conforto e oportunidades de agradvel convvio humano. Mas os
dias e as semanas passavam e ele ia ficando. Assustava-se   idia das
lguas que teria de vencer, montado no lombo dum cavalo ou ento
sacolejando dentro duma diligncia desconjuntada para chegar a Porto
Alegre e Rio Grande,  a fim de tomar um navio. Outras vezes deixava-se
ficar  espera dum acontecimento: umas cavalhadas, umas carreiras, um
batizado ou um casamento para o qual fora  convidado. Mas a verdade era
que ia ficando por pura inrcia. Durante o inverno vivia a praguejar em
alemo. O minuano entrava assobiando pelas frestas de sua casa  e o frio
lhe enregelava os membros. Punha todas as roupas quentes que tinha,
vivia na
  proximidade dos foges, erguia os olhos colricos para o cu nublado e
jurava que iria embora na semana seguinte. Mas vinham dias de sol e o
cu, despejado de nuvens,  ficava de novo dum limpo azul. Carl Winter
gostava das laranjas que as geadas faziam amadurecer, das bergamotas
gordas e douradas, sentia um prazer especial em beber  todas as manhs
leite morno, recm-sado dos beres da sua vaca malhada, e adorava os
churrascos que. Gregria lhe assava no fundo do quintal e que ele comia
com  gosto,'respingando de farinha a barba ruiva. E havia os hbitos: a
conversa de aps o almoo na loja do Alvarenga, as partidas de xadrez e
as discusses com o juiz  ou com o vigrio, os seres semanais no
Sobrado, quando Luzia tocava ctara e torturava Bolvar com sua
indiferena, e uma escrava vinha com a panela de pinho cozido  ou com
pratos cheios de bolos de polvilho. No fim de contas o inverno no
durava toda a vida e se a gente tivesse um pouco de pacincia a
primavera no tardaria  muito a vir... E Winter ia ficando. No raro
apaixonava-se por um caso de sua clnica. O coronel Amaral se tomara de
amores por ele e o fato de contar com a simpatia  e a proteo do chefe
poltico da terra dava-lhe facilidades e vantagens que ele no
aproveitava por pura preguia, pela mesma preguia que o fazia ir
ficando, ficando  sempre...
  Gostava de dar pela manh longos passeios a p pelo campo, sentindo no
rosto a brisa fresca que cheirava a sereno batido de sol. Nessas
ocasies deixava os olhos  passearem pelas coxilhas verdes onde as
macegas pareciam as cabeleiras de milhares de Fridcin soltas ao vento.
(Trude! Trude! Ich liebe dich, aber das ht j unmglich...)  Numa carta
que dirigira a Von Koseritz, descrevendo-lhe a vida que levava, dissera:
"Ich berausche mich an der Weite ds Horizontes"- tomo bebedeiras de
horizontes.  Nunca em toda a sua vida vira cus mais largos nem sentira
tamanha impresso de liberdade. Na paisagem ele descobria ento o mais
poderoso motivo de sua permanncia  em Santa F.  que ela lhe dava uma
vertiginosa sensao de ser livre, de no ter peias nem limites. De
certo modo naquela vida ele realizava pela primeira vez seu  velho ideal
de no assumir compromissos definitivos com ningum nem com coisa
alguma. No ter amo nem mestre, e poder - ah! principalmente
  462
  463
   isso - poder de vez em quando dar-se o luxo da solido, da mais
absoluta e hermtica solido, eram positivamente coisas voluptuosas! A
paisagem daquela provncia  perdida nos confins do continente americano
era doce e amiga, supinamente civilizada, um cenrio digno de abrigar a
gema da raa humana. Parecia que ao cri-la Deus  tivera em mente
povo-la de figuras como Plato, Scrates, Goethe e Shakespeare. No
entanto por ali andavam homens rudes como Bento Amaral ou ento
aberraes humanas  como aquele gnomo que se chamava Aguinaldo Silva.
Nem mesmo Luzia pertencia  paisagem. Havia naquelas distncias e
campinas, lagoas e horizontes, uma pureza e uma  inocncia que ele no
sentia na neta do pernambucano.
  O pr-do-sol de Santa F tambm o deixava exaltado. Em certos dias de
outono subia  coxilha do cemitrio para ver os crepsculos vespertinos,
que eram longos e  fantasticamente coloridos. Em certas horas o cu do
poente tomava uma tonalidade esverdeada e transparente: era como se a
cor dos campos se refletisse no vidro do  horizonte. E sobre toda a
paisagem em torno pairava uma vaga neblina violeta que acentuava as
sombras, tingia as pessoas, os animais e as coisas, parecendo aumentar
a quietude do ar e da hora. Winter ficava imvel junto dos muros do
cemitrio - entre o silncio dos mortos e aquela fantasmagoria do cu -
vendo nas nuvens castelos  das lendas do Reno, perfis de profetas
barbudos, monstros antediluvianos, rebanhos de carneiros brancos e
rosados, exrcitos em fuga, vulces, ou fabulosas cidades  de gelo
iluminadas pelo claro de incndios. Mas quando no havia nuvens os
crepsculos eram doces - azul desbotado, malva e rosa - e a paisagem
adquiria uma pureza  e uma simplicidade to grandes que Carl Winter
ficava com lgrimas nos olhos e comeava a murmurar versos de Heine, e
ao mesmo tempo a achar-se muito piegas e muito  romntico por estar
naquela atitude, fazendo e sentindo aquelas coisas. E desse modo -
atravs de seu eu cnico e de seu eu sentimental - ele gozava duplamente
da  situao.
  Adquirira o hbito de falar consigo mesmo em voz alta. Fazia-o em
alemo, em geral quando caminhava pelas ruas da vila ou saa em seus
passeios solitrios pelos  arredores. Os caboclos miravam-no
  464
   intrigados - Winter percebia com o rabo dos olhos. Mas mesmo
quando encontrava estranhos continuava em seu solilquio, pois tinha a
impresso de que, como  falava alemo, a coisa toda perdia o seu
carter absurdo. Ouvira um dia uma das velhotas da vila dizer: "O alemo
 louco da cabea". Mein Gott! Louco da cabea.  Lcido demais, isso
sim. E era essa lucidez que s vezes o impedia de gozar melhor a vida.
  Um dia seu eu romntico lhe perguntara: "Carl, quando voltas para casa?"
Com casa ele queria dizer - a ptria, a cidade natal, Eberbach. "Ach!"-
respondera o seu  eu cnico. "Quando a Alemanha for unificada e eu no
correr o perigo de ser preso. E quando Trude Weil estiver to gorda e
feia que meu corao j no possa mais  bater de amor por ela."
  Winter deu um tapa no ar, procurando apanhar o mosquito e silenciar
aquele violino enjoativo. Trude... Trude... Quando se olhava no espelho
Winter compreendia por  que Gertrude o tinha esquecido em favor do filho
do burgo-mestre. Seus olhos eram dum cinzento frio e feio; seus cabelos,
dum louro avermelhado como o das barbas  de milho das roas de Santa F;
sua pele, branca e oleosa, com manchas rosadas, lembrava salsichas
cruas. No. Ele no tinha a menor iluso quanto  sua aparncia  fsica.
Trude era uma rapariga de bom gosto e uma criatura sensata. Dono duma
loja de Delikatessen, o filho do burgo-mestre era gordo, corado e tinha
uma beleza slida  e estpida. A escolha no podia ter sido melhor.
Grande rapariga! Sensata Friiidein!
  E Carl Winter de novo comeou a apalpar o trax e as pernas, como se
tivesse certo orgulho de seu corpo anguloso e feio ou como se o fato de
ser magro e desengonado  o divertisse.
  Tentava agora lembrar-se de Gertrude. No podia. O mais que via em seus
pensamentos era uma silhueta de mulher de tranas louras, e com uma face
vazia de feies.  Mas era ainda com um certo desfalecimento de corao
que pensava nela. A ferida estava cicatrizada - conclua - mas a
cicatriz era sensvel, comichava muito e ao  menor descuido podia
abrir-se e sangrar...
  465
  Mas como pode a gente amar uma mulher de cujas feies no se lembra
mais com nitidez? Ser que eu amo a idia de Trude mais que sua pessoa?
Quem sabe? Ach!
  Winter revolveu-se na cama, ficou deitado de lado e finalmente resolveu
erguer-se e ir at a janela. Foi. Debruou-se no peitoril e ficou
olhando para o quintal  da casa do vigrio. Nu, debruado a uma janela,
em Santa F, olhando para o quintal da casa do padre Otero. Mein Gott!
Tudo aquilo parecia impossvel; pelo menos era improvvel...
  As estrelas brilhavam. Do galinheiro do vizinho veio um rudo de asas.
Raposa? No. Se fosse, haveria um pnico geral. Um galo cantou num
terreiro distante. Winter ficou a pensar no que havia de contar daquela
provncia a seus amigos, se um dia voltasse para casa.
  A paisagem era civilizada, mas os homens no. Tinham rudes almas sem
complexidade, e eram movidos por paixes primrias. A lida dos campos e
das fazendas tornava-os speros e agressivos. Lidar com potros bravos,
curar bicheiras, sangrar e carnear o gado, laar, fazer tropas - eram
atividades violentas que exigiam fortaleza no s de corpo como tambm
de esprito. (Winter sempre prometia a si mesmo tomar nota daquelas
reflexes num caderno, mas nunca chegava a faz-lo. Ach, s um vadio,
Cari!) Depois havia as guerras. Era raro passar uma gerao que no
visse pelo menos uma guerra ou uma revoluo. E como eram primitivas
aquelas guerras em que brasileiros e castelhanos se engalfinhavam -
primitivas na estratgia e nos armamentos. Mas nem por isso eram menos
brutais e cruis que as guerras europias. Winter ouvia sempre contar
histrias de entreveros, de cargas de lana, de atos de coragem e
desprendimento mas tambm de crueldades e traies. Em muitos casos os
soldados lutavam descalos e armados de lanas de pau; eram mal
alimentados e raramente ou nunca recebiam seu soldo. Poucos sabiam ao
certo por que lutavam, mas havia na provncia a tradio de "pelear com
os castelhanos", e seus homens encaravam as invases como uma
fatalidade, como um ato de Deus - uma espcie de praga peridica to
inevitvel como uma seca ou uma nuvem de gafanhotos. Merc dessas lutas
haviam surgido verdadeiros
  466
   senhores feudais na provncia. Eram os estancieiros como o coronel
Amaral, a quem o governo amparava e dava privilgios, na certeza de que
na hora da guerra eles viriam com seus pees, agregados, amigos e
assalariados para engrossar o exrcito regular. Winter achava esquisito
sabor em comparar estancieiros como Bento  Amaral com os Junker
prussianos; e quando via a cicatriz em forma de P que ele tinha numa das
faces, no podia deixar de fazer paralelos entre os duelos acadmicos
de Heidelberg e o feroz corpo-a-corpo como aquele em que o falecido
marido de dona Bibiana havia deixado sua marca no rosto do adversrio.
  Dona Bibiana! Ali estava uma criatura de valor. Com umas duzentas
matronas como aquela estaria garantido o futuro da provncia. Entretanto
o destino das mulheres  naquele fim de mundo era bem melanclico. No
tinham muitos direitos e arcavam com quase todas as responsabilidades.
Sua misso era ter filhos, cri-los, tomar conta  da casa, cozinhar,
lavar, coser e esperar. Dificilmente ou nunca falavam com estranhos e
Winter sabia que um forasteiro que dirigisse a palavra a uma senhora
corria  o risco de incorrer na ira do marido, do pai ou do irmo dessa
senhora, que lhe viria imediatamente "tirar uma satisfao". Os homens,
esses podiam sair em aventuras  amorosas, a fazer filhos nas chinocas
que encontrassem pelo caminho, nas escravas ou nas concubinas; mas ai de
quem ousasse olhar mais demoradamente para suas esposas  legtimas! Eram
estas em sua maioria analfabetas ou de pouqussimas letras e tinham uma
assustadora tendncia para a obesidade. (Trude! Trude! Toma cuidado.)
Eram  tristes e bisonhas, e as contnuas guerras quase no lhes
permitiam tirar o luto do corpo; por isso traziam nos olhos o permanente
espanto de quem est sempre a  esperar uma notcia trgica.
  O cdigo de honra daqueles homens possua um ntido sabor espanhol.
Falavam muito em honra. No fim de contas o que realmente importava para
eles era "ser macho".  Outra preocupao dominante era a de "no ser
corno". No levar desaforo para casa, saber montar bem e ter tomado
parte pelo menos numa guerra eram as glrias supremas  daquela gente
meio brbara que ainda bebia gua em guampas de boi. E a importncia que
o cavalo tinha
  467
  na vida da provncia! Para os "continentinos" o cavalo era um
instrumento de trabalho e ao mesmo tempo uma arma de guerra, um
companheiro, um meio de transporte;  para alguns gachos solitrios as
guas serviam eventualmente de esposa. Winter conhecia ali homens que 
fora de lidar com cavalos comeavam j a ter no rosto  traos eqinos.
  Mas era preciso ter pacincia e compreender que aquele era um pas novo,
ainda na sua primeira infncia. Havia nas gentes da provncia um certo
acanhamento desconfiado  que nos homens se transformava num ar
agressivo. Falavam alto, com jeito dominador, de cabea erguida. Entre
fascinado e assustado, Winter assistira a vrias carreiras  em cancha
reta, e mais de uma vez o haviam chamado para atender algum homem que
fora estripado num duelo por causa duma "diferena de pescoo" ou de
qualquer outra  dvida quanto  deciso do juiz. Gostava de ver certo
tipo de gacho que se sentava no cho para jogar cartas e antes de
comear o jogo cravava sua adaga na terra,  entre as pernas abertas,
numa advertncia muda ao adversrio.
  Os lavradores daquela provncia s agora comeavam a conhecer e usar o
arado bblico. E ningum ali - suprema medida duma civilizao! - sabia
fazer bom po e bom  vinho.
  Tratava-se positivamente duma sociedade tosca e carnvora, que cheirava
a sebo frio, suor de cavalo e cigarro de palha. As casas eram pobres,
primitivas, sem gosto  nem conforto, quase vazias de mveis; em suas
paredes caiadas no se via um quadro, uma nota de cor que lhes desse um
pouco de graa. No inverno o minuano entrava  pelas frinchas, cortante
como uma navalha. Nos dias de chuva os homens traziam barro para dentro
de casa nas suas botas ou nos ps descalos. Havia em tudo uma
rusticidade  e uma aspereza que estavam longe de ter o encanto antigo e
a madureza das coisas e gentes camponesas da Baviera, da Pomernia ou do
Tirol - onde existia uma tradio  no que dizia respeito a mveis,
roupas, comidas, danas, lendas e canes. Os "homens machos" da
provncia de So Pedro pareciam achar que toda a preocupao artstica
era, alm de intil, efeminada e por isso olhavam com repugnada
desconfiana para os que se preocupavam com poesia, pintura ou
  468
  certo tipo de msica que no fossem as toadas montonas de seus
gaiteiros e violeiros.
  Como era escassa a msica daquela gente! No passava duma cantilena que
tinha o ritmo do trote do cavalo, um lamento prolongado, pobre de
melodia.
  Infelizmente em Santa F Winter tinha de contentar-se com as peas que
Luzia dedilhava na ctara ou ento com a msica que ele prprio
produzia. Na Alemanha fizera  parte dum quarteto de cordas de amadores,
como violinista. (Hans, Hugo, Joseph, onde estais a estas horas?)
Reuniam-se nas noites de sbado para tocar Mozart, Beethoven  e
Schubert, beber cerveja e fumar cachimbo nos intervalos entre um e outro
quarteto.
  Carl olhou para o cu estrelado e por alguns momentos ficou a ouvir
fragmentos de melodias do passado. Depois fez meia-volta e, grave e nu,
caminhou at o lugar  onde estava o estojo do violino, abriu-o e tirou
dele o instrumento com o ar de quem ergue o cadver duma criana de
pequeno esquife negro. Feriu as cordas com o  indicador, afinou-as como
pde e depois comeou a tocar em surdina a Serenata de Haydn. A
musiquinha doce encheu o quarto, fugiu para a noite.
  Nunca esta melodia andou no ar de Santa F - pensou Winter com esquisita
satisfao. Continuou a tocar marcando o compasso com o p longo e
descarnado, enquanto  em sua mente Hans, Joseph e Hugo faziam o
acompanhamento em pizzicato. Era como se o velho quarteto de amigos se
tivesse reunido de novo para um sero musical.
  Na praa, sob a figueira, Bolvar dormia, recostado ao velho tronco, com
a cabea cada sobre o peito, a boca entreaberta. A seu lado, fumando em
paz, Florncio  velava o sono do amigo, como um anjo da guarda.
  Sentada na cama, com o busto muito teso, as mos pousadas no colo,
Bibiana contemplava o filho que, diante do pequeno 
  469 espelho, procurava dar a laada na gravata de seda preta. Ela viu que o
colarinho alto e engomado sufocava o rapaz, e que sua roupa domingueira
de casimira preta o  deixava contrafeito e ao mesmo tempo irritado. O
suor escorria-lhe em grossas bagas pelo rosto, empapando-lhe o colarinho
e a camisa. Bolvar fungava e bufava, impaciente,  enquanto seus dedos
desajeitados lutavam em vo com a gravata.
  Como ele est abatido! - refletiu Bibiana. - Tambm, passou a noite em
claro e no  brincadeira ficar noivo duma moa como Luzia Silva. Tem de
estar nervoso mesmo...
  - No posso! - exclamou Bolvar, dando um puxo na gravata. - No sei
arrumar esta porcaria.
  - Tenha pacincia, meu filho.
  - No posso!
  - Pode, sim. Querer  poder.
  Bibiana lembrou-se de sua av e achou graa por ter falado exatamente
como ela. Querer  poder. Se Ana Terra estivesse ali agora ia ficar
orgulhosa do bisneto. Se  o capito Rodrigo pudesse ver o Bolvar
crescido...
  Seus olhos de repente se turvaram de saudade. E ela viu o marido em
pensamento. Apeava do cavalo, de bombachas brancas, esporas de prata,
leno vermelho no pescoo  e caminhava para ela de cabea erguida e
olhos atrevidos: "Como l vai, minha prenda?"
  A voz do filho cortou-lhe o devaneio.
  - No tem jeito. No posso. Bibiana ergueu-se e caminhou para ele.
  - Deixe ver. Quem sabe se sua me acerta...
  Bolvar alou um pouco o queixo. A cabea de Bibiana mal lhe chegava aos
ombros. Enquanto seus dedos procuravam dar a laada, ela foi envolvida
pelo calor do corpo  suado do filho e no pde evitar um pensamento que
lhe pareceu vagamente indecente: O cheiro do pai. Sentiu tambm como
batia forte o corao do rapaz e como seu  peito arfava. Lembrou-se dos
tempos em que o embalava nos braos e sorriu para esta lembrana.
  - De que  que est rindo? - quis ele saber.
  - De nada. Duma coisa que pensei.
  470
  Depois, mudando de tom, perguntou:
  - Est nervoso?
  - No - mentiu ele.
  Tinha na cabea uma forca e uma voz que cochichava: "Daqui a pouco vo
matar o Severino". A apreenso e o medo como que lhe apertavam o
corao, insuportavelmente.
  - Pronto - disse Bibiana, dando o ltimo toque na laada.
  - Veja se est direito.
  Voltou a sentar-se na cama. Bolvar mirou-se no espelho.
  - Acho que est - disse.
  Tomou dum pente e comeou a pass-lo na cabeleira preta e ondulada.
  Foi ento que Bibiana percebeu que ela tambm estava nervosa. No era s
por causa do pobre do negro Severino que ia morrer. Era tambm por causa
do noivado. Seu  segredo - um segredo to grande que no tivera a
coragem de cont-lo a ningum, to grande que s vezes tinha medo de
coment-lo consigo mesma
  - o seu imenso segredo como que se lhe avolumava agora dentro do peito,
apertando-lhe o corao, e tornando-lhe custosa a respirao. Ningum
compreendia por que  tinha ela aprovado o casamento do filho com a neta
de Aguinaldo. S ela sabia o motivo...
  Lembrava-se duma conversa que tivera com o irmo:
  - Mana, vossunc fez mal - dissera Juvenal, com seu jeito srio e
sossegado. - Fez muito mal em ajudar esse noivado. No compreendo como 
que uma pessoa ajuizada  como vossunc faz gosto nesse casamento. A
Luzia no  mulher pr Boli. E uma moa de cidade criada com mimo, e sem
a menor serventia.
  Ela ficara calada, apertando os lbios para evitar que seu segredo se
escapasse. Podia contar tudo ao Juvenal. No era uma pessoa do mesmo
sangue? No era o seu  nico irmo? Mas no contou, e por isso sentiu
aumentar o peso daqueles pensamentos secretos.
  Juvenal tinha dito mais:
  - Depois, o Aguinaldo  um ladro. No sei como  que vossunc pode
esquecer que esse homem roubou as terras de nosso pai.
  471  - Quem lhe disse que esqueci?
  - Pois se no esqueceu, pelo menos parece.
  - Eu sei o que estou fazendo, mano.
  E estas palavras cortaram a discusso. Juvenal encolhera os ombros,
murmurando:
  - Queira Deus que tudo saia bem. Mas eu duvido.
  Sim, um dia Pedro Terra necessitara de recursos para plantar uma lavoura
de linho e trigo (sempre a mania do trigo!) e por isso fora obrigado a
pedir dinheiro emprestado  a Aguinaldo Silva, dando-lhe como garantia
sua casa e o terreno de esquina, cujo valor era trs vezes maior que o
do emprstimo. Numa sucesso de safras infelizes a lavoura se fora guas
abaixo e como, vencido o prazo da hipoteca, Pedro no tivesse dinheiro
para resgat-la e Aguinaldo no quisesse dar-lhe a menor prorrogao, as
propriedades dos Terras passaram inteiras para as mos do av de Luzia.
Foi com dor no corao que Pedro abandonou sua casa, pois Aguinaldo
queria o terreno para construir nele um sobrado. Bibiana lembrava-se de
que o nico comentrio que o pai fizera no dia em que se mudara para um
rancho de barro, resumia-se em poucas palavras: "Ainda bem que a Arminda
est morta". E nunca mais falou no assunto. Mas via-se no rosto dele que
alguma coisa o estava roendo aos poucos por dentro. Comeou a definhar,
a envelhecer, no tomava interesse em mais nada e vivia triste, com
olhos de cachorro escorraado. Chorou - sim, chorou como Bibiana jamais
vira homem algum chorar - no dia em que pedreiros comearam a
derrubar-lhe a casa. Era como se aquelas macetas, martelos e picaretas
que golpeavam as paredes de sua meia-gua estivessem tambm a quebrarlhe
os ossos, um por um.
  Agora l estava o Sobrado como um intruso em cima daquela terra querida.
Era como se o casaro do pernambucano houvesse esmagado a casinha onde
vivera Ana Terra e onde ela, Bibiana, noivara com o capito Rodrigo. L
estavam ainda as rvores que Pedro ajudara a plantar com suas prprias
mos e amava quase tanto como a seus prprios filhos. Sempre que passava
pelo Sobrado, Bibiana lanava um olhar para aquelas laranjeiras,
pessegueiros, cinamomos e marmeleiros e tinha a sensao de que eles
eram
  472
  parentes seus que a espiavam, tristes, por trs das grades duma priso.
Era por isso que continuava a alimentar a certeza de que aquela terra
ainda lhe pertencia e que portanto o Sobrado era tambm um pouco seu.
  O tempo passou. Dizem que tempo  remdio para tudo. O tempo faz a gente
esquecer. H pessoas que esquecem depressa. Outras apenas fingem que no
se lembram mais...
  Quando Aguinaldo comeou a procurar e adular Bolvar e Florncio, ela
teve vontade de dizer-lhes: "No falem com esse excomungado. Foi ele
quem matou meu pai de  desgosto". Mas no disse. Os rapazes eram ainda
muito novos quando todas aquelas coisas tristes haviam acontecido. E
mesmo que ela dissesse, no adiantava nada.  Os moos nunca aceitam
muito as razes dos velhos. Alm disso, o diabo do nortista era jeitoso,
sabia falar bem, tinha mel na voz. E quando Luzia chegou da Corte  e os
meninos comearam a andar atrs dela como cachorrinhos assanhados ao
redor duma cadela, seu primeiro mpeto foi o de levar Boli para longe, a
fim de evitar  que ele se apaixonasse pela forasteira.
  Foi ento que lhe veio aquela idia doida... A coisa aconteceu de
madrugada. Ela acordou de repente, pensando no marido. Teria sonhado com
ele? No se lembrava.  Mas ficou em todo caso pensando na noite da morte
de Rodrigo... Ela estava sozinha em casa, com o corao pulando no peito
e uma apertura na garganta; ouvia o pipocar  do tiroteio e esperava em
agonia o fim do combate. E quando o padre Lara lhe apareceu, no foi
preciso que ele dissesse uma nica palavra. Ela adivinhou tudo: tinham
matado seu homem! Mais tarde lhe contaram que o capito recebera um
balao no peito quando tentava tomar o casaro dos Amarais. Tomar o
casaro.
  Sentada na cama, no quarto escuro, ela comeou a pensar no Sobrado, nas
suas rvores, em Luzia e em Bolvar. Tomar o Sobrado... Se Bolvar
casasse com Luzia, ele  ficava sendo o dono do Sobrado. Ela, Bibiana,
iria viver com o filho, voltaria para o seu cho... Aguinaldo estava
velho e no podia durar muito tempo... No princpio  ia ser difcil
viver com aquele corcunda, sob o mesmo
  473 teto. Mas a casa afinal de contas era grande, e sua posse valia todos os
sacrifcios...
  Naquela noite Bibiana tomou a grande resoluo. Ia casar Bolvar com
Luzia. A moa podia ser leviana, podia ser isto e mais aquilo. Mas seu
filho afinal tinha nas  veias o sangue do capito Rodrigo, e nunca um
Cambar se deixaria dominar por uma mulher. Fosse como fosse, ela
estaria sempre junto dele para ampar-lo e dar-lhe  conselhos...
  Estava resolvido: ia tomar o Sobrado. No de assalto, aos tiros, como o
capito Rodrigo. Agora no havia nenhuma pressa. Era mulher, tinha
pacincia, estava acostumada  a esperar... Que era um ano, dois anos,
dez anos? Um dia Aguinaldo morre, Bolvar fica de dono de tudo, eu volto
pras minhas rvores, vou ver nascer os filhos de  meu filho, vou ajudar
a criar meus netos...
  Bibiana agora sorria para seus pensamentos. Mas no fundo do corao ela
temia o futuro.
  Faltavam poucos minutos para as quatro quando Florncio apareceu.
  - Est quase na hora - disse ele. - Vamos embora?
  Por que ser que esse menino no olha direito pra mim? - estranhou
Bibiana.
  - Vamos, Boli - disse ela. - O noivo no pode chegar tarde.
  Dirigiu-se  outra pea para apanhar o guarda-sol, e ao passar pelo
sobrinho, perguntou:
  - E o Juvenal?
  Sem encarar a tia o rapaz deu uma resposta evasiva:
  - O papai est em casa.
  - Brabo com a gente? Florncio hesitou.
  - N... no. Por que havia de estar?
  - Ele  contra este noivado.
  - No  bem assim, titia.
  - . Eu sei.
  - A senhora compreende... O velho  opinitico.
  - Basta ser Terra.
  Florncio sorriu, brincando com o chapu. O suor escorria-lhe pela testa
e seus olhos estavam estriados de sangue. Coitado - pensou Bibiana. E
sorriu com simpatia  para o sobrinho.
  Saram. A claridade da tarde era to forte que por um instante os deixou
ofuscados. Comearam a caminhar de olhos apertados. Sob o guarda-sol
aberto, Bibiana ia  muito tesa no seu vestido de cassa preta, ladeada
pelos dois rapazes. Ar parado. As sombras sobre a terra vermelha eram
dum preto arroxeado. Corvos voavam contra  o azul desbotado e luminoso
do cu.
  Bolvar sentia o sangue martelar-lhe as tmporas com fria compassada, e
a cabea agora lhe doa tanto que parecia prestes a estourar. Pensava
simultaneamente no  Sobrado e na forca, em Severino e em Luzia. O
colarinho dava-lhe uma sensao de estrangulamento, e sob a grossa roupa
preta, seu corpo estava j todo mido de suor.
  Andaram por algum tempo em silncio. Iam cumprimentando os conhecidos
que se achavam s portas de suas casas ou que espiavam por cima das
cercas dos quintais. Ondina,  a filha do Alvarenga, assomou  sua
janela, sorriu e disse:
  - Ento, dona Bibiana,  hoje o grande dia?
  Era plida, tinha uma voz meiga, e olhos negros duma tristeza humilde de
ovelha.
  -  verdade - respondeu a me de Bolvar. - A sua vez tambm h de
chegar, Ondina.
  Florncio viu os olhos da rapariga pousarem uni instante nos seus, muito
a medo, mas dum modo que o deixou perturbado. Desajeitado, bateu com
dois dedos na aba do  chapu.
  Quando j estavam longe de Ondina, Bibiana voltou a cabea para o
sobrinho e murmurou:
  - Uma boa moa pra vossunc casar, Florncio. - Deu meia dzia de passos
em silncio e depois prosseguiu: - E muito prendada, sabe fazer renda de
bilro como ningum,   sossegada, boa dona-de-casa e uma doceira de
mo-cheia.
  474
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  - Florncio nada disse. Coou a ponta da orelha, encabulado, pigarreou de
leve e continuou a olhar para a frente na direo da capela.
  - E  bem bonitinha - acrescentou Bibiana. - Mas por que  que vossunc
est com cara de velrio, meu filho?
  Bolvar no respondeu. O suor fazia arder-lhe as faces recm escanhoadas
e uma dor latejante na cabea deixava-lhe as idias confusas.
  - Ele anda triste por causa do Severino - explicou Florncio. Estavam
agora os trs a menos duma quadra da praa e j
  podiam ver o movimento das pessoas que procuravam lugares em torno da
forca. Lenos, roupas e vozes alegres ao sol - aquilo parecia uma festa.
  -  o diabo - concordou Bibiana. -  o diabo. Eu tambm tenho pena do
negro. Afinal de contas a gente viu ele crescer como se fosse uma pessoa
da famlia... - Suspirou.  - Mas no foi pelo que eu fiz que ele vai ser
enforcado.
  Estas palavras doeram em Bolvar.
  - Mas vo cometer uma injustia! - exclamou ele. -- O Severino est
inocente!
  Bibiana achou melhor no discutir. Ficou pensando, apreensiva, no que
podia acontecer na hora do enforcamento. Bolvar estava nervoso: a forca
tinha sido erguida  bem na frente do Sobrado... Sim, teria sido melhor
que Luzia houvesse concordado em transferir a festa para outro dia.
  Comearam a atravessar a praa. Um homem achava-se sentado numa pedra,
alisando uma palha de milho com as costas da faca. Era o Chico
Carreteiro. Ao ver o grupo  o caboclo dirigiu-se a Bolvar e caoou:
  - Ento vamos ter hoje dois enforcamentos ao mesmo tempo, no?
  Mostrou os dentes escuros num sorriso rasgado. Bolvar teve vontade de
atirar-se sobre ele e partir-lhe a cara a bofetadas. Cerrou os punhos,
olhou duro para a frente  e no respondeu. Bibiana, porm, sorriu para o
carreteiro e disse:
  -  verdade, seu Chico,  verdade.
  476
  -  preciso ser muito malvado pra gozar com o sofrimento alheio -
observou Florncio em voz baixa, olhando as pessoas que disputavam
lugares ao redor do cadafalso.  Tirou o relgio do bolso e olhou o
mostrador. - E ainda falta mais duma hora!
  Aproximavam-se do Sobrado que l estava, muito branco, com suas janelas
de caixilhos azuis, o telhado pardo e limoso, as vidraas chamejando ao
sol. Como ficavam  bonitos os azulejos do porto assim num dia claro -
refletia Bibiana. E seus olhos saudaram as rvores: "Tenham pacincia.
Qualquer dia eu venho tomar conta de vossuncs".
  O capito Rodrigo naquela noite de 1836 correra armado de espada e
pistola para a casa dos Amarais... Mas ela agora ia tomar o Sobrado
completamente desarmada: levava  apenas um guarda-sol na mo e aquele
segredo no peito. O dono da casa ia receb-la de braos abertos.
  Sentado em uma cadeira de respaldo alto e lavrado - que achava
supinamente incmoda - o dr. Winter passeava em torno o olhar curioso.
Fora o ltimo dos convidados  a chegar ao Sobrado e lamentava ter
perdido a arenga que Aguinaldo Silva fizera aos presentes para anunciar
o contrato de casamento da neta com Bolvar Cambar.  A vasta sala de
visitas estava muito clara de sol e Carl notou que o reflexo tricolor da
bandeirola duma das janelas tingia a face e o pescoo de Luzia. Uma
estigmatizada  - fantasiou ele. Achou-a perversamente linda. Estava ela
sentada no sof ao lado do noivo, vestida de crinolina verde, de saia
muito rodada com aplicaes de renda;  tinha cravado nos cabelos dum
castanho profundo grande pente em forma de leque, no centro do qual
faiscava um brilhante. Winter pensou imediatamente na bela e jovem
bruxa moura que o diabo, segundo a lenda que corria pela provncia,
transformara numa lagartixa cuja cabea consistia numa pedra preciosa de
brilho ofuscante. Como  era mesmo o nome do animal? Ah! Teiniagu. A sua
Musa da Tragdia havia agora virado teiniagu.
  477
   Winter pensava essas coisas e sorria, apertando o charutinho entre
os dentes.
  O dr. Mascarenhas conversava animadamente com Aguinaldo. Bibiana gritava
ao ouvido da esposa do juiz, que era surda, e a boa senhora lhe
respondia com sua voz fosca  e branda. Winter percebeu que trocavam
receitas de doces e gastavam acar e ovos em grande profuso: era, por
assim dizer, uma conversa temperada de canela, cravo  e noz-moscada.
Bolvar parecia nervoso e Winter sentia no ar algo de pressago e
equvoco que comeava a deix-lo um pouco inquieto.
  Sentado numa cadeira, pitando tranqilamente seu cigarro de palha,
Florncio de vez em quando lanava um olhar morno na direo de Luzia e
do primo. O padre Otero  no chegara ainda, pois estava ocupado com
Severino: tinha de prepar-lo para morrer e devia assisti-lo at o
ltimo momento.
  Winter julgava perceber no rosto do dono da casa certo desapontamento
ante o fato de no ver ali na sala a maioria das pessoas que convidara
para a festa. Toda a  gente sabia que os Amarais detestavam Aguinaldo
Silva e recusavam-se a pr os ps no Sobrado. Quanto aos outros, era
tambm sabido que no morriam de amores pelo  pernambucano, pois raro
era o santa-fezense que no se julgasse de qualquer forma lesado por ele
ou que no tivesse pessoa da famlia ou amigo de peito entre as  vtimas
do que eles chamavam "as bandalheiras do corcunda". Alm disso -
refletiu Winter - muitos dos convidados decerto acharam que seria mais
divertido ficar na  praa para ver Severino estrebuchar na forca do que
vir para o Sobrado ouvir Luzia tocar ctara.
  Aguinaldo, desinquieto como sempre, andava dum lado para outro na sala.
Com sua corcunda pronunciada, a cabea triangular, a barba de chibo, o
av de Luzia lembrava  a Winter um gnomo em verso cabocla.
  - Isso est muito desanimado, minha gente! - exclamou o velho. - At
parece velrio de pobre. Luzia, toque um pouco de msica. Vamos animar a
festa.
  Deu dois pulinhos, esfregando as mos fortemente uma contra a outra, e
gritou na direo da cozinha:
  - Si Rosa, mande trazer a refrescalhada!
  Bolvar passava o leno vagarosamente entre o colarinho e o pescoo. A
cabea ainda lhe doa e agora a sede, uma sede desesperada, secava-lhe a
goela, ressequia-lhe  a boca. Um refresco chegava em boa hora.
  - Vamos, menina, toque um pouco! - tornou a pedir Aguinaldo.
  Luzia sacudiu a cabea de leve: o diadema chispou.
  -  muito cedo ainda, vov. Depois eu toco.
  Tinha uma voz grave e musical, uma voz - achava Winter - cujo registro
correspondia ao da viola. Era quente, mida, profunda, veludosa - to
excitante que parecia  vir-lhe do sexo e no da boca - refletiu ainda o
mdico. A comparao podia ser grosseira; pelo menos ele nunca a poderia
fazer em voz alta. Entretanto, era exatamente  isso que ele sentia.
Pensou em Trude, cuja voz fina e melodiosa lembrava a dum obo. Que
contraste!
  Bolvar nunca conseguia explicar a si mesmo por que ficava to excitado
quando a noiva falava. Aquela voz tinha feitio, punha-lhe uns arrepios
no corpo. Quando  a ouvia, ele tinha mpetos de saltar sobre Luzia,
rasgar-lhe as roupas e am-la com fria. Agora, porm, eram outros os
sentimentos que o perturbavam. Metade de  seu ser estava na sala: a
outra metade, l fora. Seus olhos de instante a instante voltavam-se
para a janela, mesmo contra sua vontade. Uma sensao de perigo iminente
apertava-lhe o peito. Ele sabia que s cinco em ponto Severino ia ser
enforcado; era por isso tambm que no perdia de vista o relgio grande
de pndulo que estava  a um canto da sala contgua, e o qual ele via
atravs da porta. Eram quatro e vinte: o pndulo de lato oscilava
compassadamente. As cinco Severino ia ficar pendurado  na forca,
balanando dum lado para outro.
  Bolvar olhou para as mos muito brancas de Luzia, que repousavam sobre
o verde da saia, segurando o leque: seus dedos eram finos, compridos,
delicados, e estavam  cheios de anis. Olhou para as prprias mos
rudes, queimadas de sol, cabeludas e sombreadas de veias. As mos dele
nada tinham a ver com as dela. No entanto em  breve um padre ia uni-las
para sempre. Bolvar percebeu
  478
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  que a noiva o contemplava e sentiu seu mal-estar aumentar, pois sabia
que seu rosto estava revelando todos os seus segredos. Levou
automaticamente o leno s faces,  ficou a fingir que enxugava o suor,
mas na verdade o que queria era escond-las.
  Um escravo entrou com uma bandeja cheia de copos de limonada e comeou a
andar  roda, oferecendo-os aos convivas.
  - Chegue sua cadeira pra c, doutor! - convidou o juiz de direito,
dirigindo-se ao mdico. - Faz tempo que no trocamos idias. . Faz
tempo.
  Winter obedeceu. Aguinaldo deu-lhe um copo de refresco, dizendo:
  - Sinto muito no ter uma boa cerveja pra oferecer ao amigo.
  - Ach! No faz mal.
  - Dizem que em So Leopoldo j se fabrica boa cerveja - comentou o dr.
Nepomuceno. - Seus compatriotas, dr. Winter, so especialistas em
cerveja. - Inclinou a cabea,  numa reverncia. - Como em muitas outras
coisas mais. - E repetiu: - Como em muitas outras coisas mais.
  Falava sempre com ar sentencioso, por mais terra-a-terra que fossem as
coisas que dissesse. Orgulhava-se de ser um conhecedor profundo da
poltica nacional, que  acompanhava atravs dos jornais da Corte com
escrupuloso interesse e com a imparcialidade que convinha a um juiz.
  - Eu estava dizendo ao sr. Aguinaldo - contou ele, inclinando a cabea
na direo de Carl Winter - que se o marques de Olinda tivesse ficado no
governo com seu ministrio  conservador, as coisas teriam tomado outro
rumo. Ele era contra a nossa interferncia nas questes do Prata. Mas
veio o Patilino Sousa e seguiu a poltica intervencionista,  fez aliana
com Urquiza e o resultado foi a guerra contra Rosas.
  - Mas ganhamos essa guerra! - exclamou Aguinaldo, com os bigodes e a
pra respingados de limonada. - E ali esto dois moos que viram a coisa
de perto!
  Lanou para Bolvar e Florncio um olhar cheio duma ternura quase
paternal.
  A esposa do juiz dizia a Bibiana:
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  - Agora, a senhora sabe, quindim gasta muito ovo. Mas o Nepomuceno 
louco por quindim.
  A outra, porm, no a escutava. Olhava para o filho com uma sensao de
amoroso orgulho que chegava quase a ser sufocante. Parecia vir dele uma
onda de calor que  a envolvia como um abrao. Mas quando Bibiana desviou
o olhar de Bolvar e focou-o em Luzia teve a impresso de receber de
repente um sopro de gelo. Diziam que o  minuano vinha dumas montanhas
geladas do Chile e da Argentina. Pois Luzia parecia mesmo uma montanha
coberta de geada.  bonita - refletiu Bibiana - isso ningum  pode
negar. Mas  uma boniteza m, uma boniteza de pecado. Bolvar precisa
domar essa potranca no primeiro dia do casamento, seno est perdido.
  - ... e o ano passado eu quis fazer marmelada branca mas no pude
acertar direito o ponto - prosseguia a esposa do magistrado, com seu
peito magro de tsica a arquejar.
  Bibiana voltou para ela uns olhos onde havia um tpido interesse e
sorriu para dar a entender  interlocutora que a escutava. Mas, na
verdade, naquele momento ela  estava era sentindo o Sobrado. No! Ela
estava sentindo seu cho. A casa de seu pai ficava naquele mesmo lugar
onde agora estava o Sobrado. Faz de conta que esta   a nossa varanda.
Ali est a parede empenada, que vov dizia que estava grvida. Ali a
mesa, com as cadeiras; l naquele canto, a talha. Papai est pitando,
sentado  na cadeira de balano. Eu at vejo a fumaa do cigarro dele. A
mame est fazendo croch perto da mesa. Eu estou aqui e o capito
Rodrigo, que chegou h pouco,  pediu licena e est picando fumo pra
fazer um crioulo. Por que ser que papai no fala com ele? Birras de
velho. No faz mal: com o tempo ele vai acabar gostando  do genro.
Ningum resiste queles olhos de gavio. Eu at nem posso olhar direito
pra eles: fico meio zonza.  por isso que estou olhando s pras botas do
capito.  E ele vai dizendo coisas, contando histrias da sua vida:
guerras, viagens, brigas, guerras, viagens, brigas... Todos escutam.
Noite de Finados. Algum est cantando  na venda do Nicolau. A voz  a
do capito. Mas ele no pode estar l na venda e aqui em casa ao mesmo
tempo. Por que no pode? O capito Rodrigo pode
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  tudo. O padre Lara chega, diz boa-noite, senta-se, chiando como um gato
velho. Coitado! Est enterrado perto da sepultura da vov. Decerto de
noite os dois ficam  ali no cemitrio conversando sobre os vivos,
rindo-se deles... O capito Rodrigo j acendeu o cigarro. Papai olha o
relgio como quem quer dar a entender que  tarde.  Ento meu noivo se
levanta, vai embora e eu fico pensando nele e nas coisas que tenho que
fazer amanh. Pular da cama s cinco, tirar leite, encher lingia, dar
milho pras galinhas, matar formigas pra elas no estragarem as
plantas... Com essa cintura fina a Luzia parece uma formiga, uma sava
grande. Mas formiga se esmaga  com o p. E sapo tambm. E os olhos de
Bibiana se voltam para Aguinaldo.
  Depois passeiam lentos e avaliadores em torno da sala. Aquele espelho
grande de moldura dourada  muito bonito, deve ter custado um dinheiro.
E um dia ainda quero  ver naquele vidro o Aguinaldo dentro dum caixo de
defunto, com quatro velas acesas do lado. Deus me perdoe, no desejo o
mal de ningum, mas todos um dia morrem.  Amm. E  bem bonita a moblia
- refletiu ela, olhando para o consolo de mrmore, sobre o qual estava a
ctara de Luzia, dentro dum estojo de madeira lavrada. E  pra que estas
cadeiras todas cheias de requififes, Santo Deus? No troco as minhas de
palha tranada por estes monstrengos. Mas gosto desta casa. Como so
grossas  as paredes! Num casaro assim a gente se sente garantida. Pode
vir chuva, ventania, tempestade e at guerra. Bala no passa por elas.
  - Est boa a limonada? - perguntou Aguinaldo, jovial. Bibiana teve um
leve sobressalto, ergueu os olhos para o dono
  da casa e respondeu:
  - No provei ainda.
  S ento  que se lembrou de que tinha na mo o copo de limonada.
Levou-o  boca e comeou a beber devagar. O cheiro de limo trouxe-lhe 
mente um certo dia de  sua vida, havia muitos anos. O capito Rodrigo
chegou duma viagem e lhe disse: "Estou louco de sede, minha prenda. Me
faz uma limonada bem ligeiro. Mas bota pouco  acar". E depois, quando
ela estava espremendo
  o limo dentro dum copo, ele se aproximou por trs, enlaou-lhe a
cintura e beijou-lhe a nuca.
  Bolvar bebia sua limonada com avidez, mas a comoo parecia trancar-lhe
a garganta.
  Florncio ergueu-se, foi at a janela e olhou para o cadafalso, a cujo
redor a multido engrossava. Crianas corriam e brincavam sob a figueira
grande. Uma brisa  leve comeava a bulir com as folhas das rvores e 
porta da cadeia curiosos se aglomeravam, andavam dum lado para outro,
erguendo poeira do cho. Pobre do Severino!  E o nome de Severino que
Florncio pronunciara mentalmente repetiu-se num eco. Mas o eco era o de
um outro nome: Bolvar. Pobre Bolvar!
  Bolvar tornou a olhar para o relgio, mas no pde distinguir o
mostrador, porque o suor lhe entrara pelos olhos e lhe turvava a viso.
Comeou a esfreg-los com  os dedos.
  - Entrou alguma poeira? - perguntou Luzia, num sbito interesse. - Deixe
ver.
  Bolvar sacudiu a cabea.
  - No. No  nada. Foi o suor.
  - Est ardendo?
  - Um pouco.
  - Deixe ver.
  - No carece.
  Os olhos de ambos se encontraram.
  - Que  que vosmec tem? - perguntou ela.
  - Eu? Nada.
  - Tem, sim. Est se vendo.
  - No  nada.
  Bolvar no pde suportar o olhar da noiva. Baixou os olhos para o cho.
  - Se est arrependido - prosseguiu ela num murmrio - ainda  tempo de
desmanchar o casamento. H pessoas que voltam at da porta da igreja.
  Felizmente - pensou Bolvar - os outros estavam entretidos a conversar e
no ouviam aquelas coisas estpidas que Luzia lhe
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  sussurrava. Assim em cochicho a voz dela ficava ainda mais excitante.
Era como se o estivesse convidando a ir para a cama.
  - Ningum est falando em arrependimento... - retorquiu ele pondo o copo
de refresco em cima da mesa redonda, na frente do sof.
  - Ento diga que  que tem.
  - Ora, estou me sentindo mal. Minha cabea est estourando. Bolvar
achava difcil conversar com a noiva cara a cara. No
  podia resistir ao olhar dela: dava-lhe um acanhamento que ele nunca
sentira diante de mulher alguma. E por se sentir acanhado ficava com
raiva da moa, de si mesmo,  de tudo e de todos. Vinham-lhe desejos de
fazer violncias, dizer nomes feios, de portar-se como um cavalo. Sempre
que discutia e lhe faltavam argumentos, palavras,  ele tinha gana de
usar as patas.
  - Passou mal a noite?
  Com relutncia Bolvar sacudiu afirmativamente a cabea:
  - A bem dizer passei a noite em claro.
  Ergueu os olhos para a me e percebeu que, fingindo escutar a esposa do
juiz, ela procurava ouvir o que Luzia estava dizendo.
  - Pensando no Severino? - insistiu a moa.
  - Como  que vosmec sabe?
  -  natural. O negro vai morrer por causa de seu testemunho.
  Disse isso e seus olhos escrutaram o rosto do noivo, verrumantes, como
se quisessem ver-lhe os sentimentos. Bolvar sentiu um pingo de suor
escorrer-lhe frio sob  a camisa, ao longo da espinha. Sua cabea
latejava com fora e de repente ele se lembrou dum homem que um dia vira
cair em plena rua, fulminado por um ataque de  cabea.
  - Vosmec tambm acha que o negrinho est inocente? Luzia encolheu os
ombros.
  - Eu no acho nada. Vosmec  que devia saber o que dizia quando falou
s autoridades.
  Bolvar fez um gesto de impacincia e meteu os dedos trmulos pelos
cabelos. Procurou alguma coisa para dizer, mas no encontrou nada. Teve
vontade de mandar todos  para os confins do inferno.
  - Mas como ... - principiou - como ... o... Calou-se de novo. Tinha-se
feito um hiato na conversao e
  de repente a sala ficara silenciosa e os olhos do dr. Winter, de
Florncio e de Bibiana estavam voltados para o sof.
  - Ser que j comearam a brigar? - troou Aguinaldo, fazendo com a
cabea um sinal na direo dos noivos. - Tem tempo, meninos, tem tempo!
  Florncio olhava para Luzia e achava-a parecida com uma imagem de Santa
Rita que ele vira nas Misses.
  O dr. Winter, o dr. Nepomuceno e o dono da casa de novo entraram numa
discusso poltica, e Bibiana agora contava animadamente  interlocutora
o que costumava fazer  para secar a roupa lavada em dias de chuva; a
mulher do juiz, com a mo em concha atrs da orelha, escutava-a arfante
e atenta.
  - Falta s meia hora - murmurou Luzia, lanando um rpido olhar para o
relgio de pndulo.
  Algum abriu uma porta nos fundos da casa e a brisa entrou na sala
trazendo um cheiro de cozinha que, ao passar por Luzia, se misturou com
um perfume de essncia  de rosas e de pele limpa de mulher recm-sada
do banho - o que contribuiu para aumentar a confuso de Bolvar, que de
repente sentiu pela noiva um desejo estpido  que era ao mesmo tempo
nusea, medo e impotncia. Seus olhos voltaram-se mais uma vez para o
mostrador do relgio grande, e ele tornou a ver o gato enforcado, e  o
grito do animal cruzou-lhe o esprito.
  Bolvar ergueu-se como que impelido por uma mola, e caminhou apressado
para a janela. Luzia seguiu-o com o olhar, depois voltou a cabea para
Florncio e sorriu.  O rapaz respondeu com um sorriso meio constrangido
e perguntou:
  - Que foi que houve?
  - Seu primo est nervoso. Aguinaldo soltou uma risada.
  -  natural. No dia que contratei casamento fiquei to nervoso que at
me deu uma soltura.
  - Vov! - repreendeu-o Luzia. - Isso no se diz.
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  Bibiana olhava apreensiva para o filho. Junto da janela Bolvar mal
enxergava o que se passava na praa, pois diante de seus olhos manchas
dum preto esverdeado danavam,  estonteantes. Mais uma vez teve vontade
de arrancar fora o colarinho, a gravata, o colete, sair correndo daquela
casa, montar a cavalo e meter-se campo adentro a  galope.
  Sentiu que lhe seguravam o brao. Voltou-se: era a me. Tinha nas mos
um copo de refresco.
  - Beba mais um pouco, meu filho.
  Sem pensar, Bolvar obedeceu. Emborcou o copo e bebeu toda a limonada
dum sorvo s. O lquido adocicado, meio enjoativo e pegajoso, lhe desceu
com dificuldade goela  abaixo.
  - V agora sentar-se perto da sua noiva - sussurrou-lhe Bibiana. -
Coragem! Isso passa.
  Bolvar voltou para o sof.
  Aguinaldo agora contava coisas do Angico ao juiz de direito e ao mdico.
  - Minha cavalhada anda muito ruim. Essas guerras estragam os nossos
rebanhos.  uma lstima. Muito cavalo superior se perdeu na Guerra dos
Farrapos. Miles de miles  - concluiu Aguinaldo, enrolando um cigarro.
  O juiz sacudia a cabea lentamente, de olhos meio cerrados.
  - Muito homem superior morreu nessa guerra - corrigiu-o Bibiana.
  - Pra mim animal  o mesmo que gente - explicou Aguinaldo. - Pego
amizade por eles. Pode ser cavalo, boi, cachorro ou gato. Um dia peguei
um dos meus escravos maltratando  uma pobre mula. Ah, seu compadre,
fiquei fulo de raiva e comecei a enxergar vermelho. Negro sem-vergonha,
gritei, vai bater na tua me, desgraado! Pois o diabo  do negro estava
to possesso que no me viu nem m'escutou. Continuou a dar com o chicote
no lombo do pobre animal. A mula estava j toda lanhada, escorrendo
sangue.  Ento perdi as estribeiras, tomei o chicote das mos do negro,
me atirei pra cima dele e comecei a dar-lhe na cara, a dar-lhe na cara,
e fui ficando to furioso  que acabei dando com o cabo do chicote na
cabea do bandido. E d-lhe pau, d-lhe pau! No princpio ele
  meio que ficou estonteado sem saber o que estava acontecendo. Mas quando
compreendeu tudo, se ajoelhou, botou a boca no mundo e depois quis
fugir. Mas corri atrs  dele, o negro tropeou, caiu e eu me atirei em
cima do cachorro, cego de raiva... E l vai pau, e l vai pau. Pois no
 que quase mato o desgraado? - Os olhinhos  de Aguinaldo brilharam.
Ele fez uma pausa para acender o cigarro e depois continuou: - A sorte
do crioulo  que j sou um homem velho e no tenho a mesma fora dos
tempos de dantes. Cansei logo e parei pra no cair. Se no fosse isso,
eu acabava fazendo mingau da cabea do negro. - Puxou uma tragada,
soltou o fumo no ar e disse:  - Animal  mesmo que gente pra mim. -
Caminhou at a porta da sala de jantar e gritou:
  - Si Rosa, mande trazer as coisas de comer!
  O dr. Winter contemplava Aguinaldo com a mesma curiosidade meio
horrorizada com que um dia olhara um terneiro do Angico que nascera com
duas cabeas.
  Entraram duas escravas com bandejas cheias de bolos e doces.
  Winter cruzou as pernas e disse ao dono da casa:
  - Mas o senhor parece que no teve nenhuma piedade do negro. Me diga
ento uma coisa: quando v um branco batendo num escravo, vosmec no
fica tambm revoltado?
  Aguinaldo coou a pra e estava para responder quando ouviu a voz de
Luzia:
  - Negro no  gente - disse ela.
  Todos os olhos se voltaram para a moa. Santa Rita disse uma barbaridade
- pensou Florncio. Bolvar parafraseou mentalmente as palavras da
noiva: "Severino no   gente. Vo enforcar um bicho".
  O dr. Winter tirou os culos e comeou a limp-los lentamente com o
leno.
  - Mein liebes Fraulein! - exclamou ele, com sua voz aflautada. - O que
vosmec acaba de dizer  uma inverdade cientfica.
  Luzia encolheu os ombros e seus dedos brincaram com o leque.
  - No sei se o que eu disse  cientfico ou no. Mas  o que sinto. Para
mim o negro est mais perto do macaco que dos seres humanos.
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  O juiz fechou os olhos, como para no se deixar influenciar por aquelas
idias, franziu os lbios reflexivamente, e quedou-se a procurar um
ponto de conciliao.  Bibiana ficou mais tesa ainda na cadeira, como
cobra pronta para dar o bote. Ento  isso que essas moas aprendem nos
colgios da Corte? - pensou ela. Credo!   melhor a gente no saber ler
nem escrever mas ter um bom corao. Cruzes!
  - Mein liebes Frulein! - repetiu o dr. Winter. Ergueu-se e foi
postar-se na frente da moa. Seu cheiro de desinfetante envolveu
Bolvar, que por um rpido segundo  o achou confortador. Uma vez tinha
cado de cama, com febre, e sua me chamara o dr. Winter. S a presena
do mdico lhe trouxera alvio; e ele associava essa presena  e essa
impresso de alvio quele cheiro de remdio.
  - Mein liebes Frulein! Como pode a minha graciosa amiga conciliar seu
cristianismo com essas idias? - perguntou Winter, balanando o corpo na
ponta dos ps. -  Onde est sua caridade? Que um herege como eu pense
assim, ainda se admite. Mas que uma jovem crist diga essas
barbaridades, mein Gott!, isso eu no compreendo!
  - H muita coisa que vosmec no compreende, doutor. Bolvar sentia-se
constrangido por ver a noiva a conversar com
  o mdico aqueles assuntos de que ele nada entendia. Teve vontade de
gritar para Winter: "Cuide da sua vida. Volte pr seu lugar. Nos deixe
em paz!"
  Luzia abriu o leque e comeou a abanar-se serenamente.
  - Vosmec no acha, doutor - perguntou ela - que ser bom ou ser mau 
uma questo de mais ou menos coragem?
  - Hein? - fez o mdico, perplexo, a coar o queixo com dedos frenticos.
- Quer dizer ento que bondade  sinnimo de covardia?
  - E o senhor acha que no ? Nunca pensou que ser bom  a coisa mais
fcil do mundo? E que qualquer pobre-diabo pode se dar o luxo de ser
bom?
  O dr. Winter ergueu ambos os braos e depois deixou-os cair, batendo com
fora nas coxas com as palmas das mos. Era um gesto que queria dizer:
se a menina pensa  assim, desisto de discutir.
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  Mas o diabo - pensava - era que de certa maneira misteriosa Luzia
parecia ter alguma razo. Era preciso uma pessoa ter muita coragem para
dar expresso a todos os  seus desejos e sentimentos maus. Sim, ser bom
era fcil. A teiniagu no se deixava apanhar facilmente.
  Aguinaldo contemplava a neta com admirao, sacudindo a cabea
devagarinho e rindo o seu riso encatarroado.
  O juiz, ainda de olhos fechados, a papada comprimida entre o maxilar
inferior e o colarinho engomado, lutava com palavras e idias, tentando
formar mentalmente uma  sentena que, sendo ao mesmo tempo gramatical e
judiciosa, tivesse a peregrina virtude de clarificar a situao.
  A esposa queria saber do que estavam falando, e Bibiana explicou-lhe
tudo como pde. A surda lanou para o marido um olhar que foi um apelo:
"Tira-me do escuro,  Nepomuceno!" O juiz continuava a sortir as
palavras, a ajust-las s idias. Que o negro era um ser humano,
constitua uma verdade cientfica incontestvel. Mas  ele prprio s
vezes no deixava de sentir nas pessoas de cor qualquer coisa de bestial
que as aparentava aos animais inferiores. Como no encontrasse a frase
conciliadora,  soergueu o corpo na cadeira, estendeu o brao e apanhou
um quindim da bandeja que estava sobre uma pequena mesa e comeou a
mordisc-lo com alguma solenidade.
  Uma questo de coragem... Florncio no entendia bem o que Luzia
pretendia dizer com aquilo. Mas sentia que boa coisa no era... Baixou
os olhos e ficou olhando  meio vago para a ponta das botinas que lhe
apertavam os ps.
  Questo de coragem... Estas palavras soavam ainda na mente de Bolvar.
Se ele tivesse coragem sairia correndo e iria gritar para aquela gente
que estava reunida  ao redor da forca:
  - Vo pra casa, bandidos! Onde se viu estarem se divertindo com a morte
dum homem?! Severino est inocente. Quem devia estar pendurado nessa
forca era eu. Matei  um homem uma vez, s de mau. O combate tinha
terminado. Ele pediu misericrdia. Matei de mau. Eu bem podia ter matado
tambm aqueles dois tropeiros. O Severino   um homem bom. Nunca fez mal
a uma mosca. Tio
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  Juvenal, que conhece as pessoas, diz que o negrinho est inocente. Vo
pra casa! Vo pedir perdo a Deus!
  Winter voltara para sua cadeira e agora observava Luzia. Que haveria
naquela alma? Ele ainda no sabia, mas comeava a adivinhar, atravs
duma nvoa, e o que entrevia  lhe dava um aperto de corao, um frio
horror. Como era que naquele fim de mundo, naquele lugarejo perdido nos
confins do continente americano, entre gente rude  e primria, existia
uma mulher assim? Podia estar numa tragdia de Sfocles ou de Schiller,
num conto de Hoffmann ou num... Mein Gotti Contado ningum acreditaria.
E por um instante se imaginou num Biergarten de Berlim, dali a muitos
anos, sentado ao redor duma mesa a tomar cerveja com amigos e a
falar-lhes de seu passado de  Santa F. E se viu e ouviu a dizer:
  "H muitos anos, nos confins da terra, conheci uma rapariga singular.
Chamava-se Luzia. Eu s queria saber que foi feito dela..."
  Agora o rosto da teiniagu tinha uma expresso anglica: estava sereno,
limpo e luminoso. Sua voz profunda tornou a envolver o mdico:
  - Por que no trouxe seu violino, doutor? - perguntou ela. - Podia tocar
um pouco para ns.
  Winter pensou no sacristo da lenda e viu a lagartixa encantada
enroscar-se nele.
  Deu um tapa cmico no ar.
  - Ach! J no sei mais tocar. Vou enterrar o violino.
  - Talvez nasa um p de couve - observou Bibiana. Aguinaldo soltou uma
risada seca e disse:
  - Por falar em enterrar, est quase na hora de enforcarem o negro.
  Como era que ele podia falar com tanta despreocupao na morte duma
pessoa? - perguntou Florncio a si mesmo, com uma sensao de mal-estar.
E de novo ouviu na memria  as palavras de Luzia: Negro no  gente. Com
que frieza ela tinha dito aquilo! Por contraste pensou em Ondina
Alvarenga e a lembrana de seus olhos mansos lhe fez  algum bem.
  Silncio. O dr. Nepomuceno - que tinha lavrado a sentena de morte -
pigarreou, constrangido, e comeou a tamborilar
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  nervosamente com os dedos sobre a guarda da cadeira. O dr. Winter voltou-se
para o magistrado:
  - O senhor tem de estar presente  cerimnia? - perguntou. O juiz tornou
a inclinar o corpo para a frente, estendeu o
  brao e apanhou outro quindim.
  - Eu devia estar l - disse, com relutncia, mordiscando o doce. - Mas
no gosto dessas coisas. Sou um homem nervoso. No gosto dessas coisas.
- Pedaos de quindim  pintalgaram-lhe de ouro a barba grisalha. - A lei
no obriga propriamente o juiz a comparecer. . A lei no obriga...
propriamente.
  Aguinaldo tirou do bolso o relgio e olhou para o mostrador.
  - Faltam quinze minutos.
  O corao de Bolvar comeou a bater com mais fora. Ainda havia tempo.
Podia levantar-se e dizer: "Senhor juiz, tenho de fazer uma confisso. O
negro Severino est  inocente. Quem matou os dois tropeiros fui eu. Juro
por Deus Nosso Senhor!"
  Aguinaldo aproximou-se da janela, relanceou os olhos pela praa e disse:
  - Est assim de gente. Parece at quermesse.
  Ou ento - pensava ainda Bolvar - podia sair correndo, ir at o
cadafalso, beijar a mo de Severino e pedir-lhe perdo. Imaginou-se
fazendo isso. A mo do negro  est gelada de pavor. Sentiu na garganta
um aperto que o impedia de engolir a saliva.
  - No quer um doce? - perguntou-lhe Luzia.
  - No - respondeu ele.
  - Ainda est doendo a cabea?
  - Ainda.
  A senhora do juiz contava que tinha encomendado umas rendas de bilro a
Ondina Alvarenga. Mas dona Bibiana estava com a ateno no filho. Fez-se
um novo silncio  difcil. Parecia que agora todos s pensavam na hora
do enforcamento.
  - Querem ir l na praa ver a coisa de perto? - convidou Aguinaldo.
  - Deus me livre! - apressou-se a dizer Bibiana.
  - E o senhor, doutor?
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  Winter sacudiu negativamente a cabea. O juiz limitou-se a fechar os
olhos e a repetir:
  - A lei no obriga. No gosto desses espetculos. A lei no obriga.
  Aguinaldo esfregou as mos, de olho alegre. Piscou para o dr. Winter e,
inclinando a cabeorra na direo do juiz, troou:
  - Ser que a conscincia est lhe doendo?
  O dr. Nepomuceno ficou soturno, brincou com a medalha que pendia da
corrente do relgio e redarguiu:
  - Tenho a conscincia tranqila, sr. Aguinaldo. Tenho a conscincia
tranqila. Fez-se justia. Os juizes de fato acharam o ru culpado. A
condenao foi feita de  acordo com o artigo nmero 271 do Cdigo
Criminal do Imprio. Tenho a conscincia tranqila. - Lanou um olhar na
direo de Bolvar e ajuntou: - Ali est casualmente o cidado cujo
depoimento  contribuiu para esclarecer o crime.
  Fez com a mo um sinal solene que queria dizer: um cidado honesto,
ntegro, acima de qualquer suspeita.
  Florncio estava sentado na ponta da cadeira, com os olhos postos no
primo, temendo que ele fizesse ou dissesse alguma coisa inconveniente.
  Bolvar, porm, limitava-se a olhar para o soalho, com a cara reluzente
de suor e os largos ombros a subir e descer ao ritmo duma respirao
ofegante.
  Por alguns instantes todos ficaram calados, como que  espera dalguma
coisa. Aguinaldo fez uma ou duas tentativas para puxar um assunto, mas
foi em vo. O silncio  voltava sempre, e quase todos os olhos estavam
voltados para as janelas que davam para a praa. Quantas daquelas
pessoas - perguntava Winter a si mesmo - desejariam  ir ver o negro
espernear na forca levadas por uma curiosidade mrbida que parecia ser
um dos atributos da natureza humana? E se no se dispunham a ir at as
proximidades  do cadafalso ou a ficar olhando de longe, ali das janelas,
seria porque, de mistura com a cuiiosidade, sentissem tambm uma ponta
de horror? Ou era porque queriam  afetar bons sentimentos? Da parte de
Bolvar e do juiz - refletia o mdico - devia haver um pouco
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  de remorso, pois ambos tinham contribudo para a condenao do negro.
Dona Bibiana e a esposa do magistrado deviam detestar sinceramente a
idia de assistir  cena.  Florncio era um homem de bom corao... E
Luzia? Continuaria sentada ou viria espiar o enforcamento?
  Aguinaldo estava excitado, ia de instante a instante  janela, ficava
ali num p s, fungando, aflito.
  - Parece que vo trazer o negro - disse ele em dado momento, pondo a mo
em pala sobre os olhos. - Estou vendo um movimento na frente da cadeia.
  Comeou a esfregar as mos, satisfeito, numa antecipao do espetculo.
  Uma escrava entrou com uma grande bandeja cheia de talhadas de melancia.
  - Pode botar em cima da mesinha - ordenou Luzia, com voz impaciente. - E
v l pra dentro.
  A negra obedeceu, hesitou um instante e depois se dirigiu ao amo, de
cabea baixa, com voz humilde:
  - A negrada da cozinha tambm quer ir ver...
  - Pois vo! - gritou Aguinaldo. Luzia, porm, interveio:
  - No! No vo. Fiquem l no fundo e no venham nem pra frente.
  A escrava saiu da sala de olhos baixos.
  Winter sentiu que ele tambm estava inquieto. Se se erguesse e fosse at
a janela poderia ver tudo. O cadafalso ficava a uns trinta e poucos
metros do Sobrado e  erguia-se a mais de trs do solo. Poderia dali ver
a execuo muito melhor que muitos dos que se acotovelavam ao redor da
forca, sob o sol quente. Vou ou no vou?  - perguntava ele a si mesmo.
Ir seria ceder a uma curiosidade perversa, a um sentimento inferior. Mas
no ir seria levar muito a srio aquela histria toda. No fim  de contas
era mdico e vira coisas piores em sua carreira: crnios esmagados,
membros decepados, tripas  mostra. Nunca, porm, assistira ao
assassnio frio, calculado  e legal dum homem. O fantasma de Luzia
cochichou-lhe na mente: Negro no  gente.
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  - Faltam oito minutos - disse Aguinaldo. E de repente, com uma alegria
infantil, exclamou: - L vem ele!
  Winter ergueu-se, como que galvanizado, e aproximou-se da janela. O juiz
continuou sentado onde estava, a balouar as pernas nervosamente.
  O mdico olhou para fora. Um grupo compacto movia-se da cadeia na
direo do cadafalso. Houve na multido que se apinhava ao redor da
forca um como que movimento  de onda. Winter vislumbrou no grupo menor a
batina negra do padre Otero e alguns uniformes da Guarda Nacional. Tudo
se processava no meio dum grande silncio.
  O dr. Nepomuceno foi atacado dum acesso de tosse nervosa. Voltando a
cabea para dentro da sala Winter viu que Bolvar, duma palidez de
morte, de olhos sempre baixos,  remexia-se desconfortavelmente no sof,
ao passo que Luzia olhava atentamente para ele, sentada, muito ereta, na
ponta do sof, como que a gozar o sofrimento do  noivo. O mdico tornou
a olhar para a praa. Viu quando dois guardas fizeram Severino subir os
degraus do cadafalso. Dali Winter no podia distinguir as feies  do
condenado, mas percebeu que os guardas o amparavam para que ele se
mantivesse de p. Ao lado do negro, o padre Otero ergueu um crucifixo
preto, voltou-se para  a multido e pronunciou algumas palavras que o
mdico no ouviu com clareza. Comeou ento a erguer-se do povo um
clamor unssono, cadenciado e fnebre. Rezavam  o padre-nosso. As vozes,
graves e foscas, erguiam-se no ar luminoso, enchiam a praa e tinham
qualquer coisa que lembrava o som dum rgo. Winter comeou a sentir  a
garganta seca, a lngua grossa. Agora um perfume ativo de essncia de
rosas lhe chegava s narinas, e ento ele sentiu, antes de ver, que
Luzia estava a seu lado,   janela. Olhou-a de soslaio. Os seios da moa
palpitavam, seus olhos estavam fitos no cadafalso, imveis, arregalados,
cheios duma poderosa fascinao.
  De repente o coro cessou num amm que se esfarelou no ar. O padre
voltou-se para o condenado e encostou-lhe aos lbios o crucifixo.
Naquele instante o relgio comeou  a dar as horas: cinco badaladas que
Bolvar sentiu como pancadas no crnio.
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  O carrasco experimentou o n corredio e depois colocou a corda em torno
do pescoo do escravo. Havia agora na praa um silncio de cemitrio. De
repente um galo  cantou atrs da igreja. O dr. Winter voltou a cabea
para Luzia. E foi no semblante da teiniagu que ele viu o resto da cena
macabra. Primeiro o rosto dela se contorceu  num puxo nervoso, como se
ela tivesse sentido uma sbita dor aguda. Depois se fixou numa expresso
de profundo interesse que aos poucos se foi transformando numa  mscara
de gozo que pareceu chegar quase ao orgasmo. Winter observava-a,
estarrecido. Na multido ao redor da cadafalso uma mulher soltou um
grito que subiu no ar  como um dardo. Winter olhou para o cadafalso.
Pendente da forca o corpo de Severino estrebuchava.
  O dr. Nepomuceno tossia ainda. Sua esposa apertava o leno nas mos e
tinha lgrimas nos olhos bondosos e palermas. Bibiana e Florncio
olhavam ainda para Bolvar  com pena, como se fosse ele e no Severino o
enforcado.
  Winter voltou para a sua cadeira e acendeu um charutinho. Estava
subitamente triste, por contraste pensava em Trude, especialmente num
certo dia em que a vira entrar  na igreja de Eberbach, toda de branco,
com pequenas flores azuis nos cabelos dourados. - L se foi o negro! -
exclamou Aguinaldo, esfregando as mos e caminhando  na direo das
melancias. Apanhou uma talhada e convidou: - Vamos, minha gente, antes
que a melancia esquente.
  Mas ningum fez o menor movimento. Luzia deixou a janela. Seu rosto
estava iluminado por uma luz de bondade que a transfigurava. Sentou-se
junto do consolo, abriu  o estojo de madeira e tirou de dentro dele a
ctara. Fez tudo isso com gestos cuidados e tranqilos como quem segue
um rito.
  Tirou alguns acordes do instrumento e depois comeou a tocar uma valsa
brilhante. Winter observava-a, perplexo. A melodia alegre encheu a sala.
A senhora do juiz  aproximou-se mais de Luzia e, com a mo atrs da
orelha, tentava escutar, com uma expresso de estranheza nos olhos ainda
midos.
  De repente Bolvar rompeu a chorar, escondeu o rosto nas mos e ficou
onde estava, os ombros sacudidos pelos soluos. Bibiana correu a
sentar-se junto dele.
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  - Meu filho - murmurou ela, entre penalizada e cheia de vergonha. - No
faa isso. Um homem no chora.
  Luzia olhou para o noivo, com olhos inexpressivos, e continuou a tocar,
Winter, embaraado, mascava ferozmente seu charutinho, Florncio
ergueu-se, caminhou para  o primo e tomou-lhe do brao, dizendo:
  - Boli, vamos dar um passeio l no quintal.
  O outro no se moveu. Florncio obrigou-o a levantar-se. Bolvar
deixou-se arrastar pelo primo para fora da sala.
  - Vou mandar fazer um ch de folha de laranjeira pra ele - disse
Aguinaldo.
  Os olhos de Bibiana Terra chisparam.
  - Meu filho no  mulher pra tomar chs, seu Aguinaldo. Nesta terra no
h nenhum homem mais macho que o Bolvar. Quem tiver dvida que
experimente.
  Passeou rapidamente o olhar em torno, num desafio, fez meiavolta e saiu
no encalo dos dois rapazes.
  Como se nada tivesse acontecido, Luzia continuava a dedilhar a citara.
Um reflexo da bandeirola da janela manchava-lhe a testa de verde.
  A teiniagu - pensou o Dr. Carl Winter. E ficou olhando para o "animal",
como que enfeitiado...
  Quando o padre Otero chegou ao Sobrado por volta das cinco e meia,
Bibiana, o filho e o sobrinho j se haviam retirado. O vigrio entrou
com ar cansado, cumprimentou  os presentes e foi sentar-se a um canto da
sala, na sua cadeira de balano predileta. Era um homem baixo e
franzino, ainda moo; tinha um rosto alongado, duma palidez  esverdeada
de heptico. De to surrada sua batina j se fazia rua e estava toda
manchada de sebo.
  - Come uns docinhos, padre? - perguntou Aguinaldo. O vigrio sacudiu
melancolicamente a cabea.
  - No. Muito obrigado.
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  - Uma talhada de melancia?
  - Tambm no. No estou com fome.
  - Ento vamos tomar um licorzinho de pssego...
  O padre Otero fez primeiro uma careta de dvida; depois decidiu:
  - Est bem, aceito.
  Aguinaldo gritou para Rosa que trouxesse o licor. Luzia dedilhava ainda
a ctara, de leve. J tinha tocado quase tudo quanto sabia e a sada do
noivo no a deixara  nem um pouco perturbada.
  - Ento, vigrio? - perguntou o dr. Nepomuceno. - Que nos conta?
  O sacerdote fez um gesto desalentado.
  - Consummatum est.
  Houve um curto silncio, ao cabo do qual o dr. Winter perguntou:
  - E o condenado... como se portou?
  - No fez a menor queixa. No fez nenhum pedido especial. Confessou-se e
na hora de morrer beijou o crucifixo. Seus lbios tremiam, mas seus
olhos estavam secos.  No soltou um ai. Morreu como um homem.
  Luzia ergueu a cabea e indagou:
  - E na hora da confisso... ele confessou o crime, ou repetiu que estava
inocente?
  - Minha filha - respondeu o padre com triste calma - no posso quebrar o
sigilo do confessionrio.
  O juiz de direito ergueu os olhos bovinos para Luzia e reforou.
  - . Ele no pode. No pode.
  A moa comeou a tocar em surdina uma barcarola, ao mesmo tempo que
dizia:
  - Uma vez na Corte, quando eu era menina, vi um enforcamento. Ah! Mas
foi muito mais bonito que este. Enfim, Santa F  apenas uma vila. No
pode se comparar com  o Rio de Janeiro,  natural.- Olhava para os
prprios dedos, como que enamorada deles. Prosseguiu: - O condenado era
um turco que tinha matado a mulher. Seu ltimo  pedido foi um clice de
vinho do Porto e um pedao de po-de-l. - Sorriu, sacudindo de leve a
cabea.
  497
  - Engraado, no ? Quando o padre veio para a confisso, o turco disse
que era muulmano ou coisa que o valha... O padre ficou furioso.
  Winter mirava ora as mos de Luzia ora o seu rosto, e deixava-se embalar
pela voz dela.
  - Depois fizeram um cortejo pela rua - continuou a moa.
  - Vinha na frente o juiz das execues, o meirinho, os irmos da Santa
Casa, com seus balandraus... Ah! Vestiram um casaco branco no
condenado. Depois vinham os  funcionrios, os soldados...
  A escrava entrou trazendo uma bandeja com clices de licor de pssego e
distribuiu-os entre os convivas.
  - Ind'agorinha eu vi tudo ali da janela - disse Luzia, parando de tocar
e descansando as mos no regao. Seus olhos pousaram no rosto do
vigrio. - Vosmec ouviu  quando o pescoo do negro se quebrou?
  - Se ouvi? - perguntou o padre, franzindo a testa.
  - Quero dizer, ouviu o barulho de ossos se quebrando? O sacerdote
encolheu os ombros, em dvida.
  - E ele ficou de lngua de fora?
  - Minha filha... eu... vosmec sabe que a gente no presta bem ateno a
essas coisas. Na hora se fica to... Ora, pra falar a verdade, nem olhei
quando puxaram  o alapo. Estava de olhos fechados, rezando.
  Luzia insistiu:
  - Mas depois, quando vosmec olhou... ele estava de lngua de fora?
  O padre voltou a cabea para Aguinaldo e disse com um sorriso
constrangido:
  - A curiosidade das moas de hoje no tem limites.
  No esprito de Winter a palavra curiosidade transformou-se em crueldade.
Luzia positivamente tinha a coragem de sua crueldade. Agora a nvoa se
havia dissipado ao  redor dela. L estava a Musa da Tragdia com toda a
sua alma desnudada.
  A mulher do juiz, aflita, olhava com ar desamparado dum para outro, sem
conseguir ouvir o que diziam.
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  O dr. Nepomuceno cruzou as pernas, ergueu os olhos para o alto, com o
jeito de quem procura alguma coisa no crebro, e depois
  disse:
  - Essa execuo vai custar ao governo... deixe ver... mil e quinhentos
mais oitocentos e cinqenta... - Tinha a fama de ser muito bom no fazer
contas de cabea.  - Vai custar exatamente cinco mil e duzentos e
noventa e um ris.
  Via-se que dizia isso porque estava contrafeito e achava que tinha de
dizer alguma coisa. Luzia sorriu.
  - Morre-se barato - disse ela. - Viver  que custa caro. O padre Otero
olhava fixamente para o seu clice de licor.
  Tinha a testa franzida, o ar preocupado.
  - Que bicho l mordeu, padre? - perguntou Aguinaldo. - Ficou
impressionado com a coisa?
  - No fim de contas, no foi nenhuma festa... - replicou o
  sacerdote.
  Winter tomou um gole de licor e sentiu que o lquido doce e grosso lhe
descia, ardido, pela garganta, como um filete de fogo.
  - Mas no acha, reverendo - perguntou - que indo ver a morte do negro
seus paroquianos no se portaram dum modo muito cristo?
  O padre cruzou as pernas, tornou a olhar para o clice e respondeu:
  - . O espetculo no foi nada edificante. Mas o senhor sabe, doutor, o
fato deve ser olhado como um exemplo.
  - Mas a sua Igreja no condena a pena mxima? Temos o direito de tirar a
vida dum ser humano, mesmo em nome da justia?
  O padre Otero remexeu-se na cadeira, numa visvel sensao de mal-estar.
O dr. Nepomuceno voltou vivamente a cabea na direo do mdico.
  O sacerdote tirou do bolso um leno muito encardido e passou-o pela
testa num gesto largo e depois respondeu, com sua voz lenta, escandindo
bem as slabas:
  - A Igreja  de Deus e o reino de Deus no  deste mundo. Os homens
podem errar, mas Deus nunca erra. No fim os 
  499
  pecadores sempre so punidos e os justos recompensados. E aqueles que so
condenados por um erro da justia dos homens, no cu sero exaltados e
redimidos... Winter  sorriu.
  - Acha ento possvel que no caso de Severino tenha havido um erro de
justia?
  O padre empertigou-se de repente, como se lhe tivessem alfinetado as
costas.
  - Eu no disse isso.
  - Acredita ento que o negro matou mesmo os tropeiros?
  - Tambm no afirmei tal coisa.
  - Qual  a sua opinio sobre o caso?
  - Como sacerdote de Deus no me cabe criticar a justia do Estado.
Cristo disse: "A Csar o que  de Csar. A Deus o que  de Deus".
  O juiz de direito franziu o sobrolho e foi com uma gravidade ressentida
que disse:
  -  um caso lmpido.  um caso lmpido.
  Winter emborcou o clice de licor, lanou um olhar para Luzia, que
seguia a discusso com interesse, e perguntou com ar agressivo:
  - E quem me prova que no foi o prprio dono da olaria que matou os seus
hspedes? Quem me prova?
  - "No levantes falso testemunho contra o teu prximo" - sentenciou o
vigrio.
  -  uma hiptese...
  - Que no deixa de envolver uma calnia - retrucou o dr. Nepomuceno.
  - Pois bem. Eu posso me retratar duma calnia... duma afirmao leviana.
Mas o que fizeram com Severino  irremedivel. E uma retratao da
justia no devolveria o negro  vida.
  - Mas  um caso lmpido - afirmou outra vez o juiz. - Um caso lmpido.
Doze, digo: onze juizes de fato reconheceram a culpabilidade do ru.
  E comeou a rememorar o processo, a repetir trechos do depoimento de
Bolvar e do prprio amo de Severino.
  500
  Luzia afastou-se do consolo e foi sentar-se no sof.
  - O dr. Nepomuceno me deixou ler o auto do corpo de delito - contou ela.
- Eu at decorei... Querem ouvir? Havia uma parte assim: "Passando os
ditos peritos a examinar  os cadveres, declararam estarem ambos
deitados e com a cabea bastantemente moda de maneira que espirraram os
miolos, sendo a pancada recebida do lado esquerdo  na altura da orelha e
a contuso mostrava ter sido feita com pau ou outro qualquer instrumento
contundente. Declararam mais no encontrarem papis nem outra qualquer
coisa que indicasse o nome ou residncia dos ditos mortos, que eram
ambos jovens, brancos, cabelos crespos, feies regulares e um parecido
com o outro, presumindo-se  por isso serem irmos".
  Winter notou que Luzia repetia aquelas palavras como se recitasse um
poema lrico.
  Fez-se um silncio de constrangimento em que apenas Aguinaldo mostrava
uma face desanuviada e alegre. Tinha orgulho da neta, das coisas que ela
sabia e fazia.
  - O senhor examinou as vtimas, doutor? - perguntou a moa.
  - Sim. Foi um dos meus primeiros "casos", em Santa F.
  -  verdade que mesmo com as cabeas esmigalhadas eles viveram ainda
muitas horas?
  - . Por que pergunta?
  - Vosmec acha que eles tinham ainda conhecimento das coisas?
  - Claro que no.
  - Ento no sofriam?
  -  muito difcil fazer uma afirmao positiva, mas creio que no
sofriam mais.
  - Uma vez quando menina eu vi uma cozinheira decapitar uma galinha, e o
bicho mesmo sem cabea continuou de p e depois saiu caminhando e entrou
direitinho no galinheiro.  Nunca mais me esqueci disso.
  O vigrio fez um gesto de impacincia.
  - Mas por que no mudamos de assunto? - perguntou.- Basta de sangue, de
cabeas cortadas, de enforcamentos. - E para
  501
  comear um novo tpico de conversao, voltou-se para o dono da casa e
perguntou: - Ento, sr. Aguinaldo, como vo os negcios?
  - De mal a pior - respondeu Aguinaldo, que comia vorazmente uma talhada
de melancia. Cuspinhou as sementes no prato e continuou: - A guerra
estragou a cavalhada,  reduziu a gadaria. Os garanhes que sobraram no
valem dez-ris de mel coado.
  Era sempre o que acontecia em tempo de guerra - refletiu Winter - morria
a flor das naes no s em homens como em cavalos. Ficavam os velhos,
os doentes, os incapazes.
  Winter tinha ouvido contar que na provncia se matavam guas aos
milhares para aproveitar a graxa. E que os estancieiros vendiam para as
charqueadas at as vacas  de cria. Sabia tambm que desde 1823 as gentes
de So Pedro do Rio Grande haviam abandonado a cultura do trigo para se
dedicarem  pecuria. Ora, as guerras peridicas  dizimavam a cavalhada
e o gado, ao passo que a agricultura continuava decadente ou quando
muito estacionaria. Os campos se achavam despovoados e ele tinha a
impresso  de que ningum tinha plano, ningum pensava no futuro; os
continentinos viviam ao acaso das improvisaes, confiando sempre na
sorte. Por que no tentavam alguma  coisa? - impacientava-se ele.
  - O negcio de gado est liquidado - declarou Aguinaldo. E levou a
talhada de melancia aos lbios, como se ela fosse uma gaita de boca, e
ficou a tocar uma msica  feita das notas lquidas dos chupes.
  - Nada est perdido quando a gente tem fora de vontade e amor ao
trabalho - sentenciou o juiz de direito.
  Luzia e a senhora surda ergueram-se e saram da sala. A mulher do dr.
Nepomuceno queria ver as toalhas bordadas que a moa recebera de Porto
Alegre como parte de  seu enxoval.
  - Ainda por cima - acrescentou Aguinaldo - o governo probe a passagem
de gado da Banda Oriental para c. Quando nem o governo ajuda, que
esperana podemos ter?
  - No culpemos o governo de tudo - observou cautelosamente o juiz.
  Winter ergueu-se e deu um puxo nos fundilhos das calas que se lhe
colavam incomodamente s ndegas.
  502
  - Por que os fazendeiros no mandam vir reprodutores estrangeiros para
melhorar seus rebanhos? - perguntou, fazendo um gesto largo como para
dar a entender que o  mundo era muito vasto e rico. - Importem cavalos
da Inglaterra, da Alemanha, do cabo da Boa Esperana. Mandem vir vacas
da Holanda.
  - Alguns estancieiros de Cruz Alta - informou Aguinaldo - receberam h
pouco um love de cavalos pampas.
  Muitas das coisas da provncia Winter ficava sabendo atravs de sua
correspondncia com Carl von Koseritz, ao qual ele chamava com afetuosa
ironia "meu ilustre baro".  Fazia pouco mais duma semana, escrevera-lhe
uma carta em que dizia: "Tu ao menos tens como desabafar: s jornalista,
escreves os teus artigos e de certo modo j  pertences a esta ptria.
Quanto a mim, continuo a ser apenas o dr. Carl Winter, um exilado, um
imigrante, um intruso; e tenho de calar a boca mesmo quando sinto
vontade de sacudir esta gente de sua apatia exasperante. Mas  preciso
reconhecer que essa apatia se revela apenas no que diz respeito ao
trabalho metdico e previdente,  pois quanto ao resto nunca vi gente
mais ativa. Esto sempre prontos a laar, domar, parar rodeios, correr
carreiras e principalmente a travar duelos e ir para a  guerra".
  Agora o padre balanava-se de leve na sua cadeira e dizia:
  - Ainda hoje o coronel Amaral estava se queixando que o negcio de
charque vai muito mal.
  - Mas esta provncia no pode depender eternamente do charque e do
couro! - exclamou Winter. - Foi um erro terem abandonado o trigo.  uma
insensatez no cuidar  dos rebanhos... um crime no cultivar melhor a
terra,
  Havia outros problemas srios: o da instruo pblica, por exemplo.
Existiriam quando muito umas oitenta escolas em toda a provncia, e
todas eram de primeiras letras.  Havia uma assustadora escassez de
professores.
  Inflamado por suas idias, Winter ergueu o dedo e disse: - Os senhores
ainda no perceberam o grande perigo que correro no futuro... 
  503
  Conteve-se. O que ia dizer era muito ousado, talvez at ofensivo quela
gente. Viu que os outros esperavam a terminao da frase. No teve
remdio seno continuar.
  - ... se no promoverem o progresso desta regio? Pode ser que alguma
nao estrangeira poderosa, de gente superior, volte um dia para c os
olhos cobiosos. No  ser a primeira vez na Histria. No basta ter uma
terra:  necessrio merec-la.
  O juiz ergueu para ele os olhos mortios.
  - O doutor quer insinuar que uma outra nao pode procurar tomar posse
da nossa terra pelas armas?
  Winter ps as mos nos quadris, inclinou-se sobre o juiz e disse:
  - Exatamente.
  Aguinaldo teve um arroubo patritico:
  - Pois que venham. Havemos de expulsar essa estrangeirada a grito e
pontao de lana.
  - Que venham! - repetiu Nepomuceno, numa velada ameaa, como se
dispusesse dum poderoso exrcito secreto pronto para qualquer
emergncia. - Que venham!
  O padre olhava para Winter dum modo estranho, e o doutor viu que se
havia metido em terreno perigoso. Mas agora j no podia mais recuar.
  Adoou mais a voz, deu-lhe um tom persuasivo para dizer:
  - Esta terra  boa demais para ficar abandonada, despovoada de gentes,
de gado e de lavouras...  incrvel que a provncia tenha de importar os
cereais que consome:  no s os cereais, mas at a farinha de mandioca.
  Houve um silncio ressentido em que s se ouviu o rudo lquido que
Aguinaldo produzia ao mastigar nacos de melancia, e o tan-tan da cadeira
de balano do padre.
  - Boa ou m - disse o dr. Nepomuceno depois de alguns segundos de
reflexo - rica ou pobre, esta terra  nossa, dos brasileiros. Havemos
de defend-la contra qualquer  invasor, venha ele de que quadrante vier,
seja de que raa for.
  Olhou para o sacerdote como a pedir-lhe a aprovao para o que acabava
de dizer. O padre Otero sacudiu a cabea gravemente.
  504
  De novo o juiz esparramou a papada sobre o peito e, com ar sonolento,
ficou a brincar com a medalha do relgio.
  Winter lanou o olhar para a janela. Fora, a luz se fazia mais cor de
mbar e mais suave,  medida que entardecia. Na praa a multido se
havia dispersado, mas viam-se  ainda curiosos a conversar aos grupos nas
proximidades da forca. Mentalmente o mdico escrevia agora uma carta ao
seu "ilustre baro". Assim: "Ainda ontem no Sobrado,  com a mais s das
intenes, eu disse umas verdades cruas ao dono da casa, ao vigrio e ao
juiz de direito. Por um tolo sentimento de patriotismo mal compreendido
parece que ficaram zangados. Como resultado de tudo tambm fiquei
irritado, e j que havia sado para a chuva e estava molhado, resolvi
continuar enfrentando o aguaceiro  e cheguei a sugerir queles senhores
que..."
  - Mas no basta melhorar os rebanhos - disse Winter em voz alta.
Aproximou-se do consolo e ficou a dedilhar distraidamente as cordas da
ctara. -  preciso tambm  cuidar dos homens...
  - Cuidar dos homens? - estranhou o padre.
  - Explique-se - pediu o juiz - explique-se.
  - Calma - disse o mdico, fazendo um gesto de paz.
  - Estamos perfeitamente calmos. Vamos!
  - Quero dizer que seria melhor casar vossos homens e mulheres com os
imigrantes alemes do que com negros e ndios.
  - O meu caro doutor acha ento que somos uma nao inferior?
  Winter tirou um acorde dissonante da ctara, e olhou para o juiz.
  -- Eu no afirmei propriamente isso. Mas se vosmec conhecesse a
Alemanha teria uma idia do que  capaz o povo alemo.
  - O que o doutor quer insinuar - observou o padre -  que os alemes
merecem mais que ns este pas...
  O juiz lutava com suas idias. Elas lhe ocorriam sempre tardiamente.
Invejava os que tinham resposta sempre pronta na ponta da lngua. O
padre sacudia a cabea devagarinho  numa dvida taciturna. No eram
aqueles alemes em sua maioria protestantes? Que aconteceria se casassem
com brasileiros? Como iriam educar os filhos? Em que Igreja?  No amor e
temor de que deus?
  505 
  Finalmente o juiz conseguiu formar uma frase que lhe pareceu  altura do
assunto, do momento e do interlocutor.
  - Pois digam o que quiserem, eu c acho que um povo latino como o nosso
deve...
  O mdico soltou uma risada e avanou para o juiz:
  - Latinos os homens desta provncia? - exclamou. - Ach, mein lieber
Gotti Acha ento o doutor que os gachos descendem dos romanos?
  - Ora! - fez o dr. Nepomuceno, que estava muito vermelho e agitado. -
Ora!
  - Preste bem ateno, senhor juiz. Quem foram os primeiros povoadores
destes campos? Paulistas descendentes de portugueses. Pois bem. Os
portugueses j tm uma boa  dose de sangue mouro. Mais tarde chegaram
aqui os casais aorianos, muitos dos quais eram de origem flamenga.
Nesta provncia houve novas misturas com sangue ndio  e negro. J v
que de latinos tendes muito pouco.
  - Digam o que disserem. Somos latinos pela civilizao!
  Carl Winter sentou-se de repente, como se o peso da palavra civilizao
fosse demasiadamente grande para ele suport-lo de p.
  De que feitos espirituais se podia gabar aquela spera sociedade
pastoril que florescia - se  que se podia no caso usar este verbo - no
to gabado "Continente"  de dona Bibiana? Onde estavam seus artistas,
seus cientistas, seus pensadores? At aquela data Winter no vira um
nico livro impresso na provncia. Poderiam os  continentinos alegar que
as guerras no lhes davam tempo para as atividades do esprito, e talvez
a tivessem alguma razo. Mas quem no tinha razo era o dr. Nepomuceno
quando enchia a boca com a palavra civilizao. Ele e o padre pareciam
estar convencidos no somente de que eram descendentes dos romanos como
tambm de que, por  isso, representavam a essncia da sabedoria, da
espiritualidade e do progresso.
  Tornou a erguer-se, aproximou-se da janela e ficou olhando para as
campinas de Santa F. Que grandes coisas os homens de seu sangue
poderiam fazer naquela terra  privilegiada onde no havia
  angstia de espao, nem terremotos, inundaes ou secas calamitosas! Ali
estava ela, generosa e mansa, oferecendo-se femininamente aos seus
homens, que pareciam  recusar-se a fecund-la, preferindo transform-la
em cancha para seus jogos, conflitos e andanas. No silncio que se
fizera ouviu-se a voz de Aguinaldo:
  - Mas ser que s eu  que estou comendo melancia? No quer uma talhada,
dr. Nepomuceno? E o padre Otero? E o dr. Winter?
  - Muito obrigado -- respondeu o juiz. - No quero estragar o apetite
para o jantar.
  Eram mais de seis horas quando o dr. Winter deixou o Sobrado. Sabia que
o padre e o juiz de direito tinham ficado magoados com suas observaes.
Que fossem para  o diabo! Eram homens adultos, podiam muito bem agentar
um bom par de verdades. Deu alguns passos, batendo forte com a ponteira
da bengala no cho, ao mesmo tempo  que lhe vinha  lembrana uma
gua-forte que vira quando estudante em Heidelberg: Jesus diante de
Pilatos. E ele "leu" a legenda que havia por baixo da gravura,  em
letras gticas: "Que  a Verdade? - perguntou Pilatos." Winter sorriu.
Estaria ficando intolerante, ou - pior ainda - convencido de ser o nico
portador da Verdade,  uma espcie de saco de absolutos?
  Parou um instante na praa e ficou olhando para a forca. Pobre Severino!
Tinha morrido por causa dum absoluto. Um absoluto que o dr. Nepomuceno
adorava, como a um  deus. Encolheu os ombros como quem diz: "No sou
daqui, no tenho nada com isso". E decidiu que o melhor que tinha a
fazer era ir ver o prdo-sol.
  A luz da tarde era doce, e andavam por toda a paisagem uns lilases
rosados positivamente fantsticos. Winter achava um grande encanto
naqueles quintais quietos ao  anoitecer. Um porco fossando na lama, uma
galinha bicando o cho, um passarinho piando numa rvore, uma criana
nua a brincar com um osso, um co vadio dormitando  num vo de porta -
tudo isso eram coisas que o deixavam inexplicavelmente enternecido.
  506
  507
  Comparava o mundo em que nascera e vivera at os trinta anos com o
mundinho de Santa F. Ali naquela vila perdida na extremidade sul do
Brasil  representava-se tambm  uma comdia humana, que era uma pardia
da que Winter vira na Europa. Os atores seriam menos consumados, o
cenrio mais pobre. Mas os eternos elementos do drama  l estavam: o
amor, o dio, a cobia, a inveja, o desejo de poder e de riqueza, a
sensualidade, a vingana... e o mistrio.
  Caminhando na direo do campo, Winter pensava agora em Luzia. O que ele
vira aquela tarde deixara-o perplexo. No se achava preparado para
comentar o caso nem consigo  mesmo. O melhor era esquec-lo por
enquanto... Pobre Bolvar! Qual seria o destino daquele casamento? Fosse
qual fosse, ele, Carl Winter, gostaria de ver o desenvolvimento  da
rstica comdia provinciana. No fim de contas, no havia do outro teatro
em Santa F...
  Em parte como ator e em parte como espectador, Carl Winter pde
realmente acompanhar o desenvolvimento da comdia.
  Quando por setembro de 1853 Bolvar Cambar casou com Luzia Silva, houve
festa grande no Sobrado. Aguinaldo mandou buscar gaiteiros e violeiros
de Rio Pardo e Cruz  Alta e fez matar trs novilhas. Danou-se o
fandango  luz duma grande fogueira acesa no meio do quintal. Luzia -
acharam todos - estava linda no seu vestido branco  de noiva. O padre
Otero fez um discurso e terminou desejando aos noivos uma vida longa e
feliz, e muitos filhos. Em certa altura da cerimnia, dona Bibiana
cutucou  o dr. Winter, que estava a seu lado na igreja e, olhando
atravs das janelas as franas das rvores sacudidas pelo vento,
murmurou: "Minha av costumava dizer que  sempre est ventando quando
alguma coisa importante acontece".
  Em princpios do ano seguinte ventava forte quando trouxeram do Angico
para a vila, numa carreta puxada a bois, o velho Aguinaldo Silva
agonizante, com a cabea  enfaixada em panos. 
  508
  tinha cado do cavalo e batera com o crnio no solo. Chamado imediatamente
para v-lo, o dr. Winter verificou que no havia mais nada a fazer.
Aguinaldo tinha fraturado  a base do crnio: era um caso perdido.
Deu-lhe uma hora de vida quando muito. Mas o nortista viveu ainda quase
trs. Viveu? No. Ficou em agonia, deitado de costas  na sua grande
cama, com os olhos vidrados, a boca aberta deixando escapar a respirao
estertorosa. Luzia no se afastou um instante do leito do av. Ficou ao
lado  dele, com as mos do velho presas nas suas, os olhos fitos no
rosto dele, como se no quisesse perder um minuto sequer daquela lenta
agonia. Bolvar estava plido  e de olhos midos. E quando Winter
murmurou para Bibiana: "Agora  o fim. Questo de minutos" - julgou ver
no rosto dela uma expresso estranha que o deixou desconcertado.  Os
olhos da me de Bolvar brilharam com uma sbita luz de alegria que lhe
iluminou o rosto inteiro por uma frao de segundo.
  Winter tinha outras coisas que fazer, mas achou conveniente ficar no
Sobrado para esperar o desenlace. Era noite e tinham trazido para a
mesa-de-cabeceira de Aguinaldo  um velho candelabro com cinco velas. Uma
preta entrou e disse baixinho a Bibiana que o relgio grande de pndulo
tinha parado de repente, e que isso era mau agouro.  Como se algum bom
agouro fosse possvel num caso daqueles - refletiu o mdico.
  A notcia espalhou-se rapidamente pela vila. Comearam a aparecer
amigos, conhecidos, curiosos - gente que vinha perguntar como "estava
passando o velho". O padre  Otero foi chamado para administrar a
extrema-uno ao moribundo. Puseram uma vela acesa na mo de Aguinaldo,
e Luzia teve de apertar-lhe os dedos com os seus para  que o av pudesse
sustentar a vela. No quarto silencioso ouviu-se a voz montona do padre,
murmurando palavras em latim. Winter olhava para Luzia e via que ela
estava  gozando aquele momento. Tinha a respirao ofegante e um brilho
meio embaciado nos olhos claros. Agora,  luz das velas, Winter via-lhes
melhor a cor: eram verdes,  no havia a menor dvida, dum tom que o mar
assume em certos dias de sol fraco.
  509
  Aguinaldo expirou poucos minutos depois que o padre Otero saiu do
quarto. Luzia no consentiu que lhe cerrassem os olhos, pois o velho
sempre lhe dizia: "Quando  eu morrer no me fechem os olhos: quero
entrar no outro mundo enxergando tudo. Luzia quis vestir o av com suas
prprias mos. Quando a sogra se ofereceu para ajud-la,  ela respondeu
com uma voz que a Winter pareceu uma navalhada:
  - No carece. Quem tem de fazer isso  um parente. Eu sou aqui a nica
parenta dele!
  Pediu que os outros sassem do quarto e fechou a porta a chave. Bolvar
tinha j mandado fazer o caixo. Como no houvesse armador na vila,
trouxeram um carpinteiro  para o Sobrado e ali mesmo na despensa o homem
ficou a trabalhar no esquife. E assim durante muito tempo, enquanto
Luzia estava fechada no quarto com o cadver do  av, os outros ficavam
a ouvir os sons das marteladas que ecoavam pela casa toda. Winter
procurava alguma coisa para dizer mas no lhe ocorria nada. Bolvar
estava  visivelmente abalado. Bibiana, serena, j comeava a tomar
providncias para o velrio. Iam deixar o corpo na sala de visitas:
podiam fazer o enterro s oito da  manh seguinte. E o vento continuava
a soprar, fazendo as vidraas trepidarem num rufar de tambores aflito.
  Em dado momento, quando Bibiana veio trazer o chimarro para os
primeiros homens chegados ao velrio, Carl Winter ouviu-a dizer em voz
baixa ao filho:
  - Tua mulher est de olho seco.
  Olhando para as caras rudes e barbudas dos santa-fezenses que
conversavam em surdina nas salas do Sobrado, Winter desejou a presena
de Trude Weil que, em contraste  com aquelas figuras sombrias, lhe
pareceu uma imagem de cromo, toda feita de leite, ouro, mel e
lpis-lazli. Mas qual! - refletiu ele em seguida - quela hora talvez
sua bem-amada longnqua, gorda e desbotada, estivesse a vender salsichas
atrs dum balco de mercearia, enquanto o filho do burgo-mestre lhe dava
palmadas nas ndegas,  soltando grandes risadas que recendiam a chucrute
e cerveja.
  O mundo estava errado, irremediavelmente errado. A teiniagu continuava
l em cima fechada no quarto com o defunto.
  510
  Bolvar tinha no rosto a marca da infelicidade. E a Trude Weil, que ele
amara um dia, no existia mais.
  Florncio apareceu mais tarde, quando o cadver de Aguinaldo j estava
dentro do esquife, metido na sua roupa preta domingueira, as mos
amarradas sobre o peito  de polichinelo, as pernas cobertas de flores.
Quatro crios ardiam na sala e mais quatro dentro do espelho.
  Pessoas comeavam a chegar. Bento Amaral tambm compareceu - deu psames
a Luzia, Bolvar, e cumprimentou Bibiana, que lhe negou a mo e virou as
costas - e foi  sentar-se, taciturno, a um canto da sala, junto do padre
Otero. O dr. Nepomuceno chegou com a esposa por volta das nove horas,
murmurando desculpas: s mui tarde  ficara sabendo do triste evento,
pois estivera fora da vila, etc..., etc...
  No velrio os homens a princpio estavam meio bisonhos e silenciosos;
mas comearam a animar-se aos poucos,  medida que o chimarro foi
correndo a roda e as escravas  iam trazendo roscas de polvilho, bolos de
coalhada e finalmente licor de pssego. Um caboclo que Winter nunca vira
- um tipo alto, muito trigueiro e de zigomas salientes  - comeou a
contar histrias do velho Aguinaldo: andanas, ditos e espertezas. Os
outros puseram-se a rir baixinho, sacudindo muito a cabea. Bibiana
mandou trazer  para a sala morturia todas as escarradeiras que havia no
Sobrado e espalhou-as pelo cho. Alvarenga puxou com o juiz de direito e
o padre uma discusso sobre a  imortalidade da alma. No seu caixo
preto, de rosto descoberto - como a neta exigira - e olhos arregalados,
Aguinaldo tambm parecia escutar.
  Winter olhava para Luzia. Luzia olhava para o defunto. O defunto olhava
para o teto.
  10
  Depois da missa do stimo dia, Bolvar, a mulher e a me foram para o
Angico, resolvidos a ficar l at princpios do inverno.
  511
  E quando o outono entrou, Carl Winter decidiu fazer uma excurso s
Misses. Seu interesse pelas runas daquela curiosa civilizao revivera
de repente. E como no  momento nenhum paciente necessitasse de sua
presena em Santa F, e como os dias andassem belos e calmos, o mdico
fez a mala, comprou um cavalo, contratou um vaqueano  e ps-se a
caminho. Partiram de madrugada, pouco antes do sol nascer. O ar estava
frio e mido, galos cantavam nos terreiros. Como o guia - que era neto
do Chico  Pinto - fosse homem de pouca conversa, a primeira lgua foi
percorrida quase em silncio. E como ao entrarem na segunda o moo ainda
continuasse calado, Winter decidiu  conversar consigo mesmo, e em
alemo, coisa que o companheiro pareceu no estranhar muito. Quando,
porm, o sol estava j a pino, o vaqueano voltou para o mdico  a face
curtida e disse:
  - Ainda que mal pergunte, doutor, vosmec vai procurar algum tesouro?
  Winter soltou uma risada. Um quero-quero gritou perto, como numa
resposta.
  - Est claro que no, amigo. Vosmec acredita mesmo que h tesouros
enterrados nas Misses?
  O outro tirou de trs da orelha um toco de cigarro, bateu o isqueiro com
pachorra e depois de puxar a primeira baforada, quando Carl j havia
quase esquecido a pergunta,  respondeu:
  - Pode que sim, pode que no.
  Ao fim do primeiro dia de viagem, de rins doloridos, pernas dormentes,
Winter estava j arrependido de se haver metido naquela aventura. Era um
homem curioso - no  havia dvida - gostava de conhecer gentes e lugares
novos; mas por outro lado seu comodismo obrigava-o a ficar sempre no
mesmo lugar, repelindo com certo horror  a idia de movimentar-se,
vencer distncias, enfrentar as asperezas das jornadas, a intemprie, a
mudana de regime alimentar, o desconforto das pousadas de emergncia...
  Passaram aquela primeira noite na casa dum pequeno estancieiro, que os
recebeu com a hospitalidade caracterstica das gentes da provncia e
lhes deu um bom churrasco  com farinha, uma guampa de leite gordo e um
catre sofrvel.
  512
  No dia seguinte ao entardecer chegaram s runas da reduo de Santo
ngelo e Winter foi imediatamente olhar o que restava do templo. Estava
ainda de p o grande  frontispcio, a porta principal era flanqueada
por dois nichos, num dos quais Winter viu uma imagem de pedra
representando um sacerdote paramentado, com um livro  debaixo do brao
esquerdo. Devia ser Santo Incio de Loiola - refletiu o mdico. O santo
do outro nicho estava sem cabea, e no pedestal da esttua no havia
nenhuma  inscrio esclarecedora. O vaqueano olhou para a imagem
decapitada e disse:
  - A Ia fresca, Io degolaram!
  Winter sorriu e ficou a examinar as quatro grandes colunas derrocadas
que se erguiam  frente do templo e que deviam ter servido de
sustentculo ao prtico. Por  toda parte cresciam guanxumas, urtigas e
marias-moles. Durante muito tempo o alemo ficou olhando o horizonte do
anoitecer atravs das aberturas daquela fachada  em runas. E quando a
noite caiu, sua impresso de soledo e abandono foi to profunda, que
ele ficou meio deprimido. O vaqueano cozinhou arroz com charque, que
ambos comeram em silncio, e depois preparou um chimarro, de que o
mdico teve de participar, para no ofender o companheiro. Dormiram ao
relento, sobre os arreios.  Antes, porm, de fechar os olhos, Winter
ficou deitado de costas, com as mos tranadas sob a cabea, pensando na
singular civilizao que ali havia florescido e  em como era estranho
estar ele, Carl Winter, naquela terra remota  luz das estrelas, diante
dum templo jesutico em runas. Comeou a fazer consideraes sobre  o
tempo, a Histria e a Geografia.
  De certo modo o tempo histrico dependia muito do espao geogrfico. Na
Europa agora a humanidade se achava em pleno sculo XIX. Mas em que
idade estariam vivendo  os habitantes de Santa F e da maioria das
vilas, cidades e estncias da provncia do Rio Grande do Sul? Existiam
vastas regies do globo que ainda se encontravam  no terceiro dia da
Criao. E o viajante que em meados do sculo XVIII visitasse os Sete
Povos de Misses, haveria de encontrar ali uma esquisita mistura de
Idade  Mdia e Renascimento, ao passo que se se afastasse depois na
direo do nascente ele
  513
  como que iria recuando no tempo  medida que avanasse no espao, at
chegar ao Continente de So Pedro do Rio Grande, onde entraria numa
poca mais atrasada em  que homens vindos do sculo XVIII, com suas
roupas, armas, utenslios, hbitos e crenas se haviam estabelecido numa
terra de tribos pr-histricas, onde ficaram  a viver numa idade
hbrida.
  Dias depois Winter e seu guia chegaram a So Miguel, cujo grande templo
em runas causou ao mdico uma impresso ainda mais funda que o de Santo
ngelo. Carl passeou  vagarosamente ao longo das colunas corntias,
agora dilapidadas e cobertas de parasitas, e que outrora, em nmero de
dezoito, tinham sustentado um majestoso prtico.  Tentou subir ao alto
da torre principal, onde se via ainda o revestimento de madeira que
protegia o maquinismo do grande relgio do templo - mas os degraus da
escada  do campanrio, carunchados e podres, cederam ao peso de seu
corpo e partiram-se.
  O vaqueano, que o observava, gritou:
  - Cuidado, doutor, que vosmec pode cair e quebrar as guampas.
  Quebrar as guampas! - repetiu Winter mentalmente, sem saber se devia
zangar-se ou no. Que expresso! Mas sua experincia da maneira de falar
das gentes da provncia  o aconselhava a nunca tomar aqueles ditos muito
ao p da letra.
  Continuou a andar dum lado para outro,  frente das runas, enquanto o
guia lhe preparava o almoo e de quando em quando lhe lanava olhares
furtivos e desconfiados.  Pensa que ando procurando tesouros - refletiu
Winter, que tinha agora nas mos um lpis e um caderno de notas no qual
procurava reproduzir o desenho das cabeas  de leo esculpidas em pedra
e que encimavam os capitis das colunas, nos ngulos da torre principal.
- Que teria existido no alto do zimbrio? - perguntou ele a  si mesmo em
voz alta. Um galo de ouro - afirmavam os antigos. E sobre a cimalha
majestosa? As imagens de So Miguel e dos doze apstolos - informavam os
cronistas.  E Winter tomava notas, rabiscava desenhos. - Evidentemente o
estilo lembra o Renascimento italiano... - murmurou ele, umedecendo com
a lngua a ponta do lpis.
  514
  E pisando em ervas daninhas e pensando vagamente na possibilidade de
tropear numa cascavel, Winter visitou o interior do templo, onde ficou
por algum tempo tentando  reconstituir com a imaginao a pompa antiga
dos nove altares, com seus candelabros, lmpadas de prata, imagens,
vitrais e alfaias.
  Depois foi examinar a grande muralha de pedra que circundava a quinta da
reduo, atrs da igreja; estava ela toda coberta de trepadeiras e de
rosas silvestres brancas  e escarlates.  sombra dessa muralha florida,
Winter sentou-se aquela tarde para ler o volume de poemas de Heine que
havia levado consigo. E  noite ao deitar-se  pensou em todas as
criaturas que no passado tinham pisado aquele cho - ndios,
missionrios, bandeirantes, aventureiros, cientistas, viajantes...
Aquelas pedras  - refletiu ele - haviam sido envolvidas por melodias
inventadas por compositores europeus e reproduzidas por jesutas e
indgenas em instrumentos fabricados na prpria  reduo. Onde estavam
agora as melodias do passado? Onde? Para se divertir fez em voz alta
essa pergunta ao vaqueano. O rapaz mirou-o com ar srio e disse:
  - Vosmec est mangando comigo, doutor.
  - No estou, meu amigo! - protestou Winter, erguendo-se. - Pense bem. Os
sinos da igreja badalavam, no badalavam? Os ndios batiam tambores, no
batiam? E tocavam  instrumentos, no tocavam? Pois bem, onde est agora
o som dos sinos, dos tambores, das cometas, das clarinetas, das liras?
Onde?
  Acocorado perto do fogo o rapaz encarou o companheiro por alguns
segundos e depois respondeu:
  - O senhor, que  doutor, deve saber. Eu sou um bagualo. Winter tornou
a deitar-se e ficou olhando para as estrelas: as
  mesmas estrelas que brilhavam neste mesmo cu no tempo da glria dos
Sete Povos! Por aqui andou Sep Tiaraju, o santo ndio que tinha um
lunar na testa. Foi na reduo  de So Tom que a teiniagu desgraou um
sacristo. O diabo - refletiu o mdico - era que tudo aquilo no passava
de pura lenda, como a histria do anel dos Nibelungen  e a de Lorelei. O
mundo da realidade, mein lieber Heine,  muito prosaico! Como eu
gostaria de ver surgir daquele cemitrio abandonado ali ao lado da
igreja o fantasma  de
  515
  algum defunto - padre ou ndio. Seria uma revelao, uma novidade, uma
quebra de rotina, o princpio de alguma coisa nova em minha vida.
  Um corujo passou em vo rpido sobre a cabea dos dois viajantes e
entrou no campanrio. As estrelas palpitavam. Winter fechou os olhos e
pelos seus pensamentos  comearam a desfilar pessoas e paisagens: Luzia,
o quarteto de amadores, Trude, um Biergarten de Heidelberg, um trecho do
rio Neckar, seu pai fumando cachimbo, Von  Koseritz num leito de
hospital, a figueira da praa, o vulto do castelo de Barba-Roxa...
  - Boa noite, doutor - disse o guia, estendendo-se sobre os pelegos.
  - Boa noite. Durma bem e tenha bonitos sonhos.
  - Eu nunca sonho.
  Winter tornou a abrir os olhos e a fit-los no cemitrio. Se ele visse
agora um fantasma sua vida mudaria por completo, ganharia um novo
sentido. Seria melhor que  encontrar o tesouro dos jesutas.
  Voltou para Santa F em princpios de maio. Vinha cansado da solido dos
campos e ansioso por convvio humano. Como o Sobrado continuasse
fechado, no teve outro  remdio seno aceitar o convite de Alvarenga e
freqentar-lhe os seres em que Florncio noivava insipidamente com
Ondina, cada um sentado na sua cadeira e separados  por lguas e lguas
de distncia, sob o olhar fiscalizador de Frau Alvarenga.
  Em fins de junho, numa noite serena particularmente fria, Gregria, cuja
autoridade em assuntos climatricos Winter respeitava profundamente,
disse:
  - Amanh vai gear.
  Efetivamente, no dia seguinte ao levantar-se da cama o mdico viu que a
relva, as rvores e os telhados achavam-se brancos de geada. O cu
estava limpo e rtilo  e comeava a soprar um ventinho frio e cortante.
  Mais um inverno! - pensou Winter. E de novo perguntou a si mesmo por que
no se ia embora. Von Koseritz continuava a
  insistir para que ele voltasse ao litoral e se instalasse em Pelotas.
Seu ilustre baro tinha planos grandiosos: ia fundar um jornal e uma
escola, meter-se na poltica,  naturalizar-se brasileiro e provavelmente
casar-se com uma moa natural da provncia.
  Tremendo de frio Winter derramou a gua do balde na gamela,
experimentou-a com a ponta dos dedos e gritou:
  - Gregria!
  Pronunciava este nome com um excesso de erres. A escrava apareceu.
Estava mais molambenta que nunca e seus olhos continuamente vertiam
gua. Winter contemplou-a  com uma mistura de repulsa.e piedade e disse:
  - Aquente um pouco d'gua para eu me lavar.
  Ficou junto do espelho a passar os dedos pelas barbas ruivas, a examinar
os prprios olhos. Estavam um pouco sujos e injetados de sangue. Botou a
lngua para fora:  saburrosa. Devia ser o fgado. Naquela excurso
comera muito charque de qualidade duvidosa e vrias vezes, depois de
tomar chuva, bebera cachaa. E o pior de tudo  - lembrou-se ele - foi
que uma noite em que suas resistncias morais estavam enfraquecidas e
seu desejo exacerbado, dormira com uma ndia. Ach!
  Enquanto Gregria fazia fogo na cozinha, Carl apanhou o violino e
comeou a tocar. Tinha os dedos duros de frio. A voz do instrumento
pareceu-lhe rouca, e lembrou-lhe,  nas notas graves, a voz de Luzia.
  De repente Winter sentiu saudade do Sobrado. Do Sobrado? Sim. No era
propriamente das pessoas da casa. Admirava dona Bibiana. Tinha pena de
Bolvar. Sentia por  Luzia uma atrao estranha que no chegava nunca a
ser desejo de estar perto dela - mas que o compelia a olhar
irresistivelmente para a moa, quando em sua presena.  Gostava, porm,
do Sobrado como dum velho amigo calado e acolhedor, que tudo d e nada
pede. Era a nica casa daquela vila que lhe dava uma impresso de
conforto,  de abrigo. Gostava dos seres do casaro, que cheiravam a
acar queimado e defumao de alfazema. Carl arranhava no violino um
minueto de Beethoven, e quando Gregria  apareceu trazendo a chaleira
preta de picum e arrastando os ps de paquiderme, ele teve
  516
  517
  uma conscincia to aguda do contraste - o minueto e a figura da escrava
- que soltou uma risada. Gregria ficou parada no meio do quarto, de
cabea baixa, humilde  e calada.
  - T aqui a gua - disse ela com sua voz de areo.
  11
  Naquele mesmo dia Winter foi chamado para ver Juvenal Terra, que estava
de cama com uma pontada nas costas.
  - O velho no gosta de mdico - explicou-lhe Florncio no caminho. -
Parece que a coisa no  muito sria, mas  sempre bom o senhor ir ver
ele.
  Caminharam alguns passos em silncio e de repente Winter l perguntou:
  - Tem visto o Bolvar?
  - Tenho.
  - Como vai ele?
  O outro encolheu os ombros.
  - Bem. - E depois acrescentou, vago: - Eu acho... E o assunto ficou
cortado.
  Juvenal estava deitado na cama do casal, mas completamente vestido e de
chapu na cabea. Era um homem ainda forte, de rosto muito queimado,
onde crescia em desalinho  uma barba negra com raros fios grisalhos.
  - A bno - murmurou Florncio, beijando a mo do pai"
  - Deus l abenoe, meu filho.
  Os olhos midos e meio oblquos de Juvenal fitaram-se no mdico.
  - U... - fez ele, pondo-se de p. - Que  que l traz por estas
paragens, amigo?
  O rapaz foi logo explicando:
  - No v que o doutor ia passando, papai, e eu achei melhor convidar ele
para dar uma olhada em vosmec.
  Juvenal apertou a mo de Winter.
  - Mas eu no tenho nada, doutor.
  518
  Carl sentou-se na beira da cama, suspirou de mansinho, esfregou as mos
e disse:
  - Pois se no tem, melhor. Vamos ento conversar. Florncio inventou um
pretexto e retirou-se. O mdico acendeu um charutinho.
  - Quer um dos meus mata-ratos? - perguntou, sorrindo.
  - No, gracias. Prefiro um crioulo.
  Tirou da cava do colete um punhal com cabo de prata lavrada e comeou a
alisar com ele um pedao de palha.
  - Ouvi dizer que vosmec andou viajando...
  -  verdade - respondeu o mdico - andei visitando as Misses. Runas de
causar d.
  E comeou a contar das coisas que vira, dos lugares por onde andara e
das pessoas com quem conversara; terminou dizendo:
  - Mas cheguei meio adoentado, com umas dores do lado, a lngua suja.
  - Isso acontece. Eu tambm tenho andado com umas pontadas. .
  Levou a mo esquerda s costas. Mas de repente calou-se, pois
compreendeu que estava caindo em contradio. Winter desatou a rir
  - Seu Juvenal, uma das manias dos homens desta terra  acharem que no
podem adoecer. Sabe que isso  puro orgulho?
  - Qual nada, seu doutor.
  - As mulheres so diferentes, essas sempre pensam que esto doentes e
no podem enxergar um mdico que no comecem a queixar-se que sentem uma
dor aqui que responde  no sei onde... Mas os homens podem estar
morrendo que nunca se queixam. Acham que doena  coisa de mulher.
  - E no ?
  - Achl Est claro que no. Os touros no adoecem tanto quanto as vacas?
  - Adoecem.
  - Os garanhes no adoecem?
  Juvenal agora picava fumo calmamente, sorrindo um sorriso canino que lhe
expunha os dentes fortes e amarelos.
  519
  Vamos! - disse o mdico com ar trocista. - Diga o que
  sente.
  Com alguma relutncia Juvenal confessou que ultimamente andava sentindo
dores no lombo. E antes do mdico dizer o que quer que fosse, ele
concluiu:
  - Deve ter sido alguma friagem que apanhei.
  Winter no respondeu. Tomou o pulso do doente, examinoulhe a lngua,
auscultou-lhe os pulmes, fez-lhe muitas perguntas e depois tomou dum
lpis e escreveu uma receita  numa folha de papel.
  - Mande comprar isto na loja do Alvarenga. Pea  sua mulher que lhe
bote uns sinapismos nas costas. E se dentro de dois dias no estiver
melhor... O remdio  chamar  uma dessas negras velhas benzedeiras.
  Juvenal riu, bateu o isqueiro e acendeu o cigarro. Falaram do tempo e da
poltica local. E quando Winter mencionou o nome de Bolvar, teve a
impresso de que o rosto  do outro escurecia. Houve um curto silncio em
que Juvenal ficou pitando e olhando para o cho.
  - No sei se o doutor sabe - disse ele lentamente, depois de algum
tempo. - Fui muito amigo do pai desse menino. O Bolvar a bem dizer se
criou junto com o Florncio.
  Puxou um pigarro, como se estivesse constrangido e achando difcil falar
naquelas coisas.
  Winter sacudiu a cabea em silncio. Apanhou o punhal que o outro
deixara sobre uma cadeira, ao lado da cama, e comeou a brincar
distraidamente com ele.
  - O senhor s vezes vai no Sobrado, no vai, doutor?
  - Sim, vou.
  Novo silncio. Outro pigarro.
  - Doutor, vosmec  uma pessoa de fora, um estrangeiro... - Juvenal
interrompeu a sentena para tossir uma tosse seca sem vontade. - Sou
homem de poucas palavras,  gosto de ir direito ao assunto. Mas nem
sempre  fcil. H coisas muito srias, negcios de famlia, e a gente
fica meio desajeitado...
  Winter largou o punhal sobre a cadeira e disse:
  520
  - Refere-se ao casamento do Bolvar?
  Juvenal apertou forte o cigarro entre os dentes e murmurou:
  - Vosmec leu os meus pensamentos.
  - Pode falar com toda a franqueza. Um mdico  como um padre: tem de
guardar segredo. Diga o que  que h.
  - Pois a  que est o difcil da coisa. Eu no sei o que  que h. S
sinto que h qualquer coisa errada... No quero me meter na vida de
ningum, mas no final  de contas o rapaz  meu sobrinho. Ando preocupado
com o jeito dele. O Boli envelheceu dez anos depois que casou; anda
triste como carancho em tronqueira.
  - Vosmec tem conversado com sua irm a esse respeito? Juvenal sorriu um
sorriso descrente.
  - O doutor no conhece bem os Terras.  uma gente mui custosa.
  - Tenho observado que os Terras so reservados.
  -  isso. E meio teimosos tambm. No gostamos de discutir. Cada qual
fica com suas ideias. - Novo pigarro. - Mas para l ser franco nunca
botei nem pretendo botar  os ps naquela casa. Assim sendo, no vejo
muito seguidamente a mana Bibiana. s vezes ela aparece de visita, fica
por a conversando com a minha velha, mas no  fala na nora. No quer
dar o brao a torcer, porque sabe que sempre fui contra esse casamento.
Mas a gente v na cara dela que a coisa anda mal l pelo Sobrado.
Conheo bem a minha irm.
  Winter cofiou a barba e generalizou:
  - Vosmec sabe, sogra e nora nunca se entendem, principalmente quando
moram na mesma casa.
  - Mas no  s isso. Deve haver coisa mais sria. Eu sinto. O Bolvar
est se consumindo. Ser que...?
  Ia formular uma pergunta mas conteve-se. Moveu-se na cama, gemendo
baixinho; a cama gemeu com ele. Winter esperava...
  - O Bolvar me apareceu umas duas vezes depois que casou - continuou
Juvenal. - Tomou uns mates, falou no Angico, nuns negcios que tinha em
vista, mas nem chegou  a me olhar
  521
  direito. Estava assim com um jeito assustado de negro fugido, era como
se andasse acuado... Que  que o senhor acha, doutor?
  Winter encarou-o. A fumaa de seu charutinho casava-se com a do cigarro
de palha do outro e juntas subiam no ar frio.
  - Vosmec quer saber a minha opinio franca? - perguntou o mdico. O
outro sacudiu a cabea afirmativamente. Winter lanou um olhar para a
porta, antes de responder.  Vendo que no havia ningum na pea
contgua, disse, baixando a voz: - O Bolvar casou com uma mulher
doente.
  - Como doente?
  - No  uma doena do corpo, dessas que se curam com cataplasmas,
plulas ou poes.  uma doena do esprito.
  Bateu com a ponta do indicador no centro da testa e repetiu: "Do
esprito".
  - Quer dizer ento que ela no  bem certa do juzo?
  - No  bem isso.  difcil explicar.
  - Sou um homem muito ignorante. O alemo sorriu:
  - No diga isso, seu Juvenal. Eu queria saber a metade do que vosmec
sabe. H muitas coisas que os livros no ensinam. A melhor escola que h
 a da vida e por  essa escola o senhor  formado.  to bom doutor que
mesmo de longe percebeu que havia alguma coisa errada naquele casamento.
  Juvenal ficou algum tempo em silncio, fitando no interlocutor seus
olhos tristes e foscos.
  - E o que  que a gente pode fazer? - perguntou.
  - Por enquanto, nada. S ficar observando a coisa. Vosmec compreende
que s posso intervir quando Bolvar me pedir. Antes, no. E em qualquer
caso no acho que  possa fazer muito...
  - E ser que o Bolvar pede?
  - Vosmec, que  parente, sabe melhor. Ser que pede?
  - Pode ser. O Bolvar sempre foi mais expansivo que a me, que eu ou que
o Florncio. Herdou um pouco o gnio do pai. Mas o senhor sabe duma
coisa? Por falar em  gnio, tenho muito medo que o rapaz um dia faa
alguma loucura.
  - Loucura?
  522
  - Sim, que perca a pacincia e surre a mulher.
  - Pois isso no faria nenhum mal.
  Juvenal ficou pensativo por alguns instantes. Depois, tentando em vo
tirar uma baforada do cigarro que se apagara, disse:
  - Parece mentira. Tanta moa boa por a e ele foi escolher justamente
aquela. Veja o que  o destino duma pessoa... - De repente mudou de tom.
- No princpio fiquei  com medo que o Florncio andasse tambm
enrabichado por ela. Mas graas a Deus ele vai casar com uma moa muito
direita e trabalhadeira. A filha do Alvarenga, vosmec  sabe...
  Tornou a acender o cigarro e acrescentou:
  - Esse negcio de rabicho  muito engraado. - Fez uma pausa, meio
relutante, e depois prosseguiu: - Vou lhe contar porque vosmec  um
doutor, um homem de bem e  de saber. A minha mana Bibiana quando era
moa tambm se meteu na cabea de casar com um homem contra a vontade do
pai. Era um certo capito Rodrigo, que veio dessas  guerras da Banda
Oriental, passou por Santa F e aqui acampou. Pois olhe, doutor, essa
menina nos deu o que fazer. Menina... - Sorriu. - A gente continua a
chamar  as irms de menina mesmo depois que elas ficam avs. Pois a
Bibiana foi um caso srio. O senhor conhece o coronel Bento Amaral. Pois
era um rapago vistoso, rico,  disputado pelas moas. Estava louco pela
Bibiana. Mas ela no quis saber dele. Queria o outro, o tal capito
Rodrigo. Bateu p e casou. Meu pai lavou as mos.
  Aquela gente - refletiu Winter com um sbito bom humor - parecia no
fazer outra coisa seno lavar as mos ante os casamentos dos parentes.
  - E ela foi feliz? - perguntou, s para fazer o outro continuar.
  - Bom. Diz ela que foi...
  - Mas que  vosmec acha?
  - Eu? Pois, homem,  difcil dizer. Sei que a Bibiana passou o diabo com
o marido. Ele era chineiro, jogador, gostava de empinar o seu copo,
vivia metido em fandangos  e no era amigo do trabalho. Mas a Bibiana
jura que foi feliz. Vosmec conhece o nosso ditado: "O que  de gosto
regala a vida".
  523
  -  o amor, seu Juvenal.
  - Pois . Uma coisa esquisita. O capito Rodrigo tinha um no sei qu
naquela cara, que deixava a gente brabo e ao mesmo tempo gostando dele.
No primeiro dia quase  brigamos a arma branca, mas depois ficamos amigos
e at scios num negcio. - Fez uma pausa. - Mas acho que estou falando
demais.
  Calou-se, meio ressentido, como se tivesse adivinhado nos pensamentos do
outro qualquer censura ou mesmo surpresa ante sua tagarelice.
  - Por amor de Deus, seu Juvenal! Continue. Estou muito interessado nas
coisas que o senhor est contando.
  Winter calou-se. E de repente ele no estava mais em Santa F
conversando com Juvenal Terra e sim num caf de Berlim, dali a muitos
anos, numa roda de amigos, recordando  aquele momento: "Era um homem
calado, muito discreto... Mas eu tinha certa ascendncia sobre aquelas
criaturas e elas sempre me faziam confidncias. Eu s queria  saber que
fim levou Herr Juvenal Terra...
  - Pra l ser franco - continuou Juvenal, remexendo-se na cama - eu
gostava do capito Rodrigo. Achava que ele era valente, engraado, um
bom companheiro pra tudo.  Mas pra falar bem a verdade, nunca me senti 
vontade perto dele...
  - Tinha sempre medo que ele fizesse uma das suas...
  - Isso! E ele sempre acabava fazendo. Depois que fazia, eu tinha vontade
de ir pra cima dele de rebenque em punho. Mas isso era s no primeiro
momento. Em seguida  o homem desarmava a gente com uma risada, com uma
palavra ou s com um jeito de olhar.
  - Pois se vosmec, que  homem, sentia isso, como  que pode censurar a
sua irm por ter amado um tipo dessa tmpera?
  - Pois  como l digo. Isso de gostar  uma coisa engraada. A amizade
tambm. Vosmec no acha que a gente pode querer bem at um homem
sem-vergonha, um ordinrio,  um patife?
  Winter sacudia a cabea com uma gravidade de que ele mesmo achava graa.
  - Claro que pode. Os patifes so em geral pessoas muito simpticas. No
h nada mais aborrecido que um homem de carter.
  524
  - Nesse ponto no estou de acordo com vosmec. H homens direitos que d
gosto a gente conhecer.
  Winter deu uma palmada na prpria coxa e levantou-se.
  - Bom! Mande fazer a receita e bote o sinapismo. Amanh eu volto.
  Juvenal quis levantar-se.
  - No. No se levante. Vosmec precisa ficar de resguardo.
  - Mas... doutor. Quando puder v ao Sobrado, bombeie e veja o que  que
pode fazer pelo Bolvar. Pode ser que o rapaz se abra com vosmec. Pode
ser que a Bibiana  deixe escapar alguma coisa.
  - Est bem. Prometo fazer o que puder.
  - Eu l agradeo muito.
  Winter saiu do quarto. A mulher de Juvenal, que estava na cozinha, veio
a seu encontro. Era uma criatura raqutica, de rosto ossudo e lbios
muito finos. Tinha cabelos  lisos, dum grisalho amarelado, e falava com
as pessoas sem nunca encar-las.
  - Que  que ele tem, doutor?
  - Nada de srio. Passei uma receita. Bote um sinapismo nele hoje mesmo.
E no deixe seu marido se levantar nem apanhar frio. At logo, dona
Maruca.
  Florncio esperava-o  porta: saram a caminhar juntos.
  - Estivemos conversando sobre o Bolvar - contou Winter. Florncio nada
disse por algum tempo. Depois desconversou:
  - Eu ouvia o zunzum das conversas e estava admirado do Velho estar
falando tanto. O senhor pode se gabar de ter conseguido o que ningum
consegue. Por que ser que  as pessoas se abrem com vosmec?
  - Deve ser por causa do meu chapu alto.
  Winter caminhava com suas largas passadas de pernilongo. Voltou a cabea
bruscamente para Florncio e disse:
  - . Algumas pessoas tm confiana em mim. Mas nem todas. - Olhou o
outro bem nos olhos e repetiu: - Nem todas.
  Florncio sorria um sorriso vago, mastigando um talo de capim. Mas
continuava silencioso.
  525
  12
  Cari Winter voltou ao Sobrado num domingo de fins de julho, para
almoar. E quando se viu sentado na sala de jantar  grande mesa que
Aguinaldo sonhava encher de  bisnetos, mas em torno da qual estavam
agora apenas Luzia, Bolvar e Bibiana - o mdico temeu que aquele almoo
no passasse duma sucesso de silncios pontuados  de pigarros, suspiros
e tosses falsas. Em breve, porm, verificou que se enganava. Porque
Luzia estava loquaz, amvel, simptica como ele jamais a vira. Parecia
outra pessoa. Tratava tanto o marido como a sogra com naturalidade e
quase com cordialidade. Isso facilitava tudo. E embora Bibiana passasse
a maior parte do tempo  dando ordens s escravas que serviam a mesa, e
Bolvar se mantivesse mergulhado num silncio que a Winter pareceu de
ressentimento - a conversa decorreu fcil desde  a sopa at a sobre-
  mesa.
  Dona Bibiana mergulhou a colher grande - a que chamava "cucharra" - na
terrina fumegante.
  - Gosta de canja, doutor? - perguntou Luzia.
  - Se gosto de canja, meine liebe Frau Cambar? Isso nem se pergunta. A
canja  uma das delcias desta terra. Num dia frio como este uma canja
assim no s aquece  o corpo como tambm a alma.
  Luzia sorriu.
  - Vosmec sabe, dr. Winter, do que eu mais me admiro?  da maneira
correta como vosmec se exprime em nossa lngua. Tem um pouquinho de
sotaque,  verdade. Mas fala  gramaticalmente certo e com um vocabulrio
muito rico.
  Winter tomou uma colherada de canja e respondeu:
  - Muito obrigado pelo elogio. Acontece que sempre amei as lnguas e o
latim  um dos meus fortes.
  - Mas se o padre Otero, que tambm sabe latim, tivesse a facilidade de
expresso de vosmec, ns teramos melhores prdicas.
  Winter limitou-se a soltar uma risada. O luto sentava bem para Luzia -
refletiu ele - realava-lhe a pele branca e oferecia
  526
  um belo contraste com os olhos verdes. Verdes? No. Agora estavam
azulados... Ou cinzentos?
  O alemo olhou em torno. Gostava daquela sala com a sua moblia severa,
o grande relgio de pndulo e aquele lustre de cobre que pendia do teto,
sobre a mesa. Pena  era que no houvesse ali bons tapetes e quadros. A
nudez de soalhos e paredes parecia aumentar a sensao de frio que davam
em geral as casas da provncia.
  - Mais canja, doutor?
  Winter ergueu a mo num gesto que queria dizer: vamos devagar.
  - No. Obrigado. A sopa est deliciosa, mas quero reservar lugar para os
outros pratos.
  O frio lhe desaparecera do corpo e uma sensao de bem-estar agora o
animava. E quando abriram a garrafa dum velho vinho portugus e ele viu
o lquido vermelho cair  no copo, ao mesmo tempo que aquele cheiro
agridoce e inebriante lhe entrava pelas narinas, Cari Winter se sentiu
positivamente feliz. E depois que sorveu o primeiro  gole, estalando a
lngua, degustando bem o vinho, teve vontade de cantar.
  - Os brasileiros no gostam muito de cantar... - observou ele. - Por
qu?
  - Somos gente triste, doutor - observou Luzia. E seus dedos apertaram a
haste do clice.
  - Mas por qu? - perguntou o mdico. - Por qu? Bibiana encolheu os
ombros e disse:
  - Ns sabemos bem por qu.
  - Ach, meine liebe Frau Cambar! No h um ditado que diz "Tristezas no
pagam dvidas"?
  Bolvar tornou a encher seu copo, e bebeu-o em seguida dum sorvo s.
  - A mame sabe por que ela  triste - disse.
  Winter coou o queixo. Quis dizer alguma coisa mas achou melhor mudar de
assunto. Sabia da vida que Bibiana levara: conhecia a sina das mulheres
da provncia.
  - Traga os outros pratos - ordenou Bibiana  escrava que estava parada
junto da porta.
.
  526
  527
  Ela tomou conta do Sobrado - refletiu Winter. - Parece a dona da casa.
Havia no rosto daquela mulher um ar to resoluto,  que ele achou que a
coisa no podia  ser de outro modo.
  - Recebi ontem jornais de Porto Alegre - disse Luzia. - : O doutor
depois quer ler?
  - Claro! Quero ver o que est acontecendo por esse mundo, velho.
  Luzia pousou os cotovelos na mesa e uniu as mos como se  fosse rezar.
,
  - Mas no  uma coisa horrvel a vida que a gente leva aqui?
  - perguntou ela, erguendo de leve as sobrancelhas.
  Ali sentada  cabeceira da mesa, parecia uma colegial que se esforava
para representar o papel de mulher adulta num drama de ; amadores.
  - No temos teatros - prosseguiu ela - no temos concertos, no temos
bailes, no temos nada.
  Sem olhar para a nora, Bibiana observou:
  - H pessoas que passam muito bem sem festas. Luzia sorriu com doura.
  - Eu sei que h, dona Bibiana. Mas  que eu gosto dessas! coisas.
Principalmente de msica.
  Seca e brusca, a outra replicou:
  - Pois ento toque ctara.
  Luzia sacudiu a cabea com um sorriso indulgente, e o ar de quem quer
dizer: "Como  que se vai discutir com gente assim?"
  - Vosmec tem razo - disse o dr. Winter. - Devamos: ter pelo menos uma
banda de msica em Santa F. Pode ser que  um dia eu decida organizar
uma.
  Bibiana segurou a travessa de arroz que a escrava acabava de  trazer, e
retrucou:
  - Temos vivido muito bem at agora sem banda de msica.
  - Mas deixe estar que era bem bom a gente ter uma banda'
  - arriscou Bolvar. Winter notou que o vinho deixava o rapaz  com o
rosto afogueado e os olhos brilhantes.
  Inclinou-se, sorrindo, sobre a mesa na direo de Bibiana, que estava
sentada  sua frente, e perguntou:
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  - Mas no fim de contas, meine liebe Freundin, de que  que vosmec gosta
mesmo?
  - De cuidar das minhas obrigaes - respondeu ela sem hesitar. E em
seguida, dirigindo-se  escrava: - Depressa, Natlia, traga o resto,
antes que a comida esfrie.
  Entraram duas escravas com bandejas cheias de pratos. Bibiana os foi
enfileirando um por um em cima da mesa. Havia uma travessa cheia de
arroz pastoso, levemente  rosado e muito luzidio; uma terrina de
feijo-preto; um prato de galinha assada com batatas; outro de
guisadinho com abbora e finalmente uma travessa de churrasco  com
farofa. Winter olhava admirado para aquilo tudo. Era simplesmente
assustadora a quantidade de pratos que havia nas refeies das gentes
remediadas ou ricas da  provncia. Nunca menos de seis, e s vezes at
dez. No raro numa refeio serviam-se quatro ou cinco variedades de
carne, e nenhuma verdura. Por fim, como um ps-escrito  a uma longa
carta, Natlia trouxe uma travessa com mandioca frita.
  - Gosta de tudo, doutor? - perguntou Bibiana.
  Winter achava estpido encher o prato com 
  todas aquelas coisas mas sacudiu a cabea afirmativamente:
  - Gosto. Muito obrigado.
  Bibiana comeou a servi-lo. O mdico agora a observava por trs da tnue
cortina de vapor que subia da travessa de arroz. Aos quarenta e oito
anos tinha Bibiana  Terra Cambar uma fisionomia amda moa, a pele lisa,
e os cabelos apenas levemente grisalhos; e seus olhos oblquos, achava
Winter, davam-lhe uma certa graa ao  rosto. Deve ter sido uma moa
bonita - concluiu.
  J estavam todos com seus pratos cheios quando Luzia retomou o assunto
de havia pouco:
  - Nunca me esqueo duma noite no Rio de Janeiro, no Teatro Dom Pedro de
Alcntara. - Sorriu, mostrando os dentes muito brancos e regulares. -
Levavam a pera A rainha  de Chipre. Oh, isso faz j mais de trs
anos... A prima-dona era Ida Edelvira. O senhor ouviu falar nela,
doutor?
  Winter sacudiu negativamente a cabea.
  529
  
  -  uma cantora divina! - exclamou Luzia. - Quando a cortina se abriu
fiquei quase sem respirao vendo o cenrio. To lindo, to... -
Calou-se e baixou os olhos  para o prato. - Quando a Ida Edelvira
comeou a cantar senti uma coisa na garganta rompi a chorar com tanta
fora que tive de botar um leno na boca para abafar os  soluos.
  E ao dizer aquelas palavras os olhos de Luzia encheram-se de lgrimas.
Com a cabea muito baixa, quase a tocar o prato, Bolva comia com uma
pressa nervosa. Lanou  para a mulher um olhar enviesado e disse:
  - No entanto vosmec no chorou quando seu av morreuj Bibiana voltou a
cabea vivamente na direo do filho. Winter
  puxou um pigarro nervoso. Mas Luzia continuou com a expresso de xtase
no rosto.
  - Mas  diferente, Boli,  diferente. - Olhou para o mdico - Se eu   
lhe contar, doutor, que chorei como uma criana quando soube da morte de
Chopin, vosmec se admira?
  - Eu no me admiro de nada.
  - Que Chopin? - perguntou Bibiana. Luzia, paciente, voltou-se para a
sogra.
  -  um compositor, dona Bibiana. Um homem que escrevi msicas, lindas
msicas. Aquela valsa que eu toco e que a senhora gosta  dele...
  Bibiana sorriu enigmaticamente.
  - Pois chorei, doutor - continuou Luzia. - E sabe por que chorei mais?
Porque Chopin morreu em 1849 e s trs ano depois  que fiquei sabendo,
por puro acaso. No  Brasil a gente viv num fim de mundo, no  mesmo?
  Winter estava pasmado. Lembrava-se das palavras da prpria Luzia no 
Dia do seu contrato de casamento. Ser bom ou mau  uma questo de mais ou
menos coragem.
  -  realmente um fim de mundo... - concordou ele. olhou para a janela
atravs de cujas vidraas via as vastas campinas onduladas que cercavam
Santa F. Teve, mais  que nunca, uma sensao de distncias invencveis
e de irremedivel desterro. Pensou nas centenas de lguas que teria de
percorrer para chegar ao mar
  e nos milhares de milhas de oceano que teria de navegar antes de poder
ver de novo a face de Gertrude Weil. Era assustador o isolamento em que
viviam aquelas estncias,  povoados, vilas e cidades da provncia. As
estradas eram poucas e ms. Em 1835 haviam comeado a abrir uma que
ligaria Cruz Alta e Rio Pardo, passando por Santa  F. A guerra civil,
porm, interrompera o trabalho, que s ficaria pronto dentro duns cinco
anos, no mnimo.
  Luzia comia vagarosamente, levando  boca o garfo com minsculas pores
de alimento.
  - No hei de morrer sem conhecer a Europa... - murmurou ela, descansando
os talheres nas bordas do prato. - O senhor no pretende voltar, doutor?
  - Um dia, quem sabe...
  - Me diga uma coisa, amigo - disse Bolvar, voltando-se para o mdico. -
O que  que vosmec acha dessas tais estradas de ferro?
  - Acho que est nelas o futuro dos transportes. Um pas vasto como o
Brasil no pode depender das carretas, dos cavalos e das diligncias.
  - No sei, 
  doutor. Posso ser muito atrasado, mas no troco um bom cavalo por essas
tais mquinas que cospem fumaa e fogo.
  Winter riu. No era de admirar que Bolvar Cambar reagisse daquela
forma, pois ele vira gente letrada na Alemanha olhar com supersticiosa
desconfiana para as locomotivas.  O prprio Thiers, o grande Thiers,
havia alguns anos, declarara que as estradas de ferro de nada serviriam
 Frana.
  - E o senhor viu mesmo alguma dessas engenhocas? - perguntou Bibiana.
  Winter fez um sinal afirmativo, passou a descrever com mincias um trem
de ferro, e acabou fazendo a lpis o esboo duma locomotiva numa folha
de papel. Bibiana  ouviu-o com um sorriso ao mesmo tempo divertido e
descrente: era como se estivesse a escutar, com certa indulgncia, a
narrativa das travessuras duma criana. E  quando o mdico terminou o
esboo e passou-lhe o papel, ela o examinou com olho desconfiado e
depois perguntou:
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  - E vosmec acha que um dia essas coisas vm aqui pra provncia?
  Winter ia responder quando Luzia o interrompeu:
  - Estive lendo nos jornais que vo inaugurar este ano a primeira estrada
de ferro no Brasil.
  - Mas vai custar a chegar at aqui - observou Bolvar. - Tudo custa.
Leva anos e anos.
  - Quanto mais custar - sentenciou Bibiana - melhor pra ns.
  A estrada de ferro a que Luzia se referira pertencia a uma companhia
inglesa. Quando passara pelo Rio de Janeiro, Winter ficara surpreenddido 
ante o nmero de firmas  e agncias comerciais britnicas que l
existiam. O Brasil - refletira ele ento - proclamara sua independncia
cortando as amarras que o prendiam a Portugal, mas  de certo modo
continuara a ser uma colnia, e colnia da Inglaterra.
  Winter no podia disfarar sua malquerena pelos ingleses, que na sua
opinio outra coisa no eram seno piratas que tudo faziam por parecerem
gentlemen. Depois  de encorajarem por muitos anos o trfico de escravos,
agora haviam decidido proibi-lo, mandando sua esquadra policiar os mares
 caa de navios negreiros. Depois  de velha a prostituta esforava-se
por parecer dama respeitvel - refletiu Winter, tomando um gole de
vinho. Mas que grandes interesses estariam por trs daquele  gesto
aparentemente nobre: Que tremendos desgnios?
  Pensou nos colonos alemes. Estava certo de que eles poderiam ajudar com 
seu trabalho e seus conhecimentos o progresso do Brasil. Os que ali
haviam chegado at ento  lutavam com toda a sorte de dificuldades: as
distncias, a falta de meios de comunicao, a ignorncia dos nativos e
a indiferena dos governos. Faziam, entretanto,  o que podiam. Aos
poucos iam realizando coisas, fundando colnias novas, cultivando a
terra, exercendo, enfim, um aprecivel artesanato. Quando, porm, esse
trabalho  comeava a dar frutos, l viera aquela estpida guerra civil
que atrasara a provncia de muitos anos. Von Koseritz escrevera-lhe,
havia pouco, cartas cheias de entusiasmo  pelo futuro da colonizao
germnica. Contava-lhe,
  com orgulho, o que seus compatriotas j tinham feito. Existiam nas
colnias alems da provncia mais de trinta engenhos para a fabricao
de aguardente, vrios teares  para linho (linho que eles prprios,
colonos, plantavam), curtumes, engenhos para mandioca, serrarias movidas
a gua, olarias, cervejarias e at uma oficina para  lapidar pedras
finas.
  Pensando nessas coisas, Winter mastigava, observando Bolvar. Ali estava
um belo tipo. Era robusto, msculo, tinha coragem, conhecia as lidas do
campo e as da guerra.  Mas era homem de poucas letras, mal sabia ler e
escrever e no possua a menor noo de histria ou geografia. Havia
anos que os santa-tezenses tinham pedido ao  governo o provimento de
escolas pblicas para as parquias do municpio, a abertura de mais
estradas e o estabelecimento de colnias. A indiferena da Assemblia
Provincial ante aqueles pedidos era simplesmente pasmosa. No era, pois,
de 
  admirar que as pessoas em Santa F crescessem e morressem analfabetas...
s vezes - refletiu Winter - parecia que a nica funo dos homens da
provncia do Rio Grande  do Sul era a de servirem periodicamente como
soldados a fim de manterem as fronteiras do pas com a Banda Oriental e
a Argentina. Numa carta recente ao seu lieber  Baron, ele escrevera:
"Parece que a regra geral aqui  a guerra, sendo a paz apenas uma
exceo; pode-se dizer que esta gente vive guerreando e nos intervalos
cuida  um pouco da atividade agrcola e pastoril e do resto; mas um
pouco, s um pouco, porque parece que tudo  feito com o pensamento na
prxima guerra ou na prxima  revoluo. H nos olhos destas mulheres
uma permanente expresso de susto".
  A voz quente de Luzia tirou Winter de seu devaneio.
  - ... no  maravilhoso, doutor?
  - Perdoe-me, mas no ouvi.
  - Estou dizendo que na Corte j foi inaugurada a iluminao
  a gs.
  - Minha av morava num rancho perdido no meio do campo - disse Bibiana -
alumiado de noite por uma lamparina de leo de peixe feita duma guampa.
No acho que mais  luz ou menos luz possa fazer uma pessoa mais feliz ou
infeliz.
  532
  533
  - Essas invenes trazem mais' conforto  vida - replicou Luzia.
  - Vosmec j pensou, dona Bibiana - disse Winter, descansando os
talheres sobre a mesa - que um dia Santa F vai ser > uma cidade, com
muitas casas, lampies nas  ruas, teatros, fbricas, i e gente, muito
mais gente que agora?
  Bibiana, que olhava fixamente para o prato do mdico, perguntou:
  - Quer mais alguma coisa, doutor?
  - No, minha senhora, muito obrigado.
  - Pode tirar os pratos, Natlia! - gritou a viva do capito Rodrigo. E
depois, entrelaando as mos e pousando-as sobre a  mesa, olhou para
Winter com seus olhos  chineses e disse: - J  pensei, sim, doutor. J
pensei em todas essas coisas. Mas tambm pensei que quando Santa F
ficar mais grande vai haver muito mais maldade,  muito mais bandalheiras
que agora. - Soltou um suspiro > quase imperceptvel. - As vezes acho
que at  melhor uma pessoa  no ser instruda, no saber ler. Os
livros esto cheios de porcarias ; e perversidades.
  Winter compreendeu que aquelas farpas eram dirigidas contra; Luzia.
  - Nem todos os livros - disse ele.
  Natlia colocou diante de Bibiana uma pilha de pratos fundos e um jarro
de leite cru e frio.
  - Quer mogango com leite, doutor?
  - Se quero mogango com leite? Certamente!  das grandes invenes desta
provncia. Gosto muito tambm de batata-doce com leite.
  Bibiana sorria quando contou:
  - Meu marido costumava dizer que homem bem macho no come nenhuma coisa
doce com leite.
  - Na opinio dele - perguntou o alemo - qual  a mistura digna do homem
forte?
  Despejando leite no prato fundo, Bibiana respondeu:
  534
  - Marmelo assado, milho verde, farinha de beiju... Era o que o capito
dizia.
  Pela primeira vez durante aquele almoo Winter viu Bolvar sorrir.
  - A mame s vezes me conta coisas do papai... - disse ele. - Ele sempre
dizia que Cambar macho no morre na cama.
  - Ser que queria dar a entender que o nico fim digno dum homem de
coragem  morrer lutando? - perguntou Winter, tirando do bolso um
charutinho e pedindo licena  s damas para acend-lo.
  - Acho que sim - respondeu Bolvar ainda sorrindo e fazendo
distraidamente riscos na toalha com a lmina duma faca. Prosseguiu:
  - O papai tambm dizia que gostava de mulher de bom gnio, faca de bom
corte, cavalo de boa boca e ona de bom peso.
  Winter estendeu o brao na direo de Bibiana, que naquele momento lhe
passava o prato com um pedao de mogango.
  - Meu marido tambm gostava de dizer que quando falava com homem olhava
prs olhos dele; e quando falava com mulher, olhava pra boca, e assim
ficava logo sabendo  com quem estava tratando.
  - Se no me engano - observou o mdico - isso quer dizer que o capito
Rodrigo julgava tanto as mulheres como os cavalos pela boca...
  Luzia, que at ento estivera com ar abstrato, falou:
  - Mas, dr. Winter, nesta terra os homens no fazem muita diferena entre
as mulheres e os cavalos.
  Bolvar de sbito empertigou o corpo e, sem voltar a cabea para a
mulher, protestou:
  - Ora, vosmec nem devia dizer uma coisa dessas. Bibiana sorria o
sorriso misterioso de quem sabe mais do que
  diz.
  - Mas  verdade, Bolvar! - replicou Luzia. - Veja bem, doutor, a idia
dos gachos em geral  a de que o cavalo e a mulher foram feitos para
servirem os homens.  E ns nem podemos ficar
  535
  ofendidas, porque os rio-grandenses do muito valor aos seus cavalos...
  Winter no fundo estava disposto a concordar com Luzia, mas achou melhor
dizer:
  - Vosmec est exagerando um pouco.
  - Um pouco, talvez, mas no muito.
  Todos estavam servidos de leite. Winter meteu a colher no bojo da metade
de mogango que lhe coubera, e comeou a misturar a polpa dourada com o
leite. Luzia prosseguiu:
  - Eu sei que sou censurada, que sou falada na vila s porque no quero
ser como as outras mulheres que levam uma vida de escravas.
  Outra vez Bibiana ficou tesa e tensa na sua cadeira. Tinha olhos e
lbios apertados, o rosto contrado numa expresso de expectativa meio
agressiva.
  - Fui educada na Corte. Sei como vivem as mulheres nas grandes cidades
do mundo.
  Bolvar estava sombrio e mexia com mo distrada o seu leite com
mogango. Winter sorvia a sua mistura com gosto e seus bigodes estavam
respingados de leite.
  -  por isso que eles no querem mandar as mulheres para a escola -
continuou Luzia.
  - Na escola no ensinam a costurar, nem a cozinhar, nem a cuidar dos
filhos - murmurou Bibiana sem olhar para a nora e mal descerrando os
lbios.
  Luzia sorriu para o mdico com indulgncia.
  - Opinies - murmurou Winter, com a boca cheia. - Opinies...
  Aquele leite com mogango estava delicioso, mas ele se sentia enfarado,
com uma bola no estmago, uma preguia de pensar, um desejo de sair a
caminhar ao ar livre.  Mesmo assim continuava a comer,
irresistivelmente, confirmando um ditado muito do gosto de dona Bibiana:
"Comer e coar,  questo de comear".
  - A Luzia ainda no se acostumou com a vida num lugar pequeno como Santa
F - explicou Bolvar. - E a gente tem de 
  536
  compreender; pra uma moa educada em cidade grande, morar em Santa F
no  fcil.
  Luzia, que ainda no tinha tocado seu leite, disse com grande
tranqilidade:
  - Mas eu no moro em Santa F, Bolvar. Moro no Sobrado.
  Winter sabia que Luzia no visitava ningum nem recebia visitas.
Detestava o Angico e a vida do campo. Raramente saa de casa; e mesmo
quando estava no Sobrado passava  a maior parte das horas fechada em seu
quarto de dormir.
  Eram quase duas horas quando deixaram a mesa. Luzia pediu licena e
retirou-se para o andar superior. Bolvar comeou a fazer um cigarro.
Bibiana convidou o mdico  para irem at o quintal e quando o filho fez
meno de segui-los, ela o deteve com um gesto, dizendo:
  - Fique aqui, Boli. Quero um particular com o doutor.
  O rapaz sacudiu a cabea em silncio e ficou.
  13
  Fora, fazia um frio seco e o ar era lmpido. Bibiana e Cari Winter
caminhavam vagarosamente sob as rvores. O cho de terra batida e
avermelhada estava manchado  de sombras e borrifado de sol. Por entre as
folhagens das rvores avistavam-se nesgas de cu, dum azul muito lavado
e longnquo. Debaixo dum 
  p de magnlia via-se uma carroa de varais cados. Penduradas duma
taquara posta horizontalmente entre dois cinamomos, pendiam vrias
lingias frescas. As laranjeiras  estavam carregadas de frutos.
  - Neste quintal eu brinquei quando era menina... - disse Bibiana. Parou
e apontou para uma rvore. - Essa foi a minha av que plantou.  um
marmeleiro-da-ndia.  Veja que bonita, doutor. D uma fruta grande,
amarelona.
  - Comestvel?
  - No. Mas mui linda. Continuaram a andar.
  537
  - Est vendo aquele poo ali? - perguntou Bibiana, estendendo a mo. O
mdico sacudiu afirmativamente a cabea. - Foi o meu pai que fez, com
tijolo da olaria dele.  Fez tudo. At o balde e a corda. No  mesmo pra
gente ter amor a estas coisas?
  - A senhora deve estar feliz agora.
  - Por qu?
  - Voltou para o seu cho. < Bibiana franziu a testa, ficou um instante
num silncio reflexivo e depois disse:
  - Sim, mas no estou na minha casa.
  Continuou a andar, calada, olhando para baixo. Winter acompanhou-a,
tambm em silncio.
  - Aquela rvore ali  uma goiabeira. No h muitas em Santa F. A outra,
a pequena, de folha lustrosa,  uma pitangueira. As flores do jardim a
geada matou. Mas  quando chegar a primavera vo ficar lindas. Tem
hortnsia, dlia, amor-perfeito, bonina, primavera, begnia...
  Winter sabia que Bibiana no o levara at ali para falar em flores e
rvores. Chegaram ao muro do fundo do quintal, junto do qual havia um
galinheiro onde um esplndido  galo branco de crista escarlate estava
postado com certa imponncia em cima duma pedra, como que a olhar com
superioridade para as galinhas em torno.
  Bibiana ficou olhando por muito tempo "seus bichos", como que esquecida
da presena do doutor. Aninhada num caixo cheio de palha, uma grande
galinha branca estava  no choco. De repente Bibiana disse:
  - Ela vai ter um filho. ,
  - Quem? - perguntou Winter quase sem sentir. 't
  - A mulher do Boli.
  O mdico meteu os dedos nas barbas e coou o queixo distraidamente.
  - Foi ela mesma que lhe contou?
  Sem olhar para o interlocutor, Bibiana sacudiu negativamente] a cabea.

  - No. Mas eu vi. Tenho bom olho. Estou acostumada com esse negcio. O
senhor notou alguma coisa? 
  - Para ser bem franco... s notei que ela hoje estava muito bem disposta
e at agradvel.
  - . Mas tem andado plida, com tonturas e enjos.
  Winter jogou no cho o toco do charutinho e ficou a esmag-lo com a sola
da botina, demoradamente, de olhos baixos, como se aquele ato fosse duma
enorme importncia  para o assunto de que estavam tratando.
  - O Bolvar j sabe?
  - Sabe porque eu contei.
  - Mas a Luzia no disse nada ao marido?
  - No. E quando o Boli perguntou, ela negou. O pobre do rapaz estava
louco de alegria. Foi todo entusiasmado falar com a mulher, mas ela
respondeu: "No seja bobo.  No h novidade nenhuma". Foi mesmo que
botar gua fria na fervura.
  No galinheiro trs galinhas disputavam uma minhoca, cacarejando e
bicando o cho freneticamente. O galo branco continuava impassvel.
  - Mas quem sabe se no h nada mesmo? - insinuou o mdico.
  Bibiana ergueu os olhos para ele. Sua cabea mal chegava  altura do
peito de Cart Winter.
  - Nessas coisas eu nunca me engano. Ela est grvida.
  - Mas ento eu no posso compreender... Bibiana atalhou-o:
  - Pois eu posso. Ela faz tudo isso de m pra deixar o pobre do rapaz
louco da vida. Uma vez chegou a dizer que se ficasse grvida botava o
filho fora. Imagine!
  Calou-se de repente. Fez meia-volta e disse:
  - Quero lhe mostrar um p de magnlia que plantei o ms passado.
  Winter seguia-a em silncio. Num dado momento sentiu uma vontade
irreprimvel de falar claro. Falou:
  - Pelo que tenho observado vosmec no morre de amores pela sua nora...
  Disse isso e esperou uma exploso. Mas a voz da me de Bolvar veio
calma:
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  - Nem ela por mim.
  - Ento est tudo bem. Ou est tudo mal.
  - Est tudo mal. Porque meu filho tem loucura por ela. Est ali a
magnlia. Leva muito tempo.pra crescer. Mas quando cresce fica uma
rvore muito bonita. J viu  alguma? D uma flor assim meio creme,
muito cheirosa. Ah! Tenho jasmim-do-cabo e jasmim mido. E um p de
primavera ali do lado. Tudo isto aqui era campo raso, pura
barba-de-bode, quando meu pai veio pra c. No existe aqui um arbusto
que no tenha sido plantado pela mo dum Terra.
  De repente, sem mudar a entonao da voz, perguntou:
  - Vosmec no acha que ela no  bem certa do juzo? Winter ergueu o
brao e arrancou uma folha de laranjeira e
  comeou a mordisc-la.
  - Bom, a Luzia no  uma pessoa normal, isso no ...
  - No acha que ela  capaz de botar o filho fora, s de malvada, pra nos
fazer sofrer?
  -  possvel... Mas no  provvel. Bibiana ajeitou o xale sobre os
ombros.
  - Me diga uma coisa, doutor... - Sua voz agora era um murmrio quase
inaudvel. O mdico teve de inclinar um pouco
  a cabea para ouvir melhor. Se depois de ter a criana ela
  continuar com essas loucuras...
  Calou-se. Estava de olhos no cho, evitando encarar o interlocutor.
Ouvia-se agora, vindo da rua, um tropel de cavalos e o badalar dum
cincerro. Por cima do muro  lateral erguia-se uma nuvem de poeira
rosada.
  - Pode falar, dona Bibiana. Pode dizer tudo com a maior confiana.
  - ... no era o caso de se mandar essa mulher...
  - Para um hospcio? - terminou Winter.
  Bibiana sacudiu afirmativamente a cabea. Winter teve uma repentina
sensao de frio interior. E refletiu imediatamente: "Com Luzia no
hospcio, dona Bibiana completa  a sua conquista do Sobrado". Mau grado
seu, sentiu-se chocado. Costumava considerar-se um realista e encarar as
criaturas humlanas com cinismo, sem nunca
  540
  esperar delas nobreza de sentimentos e altrusmo. Era em ocasies como
aquela que ele via como estava ainda dominado pelos seus preconceitos
cristos. A sugesto  de Bibiana deixara-o quase escandalizado.
Habituara-se a ver nela uma mulher de carter e - oh, as frases feitas,
os sentimentos feitos! - de corao bem formado.  Via-a agora como sob
uma nova luz fria, crua e reveladora: tinha a medida exata de sua
capacidade de dio. Mas... por que no virar a coisa do lado do avesso e
dizer  - de sua capacidade de amor? No estaria Bibiana a sugerir
aquelas coisas pelo muito que amava o filho e o Sobrado? E aquela
atitude no revelaria, em ltima anlise,  o esprito prtico duma
mulher realista que, no dizer do povo da provncia, costumava dar sempre
nome aos bois?
  - E vosmec teria coragem de fazer ao seu filho uma sugesto dessas? -
perguntou ele, com um sorriso que os bigodes escondiam.
  - O doutor  vosmec - respondeu Bibiana secamente.
  - E que  que acha que seu filho faria se eu lhe aconselhasse 
  mandar a mulher para um hospcio?
  Bibiana teve um rpido encolher de ombros.
  - Decerto ele esgoelava vosmec.
  - Ento? - sorriu o mdico. - Quer que seu amigo seja esgoelado?
  - No. Mas tambm no quero que ela acabe aos pouquinhos com a vida do
meu filho.
  Winter atirou os braos para o ar e deixou cair as palmas das mos com
fora sobre os lados das coxas.
  - Ento que  que se vai fazer?
  - Eu j disse que o doutor  vosmec.
  - Mas h muitas coisas que um doutor no sabe. Bibiana ajoelhou-se por
um instante e arrancou do cho um
  p de guanxuma. Para a sogra - refletiu Winter - Luzia no passava duma
erva daninha que vicejava maleficamente no jardim do Sobrado e que era
preciso extirpar antes  que ela sufocasse as plantas teis e belas.
  - J conversou com o padre Otero a esse respeito? - perguntou ele, s
para dizer alguma coisa.
  541
  -J.
  - Ele lhe deu algum conselho?
  - Deu. Me pediu que tivesse pacincia e f. Prometeu falar francamente
com Luzia. Mas sei que no fala.
  - Por qu?
  - Porque tem medo dela. Todo mundo tem.
  - Mas que foi que vosmec contou ao padre?
  - Contei das malvadezas da... dessa mulher. O senhor j viu como anda a
cara do Bolvar? Toda lanhada, toda cheia de arranhes. Um dia amanheceu
com os beios inchados,  estava-se vendo que tinha sido uma mordida. Uma
pouca-vergonha! Ainda ontem descobri uma queimadura na mo do rapaz.
"Que foi isso?", perguntei. Ele ficou meio desconcertado  e respondeu:
"No foi nada, mame. Me queimei no fogo". Mas sei que no foi no
fogo. - Bibiana estava de olhos baixos olhando uma fileira de formigas
que saam  dum buraco, ao p duma bergamoteira. - Essas malditas
formigas me estragam as plantas. Ouvi dizer que o coronel Amaral mandou
buscar em Sorocaba umas formigas midas  que comem as formigas daninhas.
Ele vai botar no quintal dele para ver se acaba com a sava. Vosmec
acha que d certo?
  - Tudo  possvel, dona Bibiana, tudo  possvel.  Winter lembrou-se de
ter lido num almanaque que em todo
  o reino animal s os homens e as formigas  que tm o instinto da
guerra.
  - Vosmec nunca falou claro com seu filho sobre... essas
  coisas 
  Bibiana sacudiu a cabea com tristeza.
  - Muitas vezes comecei o assunto. Mas ele nunca quis continuar. Sempre
achava um jeito de fugir. Ele anda diferente, doutor. s vezes chego at
a acreditar em feitio.  Aquela mulher enfeitiou ele. O Boli... eu
acho... o Boli j nem me quer mais bem. Depois que casou, mudou de um
tudo. O Florncio tambm tem estranhado ele. Eram  to amigos. Agora ele
parece que deu pra ter cimes do primo. J no trata ele como dantes. O
pobre rapaz nem aparece mais no Sobrado. So histrias que essa mulher
mete na cabea do Boli.
  542
  - Mas como  que o padre explica essas coisas todas que a
  Luzia faz?
  - Diz ele que h pessoas assim no mundo porque os demnios entram no
corpo delas. Diz que nas Escrituras Sagradas h muitos casos como esse e
que Jesus Cristo expulsou  o demnio do corpo de muita gente.
  Winter cuspinhou os pedaos de folha de laranjeira que tinha
  na boca.
  - No acredite, dona. No h tal coisa.
  - Eu sei que no h. No acredito no diabo nem em almas do outro mundo.
J visitei muitas vezes o cemitrio de noite. No vi nada de mais; s um
lugar muito quieto,  muito triste, onde a gente pode se sentar e ficar
pensando em paz, porque ningum vem nos incomodar. Sou como o meu pai.
S acredito no que vejo. Meu pai no acreditava  em almas do outro
mundo. O senhor acredita?
  - Positivamente no.
  Bibiana comeou a caminhar lentamente na direo da casa.
  Winter seguiu-a.
  - Ento, dona Bibiana, que  que quer que eu faa?
  - Se puder, doutor, fale com 
  ela. Diga que ela precisa ter
  esse filho.
  - No  fcil, mas prometo fazer isso quando houver ocasio.
  - Se vosmec soubesse como eu quero um neto! Sempre tive vontade de ter
a casa cheia de crianas. Minha filha, a Leonor, mora em Cruz Alta, 
casada com um fazendeiro,  mas no tem filhos. Como  que eu podia
imaginar que Luzia era assim? A gente s vezes ouve contar coisas
esquisitas de certas pessoas, mas acha que  inveno,  exagero.
  - Vosmec  uma mulher que viveu e lutou muito. Devia
  estar habituada a tudo.
  Bibiana soltou uma risadinha seca.
  - Habituada? Haver coisa mais corriqueira que a morte? Desde criana a
gente sabe que um dia tem de morrer. Toda a hora ouve falar em morte.
Mas a gente se habitua  com a morte? No. Quando ela chega sempre  uma
surpresa.
  543
  Uma grande nuvem branca, que lembrou a Winter um iceberg, agora se
erguia no cu, por cima do Sobrado.
  - Tenho a impresso - disse ele, em parte para tranqilizar dona
Bibiana, em parte para dar voz a um pressentimento - que a Luzia vai ter
esse filho.
  - Vosmec acha mesmo?
  - Acho.
  - Deus l oua.
  - Vosmec acredita mesmo em Deus, dona Bibiana?
  - s vezes.
  Disse isto e entrou no Sobrado.
  14
  A fresca luz dourada daquela manh de princpio de primavera entrava
pelas janelas da casa de Carl Winter, que, sentado  sua mesa, escrevia
a Carlos von Koseritz:
  "Mein lieber Baron. Faz hoje quatro anos que estou em Santa F. J no
uso mais chapu alto, minhas roupas europias se acabam e eu
desgraadamente me vou adaptando.  Isso me d uma sensao de
decadncia, de dissoluo, de despersonalizao. Sinto que aos poucos,
como um pobre camaleo, vou tomando a cor do lugar onde me encontro.  J
aprendi a tomar chimarro, apesar de continuar detestando essa amarga
beberagem. (Pode algum compreender as contradies da alma humana?) Eu
vivia em castidade  forada por falta de mulheres de que eu gostasse e
que quisessem dormir comigo. Meus sonhos erticos eram povoados de
fmeas louras e eu tinha de me contentar com  esses amores onricos, mas
agora, meu caro, de vez em quando, este esprito j vacilante cede aos
gritos desta carne fraca - que, diga-se de passagem, continua muito
magra sobre a ossatura - e trago para a minha cama, altas horas da
noite, com a cumplicidade soturna da bela Gregria, chinocas, ndias, e
at mulatas. Depois dessas  orgias, tiro o violino do estojo e tomo um
banho de msica. Ou ento abro o meu Heine e me
  544
  encharco de poesia. E nas muitas semanas de castidade que se seguem
volto a sonhar vagamente com mulheres brancas e germnicas. Ah, meu
amigo, sou personagem dum  drama que Goethe no escreveria nunca, um
drama que no daria glria a ningum porque  srdido, sem propsito e
vazio. Mas  um drama ou, melhor, uma comdia. Por  que no me vou
daqui? Por qu? No sei. Alguma coisa me prende a esta terra. No 
propriamente afeio, no  amor.  hbito, e o hbito  como uma esposa
que cessamos  de amar e que j aborrecemos, mas  qual estamos apegados
pela fora... do hbito, e por preguia. A inrcia, Carl, tem muita
fora. A rotina  uma balada inspida  de rimas bvias.
  "A vida aqui  montona. Nunca acontece nada. De vez em quando sou
chamado a atender um homem que foi estripado por outro num duelo por
causa de pontos de honra,  discusses em carreiras, jogos de osso,
cartas ou chanteira. Mas mesmo isso se transforma em rotina, porque um
intestino  igual a outro intestino; as reaes das  pessoas em tais
ocasies so mais ou menos as mesmas. Os pacientes agentam os curativos
sem gemer. Os outros nunca esto de acordo sobre quem provocou a briga
ou  quem est com a razo.
  "Raramente aparece uma cara nova na vila. 
  Um dia  igual a outro dia.
  "O correio chega uma vez por semana, quando chega. Uma carroa leva uma
eternidade para ir ao Rio Pardo e voltar. As pessoas em geral so boas,
mas duma bondade  meio seca e spera. Os assuntos, limitados. Fala-se em
gado, em cavalos, em tropas, invernadas, comidas, campos ou ento em
histrias de brigas, guerras e revolues  passadas ou guerras e
revolues que esto para vir.
  "Ah! Ia esquecendo de te participar um grande acontecimento. Luzia, a
minha Melpmene, teve um filho. Deu-lhe o nome de Licurgo, no porque
admire o estadista espartano,  mas porque (confessou-me ela com um
sorriso anglico) o nome tem um som escuro, um tom dramtico. V bem:
Licurgo.  realmente um nome noturno. No me chamaram na  hora do parto;
preferiram uma negra velha parteira que bota a criana no mundo com mos
 sujas mas hbeis. Regozijei-me com isso pois no queria por nada no
mundo  ver minha Musa da Tragdia naquela conjuntura tragigropesca.
  545
   Vi-a poucas horas depois que a criana nasceu. Estava mais bela
que nunca e seu rosto parecia irradiar luz e bondade. Sim, bondade,
Carl. Depois de tudo que  te tenho contado dela, isso parece absurdo.
Mas estou te dizendo exatamente o que senti. Nesta hora, mein lieber
Baron, eu a amei. Amei-a com ternura pela primeira  vez, e esse amor
durou precisamente o tempo que passei naquele quarto que cheirava a
incenso. A me no tem leite; mandaram buscar uma preta da estncia para
amamentar  a criana. O pai, de to orgulhoso, chega a estar pateta. A
av, se est contente, sabe esconder seus sentimentos debaixo daquela
mscara de pedra.
  "E agora, meu amigo, as coisas parece terem melhorado l pelo Sobrado.
Fao as minhas visitas quase dirias, como mdico que sou da casa.
Melpmene se tem revelado  uma me mais carinhosa do qu eu esperava,
mas seu carinho se revela em gestos e palavras pois ela olha para o
filho com a mesma falta de expresso com que fita  um objeto, uma coisa.
 um olhar vazio, um olhar de esttua.
  "Ser que por um desses mistrios da natureza o choque do parto
restituiu a sade quele esprito doentio? Possvel, mas no provvel.
Como a medicina est atrasada,  meu amigo! E como neste fim de mundo,
sem livros nem colegas cultos com quem trocar idias, eu vou ficando
para trs mesmo dessa medicina atrasada! s vezes, para  explicar a
epilepsia e certas formas de loucuras, chego quase a aceitar a teoria
dos antigos, que falavam em demnios e possessos.  uma explicao
pitoresca, alm  de cmoda, e que nos permite a ns, pobres mdicos,
lavar as mos diante desses casos, transferindo-os para feiticeiros,
sacerdotes e taumaturgos.
  "Mudando de assunto direi que estes invernos rigorosos de Santa F, em
que s vezes sentimos mais frio dentro das casas que fora delas, me
ensinaram a beber uma  mistura deliciosa, que mein lieber Baron deve j
conhecer.  cachaa com mel e suco de limo. Positivamente divino! Se te
contarem, Carlos, que morri embriagado  numa sarjeta em Santa F, podes
acreditar na histria, apenas com uma restrio:  que em Santa F no
tem sarjetas pela simples razo de que no tem caladas, como  no tem
tambm lampies nas ruas, e como, em ltima anlise, no tem nada.
Talvez seja essa carncia de tudo que me fascina e prende.
  546
  "Para no deixar de falar em poltica, o meu amigo no acha que  muito
mau para todos ns que a Frana tenha agora um novo Napoleo? Sinto maus
pressentimentos,  Carl, muito maus pressentimentos.
  "Manda-me notcias de teus planos. Quando sai o jornal? E a escola? J
encontraste a brasileira do teu corao? Quando puderes, manda-me livros
e jornais. Os jornais  podem ser at bem antigos, porque nesta vila
esquecida de Deus e dos homens, estou me convencendo cada vez mais de
que o tempo, afinal de contas, no passa duma  inveno dos relojoeiros
suos para 
  venderem suas engenhocas. Manda livros, seno vou acabar esquecendo at
o alemo. J li mais de mil vezes meu volume de Heine. E o meu Fausto
est inutilizado, porque  a bela Gregria deixou-o cair dentro da gua
da tina de lavar roupa."
  Tinha essa carta a data de 25 de setembro de 1855, o dia em que
Florncio Terra casou com Ondina, a filha do Alvarenga. A cerimnia
realizou-se na intimidade e toda  a gente na vila comentou o fato de
Luzia no ter comparecido  boda.
  Fdi tambm nesse ano que a Assemblia Provincial autorizou o
estabelecimento duma colnia alem, a trs lguas de Santa F. Os
primeiros colonos chegaram em carroas  com suas famlias. Traziam seus
tarecos, seus instrumentos agrcolas e suas mulheres e filhos. Winter
recebeu-os com uma certa m vontade que ele mesmo no sabia  explicar.
Alm dele, at ento os nicos alemes que viviam naquele municpio eram
os Schultz e os Kunz, que haviam chegado ali pouco antes da Guerra dos
Farrapos.
  O coronel Bento Amaral reuniu os colonos em sua casa e fez-lhes uma
preleo na presena de Winter, para o qual ele olhava de quando em
quando com o rabo dos olhos.  Tinha uma voz gutural, falava alto, com ar
patronal. Os colonos o escutavam numa atitude entre respeitosa e
assustada. Havia entre eles um tal Otto Spielvogel, um  alemo
corpulento da Rennia, de quase dois metros de altura, com grandes
manoplas sardentas recobertas de plo ruivo, nariz vermelho e fino, e
olhos de pupilas  to claras que chegavam quase a parecer vazios. Era
uma espcie de chefe natural daquele grupo; e era a ele que Bento Amaral
principalmente se dirigia:
  547
  - E tm de obedecer s autoridades - discursava o chefe poltico de
Santa F. - No queremos badernas nem anarquia. E quem sair fora do
regulamento, tem de se entender  comigo.
  Deram  colnia o nome de Nova Pomernia, porque a maioria dos
imigrantes tinha vindo daquela regio. Os recm-chegados comearam a
abrir picadas e a construir casas.  A cada famlia coube um lote de cem
braas de frente por mil e quinhentas de fundo.
  De tempos em tempos Winter montava a cavalo e ia visit-los. Fazia isso
ou porque o chamavam para atender algum doente ou ento porque desejava
ver como ia marchando  o trabalho. Ficava surpreendido com o que via. A
regio transformava-se dia a dia, tomava j um jeito de povoado, e por
toda a parte viam-se valos, lavouras, cercas,  roados, sinais, enfim,
de que aqueles estrangeiros comeavam a dominar a paisagem, que de resto
ali era suave e submissa. Haviam construdo uma ponte sobre um riacho
que cruzava aquelas terras e Otto Spielvogel j tinha posto a funcionar
seu  moinho d'gua. Era curioso - refletia Winter - ver aquelas caras i
 ouvir aquelas  vozes alems sob o cu de Santa F. De quando em 
quando passava a cavalo um caboclo moreno, de olhos e cabelos negros,
parava, olhava para os colonos por muito  tempo, sem dizer nada, depois
esporeava a cavalgadura e seguia caminho. Carl no conseguia ler nem
aprovao nem censura naquelas caras inescrutveis.
  Um dia, quando Winter fazia uma sangria num dos colonos, apareceu em
Nova Pomernia Bento Amaral montado em seu cavalo branco, com aperos
chapeados, e grande botas  de couro, muito pretas e lustrosas. Trazia na
cabea um chapu de abas largas e seu  pala de seda creme esvoaava ao
vento. Alguns colonos vieram a seu encontro.  O coronel Amaral no quis
apear. Falou com a "alemoada" de cima do cavalo, olhou em torno, fez
perguntas e deu conselhos. Depois, se foi. Da janela da casa do
paciente,  Winter ficou a contemplar o Junker de Santa F, que se
afastava ao trote faceiro e majestoso de seu cavalo - o busto muito
ereto, o rebenque pendente do pulso por  uma presilha de couro. Winter
sorria.  tardinha, em certos dias, Bento Amaral costumava passear a
cavalo pelas ruas de Santa F. "Boa tarde, coronel, como l vai?"  -
  548
  perguntavam os santa-fezenses, descobrindo-se. Ele se limitava a bater
com o dedo na aba do chapu e continuava seu passeio. Se encontrava um
desconhecido, fazia  o cavalo estacar e gritava: "Ainda que mal
pergunte, quem  o senhor?" Fosse qual fosse a resposta, a segunda
pergunta era: "Que  que anda fazendo por aqui?"
  Naquele dia os colonos ficaram a seguir o coronel Bento com o olhar at
que ele se sumiu atrs duma coxilha. Winter esperava ouvir deles algum
comentrio. Os homens,  porm, no disseram nada: voltaram discretamente
para o trabalho. Winter 
  achava-os ignorantes e pouco simpticos. Em sua maioria tinham vindo
para o Brasil porque achavam os impostos demasiadamente pesados em seus
principados. Havia entre  eles alguns que esperavam enriquecer dentro em
pouco para depois voltarem para suas aldeias natais na esperana de l
ocuparem uma posio social melhor que a primitiva.  Dentre todos
aqueles colonos Winter gostava especialmente de Jacob Vogt, um velho de
oitenta anos, natural da Vestflia. Tinha longas barbas dum branco
amarelado,  que lembravam as macegas dos campos em derredor da Nova
Pomernia. Completamente jdesdentado, de lbios cor-de-rosa, pele dum
creme seco de marfim, olhos muito azuis,  o velho Vogt morava com o
filho, que era casado e por sua vez tinha oito filhos. Um dia, quando
Winter veio ver uma das crianas da casa, que estava com catapora,
Jacob aproximou-se dele e perguntou-lhe em alemo, com sua voz fina e
fraca, quase inaudvel:
  - H bruxas nesta terra?
  - Bruxas? - estranhou o mdico.
  - Sim, feiticeiras. - E contou: - Quando eu era mocinho vi queimarem
viva uma bruxa na minha aldeia.
  O filho de Jacob esclareceu:
  - Essa  uma histria que papai conta, mas que no sei se  verdade ou
caduquice.
  Winter sabia que os camponeses da Vestflia eram muito supersticiosos e
quando adolescente ele ouvira falar num caso parecido com o que o velho
Vogt lhe contara.
  - No. Em Santa F no h bruxas... - disse ele. E achou melhor
acrescentar - ... que eu saiba.
  549
  Por uma inquietadora associao de idias pensou em Luzia. As coisas 
No Sobrado ultimamente pareciam ter-se azedado ainda mais que antes. 
Quando l ia nas suas  visitas, Winter percebia ressentimentos nos silncios,
nos olhares, nas indiretas. O pequeno Licurgo crescia com sade, graas
ao leite da ama preta. Bibiana encarregava-se  do resto. Luzia vivia a
ler e a tocar ctara, e iss parecia enervar a sogra. Contava-se que
havia dias em que as duas  mulheres se fechavam, cada qual num quarto,
e l ficavam durante largas horas. Passavam dias e dias sem se falar,
ao passo que, plido e infeliz, Bolvar andava de uma para a outra
como uma mosca
  tonta.
  Um dia Florncio encontrou Winter na rua e lhe contou com; calma e
mscula alegria que esperava o primeiro filho para julho do prximo ano.
E quando o mdico lhe  falou na gente do Sobrado, Florncio pigarreou,
desviou o olhar e murmurou, sombrio:
  - Aquilo vai de mal a pior.
  E por mais que se esforasse, Winter no lhe arrancou nemjj mais uma
palavra.
  15
  Quando, ao levantar-se uma manh e ao ver da sua janela a  paineira do
quintal do vigrio toda cheia de flores cor-de-rosa, o| dr. Carl Winter
compreendeu que mais  um outono estava por chegar. Gostava daquela
estao porque descobria sempre nela uma; dignidade que as outras no
possuam.
  De meados de maro a meados de junho a luz era madura e  cor de mbar,
e o ar, morno ao sol e fresco  sombra. O vento, que ele tanto
detestava, o enervante vento  que s vezes o fazia praguejar,
amaldioando aquela terra e aquele clima - cessava por completo. Os
crepsculos faziam-se mais ricos e longos, como se Deus ou l  quem quer
que fosse dispusesse de mais tinta, de mais tempo e de mais arte para
pintar o cu do anoitecer. Nos quintais faziam-se fogueiras com folhas
secas, e a  fumaa que delas se evolava, invadindo o ar, tinha um
perfume que para Winter possua
  uma qualidade nostlgica. No outono as moscas diminuam, os mosquitos
comeavam a desaparecer e aquela luz generosa parecia deixar menos feias
as pessoas e as coisas.
  Quando Gregria apareceu aquela manh com o chimarro, encontrou o
mdico  mesa escrevendo uma carta. Winter apanhou a cuia, distrado,
levou a bomba aos lbios,  enquanto a negra depunha a chaleira
chamuscada ao p da cadeira do amo. Chupando metodicamente o chimarro,
Winter releu o que havia escrito:
  "No outono, meu caro baro, fico em permanente estado de poesia. 
quando me lembro mais de Eberbach e de Trude. Mas tanto a aldeia como a
moa me parecem agora  fices, elementos dum conto de fadas to
distante como a histria de Hansel und Gretelque ouvamos no tempo de
meninos. Se h coisa que lamento  no saber pintar.  Tenho visto
crepsculos incrivelmente belos, to belos que  uma pena que se percam.
Algum devia prend-los numa tela.
  "Jogo partidas de gamo com o juiz 
  de direito e me divirto duplamente; com o jogo e com a cara de meu
parceiro. O padre Otero, que parecia to meu amigo, ultimamente deu para
reprovar a vida que levo,  pois no vou  missa, no contribuo com
dinheiro para as obras da Igreja e de vez em quando externo minhas
idias herticas. E sabes como se desforra? Recomendando  aos
paroquianos que procurem o Clotrio da homeopatia ou o Z das Ervas, o
curandeiro. Continuo nas boas graas do Junker. O velho Amaral tem sete
filhos, dois homens  e cinco mulheres, de sorte que no casaro sempre h
algum doente, o que me obriga a visitas quase dirias.
  "Quero dar-te notcias da "minha comdia", cujo desenvolvimento
acompanho com interesse de espectador que s vezes  obrigado a entrar
em cena como ator. A pea  tomou um novo rumo ou, melhor, mudou de
cenrio. Como Luzia andasse irritadia e inquieta, recomendei a Bolvar
que a levasse numa viagem de recreio qualquer. A  sugesto foi aceita.
Dona Bibiana me apoiou, pois a pobre criatura estava cansada, queria
respirar um pouco em paz. Depois de alguma relutncia, Bolvar decidiu
levar a mulher a Porto
  550
  551
  Alegre. Luzia exultou. Vivia numa permanente saudade de concertos,
festas e teatros. Desde o momento em que a viagem foi resolvida, ela
como que se transfigurou.  Naturalmente comeou a tocar ctara, e tocou
as peas mais alegres de seu repertrio. Os preparativos foram
frenticos. Iriam de jardineira, pelo Rio Pardo, levariam  uma mucama e.
dois homens de confiana na boleia. No preciso dizer que a notcia se
espalhou rapidamente pela vila e que na hora da partida da carruagem, em
princpios  de janeiro ltimo, meio mundo estava na praa,  frente do
Sobrado, olhando o grande acontecimento. Muitos vieram despedir-se. O
padre, o juiz, o Alvarenga. Florncio  no se fez visvel. Dona Bibiana
abraou e beijou longamente o filho e deu a ponta dos dedos  nora, que
para  surpresa minha e dos outros se inclinou sobre ela  e lhe beijou
as faces. Dona Bibiana, porm, ficou imvel, de lbios apertados. Confesso que naquele momento tive vontade de beijar a teiniagu. Estava
linda,  o contentamento dava-lhe cores vivas s faces. Houve  muitos
adeuses, acenos e gritos de boa viagem. E l se foi a jardineira
levantando p pela rua em fora. Quando  ela desapareceu na primeira
esquina, dona Bibiana tranou o xale e antes de entrar no Sobrado me
disse: Nesta provncia, doutor, quando uma mulher, se despede do
marido, do filho, do irmo ou do noivo, nunca sabe  se  por pouco
tempo ou para sempre'.
  "E sabes, meu caro baro, o que me impressiona nesta gente?  o ar
natural, terra-a-terra com que dizem e fazem as coisas mais 
dramticas. Estou comeando j a  descobrir diferenas entre os
habitantes das vrias regies desta provncia. Os da fronteira so mais
dramticos e pitorescos que os desta regio missioneira.  Gostam de;
lenos de cores vivas, falam mais alto, contam bravatas e amam os gestos
e frases teatrais. Se eu tivesse de eleger o homem  representativo
desta regio,  no escolheria Bento Amaral nem Bolvar, mas Florncio, o
meu bom, discreto e bravo Florncio Terra.
  "Perdoa-me estas mincias. Quando vivemos por muito tempo num mundo to
limitado e pobre como este, acabamos conferindo s suas intriguinhas, s
suas pessoinhas  e s suas coisinhas uma importncia universal.
  "Mas este outono, meu caro Carlos,  grande aqui como seria em qualquer
outra parte do universo. Aristteles haveria de gostar
  552
  de dias e campos como estes para as suas dissertaes peripatticas.
Estou certo de que houve um erro qualquer na distribuio das raas.
Quando Deus criou o mundo,  Ele destinou a esta terra outras gentes que
no estas. Haver ainda um meio de corrigir esse erro? Eis aqui uma
pergunta perigosa, que nos poder levar a complicaes  tremendas."
  Foi nesse outono de 1856 que passou por Santa F um mascate judeu
vendendo bugigangas. Era um homem retaco, muito vermelho, de nariz
adunco e barbas louras. Alegre,  conversador e bem-informado, 
  contou, no seu portugus arrevesado mas fluente, coisas das terras por
onde tinha andado. Conhecia o Oriente, a frica e tinha visitado
recentemente os pases platinos.
  - Sabem da ltima novidade? - perguntou ele um dia a um grupo na botica
do Alvarenga. - Terminou a Guerra da Crimia.
  A notcia foi recebida com indiferena. Ningum tinha ouvido falar nessa
guerra. Ningum sabia onde ficava a Crimia, a no ser talvez o juiz de
direito e o padre,  que nessa hora estavam ambos distrados a jogar
xadrez. Por isso ningum se interessou pela 
  notcia.
  Em fins daquele mesmo outono o dr. Winter foi chamado s pressas a Nova
Pomernia para atender Otto Spielvogel, que, tendo fincado um prego
enferrujado na perna  -- fazia j duas semanas - estava agora ardendo em
febre e com muitas dores. O mdico pegou a maleta, montou a cavalo e
partiu a todo galope para a colnia. Examinou  a perna do paciente e
concluiu: Starrkampf. Chamou os membros da famlia e disse:
  - Se no cortarmos a perna do homem imediatamente ele morrer.
  A choradeira comeou. Todos, porm, puseram-se de acordo em que se devia
fazer a amputao. Winter pediu gua fervente num tacho e dois homens
decididos para o ajudarem.  Mandou amarrar Otto Spielvogel fortemente a
uma mesa e deu-lhe uma bebedeira de cachaa que o deixou quase
inconsciente. E depois, usando o prprio serrote com que  um colono
estivera aquele mesmo dia a cortar barrotes para a casa, amputou-lhe a
perna  altura do
  553
  joelho, enquanto a mulher e os filhos do paciente choramingavam! no
quarto contguo.
  Ao anoitecer do dia seguinte, voltou para casa, pois um dos filhos de
Bento Amaral estava de cama e o Junker exigia sua presena 
cabeceira do doente. Montou  a cavalo, acendeu a vela da] lanterna e
ps-se a caminho. Como no havia lampies nas ruas' de Santa F, sempre
que saa  rua em noites sem lua o dr. Winter! levava  sua lanterna
acesa.
  Durante todo o trajeto da colnia  vila desejou chegar ao quarto para
tomar uns bons goles de cachaa com mel e limo. O inesperado frio mido
da noite lhe penetrava  at os ossos. A garoa  gelada lhe respingava o
rosto, a barba, as roupas; e seus dedos estavam entanguidos sob as luvas
de l. Winter tinha ainda nas  narinas  o cheiro de sangue. Sentia-se
como um carniceiro e amal-| dioava sua profisso. Perdera os ferros
cirrgicos no Rio Grande: > tinha de operar agora com os instrumentos
mais rudimentares. E l como a medicina estava atrasada! Naquela segunda
metade do sculo XIX eles sabiam pouco mais que os curandeiros da Idade
 Mdia. Que era  que causava as doenas? Que era que originava o 
ttano? Ningum podia dizer. Algumas vezes ele, Winter, dera! como
perdidos pacientes que depois se erguiam da  cama, curados  com
mezinhas caseiras ou chs fornecidos por negras velhas  curandeiras.
  Perto de Santa F a cavalgadura estacou diante dum vulto,  Winter
ergueu a lanterna, num sobressalto, e gritou: "Quem  l?"  Era uma
vaca que ruminava placidamente,  atravessada no caminho. O mdico
soltou uma blasfmia. O Cdigo de Posturas Municipal  dizia claramente:
" proibido ter vacas soltas em noites escuras,  salvo  se levarem
lanternas presas aos chifres".
  Entrou em Santa F no pior estado de esprito possvel.  Desejava
calor, uma cama limpa e quente e uma boa companhia  humana. Sabia que
no encontraria em casa  nada disso. O remdio  era embebedar-se. Podia
ser indigno, podia ser brutal, podia ser; srdido. Mas era um narctico.
Bbedo, esqueceria a perna de Otto Spielvogel,  que ele vira cair
pesadamente num balde com um rudo medonho; esqueceria aquele tempo
horrvel, e esqueceria principalmente que ele, Cari Winter, um homem de
trinta  e cinco anos,
  554
  formado em Medicina pela Universidade de Heidelberg, estava preso
irremediavelmente preso a Santa F, sem coragem de abandonar aquele
vilarejo marasmento e sair  em busca duma vida melhor... Por qu? Por
qu? Por qu? Winter fez essas perguntas em voz alta.
  O cavalo seguia a passo pelas ruas. Seriam umas onze horas da noite e as
casas estavam todas fechadas. Ao passar pela frente do Sobrado, Cari
Winter pensou em Luzia.  Havia j quatro meses que o casal tinha partido
para Porto Alegre. Fazia uma semana, o estafeta que trazia a mala do Rio
Pardo contara 
  na venda do Schultz que havia irrompido em Porto Alegre uma epidemia de
clera-morbo. Clera-morbo! Era s o que faltava! Se a peste chegasse
at Santa F, morreriam  todos como ratos - concluiu Winter. E de sbito
ocorreu-lhe uma idia: se Luzia morre de clera o problema est
resolvido, a comdia acabada. Sim, era uma soluo.  Bolvar sofreria
muito a princpio, mas com o passar do tempo a esqueceria. Era moo,
tinha a me para o amparar, o filho para criar. Sim, seria uma soluo
de mau  gosto, de mau autor, mas o problema daquela gente ficaria
resolvido...
  Foi no momento em que pensava essas coisas que Winter viu luz numa-das
janelas do andar superior do Sobrado. Fez parar a cavalgadura e ficou
olhando. Avistou um  vulto de mulher com uma vela na mo. Devia ser dona
Bibiana. Que estaria acontecendo l dentro? Algum doente? Algum ladro?
Achou que seu dever era bater  porta  para ver o que se passava.
Decidiu, porm, no fazer nada disso. Fincou os calcanhares nos flancos
do animal e f-lo seguir a trote rumo de casa.
  16
  Parada no centro do patamar da escada, com uma vela acesa na mo,
Bibiana escutava... Julgara ouvir um pesado arrastar de ps no casaro e
sara do quarto para ver  de onde vinha o rudo. A ama de Licurgo dormia
no quarto contguo ao seu. As outras negras estavam alojadas no poro.
Um peo do Angico, homem de confiana, dormia  na despensa.
  555
  Dona Bibiana esperava, imvel, de ouvido atento. O silncio agora era
absoluto. Decerto est trovejando - concluiu ela. E resolveu voltar para
o quarto. Nesse momento o relgio grande l embaixo comeou a dar as
horas. Como no esperasse aquilo,  Bibiana teve a impresso de que as
pancadas soavam no apenas em seus ouvidos, mas  tambm dentro de seu
peito. A primeira delas  lhe causou um estremecimento. Comeou a
contar mentalmente. Duas... Trs... Cada batida ecoava pela casa,
parecia  deix-la ainda maior do que era, como se em vez de dezoito
peas o Sobrado tivesse cem. Quatro... Cinco... Bibiana sentia que o
corao lhe pulsava um pouco mais  forte e via a vela tremer-lhe na
mo.. Seis... Sete... Oito... Nove... Tinha agora a impresso de que
alguma coisa ia acontecer. Dez... Devia ser meia-noite. As  negras
diziam que a  alma do velho Aguinaldo costumava passear pela casa
depois que  o relgio grande dava a ltima badalada da meia-noite.
Onze...  Doze...  O som se desfez no ar e Bibiana ficou ali com aquele
pequeno e dbil foco de luz na mo, esperando... Seu olhar dirigiu-se
para a porta do quarto que fora de Aguinaldo,  e que estava fechado
desde o dia da morte do velho. Foi um olhar duro e decidido, como se ela
estivesse desafiando a alma do morto a aparecer. Uma viga do teto
rangeu,  e foi como se o silncio subitamente se trincasse como um prato
de loua. Por um momento Bibiana teve a sensao de que havia algum s
suas costas. Fez uma rpida  meia-volta, mas s viu a solido e a
penumbra do patamar e sua prpria sombra refletida na parede branca.
Lembrou-se das palavras de Natlia: "O velho aparece de  noite, anda por
toda a casa arrastando uma corrente e gemendo: Rezem por mim. Rezem por
mim". Havia de ter graa - refletiu Bibiana - que nem depois de morto
Aguinaldo  abandonasse o Sobrado. Mas quem morre se acaba. "Vossunc viu
mesmo a alma do velho, Natlia?" A voz da escrava era um ronco 
medroso: "Por esta luz que rne alumeia,  juro que vi. Foi numa  noite
de tormenta. Primeiro pensei que fosse o vento. Depois ouvi a voz do
velho. Rezem por mim. Rezem por mim". Quem gostava daquelas histrias
era Luzia.  noite fazia as criadas repetirem todos os casos de
assombrao que conheciam. Ficava arrepiada e com
  
  556
  medo de subir sozinha para o quarto. Mas subia, de vela na mo,
tremendo, e parece que at achando gostoso aquele medo.
  Bibiana voltou para seu quarto lentamente. No temia as almas do outro
mundo. Tinha medo, isso sim, das almas deste mundo. Lembrava-se das
noites em que Luzia se  metia em seu quarto de dormir, fechava a porta a
chave e no deixava o marido entrar; o pobre rapaz ficava vagueando a
noite inteira pela casa, como uma alma penada.  Dessas almas  que ela
tinha medo.
  Entrou 
  no quarto, fechou a porta de mansinho, aproximou-se do bero onde
Licurgo dormia e ergueu sobre ele a vela. No sono a criana movia os
lbios rosados e midos, como  a procurar o bico dos seios da me preta.
O comilo ainda mamava no peito, apesar de j ter feito um ano! - sorriu
ela. Ficou por longo tempo contemplando o neto.  Aquele ser pequenino um
dia havia de crescer, fazer-se homem - um belo homem como o pai ou como
o av. (E Bibiana apressou-se a acrescentar mentalmente: av por  parte
do pai.) De sbito, numa esquisita sensao de desfalecimento, que era
ao mesmo tempo desagradvel surpresa, apreenso e piedade-, ela pensou:
o Licurgo   bisneto daquele corcunda. Odiou Aguinaldo por isso. E a
figura do velhote desenhou-se-lhe no pensamento: l estava ele com sua
barba de chibo, a cabea chata, os  olhinhos de bicho... O sangue
daquele monstrengo corria nas veias da criana! Bibiana aproximou mais a
vela do rosto do neto. No, no havia naquela carinha mimosa  nenhum
trao de Aguinaldo Silva. Licurgo podia parecer-se com a me, que era
bonita, ou com o pai, mas nunca com o Velho. E quem garantia que Luzia
era neta mesmo  de Aguinaldo? A mulher do nortista no o enganava?
Bibiana apegava-se agora a essa possibilidade, esforando-se para
transform-la numa consoladora certeza.
  Licurgo ergueu de repente a mozinha e deixou-a cair com fora sobre o
cobertor. Um gluglu se lhe escapou da boca, e em seus lbios se formou
uma bolha de saliva.
  Quem vai criar esse menino sou eu - disse Bibiana para si mesma. Se
quiserem me tirar ele, eu brigo, como uma galinha defendendo seus
pintos. Comeou a fazer clculos...  Tinhas 
  557
  cinqenta anos: podia bem durar mais vinte... ou vinte e cinco, e assim
veria Licurgo homem feito, encaminhado na vida. Aquele menino que tinha
o sangue do capito  Rodrigo Cambar ia ser o dono do Sobrado, dos
campos do Angico e de milhares de cabeas de gado. Seu peito inflou-se
de contentamento e de esperana.
  Bibiana olhou para a cama grande, ao lado do bero. No estava com sono.
Sentia no peito uma coisa esquisita que no a deixava dormir. Desde que
soubera da notcia  da peste em Porto Alegre ficara apreensiva. Por que
Bolvar no viera embora imediatamente ao saber que o clera tinha
irrompido na cidade? Por qu? Era uma peste  braba, pior que o tifo e a
bubnica. Bibiana cerrou os olhos e viu em seus pensamentos Luzia morta
em cima duma mesa, ladeada por quatro crios, Bolvar chorando,  gente
cochichando: "Morreu do clera. Morreu do clera". De repente a cena
mudou: a jardineira chegou a Santa F, levantando poeira... Bolvar
desceu da carruagem,  todo de preto, a barba crescida, os olhos
vermelhos. "Mame!" Atirou-se nos braos dela. E ela abraou e beijou o
filho, dizendo: "No h de ser nada, Boli. Vossunc  - moo ainda.
Pense no Licurgo. No  nada". Bibiana abriu os olhos, confrangida
inopinadamente pela sensao de frio deixada por uma idia terrvel que
acabava  de cruzar-lhe a mente. Bolvar podia morrer. Nesse caso, quem
voltaria para o Sobrado era ela. Ela... toda de preto, mas de olhos
secos - aqueles olhos maus de gata.  Morto Bolvar, a outra podia
mudar-se para Porto Alegre ou para a Corte, levando consigo Licurgo...
Venderia o Sobrado, o Angico... No tinha apego  casa nem   estncia.
E mesmo que ela ficasse no Sobrado, como ia ser a vida das duas naquele
casaro, odiando-se dia a dia, hora a hora, minuto a minuto? Que ia ser
do menino  entre aqueles dois dios?
  Bibiana apagou a vela e sentou-se na cadeira de balano. O quarto ficou
alumiado apenas pela lamparina que com pequena  chama ardia junto do bero
da criana.
  De braos cruzados sob o xale, os olhos cerrados, Bibiana balouava-se
devagarinho e pensava. Tinha pago pelo Sobrado um preo demasiadamente
alto. Mas agora era  tarde: o mal estava feito.
  Voltar atrs no s seria pior como tambm impossvel. Por assim dizer,
tinha perdido o filho. Desde que casara, Bolvar no era mais o mesmo.
Andava arisco, j  no se abria com a me, no dependia mais dela, no
lhe pedia conselhos em nenhum assunto. Vivia enfeitiado, dominado pela
outra. Se a mulher fosse m sempre, todos  os dias, poderia haver alguma
esperana de o rapaz um dia compreender com quem se havia casado. Mas o
diabo era que em certas horas - s vezes durante dias inteiros  - Luzia
mostrava-se amvel e atenciosa no s com o marido como tambm com os
outros. Depois, tinha estudado na Corte, sabia falar bonito, contava
casos da Europa,  ou ento histrias que tinha lido em livros. s vezes
at 
  recitava versos enquanto tocava ctara. Bolvar ficava olhando para ela,
de boca meio aberta, e via-se que ele estava perdido de amor, que era
capaz de fazer tudo  que ela pedisse. Nessas ocasies ele ficava bobo de
contentamento, era o homem mais feliz do mundo, chegava at a cantar e
assobiar. Mas l de repente a mulher de  novo fazia das suas. Muitas
vezes ela, Bibiana, acordara no meio da noite ouvindo gritos no quarto
do casal. Saa para o corredor de camisolo, ps descalos, para  ver o
que tinha acontecido. Nunca vira mas adivinhava o que se estava passando
l dentro. As malvadezas de Luzia no tinham mais conta. Fechava a Dita,
a negrinha  filha de Natlia, no sto durante dias, sem gua nem
comida, e de vez em quando ia l em cima para espiar a rapariguinha pelo
buraco da fechadura. Quando Bolvar  ia para o Angico, ela aproveitava a
ocasio para fazer essas coisas. Depois de ver bastante tempo a
criaturinha sofrer, ela descia e ia tocar ctara. "Negro  bicho"  - ela
dizia. "Negro no tem sentimento."
  Bibiana balouava-se na sua cadeira e pensava... Sim, tinha pago caro
demais pelo Sobrado. E s Deus sabia que ela no queria aquela casa para
si mesma, mas sim  para Bolvar e para os filhos de Bolvar. No fim de
contas aquela terra pertencia de direito a seu pai. Se havia algum
intruso no caso, esse intruso era a neta de  Aguinaldo Silva.
  Bibiana ouvia agora o fofo tamborilar da chuva nas vidraas. Encolheu-se
toda, de frio e de tristeza.
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  559
  17
  Conheciam-se agora notcias mais detalhadas da epidemia de I
clera-morbo. Tinha sido trazida do Rio por passageiros do vapor J
Imperatriz, que ancorara em fins  de 1855 no porto do Rio Grande. | A
peste comeara nas charqueadas de Pelotas, alastrara-se pelas
localidades vizinhas e atingira Porto Alegre, onde se dizia que  o
nmero de casos fatais ia alm de mil. As carroas da municipalidade;
andavam pelas ruas a recolher os cadveres, que na maioria dos casos
estavam de tal modo  desfigurados, que se tornava impossvel
identific-los. Contavam-se pormenores horripilantes. Havia pessoas que
eram atacadas subitamente pelo mal e caam fulminadas  nas ruas.
Temia-se que muitas tivessem sido enterradas vivas, pois os mdicos, os
enfermeiros e os funcionrios municipais estavam 'de tal modo cansados,
tresnoitados  e nervosos que nem tinham tempo para maiores verificaes.
Recolhiam-se os mortos s carroadas. Abriam-se no cemitrio valas
comuns onde os corpos eram despejados  e em seguida cobertos de terra. O
xodo da cidade era enorme. Quem podia fugir, fugia. Havia pavor em
todas as caras e em algumas pessoas a palidez e a algidez do  medo eram
confundidas com os sintomas da peste asitica. O baro de Muritiba,
chefe do governo provincial, estava tomando providncias para evitar que
o mal se alastrasse  pelo resto da provncia. Contratava mdicos e
enviava-os para vrios municpios.
  Mandou para Santa F o dr. Homero Viegas, que chegou um dia de
diligncia, reuniu imediatamente a Cmara Municipal e sugeriu uma medida
que foi aceita por unanimidade:  fechar a estrada da serra e evitar que
por ela passassem gentes e animais vindos das cidades onde grassava o
clera.
  Bibiana andava agoniada. Bolvar ainda no voltara. Suas ltimas cartas
eram lacnicas, mas at certo ponto tranquilizadoras: Luzia e ele
estavam bem de sade e  voltariam para casa "assim que fosse possvel".
  -  uma loucura, doutor! - disse ela um dia a Winter. - Eu no posso
compreender. Por que  que no vieram embora logo que comeou a peste?
  Winter encolheu os ombros:
  - Nunca se sabe, dona Bibiana, nunca se sabe. Talvez tivessem surgido
dificuldades.
  - Dificuldades? Numa hora dessas ningum pensa em dificuldades. A gente
bota o p no mundo. O medo da peste  mais forte que tudo.
  - H coisas mais fortes... - retrucou o mdico, sem saber muito
claramente a que coisas se referia. Estava um pouco despeitado, mau
grado seu, por no ter sido convidado  pelo dr. Viegas a tomar parte na
reunio da Cmara.
  - E agora, se eles fecham a estrada... - perguntou Bibiana - como  que
o Boli vai passar?
  - Vosmec sabe que essas coisas levam tempo.  bom no perder a
esperana.
  Estavam os dois amigos na sala de visitas do Sobrado e Bibiana tinha os
olhos voltados para as janelas.
  - Esperana? - repetiu ela, sem tirar os olhos da rua. - Esperando 
  vivo eu h muitos anos.
  - Vosmec no acredita no destino? No acha que o que tem de ser traz
fora?
  - Acho.
  - Pois ento? Tenha pacincia. H um ditado latino que diz que o destino
conduz os que querem ser conduzidos e arrasta os que no querem.
  - Eu tenho andado mais ou menos de arrasto. Nem sempre quero ir pra onde
o destino me leva. - E imediatamente, sem mudar de tom: - Toma um licor?
  Winter disse que no, agradeceu e se foi.
  Naquele mesmo dia, ao entardecer, postada na janela da gua-furtada do
Sobrado, de onde se avistavam os campos em torno de Santa F, Bibiana
viu poeira na estrada.  Seu corao comeou a bater num ritmo entre
alegre e medroso. Pouco depois avistou uma carruagem que parecia vir das
bandas do Rio Pardo. S podia ser a jardineira  de Bolvar - garantia
ela para si mesma. Nunca se enganava em seus pressentimentos...
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  561
  Era quase noite fechada quando a carruagem parou  frente do Sobrado.
Curiosos vieram para a praa e ficaram olhando de longe, sem coragem de
ir apertar a mo daquela  gente que chegava da zona da peste.
  - No deviam ter deixado a diligncia entrar - murmurou um dos filhos de
Bento Amaral, que estava ali por perto em cima de seu cavalo. Disse
essas palavras e saiu  a todo o galope na direo de sua casa.
  Bolvar deu a mo  mulher para ajud-la a descer da diligncia. Luzia
estava toda vestida de preto. Depois dela desceu a mucama.  bolia
vinha s um dos homens:  soube-se mais tarde que o outro morrera de
peste.
  Parada ao portal do Sobrado, Bibiana abraou e beijou o filho e deu
molemente a mo  nora, que mal a apertou. Entraram. Cinco velas estavam
acesas num candelabro  no vestbulo da escada grande. Luzia limpou com
palmadas impacientes a poeira do vestido.
  - Como vai o Licurgo? - perguntou.
  -- Vai bem - respondeu Bibiana secamente.
  - Onde  que est ele?
  - Dormindo.
  Luzia tirou o leno que lhe envolvia a cabea e sentou-se numa poltrona
com um suspiro de alvio.
  - Que viagem horrvel! - exclamou.
   luz das velas Bibiana viu a cara do filho e ficou alarmada. Bolvar
estava duma palidez esverdeada e tinha os olhos no fundo.
  - Est sentindo alguma coisa, meu filho? Ele sacudiu negativamente a
cabea.
  - No. Estou s um pouco cansado. Evitava encarar a me.
  - O jantar j est pronto - avisou ela.
  - No estou com fome.
  - Tem um bom churrasco de ovelha, Boli. - Gritou para a outra sala: -
Natlia, pode servir!
  - Mas eu preciso me lavar um pouco antes de ir para a mesa... - disse
Luzia.
  562
  - Pois v. Ningum est atacando vosmec.
  Bibiana estava ansiosa por ficar a ss com o filho. Luzia ergueu-se e,
apanhando um castial com uma vela acesa, dirigiu-se para a escada.
  Sentado numa cadeira, Bolvar descalava lentamente as botas. Houve um
longo silncio. De p na frente do filho, Bibiana esperava, e como ele
continuasse calado  por vrios segundos, ela disse:
  - Pensei que no quisessem voltar mais. Bolvar permaneceu mudo.
  - Com essa peste horrorosa foi uma loucura terem ficado tanto tempo l.
As autoridades no deixaram vosmecs sarem? Houve algum impedimento?
  Sem olhar para a me, irritado, Bolvar respondeu:
  - No houve nada. Era uma coisa e outra e a gente ia ficando...
  - Mas no tiveram medo?
  - Tivemos, me, tivemos.
  - Sou capaz de apostar como foi ela que quis ficar.
  - Ora, mame...
  - S de maldade. Decerto queria que vosmec pegasse a peste. Assim ela
ficava viva, vendia o Sobrado e o Angico, ia morar na Corte com o
Licurgo.
  Bolvar entesou o busto e tomou uma atitude agressiva:
  - Nem diga uma coisa dessas! A Luzia tambm estava se arriscando a pegar
o clera.
  - Mas ento por que  que no vieram antes?
  Bolvar de novo se fechou no seu silncio soturno. 
  Depois de algum tempo, com voz mais tranqila, perguntou:
  - Vai tudo bem por aqui?
  - Vai.
  - Nenhuma novidade?
  - Nasceu o filho do Florncio.  homem.
  - E no Angico?
  - Nada de novo. No tem morrido gado. Vai tudo bem.
  563
  Bolvar sacudia a cabea, devagarinho. Ficaram num longo silncio:
Bibiana contemplando o filho, Bolvar olhando para o soalho.
  Luzia desceu, tornou a entrar na sala e aproximou-se da sogra:
  - O Licurgo no est no quarto... - estranhou ela. Bibiana ficou
imperturbvel.
  - Eu sei.
  - Onde botaram o menino?
  - Na gua-furtada.
  - Na gua-furtada?
  - Vai ficar l uns tempos.
  - Mas por qu?
  - Vosmecs vieram dum lugar que tem peste. No quero que o menino pegue.
  Luzia parecia ainda no compreender. Lanou para o marido um olhar que
foi um pedido de esclarecimento. Bolvar olhou para a me.
  - Quanto tempo ele tem de ficar l? - perguntou.
  - Quanto tempo for preciso. Bolvar ergueu-se.
  - Mas a criana vai ficar sozinha l em cima?
  - A ama est junto. No vai faltar nada pr menino.
  - Mas  uma bobagem, mame. Ns no pegamos a peste.
  - Pode ser, Boli. Mas sempre  melhor esperar.
  - Foi o dr. Winter que lhe aconselhou fazer isso? - perguntou Luzia.
  Sem olhar para a nora, Bibiana respondeu:
  - Tenho juzo suficiente pra resolver essas coisas sem precisar do
conselho de ningum.
  Bolvar e Luzia entreolharam-se de novo.
  A negra Natlia apareceu  porta da sala de jantar.
  - A comida est na mesa - roncou ela.
  - A comida est na mesa - repetiu Bibiana. Fez meno de se encaminhar
para a outra pea, mas Luzia deteve-a.
  - E vosmec pensa que vou chegar de viagem e no ver o meu filho? Pensa
que vou passar dias sem ver o Licurgo?
  564
  - Penso.
  - Pois est enganada. Vou j j subir  gua-furtada. Encaminhou-se de
novo para a escada.
  - No adianta - disse a outra. - Fechei a porta a chave.
  - Onde est a chave?
  - No digo.
  - Bolvar! Obrigue sua me a me dar essa chave. Bolvar ergueu-se.
  - Mame...
  - No adianta, meu filho. No dou.
  - Bolvar! - exclamou Luzia. E na penumbra da sala seus olhos fuzilaram
como os de uma gata. - O filho  nosso!
  Bolvar aproximou-se da me, pegou-lhe da mo, tentou falar com calma.
Mas havia em sua voz uma falsa doura que mal encobria a raiva
crescente.
  - Escute, mame. No vamos brigar. A Luzia quer ver o menino. S por um
momento, no , Luzia? - Lanou um olhar para a mulher, que no fez o
menor sinal de assentimento.  - Ela promete no pegar o Licurgo, s
olhar... olhar de longe, no , Luzia?
  Luzia estava parada junto da porta do vestbulo, com o castial na mo.
Nos seus olhos havia uma expresso de frio dio.
  - A comida est na mesa - repetiu Bibiana, esforando-se por falar com
naturalidade.
  Fez meia-volta e dirigiu-se para o comedor.
  - Diga pra essa velha amaldioada que me d a chave!
  Luzia no pronunciou estas palavras: cuspiu-as. A sogra, porm,
continuou a caminhar, sem voltar-se, e foi sentar-se  mesa. Descalo,
os braos cados, um pouco  encurvado, Bolvar encaminhou-se tambm para
a sala de jantar. Luzia continuou na outra pea
  por alguns instantes: a vela tremia-lhe na mo, o espermacete pingava no
soalho. De repente ela gritou:
  - Bolvar, v j arrombar aquela porta!
  Ele no respondeu. Sentou-se  mesa, de cabea baixa.
- No seja covarde, Bolvar! No se deixe dominar por essa
mulher.
  565
  Bibiana tinha as mos cadas sobre o regao. Seus lbios tremeram por
um instante.
  - Quer sopa, meu filho?
  - Esta casa  minha - dizia agora Luzia com uma fria que quase no
lhe permitia completar as palavras. - Foi feita com dinheiro do meu av.
Vocs so dois intrusos!  Intrusos! O filho tambm  meu. Os mveis so
meus. Tudo que est aqui
  dentro  meu. Eu odeio vocs! Odeio esta vila! Odeio esta provncia!
  A vela que Luzia tinha na mo apagou-se. Ela arremessou o castial contra
o vidro da vidraa, que se espedaou. Bibiana ergueu os braos,
destampou a terrina de  sopa e tornou a perguntar
  - Sopa, meu filho? Bolvar no respondia.
  Luzia avanou at a porta da sala de jantar. A raiva desfigurava-lhe
o rosto, como se ela tivesse sido subitamente atacada duma peste.
Bibiana nem sequer ergueu  os olhos para a nora. Luzia gritou:
  - Me d imediatamente essa chave, sua cadela!
  Bolvar ergueu-se to abruptamente que a pesada cadeira em que estava
sentado tombou para trs com um rudo surdo. Deu dois passos rpidos na
direo da mulher, agarrou-a  violentamente pelos braos e sacudiu-a.
  - Cadela  tu!  tu!  tu!
  E repetindo essas palavras, continuava a sacudi-la. Luzia 
esforava-se por desvencilhar-se do marido. Ergueu os braos e fincou as
unhas no rosto dele, que  comeou a sangrar. :
  Enfurecido pela dor, Bolvar esbofeteou a mulher, uma, duas, trs,
muitas vezes, alternadamente com as costas e a palma da mo.  Luzia
deixou cair ambos os braos.  Seus joelhos se vergaram e ela  foi
deslizando devagarinho para o cho, at ficar sentada, com urfl3 lado da
cabea e o brao direito encostados no encaixe da porta.  A expresso de
dio que havia em seu rosto deu lugar a uma serenidade triste: agora as
lgrimas lhe rolavam pelas faces, os soluos' lhe sacudiam os ombros e
ela  ali estava como uma menininha que! acabasse de ser injustamente
castigada pelo pai. Bolvar olhava estupidamente para a mulher,
arquejante, a baba a escorrer-lhe  da boca entreaberta.
  566
  - Meu filho! - exclamou Bibiana pondo-se de p e encarando o rapaz com
um olhar duro. - Isso no se faz! Onde se viu um homem bater numa
mulher?
  Por alguns segundos Bolvar ficou assim como que acuado, a olhar aflito
da me para a esposa. Por fim fez meia-volta e saiu a correr na direo
da escada, onde seus  passos soaram fortes e apressados.
  Bibiana olhava para a nora sem saber que fazer nem dizer. Botar-lhe
arnica na cara? Dar-lhe um ch de folhas de laranjeira? Quis adoar a
voz e dizer-lhe uma palavra  de consolo. Mas quando deu acordo de si
estava dizendo:
  - Quem semeia ventos colhe tempestades. Virou-lhe as costas e saiu
tambm da sala.
  18
  Na manh do dia seguinte correu pela vila uma notcia sensacional: a
Cmara Municipal, por sugesto do coronel Bento Amaral, declarara o
Sobrado de quarentena, isolando-o 
  da cidade; seus moradores, desde os patres at a negrada da cozinha,
foram notificados de que estavam positivamente proibidos de deixarem a
casa durante quarenta  dias a contar da noite anterior. Para que a
quarentena fosse observada com rigor, postaram-se guardas armados ao
redor do casaro, com ordens - murmurava-se - de  atirar na primeira
pessoa que sasse pelas portas ou janelas do Sobrado, ou que tentasse
saltar seus muros.
  Os santa-fezenses em sua maioria aprovaram a medida. Bolvar - diziam -
tinha procedido mal, pondo em risco a segurana de Santa F. Devia ter
ficado no Rio Pardo,  ou ento, em ltimo caso, seguido para o Angico.
Mas na loja do Alvarenga comentou-se que tudo aquilo era apenas uma
"birra do velho Amaral". No fundo a coisa no  passava dum acinte, duma
provocao. Ele ainda no esquecera que Bolvar era filho do homem que
no s lhe roubara a mulher que ele amava como ainda por cima lhe
deixara a marca na cara. Tambm no perdoava ao falecido Aguinaldo o ter

  567
  construdo um sobrado to grande e confortvel que deixara o seu famoso
casaro "achicado", num segundo plano.
  Muitas pessoas vinham agora para a praa olhar o Sobrado. Reconheceram
nos guardas que o cercavam pees da estncia do velho Amaral. Estavam
eles sentados debaixo das rvores, conversando, com o olho posto na casa
de Bolvar, cujas janelas e portas permaneciam fechadas.
  No segundo dia de quarentena o dr. Carl Winter, depois de muito instar
com o senhor de Santa F, conseguiu licena para, entrar no Sobrado.
Seu melhor argumento  foi o de que algum,  no fim de contas, tinha de
ir ver se havia algum pesteado l dentro,  e que a pessoa mais indicada
para isso era ele, o mdico da famlia.  O sino da capela batia as
primeiras badaladas da ave-maria quando os curiosos viram o doutor
atravessar a praa com seu andar  de girafa e bater  porta do Sobrado.
Viram tambm quando a  porta se abriu e o alemo entrou.
  - Suba, doutor - disse Bibiana.   Subiram lado a lado os degraus que
levavam do portal ao 
  soalho do vestbulo. Winter tirou o chapu.
  - Vim ver se esto precisando de meus servios aqui.
  - Esto?
  - Algum doente?
  - Do clera, no. Mas passe aqui pra sala. Sente-se.
  O mdico sentou-se. A sala estava sombria, de ar enfumaado, e cheirava
a incenso.
  - Onde est o Bolvar? 
  - L em cima, no quarto dos fundos. Est l desde ontem,  fechado a
chave. No come, no bebe, no fala com ningum.
  - Mas que foi que aconteceu?
  Bibiana contou-lhe em voz baixa, sem omitir nada, tudo quanto se passara
ali no Sobrado aps a chegada do casal. Winter escutou-a em silncio,
com ar reflexivo,  e de quando em quando coando o queixo.
  -  o diabo - murmurou ele, mais para si mesmo que para a interlocutora.
  - Que foi que vosmec disse?
  568
  - Digo que  o diabo...
  - Agora no adianta chorar.  preciso a gente fazer alguma coisa.
  - Como vai a criana?
  - Bem. Continua encerrada na gua-furtada.
  - E a me?
  - Est no quarto dela, tambm fechada a chave. Hoje de manh desceu, me
deu bom-dia e me pediu desculpa das coisas que me disse ant'ontem. Eu
respondi: "Palavras  loucas, orelhas moucas".
  O mdico sorriu.
  - Moucas? Que  isso? Bibiana encolheu os ombros.
  - Sei l!  um ditado. Quer dizer que a gente no deve dar ouvidos
quando os loucos falam. Mas como eu ia dizendo, ela pediu caf pra
Natlia e depois voltou pr  quarto. Levou a ctara. De vez em quando
toca. No  bem louca mesmo?
  Winter sacudia a cabea dum lado para outro, perdido em dvidas. A
situao complicava-se. E com que freqncia na vida o dramtico e o
grotesco se juntavam e saam  a pular de mos dadas!
  - Nenhum deles viu ainda o filho?
  - Nenhum. Eu no deixo. A vida da criana  mais importante que tudo
mais.
  - E que  que vosmec quer que eu faa?
  - Quero que fale com o Bolvar. Pode ser que ele l oua. Tenho muito
medo que ele faa alguma 
  loucura.  genioso como o pai. Tenho tanto medo que de hora em hora vou
bater na porta, e s fico sossegada quando ele me responde l de dentro.
  Winter habituara-se a sempre falar claro com Bibiana.
  - Quer dizer que vosmec tem medo que ele se mate?
  - . Que se enforque. Desde que enforcaram o Severino ele vive com essa
idia na cabea.
  - A idia de se enforcar?
  - No. A mania de falar em forca. Sonha com gente enforcada.
  569
  Winter pediu licena para acender um charutinho. E quando j o tinha
aceso e apertado entre os dentes, disse:
  - O Bolvar  um homem que gosta muito da vida. Pessoas" assim no se
matam. Alm de tudo, ele tem loucura pelo filho e  h de querer pelo
menos ver o menino crescido.
  Bibiana fez uma careta de dvida e perguntou:
  - O senhor acha mesmo ou est dizendo isso s pra eu ficar  sossegada?
  - Est claro que acho.
  Por que estou metido nisso? - perguntou Winter de repente  a si mesmo.
  Bibiana olhou para os lados com ares misteriosos e disse em  voz
baixa:
  - Doutor, alguma coisa aconteceu em Porto Alegre que dei- ] xou o pobre
rapaz desnorteado. Depois dessa viagem parece que  tudo ficou pior. E
eu tenho medo que  ele acabe ficando com dio| de mim, porque afinal de
contas foi por minha causa que ele surrou  a mulher.
  Winter ergueu-se.
  - Acho melhor eu ir conversar com ele.
  - Quer ir agora?
  - Vamos.
  Encaminharam-se para a escada e subiram os degraus em  silncio. No
patamar, l em cima, Bibiana fez com a cabea um sinal  na direo duma
porta fechada.
  - Ela est l dentro.
  Seguiram pelo corredor mal-alumiado e finalmente chegaram a uma outra
porta.
  - Eu vou descer, doutor. O senhor bata, entre, fale com ele, d
conselhos, veja se pode fazer alguma coisa.
  Winter limitou-se a sacudir a cabea, num assentimento, e depois que viu
a me de Bolvar afastar-se no corredor bateu  porta. No teve
resposta. Tornou a bater.  De dentro do quarto veio uma voz abafada. 
  - Quem ?
  - Sou eu. O dr. Winter.
  570
  - Que  que quer?
  - Faa o favor de abrir.
  O mdico ouviu sons de passos que se aproximavam da porta. De repente
eles cessaram e Winter teve a impresso de sentir a presena do outro
atravs da madeira: chegava  quase a ouvir-lhe a respirao ansiada.
Teve receio do que ia ver. Quase se arrependeu de ter vindo. Aquela
gente era teimosa, difcil; seu raciocnio sem sutilezas  seguia uma
inflexvel linha reta, era como um boi enfurecido que leva tudo por
diante. Selvagens! Eis o que eram. Selvagens! Mas no fundo Winter sentia
que seu refinamento  europeu no passava dum eterno assobiar no escuro,
dum permanente fugir aos problemas. Aqueles homens rudes da provncia
pelo menos davam nome s coisas e no se  envergonhavam de seus
sentimentos.
  - Bolvar! - tornou a dizer. - Faa o favor de abrir. S por um
instante.
  A maaneta moveu-se e a porta entreabriu-se. Na fresta apareceu em
penumbra metade do rosto de Bolvar.
  - Que  que o senhor quer?
  - Duas palavras.
  Houve uma leve hesitao do outro. Por fim ele abriu a porta por
completo e disse:
  - Entre.
  O alemo entrou. As janelas estavam fechadas, o quarto escuro, e andava
no ar viciado um cheiro azedo de suor humano muitas vezes dormido.
  Winter caminhou para 
  uma das janelas, abriu os postigos e ergueu a vidraa. A luz e o ar frio
da tarde entraram no quarto. Era uma pea quase nua, onde havia uma
cama-de-vento, duas  cadeiras e um velho ba de lata. A um canto se via
uma roca antiga, de pedal quebrado.
  - Quem foi que mandou abrir a janela? - perguntou Bolvar.
  Estava de barba crescida, olhos injetados, em mangas de camisa, ps
descalos, as bombachas brancas amassadas. Envelheceu vinte anos -
pensou Winter, contemplando  o rapaz.
  Foi com voz calma que disse:
  571
  - Um mdico nunca pede licena para fazer essas coisas.
  - Mas eu no mandei chamar nenhum mdico.
  Winter respirou fundo, como para dominar seu desejo de dar uma resposta
violenta.
  - Olhe, Bolvar, no vamos perder tempo com bobagens.
  E ao dizer essas coisas notou que quando se comovia seu portugus
piorava, seus erres se faziam mais rascantes, ele trocava o b i pelo p e
por nada deste mundo conseguia  pronunciar direito o ao. Mas prosseguiu:
  - Sei de tudo que se passou nesta casa. Sua me me contou,  Bolvar
olhava-o, num desafio, como quem diz: "Contou? E
  da?"
  - Vosmec talvez no saiba - prosseguiu Winter quando ns recebemos o
diploma, fazemos um juramento solene de guardar o segredo profissional.
Nada do que um cliente  me diz  eu posso contar a outros. Nada. Estou
aqui no s como seu amigo, mas principalmente como mdico da casa.
  Deu dois passos na direo do rapaz. Sentia agora que o hlito  do
outro cheirava a cachaa. Com o canto dos olhos viu uma garrafa  junto
da cama.
  - Por que no vamos nos sentar e conversar com calma.   
  Puxou uma cadeira e sentou-se. Bolvar hesitou um instante e depois se
recostou na cama.
  - Vamos fumar? - convidou o mdico.
  - No tenho fumo nem palha.
  - Eu tenho - replicou Winter, tirando do bolso um mao de palhas e um
pedao de fumo em rama.
  A voz de Bolvar mudou por completo, tornou-se calma, natural e -
estranho! - quase trocista quando ele perguntou:
  - Ento sempre resolveu fumar os nossos crioulos? Winter soltou uma
risadinha rpida.
  - A gente se habitua a tudo.
  Bolvar pegou o fumo que o mdico lhe dera, apanhou a faca que tinha
debaixo do travesseiro, e comeou a fazer um cigarro.
  572
  Winter observava-o com o rabo dos olhos, enquanto fingia examinar o
quarto.
  - Vosmec e sua mulher tiveram sorte... - disse ele, depois de algum
tempo.
  - Sorte? Por qu?
  - Andaram no meio dos pesteados e no pegaram a doena. Bolvar baixou
os olhos.
  -  melhor a gente no falar nisso.
  - Mas ns temos que falar em alguma coisa! - exclamou o mdico, quase
exaltado. - Ser que lhe falta coragem para enfrentar o assunto?
  - No  questo de coragem.
  - Ento de que ?
  -  que no adianta falar.
  - Adianta, sim.
  Winter bateu a pedra do isqueiro e quando o pavio estava aceso
aproximou-o do cigarro que o outro tinha preso entre os dentes.
  Guardou no bolso o pedao de fumo e o pacotinho de palha e fez uma
pergunta brusca:
  - Por que  que est metido neste quarto?
  - Porque quero.
  - Era essa mesma a resposta que eu esperava. A resposta dum homem macho.
Estou porque eu quero. Mas isso no esclarece nada. As crianas tambm
respondem assim.  Vamos, fale com franqueza. Fugir a um problema no 
resolver esse problema. Por que  que est metido neste quarto? No v
que no pode passar o resto da vida assim?  Mais cedo ou mais tarde tem
de descer. Vosmec precisa comer, beber, fazer as suas necessidades.
Vosmec  o chefe desta casa. No compreende que essa atitude no
resolve nada?
  Bolvar sacudia a cabea com impacincia. Tirou uma baforada de fumo e
depois cuspiu no cho com fora.
  - Eu sei, eu sei. Mas  que sou um homem de vergonha. Ontem bati no
rosto da minha mulher. Estou envergonhado. 
  573
homem no d em mulher. S um covarde. Me portei como um covarde. Eu devia
mas era queimar estas mos...
  Abriu ambas as mos, de palmas voltadas para o alto, e mirou-as com
rancor, como se s elas tivessem culpa de tudo quanto acontecera.
  Winter sacudia a cabea e coava freneticamente o queixo.
  - Vosmec no conhece ainda a mulher com quem vive? No sabe que ela 
doente e que sente prazer em fazer os outros sofrerem?
  Apontou para a cicatriz de queimadura na mo de Bolvar.
  - Isso a, por exemplo...
  - Me queimei no fogo...
  - No  verdade. Eu sei de tudo. No se esquea que sou mdico e no
nasci ontem.
  A voz lhe sara incisiva e dura. Ergueu-se e foi at a janela. Olhou
para as rvores do ptio, to calmas e belas quela hora, e ficou um
instante a aspirar o cheiro leve e claro da tardinha.
  - Por que foi que demoraram tanto em Porto Alegre? - perguntou Winter de
repente, sem se voltar para o interlocutor.
  - Porque eu quis.
  O mdico fez meia-volta:
  - Diga antes: porque Luzia quis.
  - Pois se o senhor sabe de tudo por que  que pergunta? Winter tentou
outra ttica.
  - Seja homem, Bolvar, encare o seu problema de frente. Ficar brabo no
adianta nada. Os homens desta provncia parecem achar que podem resolver
tudo a gritos, tiros ou facadas.
  Bolvar pitava em silncio, olhando para o cho. Por muito tempo ficou
assim, como que esquecido da presena do mdico. Depois mudou de posio
na cama, cruzou as pernas e disse com voz magoada:
  -  uma histria muito triste e muito comprida, doutor.
  - Um mdico est habituado a ouvir histrias tristes. No tenho nenhuma
pressa. Pode contar.
  - Por que vosmec abriu tanto a janela?
  - Para entrar ar fresco e um pouco de sol.
  574
  - No podia fechar um pouquinho?
  Winter compreendeu. Ergueu-se e fechou os postigos, deixando apenas uma
fresta por onde entrava agora uma estreita faixa de
  sol.
  - H coisas que um homem tem vergonha de contar, doutor.
  Honra e vergonha... - pensou Winter. Como os homens do Rio Grande
falavam em honra e vergonha! Honra manchada lava-se com sangue. Havia
uma lei que proibia os duelos,  mas os duelos se realizavam assim mesmo,
a tiros, a espada, a adaga. O dr. Nepomuceno falava com solenidade em
Justia, mas aqueles homens realistas no confiavam  em juizes e
tribunais. Resolviam suas pendncias pelas armas: faziam justia pelas
prprias mos.
  - Escute aqui, Bolvar. Se vosmec tivesse uma dessas doenas...
pegadas... compreende?. . . dessas que a gente tem vergonha de contar,
que  que fazia? Sofria calado  e ficava estragado para o resto da vida
ou ia contar tudo ao mdico?
  - Contava tudo ao mdico. Mas o caso aqui  diferente, doutor.
  - No  muito. Veja bem. Luzia  uma mulher doente, doente do esprito.
E vosmec vai acabar tambm doente da cabea se continuar nessa atitude.
  - Que  que vou lhe contar? Vosmec pelo jeito j sabe de tudo.
  - De tudo no. Conte o que foi que aconteceu em Porto Alegre.
  Bolvar mordia com fora o cigarro apagado. Depois deixou-o cair no
cho, apertou uma mo contra a outra, entrelaou os dedos.
  - S depois que comeou a peste l em Porto Alegre  que eu vi com quem
tinha casado. Dizem que o pior cego  o que no quer ver. Eu andava
cego, assim como enfeitiado.  Muitas vezes quando Luzia brigava com a
mame eu ficava do lado de Luzia. Cheguei at a ficar meio indiferente
com o Florncio por causa dela. Agora o Florncio  nem entra mais nesta
casa.
  Calou-se, como que engasgado. Vendo que o outro no prosseguia, Winter
quis ajudar a narrativa e antecipou:
  575
  - Vosmec descobriu que todas aquelas coisas horrveis, gente sofrendo e
morrendo nas ruas, tudo aquilo para sua mulher era mesmo que uma festa,
no foi?
  Bolvar sacudiu a cabea numa lenta afirmao.
  - Logo que ficamos sabendo da peste eu quis vir embora. Ela ficou
furiosa. Disse que no tinha feito aquela viagem cansativa s pra passar
um ms em Porto Alegre.  Quando falei que a gente podia pegar o clera,
ela me chamou de covarde. Assim, fomos ficando. Eu andava desnorteado,
desconfiava da gua que bebia, das coisas que  comia. No podia dormir
de noite. Sentia por todos os lados cheiro de morte, de podrido. Mas
Luzia andava contente. Ficava na janela olhando as pessoas que caam  na
rua. s vezes ia pra fora pra esperar a carroa que vinha recolher os
defuntos, ia olhar de perto a cara deles... Uma vez chegou a entrar numa
casa onde estavam  velando um morto; no conhecia ningum mas foi
direito ao caixo e tirou o leno da cara do defunto e ficou olhando.
Fazia todas essas coisas mas de noite, na cama,  tremia e chorava de
medo. E quando eu convidava pra vir embora, ela no queria. "S mais uns
dias, Boli" - ela dizia - "s mais uns dias."
  - E que era que vosmec achava de tudo isso?
  - Ora, doutor, s vezes eu tinha vontade de surrar ela, de pegar ela 
fora, botar dentro da jardineira e vir embora. Outras vezes ficava com
pena, principalmente  quando de noite ela se agarrava em mim, comeava a
tremer e a choramingar.
  Winter sacudia a cabea. Tudo aquilo parecia puro melodrama.
  - Foi ento que me convenci que tinha casado com uma mulher louca. E o
pior era que eu continuava louco por ela. Vosmec no pode imaginar como
os homens l em Porto  Alegre  olhavam pra Luzia. Uma noite no teatro
um capito dos Drages no tirava os olhos dela. Eu at quis ir tirar
uma satisfao...
  Winter aprendera que naquela provncia a expresso "tirar uma
satisfao" eqivalia quase sempre a um desafio para duelo.
  - Pois esse homem depois vivia rondando o hotel onde ns  estvamos
morando. Fiquei sabendo que o tal capito se chamava! Paiva... No sei o
qu Paiva. Descobri  que morava na Rua da
  576
  Olaria... Eu estava disposto a ir falar com ele pra acabar duma vez com
aquela histria. Foi quando a peste comeou forte. Por fim eu j no
sabia o que fazer. Um  dia comecei at a pensar que a Luzia no queria
vir embora por causa desse capito. Senti o cime assim como uma facada
no peito.
  - Mas vosmec acha que ela estava interessada no capito?
  - Como  que a gente vai saber o que uma mulher como a Luzia est
sentindo? No teatro vi que ela tambm olhava pra ele, que estava
gostando de ser olhada. Um dia  peguei ela perto da janela do quarto,
olhando pra rua, e vi o capito parado numa esquina. Desci como uma
bala. Quando cheguei l embaixo ele tinha desaparecido.  A se passou
uma coisa engraada. Depois disso quem no queria vir embora era eu.
Precisava primeiro agarrar o tal capito...
  Bolvar calou-se. Winter esperava, com o toco de charuto apagado no
canto da boca.
  - Eu no devia lhe contar essas coisas, doutor.
  - Por que no?
  - Porque h coisas que um homem no conta nem pr pai nem pra me, nem
pr melhor amigo.
  Ergueu-se de repente, caminhou at um ngulo do quarto, ficou junto da
velha roca e sua mo distrada comeou a fazer a roda girar. Era um
canto sombrio. Como que  se sentindo protegido pela penumbra, Bolvar
continuou:
  - Mas eu preciso contar isso pra algum. Preciso desabafar. No  mesmo?
Uma tarde a Luzia saiu e disse que ia na costureira. Mas quem  que se
lembra de fazer vestido  no meio da peste? Todo mundo andava louco de
medo. Quem podia fugir, fugia. As casas de negcio estavam fechadas.
Ningum queria sair na rua de medo de ter um desmaio,  cair e ser levado
como morto pr cemitrio. Pois Luzia nessa tarde saiu. Menti que estava
me sentindo mal e disse que ia ficar no hotel. Mas na verdade fui
seguindo  a minha mulher, seguindo. Ela entrou na Rua da Olaria. Vai se
encontrar com o capito - pensei. Vi que tinha de matar os dois. Vosmec
no imagina como meu corao  batia. Mil vezes uma guerra, um entrevero,
uma carga de lana... Mil vezes um combate bem brabo
  577
  do que aquela situao. Porque eu vi que podia cortar o corpo do capito
em mil pedaos, mas que no ia ter coragem de fazer nada pra Luzia. E
que ia continuar vivendo  com ela depois de tudo...
  Para deixar o outro mais  vontade, Winter no olhava para ele.
  - Pra encurtar a histria, doutor, a Luzia parou na frente duma casa
cor-de-rosa da Rua da Olaria. O senhor sabe, l na capital as casas tm
nmero. Era o 165. Me  lembro bem. O 165. A porta estava meio aberta. A
Luzia entrou. Esperei um pouco, entrei tambm. O corredor estava escuro.
Subi a escada devagarinho, com a cabea  latejando, ia meio catacega,
meio transtornado. Primeiro no entendi o que estava acontecendo. Tinha
muita gente por ali, conversando baixinho. A Luzia estava de  branco. Vi
aquele vulto claro na sala meio escura. Depois  que compreendi que era
um velrio. Espiei por cima do ombro dum homem e vi quando a Luzia
chegou perto  do caixo, tirou o leno do rosto do defunto e ficou
olhando. Custei um pouco a reconhecer o capito Paiva. Estava muito
desfigurado. Fiquei com as pernas moles,  fiz meiavolta e at agora no
sei como sa daquela sala. Naquele dia tomei uma bebedeira braba, dessas
de cair. Quase me levaram na carroa, pensando que eu estava  pesteado.
- Bolvar fez uma pausa. Encostou-se na parede, como que subitamente
cansado. - Dois dias depois foi a Luzia que me convidou pra vir embora.
Disse que  estava com saudade do Licurgo.
  Winter ficou por um instante num silncio reflexivo. Depois perguntou:
  - E que foi que vosmec disse a sua mulher, depois que ela voltou para a
penso naquela tarde?
  - Nada.
  - E ela no sabe que vosmec a seguiu?
  - No sei. Acho que no.
  - E at hoje no tocaram no assunto?
  - At hoje... Agora eu me arrependo de no ter falado. Porque desde
ontem estou aqui sozinho pensando, matutando. Passei a noite de olho
aceso, me lembrando daquilo. Luzia olhando pr morto... Se ela sabia
onde o capito morava era porque tinha estado
  578
  l antes, vosmec no acha? Rua da Olaria, 165... vosmec no acha?
  -  possvel at que ela nunca tenha falado com esse homem. Decerto
ouviu dizer que o capito tinha morrido e teve vontade de ir ver o corpo
dele...
  - Pode ser. Mas no sei. Quero deixar de pensar nisso e no posso.
  - Sabe o que estou pensando?  que Luzia fez tudo isso de pura
malvadeza. Ela sabia que vosmec ia segui-la. Viu quando vosmec entrou
na casa...
  Bolvar tornou a dar um tapa brusco na roda da roca.
  - O doutor quer dizer que ela nunca teve nada com esse tal capito
Paiva?
  - Exatamente. Bolvar sacudiu a cabea.
  - Isso  bom demais pra ser verdade. Mas de qualquer jeito eu devia ter
falado com ela naquele dia. Agora  tarde. No tenho nem coragem. Mas
essa coisa no me sai  da cabea.
  Winter aproximou-se da janela e jogou fora pela fresta o toco de
charuto.
  - Mas essa no  a pior parte do assunto, Bolvar. Faa o possvel para
esquecer isso.
  - Mas ela  louca, no , doutor? - perguntou Bolvar de repente, e no
tom de sua voz havia como que uma splica: era como se implorasse uma
resposta negativa.
  -  uma pessoa doente e como tal tem de ser tratada.
  - Mas eu gosto dela, no posso viver sem ela, nunca vou ter coragem de
mandar a minha mulher pra um hospcio.
  Winter estava perplexo. No sabia que dizer. Era uma situao com que
nunca se havia defrontado em toda a sua vida. Poderia a propsito dela
fazer reflexes filosficas,  recorrendo a um palavrrio bonito. Mas
para um homem como Bolvar, tinha de dar uma soluo prtica, concreta,
clara.
  - Temos que pensar... - disse, ao cabo de alguns segundos de reflexo. -
Temos que pensar... - E achou-se tolo, ignorante e impotente. - Mas a
primeira coisa que  vosmec tem a fazer 
  579
  deixar este quarto e retomar sua vida. No se esquea que  o homem
desta casa, o chefe. Com o tempo havemos de descobrir uma soluo...
  Aquilo era uma promessa v, uma mentira. Sabia que acharia paliativos
para aquele problema, mas nunca uma soluo. Se a cincia curava casos
como o de Luzia, essa  cincia no estava a seu alcance; ele a ignorava.
  - Com o tempo? - repetiu Bolvar, saindo de seu canto escuro. Por um
momento ficou dentro da fita luminosa de sol, que lhe acentuou a palidez
amarelada. - Mas vosmec  no compreende que est tudo de pernas pr ar?
O menino fechado l na gua-furtada, a casa de quarentena...
  - A quarentena h de passar.
  - Mas  um abuso! O Bento Amaral fez isso porque no gosta de mim. Era
inimigo de meu pai. Tem raiva do Sobrado.
  - O dr. Viegas concordou com a medida.
  - O dr. Viegas j est dominado pelo velho Amaral. Todo mundo aqui diz
amem  a esse patife.
  - Tenha pacincia, Bolvar. No junte mais esse problema  aos outros
que so muito mais srios.
  - Mas  que preciso sair daqui, ir ao Angico ver como esto os meus
negcios. Muita coisa pode acontecer em quarenta dias. E vosmec j
pensou no que  a gente ficar  aqui fechado dentro de casa, depois de
tudo que aconteceu? J pensou?
  Winter ergueu-se.
  - Vou falar com o coronel Amaral e dizer que no h perigo de vosmecs
terem pegado a doena. Todo mundo sabe que tem chegado gente do Rio
Pardo todos os dias. Vou  pedir que acabem com a quarentena.
  - No peo favor pr'aquele canalha.
  - No se preocupe. Farei o pedido em meu prprio nome.
  - E se ele no atender?
  - O remdio  esperar com pacincia. A casa est cercada de guardas.
  - So os bandidos do Bento Amaral, os capangas dele. Eu conheo.  o
Dentinho de Ouro, que matou trs homens na 
  580
  Soledade. E o Quinzote, que degolou um velho na Vacaria. Conheo bem essa
corja. Esto armados e de guarda por a. O Bento Amaral pensa que tenho
medo dos apaniguados  dele. Winter ps a mo no ombro de Bolvar.
  - Olhe aqui, meu amigo. Desa, tome um banho, um bom chimarro e
alimente-se direito. Sua me est aflita por sua causa. Ela tem medo...
  Calou-se abruptamente.
  - Medo que eu faa alguma loucura?
  - Medo de que vosmec se enforque.
  - S se eu estivesse louco. Preparar uma corda, fazer o lao, escolher
um ramo de rvore, botar o pescoo na corda e depois... No. Leva muito
tempo. S se eu estivesse  louco. - Encarou o doutor bem de frente. -
Vosmec acha que estou correndo o perigo de ficar louco?
  - Absolutamente. Vosmec  um homem normal. S est um pouco apaixonado.
Mas isso passa. Principalmente se fizer o que digo. Reaja, pense assim:
sou moo, no estou  em nenhuma dificuldade financeira, tenho um filho
bonito e so...
  - Tudo isso  fcil de dizer, doutor. Mas no sou nenhuma criana que o
senhor pode engambelar pra fazer tomar leo de rcino.
  - Quer dizer ento que vosmec acha mais fcil entrar numa carga de
cavalaria e atirar-se em cima dum quadrado de soldados de baionetas
caladas?
  - Acho, doutor. Vosmec disse uma coisa agora que... Pois . Uma guerra
resolvia tudo. Se houvesse uma guerra eu ia. Era o mesmo que deixar a
coisa correr. O destino  que resolva. Meu pai tinha razo. Guerra 
remdio pra tudo.
  - No diga tamanho absurdo!
  - Eu digo o que sinto. Mil vezes uma boa guerra.
  E dizendo isso dava tapas nervosos e repetidos na roda da roca,
fazendo-a girar.
  Alguns minutos depois Winter desceu. Bibiana esperava-o na sala de
visitas.
  581
  - Ento? - perguntou ela.
  - No tenha medo - respondeu o mdico. - O Bolvar no vai se enforcar.
No fundo ele ama a vida. Tenha pacincia. Vamos dar tempo ao tempo, como
se diz por aqui.  O tempo  um remdio infalvel.
  - Tempo  remdio de pobre.
  Winter apanhou o chapu e j no vestbulo disse:
  - Ele prometeu descer e fazer o possvel para encarar a situao com
calma. Vou pedir ao coronel Amaral que acabe com a quarentena. No h
razo para isso.
  - Vosmec acha que ele acaba?
  - Acho.
  - Pois eu duvido.
  O mdico estendeu a mo para Bibiana, que a apertou de leve,
rapidamente,  maneira das mulheres da provncia, que pareciam temer que
as mos de homens estranhos  lhes transmitissem alguma doena.
  Vinham agora l de cima os sons da ctara de Luzia. A teiniagu tocava
uma valsa. Meio desconcertado, Winter lanou um olhar rpido para
Bibiana, abriu a porta e  saiu.
  19
  Por aqueles dias Cari Winter escreveu a Von Koseritz: "Espero que o meu
caro baro tenha realizado os seus sonhos, que seu jornal seja um
sucesso e a escola outro.  Quanto a mim, sou um fracassado. O mdico da
municipalidade tem agora as preferncias do nosso Junker local. O
Sobrado continua de quarentena, j vai para uma semana.  Devo dar graas
por me permitirem entrar e sair de l  vontade. Bolvar anda irritado,
considera-se vtima duma intriga poltica e j fala em duelo. Falei com
Florncio,  perguntei-lhe que podamos fazer para evitar um conflito.
"Nada" - me respondeu ele. E explicou que se um Terra  teimoso, um
Terra com sangue de Cambar  uma mula,  e uma mula coiceira. (Foi essa
a expresso que ele usou.) Parece mesmo que da parte do velho Amaral o
que
  582
  h mesmo  birra, desejo de desmoralizar Bolvar. O dr. Nepomuceno
recusou-se a interceder em favor do rapaz. O padre Otero nem quer ouvir
as minhas razes. E l  est aquela gente ilhada no Sobrado e, pior que
isso, ilhada cada um em si mesmo. O meu caro amigo j reparou que, em
ltima anlise, uma pessoa no passa duma poro  de paixes, cercada de
incompreenso por todos os lados? Este pequeno arquiplago de Santa F
no est propriamente no mar Tenebroso, mas sob sua aparncia de
quietude  e rotina tem tambm seus dramas. E eu, como mdico, fao o
curioso papel de lanadeira, indo e vindo a conduzir a frgil linha que
costura esse tecido dramtico.  Creio que estou ficando literato, to
literato que no se admire o meu bom amigo se um dia eu lhe mandar
sonetos ou pensamentos filosficos para seu jornal. Pois  dramas no
faltam por aqui, meu caro. Eu os vejo, eu os cheiro, eu os ouo, eu os
apalpo. H dramas no casaro do velho Amaral. Dramas nas casas dos
colonos da Nova  Pomernia. Drama at no quintal do vigrio, meu vizinho
e inimigo. Drama h tambm no peito encatarroado do dr. Nepomuceno. Mas
o maior drama de todos est no Sobrado.  Como mdico - ah, a nobre, a
sublime profisso mdica! - no devo quebrar o sigilo sagrado; mas como
velho tagarela que aprecia o espetculo da vida, fico ardendo  por
cont-los ao mundo. Um dia ainda nos havemos de encontrar para uma longa
palestra. Falaremos de tuas realizaes, Cari, de teus projetos.
Falaremos um pouco  tambm sobre o passado. Diremos mal de Napoleo ,
da Inglaterra e principalmente dessa augusta vaca, a rainha Vitria."
  Winter interrompeu a carta. Olhou o relgio. Eram quatro e meia da tarde
e ele tinha prometido ir ao Sobrado para ver Licurgo, que estava um
pouco febril. Vestiu-se,  pensando nas muitas outras coisas que diria ao
baro no restante da carta. Ia perguntar-lhe como conseguia ele escrever
to bem em portugus, se no sentia saudade  da Ptria; se sabia o preo
duma passagem de vapor do Rio de Janeiro a Bremen...
  Botou o chapu na cabea, acendeu um charutinho e saiu.
  O cu estava limpo, o ar parado, o sol morno. Ao passar pela casa de
Florncio, Winter aproximou-se da janela e gritou:
  - Dona Ondina!
  583
  A mulher apareceu, vindo do fundo da casa, com o filho no colo.
  - Boa tarde, doutor.
  - Como vai o menino?
  - Vai bem. Tem andado com uns sapinhos na lngua, mas j est
melhorando.
  - Onde est o Florncio?
  - Anda pra fora, fazendo uma tropa.
  - Est bom. Precisando de alguma coisa  s mandar me chamar.
  - Muito obrigada, doutor.
  Wincer lanou um olhar de soslaio para o ventre de Ondina. A rapariga
estava outra vez grvida. Sorriu ao pensar na histria que Bibiana lhe
contara um dia sobre  uma famosa tesoura de podar da velha Ana Terra.
  Atravessou a praa em passo lento. No tinha pressa de chegar.
Ultimamente achava opressiva a atmosfera do Sobrado - opressiva e rida.
  Luzia andava paradoxalmente humilde, terna e submissa. Passava como
sempre muito tempo fechada no quarto, tocando ctara ou lendo, e quando
descia falava pouco.  Bibiana desvelava-se em cuidados para com o neto e
tomava conta da casa. Vinham mantimentos da estncia ou da venda do
Schultz; os sacos e pacotes entravam pelo  porto dos fundos, sob o
olhar fiscalizador dos capangas de Bento Amaral. Bolvar andava cada vez
mais impaciente, fumava cigarro sobre cigarro, e ultimamente
(contara-lhe  Bibiana, apreensiva) dera para passar os dias a beber
cachaa. " essa maldita quarentena" - queixara-se ela.
  No. Ele no tinha nenhuma pressa em chegar. A praa estava bonita.
Poucas eram as rvores que o inverno despira. L estava a grande
figueira, muito copada, dum  verde-garrafa sombreado de negro, e com seu
tronco e galhos que pareciam membros humanos. Ela tambm era comparsa
daquela comdia - refletiu Winter - mais do que  mera parte do cenrio.
  Comeou a atravessar a rua.
  584
  - Boa tarde, doutor!
  O mdico voltou a cabea na direo da voz. O Dentinho de Ouro estava
sentado debaixo do cinamomo da praa que ficava fronteira ao Sobrado.
Tinha o chapu atirado  para trs, deixando descoberta a testa curta e
bronzeada. Seu dente de ouro luziu quando ele arreganhou os beios para
o alemo. Este se limitou a bater com o dedo  na aba do chapu, lanou
um rpido olhar para o homem e continuou seu caminho.
  Ouviu de novo a voz do capanga:
  - Sete dias, doutor! Faltam ainda trinta e trs!
  No respondeu nem se voltou. Mas Dentinho de Ouro tornou a gritar:
  - Hoje termino o meu trabalho. De tarde vou pra estncia do coronel. O
Mane Borba vem me render.
  E eu com isso? - pensou Winter, batendo na porta do casaro. Uma das
negras escravas veio abri-la e ele entrou. O cheiro do Sobrado -
madeira, poro, cozinha, defumao  - envolveu-o. Agora para ele aquilo
era "cheiro de drama", uma emanao dos problemas mesmos daquela casa e
de seus moradores.
  Bibiana levou-o imediatamente ao quarto de Licurgo. O mdico
aproximou-se do bero, pousou a mo na testa do menino e disse:
  - Est fresquinha. Acho que a febre se foi.
  Ps o termmetro na axila da criana. Pouco depois tirou-o, leu-o e
murmurou:
  - Temperatura normal.
  Naquele momento ouviram-se passos pesados no corredor. Era Bolvar. Ao
ver o mdico, atravs da porta, parou e disse:
  - Foi bom vosmec ter vindo.
  Havia em sua voz um tom que Winter no gostou. Era algo de apertado,
gutural e ameaador.
  - Est sentindo alguma coisa?
  As mos do rapaz tremiam e seus olhos tinham um brilho anormal.
  - No. Estou bem. Muito bem at. Bem demais.
  585
  - Ele anda nervoso por causa da quarentena, doutor... - explicou
Bibiana.
  Bolvar voltou, brusco, a cabea para ela e disse:
  - No se meta, mame, no se meta. Tornou a encarar o mdico:
  - Vosmec  testemunha. Tive muita pacincia at agora. Mas estou
resolvido a no agentar mais.  um desaforo. Eu...
  - No se exalte, no h... - comeou Winter. Mas o outro cortou-lhe a
palavra:
  - Meus negcios andam de pernas pr ar. Na vila todo o mundo se ri de
mim, encurralado aqui dentro, como um bicho, s porque o Bento Amaral
deu uma ordem. Quem   ele pra se meter na minha vida? Quero botar a
minha marca no outro lado da cara desse canalha!
  - Espere um pouco. Posso falar de novo com o homem...
  - No espero nem mais um dia nem mais uma hora. No quero ficar louco
fechado aqui dentro. Vosmec como pode andar livre por toda a parte no
sabe o que estou sofrendo.  - Calou-se, ofegante. Olhou o mdico bem nos
olhos e disse: - Desa comigo. Quero que seja testemunha.
  - Mas testemunha de qu...? - principiou o outro.
  - Venha!
  Encaminhou-se para a escada e desceu apressado. Winter e Bibiana o
seguiram.
  - Que  que vai fazer, meu filho? - perguntou ela.
  - Vosmec j vai ver...
  Aproximou-se da janela que dava para a praa, ergueu a vidraa de
guilhotina e gritou para fora:
  - Dentinho de Ouro! V dizer pr seu amo que eu vou sair! Aquela voz
positivamente no era de Bolvar - refletiu Winter. O dio a
desfigurava.
  Winter aproximou-se da janela e olhou para fora por cima do ombro do
rapaz. Viu o capanga erguer-se, sob o cinamomo, aproximar-se lento do
meio da rua e perguntar:
  - Que tem?
  586
  - V dizer pr seu patro que eu, Bolvar Cambar, vou j j sair do
Sobrado.
  L de baixo o outro gritou:
  - Temos ordens de no deixar ningum sair, moo.
  - V chamar o Bento Amaral. Diga pr'aquele corno duma figa que venha me
atacar se ele  homem!
  E ao dizer isto Bolvar espumava na comissura dos lbios e seu corpo
inteiro trepidava. Winter estava simplesmente imobilizado pelo espanto.
  O capanga teve um momento de hesitao, mas depois repli-
  cou sem rancor:
  -  melhor vosmec no experimentar. Ns estamos armados.
  - Eu tambm estou!
  Voltou-se, enfiou o chapu na cabea e disse:
  - Chegou a guerra. Agora no tem mais jeito. Eu j disse que saa e saio
mesmo.
  - Rodrigo! - gritou Bibiana. Imediatamente corrigiu-se: - Bolvar!
  Agarrou o brao do filho, mas este se desvencilhou dela com um repelo.
  - No deixe ele sair, doutor! Por amor de Deus, no deixe! Vo matar o
meu filho.
  Winter tentou deter Bolvar, mas o rapaz o empurrou com tanta violncia
que o mdico perdeu o equilbrio e caiu de costas.
  Bolvar precipitou-se para o vestbulo de pistola na mo. Desceu em duas
largas passadas a escada que levava  porta, abriu esta com um safano e
saiu.
  - Volte, moo! - gritou Dentinho de Ouro do meio da rua, comeando a
recuar devagarinho na direo do cinamomo. - Volte que eu no quero l
lastimar.
  - Que venha o Bento Amaral! - gritava o filho do capito Rodrigo. - Que
venha esse canalha ladro cachorro covarde corno! Que venha se  homem!
Que venha a capangada!
  - No atirem no menino! - suplicava Bibiana, aos gritos debruada na
janela.
  587
  De pistola erguida Bolvar caminhava devagar mas implacavelmente,
olhando sempre para Dentinho de Ouro.
  - Pare, seno eu atiro! - gritou este ltimo.
  - Pois atira, capacho! Atira, pstula!
  E continuava a avanar. Dentinho de Ouro recuou ainda uns trs passos:
estava agora com as costas tocando o tronco do cinamomo. Vultos
apareciam s janelas das casas  prximas. Mulheres que andavam por ali
deitaram a correr em pnico, aos gritos. Homens escondiam-se atrs de
rvores. Um velho que ia atravessando a praa naquele  momento atirou-se
no cho e ficou como que costurado  terra.
  Bolvar estava agora no meio da rua a olhar fixamente para o capanga.
  - Onde est o corno ladro que no vem? Chama esse covarde! Que venha
roda a corja dos Amarais!
  - Volte seno eu atiro! - ameaou ainda o outro.
  Disse isso e levou, brusco, a mo  cintura. Bolvar fez fogo e Dentinho
de Ouro tombou de joelhos, segurando o ombro esquerdo onde o sangue
comeou a escorrer.
  - Que venha mais um! - gritou Bolvar, triunfante.
  Mal tinha pronunciado essas palavras quando se ouviram novos disparos:
dois outros capangas dos Amarais haviam aparecido  e o alvejavam de
alguma distncia: um  deles atirava protegido por um dos pilares do
porto do Sobrado; o outro achava-se ajoelhado atrs dos degraus da
capela. Bolvar no se moveu de onde estava e comeou  a fazer fogo
tambm para a direita e para a esquerda, gritando:
  - Que venham mais! Dois  pouco! Que venham!
  Para afastar Bibiana da janela o dr. Winter teve de segur-la pelos
pulsos e arrast-la at uma cadeira; obrigou-a a sentar-se e ficou a
fazer-lhe presso nos ombros  para que ela ficasse imvel. Por alguns
segundos Bibiana relutou, tentou desvencilhar-se do amigo: mas de
repente teve um relaxamento de msculos e ali se  quedou  de olhos
vidrados e fixos, a boca entreaberta, os braos  cados, a respirao
arquejante.
  588
  Por alguns segundos ficaram os dois a ouvir o tiroteio. Num dado momento
os tiros cessaram e fez-se um silncio pressago. Bibiana deixou cair a
cabea para trs.  Trmulo, engasgado, sentindo que o corao queria
saltar-lhe pela garganta, Winter aproximou-se da janela e olhou.
  Bolvar estava cado de borco no meio da rua, com a cara metida numa
poa de sangue.
  S dois dias depois  que o dr. Winter terminou a carta para Von
Koseritz. Depois de narrar-lhe a cena da morte de Bolvar, acrescentou:
"Havia muita gente no enterro.  O corpo do rapaz foi sepultado entre o
de Ana Terra, sua bisav, e o do capito Rodrigo, seu pai. Luzia parecia
inconsolvel, chorava como uma criana a quem tivessem  roubado o
brinquedo predileto. No cemitrio, antes de descerem o caixo  cova,
ela pediu para ver uma vez mais o marido. Abriram o esquife. Eu no quis
olhar o  rosto do morto, mas olhei o da viva. No saberei descrever-te
a expresso daquele semblante. No era de gozo mrbido, como eu esperava
e temia, mas sim de dor,  de profunda dor. Houve, porm, algo mais que
me deixou com uma sensao de frio interior e de repugnncia por mim
mesmo. Naquele momento, meu caro, tive um vislumbre  da besta que dorme
dentro de cada um de ns, e o que senti me assustou, e at agora no
momento em que te escrevo ainda me perturba.  que me surpreendi a
desejar  violenta e carnalmente Luzia Cambar, ali no cemitrio, naquele
momento mesmo em que ela contemplava pela ltima vez o rosto do marido
defunto. E de mistura com  esse desejo eu senti nusea, como se meu sexo
se tivesse transferido para a boca do estmago. Fiz meia-volta e sa do
cemitrio apressadamente."
  Carl Winter releu o que acabara de escrever e depois concluiu que uma
confisso de tal natureza era grande demais para se fazer numa carta.
Rasgou o papel em muitos  pedaos, foi at a cozinha e atirou-os no
fogo, concluindo: Uma confisso dessas a gente no faz nem a si mesmo.
  589
  O sonho de Mingote Car era ter um cavalo.
  Um dia a tentao foi maior que o medo e ele roubou um tordilho numa
estncia da fronteira.
  Mas no teve sorte; a peonada saiu-lhe nas pegadas e agarrou-o.
  Est aqui o ladro, coronel, que  que fazemos com ele?
  O estancieiro estava furioso, vermelho que nem gringo.
  Botem a minha marca no lombo desse bandido. Depois lhe apliquem
trezentos e sessenta e cinco aoites, um para cada dia do ano. Sou homem
de bem e justia: se no  procedo com energia, esses abusos no acabam.
  Deixaram Mingote nu, amarrado a um palanque.
  E quando lhe encostaram o ferro em brasa na paleta, o coronel gritou:
Isso  pra tu aprenderes a respeitar a propriedade alheia!
  Mingote foi atirado na estrada, marcado como uma rs.
  Saiu a andar estonteado, com o lombo ardendo e sangrando, e como a dor o
cegasse invadiu sem saber outra propriedade alheia.
  Tinha febre e em seu delrio era o Crioulo do Pastoreio, repontando
campo em fora trinta cavalos de fogo.
  Por fim caiu sem foras no cho duma estncia portentosa que comeava em
Baj e entrava Uruguai adentro: diziam que o dono dela podia ir de sua
casa at Montevidu  sem sair de suas terras.
  Esse foi o fim de Mingote, mas no o de sua raa. Porque havia outros
Cars espalhados pelo Continente. O Lulu, por exemplo.
  590
  Vivia sozinho, era barqueiro, e andava por muitos daqueles rios
  o Ca
  o Jacu
  o Taquari
  a cujas margens agora colonos alemes estavam erguendo casas, abrindo
picadas, fazendo roas.
  Um dia Lulu Car viu quando os ndios saram do mato, atacaram um desses
povoados e mataram muitos colonos.
  Ficou de longe, dentro do barco, olhando de olho parado.
  No fez um gesto, no deu um passo, s disse
  Ch gua!
  No tinha nada com aquilo e afinal de contas, pra falar a verdade, a
terra era mesmo dos bugres.
  Havia tambm o Jos Car, por alcunha Juc Feio.
  Nunca dobrou a espinha diante de ningum, sempre estava contra o
governo.
  Contam que tinha cavalo, boas botas e pistolas na cinta.
  Usava chapu de barbicacho e cabeleira to comprida que dava at para
fazer trana.
  Era inditico, carrancudo, mal-encarado e de fala fina.
  (Com cavalo de olho de porco, cachorro calado e homem de fala fma... de
relancina.)
  Tinha a cara to riscada de cicatrizes que parecia um campo lavrado.
  Perguntavam
  Me diga uma coisa, Juc, onde foi que te deram esse talho que te vai de
orelha a orelha, cheio de voltas que nem o Tio Camaqu?
  No combate do Poncho Verde.
  E esse nos beios?
  Na tomada de Caapava.
  E esse no meio da testa?
  A baioneta dum correntino, na guerra contra Rosas.
  E esse no pescoo?
  Juc Feio fechava a carranca e rosnava
  Esse  um talho particular.
  591
  E no dizia mais nada,
  De todos os Cars o que tinha famlia maior era o Chiru.
  Dez filhos, sem contar os mortos.
  Depois de muito andar com a mulher e as crias batendo estradas e
cruzando invernadas, conseguiu licena far erguer um rancho nos campos
do Angico, no municpio  de Santa F.
  Quando a casa ficou pronta, olhou para a mulher e suspirou
  Queira Deus que agora a gente fique sossegado no seu canto.
  Por algum tempo Deus quis.
  Viviam dos restos da cozinha da estncia
  tinham licena de trazer para casa a fressura das reses carneadas.
  E dona Bibiana Terra Cambar, senhora do Angico, deu-lhe de presente uma
vaca leiteira.
  Tudo corria to bem que Chiru comeou a desconfiar, porque a experincia
lhe dizia que
  laranja madura na beira da estrada ou est azeda ou tem marimbondo.
  Um dia apareceram pelo rancho dos Cars um sargento e duas praas,
montados em bons cavalos:
  andavam recrutando gente
  pois tinha rebentado outra guerra, Chiru no ouviu direito contra quem,
mas desconfiava que era outra vez contra os castelhanos.
  Disse adeus  mulher e aos dez filhos e seguiu a p os homens do
governo.
  Aprendeu a dar tiro de espingarda
  a marchar
  a entender a lngua dos superiores, das cometas e dos tambores.
  E quando se viu de uniforme ficou faceiro como potrilho novo.
  Pela primeira vez na vida andava completamente vestido.
  Eu s queria que minha gente me visse agora!
  Chapu de feltro com barbicacho:
  592
  na aba levantada, o tope nacional e o nmero do batalho.  Paramentos  verdes
  carabina com bandoleira
  sabre-baioneta
  patronas, bornal e cantil
  cartucheiras na cintura
  mochila s costas
  coturnos nos ps.
  E na manga da tnica um emblema cor de ouro com a coroa do Imprio e
trs palavras
  Voluntrio da Ptria.
  Chiru Car gostou da guerra.
  Nunca pensei que fosse to linda!
  Era mesmo que uma festa: fandango ou puxiro.
  Muita gente bem fardada
  muito cavalo e canho
  muito barulho, tiro e grito
  muito sangue pelo cho.
  Generais de uniforme bonito
  bandeiras, espadas, clarins
  e cargas de lanceiros
  lembrando as cavalhadas
  dos cristos contra os mouros.
  Foi tambm na guerra que Chiru pela primeira vez na vida ouviu uma banda
de msica.
  Ficou meio louco, com vontade de chorar.
  Mas ficou mais louco ainda quando espetou o primeiro paraguaio na ponta
da baioneta.
  Teve tamanha alegria que chegou a soltar um urro. Estava acostumado a
matar passarinho para comer mas nunca matara bicho maior que um veado
dos pequenos.
  Via agora que matar homem era bom, porque enchia mais o peito. Da por
diante s pensou na hora do entrevero.
  Derrubar paraguaio de longe a tiro no tinha graa
  593
  o bonito era carga de baioneta. Vrias vezes foi repreendido pelos
superiores porque era muito afoito e no esperava a ordem de avanar.
  Os batalhes ganhavam fama
  e com a fama apelidos:
  o 2" era o Dois de Ouro
  o 12 o Treme-Terra
  o 13 o Arranca-Toco
  o 16" o Glorioso
  e o 1 de artilharia, o Boi de Botas.
  Uma coisa Chiru nunca entendeu:
  Por que era que os argentinos e os orientais estavam agora do lado dos
brasileiros?
  Ficava tambm meio confuso quando conversava com os camaradas dos
batalhes que vinham do Norte.
  Eram homens de fala esquisita
  de pouca comida mas muita coragem
  bons na arma branca, ligeiros e ladinos.
  S no tinham era resistncia para o frio.
  Aquele inverno de 65 foi brabo.
  Muito nortista baixou enfermaria encarangado.
  Alguns morreram de doenas dos bofes.
  Chiru deu o capote a um soldado do Par e trocou com um anspeada da
Bahia os seus coturnos por um pedao de fumo em rama.
  Gachos galhofeiros recitavam versinhos Mandai, Me de Deus, mais uns
dias de minuano
  Pra acabar com tudo que  baiano.
  No cerco de Uruguaiana Chiru viu o imperador que passava em revista as
suas tropas.
  Ficou petrificado, de boca aberta.
  Quando eu contar isto pra minha mulher e meus filhos, vo dizer que sou
mentiroso.
  594
  Mas por esta luz que me alumeia, juro que vi dom Pedro I, Pai de todos
ns, passar na minha frente em cima dum cavalo branco com arreios de
ouro e prata.
  Doutra feita Chiru avistou o grande Osrio montado no seu ginete com o
pala-poncho batendo ao vento seu chapu preto de copa redonda sua famosa
lana de bano com  lavores de marfim. Era natural do Continente
  tinha brigado nas guerras da Cisplatina e na dos Farrapos. Contavam que
havia sido o primeiro soldado brasileiro a pisar terra paraguaia, 
frente de seu piquete.
  Era por coisas assim que Chiru gostava da guerra.
  Mas foi uma campanha comprida e custosa.
  Morria mais soldado de peste que de bala, metralha ou arma branca.
  No houve praga que no atacasse aqueles exrcitos.
  Veio a bexiga negra.
  Chiru carregou muita padiola com camaradas agonizantes, de cara
enegrecida, a pele se descolando e toda coberta de pus.
  Veio o clera
  vieram mil febres
  e as cibras de sangue.
  Era gente a tombar por todos os lados, retorcendo-se de dor, com a cara
mais branca que papel.
  No inverno marchavam debaixo de chuva ou com o minuano na cara
  e muita vez Chiru ajudou os companheiros a empurrar canhes e carretas
que se atolavam na lama.
  No vero marchavam na soalheira e soldados caam de insolao.
  Foi uma campanha comprida e custosa.
  595
  Mas Chiru Car andava contente,
  porque em tempo de paz sua vida nunca fora melhor.
  Agora ao menos comia carne, tinha amigos, uma carabina e  uma    baioneta
  e matar homem era bom
  enchia o peito.
  Um dia descobriu que seu companheiro de barraca era um taf\ de Floriano
Terra, natural de Santa F, sobrinho da velha Bibiana, < dona do Angico
e do Sobrado.
  Mundo velho bem pequeno!
  Vossuncs no acreditam?
  Por Deus Nosso Senhor, sobrinho da velha Bibiana!
  Dormia perto de mim e nunca gritou comigo
  me tratava de igual pra igual.
  Um dia caiu ferido, com um balao na perna,  ia ficando  pra trs...
  Se os paraguaios pegassem ele, adeus tia Chica! Vai ento corro pr homem,
botei o bicho nas minhas costas e voltei a meio galope pra dentro das
nossas trincheiras.
  O moo perdeu um pouco de sangue, mas quando entreguei ele prs
padioleiros, inda teve fora pra arreganhar os dentes e me dizer baixinho
  Obrigado, companheiro.
  Quem havia de dizer! Sobrinho da velha Bibiana, dona do  Angico e do
Sobrado.
  Foi por tudo isso que Chiru Car gostou daquela campanha. Na paz vivia
como um bicho. Na guerra era um homem.
  596
  O Sobrado - V
  26 de junho de 1895: Manh
  Quando o dia amanhece, Curgo sobe  gua-furtada para falar com o homem
que passou a noite de viglia. Encontra-o enrolado no poncho, sentado
junto da janela, a  espiar a praa e arredores atravs das vidraas meio
embaciadas.
  - Que tal, Ernesto?
  - Nada de novo. Estou aqui desde as duas da madrugada. L pelas quatro
mais ou menos vi gente saindo da cidade a cavalo pras bandas de Passo
Fundo. Acho que os maragatos  j comearam a se retirar.
  Licurgo olha pra fora e murmura:
  - No sei, no sei... Pode ser uma cilada pra fazer a gente sair do
Sobrado.  bom no arriscar...
  - Pode ser... - repete o outro, abrindo a boca num largo bocejo.
  - Desa, que eu fico aqui por enquanto. Quando o Damio acordar, diga
pra ele que suba. V comer alguma coisa. Tem muita laranja e bastante
gua. Nossos companheiros  passaram a noite caminhando pelo quintal,
trouxeram quanta gua quiseram. Chegaram at a tirar o Adauto de cima da
tampa do poo e enterraram ele atrs do marmeleiro.
  -  engraado. Os federalistas estes dois ltimos dias no deram nenhum
tiro. Acho at que no ficou ningum na torre esta noite.
  - No sei. Esse negcio no me cheira bem. A corja decerto est
preparando alguma traio.
  597
  Ernesto pe-se de p, espreguiando-se num estalar de juntas;
encaminha-se para a escada e dentro em breve seus passos comeaml a soar
surdamente nos degraus. Curgo  abre de par em par a janela! da
gua-furtada, senta-se num mocho junto dela e debrua-se sobre o
peitoril. A brisa mida da manh o envolve, dando-lhe a impresso  de
que mergulhou a cabea na gua fria dum aude. As faces e as orelhas
lhe ardem, e ele aspira com fora o ar que cheira sereno e a campo.
Pensa no Angico e em  Ismlia com uma saudade impaciente. Onde estar
ela agora? Que lhe ter acontecido? Talvez tenha conseguido fugir... Mas
fugir para onde? O mais provvel  que  haja sido presa e obrigada a 
ir para a cama com aqueles  maragatos do inferno. Por alguns segundos
Licurgo fica a ruminar o prazer carnal que tantas vezes a rapariga
Lhe deu. lembra-se dos olhos dela, da voz dela, das formas e do contato do
corpo dela - tudo isso, porm, dum modo remoto, apagado, frio. Talvez a
est hora Ismlia  esteja morta, enterrada e podre. E Licurgo pensa na
filha recm-nascida, dentro da caixeta de marmelada, e como que sente
de novo o cheiro da terra mida do poro, ao mesmo tempo que
se imagina a enterrar Alice naquele cho negro; em seguida  um dia de
sol e de paz, num outro tempo, e vozes cochicham nas ruas:  "Aquele
que ali vai  o coronel Licurgo Cambar. Uma fera! Na revoluo de 93
os maragatos cercaram o Sobrado,  mas ele no se entregou. Sacrificou a
filha, a  mulher, os amigos, mas no afrouxou. Uma fera!" Ele
reconhece as vozes: gente de Santa F. Que vo todos pr diabo!
  Dirige o olhar pesado de sono para a praa, que uma luz  plida comea
a iluminar. As rvores, os telhados e a terra esto midos de rocio e
prateados de geada.  L do outro lado continuam fechadas as janelas e as
portas do edifcio da Intendncia. Nenhum galo canta. No se enxerga
viva alma nas redondezas do Sobrado.   Santa F parece uma cidade de
taperas.
  Curgo olha para o alto do campanrio. E se neste momento, um maragato
estiver fazendo pontaria na minha cabea? Dessa distncia  tiro
certo... Mas que me importa?  Deixa-se ficar onde est, com o queixo
sobre os braos, os braos sobre o peitoril, as palpebras pesadas, a
cabea oca, uma broca fria a verrumar-lhe o
  598
estmago. Por sua mente desfilam imagens de pessoas, trechos de conversas,
cenas dum passado recente - e de sbito Licurgo torna a sentir, como em
tantas outras vezes  desde que comeou o cerco de sua casa, a impresso
de que foi vtima duma terrvel, colossal injustia. "Fazerem isso pra
mim, logo pra mim..." - murmura ele com  os olhos postos na figueira
grande, como se a ela estivesse dirigindo a queixa.
  Desde que se proclamou a Repblica foi ele sempre a autoridade mxima de
Santa F. Com a queda da monarquia os Amarais perderam os cargos
pblicos e o prestgio.  E desde 89 ele, Curgo, no fez outra coisa
seno trabalhar pelo progresso e pela felicidade de sua terra. Foi
eleito intendente municipal de Santa F pelo voto livre  da populao e
por uma maioria inapelvel. No pediu nem comprou votos, no coagiu
eleitores. Aos prprios pees, agregados e amigos ntimos disse: "Votem
em quem  quiserem, pois esta vai ser a primeira eleio livre na
histria do municpio". Depois de eleito, recusou-se a receber seus
honorrios. Muitas vezes chegou a tirar  dinheiro do prprio bolso para
custear obras pblicas: construir pontes, reparar estradas e ruas.
Tratava toda a gente com afabilidade, recebia a todos, ouvia a  todos.
Os colonos de Garibaldina e Nova Pomernia obtinham dele tudo quanto
pediam. A Intendncia era a casa do povo. No entanto, muitos dos homens
a quem prestou  favores se voltaram contra ele, esto agora atirando
contra esta casa a cuja mesa tantas vezes comeram, esta casa onde sempre
foram recebidos por assim dizer como  pessoas da famlia. Mas de todas
as mgoas a que mais lhe di  a que lhe causou Torbio Resende, seu
melhor amigo e companheiro da propaganda republicana. Fascinado  pela
personalidade de Gaspar Silveira Martins, Torbio abandonou os
companheiros de ontem, fez-se parlamentarista, cerrou fileiras com os
maragatos, afastou-se aos  poucos do Sobrado e por fim chegou at a
escrever verrinas contra Jlio de Castilhos, chamando-lhe ditador.
Castilhos ditador! Era o cmulo do absurdo chamar tirano  a um homem que
para evitar a guerra civil abandonou voluntariamente o cargo de
presidente do Estado para o qual fora legalmente eleito. E quando a
revoluo rebentou,  Torbio uniu-se s foras de Juc Tigre, convencido
- o idiota! - de que
  599
  os federalistas queriam salvar o Rio Grande da ditadura, no 
compreendendo - o infeliz! - que por trs daquelas conversas
parlamentarismo e liberdade, o que os  maragatos queriam mesmo era
restaurar a monarquia, destruir a Repblica pela qual o Torbio tanto se
batera.
  Mas agora - reflete Licurgo - aproxima-se a hora do ajust de contas.
Gumercindo Saraiva est morto. O almirante Saldanha da Gama anda
burlequeando pelo Estado com  seu batalho de marinheiros sobrados da
revolta da Armada, e que nada poderam fazer em terra firme se no fugir e
evitar os combates. Muitos dos chefes federalistas  j comeam a emigrar
para o Uruguai e a A gentina.
  Talvez dentro de mais um dia ou - quem sabe? - de poucas horas as foras
de Firmino de Paula estejam entrando em Santa F.  E nunca - pensa Licurgo,
olhando para o casaro  dos Amarais l do outro lado da praa - nunca
Alvarino Amaral poder dizer "Perdi a revoluo mas tomei Santa F e
tive o gosto de entrar no Sobrado de chapu na cabea  e fazer o Licurgo
dobrar a espinha Nunca. Quando no futuro se falar na Revoluo de 93,
ho dizer: "O Sobrado agentou um cerco de mais de dez dias e no se
rendeu".  Torbio e Rodrigo crescero ouvindo essa histria aprendendo
com ela a dar valor  casa onde nasceram - a am-la respeit-la e
defend-la; e compreendendo acima  de tudo que existem na vida dum
homem de honra duas coisas sagradas que ele deve fazer respeitar  custa
de todos os sacrifcios: a cara e a casa
  A luz do sol aos poucos vai ficando mais viva e dourada e os campos ao
redor da cidade lentamente emergem da sombra gris ganham tons
esverdeados. A geada brilha  como vidro modo.
  Licurgo passa os dedos entanguidos pelos cabelos. A vonta de fumar
d-lhe uma ardncia na lngua. Torna a pensar em Ismlia e em Alice, mas
entre as duas surge em  seu esprito a figura de Maria Valria. Cadela!
Aquela solteirona seca e antiptica a meter-se onde no  chamada! Torna
a ouvir-lhe a voz: "Ento podem se fazer trs  enterros. O da criana, o
do Tinoco e o da Alice". No Alice no pode morrer, no deve morrer. A
morte da coitadinha de nada servir aos maragatos nem aos republicanos.
Ser, isso sim
  600
  mais uma injustia dolorosa. Mas acontece - reflete Curgo engolindo a
saliva grossa e amarga - que este mundo parece andar mesmo sem governo.
No h bom senso, no  h justia. Pessoas direitas sofrem; canalhas
gozam. Inocentes pagam pelos pecadores. Nem sempre o justo e o bom
triunfam. E nesta revoluo cruel bandidos so glorificados.  Diz o
padre Romano que a verdadeira justia est no Cu e no importa muito o
que acontece neste mundo. Mesmo quem observar a revoluo com cuidado
achar difcil  dizer de que lado est Deus. Duma coisa eu sei - pensa
ele -  que se Deus est do lado dos federalistas o melhor  Ele ir
tratando desde j de imigrar para a Banda  Oriental.
  O sol agora bate em cheio no rosto de Licurgo Cambar, que de novo apoia
os braos no peitoril, descansa sobre eles uma das faces e cerra os
olhos.
  Liroca est de novo no seu posto, no alto da torre. Deitado nas lajes,
ele espia o Sobrado atravs da seteira. Faz alguns minutos que acordou,
encarangado de frio,  trmulo de fome, dodo de vontade de tomar uma
coisa quente, mate ou cachaa. Ao despertar olhou para o Sobrado e viu
um homem  janela da gua-furtada; reconheceu  Licurgo. Teve uma vontade
danada de gritar:  Curgo! Ento como vai a coisa por a?" Mas ficou
calado, porque inimigo  inimigo. Qual! Se fossem inimigos de verdade
sua obrigao era meter uma bala na cabea do outro. Muito fcil:
bastava dormir na pontaria e - pei! - era uma vez um tal de Licurgo
Cambar. Muito bonito. O Rodrigo  e o Torbio ficavam rfos, Dona Alice
enviuvava, Maria Valria perdia o cunhado. E ele, Jos Lrio, ia canegar
pelo resto da vida o peso daquele remorso. Matar  um liomem em combate
era uma coisa; matar de tocaia,  traio, era um crime, um assassinato.
  Liroca suspira. Est tudo agora caminhando para o fim. O coronel
Alvarino j comeou a retirar sua gente da cidade; e corre  boca
pequena que ele est preparando  tudo para emigrar para o outro lado do
rio. O bom mesmo, concluiu Liroca,  eu levantar uma bandeira branca,
correr prs pica-paus e me entregar.
  Passou a noite a ver o movimento dos republicanos no quintal do Sobrado:
iam e vinham do poo para a casa carregando gua.
  601
  A princpio andavam de rastos, depois encurvados, por fim j 
caminhavam naturalmente. Chegaram at a tirar o cala branca de cima do
poo. E ele, Liroca, nem  teve coragem de atirar. Teve isso sim, foi
vontade de gritar:
  "Andem ligeiro! Levem gua pras crianas, pras mulheres! dem lembrana
pra Maria Valria!"
  Se.ela aparecesse agora assim de repente a uma das janela ele no
resistiria  tentao de lhe gritar alguma coisa que lhe desse  a entender
que enquanto Jos Lrio  estiver de vigia na torre da igreja os
republicanos podem ir e vir no quintal sem serem molestados. Mas qual!
Maria Valria no vai aparecer... - Ningum sabe aqui  fora o que est
acontecendo l naquele casaro. Pode ser at que a moa esteja doente ou
ferida... Ningum est livre duma bala perdida. Guerra malvada! Guerra
tirana!
  Liroca acaricia a coronha da Comblain, como se ela fosse ombro da mulher
amada. Encosta depois uma das faces na pedra fria do parapeito e fica
mirando com olho triste  as janelas do Sobrado.
  Maria Valria acha-se ao p da cama de Alice com a mo espalmada sobre a
testa da irm, que tem ainda os olhos cerrados Graas a Deus a testa no
est to quente,  a febre deve ter baixado. Se ao menos agora o stio
terminasse e o dr. Winter pudesse vir com remdios... Ou ento se Curgo
abafasse seu orgulho e pedisse uma trgua...  Ela sabe que  costume fazer
isso at mesmo na guerras grandes entre naes.
  Alice abre os olhos e fica por algum tempo a fitar a irm com uma
expresso estonteada. Depois seus lbios, que a febre crestou se movem,
procurando formar uma palavra.
  - Fica quieta, Alice.
  - Os meninos? - balbucia a doente.
  - Espera...
  Maria Valria sai do quarto e volta aps um breve instant trazendo os
sobrinhos, que ficam parados em silncio junto do leil da me. Primeiro
os olhares de ambos  fixam-se no rosto dela,
  602
  depois descem-lhe pelo seio e demoram-se sobre o ventre. Por fim os dois
meninos se entreolham significativamente.
  - Beijem a me de vocs - ordena a tia.
  Eles se inclinam sobre Alice e beijam-lhe chochamente a testa. Ela
continua com os braos estendidos ao longo do corpo, sob as cobertas, e
seus olhos se enchem de  lgrimas.
  - Agora saiam - diz Maria Valria. - E no faam barulho.
  - Podemos ir l pra baixo? - pergunta Torbio.
  - No. Fiquem no quarto. E no abram a janela.
  - Por qu, madrinha?
  - Porque no.
  As duas crianas lanam mais um olhar para a me e saem do quarto na
ponta dos ps.
  O rosto de Alice est crispado numa expresso de pesar e as lgrimas lhe
escorrem pelas faces afogueadas. Sem dizer palavra, Maria Valria toma
dum leno e comea  a enxugar o rosto da irm com mais eficincia do que
ternura. Podia tentar consol-la com mentiras - reflete. Mas  intil.
Por mais que se esforce no conseguir  pronunciar a menor palavra de
esperana. Porque a realidade  s uma, dura, fria e triste. O Sobrado
continua cercado. A comida se acabou. A criana nasceu morta.  E se o
stio se prolongar, ningum sabe quantas coisas horrveis podem ainda
acontecer.
  Maria Valria cruza os braos, aperta-os contra o estmago, que lhe di
desde a noite anterior. Quantas horas faz que no come? Vinte e quatro?
Trinta? Mas o pior  de tudo  no poder dormir, descansar, esquecer...
  "No agento mais. Acho que vou acabar louca, abrir a porta da rua e
sair correndo e gritando..."
  Tem de sbito a impresso de que uma terceira pessoa acaba de entrar.
Volta a cabea e v a prpria imagem refletida no espelho do lavatrio:
um fantasma de xale  nos ombros.
  Do quarto vizinho vm agora as batidas da cadeira de balano de dona
Bibiana. A velha j comeou a funcionar... - pensa Maria Valria. E
fica a escutar o ban-ban  cadenciado e surdo, que lhe parece uma voz. 
como se Bibiana Terra Cambar estivesse procurando dizer-lhe alguma
coisa. E Maria Valria, sem saber claramente
  603
   como nem por qu, enche-se aos poucos dum nimo novo, ao mesmo
tempo que diz para si mesma: Se ela que tem noventa anos pode agentar
tudo isto, eu tambm  posso. E atira um olhar de desafio para a mulher
cadavrica do fundo do espelho.
  Quando Licurgo desce da gua-furtada para a sala de jantar, encontra
seus companheiros a comerem laranjas com uma voracidade ruidosa de
porcos esfaimados. No  se pode furtar a um sentimento de mal-estar e
impacincia.
  Esquece por um instante que estes homens so seus correligionrios, seus
amigos, que no somente esto participando com ele dos perigos e durezas
desta guerra civil  como tambm esto, defendendo o Sobrado. E nesse
rpido instante de irritado esquecimento sente-se ofendido por ver
aquelas gentes - entre as quais se acham cinco  pees do Angico - usarem
as salas de sua casa descerimoniosamente, cuspindo e escarrando no
cho, encostando! nas paredes as cabeas sebosas, riscando o soalho  com
a roseta de suas esporas, empestando o ar com o cheiro azedo de seus
corpos. sujos. E Licurgo, que acaba de vir l de cima, onde respirou
ar puro, franze  o nariz e tem mpetos de mandar escancarar imediatamente todas as janelas.
  A luz do sol bate em cheio no rosto do velho Fandango, que  dorme
sentado numa cadeira, a cabea cada sobre o peito. Curgo olha-o por
alguns segundos, num vago  temor de que esteja morto. Tem a
impresso de que seu peito no se move. Pousa-lhe amo na testa: fria.
Comea ento a sacudir o velho pelos ombros. Fandango  abre os olhos e
pe-se de p como um autmato:
  - Que foi? Que foi? - pergunta ele, atarantado.
  - Nada - responde Curgo - nada.  que te vi meio parado e fiquei
pensando...
  O outro esfrega os olhos, boceja e estende os braos, espreguiando-se.
  - Pensou que o velho tivesse morrido?
  - Pensei.
  - Ch gua! J te disse miles e miles de vezes que o Fandango pode
morrer um dia, mas no sentado. H de ser em cima do lombo dum cavalo ou
ento de p, danando.
  604
  E esfregando as ndegas com as palmas das mos, ele sai no seu tranco de
cavalo marchador na direo da cozinha, a gritar:
  - Que  que tem pra se comer, Laurinda?
  Neste mesmo instante Florncio Terra sai da despensa, aproxima-se
rengueando do genro e diz-lhe em voz baixa:
  - O Tinoco morreu. Curgo franze a testa.
  - Quando?
  O sogro encolhe os ombros.
  - No sei. Decerto esta noite...
  Licurgo fica a olhar para Florncio, perdido. Tinoco lhe havia sado por
completo do pensamento. As outras preocupaes eram tantas e to fortes,
que ele nem sequer  se lembrava do pobre-diabo que agonizava na
despensa. Seja como for, sente-se agora aliviado. Morto Tinoco, ele fica
livre da responsabilidade de fazer alguma coisa  por ele: cortar-lhe a
perna ou meter-lhe uma bala na cabea para abreviar-lhe o sofrimento.
  Florncio resmunga:
  - Morreu como um cachorro sem dono, abandonado, sem um cristo que
botasse uma vela na mo dele. Todo o mundo se esqueceu do coitado...
  Curgo toma essas palavras como uma censura e fica logo espinhado.
  - Que era que o senhor queria que eu fizesse? Que ficasse l dia e noite
lambendo o ferimento dele?
  Florncio no responde. Fica cofiando os bigodes com seus dedos magros e
amarelos, os olhos baixos. E como o genro nada mais lhe diz e continua
a mir-lo com olhos  agressivos, ele torna a falar:
  -  preciso enterrar ele o quanto antes. J estava meio p...
  - Chega! - vocifera Curgo. - Eu sei.
  O velho faz meia-volta e encaminha-se para a escada. Erguendo a voz,
Licurgo anuncia:
  - O Tinoco morreu.
  605
  Os homens nada dizem. Agachado a um canto, Antero comea a fungar ao
passo que as lgrimas lhe vo brotando nos olhos. Um dos companheiros
lana-lhe um olhar enviesado  e estranha:
  - U? Que  isso?
  Cuspi na cara dele - pensa Antero. - Fui um prevalecido. A bem dizer
cuspi na cara dum defunto.
  - Precisamos enterrar o corpo duma vez - diz Curgo. Jango Veiga, que
est  porta da cozinha, pergunta:
  - Onde?
  - No quintal, perto da parede da casa. Acho que no h perigo. No tem
ningum na torre.
  - Por que no no poro? - sugere o outro.
  - No! - apressa-se a responder Curgo, quase ofendido. A simples
sugesto de enterrar Tinoco no mesmo cho onde est sua filha, lhe  to
repugnante que ele a repele  como uma ofensa pessoal.
  - Se esto com medo de sair pr quintal, deixem que eu mesmo fao o
servio sozinho.
  Jango Veiga cerra os dentes e diz com voz apertada:
  - Ningum est com medo de coisa nenhuma, seu! Se quiser podemos ir
enterrar o Tinoco at l na frente da Intendncia. Quer?
  Por um instante os dois homens se miram com rancor. Curgo sente gana de
esbofetear Jango Veiga, mas contm-se e com voz alterada diz:
  - Enterrem onde quiserem, menos no poro. Jango Veiga volta-se para os
companheiros e grita:
  - Vamos buscar o Tinoco! Podemos enterrar ele debaixo da escada da
cozinha.
  Ao anoitecer rompe inesperadamente um tiroteio. Os homens correm para
seus postos de Comblain em punho. Curgo, que estava deitado a dormir um
sono leve, de superfcie,  desperta sobressaltado, salta da cama, apanha
a espingarda e desce as escadas a correr.
  - No atirem sem primeiro ver o inimigo! - grita. - No desperdicem
munio.
  606
  Algumas vidraas das janelas que do para o norte se partem. Uma bala
entra por uma das bandeirolas e vai cravar-se no teto.
  - Acho que esto atirando da casa do Naziazeno. Esse tiro veio de baixo
- grita Joo Batista, olhando para o teto.
  O tiroteio dura menos dum minuto. Cessa de repente. Curgo sobe para a
gua-furtada.
  - Que foi que houve, Damio?
  O caboclo est ajoelhado junto da janela semi-aberta, com a espingarda
apoiada no peitoril.
  - Ainda no sei - diz ele, sem erguer a cabea. Curgo ajoelha-se junto
dele.
  - Donde vieram os tiros?
  - L do outro lado da praa. Ouvi um barulho de cascos. Acho que
atiraram de cima de cavalos a galope.
  - Deve ser algum grupo que est se retirando.
  - Pode que sim, pode que no. Curgo olha a praa deserta.
  - Tem algum na torre? - pergunta.
  - No vi ningum.
  - Fique de olho na estrada. Acho que no demora muito as tropas
republicanas aparecem.
  Licurgo ergue-se e desce para o primeiro andar, sentindo que o corao
lhe bate acelerado, que a ao lhe fez bem, deu-lhe um calor bom ao
corpo. Ah!  mil vezes  mais fcil suportar o stio lutando!
  Sentado numa cadeira, de faca em punho, para se distrair Florncio tira
lascas duma vara de marmeleiro, e as esqurolas se vo acumulando a seus
ps. Curgo olha  para o sogro com m vontade, e seu sentimento de culpa,
longe de torn-lo humilde e conciliador, predispe-no  agressividade.
Ele sabe exatamente o que Florncio  est pensando, conhece as queixas
que ele recalca no peito. Seria melhor que o velho falasse claro e alto,
pois assim ele teria tambm a oportunidade de desabafar,  de dizer-lhe
um bom par de verdades. Sim, ele respeita o sogro.  seu parente de
sangue, primo-irmo de seu pai. Um homem de bem, no h dvida alguma,
mas no um  homem de ao ou princpios polticos. No
  607
  fundo ainda suspira pela monarquia, e foi s forado pelas
circunstncias que tomou partido nesta revoluo... Curgo tem o olhar
fito em Florncio, espera que ele  erga a cabea para provoc-lo a uma
discusso. O velho, porm, continua entretido a tirar lascas da vara,
como se disso dependesse a sorte do Sobrado.
  Antero est acocorado a um canto da sala, o busto encurvado, a cabea
metida entre os joelhos. Os outros homens comeam a reunir-se ao redor
do fogo, pois com o  cair da noite o frio aumentou. Sobre suas cabeas
soa a cadenciada e mansa trovoada produzida pela cadeira de balano de
Bibiana.
  Aos ouvidos de Curgo chega a voz alegre de Fandango, que conversa ao p
do fogo:
  - Aquilo  que foi guerra braba.
  608
  A guerra
  Naquele dezembro - o sexto dezembro da guerra - j no havia em Santa F
famlia que no chorasse um morto. Desde o incio da campanha a vila
fornecera ao exrcito  nacional seis corpos de voluntrios. Os que no
morriam ou desertavam, voltavam feridos ou mutilados, e em seus rostos
os outros podiam ler todo o horror da guerra.  As mulheres j no
tiravam mais o luto do corpo: viviam a rezar, a fazer promessas e a
acender velas em seus oratrios.
  Durante aqueles cinco anos de campanha, Santa F no apenas estacionara:
mostrava mesmo sinais de decadncia. As obras da igreja nova, iniciadas
em 1863, foram interrompidas  por falta de dinheiro e de braos. Os
homens vlidos da vila estavam em terras do Paraguai - em cima dela
lutando ou debaixo dela apodrecendo. Os campos do municpio  achavam-se
quase despovoados: o governo fizera pesadas requisies de cavalos e
reses; e os pees em idade militar haviam-se apresentado como
voluntrios. As lojas  viviam s moscas; fazia-se pouco negcio. O
correio chegava com irregularidade, quando chegava. As residncias
conservavam suas janelas quase sempre fechadas, e  as que ficavam
desabitadas dentro em pouco se transformavam em runas. Durante aqueles
anos poucas vezes se ouviu som de gaita ou canto em Santa F; nem houve
ali  fandango, quermesse, cavalhadas ou outra festa qualquer. Ningum
tinha vontade de se divertir nem nimo para cantar, danar ou brincar,
sabendo que parentes e amigos  estavam na guerra. E por mais que se
dissesse que Solano Lpez estava perdido, nenhuma esperana havia de paz
prxima.
  609
  No entanto, numa manh de princpios de 1869 o sino da igreja repicara,
festivo, para anunciar que a paz fora finalmente assinada. Um estafeta,
vindo de Rio Pardo  com a mala postal, fora o portador da grande
notcia. Houve risadas, choros de contentamento, gritos e vivas. Os
santa-fezenses saam para a rua e abraavam-se;  velhos inimigos,
estonteados de alegria, reconciliavam-se. Janelas abriam-se e as
mulheres preparavam-se para pagar as promessas feitas aos santos de sua
devoo.
  No dia seguinte a Cmara Municipal mandou rezar uma missa em ao de
graas pela terminao da guerra. A igreja ficou regurgitante de gente;
homens, mulheres e crianas  amontoavam-se l dentro, sentados nos
bancos ou de p nos corredores; havia at pessoas escarranchadas nas
janelas.  frente do templo uma multido enchia a rua  e ia at quase o
meio da praa. Gente que em toda a sua vida nunca tinha ido  missa,
naquele dia se encontrava na igreja. Na hora do sermo o padre Otero
estava  de tal forma comovido, que quase no pde falar. "Meus
irmos..." - balbuciou. "A guerra terminou. Deus, na sua infinita
bondade e sabedoria..." Ento ouviu-se um  zunzum de vozes abafadas 
porta da igreja. O padre calou-se. O murmrio continuou, cada vez mais
forte. Algum fez - cht! "Deus na sua infinita bondade e sabedoria..."
- repetiu o vigrio, olhando alarmado a entrada do templo onde cabeas
se agitavam e o vozerio se fazia cada vez mais alto. O sacerdote tornou
a calar-se. Do meio  da multido, l fora, veio uma voz de homem:
"Chegou um ofcio pra Cmara. Foi tudo boato. A guerra ainda continua!"
Estas ltimas palavras foram berradas com raiva,  num espcie de repto
ao Deus sbio e misericordioso de que o vigrio acabava de falar. Houve
uma pausa atnita, como se a respirao de toda aquela gente ficasse
subitamente cortada. Mas em seguida romperam gritos e choros, e os fiis
precipitaram-se para fora, numa pressa aflita, quase em pnico, como se
algum tivesse gritado  - "Incndio!" O padre desceu do plpito e
encaminhou-se para o meio da rua, onde os membros da Cmara Municipal
estavam reunidos. Havia realmente chegado um ofcio  do governo da
provncia prevenindo contra as falsas notcias da terminao da guerra e
pedindo mais cem voluntrios, cem cavalos e duzentas reses.
  610
  Foi como se uma sombra casse sobre a vila. As mulheres passaram a olhar
com pena e temor para os filhos adolescentes. "Se a guerra dura mais uns
anos, eles ficam  homens e tm de marchar pr Paraguai." E de novo se
puseram a rezar, e dia e noite ardiam velas no altar de Nossa Senhora da
Conceio e em todos os oratrios de  Santa F. E o primeiro inverno
depois daquela falsa notcia pareceu-lhes mais frio, mais escuro, mais
duro de suportar que todos os outros. Quando soprava o minuano  ou
chovia, elas pensavam nos seus homens que estavam longe, lutando. E
quando ao despertar pela manh viam a geada nos telhados, lembravam-se
num arrepio dos soldados  que tinham passado a noite ao relento, e
choravam.
  Velhos quietos pitavam sentados  tardinha na frente de suas casas,
pensando nas guerras em que haviam tomado parte, e nos tempos d'antanho,
quando tinham a fora  da mocidade e andavam a fazer tropas ou a
camperear. Agora no prestavam mais para as lidas do campo nem para as
da guerra, e ali estavam parados, inteis, fracos  como mulheres.
Olhavam melancolicamente as outras pessoas, meio envergonhados, como a
pedir desculpas por terem envelhecido. E ningum ficava sabendo se
tinham os  olhos lacrimejantes de velhice ou de tristeza.
  Foi naquele quente e abafado dezembro de 1869 que chegaram de volta a
Santa F alguns voluntrios que a guerra deixara invlidos. Entre eles
estava Florncio Terra,  que recebera um balao no joelho. Desceu da
carroa apoiado em muletas. Estava to barbudo, to magro e sujo, que a
prpria mulher no o reconheceu no primeiro momento.  Ficaram os dois
frente a frente, parados, mudos, a olhar estupidamente um para o outro.
De repente ela se atirou nos braos de seu homem e desatou o choro.
Florncio  abraou-a, um pouco desajeitado por v-la fazer aquela cena
no meio de tanta gente. Ao redor deles havia uma grande balbrdia,
mistura de risadas, de choro e tambm  de silncios: o silncio pesado
das mulheres e dos velhos cujos parentes tinham morrido, e que ali
estavam para ver a felicidade dos outros.
  Ondina soluava, com a cabea encostada ao peito do marido.
  611
  - No chore - disse ele, acariciando de leve os cabelos da mulher. - No
 nada. Voltei vivo.
  Ela queria dizer alguma coisa mas no podia.
  - Como vo as crianas? Por que  que no vieram? Finalmente Ondina
conseguiu falar. Contou que os filhos o
  esperavam em casa, e que estavam todos bem.
  Fazia quatro anos que no via Florncio. Um dia, no inverno de 66,
correra por Santa F a notcia de que ele tinha morrido. Ela, porm,
tivera o pressentimento de  que aquilo no era verdade, e nunca deixara
de esperar a volta do marido.
  Caminharam para casa, parando aqui e ali quando conhecidos vinham
cumprimentar Florncio. Queriam saber onde e como tinha sido ferido; se
a coisa era grave; como  ia a guerra; quando vinha a paz; se era verdade
que Solano Lpez estava morto... Florncio respondia na sua maneira
lacnica, constrangido por estar sendo alvo de  tantas atenes.
Caminhava apoiado nas muletas, com a perna esquerda dobrada e rgida, o
p no ar. O ferimento lhe ardia: o corpo todo lhe doa e ele tinha uma
desagradvel  sensao de febre. A viagem at ali fora to dura como a
prpria guerra. Eram quinze homens imundos e doentes amontoados numa
carroa. Um morrera no caminho, outro  estava agonizando. Tinham tomado
chuva e passado fome na estrada.
  Ondina no dizia palavra. Chorava mansamente, sem rudo e j nem mais se
dava o trabalho de enxugar as lgrimas. Florncio, que tanta saudade
sentira de sua terra  naqueles anos de ausncia, agora nem sequer olhava
para as casas. Era como se temesse encar-las, como se elas fossem
pessoas e lhe pudessem fazer alguma pergunta  embaraosa. Quando chegou
 praa, fez alto e olhou primeiro para a figueira e depois para o
Sobrado. L estava o casaro com sua fachada caiada a reverberar a luz
da tarde. Florncio sentiu um aperto no corao. Lembrou-se de Bolvar,
de Bibiana, de Luzia e todo o passado pareceu cair sobre ele como cinza
fria. Uma pergunta  se lhe formou no esprito: chegou a descerrar os
lbios para a formular, mas conteve-se em tempo. Era melhor no remexer
naquelas coisas... Continuou a andar.
  612
  Os filhos o esperavam  frente da casa. Juvenal, Maria Valria e
Alice... Florncio parou a alguns passos deles sem saber que fazer nem
dizer. Estava contrafeito,  como se defrontasse estranhos. Olhava as
trs caras morenas e tristes que o miravam com expresso bisonha. Teve
mpetos de apert-los todos num longo abrao, de  beijar-lhes os rostos
muitas, muitas vezes. Mal, porm, nasceu esse desejo, uma vergonha
antecipada desse gesto o congelou. Continuou parado, olhando... Mas
precisava  dizer alguma coisa. Ia perguntar: "Se portaram direito quando
o papai no estava em casa?" - quando Ondina falou:
  - Peam a bno.
  Primeiro veio Juvenal. Tinha quase catorze anos e um ar oblquo de
bugre. Beijou a mo do pai e ergueu para ele os olhos muito pretos e
lustrosos. Florncio pousou  a mo na cabea do filho e disse:
  - Deus te abenoe e guarde, Juvenal.
  Depois veio Maria Valria, que ele achou magra e alta demais para seus
nove anos.
  - A bno.
  Florncio sentiu na mo os lbios midos e frescos da menina.
  - Deus te crie pr bem, minha filha.
  Quando chegou a vez de Alice, a criana rompeu a chorar, agarrou-se 
saia da me, gritando:
  - Esse homem no  meu pai! No  meu pai! No  meu pai!
  Desconcertado, Florncio lanou um olhar pattico para Ondina e entrou
em casa de cabea baixa, arrastando as muletas no cho.
  Na manh seguinte foi com a mulher ao cemitrio levar flores aos tmulos
dos pais, que haviam morrido ambos de bexigas pretas POUCO antes de ele
partir para a guerra.  Ficaram longo tempo em silncio a olhar para as
duas sepulturas rasas. O cemitrio estava
  613
  completamente abandonado. Ervas cresciam por entre os tmulc os muros de
pedra caam aos pedaos e joes-de-barro tinham feic seus ninhos no
telhado do jazigo da  famlia Amaral.
  Eram dez horas e o sol brilhava num cu limpo. Florncio olhava para as
duas cruzes e pensava nos pais. Mas era a imagem do velho Juvenal que
ele guardava na memria  com mais nitidez Sua me j era to apagada
mesmo em vida, a coitada! Na cepultura estava escrito: "Juvenal Terra,
1803-1864. Paz  Sua Alma." Sim - refletia Florncio -  paz era o que o
Velho sempre desejara. Era um homem direito que gostava de viver em paz
com as outras criaturas e com sua conscincia. Nunca tinha feito mal a
ningum  era trabalhador, cumpria suas obrigaes, no era homem de violncias, mas quando era necessrio brigar, brigava mesmo. Deus tinha
feito bem em levar o casal na  mesma semana. Agora ali estavam os dois,
lado a lado, descansando na terra onde tinham na cido, na terra que
haviam cultivado e amado. E Florncio pensou um dia hei  de vir
descansar aqui. E a Ondina tambm. E mais tarde at as crianas. E os
filhos dos meus filhos...
  Uma grande pergunta de repente cresceu dentro dele. Pra qu? Para que
tudo isso? Para que tanta trabalheira, tanta doena tanta desgraa,
tantas andanas, tanta aflio?  Para qu, se um dia a gente vem parar mesmo
numa cova de sete palmos onde fica servindo de comida aos bichos da
terra?
  Apoiado nas muletas, Florncio olhava fixamente para a sepultura do pai e
lembrava-se agora daqueles dias horrveis  de 64, quando a bexiga
grassava em Santa F.  O primeiro caso tinha aparecido num rancho no fim
da Rua da Independncia, depois se alastrara por toda a vila. Sua me
fora das primeiras a serem atacadas: ficara  com a garganta cheia de
pstulas e s podia se alimentar de leite, s colherinhas. O rosto da
coitada tinha ficad completamente preto e as solas de seus ps comearam
a cair assim como casca de marmelo cozido. O dr. Viegas mandava conservar
os doentes num quarto escuro completamente fechado. O velho Juvenal foi
atacado em seguida  e morreu sufocado em menos de vinte e quatro horas.
Como tinha sido duro e cruel aquele fim de ano!  quando a cidade comeava
a convalescer da peste, chegou
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  a notcia de que havia arrebentado a guerra. E algumas pessoas emendaram
o luto pelos parentes mortos de peste com o luto pelos parentes mortos
na guerra. A casa  dele, Florncio, havia sido milagrosamente poupada
pela doena. E no dia em que partiu para o Paraguai ele disse  mulher:
  - Deus no me matou de bexiga decerto pra me matar na guerra. Ningum
foge  sua sina.
  Mas Deus tambm no consentira que ele morresse na guerra. E agora ali
estava ele, decerto aleijado para todo o resto da vida.
  Procurava interessar-se de novo pelas pessoas e pelas coisas, mas no
conseguia. Queria pensar em plantar, em criar gado, em recomear a vida
de qualquer modo, mas  no sentia a menor vontade de trabalhar, s
queria ficar parado, calado, pensando, lembrando-se das coisas do
passado, e concluindo sempre que nada, nada mais valia  a pena. Nem
mesmo quando olhava para a mulher e para os filhos que agora estavam l
em casa quase nus, comendo pouco e mal, nem quando pensava no futuro da
famlia  sentia nimo para lutar. Tinha passado o diabo naquela guerra,
onde no s se morria varado de bala, de baioneta ou lana, mas tambm
de tifo e de cmara de sangue.  Tinha visto coisas de arrepiar. E a
idia de que com suas prprias mos matara outros homens - pessoas que
ele nem conhecia e que antes no lhe tinham feito nenhum  mal -
deixava-o perturbado, com a sensao de ter cometido vrios crimes.
Trazia ainda nas ventas o cheiro da guerra: suor de homem e de cavalo
misturado com cheiro  de pus, de podrido e morte. No se livrara ainda
das muquiranas que trouxera das trincheiras e dos acampamentos. Muitas
vezes, naquelas terras estrangeiras, quando  conseguia repousar por
algumas horas entre um combate e outro, ficava deitado de costas no
cho, olhando para o cu, pensando em Santa F, na sua casa, na sua
gente,  nas campinas ao redor da vila, imaginando como seria bom voltar,
dormir de novo numa cama limpa, comer um bom churrasco numa mesa
decente, tomar um banho no lajeado  do Bugre Morto, conversar com os
parentes e os amigos. Que era que ele estava fazendo ali no meio daquela
soldadesca, com a carabina ao lado, esperando e temendo  que o clarim de
repente rompesse num toque a rebate? Nessas horas
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  lhe vinha um desejo enorme de desertar. Mas em seguida envergonhava-se s de pensar naquilo. S um covarde seria capaz de fazer uma coisa
daquelas, uma traio to  grande aos companheiros. Pensando melhor,
acabava achando que era preciso mais coragem para desertar do que para
continuar pelejando. Finalmente dormia, por  que o cansao era grande. E
muitas vezes em sonhos se via a se mesmo voltando para Santa F,
conversando com Bolvar debaixo da figueira ou ento caminhando como
uma alma penada pelos corredores infindveis dum casaro.
  Desde sua chegada Florncio ainda no falara no Sobrado. Era um assunto
que sempre evitava. Desde o dia da morte de Blolva ele nunca mais pusera
os ps naquela  casa. Havia, porm, uma coisa que ele ardia por perguntar
 mulher. Ondina ali estava a seu lado calada, arrumando as flores sobre
as duas sepulturas.
  Deixando o olhar fugir por cima do muro de pedra na direo do horizonte,
Florncio perguntou:
  - Vossunc entrou alguma vez no Sobrado quando eu estava na guerra?
  Ondina continuou muda a mexer nas flores.
  - No ouviu o que lhe perguntei?
  - Ouvi - respondeu ela, levantando-se, limpando as mos no vestido mas
evitando encarar o marido.
  - Esteve ou no?
  - Estive.
  - Mas no devia.
  - Ora, Florncio, tia Bibiana vivia me chamando.
  - Mas no devia.
  - Ela mandou me chamar tantas vezes que no fim eu j no tinha mais
desculpas pra dar.
  - No  por causa da tia Bibiana.  por causa da outra.
  - A outra nem vi. Sempre que eu ia l, estava fechada no quarto.
  - Foi melhor assim. 
  Ondina apanhou do cho um toco de vela e comeou a limp-lo
distraidamente na ponta da saia, ao mesmo tempo que perguntava:
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  - E vossunc? No vai visitar tia Bibiana?
  - Ela sabe que no boto os ps naquela casa. Ondina olhou para o marido
e disse:
  - Vossunc est ficando cada vez mais parecido com o seu
  pai.
  - Com quem mais eu havia de estar parecido? Quem me
  dera que eu fosse como ele. Meu pai era um homem de bem.
  Por um rpido momento Florncio teve a impresso de que Juvenal Terra o
estava escutando, e isso o deixou um pouco desconcertado, pois ele sabia
que, se havia coisa  que o Velho detestasse, era que lhe fizessem
elogios assim  queima-roupa.
  Saiu a visitar outras sepulturas, e ao ver a prpria sombra no cho - um
homem de muletas com a perna dura e o p no ar - comeou a pensar em que
talvez no futuro  ele viesse a ser conhecido na vila como o "Florncio
Pep". At ouvia cochichos: "L vai o Florncio Pep. Foi na Guerra do
Paraguai, coitado! Uma bala no nervo".  Lembrava-se dum tipo de sua
infncia, o Joca Madureira, que tinha uma perna mais curta que a outra.
Muitas vezes ele e Bolvar, trepados na figueira e escondidos  entre
seus ramos, viam o homem atravessar a praa cochiando  e gritavam: "Joca
Pep!" Joca voltava-se para todos os lados, no enxergava ningum mas
gritava, cuspindo-se  de raiva: "Pep  a me".
  Florncio parou diante da sepultura de Bolvar Cambar. Era toda de
alvenaria e tinha em vez de cruz uma esttua de mrmore, uma mulher de
asas - um anjo - tocando  lira. Florncio sempre achara aquilo uma
ostentao de que Boli no havia de gostar. Alm disso, aquela esttua
parecia Luzia... Era por isso que agora Florncio  fazia o possvel para
no olhar para o anjo: lia apenas a inscrio na lpide de granito. Mas
a inscrio tambm lhe dava um certo mal-estar, porque era um epitfio
em verso, feito por ela. Com todas aquelas coisas em cima, o pobre do
Bolvar estava mais morto do que se repousasse numa sepultura rasa.
  Florncio comeou a lembrar-se de outros tempos. Viu crianas brincando
debaixo da figueira grande, seus ps de menino esmagavam figos verdes no
cho, a fumaa cheirosa  duma fogueira de ramos secos subia para o cu.
Viu tambm o lajeado, ouviu o
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  rumor da gua, sentiu cheiro de sabo preto e de mato. Bolvar nadava em
largas braadas, fazendo muito barulho. "Vamos jogar uma carreira! " -
gritou. - "Bamo!"  E perto dele, num contraste,  surgiu o corpo negro
e lustroso do Severino...
  Florncio teve a sensao de que todos os amigos que possua no mundo
estavam mortos. Pior que isso: tinham-se matado uns aos outros. Meu
lugar tambm  aqui no  cemitrio - pensou. Eu  tambm estou morto.
Teve vontade de dizer  companheira: "V pra casa, Ondina. Eu fico,
porque o meu lugar  aqui". Mal, porm, pensou essas  palavras, a imagem
do pai se lhe desenhou no esprito e ele lhe ouviu a voz descansada e
grave: Quando a seca  grande no h nada como tocar fogo no pasto ruim
pra que venha o bom. Era assim que Juvenal Terra costumava falar quando
lhe acontecia alguma desgraa. Ele no desanimava nunca, estava sempre
pronto  a recomear.
  Florncio suspirou, olhou para a mulher e convidou:
  - Vamos pra casa?
  No dia seguinte, por volta das trs da tarde, Florncio foi visitar o
dr. Cari Winter, que agora morava numa meia-gua na Rua dos Farrapos, na
quadra que dava para a Praa da Matriz. Fazia muito calor e o mdico,
que havia pouco despertara da sesta, recebeu-o completamente nu, e s
depois de cumprimentar o visi- ;| tante  que se lembrou de amarrar na
cintura uma toalha de algodo. Florncio estranhou que o alemo no lhe
fizesse as perguntas habituais sobre a guerra. Notou tambm que o dr.
Winter envelhecia e que j havia fios brancos em suas barbas e cabelos
ruivos.
  - Sente-se, sente-se - disse o mdico, mostrando uma cadeira. - Toma um
mate?
  - Aceito.
  - Heinrich Heine!
  Do fundo da casa surgiu um negrinho de canela fina, cabeorra oval e
grandes olhos de jabuticaba.
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  - Senhor!
  - V fazer um mate. Schnell!
  - J vou
  O moleque fez meia-volta e tornou a desaparecer. Florncio estava
admirado.
  - Ele fala mesmo alemo? - perguntou.
  - No. S sabe dizer sim senhor.
  - E como  mesmo o nome dele?
  - Foi batizado como Sebastio. Mas eu o chamo Heinrich Heine.
  Florncio olhou para o mdico sem compreender. Tinha a vaga suspeita de
que o homem no estava muito bom do juzo.
  Winter acendeu um cigarro de palha, lanou um olhar enviesado para
Florncio e explicou:
  - Heine  o nome dum grande poeta alemo. - Apontou para um volume
encadernado em couro que estava em cima da mesa. - Foi o homem que
escreveu aquele livro. Se eu  tivesse um filho, poria nele o nome de
Heinrich Heine em homenagem a um dos meus poetas favoritos. Como no
tenho, dou esse nome a meu escravo.
  Meio confuso, sem saber que dizer, Florncio remexeu-se na cadeira e
observou:
  - Pelo que vejo, o doutor at agora no quis saber de casamento...
  Winter comeou a coar a coxa peluda.
  - D muito trabalho, Florncio, d muito trabalho.
  - . H pessoas que so contra.
  O dono da casa sentou-se, de pernas muito abertas, os braos cruzados
sobre o trax onde se via o relevo das costelas. Ficou fumando em
silncio e a perguntar a  si mesmo se a visita de Florncio era de
carter social ou profissional.
  - Que fim levou a Gregria? Winter fez um gesto vago.
  - Entrou na fresca noite...
  - Como?
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  - Kaputt. Morreu. - E para si mesmo recitou baixinho: "Der Tod, das ist
die kuhle Nacht".
  - Que foi que o senhor disse?
  - Nada. Estava recitando um verso de Heine sobre a morte.
  - Ah...
  Florncio achava um pouco difcil entrar no assunto que o levara  casa
do mdico. Sempre lhe fora desagradvel pedir e muito mais desagradvel
ainda colocar-se  numa situao de inferioridade perante outro homem.
No era orgulho; era... nem mesmo ele sabia o qu.
  Puxou um pigarro, agarrou as muletas que tinha posto horizontalmente
sobre as coxas, e comeou:
  - Doutor, eu vim pra vosmec dar uma olhada na minha perna.
  - Que  que h com a sua perna? - perguntou Winter sem olhar para o
outro.
  - Como vosmec sabe, fui ferido num combate, e fiquei com a perna
encolhida e dura.
  - E que  que quer que eu faa?
  Florncio ficou chocado com estas palavras, o sangue lhe subiu ao rosto,
as orelhas lhe arderam; e por um instante, perturbado, no achou as
palavras de que precisava.  Por fim, tartamudeou:
  - Bom. Queria que vosmec me examinasse... pois . Pra me dizer se h
esperanas....
  Winter levantou-se e caminhou para o outro.
  - Deixe ver.
  Florncio arregaou as calas at acima do joelho, que estava envolto em
ataduras. Winter acocorou-se ao lado dele e comeou  a desfazer as
ataduras. Ficou longo  tempo olhando o ferimento, apalpando a perna, e
fazendo perguntas ao paciente. Depois ergueu-se, foi at a gamela e
comeou a esfregar as mos com sabo  de  pedra, sem dizer palavra.
Florncio esperava.
  - Ento, doutor?
  Winter meteu os dedos pelas barbas e coou o queixo.
  - No precisa mais usar esses panos. A ferida est cicatrizada.
Florncio olhava o outro bem nos olhos.
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  - Ser que vou ficar com a perna dura pr resto da vida, doutor?
  Winter continuava a coar o queixo sem dizer palavra, lanando olhares
enviesados para a perna do outro.
  - Talvez no fique bem como antes - disse, ao cabo de alguma reflexo. -
Mas com um pouco de exerccio sua perna vai ficar quase boa.  preciso
fazer umas massagens.  Vou ensinar a dona Ondina como se faz.
  O moleque entrou com a cuia e a chaleira d'gua quente, entregou-as ao
amo e retirou-se sem fazer o menor rudo.
  Winter encheu a cuia d'gua e deu-a a Florncio, que comeou a chupar
nas bomba melancolicamente. Estaria o doutor dizendo aquelas coisas s
para o animar? Ou poderia  ele mesmo um dia caminhar sem muletas?
  - Experimente andar sem muletas, s com um basto. Faa fora para
endireitar a perna, mesmo que doa. E procure caminhar, caminhar
bastante.
  Winter comeou a andar dum lado para outro, e quando Florncio lhe viu
as ndegas muito brancas, recobertas dum plo fulvo, ficou tomado dum
certo constrangimento  e temeu - ele mesmo no sabia ao certo por qu -
que algum entrasse naquele momento e os visse em to grotesca situao.
  Passou a cuia para o outro. Winter comeou a tomar o seu mate. Estava
agora dominado pelo hbito do chimarro, que sempre achara uma grande  porcaria.
  Florncio ardia por saber como iam as coisas no Sobrado, mas no queria
principiar o assunto. Como se estivesse a ler-lhe os pensamentos, o
outro perguntou:
  - J viu dona Bibiana?
  - No. Vosmec sabe que no entro naquela casa.
  - Sei. Mas vai continuar sempre assim?
  - No h nenhuma razo pr'eu mudar.
  - H muitas. Uma delas  que o menino precisa de sua amizade.
  - Mas no acha que o que aconteceu  bastante pr'eu nunca mais botar os
p no Sobrado?
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  Winter deu um tapa no vcuo.
  - Ach! Isso aconteceu h muito tempo.
  - Foi ontem, doutor.
  - Pois acho que vosmec devia quebrar seu orgulho...
  - No  orgulho.
  - Que  ento? Teimosia?
  -  vergonha.
  - Vergonha de qu? Vosmec no vai pedir nada Vosmec no tem do que se
envergonhar.
  - Aquela mulher... - principiou Florncio, mas no pde continuar. O que
ele na verdade sentia no podia dizer a ningum. Winter terminou a frase
duma maneira para  o outro inesperada e chocante.
  - Aquela mulher no tem vida pra muito tempo!
  - Como assim?
  - Um tumor maligno no estmago! - exclamou o mdico, quase com raiva. s
vezes perdia a pacincia com aquela comdia provinciana que de quando em
quando queria tomar  o carter de tragdia. No era tambm muito
tolerante para com suas rudes personagens, que no podiam compreender
certas sutilezas da vida. E desforrava-se delas  falando-lhes com uma
franqueza que s vezes chegava a ser brutal.
  Florncio ficou silencioso por um instante. E depois:
  - Ela sabe? - perguntou.
  - Sabe.
  - Vosmec falou franco? Disse que ela tinha vida pra pouco tempo?
  - Disse. Uma mulher como Luzia tem mais coragem que muito homem que
conheo.
  - E isso no tem cura?
  - No.
  - Nem em Porto Alegre? Nem na Corte?
  - No.
  - Tia Bibiana tambm sabe de tudo.
  - Sabe.
  - Que  que ela diz?
  Winter encolheu os ombros angulosos.
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  - Nada. Que  que podia dizer?
  Florncio brincou um instante com as muletas, pigarreou, meio
embaraado, e depois perguntou:
  - Como  que elas vivem naquela casa, doutor?
  - Odiando-se.
  - Mas como  que duas pessoas que se odeiam assim podem viver debaixo do
mesmo teto?
  - Esto jogando uma carreira.
  - Como?
  - Sim, uma carreira. No em cancha reta, mas numa cancha cheia de
curvas. A raia da chegada  a morte. S que nessa carreira quem chegar
primeiro perde...
  - Perde?
  - O Sobrado e o menino.
  Florncio olhou para o mdico com olhos vazios.
  - Vosmec me desculpe, mas no compreendo.
  - O que mantm aquelas duas mulheres juntas na mesma casa  a esperana
que uma tem de que a outra morra primeiro.
  - No acredito, doutor, vosmec me desculpe, mas no acredito.
  - Por qu?
  - Tia Bibiana no  capaz duma coisa dessas. Winter soltou uma risada
seca e falsa.
  - Sua tia  capaz de muito mais coisa do que vosmec imagina. Ela odeia
a nora com a mesma fora com que amava o filho.
  - E a nora odeia ela! - retrucou Florncio, como se estivesse num duelo
de sabre e revidasse um golpe do adversrio com outro golpe imediato e
igualmente vigoroso.
  - Exatamente!
  - Mas eu no compreendo ento por que ela continua no Sobrado.
  - Muito simples. Se ela deixa o Sobrado, perde o neto. Pense bem,
Florncio. Se Luzia morrer, o problema se resolve. Dona Bibiana fica com
o menino e com o Sobrado  e pode assim governar os dois como bem
entender.
  Florncio sacudia a cabea com obstinao.
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  - Vosmec est enganado. Tia Bibiana  uma mulher de  bom corao.
  - Dona Bibiana  uma mulher prtica. Aguinaldo Silva tomou a terra do
pai dela por meio duma hipoteca. Ela recuperou a  terra por meio dum
casamento.
  De novo Florncio sentiu formigueiro no corpo, um mpeto  de erguer-se
e comear a gritar desaforos. Mas conteve-se. Aquele homem branco,
magro, estrangeiro e nu  desconcertava-o um pouco. Se um compatriota seu
lhe tivesse dito aquelas mesmas palavras,  ele j estaria de faca
desembainhada, pronto para brigar. Mas o diabo  do doutor tinha um jeito
de dizer as coisas... Limitou-se a retrucar:  - Vosmec est s imaginando...
  - A coisa  to clara que s no v quem no quer.
  - No acredito.
  - Vosmec no quer acreditar. Porque tem medo. E sabe por qu? -
Aproximou-se tanto de Florncio que este sentiu no rosto
  o hlito morno do mdico e o seu cheiro de desinfetante. -  porque,
se acreditar nas coisas que estou lhe dizendo, vosmec acabar se
desiludindo de todo o mundo.  H quase catorze anos vosmec perdeu
Bolvar, o seu melhor amigo. Depois perdeu seu pai, o nico homem que
vosmec respeitava e admirava de verdade. S  lhe resta  agora dona
Bibiana, que vosmec sempre se habituou a ver como uma mulher decente,
de bom corao, incapaz dum sentimento de maldade. Agora no quer
matar a sua  ltima iluso e por isso se esfora para no acreditar...
  Winter calou-se, fez meia-volta e foi at a janela dos fundos da casa.
Por que dissera aquelas coisas brutais? Estava torturando o pobre homem.
Florncio era uma  alma simples, acreditava que  as pessoas podiam ser
ou absolutamente ms ou absolutamente boas. Tinha um cdigo rudimentar e
rgido de comportamento e  dispunha  duma nica medida para avaliar as
criaturas. Voltara da guerra invlido, estava desiludido, cansado e
triste. Era uma malvadeza dizer aquelas verdades a uma pessoa  em tal
estado de esprito  e de corpo.
  624
  Mas j agora Winter no via mais jeito de parar. Andava amargurado,
cansado daquela vida e impaciente at consigo mesmo. Toda vez que
pensava em deixar Santa F  e voltar para a Alemanha ou para qualquer
outra parte da Europa, surpreendia-se a sentir uma preguia invencvel,
uma abulia que acabava chumbando-o quela terra  cuja gente ele
aborrecia e em certos momentos chegava a odiar - quela terra absurda
que apesar de tudo o prendia poderosamente, como pela ao dum
sortilgio malfico.  Desabafava em suas cartas a Von Koseritz. Seu
lieber Baron agora era uma figura pblica importante, escrevia belos
artigos em portugus, fazia jornalismo, metia-se  em poltica e
interessava-se pelas colnias alems - das quais era uma espcie de
maioral. Seu amigo Carlos von Koseritz, que ele no vira mais depois do
primeiro  encontro em 1851, era praticamente a nica pessoa com quem ele
podia desabafar. Acontecia, porm, que numa conversa epistolar o
"interlocutor" no est presente,  no pode fornecer a resposta ao p da
letra, a fim de animar a polmica, de avivar a discusso. Ali em Santa
F, Winter se ressentia da falta de bons interlocutores.  Discutia com o
padre, e para exasper-lo exagerava seus pontos de vista ateus. O dr.
Nepomuceno envelhecia e estava envolto numa to espessa carapaa de
estupidez,  que suas farpas irnicas nem lhe chegavam a arranhar a pele.
O dr. Viegas, o pobre dr. Viegas, que fora trazido a Santa F para
combater o clera-morbo e acabara  estabelecendo-se na cidade, era duma
burrice dolorosa: desperdiar ironias com ele seria, para usar uma
expresso da provncia, "gastar plvora em chimango". Winter  sentia
agora uma necessidade permanente de agredir, e sua arma de agresso mais
contundente era a franqueza, a verdade. Dizer verdades desagradveis
tinha-se-lhe  tomado ultimamente um hbito que lhe valia muitas
inimizades e desconfianas. No entanto os clientes continuavam
aparecendo: os colonos de Nova Pomernia e de Garibaldina  no queriam
saber do dr. Viegas.
  Florncio permanecia num silncio reflexivo. O que o dr. Winter acabara
de dizer era a pura verdade. Ele admirava a tia, tinha-a como uma dessas
mulheres raras.  Era-lhe difcil acreditar em que ela realmente tivesse
feito o filho casar com Luzia s para
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  se apoderar do Sobrado. Sentia que era seu dever replicar ao doutor com
veemncia, defender tia Bibiana. Mas no encontrava argumentos.
  Foi Winter quem falou primeiro:
  - Vosmec est enganado se pensa que por ter procedido assim sua tia se
revelou uma mulher m. No! Ela , sem a menor dvida, uma mulher
prtica. No s recuperou  as terras de seu pai, que o nortista
espoliou, como tambm garantiu o futuro do neto, Licurgo agora  o dono
do Sobrado e do Angico.
  Florncio suspirou de leve.
  - Mas o preo foi muito caro.
  - Nem sempre se pode fazer pechinchas com a vida, meu amigo - retrucou o
mdico, tornando a encher a cuia d'gua.
  - Como vai o Licurgo? - perguntou Florncio depois duma  longa pausa.
  - No viu ainda o menino?
  - No. Ele e a tia Bibiana andam agora l pelo Angico.
  - Licurgo est quase um homem.
  - S no tamanho?
  - No. Em tudo. Um homem segundo o conceito que vosmecs nesta provncia
fazem de homem.
  - Sempre tive medo da criao desse menino. Por causa da me.
  - No se impressione. Quem toma conta dele  a av.
  - E a me?. . .
  - Sei l!
  - E o Curgo gosta muito dela? Winter fez um gesto evasivo.
  -  difcil dizer.
  Winter j notara que Bibiana e Florncio nunca pronunciavam o nome de
Luzia. Era como se a palavra fosse um cido que lhes corroesse a lngua.
  - Ser que o menino percebeu que a me ...  uma mulher  doente?
  - Quem sabe? Agora  que ele est chegando  idade de  compreender
melhor as coisas.
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  -  impossvel que ele no tenha notado que a av e a me no se falam,
no se gostam.
  - A verdade  que Licurgo est demasiadamente interessado na estncia
para se preocupar com outros assuntos. Luzia nunca vai ao Angico e o
rapaz passa l todo o  vero e boa parte do outono em companhia da av.
Vem no inverno para estudar.  possvel que nem tenha percebido nada. No
fim de contas, a gente desta terra no   l muito conversadora...
  - Mas mais cedo ou mais tarde o Curgo vai compreender tudo, descobrir o
que houve entre a me e o pai. H muita gente malvada no mundo. Algum
pode contar...
  - A prpria av pode encarregar-se disso. Florncio recebeu essas
palavras como uma bofetada.
  - Vosmec no tem direito de dizer uma coisa dessas. Winter avanou
resoluto dois passos na direo do outro e,
  tirando a bomba de prata da boca, perguntou:
  - E por qu?
  - Porque tia Bibiana no  capaz de tamanha maldade.
  - Um dia ela ser obrigada a isso.
  - Obrigada?
  - E a carreira, Florncio! Vosmec sabe que h corredores que so
capazes de tudo pra ganhar a carreira...
  Florncio sacudia a cabea, relutando em aceitar o ponto de vista do
alemo.
  - Olhe, preste ateno no que lhe vou dizer. Dona Bibiana vive
atormentada, roda de medo. Tem medo que esta guerra dure mais trs ou
quatro anos e o Licurgo acabe  se apresentando como voluntrio. Vosmec
reparou no que isso significa? Se Licurgo morre, acabam-se os Cambars.
Licurgo  para sua tia a continuao de Bolvar,  assim como Bolvar era
a continuao do capito Rodrigo. Se Licurgo morre, tudo se acaba para
ela. - Mudou de tom. - Heinrich Heine! - berrou. E quando o negrinho
apareceu com ar assustado, o mdico disse: - A gua esfriou. V aquentar
mais. Schnell!
  Tornou a encarar Florncio:
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  - O outro medo no  menor e faz sua tia perder muitas noites de sono. 
o medo de que Luzia um dia resolva vender o Sobrado e o Angico e
mudar-se com o filho para  a Corte.
  - E vosmec acha que ela pode fazer isso?
  - Agora no, porque est doente, no tem parentes, e o filho est ainda
muito novo para tomar conta dela.
  - E mais tarde, quando o Curgo ficar homem?
  - Mais tarde, talvez. Mas tudo vai depender da espcie de homem que
Licurgo sair. Acredito que, criado pela av, ele no pensar nunca em se
desfazer do Sobrado  nem do Angico.
  - Essa  a minha esperana.
  Houve um silncio. Winter olhou para a sua estante, que estava agora
cheia de livros alemes e franceses que ele encomendara do Rio de
Janeiro. Entre o mundo de  que tratavam aquelas obras e o mundo de
Florncio, havia uma distncia abismal, que no se media s em espao,
mas tambm e principalmente em tempo.
  - Doutor... - principiou Florncio, pigarreando. - Ouvi falar umas
coisas...
  - Que coisas?
  - Um tal major que anda por a...
  - Sim... - Winter olhou com o rabo dos olhos para o interlocutor.
  - Estiveram me contando que ele anda apaixonado pela... por... pela me
do Curgo.
  - Pode ser.
  - Dizem que vai muitas vezes visitar ela no Sobrado e que ficam horas e
horas conversando...
  -  verdade.
  - Quem  ele, doutor?
  - Um tal major Erasmo Graa, do Rio de Janeiro. Por qu?
  - Eu s queria saber. - Pausa. - Que  que anda fazendo por aqui?
  - Veio tratar dumas requisies do governo.  um homem muito insinuante
e simptico. Tem uma comenda da Ordem da Rosa e dizem que  valente como
um leo.
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  Winter pronunciou estas ltimas palavras num tom de pardia. Florncio
ficou por alguns segundos calado e depois:
  - Vosmec acha que ela gosta dele? - perguntou.
  - No sei. Mas se gostar no  de admirar. O major Graa  um homem e
tanto.
  - Mas no ser que ele est interessado mais no dinheiro dela do que
nela mesma?
  - No creio. Luzia  uma mulher capaz de inspirar paixes, no acha?
  E ao fazer esta pergunta, Winter olhou firme nos olhos do outro.
Florncio piscou, tomado dum mal-estar. Quem estava nu agora era ele,
completamente nu... Desviou  os olhos e prosseguiu:
  - Se eles casarem...
  - Esse  outro medo que ri as entranhas da velha -interrompeu-o o
mdico. - O medo de que Luzia venha a casar-se. Nestes ltimos anos
apareceram vrios homens que  foram ao Sobrado e ficaram apaixonados por
ela. Dona Bibiana andou pisando em brasas todo o tempo.
  - E o senhor acha que agora h perigo dela se apaixonar por este?
  - Francamente: acho.
  - Mas  uma barbaridade!
  - Barbaridade? Por qu? Luzia tem apenas trinta e cinco anos e est
viva h quase catorze. No vejo nada de mal em que ela se case. No
ser a primeira viva a  dar esse passo.
  - Mas  uma injustia! Por causa do menino...
  Winter encolheu os ombros como a dizer: "Seja como for, o problema no 
meu".
  Florncio ergueu-se e de novo apoiou-se nas muletas.
  - Bom, doutor, vou andando. Winter acompanhou-o at a porta.
  - Faa bastante exerccio e mande sua mulher fazer-lhe massagens na
perna.
  Junto d porta Florncio ainda perguntou:
  - Quando  que ele vai embora?
  - Ele quem?
  629
  - O tal major.
  - Dentro duns cinco ou seis dias.
  - Ainda bem. Volta pra guerra?
  - Volta. No se apoquente. Pode ser que ele morra ou ento que ela
morra. Deus  grande.
  E foi empurrando o outro para a rua com certa impacincia.
  Aos quinze anos Licurgo Cambar era j um homem. Usava faca na cava do
colete, fumava, fazia a barba e j tinha conhecido mulher. Estudava
Histria e Linguagem com  o dr. Nepomuceno, Aritmtica e Geografia com o
vigrio, e Cincias com o dr. Winter. O resto - que para ele era o
principal - aprendia com a prpria vida, com a  peonada do Angico e
principalmente com o velho Fandango, o capataz. O portugus que o dr.
Nepomuceno lhe ensinava era um idioma estranho que muito pouco tinha a
ver com a lngua que se falava no galpo e na cozinha da estncia.
Fandango achava que o conhecimento da Aritmtica no fazia nenhuma falta
s pessoas. Tinha uma  teoria prpria sobre as quatro operaes. "O
homem trabalhador - dizia ele, piscando o olho - soma; o preguioso
diminui; o sbio multiplica e s o bobo divide."  Nunca freqentara
escola, e no entanto era capaz de, numa passada d'olhos, dizer quantas
cabeas de gado havia numa tropa.
  Geografia? Fandango tinha toda a geografia da provncia na cabea. Desde
meninote vivia viajando, conduzindo carretas, fazendo tropas, e no
havia cafund do Rio  Grande que ele no conhecesse to bem como as
palmas de suas prprias mos. Sabia onde ficavam as aguadas, onde os
rios davam vau, onde havia melhor pasto ou melhor  pouso. Parecia no
existir em todo o territrio do Continente rancho, estncia, povoado,
vila ou cidade onde ele no tivesse um conhecido. "At as rvores e os
bichos  me conhecem por onde passo" - gabava-se ele.
  Certa vez no galpo, meio por caoada e meio a srio, um peo lhe
perguntou:
  630
  - Por onde  que a gente sai pra ir pra tal de Europa?
  Fandango olhou primeiro para a direita, depois para a esquerda, fechou
um olho, ergueu o brao na direo do norte e disse com ar de
entendedor:
  - Sai-se aqui direito por Passo Fundo.
  Histria? Fandango sabia as melhores histrias do mundo: casos de
assombrao, lutas de famlia, guerras, duelos, lendas... Com dezesseis
anos vira sua primeira  guerra, e era por isso que costumava dizer: "Ds
que me conheo por gente ando brigando com esses castelhanos".
  Os livros de Histria falavam em generais, governadores, lugares, datas
e coisas difceis de entender. Curgo achava mais fcil acreditar nos
"causos" de Fandango,  que se referiam a gente e lugares conhecidos ali
da provncia. "Csar conquistou a Glia." - lia o dr. Nepomuceno. Curgo
escutava-o sem o menor interesse; ficava,  porm, de olho aceso e
ateno alerta quando o velho Fandango se acocorava ao p do fogo e
comeava uma histria: "Pois diz-que uma vez o Xax Pereira resolveu ir
visitar um compadre que ele tinha na Soledade..." As conquistas de
Napoleo Bonaparte descritas pelos livros e comentadas-pelojuiz de
direito empalideciam ante as  proezas de Bento Gonalves narradas por
Fandango.
  Curgo gostava mais das aulas do dr. Winter que das do padre ou as do dr.
Nepomuceno. O vigrio tinha um cheiro azedo e uma voz desagradvel. O
outro - pobre do velho!  - cochilava durante as lies e limitava-se a
ler com sua voz arrastada o que estava escrito nos livros.
  O dr. Winter era diferente. Nunca ficava parado dentro de casa com o
aluno. Levava-o a passear pelo campo, explicava-lhe que a Terra era
redonda como uma laranja  e achatada nos plos. Apontava  noite para as
estrelas e dizia-lhes os nomes e as distncias a que se encontravam da
Terra. E quando dava lies de Botnica era  mostrando plantas de
verdade e no apenas as gravuras dos livros. Tinha uma magnfica lente
de cabo de madreprola com a qual fazia o aluno examinar flores e
folhas,  talos de relva ou gomos de laranjas e bergamotas. De que so
feitas as nuvens? Por que  que quando a gente solta um livro que tem na
mo o livro cai?
  631
  Como  que a gua se transforma em gelo? Por que  que existem o dia, a
noite e as estaes do ano? O dr. Winter explicava todas essas coisas a
Licurgo, que as achava  fantsticas, impossveis - "invenes de
estrangeiro pra fazer a gente de bobo". Sempre que ia para o Angico o
rapaz pedia a opinio do capataz sobre os ensinamentos  do alemo.
  - Patacoadas! - exclamava Fandango. - Patacoadas! Estrangeiro  bicho
besta. Esses negcios que aparecem nos livros so bobagens. No ha nada
como a experincia  do indivduo. Pra ver se vai chover esses doutores
da mula rua olham numa engenhoca parecida com um relgio. Gacho no
precisa disso.
  Ele sabia ver sinais de chuva no cheiro do vento ou no jeito das nuvens.
Havia um certo lado do cu - o poente - que ele _ chamava de chovedor,
pois quando as nuvens  preteavam para aquelas bandas, era chuva na
certa. Existiam ainda outras maneiras dum campeiro prever o tempo sem
precisar olhar naquelas geringonas de gringo.
  Havia um ditado que Fandango repetia com freqncia no inverno: "Geada
na lama, chuva na cama". Um dia Curgo pergun-
  tou:
  - Por que "na cama", Fandango?
  - Pra rimar, hombre.
  Em suas muitas andanas guerreiras pela Banda Oriental, e principalmente
depois duma famosa viagem que fizera a Concepcin do Paraguai - onde
fora levar uma tropa  de mulas -, Fandango incorporara a seu vocabulrio
vrios termos castelhanos. Nunca dizia homem, mas sim hombre; em vez de
chapu usava sombrero, e empregava com  freqncia palavras como -
despacho, calvem, muchacho, temprano...
  s vezes, para mangar com Curgo, quando o menino lhe perguntava se ia
chover ou no, o velho gacho olhava grave para o cu, consultava as
nuvens e respondia: -  Cu pedrento, chuva ou vento... - fazia uma pausa
breve, soltava sua risadinha seca e acrescentava: - ou qualquer outro
tempo.
  Quando andavam os dois pelo campo sob a soalheira e, sentindo sede,
ficavam a buscar ansiosamente uma aguada, Fandango
  632
  fazia o cavalo parar e comeava a fungar com fora, cheirando o vento.
Ao cabo de algum tempo dizia:
  - Tem gua perto. E  pr'aquele lado! Dirigiam-se para o lado indicado e
encontravam gua.
  - Como  que tu sabes essas coisas? - admirava-se Curgo. O outro
respondia:
  - Sou ndio velho mui vivido.
  Fandango estava chegando  casa dos sessenta, mas era um homem vigoroso
e desempenado, e tinha mais resistncia para o trabalho do que muitos
dos pees mais moos  do Angico.
  Para Licurgo, Fandango era uma espcie de orculo - o homem que tudo
sabe e tudo pode. Um peo era um peo, uma pessoa que hoje podia estar
aqui e amanh na estrada  ou no galpo de outro estancieiro. Mas com
Fandango a coisa era completamente diferente. O velho se achava mais
preso s terras do Angico do que aquelas rvores  que tinham razes
profundas no cho. Desde que nascera, Curgo se habituara a ver o capataz
ali na estncia, como um elemento mesmo da paisagem. Era inconcebvel  o
Angico sem Fandango ou Fandango sem o Angico.
  Um dia numa aula o dr. Winter dissera a Curgo algo que o deixara
intrigado. Com uma pequena bssola de bolso na mo, o mdico falava do
globo terrqueo e dos plos.
  - Sua vida, Curgo - disse ele - oscila entre dois plos magnticos:
Fandango e dona Bibiana.
  O que o capataz do Angico e sua av tinham a ver com a bssola foi coisa
que Curgo no pde nem procurou compreender. O doutor s vezes parecia
que no era muito  bom do juzo!
  Era Jos Fandango um homem de estatura mdia, pele tostada de sol,
olhinhos pretos e pcaros metidos no fundo de rbitas ossudas, bigodes e
barbicha grisalhos, e  bochechas dum corado de goiaba madura. Tinha uma
voz de cana rachada, que lembrava muito o pairar dum papagaio, e que
ficava pastosa quando o velho comia carne gorda  e falava de boca cheia.
  Costumava ele resumir seus gostos e desgostos numa frase que j corria
mundo: "Trs coisas ha nesta vida que me fazem muito mal: mulher velha,
noite escura e cachorrada  no quintal".
  633
  Seu nome verdadeiro era Jos Meneses, mas quando mocinho era to grande
sua fama de trovador e bailarim, que os amigos acabaram por dar-lhe o
apelido de Fandango.  A alcunha pegou de tal modo que ele resolveu
adot-la como nome. Vivo, sua famlia se resumia no filho, conhecido
por Fandango Segundo, e num neto, o Fandanguinho,  rapazola de treze
anos e "amigao" de Licurgo.
  Era voz geral que "onde est o Fandango tem sempre fandango". Quando lhe
perguntavam de onde vinha e quem eram seus pais, o capataz respondia em
verso:
  Eu no tenho pai nem me, Nem nesta terra parentes. Sou filho das guas
claras, Neto das guas correntes.
  Mas o verso de que Fandango mais gostava de recitar continha, por assim
dizer, uma declarao de princpios:
  ndio velho sem governo Minha lei  o corao. Quando me pisam no poncho
Descasco logo o faco, E se dvidam perguntem A moada do rinco.
  Era verdade. Ningum duvidava disso. Contavam-se proezas de Z Fandango.
Duma feita, quando moo, tinha acabado um baile a faco. Como a filha do
dono da casa se  recusasse a danar com ele, Fandango sem se perturbar
lhe gritara: "No  a primeira gua que me nega estribo". Um irmo da
moa estava perto e puxou a adaga. "Fechou  o tempo"- contava Fandango.
"A primeira coisa que fiz foi dar um pontap no candeeiro. Da por
diante brigamos no escuro." Dizia-se tambm que de 35 a 45 Fandango
fizera coisas do arco-da-velha como oficial de lanceiros dos Farrapos.
  634
  O prato que ele mais apreciava era arroz com guisado de charque -
arroz-de-carreteiro - e sua sobremesa predileta: canjica com leite. Para
Licurgo era dia de festa  na estncia quando o velho resolvia ir para a
cozinha preparar a comida.
  Num dia de inverno, depois do almoo, Fandango ficara a tomar sol
sentado no portal da casa do Angico. Curgo aproximou-se dele e
perguntou:
  - Lagarteando, no, Fandango? E o gacho respondeu:
  - O sol  o poncho do pobre, hombre.
  Curgo gostava dos ditados do capataz. Para tudo tinha um provrbio. Uma
vez uma china solteira da estncia apareceu grvida e todos ficaram
curiosos por saber quem  era o pai da criana. Um dos pees perguntou:
  - Fandango, quem foi que emprenhou a Dica?
  O velho gacho fechou um olho, encarou o interlocutor e respondeu:
  - Vaca de rodeio no tem touro certo, menino.
  Tinha tambm ditados misteriosos, cujo sentido Curgo no conseguia
penetrar:
  - A pedra grande faz sombra, mas a sombra no pesa nada. Um dia o rapaz
perguntou:
  - Que  que quer dizer isso?
  - Quando vossunc for mais velho vai compreender sem ningum explicar.
Agora  mui temprano.
  Em sua vida andarenga Fandango conhecera muita gente em muitos lugares.
Tinha uma memria prodigiosa, nunca esquecia nomes, datas, caras ou
pormenores. Uma noite  no galpo do Angico, quando os pees e um
forasteiro conversavam e pitavam ao redor do fogo, algum perguntou:
  - Que fim levou o Mane Tarum?
  - Foi morto por um cunhado no Poncho Verde - respondeu o capataz.
  - E o tio dele, o Antnio Tarum? Fandango pensou um pouco e depois
informou:
  - Foi degolado em 68 pela gente do Joca Brabo.
  635
  - E aquele tropeiro de olho"torto... como era mesmo o nome dele?
  - O Mingote Fagundes?
  - Isso!
  - Foi morto por um gaiteiro num baile. Deixe ver... Faz uns dois anos.
  O estranho - um tropeiro paulista que escutara a conversa em silncio -
observou:
  - Pelo que vejo por aqui ningum morre de morte natural... Fandango
cuspiu no fogo e replicou:
  -  meio difcil, moo. Mas alguns morrem...
  Com Fandango, Curgo aprendeu sobre as plantas coisas que os livros no
ensinavam e o dr. Winter parecia ignorar.
  - O melhor pasto pr gado  a grama rasteira ou o capimmimoso.
Capim-limo no presta. P-de-galinha e milho? S pra gado manso. E Deus
me livre dum campo de barba-de-bode!
  - Est vendo aquele umbu ali? - perguntou um dia o gacho ao menino,
quando este tinha apenas oito anos.
  - Estou.  muito lindo.
  - Pois o umbu  como certas pessoas: s estampa.
  - Por qu. Fandango?
  - Porque a madeira no vale um caracol. Curgo sacudiu a cabea. O
capataz prosseguiu:
  - Agora, tu quer ver madeira bem boa mesmo? Pega o cambar ou o
angico...
  Licurgo sorriu com certo orgulho. Seu nome era Cambar: Angico era o
nome de sua estncia. Todas essas coisas lhe davam uma sensao de
firmeza, de resistncia,  de fora.
  - E depois, menino, no  s a madeira. Folha de cambar ou de angico 
muito bom pra tosse.
  E ensinava-lhe outros remdios. Urinas presas? Ch de ervade-touro.
Priso de ventre? Batata-bariri. Fraqueza do peito? Agrio. Lombrigas?
Mastruo. Contra mordida  de jararaca? Trazer em qualquer parte do corpo
um toco de cip-mil-homens.
  - Conheci um carreteiro - contou Fandango noutra ocasio - que estava
com os dentes frouxos. Queria ir ao dentista mas eu
  disse pra ele: No faa isso! No bote fora o seu dinheiro. Tome um ch
de molho. O homem tomou e ficou bom.
  Fandango ensinava tambm a Licurgo coisas a respeito dos bichos.
  - Para descobrir o sexo dum terneiro que ainda no nasceu, a gente
examina a cauda da vaca que est para dar cria, se sua ponta for aguda,
vem macho; se for arredondada,  vem fmea.
  - Matar corvo - explicou Fandango - traz m sorte, porque esse bicho tem
parte com o diabo. Arma que mata corvo fica estragada, no pra de
verter gua. Devemos  tambm respeitar o joo-de-barro, muchacho, porque
foi ele que ensinou o homem a fazer casas de barro. Depois, esse
bichinho todas as manhs acorda o gacho com  seu canto.
  - E tu sabes duma coisa, Curgo? Joo-de-barro  um passarinho mui
engraado. Nunca trabalha nos domingos. E quando a companheira dele
morre, tu sabe o que ele faz?  Empareda ela dentro de casa. Pois . No
presta matar joo-de-barro. Traz desgraa.
  - E bem-te-vi?
  - Onde tu enxergar um bem-te-vi, taa uma pedra nele. O Io bicho
simbergenza! E um passarinho amaldioado por Deus, porque quando a
Virgem Maria fugiu pr Egito  com o Menino Jesus, os judeus saram atrs
dela. A Virgem se escondeu, os judeus iam passando sem enxergar nada,
mas o diabo do passarinho comeou a gritar: bem-te-vi!  bem-te-vi! E
ainda por cima soltou uma risada.
  - E coruja?
  - No presta matar coruja. Ela limpa o campo de cobra e de outros
incetos. Mas coruja tambm traz mau agouro. Quando canta de noite perto
da casa da gente  pra  anunciar a morte duma pessoa da famlia.
  - E grilo?
  - No se deve matar. Traz prejuzo de dinheiro ao matador.
  - E sapo?
  - Tambm no presta. Traz chuva.
  - Ento o que  que presta?
  636
  63"
  - Matar correntino quando ele passa a fronteira pr lado
  ca.
  de
  Fora tambm com Fandango que Curgo aprendera a nadar, laar, curar
bicheira, e parar rodeio. Mas de todos os conhecimentos que o velho lhe
transmitira os de que  Licurgo mais se orgulhava eram os que se referiam
aos cavalos. O rapaz os absorvera atravs de aulas prticas, durante
viagens, rodeios e domas em que ele observava  de perto as manhas e
hbitos dos cavalos, as peculiaridades de cada raa e de cada plo.
Depois, nas conversas de galpo e nas horas de folga, Fandango lhe dava
por assim dizer as aulas tericas, em geral resumidas na forma de
ditados que corriam de boca em boca por toda a provncia, nascidos da
experincia de gachos annimos  em dezenas de estncias.
  Se Licurgo perguntava ao capataz sobre as qualidades dos cavalos
tostados, ele fechava um olho, mirava o menino por algum tempo e
sentenciava:
  - Tostado? Antes morto que cansado.
  - E tordilho, Fandango?
  - N'gua  melhor que canoa.
  - E baio?
  - Se encontrares um viajante na estrada com os arreios nas costas,
pergunta logo: "Onde ficou o baio?" - E sempre que prevenia os outros
contra as traies dos cavalos  desse plo, acrescentava: - Uma vez, l
pras bandas de So Sep um baio me deixou a p.
  Ningum nunca ficou sabendo se a coisa tinha acontecido mesmo "pras
bandas de So Sep" ou se Fandango escolhera esse povoado s por causa
da rima.
  Havia outros conselhos que Licurgo no esquecia: "Se tens pela frente
viagem larga, no faas pular teu cavalo. Sai no tranquilo at o
primeiro suor secar; depois  ao trote at o segundo; d-lhe um alce no
terceiro e ters cavalo pr dia inteiro". Quando certo dia Licurgo teve
de escolher um cavalo para seu uso, aproximou-se  de Fandango e
perguntou:
  - Que plo vou escolher?
  638
  Fandango estava picando fumo para fazer um cigarro. Tinha a palha
enfiada atrs da orelha, a perna direita dobrada em repouso, o peso do
corpo sobre a esquerda,  o busto um pouco inclinado para a frente, o
olhar vago posto nos largos horizontes do Angico. Ficou por um instante
calado, como se no tivesse ouvido a pergunta.  As partculas de fumo
caam-lhe no cncavo da mo. Com as abas do sombrero quebradas na
frente, o sol a bater-lhe em cheio no rosto, Fandango ali estava, na
frente  da casa da estncia, imvel como um tronco de rvore. E quando
Licurgo ia repetir a pergunta o velho lhe deu a resposta. Falava
descansadamente, escandindo bem as  slabas, dum jeito quadrado e meio
seco. E o que ele disse foi um resumo de sua experincia pessoal:
  - No te fies em tobiano, bragado ou melado. Pra gua, tordilho. Pra
muito, tapado. Pra tudo, tostado.
  Diante desse conselho, Licurgo ficou indeciso. O velho, porm, sorriu,
acrescentando:
  - Mas cavalo  como gente. Uma pessoa tem seus dias bons e seus dias
ruins, no tem? Pois com o cavalo se d o mesmo. Tudo  bom e tudo no
presta.
  Dentre os outros conselhos que Fandango lhe dava com relao aos cavalos
havia um de que o rapaz gostava particularmente: "Doma tu mesmo o teu
bagual. No enfrenes  em lua nova, que ele fica babo. No arreies na
minguante, que te sai lerdo".
  Aqueles homens do campo costumavam fazer comparaes entre o cavalo e a
mulher. Fandango aconselhava aos pees que casassem com moas
conhecidas, se possvel com  meninas que eles tivessem visto crescer. E
aplicava o ditado: "Cria perto de teu olhar a potranca pr teu andar".
  - Com mulher sardenta e cavalo passarinheiro - prevenia tambm - alerta,
companheiro!
  Pelas quadras populares e pelas modinhas que ouvia recitar ou cantar,
Licurgo aprendera a classificar as mulheres de acordo com o "plo".
Conclua que as morenas  eram mais constantes que as claras; e que as
ruivas eram geniosas e as de cabelo preto, sinceras:
  639
  Vou acolher uma dona No rebanho, formosas. Escolherei trigueirinhas,
as claras so enganosas.
  "Mulher, arma e cavalo de andar - lembravam elas - nada de emprestar."
  Mas para aqueles violeiros e cantadores, a mulher era principalmente uma
tirana:
  Eu amei uma tirana,
  E ela no me quis bem, ai!
  Passei pela tua porta Dei de mo na fechadura; E no me quiseste abrir,
Corao de pedra dura.
  Nunca vi mulher bonita Ter cabelos no nariz, Nunca vi mulher alguma Ter
constncia no que diz.
  Licurgo ouvia essas cantigas e rimas e ficava pensando. Era engraado...
As mulheres que ele conhecia estavam longe de merecer aquelas quadras.
Eram quietas, trabalhadoras,  srias, mal ousavam erguer os olhos para
os homens que no fossem seus maridos ou parentes muito chegados.
Decerto as "tiranas" falsas de que falavam tais versos  eram as mulheres
de cidade grande. E por mais que se esforasse, sempre que ouvia quadras
e modinhas sobre mulheres malvadas que tinham desgraado a vida de
homens,  ele no podia deixar de pensar na me. E ficava perturbado.
  Muitas vezes pensara: "Quando eu fizer vinte e dois anos, me caso".
Havia na vila algumas meninas que ele achava bonitas, embora no
chegasse a gostar de verdade  de nenhuma delas. A av vivia a dizer-lhe
que um homem para ser bem completo tem de
  640
  casar e ter filhos, muitos filhos. Os trovadores do galpo, porm,
recomendavam:
  Todo o homem quando embarca Deve rezar uma vez. Quando vai  guerra,
duas Quando se casa, trs.
  Fosse como fosse, ele teria ainda muitos anos para pensar em casamento.
A lida da estncia enchia-lhe as horas e os pensamentos. Mal anoitecia,
Curgo ia para a cama  cansado e dormia sono dos justos  at o amanhecer do dia
seguinte. Mas em certas noites em que lhe vinha um desejo de mulher, ele
acabava encilhando o seu cavalo para  ir at o rancho da china Rosa.
Voltava de l de madrugada ao trote do animal, ouvindo os grilos,
mirando as estrelas e saboreando seu cigarro de palha.
  Aos quinze anos Licurgo Cambar era j um homem.
  Muitas vezes olhando os campos do Angico de cima do seu cavalo ou da
porta da casa da estncia, e pensando em que eram suas aquelas terras
que iam muito alm do  ponto at onde a vista alcanava, Licurgo sentia
inflar-se-lhe o peito numa sensao de orgulhoso contentamento. Isso s
vezes chegava a tirar-lhe o flego. Os meus  campos, os meus pees, a
minha cavalhada, o meu gado... O rapaz enchia a boca e o esprito com
essas palavras e com o mundo de coisas em que elas implicavam.
  Gostava da vida campestre, e quando estava no Angico no tinha nunca um
minuto sequer de aborrecimento. Despertava antes de raiar o dia, pulava
da cama e ia para  a mangueira, levando uma guampa com bocal de prata
onde a av mandara gravar seu nome. Os galos cantavam, como se quisessem
acordar o sol com sua balbrdia. Licurgo  tinha um prazer especial em
caminhar descalo sobre a grama ainda mida de sereno. Empoleirava-se
depois nos
  641
  troncos da mangueira e gritava para a escrava que ordenhava as
  vacas:
  - Buenos dias, Luciana!
  - Bom dia, s Curgo - resmungava a preta.
  Seus dedos escuros apertavam as tetas da brasina ou da malhada: o leite
esguichava no balde com um rufar de tambor. Como era bom ficar ali vendo
o horizonte clarear  aos poucos e aspirando os cheiros da mangueira -
esterco mido, leite morno, plo de vaca.
  Depois de beber duas ou trs guampas de leite, quando o sol comeava a
apontar por trs da coxilha do Coqueiro Torto, Curgo ia para o galpo
comer um churrasco mal  passado nas brasas, seguido dum amargo bem
quente. A essas horas j o gado mugia, os passarinhos cantavam nos
cinamomos,  frente da casa, e os quero-queros andavam  a gritar pelo
campo.
  Comeava ento a faina do dia e Curgo acompanhava Fandango e a peonada
que saam a percorrer as invernadas. Sabia laar, parar rodeio, marcar,
e seu maior sentimento  era o de no saber domar potros, pois a av no
lhe dera ainda permisso para aprender. Temia que ele rodasse do bagual,
quebrasse a cabea e morresse "corno aconteceu  com o falecido seu
bisav". Como o rapaz vivesse insistindo, ela prometia com certa
relutncia:
  - Quando vossunc fizer dezoito anos eu dou licena. Curgo voltava do
campo com o sol j a pino; vinha com uma
  fome to grande que se sentia capaz de devorar um boi. Segundo Fandango,
era ele "um garfo de respeito". Comia com prazer e muitas vezes, de olho
contente diante  dum bom churrasco de costela ou duma sopa de mocot,
filosofava: "Uns comem pra viver, outros vivem pra comer, mas eu como
porque gosto". A av sorria e murmurava:  "Puxou ao av. Pra o Rodrigo,
comer era mesmo que uma festa". Entre os pratos prediletos de Licurgo
estavam o arroz-de-carreteiro, o matambre, a morcilha e o fervido.  Uma
vez por semana mandava fazer uma feijoada com bastante toicinho,
lingia e charque, e esfregava as mos quando via a panela fumegando na
mesa. Nessas ocasies  desprezava os outros pratos e comia feijoada at
empanturrar-se. Por fim, "pra feijoada no sentar mal",
  642
  bebia um copo de cachaa. Erguia-se da mesa "empachado", lerdo,
sonolento, com a impresso de ter engolido um tijolo, e atirava-se na
cama como um peso morto, para  uma sesta longa de sono inquieto, do qual
despertava com a boca amarga, a cabea dolorida, irritado e infeliz.
Quando, porm, chegava a hora do jantar j estava  pronto para limpar
vrias costelas de assado, e mais um prato ou dois de mondongo com
farinha ou guisadinho com abbora. Nunca deixava de tomar, aps cada
refeio,  uma tigela de leite com marmelo cozido ou milho verde. Suas
sobremesas favoritas eram pessegada e rapadura com queijo.
  "O Curgo no  homem de festas" - costumava observar Bibiana. E no era
mesmo. Quando se via obrigado a ir a algum fandango, no se misturava
com os outros, preferia  ficar olhando os pares de longe. E olhava-os
dum jeito esquisito assim como se estivesse reprovando o que via.
  - Cai na dana, lorpa! - gritava-lhe Fandango, que no perdia marca.
  - Me deixa - respondia o rapaz, esquivando-se. Quando via os homens
sapateando e rodopiando ao compasso
  da chimarrita, da tirana ou do tatu, ficava tomado dum certo mal estar,
como se danar fosse coisa indigna de macho. Por outro lado, encarava
tambm com desconfiana  e m vontade as jovens danadeiras, e prometia
a si mesmo nunca se casar com mulher que ao danar meneasse as cadeiras,
requebrasse o corpo.
  Nas raras vezes em que os outros conseguiam arrast-lo a festas onde
havia jogos de prendas entre moos e moas, ele ficava a um canto,
arredio, observando tudo  de carranca cerrada, com olhos tiistonhos e
graves.
  Certa noite, numa dessas festas, Fandango deu-lhe um empurro cordial,
perguntando:
  - Por que no vai brincar com as muchachas? Ele sacudiu a cabea,
soturno, fazendo que no.
  - Tu  mesmo um bagualo!
  Repetindo um ditado que ouvira no galpo, Curgo procurou |ustificar-se:
  - Com mulher s brinco na cama - resmungou.
  643
  Mas no era verdade: nem na cama brincava. Quando se deitava com as
chinas - a Rosa, a Belinha, a ndia Nen - era sem alegria. No as
acariciava, nem pedia carcias.  Tratava-as com rispidez, dando a
entender que estava pagando e no pedindo favores. Fornicava com uma
mistura de sofreguido animal e a gravidade meio ressentida  de quem
est contrariado por "precisar dessas piguanchas". Quando se despedia
delas no ajuntava nem o esboo dum sorriso aos pataces com que lhes
"pagava o servio".
  No entanto a hora de parar rodeio, de curar bicheiras, de carnear, eram
para ele momentos de festa. Gostava de montar a cavalo e sair a galope
pelo campo, s pelo  puro prazer da corrida. Nessas horas ria, gritava,
cantava, era feliz. Noutras ocasies, quando contemplava os coxilhes
verdes que cercavam a casa do Angico e pensava  em que tudo aquilo lhe
pertencia, ficava tomado duma profunda e plcida alegria. E seu grande
sonho era ter um dia mais campo e mais gado que os Amarais.
  Embora Bibiana lhe tivesse proibido meter-se em carreiras, quase todos
os domingos ele levava seus parelheiros para correr em cancha reta com
cavalos das estncias  lindeiras do Retiro e do Rinco Bonito. No raro
essas carreiras davam em briga, e duma feita Curgo se pusera a discutir
acaloradamente com um homem que devia ter  o dobro de sua idade. Num
certo momento o interlocutor lanou-lhe um olhar de desdm e disse:
  - Cala essa boca, guri.
  Curgo ficou vermelho e retrucou, meio engasgado:
  - Eu te mostro quem  guri.
  Tirou a faca da bainha e precipitou-se para cima do outro. Mais tarde, a
caminho do Angico, queixou-se:
  - Se tu no tivesse apartado a briga, Fandango, eu furava o bucho
daquele patife.
  - Furava coisa nenhuma! - troou o capataz. - Tu te borra todo quando v
sangue.
  Aquilo, claro, era uma brincadeira do velho, pois Curgo estava
acostumado a ver sangue. Na primeira vez que vira abaterem uma rs,
tinha ficado plido, tonto, e  com engulhos. Mas depois se fora aos
poucos habituando quilo. Agora ele prprio sangrava bois e
  644
  at j gostava de cheiro de sangue. Foi por isso que quando um touro
bravo furou com uma chifrada os intestinos dum peo do Angico, ele pde
ajudar Fandango a botar  as tripas do homem para dentro da barriga sem
se quer pestanejar. Era tambm por isso que quando ia caar bugios no
capo da Ona e os via cair no cho ensangentados,  com os corpos
furados de chumbo, no ficava nem um pouco impressionado. Fosse como
fosse, tinha de ir-se habituando quelas coisas, porque se a guerra com
o Paraguai  durasse mais dois anos, ele tencionava apresentar-se como
voluntrio.
  Licurgo gostava muito da casa da estncia, embora ela no pudesse
comparar-se com o Sobrado... Muito menor, de um andar s, no tinha
soalho nem vidraas nas janelas.  No entanto, sentia sempre um alvoroo
quando, ao chegar da vila, avistava aquela casa comprida, de trs portas
e oito janelas, l no alto da coxilha e bianquejando  por trs dum
renque de cinamomos copados. E de todas as peas dessa casa uma das que
ele mais gostava era a cozinha, onde s vezes ia conversar com as
negras, que  lhe contavam histrias belas e terrveis da frica - uma
frica que nada tinha a ver com a dos livros de geografia do padre
Otero.
  Outro dos grandes prazeres do rapaz - e um dos que mais o prendiam ao
Angico - era o de tomar parte nas conversas do galpo  noite, depois do
jantar. Reuniam-se  os pees ao redor do fogo e ficavam a contar
histrias. Eram "conversas de homem", quase sempre em torno de cavalos,
jogo, mulheres, duelos, revolues, heris e  bandidos. E atravs dessas
conversas Licurgo ia como que absorvendo os artigos do cdigo de honra
daquela gente - um cdigo que no fora escrito mas que tomava corpo,
fazia-se visvel em milhares de exemplos e casos que andavam de boca em
boca. Segundo esse cdigo, um homem para ser bem macho precisava ter
barba e vergonha na  cara. Ter vergonha na cara significava possuir uma
cara limpa em que nunca nenhum outro homem tivesse batido. "Se um homem
te esbofetear, mata o canalha no sufragante."  Ter vergonha na cara
significava tambm nunca faltar  palavra empenhada, custasse o que
custasse. Contava-se que na provncia se faziam grandes transaes a
crdito  em que, em vez de assinar uma letra, o devedor dava ao credor
um fio de barba, o
  645
  qual para aqueles homens de honra valia tanto como um documento selado
com firma reconhecida por um tabelio.
  Licurgo orgulhava-se de saber que o av e o pai tinham tido morte digna
de homem: lutando de arma na mo. Era assim tambm que ele queria morrer
quando sua hora  chegasse.
  Uma noite no galpo, como se falasse em homens valentes e generosos,
Fandango tocou no ombro de Curgo e disse:
  - Ouve esta, que te interessa, menino. Passou-se com teu av, o finado
capito Rodrigo Severo Cambar.
  - Tu te lembra bem dele, Fandango? - perguntou o rapaz.
  - Me lembrar no me lembro, porque nunca nos encontramos. Mas foi tua
av, dona Bibiana, que me contou o caso.
  Fandango fez uma pausa para tomar um gole de mate. Um dos pees pediu:
  - Que venha a histria! Fandango cuspiu no fogo e comeou:
  - Pois diz-que o capito Rodrigo tinha um inimigo, um tal de Mrio
Leite, que l tinha feito uma safadeza muito grande. Brigaram numas
carreiras e s no se mataram  a bala porque houve quem apartasse. O
capito chegou em casa furioso e disse pra mulher: "Estou com aquele
sujeito atravessado na garganta. Onde eu encontrar ele,  palavra de
honra, meto-lhe o rebenque na cara". Dona Bibiana no disse nada. Ela
nunca dizia nada. Pois um dia o capito Rodrigo passava a cavalo por uma
estrada  e vai ento de repente ouve um barulho perto dum caponete, olha
e v dois bandidos armados de adaga atacando um homem que se defendia
com o cabo do rebenque. O pobre  do cristo ia recuando na direo dum
valo, estava malito mesmo. O capito esporeou o cavalo, chegou-se perto
dos peleadores e viu que o que brigava sozinho era  nem mais nem menos
que o seu inimigo, o tal de Mrio Leite. Vejam s como so as coisas.
Apeou ligeiro, j de adaga desembainhada, e entrou na briga, gritando:
"Cobardes!  Atacarem um homem desarmado. E dois contra um!" Disse isso e
atirou-se pra cima dos bandidos a golpe de adaga, como quem vai matar
cobra. Os bandidos se assustaram  e meteram o p no mundo. O capito -
  646
  enfiou a adaga na bainha, montou a cavalo e, sem olhar pr outro, sem
dizer uma palavra, foi-se embora.
  Fandango fez uma pausa e depois rematou a histria:
  - Eram assim os homens de antigamente.
  Era assim o meu av - pensou Curgo. E ficou olhando reflexivamente para
o fogo.
  Havia tambm histrias de bandidos famosos. Dentre elas a favorita de
Licurgo era a do Z Viau.
  - Esses bandidos valentes e pcaros do tempo antigo esto se acabando -
lamentou Fandango noutra noite. - Onde  que se encontra hoje em dia um
homem como o Z Viau?  Andava de flor no peito, sombrero de aba quebrada
na frente, barbicacho nos queixos e espada na cinta. Vivia desafiando os
milicos e era homem de entrar a cavalo  num bolicho e levar duas chinas
na garupa!
  Contava-se que por volta de 1830 aparecera por So Borja um cidado
francs, um certo Jean Viaud, que se dizia mdico formado por uma
academia de Paris. Era um belo  homem de maneiras fidalgas, barbas
ruivas, olhos azuis e mos de moa. Costumava viajar pelas estncias,
curando gentes e bichos e recebendo como pagamento dos seus  servios
no s dinheiro como tambm galinhas, porcos, roupas ou objetos para seu
uso pessoal. Uma noite o francs pernoitou na estncia dos Belos, dormiu
com a  donzela da casa e no dia seguinte foi embora. Dois meses depois,
quando descobriram que a moa estava grvida, seus irmos obrigaram-na a
dizer o nome do sedutor  e puseram-se a campo para descobrir o paradeiro
do infame. Encontraram-no finalmente em Rio Pardo, deram-lhe uma sova de
rabo-de-tatu em praa pblica, trouxeramno  maneado para a estncia e
fizeram-no casar com sua vtima. O casamento realizou-se em sigilo, com
a presena apenas dos pais e dos irmos da noiva. A criana nasceu  dali
a sete meses, mas o dr. Jean Viaud, de belos olhos azuis e mos de moa,
parece que achou o casamento um peso excessivo para seus ombros
delicados. Um dia fez  a mala s escondidas, montou a cavalo e fugiu.
Nunca mais ningum ouviu falar nele. Os cunhados encolheram os ombros e
disseram: "O mal foi reparado.  at melhor  que esse diabo no aparea
mais. Seja como for, a criana tem um pai". Era um menino
  647
  e haviam-lhe dado o nome de Jos. Cresceu na estncia, guapo e vivo. Com
o correr do tempo os Belos perderam sua fortuna e o menino criou-se ao
deus-dar. Aos catorze  anos fugiu de casa, e dizem que andou fazendo
contrabando na fronteira com a Argentina. Aos dezoito matou o seu
primeiro homem. Parece que gostou, pois aos vinte  j tinha cinco mortes
nas costas. Aos poucos suas proezas comearam a ser contadas em toda a
provncia. Ora, como ningum lhe pronunciava direito o nome - pois em
vez de vt, diziam viau - o jovem bandido ficou sendo conhecido por Z
Viau, nome que correu mundo e ganhou fama. Fandango remexeu no fogo com
um pau.
  - Ha uma histria dele que  mui linda - disse. - Conhecem?
  Ningum falou: todos ficaram esperando, pois sabiam que o capataz havia
de cont-la, mesmo que eles dissessem que a conheciam.
  - Diz-se que uma vez o Z Viau matou um homem em Uruguaiana, e se
bandeou para a Repblica Argentina. Os parentes do morto juraram que no
descansavam enquanto no  matassem o Z Viau e deixassem ele estaqueado
no meio da praa.
  Fez uma pausa e perguntou:
  - Vossuncs sabiam que quando a gente bota uma moeda na boca dum homem
que foi assassinado, o criminoso volta ao lugar do crime? Pois .
Enterraram o homem com uma  moeda de tosto na boca. Passou-se um
tempinho e um dia qual no foi a surpresa dum bolicheiro de Uruguaiana
quando viu o Z Viau entrar na casa dele, todo lampeiro,  de flor no
peito, arrastando as chilenas no cho. O coitado ficou branco de medo e
comeou a gaguejar e olhar pra todos os lados. "Viu alguma alma do
outro mundo,  patrcio?"- perguntou o bandido. O bolicheiro contou a
histria da moeda. Z Viau fechou a cara e indagou: "Ento eles
enterraram aquele cachorro com uma moeda na  boca? Espera um pouco".
Saiu da venda, montou a cavalo, foi ao cemitrio, desenterrou o defunto,
tirou a moeda da boca dele, voltou pr bolicho, atirou ela em cima  da
mesa e gritou: "Um tosto de cachaa, amigo!" Quando o bolicheiro
compreendeu a coisa, ficou verde.
  648
  Houve risadas. Fandango arreganhou os dentes, sacudiu a cabea e disse
devagarinho:
  - O Viau tinha boas!
  Naquele dezembro de 69 dona Bibiana veio passar dois dias na estncia, e
quando voltou para Santa F decidiu levar consigo o neto. Curgo ficou
sombrio.
  - Eu no quero ir, vov.
  -  s por uns dias.
  - Mas por que  que a senhora no fica at o fim do vero?
  - No posso.
  - Mas por que  que no pode?
  - Tenho o que fazer no Sobrado.
  O que ela tinha a fazer em casa no podia contar a ningum: era vigiar a
nora. Aquele maldito major Erasmo Graa freqentava o Sobrado, estava
perdido de amores  por Luzia. Sempre que o homem aparecia, Bibiana
plantava-se tambm na sala de visitas, sentava-se numa cadeira e ali
ficava, de mos no regao, calada, mas sem tirar  os olhos do major. Era
preciso no deixar aqueles dois sozinhos, no dar ao forasteiro tempo de
se declarar. Assim vigiados, eles se viam forados a conversar sobre
coisas que nada tinham a ver com amor ou casamento. Agora Bibiana
aproveitara uma ausncia temporria do major para vir at o Angico,
porque lhe batera de repente  uma grande saudade do neto. Mas era
preciso voltar em seguida, pois fora informada de que o "desgraado"
dentro de dois dias estaria de volta a Santa F.
  - Vamos sair de jardineira, de manh cedinho - disse ela ao neto. -
Arrume as suas coisas.
  - Est bem, v.
  Naquela noite Curgo procurou Fandango e contou-lhe suas mgoas.
  - Faa a vontade da velha.
  - Mas  que eu no gosto de passar o vero na vila!
  - Tu tem ainda muito vero pela frente, muchacho, muito
  vero.
  649
  Assim, no dia seguinte, mal o sol rompeu, av e neto embarcaram na
jardineira. Licurgo ia taciturno, de testa franzida. Bibiana mirava-o de
soslaio mas no dizia  nada. Sabia que o neto tinha sangue de Terra e de
Cambar. No seria por causa do sangue do Rodrigo que ele estava assim
de cara fechada, e bico calado. O capito  era homem alegre, conversador
e andava sempre bem disposto. Agora ali na jardineira que ia sacolejando
pelas estradas cheias de "costelas" e buracos, Bibiana reparava  no
quanto Licurgo se parecia com seu prprio bisav, Pedro Terra. Quando o
menino estava "com os burros", o melhor era a gente nem falar com ele. E
como um Terra  sempre respeitava os silncios de outro Terra, Bibiana
no disse palavra ao neto durante muito tempo. Ficou a conversar com o
boleeiro sobre as vacas que iam dar  cria, as colheitas e os calores
daquele vero.
  O sol j estava alto e soprava um ventinho de leste quando eles deixaram
os campos do Angico e entraram na estrada real, que era to m como as
da estncia. E como  o silncio de Curgo se estivesse prolongando
de mais, e como ele no momento em que o boleeiro fechou a porteira
lanasse um olhar triste para os campos que ficavam  para trs, Bibiana
deu-lhe uma palmadinha rpida no joelho e disse:
  - No h de ser nada, Curgo. No ms que vem tu volta. O rapaz ento
sorriu um sorriso rpido e meio triste:
  - Vosmec sabe, vov, o que o Fandango disse quando se despediu de mim?
- Ela sacudiu a cabea negativamente. - Disse que nem por mil cruzados
entrava numa jardineira.
  - U! Por qu?
  - Porque carro  conduo de mulher e criana de peito. Gacho anda mas
 a cavalo.
  - Velho desfrutvel!
  Na noite daquele mesmo dia, na sala de visitas do Sobrado, pela primeira
vez em muitos meses Licurgo ficou a ss com a me.
  650
  Foi aps o jantar: as cinco velas do candelabro estavam acesas em cima
do consolo, e Bibiana se encontrava no andar superior a defumar os
quartos com incenso.
  Sentada junto da mesinha redonda, Luzia tocava ctara para o filho. Os
cabelos lhe caam sobre os ombros cobertos por um xale de seda preta,
que lhe acentuava ainda  mais a palidez. De vez em quando a dor
crispava-lhe o rosto e ela comeava a gemer baixinho. Curgo, ento,
desviava os olhos, todo perturbado. A idia de que sua  me sofria, de
que tinha um tumor maligno, lhe causava uma grande pena e ao mesmo tempo
um grande remorso, pois embora soubesse que seu dever era mostrar-se
carinhoso  e paciente para com ela, o que sentia mesmo era uma certa
impacincia, uma vontade de fugir da presena "daquela mulher", como se
pelo simples fato de no v-la  ela cessasse de sofrer.
  Luzia tocava uma barcarola e o rapaz escutava, olhando para os dedos que
beliscavam as cordas do instrumento. Agora ele descobria por que era que
apesar de gostar  do Sobrado no se sentia bem no casaro. Era porque
sua me dava quelas grandes salas uma certa frieza de "casa de
cerimnia". Ela prpria era quase uma estranha  para ele. As coisas que
lhe dizia o deixavam sempre desconcertado. A voz dela provocava nele uma
esquisita sensao de acanhamento, e os sons mesmos do instrumento
pareciam sair no daquela caixa chata de madeira, mas da boca de sua
me. Dum certo modo que Curgo no sabia explicar direito, era como se
aquela msica triste sasse  da ferida que ela tinha no estmago. Curgo
tirou o leno do bolso e passou-o pelo rosto. Pensou em como seria  bom
sair para a rua, ir para baixo da figueira da praa  e ficar l deitado
no cho, sozinho...
  Luzia tocava, como que esquecida do filho. Seus seios pontudos e midos,
que tanto desconcertavam Licurgo, quando desavisadamente fitava os olhos
neles, subiam e  desciam ao compasso duma respirao lnguida e
dolorosa. Curgo sabia que no rego daqueles seios ela guardia
ava uma grande
chave dourada - a chave do quarto secreto  onde passava horas e horas
fechada, fazendo ningum sabia o qu. Ele sempre tivera curiosidade de ver
o que havia dentro
  651
  daquela alcova onde nenhuma outra pessoa entrara depois da morte do seu
pai.
  Curgo olhou para as mos de Luzia que se agitavam sobre a ctara e
pensou em cavalos brancos a galope. Depois alou os olhos para o rosto
dela. Quando a me o acariciava,  quando passava aqueles dedos frios
pelo seu rosto e principalmente quando lhe fazia ccegas no lbulo da
orelha, ele ficava todo encolhido e arrepiado, com um desejo  de gritar,
de dizer nomes, de fazer uma brutalidade.
  Licurgo escutava. Luzia agora sorria para ele. Seus olhos muito grados
e claros lembravam-lhe o poo da sanga do Angico onde  tardinha ele
costumava nadar em companhia  do Fandanguinho.
  Por fim Luzia deixou cair os braos ao longo do corpo e disse:
  - Meu filho, vou tocar uma msica e quero que prestes bastante ateno.
  Curgo sacudiu a cabea num assentimento. Vindo l de cima chegava at
ele o cheiro da defumao, um cheiro triste de igreja.  luz das velas o
rosto de Luzia tinha  um reflexo alaranjado como o das caras dos pees 
noite, ao redor do fogo. Luzia comeou a tocar uma msica muito lenta e
suave, e enquanto tocava sorria um sorriso  lento e suave como a msica.
  - Em que  que ests pensando? - perguntou ela sem parar de tocar.
  - Em nada.
  - No. Eu quero saber o que  que a msica te evoca.
  - Evoca?
  - Quero dizer: quando ouves esta msica, em que  que pensas?
  Curgo ficou um instante com ar reflexivo.
  - Na estncia.
  - A msica ento te faz pensar na estncia?...
  - Faz.
  - Que parte da estncia?
  - Todas as partes. Ela continuava a tocar.
  - No, meu filho. Deve haver uma parte especial. No h?
  - H, sim senhora.
  - Qual ?
  652
  - As coxilhas que a gente avista da porta da casa...
  - Ests vendo agora esse campo... quero dizer, no teu pensamento?
  - Estou.
  - No  uma coisa triste que ests sentindo?
  -  sim.
  - No sentes algo que te aperta o peito?
  - Sinto.
  A msica continuava, calma e melanclica. Curgo agora estava "vendo" as
campinas do Angico.
  - Ests pensando nesses campos de manh?... de noite?... ou de
tardezimha?
  - De tardezimha, assim ao anoitecer.
  -  muito triste tudo, no ? -.
  - No d vontade de chorar? Curgo hesitou por um instante.
  - ... d.
  - No est brilhando uma estrela no cu?  a estrela vespertina...
  Licurgo lembrava-se agora duma tarde em que ficara olhando o pr-de-sol
sentado no portal da casa da estncia. Um negro que vinha repontando um
rebanho de ovelhas  cantava uma toada tristonha, dessas puxadas do fundo
dum peito dolorido.
  - Presta bem ateno, meu filho. Ouve a msica. Agora tua me vai te
dizer bem direitinho tudo que ests sentindo.
  Os cavalos brancos galopavam em cima da ctara. L em cima soavam,
surdos, os passos de vov Bibiana. Um cheiro de igreja enchia a casa
toda.
  Tomara que a vov desa - pensou Licurgo, olhando de vis na direo da
porta do vestbulo.
  Luzia comeou a tocar em surdina e a dizer:
  - Presta ateno. Ests sentado no portal da casa do Angico. Est
ficando noite e tudo  muito triste. A estncia est deserta. A peonada
foi toda embora, a negrada  da cozinha foi embora. Tu ests sozinho,
olhando o descampado e pensando... Sabes o que
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  ests pensando? Ests pensando assim. Vivo s no mundo. Tenho quinze
anos. Mataram meu pai. Minha av morreu. Minha me vai morrer, est na
vila sentada numa cadeira  esperando a hora da morte, porque tem um
tumor no estmago. Sou um pobre menino sem ningum no mundo...
  A msica doce envolvia Licurgo, que se imaginava no Angico olhando o
pr-do-sol. As coxilhas cheiravam a incenso.
  - H muitos pases, muitas cidades no mundo - prosseguiu Luzia - e
nesses lugares existem muitos meninos que tm pai e me, que brincam,
que andam de trem, que so  felizes. Mas eu estou aqui sozinho, no
tenho ningum...
  De olho parado, Curgo fitava as chamas das cinco velas enquanto uma
tristeza que lhe parecia sair das entranhas lhe subia pelo peito como
uma enxurrada e se lhe  trancava aflitivamente na garganta. Engoliu em
seco, piscou. Sou homem - pensou: esforou-se por no chorar mas
no pde. A onda rebentou num soluo, as lgrimas  lhe inundaram os
olhos, lhe escorreram frescas pelas faces. Ele teve vergonha de
enxug-las, de erguer as mos e tapar o rosto. Com os olhos sempre fitos
no candelabro,  continuou a ouvir a msica e a ver a estrela do pastor
no cu do anoitecer.
  De repente a situao lhe foi to insuportvel que ele decidiu fugir.
Ps-se de p subitamente e saiu quase a correr na direo da  porta da
rua. Mas ao passar  por perto da me, esta agarrou-lhe a mo com fora,
puxou-o para si, estreitou-o contra o peito e comeou a beijar-lhe o
rosto, a beber-lhe as lgrimas, a chorar  tambm com ele e a murmurar
coisas muito ternas e lamurientas.
  - Vou morrer, meu filho, vou morrer. Tu vais ficar, vais esquecer a tua
me, todos vo esquecer. A vida  triste, meu filho,
  eu vou morrer.
  Apertava o rapaz contra os seios. A chave - pensava Curgo - a chave
dourada. Mas outro pensamento fazia-o esquecer a chave: a ferida... E
ele queria acariciar a  me, dizer alguma coisa, mas seus lbios
continuavam apertados, os braos cados. Por fim, num grande esforo
levantou a mo e passou-a desajeitadamente pelo rosto  dela: sentiu-o
frio e mido e isso lhe lembrou o rosto dum afogado que uma vez ele
tocara. O corpo da me era morno e
  654
  cheirava a essncia de rosas. Por cima dos ombros dela Licurgo olhava a
sombra de ambos projetada na parede da sala. Luzia apertava o filho
contra o peito, e o rapaz  tinha medo de machucar com a presso de seu
corpo a ferida do estmago. Pensava em alguma coisa para dizer mas no
lhe ocorria nada. Por alguns instantes Luzia ficou  acariciando os
cabelos do menino e por fim afrouxou a presso dos braos e comeou a
falar num cochicho:
  - Curgo, quero que prometas uma coisa pra tua me. Prometes?
  No esprito do menino o velho Fandango ergueu-se e falou: "No faas
promessas no escuro".
  Ele no respondeu. Uma lgrima entrou-lhe, salgada, na boca.
  - Prometes?
  Curgo tinha medo de falar, pois se falasse talvez no lhe sassem da
boca palavras, mas sim soluos. Homem no chora. Homem no chora.
  - Prometes?
  Luzia sacudia o filho com ambos os braos. Curgo aproximou os lbios do
ouvido da me e perguntou baixinho:
  - Prometer o qu?
  - Prometes que no vais passar toda a tua vida aqui em Santa F, nem no
Angico?
  O corpo de Licurgo de repente enrijeceu. Ele ficou de msculos retesados
numa atitude de defesa, como se de repente tivesse avistado um inimigo
inesperado.
  - Prometes, meu filho?
  Silncio. Luzia apertou os braos do rapaz com mais fora.
  - Fala, Curgo!
  Agora as unhas dela apertavam as carnes do rapaz. Curgo continuava
calado.
  - Olha, meu amor, no quero que sejas como esses homens brutos que no
sabem ler nem escrever, que vivem como animais, no meio de cavalos e
bois. - Calou-se, como  que afogada pelas prprias palavras. - Prometes?
  Nenhuma resposta. Curgo adivinhava onde a me queria chegar e esperava
com uma rigidez de corpo e de esprito.
  655
  - O mundo  muito bonito, meu filho. Tem cidades com teatros, circos de
cavalinhos, bandas de msica! Olha... - E de repente a voz dela ficou
quase risonha. - Em  Londres uma vez houve uma grande exposio, tu nem
eras nascido... Foi num palcio maravilhoso todo feito de vidro e de
ferro.
  Curgo recusava acreditar naquelas palavras. Palcios de vidro s existem
nos contos da carochinha.
  - Um dia ns vamos embora daqui, Curgo. Tu e eu. Os dois juntos. Me e
filho. Vamos de diligncia, depois tomamos um trem e finalmente o
vapor... No tens vontade  de conhecer o mar, no tens?
  Ele no respondia. Estava vendo as campinas do Angico, escutando a voz
dum tropeiro que conhecia o mar e que lhe dissera: "O mar  lindo, mas
no troco estas coxilhas  nem por tudo quanto  mar deste mundo".
  - No tens? - repetia Luzia.
  - No.
  - No digas isso, meu filho. O mar  uma beleza. O dr. Winter te
explicou tudo na aula de Cincias. Tem uns peixes muito bonitos, outros
muito engraados. O mar  muda de cor, s vezes  verde, outras  azul,
outras cor de cinza. No tens vontade de ver o mar?
  - No.
  Luzia afastou o filho de si com um repelo e perguntou, com
  uma ameaa na voz:
  - No tens?
  - No - repetiu o menino sem olhar para a me. Compreendia que o que ela
queria mesmo era tir-lo do Angico, da companhia da av, do Fandango e
dos pees. A me  decerto ia mesmo casar com o major Erasmo. Agora ele
sabia. Era verdade o que murmuravam. E essa descoberta aumentava seu
mal-estar e seu sentimento de estranheza  para com ela.
  Luzia deixou cair os braos. Estava ofegante. Atirou a cabea para trs
e ficou ali com o rosto contorcido de dor.
  - Est doendo? - perguntou Curgo.
  656
  - Est doendo.
  balbuciou ela. - Est doendo muito. E tu s o
  culpado.  Me desculpe.
  - No desculpo. s um menino muito malvado.
  Ele baixou os olhos e comeou a chorar de novo, mansamente, deixando as
lgrimas pingarem no cho. Luzia contemplava-o, sorrindo.
  - Posso ir agora, mame? - perguntou ele ao cabo de alguns segundos.
  - Ir aonde?
  - Passear l fora.
  - No. Fica aqui.
  S a av o poderia salvar - pensava Licurgo, agoniado.
  - Que  que a senhora quer?
  - Conversar contigo. Senta-te.
  Ele obedeceu, limpando as lgrimas com a manga da camisa.
  - Olha para mim, Curgo.
  Ele fitou os olhos no rosto de Luzia.
  - Por que  que no gostas de tua me?
  - Mas eu gosto!
  - No gostas, no.
  Ele tornou a baixar o olhar.
  - Olha pra mim. Por que ?
  - Eu gosto, me. Mas gosto tambm do Angico, do Sobrado, dos outros...
  - Tua av algum dia te disse que no devias gostar de mim?
  - No.
  - No mesmo?
  - No.
  - Juras por Deus?
  - Juro.
  Luzia de novo entesou o busto, tirou alguns acordes da citara e comeou
a tocar uma valsa lenta.
  - Se tu tivesses de escolher entre tua me e ela, qual era que
escolhias? - perguntou, sem interromper a msica
  657
  O menino no respondeu. Havia em seus olhos uma expresso de animal
acossado.
  - Qual era? - repetiu Luzia.
  - As duas.
  - Mas se um dia eu chegasse e dissesse: "Curgo, tua me vai embora.
Queres ir com ela ou ficar com tua av?" Que era que respondias?
  No seu espiito Curgo berrava: "Ficar! Ficar! Ficar!" Mas no tinha
coragem de dizer aquilo. Se dissesse era quase o mesmo que dar um soco
no estmago da me. Ela  ia morrer. Todos sabiam que no tinha vida para
muito tempo...
  - Fala a verdade, Curgo. Ias ou ficavas?
  Ele olhava para a porta,  procura dum pretexto para sair.
  - Mas aonde  que a senhora ia? - perguntou.
  - Embora.
  - Embora pra onde?
  - Pra Corte.
  - Mas por qu?
  - Pensas ento que Santa F  o nico lugar do mundo onde a gente pode
viver?
  - Mas foi aqui que eu nasci.
  - Pois eu no.
  - Aqui  que esto os meus parentes, os meus amigos, tudo.
  - No tenho amigos. Meu nico parente vivo s tu. E tu sabes -
acrescentou ela, parando de tocar - que se eu quiser te levar, eu te
levo, porque a lei est do meu  lado? Tu s meu filho e s tens quinze
anos, sabes?
  O rosto do rapaz ganhou de repente uma dureza de pedra. Como nica
defesa fechou-se num silncio ressentido e feroz. No diria mais nada,
acontecesse o que acontecesse.  Luzia pareceu compreender isso e mudou
de tom:
  - s ainda muito novo, meu filho. Um dia vais crescer e ento te
lembrars do que eu te disse. Mas a ser tarde demais, muito tarde. Eu
estarei morta e podre debaixo  da terra. Mas tu estars apodrecendo vivo
aqui em Santa F ou com os animais l no Angico. Apodrecendo vivo, ests
ouvindo?
  658
  Curgo no respondia. Tinha no rosto uma tal expresso de horror que ao
chegar naquele momento  porta da sala, Bibiana olhou para o neto e
compreendeu o que se estava  passando.
  - Venha lavar os ps, Curgo - disse ela com voz calma. - Est na hora de
ir pra cama.
  7
  Naquela noite de sbado, quando bateu  porta do Sobrado para sua visita
semanal, o dr. Winter se sentia to bem disposto e em tamanha paz com o
mundo, que comeou  a assobiar baixinho um minueto de Mozart, marcando o
compasso com a ponteira da bengala a bater na pedra do portal. Uma das
escravas veio abrir-lhe a porta.
  - Boa noite, Natlia! - exclamou, tirando o chapu e fazendo com ele um
floreio no ar.
  A preta resmungou roucamente um cumprimento, e Winter em duas largas
passadas galgou os degraus que levavam da porta ao nvel do vestbulo.
Viu em cima do consolo,  junto do espelho oval que Aguinaldo Silva
garantira haver pertencido a um nobre flamengo dos tempos da ocupao
holandesa do Recife, o chapu do dr. Nepomuceno,  o do padre Otero e o
quepe do major Graa. Ficou a contempl-los por um instante, sorrindo. A
Justia, a Igreja e o Exrcito. Parecia um arranjo simblico. Achou
absurdo que seu surrado chapu de feltro fosse tambm ficar ali ao lado
dos outros. Que representava ele? Nada. Nem o colono alemo que havia
quarenta e tantos anos  se estabelecera na Feitoria do Linho Cnhamo s
margens do rio dos Sinos. Era simplesmente um indivduo, o dr. Carl
Winter. E se quisesse ser bem honesto para consigo  mesmo, teria tambm
de chegar  concluso de que no representava nem mesmo a medicina.
Naquele fim de mundo ele ia de tal modo perdendo contato com a
literatura  mdica, que um dia talvez chegasse a descer ao nvel dos
curandeiros da terra.
  Olhou-se no espelho. Na penumbra do vestbulo no pde ver mais que uma
silhueta. Atirou o chapu em cima do quepe
  659
  francs do major Graa - um quepe que lhe lembrava desagradavelmente o
de Napoleo II, segundo um retrato a bico-de-pena que vira reproduzido
numa revista - e encaminhou-se  para a sala de visitas, onde a conversa
comeava a acalorar-se. Quando o dr. Winter entrou, fez-se um sbito
silncio.
  - Continuem, senhores! - pediu o mdico, apertando a mo de Bibiana e
depois a de Luzia.
  O major Graa levantou-se e ficou perfilado. Era um homem alto, de
barbas e cabelos castanhos, e estava metido em seu uniforme azul-escuro,
de tnica com ombreiras e gales dourados, e calas debruadas duma fita
carmesim. Estendeu para o mdico a longa mo enrgica, que Winter
apertou. O padre Otero permaneceu sentado, limitando-se a dar ao
recm-chegado um boa-noite indiferente. E como o juiz de direito
comeasse a erguer-se do fundo de sua cadeira, o dr. Winter apressou-se
a dizer:
  - No se incomode, doutor. Aproximou-se dele e tomou-lhe da mo flcida.
  O dr. Nepomuceno perdera a mulher havia dois anos e agora levava uma
vida solitria de vivo sem filhos. A velhice fazia-o mais sonolento e
tardo de movimentos.
  - Estvamos discutindo - explicou ele ao mdico - o major Graa e eu. ,
estvamos discutindo...
  Winter sentou-se, cruzou as pernas e disse:
  - Pois continuem, senhores.
  - Discutamos a questo Zacarias - esclareceu o major. Tem uma voz de
poeira - pensou Winter. Sim. Ali estava a
  comparao que ele buscava para descrever a voz do major. Uma voz de
poeira, inesperada naquele corpanzil militar: uma voz sem msica nem
ressonncias, esfarelada  e farfalhante. Tuberculose da laringe? Ou
cordas vocais gastas de tanto gritar ordens de comando?
  - Senhores - confessou Winter - no se esqueam de que em matria de
poltica nacional, como em quase tudo o mais, sou duma ignorncia
colossal.
  - O que vosmec acaba de dizer - observou o padre Otero, balanando-se
na sua cadeira -  um sinal de modstia. No entanto suas opinies sobre
a Religio, Cincia  e Filosofia so as dum
  660
  homem que sabe tudo e que no tem dvidas sobre coisa alguma deste mundo
ou do outro.
  Carl Winter soltou uma risada.
  - Meu caro vigrio - replicou - no quero com a minha chegada desviar o
rumo da discusso. Para encerrar o assunto admito que eu seja um poo de
vaidade e presuno.  Mas, pelo amor de Deus, esclaream-me a respeito
do caso Ananias!
  - Zacarias - corrigiu o dr. Nepomuceno, com um ar de mestre-escola.
  Winter olhou para Luzia. L estava ela na sua cadeira de respaldo alto,
junto da mesinha redonda sobre a qual se achava o estojo da ctara.
Tinha no rosto emagrecido  a palidez cor de palha que Winter to bem
conhecia. Ali imvel, toda vestida de escuro, parecia uma figura de cera
com olhos de vidro. O sofrimento e a maturidade  lhe haviam marcado o
rosto, tirando-lhe a dureza de outros tempos, dando-lhe at um certo
encanto lnguido e uma dignidade que talvez lhe viesse da vizinhana da
morte. No era coisa agradvel para nenhum mdico ver um cliente
finar-se sob seus olhos sem que ele pudesse fazer alguma coisa para
salv-lo. O mais que Winter  conseguia era aliviar-lhe as dores com
gotas de beladona. No se atrevia a dizer-lhe palavras de esperana e
conforto porque estava certo de que Luzia no as tomaria  a srio. De
resto ela gostava de falar da morte que se aproximava; era com gozo que,
numa antecipao, descrevia-se a si mesma metida numa mortalha negra,
dentro  dum esquife, ladeada por quatro crios. Era sorrindo que antevia
o velrio, descrevia as pessoas que chegavam e mencionava as coisas que
iam dizer ou pensar da defunta.  Em pensamentos acompanhava o prprio
enterro at o cemitrio, via quando desciam o caixo ao fundo da cova,
ouvia o rudo cavo da terra a cair na tampa do esquife.  Winter estava
presente quando um dia ela repetiu essa estpida histria diante do
filho com tanta riqueza de detalhes mrbidos, que o rapaz rompeu a
chorar e acabou  fugindo da sala.
  O dr. Nepomuceno comeava a explicar quem era Zacarias.
  - Vosmec, dr. Winter, deve estar lembrado dele. Zacarias ae Gis e
Vasconcelos. Em 62 derrubou os conservadores do poder e formou um
gabinete seu.
  661
  - Mas ficou s seis dias no poder - observou o major. O magistrado
daquela vez foi pronto na resposta:
  - Era bom demais para durar, major, era bom demais.
  O militar lanou um olhar clido na direo de Luzia. Winter percebeu
que Bibiana o vigiava. S no pde descobrir para onde olhava a
teiniagu - para o espelho?  para a porta? para o major? ou para parte
nenhuma?
  - Mas no estvamos discutindo a queda dos conservadores em 62 -
continuou o juiz. - No estvamos. Isso so guas passadas.
  A voz do dr. Nepomuceno sumiu-se, afogada, e por um instante ele ficou
de olhos semicerrados, como num sbito cochilo. Com alguma impacincia o
major resumiu a histria:
  - O caso  o seguinte, doutor. Vosmec deve estar lembrado que depois
que expulsamos os paraguaios da provncia, a coisa toda parecia que ia
ser muito fcil. Fomos  empurrando o inimigo para dentro de seu prprio
territrio e todo mundo esperava que a guerra terminasse em poucos
meses. Mas as tropas de Solano Lpez se entrincheiraram  em Curupaiti e
resistiram. Vosmec sabe como so essas coisas. No h nada pior para um
exrcito do que a certeza da vitria fcil. Quando levamos a coisa na
certa, qualquer resistncia do inimigo nos desnorteia. Foi o que
aconteceu. Nosso exrcito comeou a se desorganizar, a desanimar e
nossos comandantes comearam  a se desentender...
  Ele est se dirigindo a mim - refletiu Winter - mas mantm os olhos
fitos em Luzia. Mesmo agonizante a teiniagu no perde o seu feitio.
  - O imperador ento - interveio o dr. Nepomuceno - achou que a guerra
tinha chegado a um ponto crtico, e que s um homem podia salvar a
situao.
  - Esse homem - disse o major, sempre olhando para Luzia - era Lima e
Silva.
  O padre, que ainda se balouava na sua cadeira, sorriu e avisou:
  - Esse nome no deve ser pronunciado nesta casa. - Fez um sinal na
direo de Bibiana. - Ela no esquece que Caxias era
  662
  um legalista que combateu os Farrapos. O marido de dona Bibiana, capito
dos rebeldes, foi morto no princpio da guerra civil. O major voltou-se
solene para Bibiana:
  - Caxias  antes de mais nada um brasileiro e um patriota, minha
senhora.
  - Pra mim  um caramuru - replicou ela, seca.
  O major olhou para a ponta das botinas muito lustrosas, acariciou a
barba e depois suspirou, dizendo:
  - Vejo que muita gente nesta provncia ainda no esqueceu a Guerra dos
Farrapos.  lamentvel. Nesta hora devemos deixar de lado todas as
questes regionais. O destino  da ptria comum est em jogo.
  -  um caramuru e basta - insistiu Bibiana, olhando para o dr. Winter
como a dizer: "Vosmec me entende, sabe por que estou dizendo isto".
  Winter sacudiu a cabea numa aquiescncia muda.
  - Mas voltemos ao nosso assunto - pediu ele.
  - Ficou ento resolvido entregar-se o comando de nosso exrcito a Caxias
- continuou o major Graa. - Mas aconteceu que o ministro da Guerra,
ngelo Muniz da Silva  Ferraz...
  - Um grande homem - atalhou o juiz - diga-se de passagem, um grande
estadista...
  O major encolheu de leve os ombros e prosseguiu:
  - O ministro da Guerra teria dito: "Com esse homem no sirvo".
  O dr. Nepomuceno pareceu animar-se de repente e interrompeu o outro:
  - Assim Zacarias ficou num dilema. Ou aceitava a nomeao de Caxias e
perdia o seu grande ministro, ou mantinha o ministro e...
  O major quase chegou a dar um pulo na cadeira quando gritou:
  - ... sacrificava a campanha!
  - Mas Caxias no era o nico general em condies de assumir a direo
da guerra.
  663
  - Era! - O major lanou esta palavra como uma ordem de comando.
  - Vosmec h de dizer que como militar entende melhor do riscado que eu.
Concordo. Mas em matria de poltica, peo vnia para declarar que
poucos, em que pese a  modstia, poucos como eu...
  - Mas no devemos pensar em poltica quando a ptria est em perigo.
  Winter j observara que s dois assuntos tinham a virtude de tirar o
juiz de direito da sua apatia habitual: poltica e gramtica. Uma queda
de gabinete ou a colocao  dum pronome oblquo era coisa capaz de
lev-lo a discusses calorosas e interminveis.
  - Vosmec, major Graa, no negar que Zacarias  dos nossos maiores
estadistas.
  - Ele provou que era acima de tudo um homem muito apegado ao poder. Em
vez de tomar uma das duas pontas do dilema, seguiu um terceiro caminho.
Sacrificou o ministro  ao general, mas no resignou.
  O dr. Nepomuceno soltou uma risada inesperada que foi quase um ronco, e
disse:
  -  a arte da poltica. A arte da poltica.
  - Mas no da decncia - retrucou o major, dando um brusco puxo na
tnica.
  O padre Otero interveio:
  - Poltica e decncia nunca andam de mos dadas. So inimigos mortais.
  O oficial voltou-se para o sacerdote:
  - Mas o nosso imperador sabe fazer uma poltica hbil com uma decncia
indiscutvel.
  - O nosso imperador  um homem excepcional... - observou o padre.
  Wintei simpatizava com aquele imperador barbudo e paternal a respeito de
quem se contavam tantas histrias e anedotas. Havia ao redor dele uma
aura de lenda. O mdico  observara tambm como a reputao de
integridade de carter do soberano influa poderosamente na vida social
da nao. Era um exemplo de 
  664
  honradez e bondade a ser seguido. Dom Pedro II como que dava a nota tnica
ao ambiente moral do pas. De certo modo - refletiu ainda Winter - Sua
Majestade j fazia  parte do folclore nacional como uma espcie de
anti-Malasarte.
  - Mas seja como for - prosseguiu o major - Lima e Silva foi nomeado,
encontrou nossas tropas desorganizadas e atacadas de clera-morbo, e
levou um ano no trabalho  insano de reorganiz-las. Mas conseguiu. E se
hoje a campanha se aproxima do fim  graas a esse grande brasileiro!
  - Vou mandar servir o caf - disse Bibiana, erguendo-se de repente e
saindo da sala.
  Luzia acompanhou-a com o olhar. Agora, pela expresso do rosto de sua
paciente, Winter notava que ela sofria. Por que no se retirava? Por que
no tomava as suas  gotas? Seria que gozava tambm com o prprio
sofrimento? Inacreditvel!
  - Quer que eu v preparar o remdio? - murmurou, inclinando-se para ela.
  Luzia sacudiu a cabea:
  - No. Obrigada. Estou bem.
  E sorriu um sorriso doloroso e quase terno. Winter no pde deixar de
ficar perturbado. J no sabia mais ao certo o que sentia por aquela
mulher. Logo que a conhecera,  desejara-a fisicamente duma forma mrbida
que o assustava um pouco. Depois fugira dela com certo horror. Agora o
que sentia era pena mesclada de curiosidade. Sempre  que a via pensava
naquele tumor que lhe crescia no estmago com o vio maligno duma flor
que se alimenta de carne. Era-lhe inconcebvel a idia de desejar
carnalmente  uma mulher em tais condies, pois isso seria quase uma
inclinao necrfila...
  O padre Otero, que na discusso parecia estar decididamente do lado do
major Graa, dizia agora:
  - No entanto, as intrigas polticas contra Caxias continuaram no Rio de
Janeiro.
  O major ergueu a mo com o dedo indicador enristado na direo do dr.
Nepomuceno:
  665
  - Agora vosmec veja a nobreza desse homem de prol. Tendo tudo na mo:
prestgio, coragem, fora, um exrcito inteiro, ao invs de jogar todos
esses trunfos na mesa  em seu favor, preferiu escrever uma carta a
Paranagu, queixando-se amargamente desses homens que colocavam seus
interesses pessoais acima dos da ptria e dizendo  que, em vista de no
lhe darem liberdade de ao, e do governo no lhe mandar os homens e o
material pedidos, preferia resignar. Estava doente, cansado e
desiludido.
  - A carta explodiu como um petardo no Rio de Janeiro - ajuntou o padre
Otero, dirigindo-se desta vez ao dr. Winter. - Todos sabiam que Caxias
era insubstituvel.  Caxias valia mais que todo um ministrio.
  - No diga isso, padre! - protestou o dr. Nepomuceno. - A guerra um dia
termina e ns vamos precisar de homens da fibra de Zacarias e outros
para reconstruir a nao.
  - Mas seja como for - disse o major - essa carta abalou o ministrio e
Zacarias compreendeu que estava diante duma nova crise. Viu que o
imperador no hesitaria  em sacrificar o ministrio para no perder o
seu grande general, para no perder a guerra!
  - Mas Zacarias no quis ceder a uma imposio da espada - recitou o dr.
Nepomuceno com gravidade.
  - Era preciso salvar as aparncias, achar um pretexto para renunciar.
  - Sempre os interesses individuais! - exclamou o major. - O que
importava no eram os fatos, no era a soluo da guerra, eram as
aparncias, o prestgio pessoal,  a vaidade do ministro Zacarias.
  O dr. Winter no se pde conter:
  - Mas o meu caro major no acha que a honra no  um privilgio dos
militares, e que um civil pode achar que sua sobrecasaca e suas calas
merecem tanto respeito  quanto a farda?
  O major mirou o mdico num silncio meio irritado. E na expresso do
rosto do militar Winter leu tudo quanto ele queria dizer mas calava:
"No se meta. Vosmec   um estrangeiro".
  O padre Otero livrou o major de dar uma resposta, pois continuou a
histria:
  - Zacarias ento achou um pretexto para resignar quando Sales Torres
Homem foi nomeado senador do Imprio. Esse cidado tempos atrs tinha
feito grande oposio   famlia real em artigos escritos sob o
pseudnimo de... como era mesmo? Ah! Timandro. O pretexto era timo.
Zacarias saiu de cabea erguida. No fora derrubado  pela espada dum
general mas sim pela pena dum poltico.
  - E perdemos assim - concluiu Nepomuceno - o nosso mais ilustre
estadista!
  - Mas ganhamos a guerra - observou o major.
  - Ganhamos?
  - Claro, Lpez est perdido. A vitria agora  questo de meses...
  Winter viu com alegria entrar uma escrava com uma bandeja cheia de
xcaras de caf fumegante. Apanhou a sua, serviu-se de acar e,
enquanto mexia o lquido escuro  com a colherinha de prata ("Maurcio de
Nassau - afirmava Aguinaldo Silva - j tomou ch com estas colheres")
perguntou:
  - Mas vosmec no acha, major, que quando Caxias voltar da guerra
triunfante e cheio de prestgio pessoal ele vai ser para este pas o que
Bismarck  para a Prssia?
  - Que quer dizer o senhor com isso?
  - Quero dizer que vai ser a verdadeira fora por trs do trono, o homem
que daqui por diante governar o Brasil...
  - Meu caro doutor, Caxias  um patriota e no um ambicioso!
  - Mas j se fala por a em repblica. Suponhamos que Caxias...
  - Ah, isso  que nunca! Seria um." traio ao imperador e Caxias no 
um traidor.
  Winter achou melhor no continuar. Homens como o major no sabiam
discutir com calma. Tomavam tudo muito a peito, ofendiam-se com
facilidade, s sabiam discutir  com palavras e sentimentos
grandiloqentes: ptria, honra de classe, altrusmo, nobreza, herosmo.
Era impossvel esfriar-lhes o entusiasmo e traz-los a examinar  os
fatos com objetividade desapaixonada.
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  667
  - Nosso imperador  um sbio e um santo - disse o militar. - Nossa
monarquia  considerada no mundo inteiro uma verdadeira democracia. O
prestgio do nosso soberano   conhecido nos pases mais civilizados do
mundo. Falar em repblica nesta hora  um crime, uma traio que deve ser
punida com fuzilamento.
  L vem ele com o seu, peloto de fuzilamento - pensou o mdico. E por
contraste lembrou-se de seus poetas. Por um instante Goethe e Heine
estiveram naquela sala,  visveis apenas para Winter. E quando seus
fantasmas se sumiram, o mdico exclamou:
  - O caf est uma delcia!
  Os outros, com as xcaras nas mos, fizeram um sinal de assentimento,
menos o dr. Nepomuceno, que nunca tomava caf  noite, pois sofria de
insnia.
  Bibiana entrou com uma bandeja cheia de bolinhos de polvilho e saiu a
distribu-los. O major olhava para Luzia com seus olhos clidos.
  - Fala-se em repblica, no h dvida - concordou ele, com mais'calma. -
Mas  meia dzia de mocinhos que andam com as cabeas cheias de leituras
exticas e idias  extravagantes.
  - O mundo inteiro anda cheio de idias extravagantes - opinou o padre
Otero, cruzando os braos e atirando a cabea para trs.
  - O que  extravagante hoje - observou o dr. Winter - pode ser muito
natural e sensato amanh.
  -  o progresso - concluiu o dr. Nepomuceno, que mastigava um bolinho de
polvilho. -  o progresso - repetiu, expelindo com a ltima palavra um
chuveiro de farelo.
  O padre Otero fez um sinal com a cabea na direo de Bibiana:
  - Aqui a nossa prezada amiga no se conforma com o sistema mtrico
decimal.
  Muito tesa em sua cadeira, e sem tirar os olhos do rosto da nora,
Bibiana disse:
  -  uma inveno triste. A gente estava muito bem como antes. Agora vem
essa histria de metro e quilo e centmetro e no
  sei mais o qu... Por que ser que vivemos sempre macaqueando o que
esses estrangeiros fazem? O padre sorriu.
  - Reformas como essas, dona Bibiana, no fazem mal a ningum. O perigo
est em certas idias radicais que importamos da Europa. - E ao dizer
estas ltimas palavras  olhou enviesado para o dr. Winter.
  - Um dia elas viro para ficar - retorquiu o mdico, sorvendo um gole de
caf - quer vosmec queira, quer no queira.
  Nesse instante Luzia falou pela primeira vez depois que Winter entrara:
  - Vosmecs no acham que estamos vivendo numa poca muito interessante?
- perguntou ela, passeando os olhos em torno.
  Que se passa com essa voz de viola? - perguntou o Dr. Winter a si mesmo.
No tinha mais a veludosa profundeza de outros tempos: estava cansada e
gasta.
  - Eu acho - respondeu ele em voz alta - que todas as pocas so
interessantes. O essencial  a gente estar vivo...
  Luzia pareceu animar-se.
  - Mas no, doutor. Veja bem. Quanta coisa est acontecendo no mundo
hoje! Basta ler um jornal.
  Assanhada! - dizia Bibiana em pensamento, olhando para a nora. Est
doente, com um tumor na barriga, anda que nem pode de dor e no entanto
fica aqui embaixo conversando.  Por qu? S porque tem homem em casa.
Assanhada!
  - A guerra civil nos Estados Unidos... - enumerava Luzia. - A libertao
dos escravos, a morte de Abrao Lincoln... Ah! e a maravilhosa histria
de Maximiliano,  imperador do Mxico... Ainda ontem estive lendo a
respeito dele num almanaque.
  - Mas que  que vosmec v de to maravilhoso na aventura infeliz desse
austraco? - perguntou Winter. - No passou de um fantoche nas mos de
Napoleo II, esse  outro maluco que est convencido de que  mesmo
Napoleo Bonaparte.
  - Vosmec conhece bem a histria de Maximiliano, doutor?
  - O suficiente para julg-lo um idiota.
  Luzia sacudiu a cabea com ar de desaprovao.
  668
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  - Pois eu gostaria de ser a imperatriz Carlota... - murmurou.
  Est louca! - exclamou Bibiana em pensamento. Decerto o tumor j est
atacando a cabea dela. Onde se viu? A imperatriz Carlota!
  O major Graa olhava para Luzia com olhos cheios de apaixonada
admirao. O padre Otero balanava-se na sua cadeira e escutava tudo a
sacudir a cabea lentamente,  numa silenciosa mas decidida reprovao. O
dr. Nepomuceno parecia ter mergulhado num de seus cochilos
intermitentes.
  - Pense bem na histria, doutor - continuou Luzia. - Um arquiduque
austraco que viajou por todo o mundo, um belo homem de pele clara e
olhos azuis, um homem educado,  um homem  bom, e de repente se v
imperador dum pas de ndios de cara de bronze, um pas to diferente da
ustria como a noite do dia. E E vosmec j pensou no  papel da
imperatriz Carlota quando foi falar com Napoleo II para lhe pedir que
no abandonasse Maximiliano?
  - Perdeu o seu latim - interrompeu-a Winter.
  - Mas que importa?
  - E acabou transtornada do juzo - acrescentou o doutor, tomando o
ltimo gole de caf.
  - E tudo isso no  belo?
  O dr. Nepomuceno abriu os olhos e manifestou-se:
  - No acho nada belo. No h nada mais sublime que o juzo perfeito, a
lucidez das idias.
  - Mas o mundo dos sos  um mundo triste - sorriu Luzia. - O mundo dos
loucos, esse sim, deve ser maravilhoso e sempre cheio de coisas novas e
fantsticas.
  Vosmec  que pode dizer - pensou Bibiana. E lanou para a nora um olhar
carregado de censura e rancor. Achava quase indecente que uma viva
ainda moa estivesse  a conversar aquelas coisas com homens. Aquilo
positivamente no era assunto de mulher.
  Via-se que o major Graa estava fascinado; aquele sortilgio parecia
roubar-lhe a voz.
  - As pessoas normais - continuou Luzia - so as mais sem graa do mundo.
  Winter olhou para o major e leu espanto e decepo em seu rosto. O padre
Otero sacudiu a cabea, penalizado.
  - Vosmec precisa vir  igreja, confessar-se e depois tomar a comunho,
dona Luzia.
  Havia anos que o vigrio insistia em trazer aquela ovelha negra para o
seu rebanho - refletiu o mdico. Luzia, porm, recusava-se, com uma
obstinao e uma coragem  que ele, Winter, no podia deixar de admirar.
Sabia que ia morrer e seria natural que diante da incerteza do que
pudesse haver para alm da morte, ela tentasse uma  reconciliao com
Deus atravs da Igreja.
  - Fiz um donativo em dinheiro para as obras da igreja, padre - replicou
ela. -  o mais que posso dar.
  - Mas ns queremos tambm a sua alma, dona Luzia.
  - Vosmec tem certeza de que eu tenho uma alma?
  O major empertigou o busto e olhou para o padre com espanto. O dr.
Nepomuceno ficou de boca aberta a mirar a dona da casa.
  - No diga uma coisa dessas, dona Luzia! - exclamou o vigrio. - Que
Deus lhe perdoe! Nunca mais diga uma coisa dessas.
  Por que  que ela no vai pra cama dormir! - perguntava Bibiana em
agonia. Por qu? Por causa do major. Quer ficar aqui se mostrando pra
ele. Por isso diz coisas  que no devia, coisas que s uma mulher
perdida pode dizer.
  Luzia levou os dedos  altura do estmago e ficou como que a acariciar o
tumor.
  - E depois - continuou ela, como se no tivesse ouvido as palavras do
padre - temos todos esses inventos maravilhosos: o vapor, a estrada de
ferro, o telgrafo...
  - No sei aonde essas engenhocas todas nos vo levar - observou o padre,
com um gesto de quem queria empurrar para o futuro uma preocupao que
ao futuro pertencia.
  Winter sentiu que a conversa entrava num terreno que lhe era agradvel
pisar. Por intermdio de Von Koseritz recebia jornais da
  670
  671 Alemanha e acompanhava, com o interesse de quem l uma novela
fascinante, a marcha das ideias polticas na Europa. E o fato de ele
estar em Santa F - por assim  dizer num outro planeta - tornava todas
aquelas coisas mais esquisitas ainda.
  - H uma idia em marcha, senhores - disse ele. E, em seguida,
percebendo que tinha ficado com ar teatral, sorriu, achando-se ridculo.
Ergueu-se, enfiou ambas as  mos nos bolsos das calas, caminhou at a
janela, olhou para fora, viu a figueira na noite morna e calma e
lembrou-se duma madrugada em que encontrara ali Florncio  e Bolvar a
conversar... Os outros esperavam em silncio.
  - Que idia? - perguntou o padre, com o ar provocador de quem j sabia o
que o outro ia responder.
  - Ainda a idia da Revoluo Francesa.
  - Ora! - fez o padre. - Ora!
  - Uma idia cuja marcha - continuou o mdico - a vossa Santa Aliana se
esforou por deter.
  O major, que brincava distrado com a fivela dourada do cinturo, soltou
no ar a poeira de sua voz:
  - Vosmec no poderia esclarecer melhor seu ponto de vista? Na minha
fraca opinio, a Revoluo Francesa...
  Calou-se de sbito, ficou olhando para Luzia e no disse o que era a
Revoluo Francesa na sua fraca opinio. O dr. Winter interveio:
  - Napoleo Bonaparte atrasou o relgio da Histria com suas guerras de
conquista. Em suma: traiu a Revoluo.
  - No diga tamanho absurdo, doutor! - protestou Erasmo Graa, entesando
o busto e ficando sentado na ponta da cadeira.
  Solidariedade de classe - pensou Winter.
  - Deixem o doutor explicar seu ponto de vista - pediu Luzia.
  - O ponto de vista no  propriamente meu. Mas eu o aceito. Li-o em
algum livro ou artigo de jornal.
  O padre Otero no perdeu a deixa e resmungou, irnico:
  - Se o ponto de vista no  seu, como pode ser bom? Winter sorriu.
  - Os outros s vezes pensam e dizem coisas inteligentes... - replicou
ele, inclinando-se numa pardia de mesura.
  E prosseguiu:
  - Havia uma idia liberal nascida da Revoluo Francesa...
  - Revoluo essa - atalhou o vigrio - que no passou duma conseqncia
das ideias herticas de livres-pensadores como Voltaire, Diderot e
outros.
  - Vosmec me desculpe, padre, mas acho que o peso dos impostos influiu
mais na balana que o das ideias dos enciclopedistas. As causas da
Revoluo Francesa foram  mais polticas e econmicas do que
propriamente intelectuais.
  - Vosmec fala como se a poltica da Frana do sculo passado fosse a
poltica local de hoje.
  - A proximidade em que me encontro no tempo e no espao da poltica de
Santa F s me confunde e prejudica a viso. A distncia geogrfica e
histrica em que estou  da Revoluo Francesa s pode dar-me uma
perspectiva melhor, principalmente quando eu a contemplo trepado nos
ombros de gigantes como Carlyle e outros.
  Luzia apoiou-o:
  - Quando estamos diante dum quadro no nos afastamos dele para
apreci-lo melhor?
  - A est... - disse Winter. E, mudando de tom, continuou: - A nobreza e
o alto clero da Frana viviam  tripa forra e quem pagava as contas era
a burguesia. Os  camponeses vegetavam num estado de servido que no era
muito melhor que o que prevalecia na Idade Mdia.
  - O clero  sempre o bode expiatrio - exclamou o padre, dando uma
palmada na coxa.
  - Em suma - e neste ponto o dr. Winter abriu ambos os braos -
descontados erros, violncias, matanas inteis, vinganas e dios
pessoais, dessa Revoluo sobrou  alguma coisa. E essa alguma coisa
sobreviveu tambm s guerras napolenicas.
  - E se me faz favor - perguntou Nepomuceno, olhando significativamente
para o major Graa - que vem a ser essa "alguma coisa"?
  672
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  Winter esclareceu:
  - Os Direitos do Homem, as liberdades inalienveis do indivduo, o
direito que cada cidado tem  liberdade,  propriedade e  segurana. A
liberdade de imprensa,  de culto e de palavra para todos, sem nenhuma
distino.
  - Patacoadas! - exclamou o vigrio. - Liberdade? Para que  que o povo
quer liberdade? Para ser ateu, herege, licencioso? Liberdade para tomar
a mulher do prximo?  Liberdade para caluniar, mentir, ofender?
Liberdade para quebrar os mandamentos divinos? Libertinagem, isso era o
que queriam esses senhores da Revoluo Francesa.
  - Eu no esperava outra reao da parte de vosmec - disse o dr. Winter.
  O major perguntou:
  - E vosmec acha, doutor, que essas idias foram alguma vez postas em
prtica?
  - Eu j disse que Napoleo atrasou o relgio da Histria. Ainda h
pases que no saram de todo das sombras da Idade Mdia. Mas em certos
crculos do mundo floresce  o pensamento liberal. A semente foi lanada.
No resta a menor dvida.
  - Mas o grosso do povo - interveio o dr. Nepomuceno - esse continua no
mesmo.
  - Exatamente.
  - E h de continuar sempre - replicou o major.
  - No vejo razo para fazer-se uma afirmativa to categrica.
  - Essa igualdade com que os senhores liberais sonham - insistiu o
militar - pode muito bem significar desordem, desrespeito e anarquia.
  - Eu compreendo muito bem que vosmecs prefiram a idia da monarquia, da
manuteno dos privilgios da Igreja e da nobreza, e da submisso do
povo.
  - E para a mulher - interveio Luzia - uma posio idntica  que ela
tinha na idade do obscurantismo.
  Por que  que ela no fica de boca fechada? - perguntava Bibiana a si
mesma. A atitude da nora lhe dava uma vergonha to
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  grande que ela como que sentia formigas lhe passearem pelo corpo. Por
que  que essa sem-vergonha no vai pra cama?
  - Se o padre Otero pudesse - disse ainda Luzia, sorrindo - ele erguia
uma muralha para evitar que as invenes e as idias novas da Europa
entrassem no Brasil.
  - No seremos mais felizes nem melhores - replicou o sacerdote - por
adotarmos essas tais "idias novas" e essas engenhocas fedorentas, no
, major?
  O militar fez um gesto de indeciso.
  - No vejo nenhuma incompatibilidade entre o progresso, a decncia e as
nossas tradies polticas e religiosas - declarou ele.
  - E quais so essas tradies? - perguntou Carl Winter. O major hesitou
por um instante e depois disse:
  - Na poltica, a idia conservadora. Na religio, o catolicismo. De
resto, no estamos ainda preparados para ter todos esses inventos e
novidades.
  - Ainda teremos de esperar muito pelas estradas de ferro e pelo
telgrafo. Pelo menos nesta provncia.
  - Graas a Deus! - exclamou o vigrio.
  Winter deu de ombros. Fosse como fosse, ele no podia imaginar uma
locomotiva entrando em Santa F, cortando o silncio dos campos com seu
apito e sujando aqueles  belos cus com a fumaa escura de sua chamin.
  -  uma pena que a gente no possa viver cem anos para ver tudo isso...
- murmurou Luzia. E com estas palavras criou um silncio de
constrangimento.
  Pouco antes das dez horas o vigrio e o dr. Nepomuceno fizeram suas
despedidas e retiraram-se. O major Graa, entretanto, permaneceu
sentado. A princpio fez-se  um silncio um pouco difcil, como se todos
os assuntos se tivessem esgotado. Bibiana no tirava os olhos da nora.
Winter percebia claramente que o major ainda tinha  esperana de poder
ficar a ss com Luzia aquela noite,
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  nem que fosse por um breve momento. Sabia, porm, que Bibiana estava
decidida a no arredar p dali. O oficial pigarreou, olhou para o mdico
como para lhe pedir  que comeasse um assunto, e como o outro
permanecesse calado, a mir-lo com seus olhos irnicos, ele olhou na
direo da janela e disse:
  - Est uma linda noite.
  - E nem parece - observou Luzia - que a esta hora homens esto se
matando em terras do Paraguai. No  extraordinrio? Neste exato
instante, um soldado est enterrando  a sua baioneta no peito dum
inimigo. E numa sepultura perdida no campo o cadver dum oficial
brasileiro est se decompondo. Estou vendo as dragonas dele sujas de
terra. - Luzia olhava intensamente para o major. - E os cabelos e as
barbas dele esto ainda crescendo.  mesmo verdade que os cabelos da
gente continuam a crescer  depois que morremos?
  O major tinha agora no rosto uma expresso de perplexidade. Em vez de
responder, Winter disse:
  - A esta hora, em algum outro lugar do mundo, algum pode estar compondo
uma sonata ou escrevendo um verso.
  - Ou fazendo alguma coisa que preste - atalhou Bibiana.
  - Bom - disse o mdico de repente. - Preciso ir embora.  tarde.
  - Fique mais um pouco, doutor - pediu Bibiana. - Preciso falar com
vosmec.
  O major ergueu-se, deu um puxo na tnica e disse:
  - Vou fazer as minhas despedidas. Volto amanh para o campo de batalha.
  Winter achou a expresso "campo de batalha" um pouco teatral, mas
perdoou ao major. Ele estava diante de sua bem-amada: precisava
impression-la.
  - Minha misso em Santa F est terminada - continuou ele. - Quero
agradecer s senhoras - fez um sinal com a cabea abrangendo sogra e
nora - e a vosmec, doutor,  por todas as consideraes que me
dispensaram...
  Winter, repetindo uma frmula corrente na provncia, disse:
  - Vosmec  merecedor.
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  Bibiana permanecia de lbios apertados, sem tirar os olhos do oficial.
  - Peo a Deus - prosseguiu ele - que um dia eu possa voltar a esta terra
de onde levo as mais gratas recordaes...
  Winter contemplava Luzia, que acariciava o tumor com a ponta dos dedos.
  - Dona Luzia - prosseguiu o major - no posso ir-me embora sem lhe dizer
da grande impresso que vosmec me causou. Confesso que nunca encontrei
em toda a minha  vida dama mais culta nem mais virtuosa, isso para no
falar na sua formosura.
  A emoo apagava ainda mais a voz de poeira. Bibiana trocou com o mdico
um olhar travesso.
  - Vosmec  muito bondoso, major - murmurou Luzia.
  - Diga antes que sou justo. H mais uma coisa que vou pedir a Deus. 
que no dia em que eu voltar a Santa F possa ter o prazer e a honra de
rev-la.
  Luzia estendeu ambas as mos sobre a tampa do estojo da ctara.
  - No, major - disse ela. - Quando vosmec voltar da guerra e quiser me
ver, no  nesta vila que deve me procurar.  num outro lugar, muito
mais quieto e mais triste  que este. Fica no alto duma coxilha.
  - O cemitrio - explicou Bibiana quase sem sentir, temendo que o major
no compreendesse a aluso.
  Erasmo Graa olhava com ar perdido para Luzia, que voltou a cabea para
a sogra e confirmou:
  -  isso mesmo. O cemitrio.
  - Por favor, minha senhora - exclamou o militar - no diga isso.
  Os dedos de Luzia acariciavam as incrustaes de madreprola do estojo.
  - Todo mundo sabe que no tenho vida para muito tempo. Se duvida, majorr,
pergunte ao dr. Winter.
  Por um instante Erasmo Graa ficou sem saber que fazer.
  - Deus  grande - disse de por fim. - E Deus no  cruel.
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  Ningum ouviu a risada seca e sarcstica que dona Bibiana soltou; porque
ela riu em pensamento. Riu como se s ela conhecesse o carter de Deus.
  Na expectativa de que algum ali dissesse uma palavra de esperana,
mesmo que fosse uma palavra hipcrita, o major olhava do mdico para a
velha.
  - Mas no  possvel - tartamudeou ele - deve haver um remdio... Deve
haver recursos, em Porto Alegre, no Rio, quem sabe se na Europa...
  Luzia sacudia a cabea lentamente, numa serena negativa.
  - Para meu mal no h remdio, major. Mas no se aflija. A maior
interessada no caso sou eu. Estou resignada.
  O oficial olhava perdidamente para o bico das prprias botinas.
  - A vida  bem triste - murmurou ele. - Hoje estamos aqui, amanh...
  No completou a frase.
  - Mas para quem mora em Santa F - replicou Luzia - tanto faz estar em
cima da terra como debaixo dela,  a mesma coisa...
  Louca varrida - pensava Bibiana. - No sabe o que diz. O major
permaneceu um instante num silncio de constrangimento. Por fim deu um
passo na direo de Luzia e  disse:
  - Ento adeus, dona Luzia. Que Deus vos abenoe e guarde. Tomou-lhe da
mo e beijou-a respeitosamente. Depois apertou a mo de Bibiana e
murmurou:
  - Muito agradecido por tudo, minha senhora. - Voltando-se para o doutor,
perguntou: - Vosmec vai tambm?
  - Eu fico, major.
  Apertaram-se as mos em grave silncio. Bibiana acompanhou o oficial at
a porta sem dizer palavra. Mas quando o viu sair para a rua, ainda de
quepe na mo, deixou  escapar um quase involuntrio:
  - V com Deus!
  Atravs da fresta da porta ficou acompanhando com os olhos o vulto de
Erasmo Graa, que atravessava a rua na direo da praa.
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  Um cheiro morno de vento que passou por muito campo lhe chegou s
narinas. O vulto do major sumiu-se nas sombras das rvores. Bibiana
ficou olhando fixamente para  o lugar onde Bolvar tinha cado morto...
  Quando voltou para a sala, Luzia j se havia recolhido e o dr. Winter
comeava a acender um de seus charutinhos.
  - Ento? - perguntou o mdico, erguendo as sobrancelhas. Bibiana
sentou-se pesadamente numa cadeira e deixou escapar
  um suspiro de alvio.
  - Desse estamos livres, pelo menos por enquanto. Winter gostou daquele
verbo no plural. O estamos de certo
  modo o inclua na grande conspirao.
  - Sabe que estive na casa do Florncio hoje de manh? - perguntou ela.
Winter sacudiu a cabea negativamente. - Pois estive. Aquele menino 
teimoso como uma mula.
  -  um Terra.
  - Est roendo um osso duro mas no se entrega.  to orgulhoso que no
quis aceitar nenhum ajutrio meu.
  - Vosmec bem sabe por qu.
  - Sei. Mas  uma bobagem. O dinheiro a bem dizer  do primo dele.
  O dinheiro  do velho Aguinaldo - pensou Winter - e, por sinal, dinheiro
muito mal ganho. Mas no deu voz a essa reflexo. Limitou-se a fazer um
gesto vago.
  - Eu quis emprestar um dinheirinho pr rapaz comprar umas cabeas de
gado e comear uma criao. Tambm ofereci em arrendamento um pedao do
Angico. Ele s sabia  era sacudir a cabea e dizer: "No carece, titia.
No carece. J tenho um negcio em vista". Pura inveno. No tem nada.
  - Como  que a famlia tem vivido?
  - A mulher faz renda de bilro pra fora e o Florncio faz uns laos, uns
lombilhos e vende por a. Mas isso no chega pra dar de comer pras cinco
bocas que tem em  casa.
  Fez uma pausa durante a qual ficou alisando um friso imaginrio na saia.
Depois:
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  -  verdade que o Florncio vai ficar com a perna dura pr resto da
vida?
  - Boa como antes a perna no ficar. Mas acho que ele poder andar a
cavalo e caminhar sem muleta.
  Bibiana soltou um suspiro de pena.
  - Coitado! Merecia outra sorte.  um homem de bem como o pai. Seja como
for, voltou da guerra. Muitos no voltaram. Pois , doutor. s vezes eu
penso que Deus escreve  direito por linhas tortas. Se o Bolvar no
tivesse sido assassinado pelos capangas do Amaral, ele decerto tinha ido
pra essa guerra e talvez j tivesse morrido.
  - Tambm podia ter morrido de clera-morbo em Porto Alegre...
  - Ou podia ter nascido morto.
  -  como lhe digo sempre. No adianta a gente se preocupar. O que tem de
ser traz fora.
  - s vezes, sentada nesta cadeira, fico pensando, pensando e no chego a
compreender direito o que  que Deus quer da gente.
  - Talvez nem Ele mesmo saiba.
  - Dizem que fez o mundo em seis dias e descansou no stimo. Mas por que
foi que fez o mundo? Pra ficar depois vendo a gente penar aqui embaixo?
Ser que Deus  como  ela, que gosta de ver o prximo sofrendo? Deus me
perdoe!
  A religio de dona Bibiana - refletiu Winter - era muito curiosa. Tudo
indicava que ela ia  rnissa por puro hbito, porque antes dela sua me
e sua av tambm tinham  ido. Tratava os santos de igual para igual e em
certas ocasies revoltava-se contra eles com o mesmo fervor com que
noutras lhes invocava a ajuda.
  De resto - sorria Winter para seus pensamentos - as relaes entre os
habitantes da provncia e os santos eram singularssimas. As solteironas
que faziam promessas  a Santo Antnio para que ele lhes desse um marido,
quando no viam seus desejos satisfeitos tratavam de castigar o santo
casamenteiro, pondo-lhe a imagem dentro  d'gua, de cabea para baixo, e
s livrando-a dessa penitncia quando um pretendente aparecia. Mais de
um crente lhe assegurara
  680
  que no se devia nunca deixar bebida perto da imagem de Santo Onofre,
"pois o diabo do santo  cachaceiro".
  - De vez em quando penso na minha me - prosseguiu Bibiana com sua voz
calma e seca - no meu pai, na minha av e no que eles fizeram e
sofreram, e nos trabalhos  que passaram. De que serviu tudo isso? Me
diga, de que serviu? Aqui estamos ns sofrendo, considerando,
trabalhando, esperando. Primeiro esperei o meu marido que  foi pra
guerra; e no dia que voltou s tive ele por uns minutos, e logo em
seguida foi morto pelos bandidos dos Amarais. Esperei que o Boli
nascesse, que ele crescesse  e tivesse um filho. Agora Boli est morto,
o filho est crescendo e eu esperando que ele fique homem. Minha av
esperou muitas vezes o filho que tinha ido pra guerra.  Uma vez fiquei
na minha cadeira me balanando dum lado pr outro e esperando o Boli,
que tinha ido brigar com os castelhanos. Agora est a essa outra guerra
braba  que no acaba mais. Minha Nossa Senhora! Faz mais de cinco anos
que comeou!
  Bibiana calou-se e pensou naquele medonho julho de 1865As tropas
paraguaias tinham invadido a provncia e saqueado So Borja. Contava-se
que passaram cinco dias  a levar em canoas para o territrio argentino
tudo quanto podiam roubar na vila brasileira. No respeitaram nem as
igrejas! Eram uns ndios bandidos e quando bebiam  cachaa ficavam
piores que demnios. Ante a notcia de que uma coluna paraguaia avanava
rumo de Santa F, a gente ali na vila comeara a preparar-se para fugir.
Durante muitos dias mulheres, velhos e crianas estiveram de trouxas
feitas, os tarecos dentro das carretas, os cavalos encilhados - tudo
pronto, enfim, para a fuga.  Haviam sido dias e noites de susto e
agonia. Mas ela, Bibiana, tinha dito desde o princpio: "Da minha casa
no saio". Traava j seu plano: mandaria Licurgo com  Fandango para
longe e ficaria esperando os paraguaios sentada na sua cadeira de
balano ali mesmo no meio da sala...
  - Se esta guerra dura mais dois anos - murmurou ela - o Curgo  capaz de
se apresentar voluntrio. Quando penso nisso, sinto at um frio na
barriga.
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  - No tenha cuidado. A guerra no dura nem trs meses
  mais.
  - Quem sabe? Sempre acontece o pior. Esse Solano Lpez parece que tem
sete flegos.
  - Pois agora ele vai perder o stimo.
  - Tomara que vosmec tenha razo. Mas no sei... Bibiana voltou a cabea
e olhou demoradamente na direo
  da escada.
  - Sabe da ltima, doutor? - Baixou a voz. - Ant'ontem ela conversou
muito tempo com o Curgo. Era nisso que eu queria lhe falar...
  - Vosmec ouviu a conversa?
  - No, mas ele me contou tudo. Essa mulher perguntou se o menino queria
ir embora com ela.
  - E que foi que ele respondeu?
  - Respondeu que no, bem como eu esperava. Mas tanta coisa ela fez que
acabou fazendo o Curgo chorar.
  - Mas Luzia pensar mesmo em ir embora?
  Bibiana no respondeu. Ficou por um instante a olhar para o soalho e
depois, quase num cochicho:
  - Ser que ela vai durar muito ainda? - perguntou, sem erguer os olhos.
  Winter hesitou por breves segundos.
  - Pode ser que dure ainda alguns anos, mas pode ser que dure apenas
alguns meses.
  - Deus me perdoe, mas...
  Calou-se de sbito, como que se arrependendo em tempo do que ia dizer.
  - No precisa dizer o resto. Eu sei o que vosmec est pensando.
  - Sou uma mulher muito malvada, no sou, doutor?
  - Absolutamente. Acho que vosmec  uma pessoa muito prtica e muito
sincera.
  - No fica me querendo mal, ento? - Claro que no.
  - Mas  que no me sinto bem quando penso essas coisas.
  682
  - A gente no sente porque quer. Sente porque sente. Bibiana sorriu.
  - Engraado! Sabe quem costumava dizer isso? O falecido capito Rodrigo.
  - Se ele estivesse vivo tudo podia ser diferente, no?
  - Qual! Se o Rodrigo no tivesse morrido na Guerra dos Farrapos, tinha
morrido noutra. Decerto nesta. Ou em algum duelo. Ele gostava de comprar
briga. Brigava por  gosto. Quando no havia uma guerrinha, andava
triste...
  O gato cinzento de Bibiana entrou lento na sala e veio enroscar-se aos
ps da dona.
  - Ah! - fez ela, como quem de repente se lembra. - Quero lhe mostrar uma
coisa.
  Tornou a olhar furtivamente na direo da escada e ps em cima da mesa
seu leno amarrado  feio de trouxa, desfez-lhe os ns, estendeu-o
horizontalmente e tirou  do centro dele um papelucho cor-de-rosa,
cuidadosamente dobrado, que ali estava junto com algumas moedas de
cruzados e um naco de fumo de mascar, e deu-o ao mdico.
  - Leia isso, doutor.
  Winter aproximou o papel da luz das velas e leu:
  Meu filho, quando eu morrer Vai um dia ao campo-santo E reza a Deus por
algum Que em vida te amou tanto.
  E lembra ento, meu querido, Que ali no frgido cho Vermes me roem o
corpo Podre est meu corao.
  - Que  isto?
  - Versos. Foi ela que fez. Deu pr Curgo ler. Winter sacudia a cabea
lentamente.
  683
  - Inda mais essa! - comentou dona Bibiana, com surda indignao. - Faz
versos.
  O doutor devolveu-lhe o papel sem dizer uma palavra.
  - Ento?
  - Fazer versos no  o pior. Perto das outras coisas isso  at
inocente...
  - Eu sei. Mas ela est judiando do menino. Faz agora dois dias que no
olha pra ele, que no fala com ele.  como se a criana nem existisse.
Tudo por causa daquela  conversa de ant'ontem.
  - Por que vosmec no manda o Curgo para o Angico? L ele leva a vida
que gosta e fica longe da influncia da me.
  -  o que vou fazer.
  - E quanto ao resto... esperar.
  Entreolharam-se em silncio por alguns segundos, ao cabo dos quais
Bibiana murmurou:
  - Deus me perdoe.
  Inclinou-se para a frente e comeou a fazer cafun na cabea do gato,
que cerrou os olhos num sonolento gozo.
  Winter olhou em torno como se quisesse abranger com o olhar no apenas
aquela sala e aquele momento, mas tambm o espao de tempo que separava
aquele minuto exato  do dia em que Bibiana entrara pela primeira vez no
Sobrado.
  - Quase dezessete anos, no, dona Bibiana? Ela sacudiu a cabea,
devagarinho.
  -  verdade. Um tempo. Nenhuma guerra, que eu saiba, durou tanto.
  Winter pensou na sua curiosa situao de neutro; e reconheceu que
naquele conflito ele mantinha uma neutralidade benevolente para com a
sogra em detrimento da nora.
  - E depois - continuou ela - se houvesse muitas pessoas nesta casa a
coisa no era to difcil. A gente se distraa mais, tinha com quem
conversar. Quando o Curgo  est no Angico ns duas ficamos sozinhas. Ela
come os seus mingaus no quarto e eu como solita na mesa. Vosmec sabe, o
prato e os talheres e a cadeira do Boli continuam  no mesmo lugar, como
se ele estivesse vivo. E s vezes eu fao de conta que ele est,
converso com o meu filho. As
  negras quando entram com os pratos olham pra mim e decerto pensam que
estou louca ou caduca. Por falar nisso, no princpio quase fiquei louca
mesmo. Um casaro deste  tamanho e eu aqui dentro sozinha andando dum
lado pra outro, resmungando e procurando no sei o qu. A sorte  que eu
trabalhava o que dava o dia e no tinha muito  tempo pra pensar em
coisas ruins. Ia de noite pra cama com o corpo modo, fechava os olhos e
no queria pensar. Me doam as cadeiras, os braos, as pernas, o corpo
todo, mas muitas vezes, apesar de cansada, eu no podia dormir. Nunca
lhe aconteceu isso, doutor?
  - J, muitas vezes. E nessas ocasies, quando consigo dormir  um sono
cheio de sonhos aflitivos. No outro dia acordo cansado, como se tivesse
levado uma sova.
  - Isso mesmo. Pois eu ficava de luz apagada, ouvindo todos os barulhos
do Sobrado, os ratos correndo pelos cantos, o teto estralando, um que
outro grilo cantando  dentro de casa... Ficava pensando no que ia
acontecer no outro dia. L digo, doutor, passei o diabo. No princpio
ela fez o possvel pra me obrigar a ir embora.  Fez horrores. Mas eu
finquei p. S por causa do menino. Se eu fosse embora, perdia ele,
perdia tudo...
  - Eu sei muito bem disso, dona Bibiana.
  - E mesmo eu lhe contei muita coisa. Vosmec  a nica pessoa que me
entende direito. Acho que nem o Florncio  bem do meu lado nessa
questo. O pai dele nunca  me perdoou por eu ter ajudado o casamento do
Boli.
  - E o que torna sua vida mais difcil, dona,  que por causa do gnio da
Luzia pouca gente tem coragem de visitar o Sobrado.
  Bibiana fez um gesto de resignao.
  - Mas a gente se habitua a tudo. Converso com a negrada da cozinha, falo
com o gato, e quando o Curgo est aqui a coisa toda muda de figura.
  - Deve ser um alvio quando vosmec vai para o Angico. L pelo menos
fica sozinha com seu neto, longe dela...
  - Em parte  um alvio mas em parte no . Porque chega uma hora que eu
penso assim: "Que ser que ela est fazendo sozinha l no Sobrado?
Decerto maltratando as  negras". E comeo
  684
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  a ficar com medo de que ela prenda fogo na casa. No tenho mais sossego
e acabo achando melhor voltar pra c. Ento volto e a luta comea de
novo. Quase dezessete  anos nessa campanha, doutor. No  nenhuma
brincadeira.
  -  uma situao terrvel... que a beladona no resolve - sorriu Winter.
  E em pensamento completou cinicamente a frase: "Veneno resolveria". E
ficou a brincar com uma idia. Um dia chamam-no s pressas ao Sobrado
porque Luzia morreu repentinamente.  Ele chega e descobre que ela foi
envenenada. L est a teiniagu estendida na cama, o rosto esverdinhado
e contorcido, os olhos vidrados e mais vazios que nunca.  Dona Bibiana e
ele trocam por cima do cadver de Luzia um olhar carregado de
significao. No da velha h medo, dvida e uma interrogao ansiosa. E
no seu? Uma  benevolente promessa de silncio. Depois ele senta-se 
mesa para lavrar o atestado de bito. Causa mortos? Ach! A bastavam os
dramas da realidade, era pura estupidez  ajuntar a eles os criados pela
imaginao. Mas quem lhe garantia que os chamados dramas da vida real
no eram tambm produto da imaginao? Fosse como fosse, o dio  de dona
Bibiana pela nora no era to grande que pudesse um dia induzi-la ao
crime... Ou era? Nunca se sabe de todas as coisas de que um ser humano 
capaz...
  - De que  que est rindo, doutor?
  - De nada. Dumas bobagens que estou pensando. . .
  Por um instante ficaram ambos calados. Depois Bibiana disse:
  -  uma coisa bem triste ver esta casa vazia. Eu sempre quis ter um
bando de netos e bisnetos. Acho que vou morrer sem poder ver os filhos
do Curgo.
  - Vosmec diz isso de faceira. Tem uma sade de ferro.
  - Isso tenho. Mas acho que no passo dos sessenta e oito.
  - Quer dizer ento que j marcou a data de sua morte?
  -  um palpite...
  - Qual! Aposto como vosmec chega aos noventa.
  - Pois Deus lhe oua. No  que eu tenha medo de morrer. Ningum fica
pra semente. Mas  que no costumo deixar nenhum trabalho pela metade.
Quando comeo um bordado,  termino ele
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  nem que leve dez anos. Se eu morrer antes de ver o Curgo homem feito,
casado e com filhos, ento  porque no adiantou nada pra ningum eu ter
vindo a este mundo.
  - Garanto que vai at passar dos noventa. Desde que estou nesta vila
nunca vi vosmec de cama.
  - Minha av tambm nunca ficou doente de ir pra cama. E passou o diabo.
  -  porque a raa  boa, dona.
  - Hum! Pergunte pra ela se  da mesma opinio.
  - Talvez seja, dona Bibiana. A gente s vezes se engana com as
pessoas...
  - O doutor est sempre disposto a desculpar os outros e achar que todos
so bons.  que vosmec tem bom corao.
  - O que eu tenho  bons nervos.
  - D no mesmo. Ah! Por falar em nervos, a Leonor, minha filha, me
escreveu dizendo que tem andado muito nervosa e me convidando pra ir
visitar ela na Cruz Alta.
  - E vosmec vai?
  - No. Como  que vou deixar essa mulher sozinha aqui?  capaz de fazer
alguma barbaridade. Vosmec sabe o que aconteceu um dia destes? Pois
descobriu que tenho  um amor especial por aquele p de
marmeleiro-da-ndia e a malvada, sem eu saber, mandou cortar ele...
  - E cortaram?
  -  mais fcil me cortarem o pescoo.  que ando sempre de olho vivo e
p ligeiro. Cheguei bem na hora que o negro Faustino estava de machado
em punho, perto da  rvore.
  - E que foi que aconteceu?
  - Vosmec vai dar risada se eu contar.
  Um risinho convulsivo sacudiu os ombros de Bibiana.
  - Diga l.
  - Eu estava na janela do quarto dos fundos quando vi o negro se
preparando pra cortar o marmeleiro. "Pra com isso!" - gritei. "No
corte essa rvore! " E ela, que  estava perto da porta da cozinha,
gritou tambm: "Corta, negro!" O pobre do Faustino ficou olhando ora pra
mim ora pra ela, com ar de pateta. Ento
  687
  ela teve um acesso de nervos e comeou a berrar: "Corta, negro
sem-vergonha, seno eu mando te dar umas chicotadas e botar salmoura nas
feridas!" O Faustino, coitado,  tremia todo da cabea aos ps. Levantou
o machado devagarinho e ento eu peguei a pistola do Boli e apontei pra
ele: "Larga esse machado e vai t'embora, seno eu  fao fogo!" O negro
largou o machado e disparou pr fundo do quintal. Vai ento eu disse com
toda a calma: "Quem encostar a mo em qualquer rvore deste quintal
leva bala".
  Winter sorria. O gato abriu os olhos e pareceu ficar escutando tambm.
  - E vosmec era capaz de atirar mesmo? - perguntou o mdico.
  Bibiana hesitou por um segundo.
  - No sei. Mas acho que era. - Um brilho de malcia lhe passou pelos
olhos. - De qualquer modo, doutor, a pistola estava descarregada. E eu
nunca dei um tiro em  toda a minha vida. Contam que minha av um dia
matou um bugre. Mas no  uma histria engraada, essa que lhe contei?
  - Engraada? Sim. E um pouco dramtica tambm.
  - Pois causos como esse h muitos. Se eu quisesse contar todos, a gente
passava aqui a noite inteira. Birras, desaforos que ela me faz,
indiretas, malvadezas fininhas...
  Encolheu os ombros.
  - No princpio eu me incomodava. Agora no. Estou acostumada. Ela faz as
coisas e eu... nem gua.  como se no fosse comigo. Sei que tudo  uma
questo de tempo.  Estou habituada a passar trabalho. A vida nunca foi
fcil pra mim, nem pra minha me e meu pai, nem pra meus avs. Parece
que a sina dos Terras  passar trabalho.
  - Nesta provncia os homens em geral resolvem suas questes a arma
branca ou a arma de fogo. O duelo dura poucos minutos, um dos
adversrios fica estendido no cho...
  - Ou os dois. . .
  - Sim, ou os dois. E a questo est resolvida.
  - Mas ns mulheres no somos assim. Ficamos com a nossa guerra miudinha,
dia a dia, hora a hora...
  688
  - E  preciso mais coragem pra esse tipo de guerra feminino do que pra
um duelo a adaga ou pistola.
  - A pacincia  a nossa maior arma, doutor.
  Mais do que a pacincia - refletiu Winter - as mulheres tinham uma
constncia feroz no dio. No era um dio que se concentrasse todo num
mpeto para produzir um  gesto de selvagem violncia. Diferente do dio
dos homens, que se fazia labareda devastadora, mas se extinguia logo, o
dio das mulheres era uma brasa lenta que  ardia, s vezes escondida sob
cinzas, e que durava anos, anos e anos...
  - No final de contas, doutor, eu estou sempre amolando o senhor com as
minhas histrias. Mas tambm vosmec  a nica pessoa com quem posso me
abrir. Que diacho,  a gente tambm cansa de falar sozinha.
  Winter ergueu-se, abafando um bocejo.
  - Vosmec j pensou - perguntou ele, espreguiando-se - que para ela
tambm todos esses anos no tm sido nada agradveis? Ela odeia esta
casa, esta vila, esta vida.  E tem vivido ultimamente roda de dio e
roda ao mesmo tempo pelo tumor...
  Bibiana ficou olhando por um instante, absorta, para o pedao de noite
que a janela emoldurava.
  - H males que vm pra bem, doutor. Se no fosse esse tumor, decerto ela
j tinha ido embora. Vendia a casa, o Angico e levava o menino.
  - E eu no compreendo at hoje por que  que ela no foi. J reparei que
as pessoas podem ter um dio de morte a outra pessoa, lugar ou situao,
mas quando tm  uma oportunidade de fugir deles, no fogem. Vosmec se
lembra daquele paulista fazendeiro de caf que passou por aqui e quis
casar com ela?
  Bibiana sacudiu a cabea, fazendo que sim.
  - Pois eu estava certo de que ia sair casamento. O homem andava
entusiasmado e parece que Luzia tambm no estava de todo indiferente...
  - U! Andava at bem influda. Ouviu dizer que o homem tinha um palacete
na capital, carruagem com cocheiro de libr e no sei mais o qu...
  689
  - De repente o fazendeiro foi embora sem dizer nada a ningum... e nunca
mais voltou.
  Bibiana sorriu enigmaticamente.
  - E vosmec no sabe por qu?
  - Porque Luzia no quis casar com ele?
  - No. Foi porque um dia tive um particular com o homem e contei tudo...
  - Vosmec?
  - Contei que ela no  boa da cabea. Contei o que ela fez pr Boli...
No escondi nada. Fiquei com as orelhas ardendo de vergonha, no tive
nem coragem de olhar  pra ele... Mas contei.
  - E que foi que o homem disse?
  - Ficou meio pateta, de queixo cado. No outro dia montou a cavalo e foi
embora. No voltou aqui nem pra dizer "Adeus, cachorro!"
  - E Luzia percebeu alguma coisa?
  - Sabe-se l! Se percebeu no deu demonstrao. Inclinou-se e acariciou
a cabea do gato.
  Eram quase onze horas quando o dr. Winter se retirou. Bibiana mandou
Natlia fechar as janelas e portas e depois, como costumava fazer todas
as noites antes de deitar-se,  tomou dum castial, acendeu-lhe a vela e
saiu a percorrer as peas do Sobrado. Aquela casa era como uma filha
querida para a qual tinha cuidados e carinhos especiais.  Sentia cada
arranho na parede, cada falha no reboco como uma ferida aberta em sua
prpria carne. Fazia as negras esfregarem o soalho com sabo e casca de
coco todos  os sbados, e lavarem as vidraas pelo menos uma vez por
semana. Os mveis andavam sempre reluzentes, sem o menor gro de poeira.
E ai de quem entrasse no Sobrado  com as botas embarradas!
  Depois de revistar todas as peas do primeiro andar, Bibiana subiu para
o segundo. At o ranger dos degraus da escada sob o peso de seu corpo
era uma musiquinha  familiar e agradvel para seus ouvidos. Junto da
porta da sacada, parou e espiou a praa atravs das vidraas. L estavam
as rvores, suas velhas amigas, imveis  sob o luar; e o vulto escuro da
igreja, com sua torre incompleta. Pela rua passava naquele momento uma
vaca com uma lanterna
  690
  acesa nos chifres. Bibiana pensou no Amncio Braga, agente do correio.
Diziam que a mulher dele o enganava com um dos filhos do Bento Amaral.
Imaginem o Amncio  passeando de noite com uma lanterna presa nas
guampas! Riu um risinho baixo de garganta e continuou a caminhar ao
longo do corredor. Suas chinelas de l eram to  silenciosas como as
pisadas do gato. E na quietude do casaro ela ouviu sons estranhos
vindos do quarto de Luzia. Parou e prestou ateno: eram gemidos
trmulos  e prolongados, de mistura com soluos. Ficou imvel, de
castial na mo, a imaginar o que se estaria passando no quarto da nora.
Decerto estava estirada na cama,  com dor no estmago. Pensou em bater e
perguntar se ela precisava de alguma coisa. Mas tudo isso ficou s em
pensamento. No disse palavra nem se moveu. O que a  gente faz de mal
neste mundo, aqui mesmo paga. O sebo da vela escorreu e pingou na mo de
Bibiana, que despertou do amargo devaneio e continuou seu caminho.
Depois  de certificar-se de que l em cima tudo estava em ordem, entrou
no quarto de Curgo, fechou a porta devagarinho, aproximou-se da cama do
neto e ergueu a vela. O rapaz  estava de olhos abertos.
  - U... - estranhou ela. - Ainda no dormiu?
  - No, v.
  - Por qu?
  - Perdi o sono.
  - Ento acende uma vela pr Negrinho do Pastoreio pra achar ele de novo.
  O rapaz sorriu tristemente. Bibiana sentou-se na beira da cama e
perguntou:
  - Quer voltar pra estncia?
  Curgo soergueu o corpo, numa sbita animao.
  - Quero, sim. Quando?
  - Amanh.
  A luz amarelada da vela alumiava em cheio o rosto do menino... Por um
instante ela viu todos os seus mortos queridos no semblante do neto.
Pedro, Ana, Bolvar...  A maneira que Curgo tinha de olhar as pessoas,
com a cabea um pouco atirada para trs, era francamente do Rodrigo...
  691
  - Pois encilhe o zaino amanh de manh e toque pr Angico. O Faustino
vai junto.
  - O Faustino? Mas eu j sou homem, v, posso ir sozinho. Bibiana sorriu,
sacudiu a cabea num assentimento e murmurou:
  - Pois sim, capito Rodrigo, pode ir sozinho.
  Av e neto ficaram a entreolhar-se por um instante em silncio. Do
quarto contguo, abafados e dolorosos, vinham os gemidos de Luzia. A
testa de Curgo franziu-se,  seus lbios tremeram, e por seus olhos
brilhantes e midos passou uma sombra.
  Bibiana fez com a cabea um sinal na direo da alcova da nora.
  -  por causa disso que tu no podes dormir? -.
  - No h de ser nada, Curgo. Isso passa. Deita e dorme. Uma vez, havia
muito tempo, ela dissera essas mesmas palavras
  a Bolvar... "Isso passa. Deita e dorme."
  O rapaz obedeceu, puxou a colcha at o queixo e sorriu para a av. Em
pensamento Bibiana deu-lhe um longo beijo na face. Mas s em pensamento,
pois na realidade  limitou-se a bater-lhe trs vezes no ombro com a
ponta dos dedos. Ergueu-se e saiu sem fazer o menor rudo.
  Os gemidos de Luzia tinham cessado. Bibiana entrou no prprio quarto,
despiu-se lentamente, enfiou o camisolo de dormir e estendeu-se na
cama. O bom mesmo seria  dormir logo sem pensar, porque seus pensamentos
sempre eram maus e tristes. Fechou os olhos. Pela sua mente passou o
vulto do major Erasmo Graa. Depois, o de Florncio,  caminhando e
puxando por uma perna. Viu tambm Bolvar cado de borco no meio da rua
com a cara numa poa de sangue. Revolveu-se na cama, inquieta, e por
algum tempo  ficou escutando o silncio. Diziam que a guerra estava por
terminar: era questo de meses ou talvez at de semanas... Mas, fosse
como fosse, quando terminasse a  guerra contra Solano Lpez a outra
guerra ia continuar feroz ali no Sobrado.
  Soltou um profundo suspiro, soergueu-se na cama e apagou a vela com um
sopro.
  
  Num vero mui seco Jos Fandango foi levar a tropa a So Gabriel.
  Como sempre acontecia, a peonada das estncias por onde ele passava
ficava alvorotada quando via o velho chegar
  pois no havia quem no apreciasse seus ditos, chistes e histrias.
  Foi assim que numa bela noite, numa estncia de Tupanciret, Fandango
sentou no galpo perto do fogo e, enquanto o chimarro andava  roda,
ficou a solar
  porque quando pegava a palavra no entregava a mais ningum.
  Disse:
  Ds de gurizote ando cruzando e recruzando o Continente
  e no ha canto destes pagos que eu no conhea.
  Fiz muita tropa nos campos da Vacaria
  nos de Cima da Serra
  nos de Baixo da Serra.
  Andei pelo vale do Uruguai
  e muita areia comi nesse deserto brabo que vai do Mampituba ao Chu.
  Afiles de vezes cortei a serra Geral
  e outros tantos a coxilha Grande.
  Pela zona missioneira e pela Campanha, meu Deus, sou capaz at de andar
de olhos tapados. Tenho conhecido gente de todo o jeito:
  estancieiro pequeno e grande
  tropeiro e carreteiro
  mascate e bolicheiro
  doutor formado e curandeiro
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  polcia e contrabandista
  padre e bandido
  soldado e paisano
  ndio vago e juiz de roupa preta.
  Tambm tenho encontrado mulher de todo o plo
  morocha, castanha, ruiva
  rica, pobre, remediada
  gorda, magra, alta, baixa
  moa de famlia, china rampeira
  mulher com medo de rato
  e fmea que briga como macho.
  Mas fui aprendendo aos pouquinhos
  que ha moas e moas
  e que  sempre bom a gente atentar
  no que diz a lngua do povo:
  Em So Borja e So Vicente, Pra casar no se demora Que as moas l
desses pagos Cortam a gente de espora!
  L na terra de Pelotas As moas vivem fechadas. De dia fazem biscoito,
De noite bailam caladas.
   moo, se eu l contasse, Vanc diria que eu minto: As moas de
Livramento Usam pistola no cinto!
  Aprendi tambm que cada hombre, como o cavalo, tem seu lado de montar.
  A questo  a gente descobrir...
  Porque hai gachos e gachos, nem todo o nosso povo  igual.
  Os da fronteira so largados, falam sempre meio gritando e com ar de
provocao.
  694
  Gostam de contar bravatas e de fazer gauchadas
  tm mo aberta e corao grande
  e assim como se espinham por qualquer coisa e querem logo brigar
  em seguida ficam amigos e do a vida por vossunc.
  Os da zona missioneira so retrados, falam pouco, no gostam de
ostentao.
  Do um boi pra no entrar em briga, mas depois de entrar do uma boiada
pra no sair.
  Agora, o que eu acho engraado  esse povo que vive l pras bandas do
mar, nos campos de Viamo, de Conceio do Arroio e Santo Antnio da
Patrulha.
  Tm fala cantada que s galego
  so gente pacata e meio sovina
  mas cumprideira de suas obrigaes.
  Uma coisa, patrcios, eu ls garanto:
  pra meu gosto o verdadeiro Rio Grande fica da margem direita do Jacu,
prs lados de So Borja e pra baixo
  na direo de Uruguaiana, Santana do Livramento, Dom Pedrito e Baj
  principalmente na campanha, onde sempre teramos armas com os
castelhanos.
  Da margem esquerda pr norte e pr mar
  tem gringo demais.
  No gosto de alemo.
  Falam uma lngua do diabo
  olham pra gente com um ar de pouco-caso.
  Tudo neles  diferente:
  as roupas, as danas, as comidas, as casas
  at o cheiro.
  Quando vejo um homem de pele muito branca
  cabelos de barba de milho e olho de bolita de vidro
  at me d nojo.
  Se eu fosse governo, mandava essa alemoada embora.
  No  que eu seja mesquinho, somtico ou malevo:
  estrangeiro tambm  filho de Deus.
  Mas cada qual deve ficar sossegado na sua terra
  695
  com seus parentes e amigos, seus costumes e cacoetes. Duns anos pra esta
parte, tem chegado tambm muito italiano. Se empoleiraram na serra,
porque a alemoada, que  chegou primeiro, pegou os melhores lugares na
beira dos rios.
  J andei por essas novas colnias da regio serrana. A fala deles tem
msica e  doce como laranja madura e meio parecida com a nossa. Gostam
de comer passarinho  de fazer e beber vinho de cantar, de ouvir missa de
padre e de procisso.
  Vossuncs so muito moos, no pegaram a Guerra dos Farrapos. Pois o
velho Fandango teve a honra de servir com Jos Garibaldi, que tambm era
gringo mas gringo de  senhoria.
  Sabem o que foi que ele disse na sua lngua atrapalhada? Que com a nossa
cavalaria era capaz de conquistar o mundo. Pois  como eu ls ia
dizendo: do Jacu pras  bandas do mar tem muito estrangeiro. Na vida do
Continente tudo anda demudado quase ningum mais usa chirip agora  s
bombachas. Nos fandangos j no danam tanto  a chimarrita, o tatu e a
meia-canha: o que querem  valsa, xtis, mazurca, polca, essas bobagens
estrangeiradas.
  Se h coisa que me d quizlia  ver esses tais postes do telgrafo,
quando ando viajando pela campanha.
  Se eu fosse governo mandava derrubar tudo.
  Onde se viu a gente passar bilhete pra outra pessoa por um arame
  Isso at  uma pouca-vergonha, porque
  se quero dar algum recado, justo um chasque, arranjo um prprio
  ou vou eu mesmo.
  696
  Ainda no ano passado eu ia levando uma boiada pr municpio de
Uruguaiana quando pela beira da estrada vi passar um trem.
  O diabo da locomotiva vomitava fumaa e fogo, e parecia dizer
  j-te-pego... j-te-largo... j-te-pego... j-te-largo...
  De repente soltou um apito,
  a boiada meio que se assustou e quase houve um estouro.
  Fiquei fulo de raiva, tirei a pistola da cinta e traquei bala no trem.
  Vossuncs meninos so modernos
  falam em metro, quilo e litro.
  Eu sou homem mui antigo
  do tempo da ona
  do palmo craveiro e da bebida em quartilho.
  Pois  como estou dizendo
  com tanto gringo, tanto estrangeiro
  com tanta moda nova
  com tanta gente morando em cidade
  nossos homens esto ficando mui frouxos.
  E se no ha logo uma guerra ou alguma revoluo
  vai tudo acabar maricas.
  Nesse dia a castelhanada cruza a fronteira brincando e toma o Continente
a grito.
  Mas no h de ser nada, porque como diz o rifo
  em qualquer pocinho d'gua, Deus pode fazer um peixe.
  E venha de l esse mate, que j estou de goela seca.
  697
  O Sobrado - VI
  26 de junho de 1895: Noite
  Maria Valria acende a lamparina no quarto dos sobrinhos e retira-se,
depois de recomendar:
  - Fiquem bem quietos. J vou trazer alguma coisa pra comerem.
  Quando a porta se fecha, Torbio e Rodrigo se entreolham.
  - Vamos brincar de vaca-amarela? - pergunta o primeiro.
  - Vamos. Eu digo: vaca-amarela cagou na panela, trs a mexer, quatro a
comer, quem falar primeiro come.
  Ambos apertam os lbios para no falar, e a muito custo contm o riso.
Ficam assim durante vrios segundos, as bochechas cheias de ar - um ar
que ameaa sair-lhes  na forma duma risada explosiva. De repente a porta
se abre e Fandango entra.
  - U! Que  que esto fazendo a to quietos?
  Os meninos rompem numa gargalhada, pulam da cama e comeam a gritar:
  - O Fandango comeu! O Fandango comeu!
  O velho baixa para eles um olhar desconfiado e pergunta:
  - Comeu o qu?
  - Bosta de vaca! - exclamam os dois ao mesmo tempo. - Bosta de vaca!
  Fandango sorri mostrando os dentes escuros e midos, senta-se na cama e
fica olhando para o cho.
  -  o que todos ns vamos acabar comendo se o stio continua... -
murmurou ele. - Bosta de vaca com farinha e caldo de laranja!
  699
  Rodrigo e Torbio aproximam-se do velho; o mais moo monta-lhe na perna,
o outro toma-lhe do brao.
  - Conta uma histria pra ns.
  - Estou mui cansado.
  - U... - faz Torbio. - Tu conta  com a boca no com a perna. Tua boca
tambm est cansada?
  - Conta uma histria do Pedro Malasarte logrando o Joo Bobo - sugere
Rodrigo. - Aquela que o Pedro aquentou no fogo uma panela de ferro at
que ela ficou em brasa  e depois vendeu ela pr Joo Bobo dizendo que
era uma panela mgica que no precisava de fogo pra fazer comida. Vai
ento o Joo Bobo compra a panela e quando ela  esfria ele v que foi
empulhado. Conta!
  - Pois tu j contou, muchacho! - boceja Fandango.
  - Mas agora conta tu.
  Torbio tira a pistola do cinto de Fandango e comea a brincar com ela.
  - Larga essa arma, menino, que ela pode disparar. Arrebata a pistola das
mos do menino e torna a p-la no
  coldre.
  - Ento conta outra histria - pede Rodrigo.
  - A do Negrinho do Pastoreio - refora Bio.
  - J contei essa mais de mil vezes.
  - Mas conta outra vez.
  Fandango sorri, faz Rodrigo sentar-se no cho e diz:
  - Muita histria contei pr Licurgo quando ele era assim do tamanho de
vossuncs...
  E por um instante ele rev os campos da estncia em outros tempos,
quando saa pelas invernadas com o Curgo de quinze anos, a ensinar-lhe
coisas.
  Um dia perderam no Angico um terneiro brasino da estima de Licurgo e o
menino ao anoitecer acendeu um coto de vela e fez uma promessa ao
Negrinho do Pastoreio. No  dia seguinte, mal rompeu a alvorada, l
estava o terneiro perdido, berrando na frente da casa da estncia.
  - Conta! - insistem os meninos.
  - Est bem, xaroposos! Est bem.
  700
  Fandango recosta-se na cama e com a sua voz especial de contar casos,
uma voz pausada de conversa ao p do fogo, comea:
  - Era uma vez um estancieiro podre de rico e louco de to malvado...
(Isso se passou nos tempos de dantes.) Pois diz-que esse hombre mau
tinha at dinheiro enterrado,  mas era to sovina que no comia ovo pra
no botar a casca fora. Na estncia ele no dava pousada nem comida pra
ningum. Pra encurtar o caso, o diabo do hombre  era to ruim que por
onde ele andava nem os quero-queros cantavam. Pois essa peste tinha um
filho, um menino, ruim como o pai, porque quem sai aos seus no
degenera...
  O velho faz uma curta pausa, puxa um pigarro e prossegue:
  - Tinha tambm nessa estncia um negrinho escravo, preto como fundo de
panela, mas de dentes brancos que nem asa de gara. Negro, lindo, mesmo!
  - Como era o nome dele? - pergunta Rodrigo.
  - No tinha - Torbio apressa-se a responder. - Tu sabe.
  -  - confirma o velho. - No tinha. Quando um padre passou pela
estncia e comeou a batizar quem ainda era pago, o negrinho tambm
quis um padrinho. Vai entonces  o estancieiro gritou: "Negro no se
batiza!" O pobre do moleque baixou a cabea e resolveu que ia ser
afilhado da Virgem Nossa Senhora.
  - E foi?
  - Foi.
  De olhos acesos, os meninos escutam a histria com uma ateno
fascinada, e com um gosto novo de quem ouve um belo conto pela primeira
vez.
  - Todo o mundo judiava do Negrinho naquela estncia maldita,
principalmente o estancieiro e o filho. Pois diz que um dia o hombre
mau mandou o Negrinho pastorear,  num potreiro enorme de trinta
quadras, trinta cavalos tordilhos. O Negrinho montou num baio e se
foi...
  - E os cavalos fugiram - antecipa-se Rodrigo.
  - Cala a boca!
  - Pois  - continua Fandango. - Quando anoiteceu, o Negrinho ficou
cansado, pegou no sono, deixando o baio  soga. Alta noite vieram uns
guaraxains, roeram a soga,  o baio fugiu, os
  701
  tordilhos tambm se foram e, num abrir e fechar de olhos, se sumiram na
noite grande. Quando acordou, o pobre do Negrinho viu que tinha perdido
o pastoreio. Entonces  desandou a chorar.
  - E quem  que foi contar pr estancieiro que os cavalos tinham fugido?
- pergunta Rodrigo.
  - Ora! - faz Torbio. - Tu sabe. Foi o filho dele, no foi, Fandango?
  - , foi o filho da me do guri, xereta simbergenza. Foi contar ao pai.
O pai entonces manda amarrar o Negrinho num palanque e aplica-lhe uma
sumanta de relho dessas  de tirar a alma dum vivente a guascaos. Lept!
Lept! Lept! O Negrinho ficou chorando e sangrando. E como castigo o
hombre malvado mandou o pobre do menino sair na  noite escura pra
campear o baio e os trinta tordilhos perdidos.
  Fandango faz uma pausa para observar melhor os dois meninos, cujos
rostos a luz da vela tinge dum amarelo alaranjado. Do outro quarto vem o
barulho surdo da cadeira  de balano da velha Bibiana. Ela tambm sabe a
histria do Negrinho do Pastoreio - reflete o velho - mas conta-a de
outro modo. H mil modos de narrar esse mesmo  "causo". Fandango ouviu
um no galpo de certa estncia de So Gabriel; ouviu outro na Soledade e
finalmente um outro muito diferente em Vacaria. Bem diz o ditado:  "Quem
conta um conto aumenta um ponto".
  - E da? - pergunta Torbio.
  - Da o Negrinho teve uma idia. Foi ao oratrio da Virgem sua madrinha
e tirou de l um coto de vela acesa e saiu com ela na mo pelo campo...
  - E foi pingando cera no cho, no foi? - pergunta Rodrigo.
  - Isso mesmo. Foi pingando cera, e cada pingo quando caa ficava aceso e
brilhando como uma outra vela. E tinha tantos pingos que o campo ficou
todo alumiado, claro  como o dia. Entonces o Negrinho achou o seu baio e
os trinta tordilhos. Montou no baio e repontou a tropilha pra estncia,
pr'um lugar que o estancieiro tinha marcado.  Mas de repente chegou a
noite, o Negrinho ficou com sono, amarrou de novo o baio e dormiu. E de
noite o filho
  702
  do estancieiro veio, o malvado, e enxotou os trinta tordilhos, e a
tropilha outra vez se perdeu no campo.
  - E que foi que o estancieiro fez?
  - Deu outra-sova no Negrinho, uma sova to forte que o desgraadinho
dessa vez comeou a se esvair em sangue e a revirar os olhos. Ento o
estancieiro pensou: "O  diabo vai morrer.  noite e eu no vou me dar o
trabalho de abrir uma cova pra enterrar esse moleque. Vou botar ele
dentro do panelo dum formigueiro que tem no  meio do campo. L as
formigas comem as carnes dele e ficam s os ossos.  isso que eu vou
fazer".
  - E fez?
  - Fez. Primeiro se quedou ali pra ver o que as formigas faziam. Os
bichinhos se assanharam e cobriram logo o corpo do Negrinho e comearam
a comer as carnes dele.  Entonces o estancieiro foi-se embora
satisfeito, dando risada, o cachorro!
  - E os cavalos?
  - Os cavalos continuavam sumidos.
  - E aonde  que foi o estancieiro?
  - Foi dormir. Diz-que teve sonhos de arrepiar o cabelo, e que a noite
ficou feia, e que veio uma cerrao da cor de plo de rato, e durou
trs dias e trs noites.
  Fandango cala-se e fica olhando para a chama da vela, que dana, fazendo
danar tambm nas paredes caiadas as sombras das trs pessoas que ali
esto.
  - E depois?
  - Ora, um dia o estancieiro resolve ir at o formigueiro pra ver a
cavera do Negrinho. Mas quando chegou l ficou de boca aberta com o
que viu.
  Fandango entesa o busto, ergue as mos ossudas e tostadas. Sua cara est
sria, os olhos arregalados, como se ele fosse o prprio estancieiro no
momento de fazer  a descoberta espantosa. Torbio e Rodrigo esto
parados, de boca entreaberta, um ar entre medroso e palerma e no qual,
no obstante, h um leve toque de maliciosa  incredulidade.
  - O Negrinho l estava de p - continuou o velho - dando uma risada, no
meio do formigueiro, nuzinho mas -
  703
  inteirinho, tirando as formigas do corpo com os dedos. E ao lado dele, assim no
ar, numa nuvem de luz, a imagem da Virgem Nossa Senhora, rindo pr
afilhado. No muito longe  do formigueiro, o cavalo baio pastava e em
roda dele os trinta tordilhos sacudiam as crinas. O estancieiro perdeu a
fala e ficou ali duro como uma estauta.
  Nesse instante Maria Valria entra no quarto, abrindo a porta com um
gesto brusco. Num sobressalto os meninos voltam a cabea para a
recm-chegada e uma careta de  contrariedade contorce-lhes
  os rostos.
  - Venham comer - diz ela. - Laranja e farinha. Foi o que se pde
arranjar.
  - Espera, madrinha - diz Rodrigo. - O Fandango est contando a histria
do Negrinho.
  Maria Valria faz que os sobrinhos agarrem os pratos, onde gomos de
laranja descascada esto sobre uma camada de farinha de mandioca,
empapada aqui e ali de sumo.  Com os pratos nas mos, mas os olhos
postos em Fandango, os dois rapazes esperam a continuao do "causo".
  O velho ergue os olhos para Maria Valria e diz:
  - J estou no fim, dona.
  Ela fica de braos cruzados, imvel e tesa, esperando.  tbia luz da
lamparina seu rosto est todo manchado de sombras que a envelhecem, e
como que lhe tornam maior  o nariz, mais encovadas as faces.
  - E depois, Fandango? - pergunta Rodrigo.
  - O Negrinho solta uma risada, pula pra cima do lombo do baio...
  - Em plo?
  - Em plo no mais... E sai repontando campo fora os trinta cavalos
tordilhos.
  O velho faz uma pausa, respira fundo e a seguir, com voz mais macia,
remata a histria:
  - Diz-que da por diante em muitos lugares do Rio Grande tropeiros,
carreteiros, gachos andarengos e pees de muitas estncias comearam a
ver o Negrinho passar  certas noites montado no
  704
  seu baio tocando por diante a cavalhada tordilha. Todos sabiam do causo
do estancieiro mau e achavam que tudo tinha sido um milagre da Nossa
Senhora. Diz-que agora  tudo que se perde no mundo o Negrinho acha, mas
ele s entrega os perdidos a seus donos se estes lhe acenderem uma vela.
O Negrinho no quer vela pra ele, mas sim  pr altar da sua Madrinha.
  - E ele ainda anda por a, Fandango? - pergunta Rodrigo.
  - Diz-que.
  Torbio fica pensativo por um instante e depois indaga:
  - E essa histria  de verdade ou de mentira? Fandango ergue-se
devagarinho, respondendo:
  -  uma histria linda, chiquito.
  Depois, dirigindo-se a Maria Valria, murmura:
  - Acho que vou acender hoje uma vela pr Negrinho pra ele trazer de
volta pra casa o meu neto que se perdeu nessa revoluo. - Sorri. Fecha
um olho. - E pr afilhado  da Virgem me devolver outras coisas, muitas
outras coisas que tenho perdido nesta vida.
  Sai do quarto caminhando no seu tranco sutil e faceiro.
  - Vamos, comam duma vez! - diz Maria Valria aos sobrinhos.
  - Estou enjoado de laranja - choraminga Rodrigo. - D dor de barriga.
  -  o que tem.
  Bio esfrega um gomo na farinha e depois mete-o na boca, trincando-o; o
sumo lhe escorre pelas comissuras dos lbios.
  - Ento conta outra histria, titia.
  - Chega de histrias. Comam e vo dormir.
  De repente, numa invencvel sensao de cansao, ela se senta
pesadamente na cama e leva ambas as mos s tmporas. A cabea agora lhe
di tanto que parece que se  vai partir. Senhor, quando acabar este
martrio? Quando? Quando? Quando?
  P ante p Fandango entra no quarto de Bibiana, que est s escuras. O
soalho estrala.
  - Quem  l? - pergunta ela.
  705
  - Sou eu.
  - Eu quem?
  - O Fandango.
  Na penumbra ele distingue a silhueta da velha, sentada na sua cadeira.
Por alguns segundos Bibiana permanece silenciosa.
  - Ah! - faz ela por fim, como se s agora reconhecesse o capataz. - Que
 que anda fazendo na cidade? Quem  que ficou tomando conta do Angico?
  Fandango fica um pouco confuso. Valer a pena lembrar a pobrezinha do
que est acontecendo?
  - Vossunc no se lembra mais? - pergunta ele. - A revoluo...
  Cala-se de sbito, sem jeito de explicar.
  - Ah... pois . Os caramurus esto a.
  - Como  que vossunc vai passando?
  - Como Deus manda. Me acabando aos poucos. Estou quase cega. Ningum me
conta mais nada. Os Farrapos j chegaram?
  Pobre da velha, caducando!
  - No - responde ele. - Mas vo chegar logo, no se preocupe.
  - Se o capito Rodrigo voltar, diga pra ele que suba, que no repare eu
no descer. Estou mui cansada e enxergando pouco. Ningum me conta mais
nada. Onde est essa  gente toda? Parou o tiroteio? O Bolvar
aind'agorinha esteve aqui conversando comigo. Me trouxe notcias da
Leonor.
  Fandango fica pensativo. "Tenho s cinco anos menos que ela. Qualquer
dia vou andar tambm por a caducando, dizendo bobagens, servindo de
palhao prs outros. Mil  vezes uma boa morte!" O melhor seria morrer
num baile, com as idias ainda claras, cair de repente sem vida no meio
duma tirana ou duma chimarrita, como uma vela  nova de chama brilhante
que o minuano apaga com um sopro, e no como um coto que se queima at o
fim, numa agonia triste.
  - Vossunc no quer nada? - pergunta ele.
  A velha fica pensativa por um instante e depois diz:
  - Quero que v amolar o boi, que tem o couro grosso.
  706
  - Est bem, dona.
  Fandango sai do quarto lentamente, caminhando na ponta dos ps.
  A noite avana e o silncio l fora continua. Os homens conversam em voz
baixa na cozinha, onde Joo Batista conta casos do tempo da escravatura.
Na sala de jantar,  enrolado no poncho, Florncio senta-se numa cadeira
e prepara-se para a viglia da noite. Em cima do consolo, ao p do
espelho, arde a ltima vela.
  Licurgo aproxima-se do sogro e pergunta:
  - Por que no sobe pra deitar na sua cama?
  - Estou bem aqui.
  - No adianta nada o senhor se martirizar desse jeito. J ontem passou a
noite a sentado. No tem comido nada. Um homem da sua idade no pode
agentar essas coisas.
  Florncio cerra os olhos e no responde. Curgo recebe o silncio do
sogro como uma bofetada.
  Rudo de passos na escada. Maria Valria entra na sala, aproxima-se <le
Licurgo e diz:
  - A Alice est de novo com muita febre.
  Florncio continua mudo, sem sequer erguer a cabea para a filha. E como
Licurgo tambm nada diz, Maria Valria trana o xale e encaminha-se para
o vestbulo.
  - Vou chamar o dr. Winter - anuncia ela.
  - O qu? - exclama Curgo, dando alguns passos na direo da cunhada.
  - Se os homens desta casa vo deixar a Alice morrer por falta de
recursos - diz ela, parando  porta do vestbulo - eu preciso fazer
alguma coisa.
  - Est louca!
  Florncio levanta-se, aproxima-se de Maria Valria, toma-lhe do brao e
murmura:
  - Tenha calma, minha filha. Pense bem no que vai fazer. Esta cena toda
tem um tom herico-teatral que deixa Licurgo
  constrangido e ao mesmo tempo irritado. Est certo de que a cunhada no
ter coragem de sair sozinha quela hora da noite, sabendo que o Sobrado
est cercado de  inimigos. O que ela quer
  707
  mesmo  pr em brios os homens da casa. Mas ele no se deixa levar assim
to facilmente por este ardil.
  - A senhora no consegue dar nem trs passos na rua - diz ele sem
encarar Maria Valria. - Tem um maragato de tocaia na torre da igreja.
  - Que me importa? - exclama ela.
  - E a senhora sabe onde est o dr. Winter a estas horas? Florncio tenta
puxar a filha para dentro da sala.
  - Me largue, papai!
  - Por favor, no grite - suplica o velho num sussurro. - Os outros podem
nos ouvir.
  - Pois que ouam!  possvel que algum deles crie vergonha... Aparece um
vulto  porta da sala de jantar. Pela altura Curgo
  reconhece Antero.
  - Que  que quer? - pergunta com rispidez. O homenzinho d alguns passos
e pede:
  - Vossunc me d licena?
  - Licena pra qu?
  - Para ir buscar o doutor?
  - Ningum lhe encomendou sermo!
  - Curgo! - exclama Florncio. - A inteno do homem  boa.
  Antero continua parado, encolhido dentro do poncho.
  - Se vossunc d licena eu vou. Sou pequeno,  mais fcil pra mim sair
sem ningum me ver...
  Cala-se. Os outros esperam.
  - Pois  - continua o "nanico". - Saio pelos fundos, pulo o muro, sigo
de rasto. Dou volta pelas ruas de trs e entro pelos fundos da casa do
doutor e digo pra ele  que dona Alice est passando mal e que o coronel
Licurgo...
  - No meta o meu nome nesse negcio. No pedi nada a ningum.
  - Est bem - concorda Antero com humildade. - No meto o seu nome. S
digo que dona Alice est passando mal e peo pr doutor vir...
  708
  - E depois - pergunta Florncio - como  que vossuncs vo voltar?
  Antero encolhe os ombros magros.
  - D-se um jeito... - diz. - Podemos erguer uma bandeira branca. Sabendo
que  um caso de doena, os maragatos no atiram e nos deixam passar.
  Por alguns instantes ningum diz palavra. Maria Valria  quem fala
primeiro:
  - Muito obrigada, moo. - E depois, dirigindo-se ao cunhado: - Ento?
Que  que diz?
  Sem olhar nem para a cunhada nem para Antero, Curgo responde:
  - V. Mas no peo favor pra maragato. No meta meu nome nesse negcio.
E se receber algum balao no me culpe. Eu no pedi nada. A lembrana
foi sua.
  - Mas a mulher  sua - replica Maria Valria. Curgo explode:
  - Cale a boca!
  Antero faz meia-volta e encaminha-se para a cozinha. Florncio
aproxima-se dele, pe-lhe a mo no ombro e diz:
  - Deus l acompanhe. Vossunc  um homem de coragem e um homem de bem.
  Mas cuspi na cara do Tinoco - pensa Antero. Sou um covarde, um malvado.
Decerto agora chegou a hora de Deus me castigar. Se eu tiver sorte e
voltar vivo com o doutor,   porque Deus me perdoou. Mas acho que vou
ficar mas  estendido no meio da rua com cinco balas no corpo, me
esvaindo em sangue. Ser que morrendo eu encontro no  outro mundo minha
me e meu irmo?
  Antero funga, e com mo trmula pega o chapu e enfia-o na cabea. Na
cozinha conta aos companheiros o que vai fazer. Um deles diz:
  - Tu  bem louco, nanico. Outro vem apertar-lhe a mo:
  - Tu  mais homem do que eu pensava. Deus te guie.
  709
  O velho Fandango, que remexe nos ties do fogo, limita-se a dizer, sem
olhar para Antero:
  - Bem diz o ditado: "Tamanho no  documento".
  A voz do negro Joo Batista vem do fundo da cozinha:
  - Tu sabe, Antero, que se os maragatos te pegarem te tratara como
espio?
  - No...
  - E tu sabe o que  que eles fazem com espio?
  Antero espera, de boca entreaberta, uma secura na garganta. - Passam a
faca no pescoo - conclui o negro, com voz risonha.
  - No assusta o outro! - protesta Jango Veiga. - Seja feliz,
companheiro.
  Antero abre a porta da cozinha. A noite entra no Sobrado num bafo
glido. As rvores do quintal esto paradas no silncio azulado. Sem
voltar a cabea e sem dizer  palavra, Antero comea a descer lentamente
a escada.
  As conversas cessaram. Os homens acham-se deitados no cho da cozinha,
ao redor do fogo onde as brasas ainda esto vivas. Muitos dormem,
ressonam alto; s vezes  um deles fala no sono, balbucia uma palavra,
solta uma exclamao.
  De olhos abertos e fitos no vo da porta da cozinha, que o reflexo das
brasas vagamente alumia, Florncio continua sentado na sua cadeira.
Extinguiu-se a luz da  ltima vela, e ele tem a impresso de que a
escurido e o silncio aumentam o frio. A dor no peito lhe voltou e, com
ela, a falta de ar e a aflio. Para ele a noite   pior de passar que o
dia. Tem de dormir recostado em travesseiros, pois quando se deita a
falta de ar aumenta. Sente um frio que lhe vem subindo dos ps e tomando
conta das pernas, das coxas, do ventre; quando este gelo lhe chegar ao
corao tudo estar acabado...
  Pensa em Antero. Quanto tempo far que o homenzinho se foi? Duas horas?
Trs? Quanto tempo faltar ainda para clarear o dia?
  Rudo macio de passos. Florncio v um vulto aproximar-se dele, parar
diante de sua cadeira.
  - Quem ?
  710
  - Sou eu. O Fandango.
  - Que foi que houve?
  - Nada. S vim ver como vossunc vai passando. Falam em cochichos para
no acordarem os outros.
  - A dor me voltou.
  - Mui forte?
  - Mais forte que da ltima vez.
  -  o diabo. Mas daqui a pouco decerto o nanico chega a com o dr.
Winter e ele d uma arrumao nesse seu peito.
  - Vossunc acredita mesmo que ele vem?
  Fandango fica mudo por um instante. Senta-se no cho ao lado do amigo,
encruza as pernas e depois sussurra:
  - Pra l falar a verdade, no acredito muito. O doutor pode ter ido
embora de Santa F, pode ter morrido... sei l! E o Antero a esta hora
decerto est amarrado  numa rvore, com a garganta aberta...
  Passos no andar superior.
  - Como estar a Alice? - pergunta Florncio.
  - Vim de l ind'agorinha. A febre voltou e ela est se remexendo muito,
batendo com a cabea dum lado pra outro, e at variando...
  A Alice que Florncio agora v em seus pensamentos tem oito anos,
tranas compridas e est correndo no quintal atrs duma borboleta. Maria
Valria aparece a uma  janela e grita com sua voz esganiada: "Deixa
quieto o pobre do bichinho!"
  Florncio suspira fundo e depois pergunta:
  - E vossunc no dorme, Fandango?
  - J tirei a minha torinha. No sou homem de mucho dormir. Acho at que
sou meio parente de coruja. Gosto da noite que me lambo todo.
  Uma pausa curta. Depois a voz calma de Florncio:
  - Vossunc se lembra do Monarca, o meu bragado?
  - Se no vou me lembrar! Era flor de animal.
  O Monarca era o cavalo de estimao de Florncio. Serviu-o durante
muitos anos e foi morto num combate no princpio da revoluo.
  711
  - Pois tive a noite passada um sonho esquisito com ele. Sonhei que
estava num potreiro muito grande e de repente vi o Monarca saindo do
meio duma cerrao. Estava  bem aperado e faceiro, sacudindo a cabea e
fazendo sinais pra mim assim como querendo dizer: "Vim l buscar. Vamos
embora". E vossunc sabe duma coisa? No sonho  fiquei at contente
quando compreendi que o bragado ia me levar pr outro mundo. De repente
no senti mais dor neste peito nem frio nem tristeza nem nada. Tudo era
como nos tempos de dantes. Montei no animal e entramos a trote na
cerrao...
  Fandango levanta-se e diz:
  - E. Tem sonhos engraados. Mas veja se dorme um pouco, seu Florncio.
  - Estou com os ps gelados.
  - Est porque quer. Vamos l pra perto do fogo.
  Toma do brao de Florncio e ajuda-o a erguer-se. Encaminham-se os dois
para a cozinha. Fandango leva a cadeira do outro, que coloca na frente
do fogo.
  - Vamos animar este fogo - cicia ele. - Tome assento, seu Florncio. No
est melhor aqui?
  Florncio senta-se e fica olhando para as brasas. Fandango vai at a
despensa e depois de alguns minutos volta sobraando um pacote e alguns
pedaos de madeira.
  - Veja s o que encontrei - cochicha.
  Ajoelha-se diante da boca do fogo e mostra a Florncio o pacote  luz
das brasas.
  - Que  isso?
  - Jornais velhos. Vou meter tudo no fogo.
  - No faa isso. Deve ser a coleo do Licurgo...
  - Qual nada! Pra mim jornal s  bom mesmo pra comear fogo.
  Florncio permanece calado e imvel, enquanto o outro comea a rasgar
velhos nmeros de O Arauto e de O Democrata e a atirar os pedaos dentro
do fogo.
  712
  Ismlia Car
  A redao e as oficinas de O Arauto ficavam numa meia-gua quase em
runas, apertada entre o Pao Municipal e o casaro dos Amarais. Toda a
gente em Santa F sabia  que o jornal dirigido por Manfredo Fraga se
mantinha graas ao apoio financeiro que lhe dava o coronel Bento, o qual
da janela lateral de sua residncia costumava  berrar sugestes para os
artigos de fundo: "Ataque esses republicanos duma figa. Diga que so uma
corja de traidores!" Ou ento: "Responda ao artigo de Jlio de
Castilhos e conte que A Federao  financiada pela Maonaria". Ou
ainda: "Ameace que vamos contar donde saiu o dinheiro pra construir o
sobrado dum certo republicano  de Santa F. D a entender que vamos
desenterrar cadveres, e que muita roupa suja vai ser lavada em praa
pblica!"
  Aos oitenta e um anos de idade era ainda Bento Amaral um homem cheio de
energia. Caminhava lentamente, arrastando os ps, mas recusava-se a usar
bengala, mantinha  uma postura ereta e detestava ser tratado como velho.
Tinha o crnio completamente calvo, liso e lustroso como uma bola de
bilhar; a pele de seu rosto, duma tonalidade  citrina, estava cortada de
rugas fundas e terrosas; as plpebras empapuadas se lhe dobravam roxas
sobre os olhos de bordas vermelhas e inflamadas e quase cobriam  as
pupilas dum cinzento frio e lquido. Toda a gente ali na vila achava
difcil conversar com o coronel Bento porque o homem falava
sincopadamente, aos arrancos,  soltando as palavras em rajadas e fazendo
longas pausas nervosas de gago. Quando estava enfurecido a gagueira
aumentava e, em vez de falar, ele ficava a silvar como  cobra. Tinha
  713
  o cacoete de levar de quando em quando a mo ao rosto e esfregar com a
ponta do indicador a cicatriz que lhe marcava a face esquerda.
Ultimamente deixara de fumar,  mas adquirira o hbito de mascar fumo, de
sorte que muitas vezes quando da janela de seu quarto gritava ordens
para "o salafrrio do Fraga" - que lhe era til, mas  que no fundo ele
detestava - as palavras lhe saam da boca junto com um chuveiro de
saliva parda. Da outra casa, com a mo em concha atrs da orelha - pois
era meio  surdo - o diretor de O Arauto escutava-lhe as ordens num
silncio servil e depois ia sentar-se  mesa de trabalho, molhava a pena
na tinta e com caligrafia caprichada  traava o artigo de fundo, de
acordo com as instrues do chefe. Nunca publicava nada em seu jornal
sem primeiro pedir a aprovao do coronel Bento.
  Naquela fria manh de junho, Manfredo Fraga terminava de revisar o
editorial que devia aparecer no nmero do dia seguinte. Sentado junto da
escrivaninha, metido  num largo poncho cor de chumbo, do qual sobressaa
seu pescoo descarnado e cheio de pregas, a sustentar precariamente a
cabea oval, de rosto rosado e glabro, o  diretor de O Arauto parecia
uma enorme tartaruga. Acariciando o lbulo da orelha direita com a ponta
da caneta, os culos acavalados no nariz adunco, os lbios a  se moverem
silenciosamente, Manfredo Fraga relia o artigo mais importante que
escrevera desde que tomara a direo do semanrio.
  "Amanh, 24 de junho de 1884, ser um dia assinalado na histria de
nossa idolatrada terra. Santa F comemorar festivamente sua elevao 
categoria de cidade.  Aleluia! Aleluia! Que os sinos de nossa bela e
alterosa igreja badalem e encham os ares de sons lacres, anunciando o
fasto grandioso. Finalmente a Assemblia Provincial  fez justia (quae
ser tamen), pois j a todos causava estranheza a tardana da concesso
de foros de cidade  nossa vila, quando uma outra localidade menos
progressista  e importante que a nossa (e cujo nome a discrio manda
calar) j o tem de h
  muito.
  Manfredo Fraga ergueu a cabea de quelnio e sorriu.
  714
  Todos iam perceber que ali estava uma referncia velada a Cruz Alta, que
era cidade desde 1879. O Velho ia gostar da indireta, pois tinha birra
dos cruzaltenses  e vivia s turras com o baro de So Jac, chefe
poltico do municpio vizinho.
  Sorrindo ainda, Fraga tornou a baixar os olhos para o artigo:
  "A nossa Cmara Municipal e o Comit de Festejos a cuja frente se
encontra o ilustre e benemrito cidado Alvarino Amaral, organizou para
amanh um programa  altura  do magno acontecimento. Ao romper da
alvorada a Banda de Msica Santa Ceclia, organizada e orientada pelo
provecto mdico e musicista germnico, dr. Carl Winter,  percorrer as
ruas principais de nossa urbe, tocando marchas festivas. s dez da manh
haver na Matriz um Te Deum, com prdica especial pelo nosso culto
vigrio,  o padre Atlio Romano. s quatro da tarde, na Praa da Matriz,
realizar-se-o as tradicionais cavalhadas, nas quais tomaro parte, como
mouros e cristos, pessoas  da nossa melhor sociedade. Como de costume,
seguir-se-o as famosas provas das argolinhas, em que nossos garbosos
conterrneos tero ocasio de revelar sua percia  de cavalheiros.
  Finalmente,  noite, o Pao Municipal abrir seus sales para um grande
baile de gala, abrilhantado pela supracitada banda, e iniciado por um
cotilllon, e ao qual  comparecer o que Santa F tem de mais seleto e
representativo. Por essa ocasio ser prestada significativa homenagem
ao venerando coronel Bento Amaral, neto do  fundador desta cidade, e por
muitos anos chefe poltico liberal deste municpio."
  Seguia-se um elogioso perfil biogrfico do chefe. Manfredo
acrescentou-lhe alguns adjetivos e a seguir, fazendo uma pausa na
leitura, apanhou a garrafa de cachaa  que tinha a seus ps, junto da
cadeira, tomou um longo sorvo, estralou os beios e limpou-os com a
manga do casaco. Fazia frio, ele estava com os ps gelados e o  diabo do
Velho no mandava nunca fazer os consertos de que a casa necessitava:
uma das paredes estava rachada, havia goteiras
  715
  no telhado e o vento entrava pelas frestas das janelas sem vidraas.
Agora, porm, Fraga sentia no peito um calor confortvel que aos poucos
lhe ia subindo  cabea  e que acabaria por aquecer-lhe tambm os ps.
Ainda estralando e lambendo os lbios chegou ao que se lhe afigurava o
trecho mais sensacional do artigo de fundo:
  "Achamos que  nosso dever prevenir o pblico em geral contra a manobra
de certas pessoas de m-f que, por simples inveja e despeito, esto
procurando desvirtuar  as finalidades dos festejos de amanh, lanando a
semente da discrdia no seio da populao local. Esses maus patriotas,
movidos por mero interesse pessoal e mal  disfarada ambio de mando,
esto tratando de confundir os espritos. Por isso avisamos nossos
leitores de que nenhuma outra comemorao, alm das acima mencionadas,
tem a sano da Comisso Central de Festejos. Dizemos isso porque
sabemos que se organiza para a noite de amanh uma festa de finalidade
poltica e subversiva, com  o visvel propsito de perturbar o baile de
gala do Pao Municipal, que dever encerrar com chave de ouro o grande
dia. Trata-se duma farsa montada e ensaiada por  maons,
livrespensadores, hereges e mazorqueiros, cujo objetivo precpuo 
solapar o Regime, destruir a Famlia, menoscabar a Religio, atacar
nosso querido e impoluto  Soberano; em suma, substituir a democrtica
Monarquia Brasileira pela mais nefanda e nefria das anarquias. Os
verdadeiros patriotas ho de saber no s evitar a  companhia desses
traidores da Ptria como tambm dar-lhes o desprezo e o castigo que
merecem".
  Ali estava um artigo de arromba - concluiu o diretor de O Arauto,
esfregando as mos. Ficou imaginando a cara com que ia ficar Licurgo
Cambar quando lesse aquele  editorial no dia seguinte.
  Ergueu-se, puxou um pigarro com tamanho gosto e tanta fora, que ele lhe
saiu do peito como um grito de triunfo.
  No dia seguinte, por volta das nove da manh, O Arauto de Santa F foi
distribudo de casa em casa entre seus assinantes e depois posto  venda
avulsa na Farmcia  Galena, na Casa Sol e na
  716
  Sapataria Serrana. O artigo de Fraga foi muito comentado e, farejando
polmica, quase todos puseram-se a imaginar o que iria dizer O
Democrata, rgo do Clube Republicano  local. Ficaram um tanto
decepcionados quando s dez da mesma manh o nmero semanal dessa folha
apareceu, trazendo na primeira pgina um editorial muito sereno,  que
terminava assim:
  "Entre as comemoraes mais significativas do dia de amanh, alm do Te
Deum, encontra-se a festa que nosso correligionrio, o cidado Licurgo
Cambar, realizar  na sua residncia e durante a qual, num gesto que
deve ser imitado por todos os bons brasileiros, dar carta de manumisso
a todos os seus escravos. Na mesma ocasio  dezenove outros cativos,
cuja liberdade foi comprada a seus senhores a peso de ouro, com dinheiro
da caixa do nosso clube, coletado especialmente para esse fim,  sero
igualmente manumitidos. Haver danas nas salas do Sobrado e fandango no
seu quintal, onde se acendero fogueiras em homenagem ao santo do dia. O
sr. Cambar  no fez convites especiais para essa festa de fraternidade
e humanidade, mas por nosso intermdio convida a tomar parte nela todos
os santa-fezenses e forasteiros  que simpatizam com a idia
abolicionista e que, mesmo no sendo republicanos, desejam ver
implantado no Brasil um regime verdadeiramente igualitrio".
  Pouco antes do meio-dia Bento Amaral apareceu  sua janela e berrou:
  - Fraga!  Fraga!
  O diretor de O Arauto respondeu da outra janela:
  - Pronto, coronel! Que foi que houve?
  O chefe brandiu no ar um exemplar de O Democrata.
  - Vossunc j leu esta bosta? -J.
  - Eu devia mas era fazer o Resende engolir este jornal.
  - No prximo nmero de O Arauto eu desanco esse baiano.
  - Palavra no di na pele. O que ele merece mesmo  uma sova de
rabo-de-tatu.
  717
  O velho mascava fumo freneticamente e pelos cantos da boca lhe escorriam
dois filetes de saliva pardacenta. Ficou um instante a olhar para a cara
do Fraga e depois  rosnou:
  - Regime igualitrio! Eles vo ver com quantos paus se faz uma canoa. -
De repente, como se quisesse que todo o mundo ouvisse, gritou: - Eles
que dem graas a Deus  eu ser um homem de bem, seno mandava acabar a
festa do Licurgo a porrete.
  Naquele instante ia passando a cavalo pela rua um tropeiro de Soledade,
que ouviu as ltimas palavras do velho. Apeou pouco depois  frente da
venda do Kunz, amarrou  o animal num fradede-pedra, entrou, pediu um
trago de caninha - "pr'esquentar" - e foi logo contando:
  - Sabe da ltima? O velho Amaral diz que  capaz de mandar acabar o
baile do Licurgo a pau.
  - Quem foi que disse? - perguntou o alemo de olhos arregalados. -
Ningum - replicou o tropeiro. - Eu mesmo ouvi com estes ouvidos que a
terra h de comer.
  - No diga!
  Kunz foi para o fundo da casa e contou  mulher:
  - O coronel Amaral diz que vai acabar a festa do Sobrado a bala.
  - Ach! Que horror! - replicou Frau Kunz. Correu para a cerca e chamou a
vizinha:
  - Sabe o que me contaram, comadre? O coronel Amaral vai mandar acabar
com o baile do Sobrado a faco.
  A vizinha passou a notcia ao marido. Este, que era scio do Clube
Republicano, correu para a redao de O Democrata onde chegou ofegante e
despejou a novidade em  cima do seu diretor, o dr. Torbio Resende:
  - Os Amarais vo mandar a capangada atacar o Sobrado amanh de noite.
Diz que vo armados e dispostos a acabar com a festa.
  O dr. Resende franziu a testa, fitou os olhos no correligionrio e
depois perguntou com calma:
  718
  - O senhor acredita nisso?
  - U. Por que  que no? Esses sujeitos so capazes de tudo. O outro
encolheu os ombros, sorriu e disse:
  - Co que ladra no morde.
  Dois homens que estavam na sala da redao e ouviram o dilogo, saram,
cada qual para seu lado, e comearam a espalhar a notcia pela cidade.
Por volta das trs  da tarde, toda Santa F j sabia que o coronel Bento
Amaral estava preparando seus capangas para atacar o Sobrado, prender
Licurgo Cambar e Torbio Resende, empastelar  O Democrata e fechar o
Clube Republicano.
  Antes de raiar o dia de So Joo, Jacob Geibel, o sacristo da Matriz de
Santa F, deixou a cama ainda estremunhado de sono, enfiou o poncho
sobre o camisolo de  dormir e dirigiu-se para o campanrio. Era um
homnculo atarracado, de pernas arqueadas e curtas, barbas ruivas e
olhos cor de malva. Viera da Alemanha havia cinco  anos e ali em Santa
F e arredores era conhecido como o "Barbadinho do Padre". Poucos,
porm, podiam gabar-se de ter-lhe ouvido a voz: alm de no saber
portugus,  o sacristo era um homem taciturno e azedo, que parecia
detestar o convvio humano.
  Diante do altar-mor dobrou os joelhos rapidamente, sem entretanto
encost-los no cho, fez um vago sinal-da-cruz e saiu a arrastar as
chinelas ao longo do corredor  central do templo. Entrou no batistrio,
ficou por um instante coando a cabea e bocejando; depois agarrou a
corda do sino com ambas as mos e deu-lhe um brusco  puxo.
  A badalada fendeu o ar quase com a intensidade duma exploso e cobriu a
cidade como uma onda, espraiando-se pelos campos em derredor. Jacob
continuou a tocar sino  com um vigor apaixonado, e como o atroar
aumentasse, ficou de tal maneira estonteado, que por fim foi como se um
demnio lhe tivesse entrado no corpo: pendurou-se  na corda e comeou a
dar pulos, ao mesmo tempo que gritava em alemo os piores nomes que
conhecia, na confusa
  719
  esperanla de que a zoada do sino impedisse Deus e os santos de lhe
ouvirem os improprios. Num dado momento fez uma pausa  para tirar o
poncho, e depois, s de  camisolo, tornou a agarrar a corda com
redobrada fria. Odiava Santa F, odiava aquela gente de lngua brbara,
odiava o vigrio e s vezes chegava a odiar at  as imagens dos santos.
  Quando algum enterro saa da igreja e ele tinha de dobrar a  finados,
era com secreta alegria que murmurava a cada badalada: Wieder einer
weniger! Menos um! Wieder  einer wenigerl Menos um! Agora, porm, o
ritmo do sino no era lento e fnebre, mas frentico, desesperado, como
um toque a rebate.
  Verfluchte Stadti - gritava ele. Cidade maldita! Cachorrada do inferno!
Porcos excomungados! Que Deus vos amaldioe! Que um raio vos parta!
  O Sobrado ali estava na luz indecisa da alvorada, pesado como uma
fortaleza e ao mesmo tempo com o jeito dum grande animal adormecido.
Fora recentemente caiado de  novo, os caixilhos das janelas pintados dum
azul de anil, os azulejos polidos; e nas grades i do porto a tinta
estava ainda fresca. Pombas que tinham fugido da  torre da igreja,
assustadas pelo badalar do sino, estavam agora pousadas no telhado do
casaro dos Cambars. Apesar de tudo, o monstro continuava a dormir. Num
dado  momento, porm, como uma plpebra que se ergue, revelando o brilho
duma pupila, abriuse o postigo duma das janelas do andar superior,
deixando aberto na fachada  um quadriltero luminoso onde se recostou o
vulto dum homem alto e espadado, metido num camisolo.
  Licurgo Cambar fora despertado pelo bater do sino, pulara da cama meio
atordoado, viera at a janela e agora ali estava a olhar para fora com
olhos embaciados de  sono. Em poucos segundos sua confuso, que continha
um vago elemento de pnico, foi dissipada pela prpria voz do sino, que
parecia anunciar: "Santa F j  cidade!  Santa F j  cidade!" Licurgo
sentia o soalho frio sob os ps descalos. ("V calar as botinas,
menino!" - gritou-lhe a av em seus pensamentos.) Passando a mo  pelos
cabelos revoltos e
  duros, ele olhou para os lampies da praa, cujas chamas morriam, e,
erguendo os olhos, viu que comeavam a apagar-se tambm as estrelas.
Passara mal a noite, num  sono de febre mais cansativo que uma viglia
forada. Andara dum lado para outro, ora a cavalo ora a p, metido em
roupagens vermelhas, com um turbante mouro na  cabea, distribuindo a
torto e a direito ttulos de manumisso e pontaos de lana. De vez em
quando acordava, agoniado, com a sensao de no ter dormido um s
minuto, e ficava olhando a escurido, escutando a quietude da casa,
ouvindo o relgio grande l embaixo bater os quartos de hora. E assim,
pensando nas coisas que  tinha a fazer no dia seguinte, caa de novo em
modorra, e outra vez comeava a lida, a angstia, a luta entre mouros e
cristos, que de repente se transformava na  quadrilha dos lanceiros em
que seu par era prima Alice, a qual no era bem prima Alice, mas um
pouco Ismlia Car. Assim passara toda a noite, e agora ele sentia  a
cabea oca como um porongo que o som do sino fazia vibrar.
  Mas tudo estava bem: o dia em breve ia nascer, o grande dia! Fez
meia-volta, apanhou o lampio que se achava em cima da
mesinha-de-cabeceira, e encaminhou-se para  o lavatrio. Despejou a gua
do jarro na bacia de loua, lavou o rosto com ambas as mos, bufando e
respingando o espelho; depois escovou os dentes com fora, borrifando
as faces com o p cor-de-rosa do dentifrcio. Tirou o camisolo e
comeou a vestir-se com uma pressa nervosa. Como o sino cessasse de
bater, ps-se a cantarolar  O Boi Barroso.
  Eu mandei fazer um lao Do couro do jacar, Pra laar o Boi Barroso No
cavalo pangar.
  Enquanto enfiava as botas, gemeu a msica do estribilho, imitando o
choro sincopado da gaita. Depois cantou:
  Adeus, priminha, Eu vou m'embora No sou daqui Sou l de fora.
  720
  721
  Por um instante teve na mente a imagem de Alice. Dali a pouco mais de um
ms estaria casado com a prima. Ia ser engraado, porque ele no podia
esquecer a Alice  dos tempos de menina: magricela, de tranas compridas,
olhos pretos muito grados, pernas finas e fala chorosa. Nunca lhe
ocorrera a idia de namorar a prima. Sua  av tinha cada lembrana!
  Licurgo pousou as mos sobre os joelhos e ficou sentado na beira da
cama, a olhar fixamente para o soalho. Sempre que pensava na noiva, sua
imagem lhe vinha acompanhada  pela da amante. Havia poucos dias
mantivera com a av um dilogo embaraoso:
  - Pensa que sou cega, Curgo? Eu vejo tudo. 
  - Pois  verdade. A Ismlia  minha amsia. No tivera coragem de
encarar a velha.
  - Mas agora vossunc vai casar, precisa deixar a china o 
  quanto antes.
  Ele permanecera silencioso.
  - Promete? - No.
  A conversa terminara a. Desde ento nunca mais haviam tocado no
assunto. Era impossvel explicar a uma senhora de quase oitenta anos o
que ele sentia pela rapariga. Aquela gente antiga era muito positiva nas
suas opinies. Para ela uma coisa era boa ou m, preta ou branca,
decente ou indecente. No conhecia o meiotermo. Seria intil tentar
explicar  av que ele gostava da prima Alice o suficiente para faz-la
feliz; que a achava bonitinha, prendada, e que tinha a certeza de que
ela ia ser tima dona-de-casa, boa esposa e boa me - mas que todas
essas coisas nada tinham a ver com o que ele sentia pela Ismlia. A
chinoca no pedia nada, no esperava coisa alguma. Gostava dele quase
assim como uma cadelinha gosta do dono. Se por um lado ele sabia que no
teria nunca a coragem de abandonar a amante, por outro tambm estava
certo de que seu rabicho pela Ismlia nunca, mas nunca mesmo, poderia
influir em sua afeio pela prima nem perturbar-lhe a paz do casamento.
  Tornou a erguer-se, postou-se na frente do espelho e passou o pente nos
cabelos. Depois alisou com a ponta dos dedos o grosso
  bigode negro, acariciou os zigomas salientes, dum moreno lustroso e
avermelhado de couro curtido, e tornou a pensar em Ismlia. Comeara a
desejar violentamente  a rapariga desde o dia em que a vira pela
primeira vez no rancho dos Cars, no fundo duma das invernadas do
Angico. E certa manh, aps longo assdio, muitos negaceies  e engodos,
conseguira lev-la para o mato. Nos ltimos momentos, porm, tivera de
peg-la  fora, e desses minutos agitados e resfolegantes de luta
corporal lhe  haviam ficado lembranas meio confusas e perturbadoras: o
desejo que, exacerbado pela longa espera e pela resistncia de Ismlia,
se havia transformado numa fria  quase homicida; os gritos da chinoca,
primeiro de protesto e finalmente de dor; os guinchos dos bugios que,
empoleirados nas rvores e excitados pela cena, haviam  rompido numa
gritaria endoidecedora.
  Aplacado o desejo, ele ficara estendido de costas, os braos abertos em
cruz, olhando com um vago remorso para os bugios que perseguiam suas
fmeas e ouvindo o choro  manso de Ismlia a seu lado. Sentia vergonha
de sua brutalidade e comeava a impacientar-se pelo fato de no achar o
que dizer  rapariga. Pedir desculpas no adiantava  nada, e mesmo isso
no era de seu feitio. Dar-lhe dinheiro seria brutal.
  Erguera-se em silncio, sara do mato resolvido a no ver mais Ismlia e
convencido tambm de que daquele momento em diante ela passaria a
votar-lhe um dio de morte.  Na certa ia contar tudo ao pai e este iria
imediatamente queixar-se a dona Bibiana. Imaginara-se diante da av a
responder a uma interpelao:
  - Pois  verdade. Fiz e sustento. Mulher  pra isso mesmo. Se no fosse
eu, havia de ser qualquer outro.
  A coisa no entanto acontecera da maneira menos esperada. Depois daquela
manh passara vrios dias sem pr os olhos na menina. E uma tarde, 
hora da sesta, estando  ele deitado no seu quarto j quase a cair no
sono, vira um vulto de mulher esgueirar-se pela porta entreaberta e
caminhar na direo de sua cama. Era Ismlia. Fez-lhe  um sinal e a
china veio enroscar-se a seu lado como
  uma gata.
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  723
  "Licurgo desceu para o andar trreo, atravessou a passos largos a sala
de jantar, e entrou na cozinha, onde Fandango conversava ao p do fogo
com a negra Lindia.
  - Bom dia, Fandango!
  - Buenas!
  - Ento sempre chegou a grande data, hein?
  - Que remdio? Ds que o mundo  mundo, depois do hoje vem o amanh e
assim por diante at a hora da gente ir pra cidade dos ps juntos.
  - Est pronto o mate?
  - Quase - informou a negra.
  Sobre uma das chapas do grande fogo, a chaleira comeava a despedir
jactos de vapor pelo bico.
  Licurgo esfregou as mos, sentou-se num mocho e perguntou:
  - Sabe quantas pessoas dormiram aqui em casa esta noite?
  - Umas quatro... - troou Fandango.
  - Quase trinta!
  Os escravos do Angico e de outras estncias que iam receber carta de
manumisso tinham passado a noite no poro do Sobrado.
  Fandango coou a barbicha com a unha do indicador e murmurou:
  - Eu s quero ver o que  que essa negrada vai fazer depois que receber
papel de alforria.
  - Ora! Vai ficar livre.
  - Sim, mas vossunc acha que vo viver melhor?
  - Claro que vo.
  - Pois eu duvido.
  - Velho cabeudo!
  A tampa da chaleira comeou a dar pulinhos.
  - Que venha esse amargo, Lindia! A negra cevava o mate.
  - Vossunc vai ver - prosseguiu o capataz. - Recebem dinheiro e gastam
tudo em cachaa. Vo passar o dia na vadiagem, dormindo ou se
divertindo. Nenhum desses negros  alforriados vai querer trabalhar. No
fim acabam morrendo de fome.
  - No seja to agourento, Fandango.
  724
  - Qual! O que sou  um ndio velho mui vivido. Na minha idade um cristo
acaba descobrindo que o que ha na vida  muita conversa fiada.
Vossuncs moos que lem  nos livros gostam demais dessas novidades
estrangeiras.
  - Mas a abolio vai melhorar tudo. A escravatura  a vergonha do
Brasil.
  - Qual vergonha, qual nada! Deixe de histria. Negro  negro. Ha gente
que nasceu pra ser mandada.
  - Vossunc est me desiludindo.
  - X gua! No nasci ontem. Essa histria de cidade  a mesma coisa.
Dias atrs no se sabia de nada, Santa F era vila. Muito bem. De
repente chega um desses tais  de telegramas e comea a folia. A
Assemblia resolveu que agora Santa F  cidade. Todo mundo fica louco,
a festana comea,  sino, viva e foguete. Mas, me diga,  cambiou alguma
coisa? Nasceu alguma casa nova, alguma rua nova, alguma rvore nova s
por causa do decreto? No. Pois ... Pura conversa fiada, hombre!
  Licurgo sorria.
  - Se  assim, vossunc deve ser tambm contra a repblica.
  - A est outra bobagem. Se vier a repblica a gente vai ver como no
cambia nada. Pode cambiar a posio das pessoas. Quem est por baixo
sobe, quem est por cima,  desce. Mas as coisas ficam no mesmo, e o
povinho continua na merda.
  - A repblica h de vir, seja como for. Mas tome esse mate - disse
Licurgo, estendendo para o velho a cuia que Lindia lhe entregara.
  Fandango, porm, sacudiu negativamente a cabea:
  No. Gracias. Nada de "primeiros" comigo. Nem com
  mulher nem com mate.
  Licurgo comeou a chupar na bomba e a cuspir o lquido
  esverdeado no cho.
  - Na prxima eleio - disse ele - vossunc vai votar com os
republicanos.
  - Posso votar com o Curgo, que  meu amigo. O resto  bobagem.
  - Dessa vez havemos de eleger os nossos candidatos.
  725
 - Pode ser. Mas na ltima eleio esse tal de Assis Brasil no fez nem
  pr fumo...
  - Espere, Fandango, que no ano que vem a coisa muda. O capataz encolheu
os ombros.
  - O Velho  bom. Certos apaniguados dele  que no prestam.
  Referia-se ao imperador.
  - Mas pra derrubar essa cambada  preciso derrubar tambm o Velho e o
regime, substituindo esses figures por gente nova como Jlio de
Castilhos, Rui Barbosa, Venncio  Aires e outros.
  - Conversas! So todos uns bons filhos da me.
  Licurgo tornou a encher a cuia d'gua e passou-a a Fandango. E enquanto
o velho ficou entretido a chupar na bomba, ele falou com entusiasmo nos
festejos do dia.  Tinha a impresso - disse - de que o baile de gala do
Pao Municipal, com suas formalidades e seus medalhes, ia ficar apagado
diante da festa do Sobrado, onde reinaria  a verdadeira democracia:
negros e brancos, ricos e pobres, todos misturados e irmanados no ideal
abolicionista e republicano. Mas no momento mesmo em que dizia essas
coisas, Curgo percebeu que no estava sendo sincero, que no estava
dizendo o que sentia. Era-lhe inconcebvel a idia de que aqueles negros
sujos pudessem vir danar  nas salas de sua casa, em ntimo contato com
sua famlia. Sabia tambm que pouca, muito pouca gente em Santa F
compreendia o sentido da palavra repblica....
  Fandango fez uma careta.
  - Pois eu c no preciso de desculpa pra me divertir. Quando estou com
vontade de danar, dano. Quando estou com vontade de cantar, canto.
Este peito no conhece  tristeza. Vossuncs  que so uns capados. No
fazem nada sem muito discurso. X gua!
  Licurgo contemplava o amigo. Gostava daquela cara inditica, do
contraste entre a pele tostada e o branco prateado da barba esfalripada.
Sentia-se fascinado principalmente  pelo jeito do velho falar e pela
expresso travessa e maliciosa de seu olhar. S se lembrava de t-lo
visto triste no dia em que chegara a Santa F a notcia de  que seu
filho, o Fandango Segundo, havia sido morto em combate nas terras do
Paraguai. O velho ficou parado, com
  726
  uma nvoa nos olhos, e por alguns segundos no disse palavra. Depois,
como o quisessem consolar, murmurou: "Todos tm de morrer mais cedo ou
mais tarde, no ? S  que uns morrem cedo demais... " Nesse dia, quando
Fandango montou a cavalo e saiu para o campo sozinho, Licurgo viu-lhe
lgrimas nos olhos. O capataz passou horas  e horas andando  toa pelas
invernadas do Angico. Voltou ao entardecer e j assobiando ao trote do
cavalo. E  noite no galpo ao redor do fogo contou  peonada  as
proezas de Fandango Segundo, suas andanas e amores; e rematava cada
episdio da vida do filho com estas palavras: "Era um alarife, mas tinha
por quem puxar".  Depois dessa noite no pronunciou mais o nome do
morto, e suas esperanas ento passaram a concentrar-se no neto, o
Fandanguinho, que crescia ali na estncia ao  calor de seus olhos e 
luz de seus conselhos: "Um pi mui ladino"- dizia o velho, piscando o
olho. "Vai me sair melhor que a encomenda."
  As pessoas com quem Licurgo mais gostava de conversar eram Fandango, sua
av e Torbio Resende. Este ltimo, um baiano formado pela Faculdade de
Direito de So Paulo,  estabelecera-se em Santa F em princpios de
1881, trazendo para o municpio a idia republicana, da qual era
ardoroso propagandista. Desde o primeiro dia provocara  a ira dos
Amarais, que o ameaaram de todos os modos, primeiro indireta e depois
diretamente, procurando for-lo a deixar a vila. Mas o diabo do
nortista fincara  p, impvido, e fizera frente aos potentados da terra
com tanta altivez e coragem que Licurgo fora espontaneamente procur-lo,
oferecendo-lhe seu apoio, sua casa,  sua fortuna, enfim, tudo de que ele
precisasse. Comeara assim uma amizade que j durava mais de trs anos e
que se fazia mais forte  medida em que o tempo e os  acontecimentos
passavam.
  O convvio com Torbio Resende, a leitura dos artigos que Jlio de
Castilhos publicava na imprensa atacando o imprio e fazendo a
propaganda da abolio e da repblica  - tudo isso tinha feito de
Licurgo Cambar um republicano e um abolicionista. Ficara de tal modo
dominado por essas idias que acabara quase fanatizado por elas.
Fandango observara um dia: "O Curgo tem
  727
  trs amantes: a Repblica, a Abolio e a Ismlia. s vezes vai pra cama
com as trs ao mesmo tempo".
  Em 83 Torbio Resende e Licurgo Cambar fundaram em Santa F o Clube
Republicano, que contava agora com quase sessenta scios e mantinha uma
folha semanal. As notcias  do progresso do movimento no resto do pas
davam-lhes nimo e estmulo. Sabiam que o Cear comeara a libertar seus
escravos, e que havia poderosos clubes republicanos  em Porto Alegre e
na capital de So Paulo, onde Borges de Medeiros, jovem estudante
gacho, dirigia um jornal.
  Fandango entregou a cuia a Lindia, que tornou a ench-la d'gua,
passando-a a Curgo, o qual tinha os olhos postos na janela, atravs de
cujas vidraas via um plido  pedao de cu. O grande dia estava prestes
a raiar. Santa F ia dar um exemplo ao resto da provncia, e esse
exemplo partia daquela casa, do Sobrado! Aquilo - refletia  Curgo - ia
ser um ato de humanidade, de coragem, e ao mesmo tempo valia como uma
bofetada na cara dos monarquistas: era um desafio capaz de repercutir
at no estrangeiro.
  Tinha razo Torbio Resende quando afirmava que a idia republicana
podia ser comparada com uma onda que ia aos poucos crescendo e que
acabaria no s lavando a  mancha da escravido como tambm derrubando o
trono! Proclamada a Repblica, Santa F ficaria livre dos Amarais, e
homens como Torbio e ele, Licurgo, iriam dirigir  a poltica municipal,
eliminando o favoritismo, as injustias e as arbitrariedades. Em
pensamento Licurgo via Torbio a falar e gesticular: "O capito Rodrigo
botou  sua marca no rosto do velho Bento; s ficou faltando o rabinho do
R. Pois bem, Curgo. Quem vai completai o servio (Torbio pronunciava
servio com um  muito aberto)   voc, no com uma adaga, mas
simbolicamente, levando para diante a campanha abolicionista e
republicana, e livrando Santa F de seu strapa". Como Torbio falava
bem, com que eloqncia, com que facilidade! Na mente de Licurgo a
imagem do amigo desapareceu para dar lugar  de Jlio de Castilhos, cuja
mo ele apertara comovidamente  por ocasio do ltimo congresso
republicano de Porto Alegre. Era incrvel que aquele
  728
  moo retrado e de poucas palavras estivesse abalando o trono com seus
artigos polticos, escritos e publicados na provncia! Agora os
republicanos do Rio Grande  tinham em Porto Alegre o seu jornal: A
Federao, fundado em janeiro daquele ano. Em Santa F os scios do
Clube Republicano esperavam com ansiedade a mala postal  que trazia
semanalmente os nmeros da folha em que Castilhos publicava seus artigos
candentes.
  Havia num desses escritos certo trecho que Licurgo aprendera de cor, por
achar que ele definia, melhor que qualquer outro, a idia abolicionista.
Repetiu-o em voz  alta para Fandango:
  - "Quando se trata de tornar livres todos os filhos do Rio Grande,
quando urge acabar com a imoral instituio que nos macula, no deve
haver partidos. S h lugar  para um partido:  o partido da moral, do
direito e da liberdade, que protestam contra a escravido.  margem,
pois, das desavenas e dos dios das lutas partidrias,  emudea a voz
do partidarismo poltico quando  imperioso combater este inimigo comum:
a escravido".
  Fandango escutou o amigo em silncio, e quando Curgo se calou, o velho
cuspinhou por entre os cacos de dentes e disse:
  - Conversa fiada. O inimigo do hombre  o hombre mesmo. Licurgo
ergueu-se, caminhou para a porta da cozinha, abriu-a
  de par em par e respirou profundamente o ar frio da manh.
  Uma negra com um grande balde na mo se dirigia para o fundo do quintal,
onde ia ordenhar as vacas. Aos poucos saam vultos do poro da casa.
Eram os escravos que  acabavam de despertar. Uns se espreguiavam,
bocejando longamente. Outros caminhavam encolhidos, tintando de frio.
Quando viam Licurgo
  murmuravam:
  - A bno, sinh.
  - Deus vos abenoe - respondia ele.
  Em breve aquela gente toda ia ser livre - pensou. E por um momento ficou
como que afogado pela idia da prpria bondade. O que ia acontecer no
Sobrado aquela noite  era grande: o mais belo gesto da sua vida. Fechou
os olhos, conteve a respirao como para avaliar melhor a intensidade de
seus sentimentos. Acabou, porm, por descobrir,  decepcionado, que a
emoo que sentia diante
  729
  de tudo aquilo no era to dominadora como ele esperava: no estava, em
suma,  altura dos acontecimentos que a despertavam. Galos cantavam nos
terreiros e seus gritos se cruzavam no ar do amanhecer. O horizonte
comeava a clarear.
  - Est ouvindo, Fandango? - perguntou Licurgo em voz alta, sem se
voltar. - Os galos esto bem loucos. Parece que sabem que dia  hoje.
Lindia! Me prepare um churrasco. Estou com fome.
  Fandango ergueu-se.
  - Deixe isso por minha conta. Vou trazer um bom costilhar pra ns.
Tambm estou louco de hambre.
  Caminhou com seu passo mido e meio gingante para a despensa, onde havia
quartos de reses pendurados em ganchos.
  Com um xale sobre os ombros, os braos cruzados, Bibiana entrou na
cozinha. Aos setenta e oito anos tinha ainda o porte ereto, o andar
firme e vivo, e os cabelos apenas grisalhos.
  Licurgo voltou-se e caminhou para ela.
  - A bno, vov.
  Bibiana estendeu a mo, que o neto beijou.
  - Deus te abenoe, meu filho. Fandango voltou com o costilhar nos
braos.
  - Bom dia, Fandango.
  - Buenos dias, dona. Passou bem a noite?
  - Dormi com os anjos.
  A malcia deu um brilho sbito aos olhos do velho.
  - Com quem que vossunc dorrniu?
  - Com os anjos, velho indecente!
  - Ah! - fez Fandango, que tratava de tirar brasas do fogo para assar a
carne.
  - Pra que todo esse barulho? - perguntou Bibiana, olhando para o neto.
  - O sino?  do programa, vov. Hoje  o grande dia. Bibiana sacudiu
lentamente a cabea.
  - Pra mim  um dia como qualquer outro. Depois, mudando de tom:
  730
  - J pensaram no que  que vo dar pra essa negrada comer agora de
manh?
  - No.
  - Pois . Vossuncs s pensam em bobagens, em discursos. A velha  que
tem de tratar da comida. Carta de manumisso no enche barriga de
ningum.  preciso dar alguma coisa pra entreter o estmago desses
negros.
  Ficou dando instrues a Lindia. No havia em casa po nem biscoito que
chegasse para todos.
  - Eles que comam laranja e bergamota - sugeriu o capataz.
  - Chame a Doca e a Nomia - gritou Bibiana para a preta. - Vamos comear
a trabalhar, seno fica tudo atrasado.
  Tinham de dar de comer  noite para mais de cem pessoas. Iam mandar
carnear cinco novilhas, trs porcos e duas ovelhas. Havia na despensa
vrias caixas com garrafas de cerveja, vinho e cachaa.
  E por que toda essa folia? - refletiu a velha. S porque o homem do
telgrafo, que vivia batendo com o dedo naquela engenhoca que fazia
tec-tec-tec-tec-tec, tinha recebido pelo fio (coisa que ela no podia
compreender) um recado dizendo que Santa F havia sido elevada 
categoria de cidade. Licurgo andava com aquelas manias de acabar com a
escravatura e atacar o imperador. Era uma verdadeira loucura. O Sobrado
estava cheio no s da negrada do Angico como de escravos de outras
casas e estncias. Era o maior disparate do mundo dar liberdade quela
gente. Mas o menino queria porque queria. E o outro, o dr. Resende, esse
era o mais doido de todos. Era por causa do baiano que Curgo andava com
aquelas idias na cabea. Enfim, su'alma, sua palma, como diz o ditado.
Eu  que no me meto nessas coisas. Contanto  que no prendam fogo na
casa, podem fazer o que entenderem.
  Licurgo aproximou-se de novo da porta dos fundos e ficou mirando o
quintal. Ansiava pelo nascer do sol. Queria ver Torbio. Queria ver
gente, muita gente: os amigos  do clube, pessoas, enfim, com quem
pudesse discutir os planos do dia. A madrugada fria, aqueles vultos
silenciosos no ptio e o cocoric dos galos comeavam a deix-lo
deprimido.
  731
  Sentiu que a av estava a seu lado, os braos cruzados debaixo do xale.
E no silncio ele esperou a pergunta que temia, e que finalmente foi
formulada:
  - Mandou buscar a Ismlia?
  Seu primeiro impulso foi o de dizer que no. Mas no sabia mentir.
  - Mandei.
  - Ento a coisa no est acabada?
  - No.
  - Mas  preciso acabar o quanto antes.
  - Eu sei.
  - Se sabe, por que  que no acaba? Falta s um ms pr
  seu casamento.
  Curgo pensou: mais cedo ou mais tarde a Alice tem de saber. Mas nada
disse.
  O relgio deu uma badalada.
  .- Seis e meia - murmurou Fandango.
  O dia clareava aos poucos. De longe vinham agora os sons duma banda de
msica.
  - A vem ela! - exclamou Lindia.
  Licurgo aproveitou o ensejo para cortar o dilogo. Tomou do brao da
velha e disse:
  - Vamos ver a banda, vov.
  Foram, seguidos de Fandango. Abriram uma das janelas da frente do
Sobrado e debruaram-se sobre o peitoril. Na boca da Rua do Comrcio
apontou a Banda de Santa Ceclia.  Vinham os msicos formados em duas
filas de quatro. Pisto, flauta, contrabaixo, bombardino, clarineta,
violo, bombo e tambor. Tocavam uma marcha, mas a melodia  cantada pela
voz do pisto e da clarineta, rendilhada pelos trilos do flautim, era
quase abafada pelos roncos do bombardino e do contrabaixo, em duas notas
repetidas  que davam a impresso do grunhir dum porco descomunal.
  Quando a banda passou pela frente do Sobrado, Licurgo acenou
amistosamente para os msicos. Bibiana olhava impassvel, resmungando
para o neto:
  732
  - O dr. Winter merecia ser enforcado por ter inventado essa droga.
  Fandango deixou a janela, correu para a porta da rua, abriu-a e saltou
para fora, gritando:
  - Olha a furiosa, minha gente!
  Ps-se a pular e a danar na frente da charanga. Nas rvores da praa os
passarinhos chilreavam. Abriam-se janelas, onde assomavam cabeas.
Homens, mulheres e crianas  vinham para a frente de suas casas,
trocavam-se acenos e cumprimentos. O padre Romano apareceu  porta da
igreja, com o rosto rubicundo iluminado em cheio pela luz  do sol, que
comeava a aparecer por cima da coxilha do cemitrio. Fez na direo do
Sobrado um largo aceno, a que Licurgo respondeu.
  - At o vigrio ficou assanhado com a msica - comentou Bibiana.
  - No  s a msica, vov.  o grande dia! A velha encolheu os ombros.
  - Quando vossunc chegar  minha idade, vai ver que no final de contas
todos os dias so iguais.
  Erguendo poeira do cho, a Banda de Santa Ceclia passou pela frente da
Matriz e seguiu pela Rua dos Farrapos.
  Quando Fandango entrou na igreja e viu-a abarrotada de gente, disse em
voz alta a Bibiana, que caminhava a seu lado:
  - Est apertado que nem queijo em cincho.
  - Cht! - repreendeu-o a velha, franzindo a testa e acrescentando num
cochicho: - Na igreja no se fala.
  O sino comeou a badalar. Eram quase dez horas da manh, e o rosto da
velha imagem de Nossa Senhora da Conceio resplandecia  luz do morno
sol de inverno que entrava  pelas janelas do templo. Para Bibiana a
santa tinha uma fisionomia familiar, pois desde menina ela se habituara
a v-la ali no altar com as mesmas roupas, a mesma  postura e o mesmo
sorriso bondoso. Vezes
  733
  sem conta, quando moa, Bibiana viera ajoelhar-se ao p da imagem da
padroeira de Santa F, confiar-lhe suas dificuldades e fazer-lhe
promessas. Fora por obra e  graa de Nossa Senhora que Bibiana casara
com o capito Rodrigo. Quando aos trs anos Bolvar cara de cama com um
febro medonho, ela viera um dia  igreja e dissera   santa: "Se
vosmec faz o Boli melhorar, prometo mandar rezar dez missas e dar cinco
pataces pra igreja". Ao chegar  casa encontrara j o menino com as
roupas  midas de suor e a testa fresquinha. Depois, com o passar do
tempo, e  medida que Bibiana perdia sua f nos homens e nos santos,
suas relaes com Nossa Senhora  foram deixando de ser de santa para
crente para serem quase de mulher para mulher. E agora o olhar que a
velha ao sentar-se lanara para a imagem parecia querer  dizer: "Bom
dia, comadre, como vo as coisas?" Eram ambas donas-de-casa e tinham
grandes responsabilidades. Durante mais de cinqenta anos Bibiana no
tivera segredos  para com a santa. Eram velhas amigas e confidentes:
entendiam-se to bem que nem precisavam falar...
  Alice entrou de brao dado com Licurgo. Atrs do par vinham Florncio
Terra, o pai da noiva, e sua outra filha, Maria Valria.
  Segundo uma tradio local, os liberais e seus familiares deviam ocupar
os bancos que ficavam  direita de quem entrava no templo; os
conservadores, os da esquerda,  que era agora o lado onde se sentavam
tambm os republicanos. Os trs primeiros bancos da direita estavam
permanentemente reservados para Bento Amaral e seus filhos,  genros,
noras e netos. O padre Romano mandara reservar o primeiro banco da
esquerda para Licurgo Cambar e sua gente. Quando estes ltimos se
acomodaram, os Amarais  nem sequer voltaram a cabea para o lado deles.
Ouviu-se um murmrio na igreja. A rivalidade entre aquelas duas famlias
era um dos assuntos prediletos da vila.  Todos sabiam que o velho Bento
costumava dizer: "Quando vejo gente do Sobrado fico com o dia
estragado". Por sua vez, sempre que mencionava o nome Amaral, Licurgo
acrescentava: "Com o perdo da m palavra..."
  Curgo sentou-se ao lado da noiva. Respirou fundo. Andava no ar um cheiro
de gua de toilette misturado com o do leo de mocot que muitas das
mulheres usavam nos  cabelos. Era uma
  734
  mescla quente, entre adocicada e ranosa, temperada pelo olor de incenso
e de cera queimada.
  Quando o sino cessou de badalar, fez-se um silncio pontilhado de tosses
nervosas, de pigarros e do estralar de bancos.
  Jacob Geibel deixou o campanrio e encaminhou-se para o altar-mor, pelo
corredor central. Vestia a sua melhor roupa, uma fatiota preta que o uso
tornara rua. Estava  muito vermelho, com as orelhas em fogo. Caminhava
encurvado, de olhos baixos, e suas botinas de elstico, que ele s usava
na hora da missa, rangiam agudamente,  coisa que lhe aumentava o
embarao. Verfluchte Stadt! L estavam aquelas mulheres gordas e
peitudas, que tinham bigode e cheiravam a leite e queijo. E aqueles
homens  escuros e cabeludos, de mos rudes e vozes guturais, aquelas
bestas que recendiam a suor de cavalo e a esterco. Animais!
  Jacob desapareceu na sacristia e pouco depois voltou para acender as
velas dos altares. Fez primeiro uma reverncia rpida diante do
altar-mor e a seguir acendeu  uma a uma as longas velas de cera,
pensando irritadamente no negro Caetano, que todos os dias ao anoitecer
saa pelas ruas com sua escadinha s costas para acender  os lampies da
vila.  medida em que o tempo passava, mais vermelhas iam ficando as
orelhas do sacristo e mais forte sua sensao de mal-estar. Ele sabia -
oh se  sabia! - que aquela gente ali na igreja estava rindo dele s suas
costas. Porcos! Quando saa  rua, as crianas o seguiam, gritando:
"Olha o Barbadinho do Padre!"
  Depois de acender a ltima vela, Jacob retirou-se. O altar agora estava
todo pontilhado de pequenas chamas mveis, que atiravam reflexos
dourados nas alfaias e ouropis.
  Licurgo olhou de soslaio para a noiva e por um instante ficou a
contemplar-lhe o perfil delicado e tranqilo. Alice trazia o seu melhor
vestido de cassa e tinha  uma mantilha negra na cabea. Por um tmido
instante seus olhos escuros e mansos fitaram o noivo, mas desviaram-se
logo, furtivos, fixando-se no altar. Licurgo sentiu  que devia dizer
alguma coisa. Podia cochichar: "A senhora est muito bonita hoje". Mas
continuou calado. No podia vencer a sensao de constrangimento que a
presena  da prima lhe causava. Por outro lado, havia coisas que no
aprendera ainda a dizer nem
  735
  fazer. Detestava as pessoas que viviam com a preocupao de agradar e
elogiar os outros. Considerava Torbio Resende o seu melhor amigo, mas
havia no rapaz traos  e hbitos com os quais ainda no se acostumara. O
baiano era demasiadamente derramado de palavras e gestos, e tinha o
hbito constrangedor de chamar-lhe "meu querido",  coisa que causava a
Curgo um certo desagrado, pois achava esse tratamento demasiadamente
efeminado.
  Curgo estava de tal modo absorto em seus pensamentos (andava agora a
cavalgar pelos campos do Angico com Ismlia Car na garupa), que nem
percebeu que  entrada  do padre a congregao se erguia. Alice
bateu-lhe de leve no brao com a ponta dos dedos e dirigiu-lhe um rpido
sorriso. Licurgo levantou-se. O Te Deum comeava.
  Quando o padre Atlio Romano subiu ao plpito para fazer a sua prdica,
o coronel Amaral puxou um pigarro que encheu sonoramente o recinto.
"Velho porco" - murmurou  Bibiana. Fandango abafou uma risada.
  Era o vigrio de Santa F um homem alto e corpulento, de rosto carnudo e
olhos dum castanho de mel queimado. A barba forte e escura, sempre
visvel mesmo quando  escanhoada, envolvia-lhe as faces sanguneas numa
sombra arroxeada, dando-lhe  fisionomia um certo ar crepuscular que s
o sorriso aberto, de dentes muito brancos,  conseguia neutralizar. Era
um sorriso to aliciante, que chegava quase a ser feminino. A primeira
vez que Licurgo vira o padre sorrir ficara tomado duma impresso
desagradvel. O padre, porm, tinha um aspecto to msculo - a voz, os
gestos, o andar - que Curgo acabou convencido de que "o vigrio era
mesmo macho cento por  cento".
  Natural da Itlia, Atlio Romano viera para o Brasil logo depois de
ordenado. Voraz ledor de livros, adorava as lnguas e a oratria, e
gostava de tal modo de conversar  e discursar, que parecia encontrar no
simples pronunciar das palavras, na formao das sentenas, no uso dos
adjetivos, no engendrar dos tropos um prazer to sensual  como o que o
comum dos homens encontra no ato de comer ou de amar. Falava com um leve
sotaque italiano e tinha
  736
  uma voz cantante e macia que, por assim dizer, lubrificava as palavras,
de sorte que elas lhe rolavam fceis e geis pela lngua e enchiam o ar
de msica e ritmo.  Seus gestos, como a voz, possuam tambm cadncia e
melodia. Agora ali no plpito o sacerdote media o auditrio com um olhar
dramtico, o cenho cerrado, as mos  enlaadas  altura do peito, a
respirao contida, as narinas palpitantes. Encheu os pulmes de ar,
estendeu os braos para a frente, como se quisesse enlaar toda  a
congregao, e disse:
  - Meus queridos paroquianos!
  Sua voz encheu o recinto, grave e bem modulada. Jacob Geibel saiu da
sacristia na ponta dos ps e veio sentar-se num mocho atrs do plpito,
num lugar em que no  podia ser visto pelos fiis.
  - Meus queridos - repetiu o vigrio - meus muito queridos paroquianos.
  Lambeu os lbios e respirou fundo.
  - Santa F acaba de receber seu ttulo de cidade! - exclamou de repente,
com voz cheia de exultao e agarrando as bordas do plpito com suas
manoplas rosadas e  peludas.
  Nesse momento ouviu-se um forte zumbido no ar. Cabeas voltaram-se para
todos os lados, olhos procuraram... Um colibri que acabara de entrar na
igreja, voejava agora,  estonteado, dum lado para outro,  procura duma
sada. O padre calou-se. Houve um momento de embaraosa expectativa.
Fandango no se conteve e disse em voz perfeitamente  audvel:
  - Beija-flor  bicho muito burro!
  Surdiram aqui e ali risinhos abafados. O passarinho volitava, aflito,
sobre as cabeas dos fiis. Por fim frechou na direo da porta e saiu
para o ar livre. Houve  como que um ah! de alvio e de novo as atenes
se voltaram para o orador. Atlio Romano sorria, de olhos brilhantes.
Estendendo o brao na direo da porta, com  o indicador a apontar
acusadoramente para o colibri, disse com suave gravidade:
  - Esse pobre passarinho desnorteado que acaba de sair daqui, meus
queridos cristos,  um smbolo de importncia tremenda. - Carregou no
erre de tremenda, como para  tornar a palavra ainda mais cheia de
significao. - Ele me lembra certas almas sem rumo
  737
  que procuram s cegas algo de melhor e mais alto na vida e passam seus
dias a bater com a cabea em muros, paredes, cercas e obstculos de toda
a ordem. Como esse  passarito que buscava a liberdade do ar livre, essas
almas se esforam por fugir s prises humanas e querem alar o vo para
o alto, para o infinito. Pobres almas  aflitas, transviadas, sem norte,
que se ferem nessa busca alucinada! Como lhes seria fcil achar a sada
se compreendessem, como esse colibri a princpio parecia  no
compreender, que a liberdade est na direo da luz, na direo da
porta. Mas aqui, meus queridos paroquianos, h uma diferena. Se para a
avezita a liberdade  e a vida estavam l fora, para as criaturas humanas
a verdadeira liberdade e a verdadeira vida esto aqui dentro!  na
igreja que se encontra a salvao!
  Ao pronunciar esta ltima palavra inclinou o busto para a frente, como
se quisesse atirar-se do plpito de ponta-cabea. Passeou o olhar por
aquelas muitas fileiras  de caras, em sua maioria inexpressivas, que
estavam voltadas para ele.
  Tornou a retesar o busto. Afrouxou-se-lhe a expresso tensa do rosto, e
sorrindo, ele prosseguiu:
  - Vede como um simples bpede emplumado que errou o caminho, pode
desviar um orador sacro do rumo traado para seu sermo. Mas para voltar
ao grande assunto do dia,  quero ainda usar duma imagem que esse colibri
me sugeriu. Como pssaros agitados que deixam a fronde duma rvore, e um
aps outro, se vo pelo ar, batendo as asas  em todas as direes, assim
so as palavras que neste momento se me escapam da boca. - Aproximou os
dedos dos lbios, num gesto que tinha a leveza duma pluma. De  repente
ficou srio, cerrou o punho e brandiu-o na direo do auditrio. - Mas
eu quisera que esses pobres e apagados pssaros tivessem a mais rica,
bela, colorida  e brilhante das plumagens, e que sua revoada
constitusse um arabesco gracioso e expressivo; quisera, em outras
palavras, ter a eloqncia dum Ccero ou de um Demstenes  para poder
exprimir neste instante o jbilo que me vai na alma diante desse
acontecimento memorabilssimo que  a elevao de Santa F  categoria
de cidade!
  738
  Jacob Geibel escutava a voz do padre, mas sem compreender o que ele
dizia. Seus pensamentos o levavam a outros lugares e horas. De braos
cruzados, olhos entrecerrados,  a barba ruiva espalhada sobre o peito,
ele agora se via numa certa manh dominical, com o guarda-sol aberto,
montado num burro que trotava rumo de Nova Pomernia.  Ia meio
adormentado ao tranco do animal e j avistava os telhados da colnia.
Comeava a encontrar conhecidos. Guten Morgen, Jacob! Guten Morgen,
Heinrich! Depois  comeava a peregrinao de todos os domingos. Caf com
leite, cuca e manteiga de nata doce na casa do Spielvogel. Apfehtrudel
no chal de Frau Sommer. Canecas de  cerveja espumante e partidas de
bolo no Clube dos Atiradores. Msica de acordeo e cantigas. Ach lu
Lieber Augustin, Augustin, Augustin.
  A voz do vigrio era um pano de fundo para o devaneio do sacristo.
  - Santa F, que era menina - dizia Atlio Romano - agora se faz moa. E
ns, que a amamos e nos envaidecemos dela, apresentamo-la ao mundo e
exclamamos: "Vede como  cresceu a nossa menina, como se fez graciosa e
bela!"
  - Rendamos graas a Deus e  nossa padroeira - trovejou o vigrio,
apontando para a imagem de Nossa Senhora da Conceio - pelos favores
que o Cu nos tem concedido.  Esta cidade  obra de homens que nasceram,
aprenderam, trabalharam, sofreram, esperaram, envelheceram e morreram;
de homens que produziram filhos que por sua vez  nasceram, aprenderam,
trabalharam, sofreram, esperaram, envelheceram e tambm morreram, e
assim por diante de gerao em gerao, at este dia memorvel. Mas
enquanto  os homens aparecem e desaparecem na face da terra, h Algum
que  permanente, Algum que  eterno. E esse Algum, meus caros
cristos,  Deus, que est em todos  os lugares e em todos os tempos.
Sem Ele nada existe, nada vive. Rendamos, pois, graas ao Altssimo,
pois a Ele mais que  Cmara Municipal, mais que  Assemblia
Legislativa da provncia, mais que aos figures da poltica...
  Licurgo teve um estremecimento de entusiasmo. Aquelas palavras
indiscutivelmente visavam os Amarais. O padre era dos bons! Desde que
chegara a Santa F compreendera  a situao e resolvera
  739
  no se deixar dominar pelo coronel Bento, como acontecera com o pobre
padre Otero. (Que a terra lhe seja leve!) Embora no pertencesse ao
Clube Republicano, o vigrio  simpatizava com a idia nova e era
francamente partidrio da abolio. Licurgo esfregou as mos uma na
outra, freneticamente, remexendo-se no banco.
  - ... a Ele devemos nossa cidade - continuava o pregador - as nossas
casas, as nossas terras, os nossos entes queridos e o simples e
maravilhoso fato de estarmos  vivos. Rendamos, pois, humildemente,
reverentemente, suavemente, comovidamente, graas a Deus!
  Bibiana escutava com ateno, ao mesmo tempo que em pensamento fazia
comentrios  orao do padre. Render graas a Deus? Sim. Deus lhe dera
um neto que era um homem  de bem. Por outro lado, porm, Deus tambm lhe
fizera "boas": matara-lhe o marido na flor da idade e deixara que os
Terras passassem dificuldades. No entanto, ela  se consideraria paga e
satisfeita de todos os trabalhos e daria a vida por bem vivida se Deus
agora, como compensao, lhe permitisse viver o tempo suficiente para
ver os bisnetos e deixar seu trabalho na terra terminado: o Curgo
casado, pai de famlia e senhor do Sobrado e do Angico.
  - Porque - prosseguia o vigrio, sacudindo ritmicamente os braos como
se estivesse a reger uma orquestra -  necessrio que matemos,
assassinemos, expulsemos de  ns o demnio do orgulho que s vezes
sorrateiramente, traioeiramente, solenemente e maleficamente nos entra
nos coraes, levando-nos a crer que somos o sal da  terra, chefes
supremos dos nossos corpos e das nossas almas, e dos corpos e das almas
daqueles que nos cercam e que ns, na nossa vaidade, na nossa cegueira,
na  nossa inconscincia consideramos nossos subordinados, nossos
inferiores, nossos servos, nossos escravos!
  Calou-se para tomar flego. Tornou a inclinar o busto para a frente e
escrutar os rostos dos ouvintes. Licurgo vibrava. No podendo mais
conter-se, cutucou a noiva  com o cotovelo. "Tudo isso  pr velho
Amaral" - cochichou ele aproximando os lbios do ouvido da rapariga e
sentindo o perfume dos cabelos dela. (Que estar fazendo  a Ismlia a
esta hora?)
  740
  - Santa F - exclamou o padre - no  obra dum homem, embora seja de
justia que prestemos nossa homenagem ao seu fundador, que foi uma
figura de prol, tronco de  respeitvel famlia...
  Licurgo no gostou da ressalva. Aquela cambada no merecia a menor
considerao. Ricardo Amaral no tinha passado dum tiranete que falava 
sua gente de cima do  cavalo, de cabea e rebenque erguidos. Comeara a
vida como ladro de gado e mandara matar e surrar muita gente, passando
por cima de todas as leis. O padre no  precisava dar nenhuma barretada
para aquela corja.
  - Santa F  obra de muitos homens, de muitas famlias e principalmente
uma ddiva do Todo-Poderoso!
  Fez uma pausa e passeou o olhar clido em torno, como num desafio a que
contestassem o que acabava de afirmar. Fandango voltou a cabea para a
direita, avistou Fandanguinho  na extremidade do banco - de casaco de
riscado, bombachas brancas, leno branco no pescoo e flor no peito -
sorriu e piscou o olho para
  o neto.
  - No  tambm por meio da calnia oral ou escrita... - prosseguiu o
pregador.
  Chegou a hora do Manfredo levar a sua dose - pensou Licurgo. Resende
conversara com o padre na vspera e lhe pedira fizesse uma referncia 
linguagem de O Arauto.  Licurgo olhou para a direita e viu o Fraga
sentado junto dum dos Amarais, de beiola cada, boca semi-aberta, calva
reluzente, ar palerma, os culos acavalados no  nariz lustroso e
vermelho de cachaceiro.
  - ... no  com a verrina, com a intriga, com o improprio... - As
palavras eram como um vinho embriagador que o padre produzia e ao mesmo
tempo consumia; e sua  sede parecia insacivel... - no  com o aleive,
com a mentira, com a agresso, com o apodo, com a calnia que havemos de
conseguir que nossas idias prevaleam.  Elas s podero impor-se se
estiverem amparadas na verdade, e a verdade, meus queridos catlicos, a
verdade  simples e cristalina como a gua que brota, borbotante,
transparente, translcida e pura do seio da terra, dessa mesma terra que
Deus fez e que os homens habitam e s vezes conspurcam, maltratam,
esterilizam e mancham  de sangue.
  741
  "Mas esse padre  um portento!"- murmurou Licurgo, dessa vez para
ningum. O vigrio evidentemente se referia  ameaa que o velho Amaral
fizera de atacar o Sobrado  aquela noite.
  - Esta data, portanto, pertence a todos aqueles que, santafezenses de
nascimento ou no, amam esta cidade, este torro abenoado, esta
comunidade crist. E se algum  tentar manchar este dia assinalado com
algum ato de violncia, que sobre ele caia a maldio do Todo-Poderoso.
E que contra ele, em justo protesto, se volte a ira  de todos os homens
de bem desta terra!
  As palavras tinham um tom de ameaa: os punhos cerrados do pregador
esmurraram o vcuo. De sbito, porm, uma transformao se operou nele.
Suas mos no eram mais  clavas de ferro: abriram-se e ficaram leves e
esvoaantes como pombas. Sua voz se fez alcalina e seu rosto se iluminou
quando ele disse:
  - Curiosos so os caminhos do mundo e misteriosos os desgnios de
Deus... - Sorriu e por alguns segundos ficou com a cabea inclinada para
um lado, o ar sonhador.  - H trinta e cinco anos nascia na cidade
italiana de Nizza este humilde, insignificante sacerdote que agora vos
dirige a palavra. E nessa mesma cidade, no ano da  graa de 1807, via
pela primeira vez a luz bendita do dia uma criana que recebeu na pia
batismal o nome de Giuseppe. Era filho legtimo de Domenico Garibaldi,
um  marinheiro, e, como o pai, ao fazer-se homem, sentiu o fascnio do
mar. Era tambm um patriota e amava a aventura. Meteu-se na conspirao
republicana de Mazzini  e, perseguido pelas autoridades, fugiu para a
Amrica do Sul. J sabeis, queridos cristos, de quem vos falo.  de
Giuseppe Garibaldi, o guerreiro de dois mundos.
  Fez uma pausa teatral. Bibiana, que nos tempos da mocidade ouvira
narrar, encantada, as proezas daquele lendrio italiano, empertigou-se
e, redobrando a ateno,  ficou sentada na ponta do banco, de cabea
alada e boca entreaberta. O padre falava num companheiro do capito
Rodrigo!
  - Conta a tradio oral que ao passar uma tarde por Santa F, Garibaldi
contemplou longamente a vila do alto da coxilha do cemitrio e depois
murmurou a um dos companheiros:  Un bel villaggio! Dizem tambm que
dormiu uma sesta  sombra da grande
  742
  figueira da praa, sobre os arreios, enquanto seu cavalo, companheiro
leal de tantas batalhas, pastava tranqilamente a poucos passos de
distncia. Que sonhos, meus  amigos, que sonhos teriam visitado o sono
do heri? Se me permitis dar asas  fantasia, direi que ele sonhou com a
vitria dos Farrapos...
  Neste ponto do sermo ouviu-se um murmrio e um arrastar de ps nos
primeiros bancos da direita. O padre calou-se. Cabeas, olhos e atenes
voltaram-se para l.  O velho Amaral ergueu-se, olhou duramente para o
vigrio e disse a meia voz:
  - Isso tambm  demais! Falar na minha frente nesse gringo sujo e
traidor, nesse Farrapo canalha,  um abuso. - Voltou-se brusco para os
filhos e ordenou: - Vamos  todos embora daqui.
  No meio dum silncio tenso retirou-se da igreja, arrastando os ps e
puxando pigarros, acompanhado por todos os Amarais com suas mulheres e
filhos. Manfredo Fraga  seguiu-os como um co fiel.
  O rosto e as orelhas purpreos, as narinas a vibrar, as mos a apertar
fortemente as bordas do plpito, o padre Romano acompanhou os Amarais
com o olhar, e depois  que os viu sarem da igreja, cerrou os olhos,
baixou a cabea, uniu as mos espalmadas e ficou por um instante na
postura de quem reza.
  Um sussurro encheu o ar, como o farfalhar dum arvoredo batido por um
sbito golpe de vento. Mas no se ouviu nenhuma voz. Todos os olhos
estavam fitos no padre.  Atlio Romano levantou a cabea, sorrindo, e
recomeou o sermo:
  - Como eu dizia, Giuseppe Garibaldi sonhou com a vitria das armas
farroupilhas e sonhou tambm, decerto, com a unificao da ptria
distante.
  O padre tem fibra! - pensou Licurgo. No se atrapalhou. Esse  dos bons!
A seu lado Alice estava meio trmula de medo e torcia nervosamente a
ponta da mantilha.  Fandango olhou para o neto e tornou a piscar-lhe o
olho. Bibiana no tirava os olhos da imagem de Nossa Senhora da
Conceio, dizendo-lhe em pensamento: "Vosmec  est vendo?  como l
digo. Amaral no presta nem pr fogo".
  743
  - Anos depois, na Igreja de So Francisco de Assis, em Montevidu -
prosseguiu o orador - Giuseppe Garibaldi casava-se com uma brasileira
que encontrara na Laguna,  Ana de Jesus Ribeiro, mais conhecida como
Anita Garibaldi, a herona. De volta  Itlia, Garibaldi jamais esqueceu
esta provncia, e eu peo vnia para ler-vos,  caros cristos, trechos
da carta que ele escreveu a seu amigo e companheiro de campanha Domingos
Jos de Almeida.
  O padre tirou do bolso um papel.
  - Ouvi o que disse de vossa provncia o insigne guerreiro. "Quando penso
no Rio Grande, nessa bela e cara provncia, quando penso no acolhimento
com que fui recebido  no grmio de suas famlias, onde fui considerado
filho; quando me lembro das minhas primeiras campanhas entre vossos
valorosos concidados e dos sublimes exemplos  de amor ptrio e
abnegao que deles recebi, fico verdadeiramente comovido. E esse
passado de minha vida se imprime em minha memria como alguma coisa de
sobrenatural,  de mgico, de verdadeiramente romntico."- O vigrio fez
uma pausa, lambeu os lbios, e num tom menos solene, acrescentou: -
Agora vou ler uma passagem que por certo  encher de orgulho
principalmente os homens de Santa F: "Quantas vezes fui tentado a
patentear ao mundo os feitos assombrosos que vi realizar por essa viril
e destemida  gente, que sustentou por mais de nove anos contra um
poderoso imprio a mais encarniada e gloriosa das lutas!" - Neste ponto
o padre exaltou-se, como se estivesse  fazendo um discurso poltico. -
"Oh quantas vezes tenho desejado nestes campos italianos um s esquadro
de vossos centauros avezados a carregar uma massa de infantaria  com o
mesmo desembarao como se fosse uma ponta de gado! Onde esto agora
esses belicosos filhos do Continente, to majestosamente terrveis nos
combates? Onde,  Bento Gonalves, Neto, Canabarro, Teixeira e tantos
valorosos que no lembro?"
  Licurgo vibrava, com mpetos de aplaudir, de gritar. Mas limitava-se a
bater com o cotovelo no brao da noiva. Fandango, porm, no se conteve
e exclamou: "Oigal  bicho bom!"
  - "Que o Rio Grande ateste com uma modesta lpide o stio em que
descansam os seus ossos. E que vossas belssimas patrcias..." - O padre
fez uma pausa, passeou  os olhos pela assistncia e repetiu: - "que as
vossas belssimas patrcias cubram de flores esses
  744
  santurios de vossas glrias,  o que ardentemente desejo". - Calou-se,
dobrou o papel e tornou a met-lo no bolso.
  - Mas por que falei em Garibaldi, que aparentemente nada tem a ver com a
data de hoje? - Fez uma breve pausa, como se esperasse de algum
resposta  sua pergunta  retrica. Ergueu o brao direito, com o
indicador enristado. -  porque quem vos fala  um sacerdote italiano de
nascimento que comea a ser brasileiro de corao;  porque nesta mesma
igreja hoje, sentados no meio de brasileiros, acham-se imigrantes
italianos que h quase dez anos chegaram a esta provncia e fundaram
neste mesmo  municpio de Santa F uma colnia que se chama Garibaldina,
em homenagem ao heri. E  porque esses colonos italianos, bem como os
alemes de Nova Pomernia, esto  trabalhando juntamente com os
brasileiros pela grandeza deste municpio, desta provncia, deste grande
pas. E nesta terra cujos conquistadores primitivos tinham  nomes como
Magalhes, Pereira, Fagundes, Xavier, Terra, vivem hoje homens que se
chamam Bernardi, Nardini, Sorio, Conte, Bauermann, Schultz, Schneider,
Schmidt,  Kunz. E nesta igreja espero um dia com a graa de Deus unir em
matrimnio uma Dela Mea com um Pinto ou um Spielvogel!
  Filho meu no casa com gringa - declarou Bibiana mentalmente.
  Atlio Romano abriu os braos e por alguns momentos ficou numa atitude
de crucificado.
  - Aleluia! - exclamou. - Aleluia! Que os sinos cantem, bimbalhem,
badalem, clamem, anunciando ao mundo que Santa F  cidade. E praza aos
Cus que nunca mais outra  guerra fratricida encha de luto e sangue esta
terra abenoada!
  Quando o padre terminou o sermo, os paroquianos comearam a ouvir os
roncos compassados de Jacob Geibel, que dormia sono solto atrs do
plpito.
   um serelepe - pensava Bibiana carpinteiro no corpo.
  parece que tem bicho-
  745
  Sentada  cabeceira da mesa, na sala de jantar que o sol do meio-dia
tocava duma luz alegre, ela contemplava o dr. Torbio Resende, que dava
pulinhos na frente de  Licurgo, atirava os braos para o ar e movia a
cabeorra para a direita e para a esquerda - hein? hein? - com
movimentos vivos de pssaro. Fazia j algum tempo que  ela tentava
acomodar os convivas  mesa, mas no conseguia, pois aquele baiano
desinquieto no parava de falar, de andar dum lado para outro, como se
quisesse lanar  confuso no ambiente. Mirando o advogado com olho
crtico, mas no sem uma certa simpatia, Bibiana esperava pacientemente,
com as mos tranadas postas sobre a mesa.
  Torbio exclamou:
  - Pois que venham os capangas dos Amarais! Havemos de receb-los a bala.
E quando a munio acabar, brigaremos com batatas, laranjas, mandiocas,
pratos, garfos,  panelas. - E  enumerao de cada uma dessas coisas,
movia vigorosamente os braos, como se estivesse atirando pedras contra
inimigos invisveis. Agitava a cabeleira  negra, longa e ondulada, que o
tornava to parecido com Castro Alves.
  De repente cessou de falar, mas continuou a produzir rudo: uma risada
de garganta, trepidante e prolongada, que lembrou a Bibiana a matraca da
igreja em Sexta-Feira  Santa.
  - Quando vossunc terminar de brigar - disse ela a Torbio - venha pra
mesa.
  O dr. Resende aproximou-se da velha, tomou-lhe da cabea com ambas as
mos, e deu-lhe um sonoro beijo na testa. A fisionomia de Bibiana
permaneceu impassvel. No  gostava muito daquelas liberdades,
principalmente quando vinham dum estranho. Nunca fora "mulher de
beijos".
  - Sente-se na minha direita - ordenou ela. Torbio obedeceu, piscou o
olho para Licurgo e disse:
  - Ainda vou acabar sendo seu av, Curgo.
  - Cale a boca, menino. Me deixe acomodar essa gente na mesa.
  O baiano empunhou uma faca e comeou a fazer riscos paralelos na toalha.
  746
  - O senhor, dr. Winter, fique aqui na minha esquerda. Preciso de algum
bom do juzo perto de mim...
  O mdico sentou-se  frente de Torbio. Bibiana olhou para
  o neto:
  - Deixe o Florncio sentar hoje na cabeceira, meu filho. Florncio ficou
constrangido:
  - No carece, titia. Qualquer lugar me serve.
  - Faa o que estou dizendo. Sente na cabeceira.
  O sobrinho obedeceu. Bibiana olhou para as duas moas que estavam de p,
 espera de suas ordens:
  - Alice, sente do lado esquerdo do seu pai. E vossunc, Curgo, fique na
frente da sua noiva. Maria Valria, espere um pouco.
  Alice e Licurgo sentaram-se nos lugares indicados.
  - Onde est o Juvenal?
  - Estou aqui - respondeu o rapaz, que naquele instante entrava na sala,
limpando os lbios com a manga do casaco.
  - Garanto como j esteve bebendo um trago na cozinha, no?
  O rapaz sorriu. Era grandalho e tinha o rosto largo e tostado.
  - Pr'esquentar... desculpou-se ele.
  - Eu sei - resmungou a velha. - No inverno bebem cachaa pr'esquentar.
No vero, pra refrescar. Quando se molham bebem pra evitar resfriado.
Conheo bem esse negcio.  Mas sente ali ao lado do dr. Torbio. -
Voltou-se para Maria Valria. - E vossunc, menina, fique entre o dr.
Winter e o Curgo.
  Esperou que todos se acomodassem e depois, abrangendo a mesa com um
olhar satisfeito, murmurou:
  - At que enfim! Tudo arrumado.
  Mas em pensamento corrigiu: Minto. Nem tudo est arrumado. Ainda falta
muita coisa. Falta o Curgo e a Alice casarem, terem filhos e encherem
esta mesa de crianas.  Falta o menino abandonar a amsia. Falta casar
tambm a Maria Valria.
  Lanou um olhar enviesado para o dr. Torbio, que estava j com a
"matraca" funcionando, a contar ao dr. Winter suas polmicas com o
Manfredo Fraga d' O Arauto.  O dr. Resende podia ser um bom partido...
Ou no? Embora gostasse do rapaz, Bibiana
  747
  nunca conseguira vencer a impresso de que o baiano era um estrangeiro,
de fala e costumes diferentes dos da gente da provncia. Ficava meio
atordoada pela sua tagarelice,  e sua gesticulao exagerada s vezes a
deixava com uma "coisa" nos olhos... Havia de ser muito engraado casar
um moo agitado, conversador e festeiro com uma rapariga  seca, retrada
e caladona como a Maria Valria, que herdara da me (pobre da Ondina,
to quieta, to sem sal!) a falta de graa e do pai a teimosia. No. A
coisa  no podia dar certo.
  Bibiana bateu palmas:
  - Lindia, a sopa!
  As mulheres estavam caladas: Alice brincava com o guardanapo, de olhos
baixos; Maria Valria, muito tesa, as mos pousadas no regao, olhava
fixamente para uma das  janelas, onde uma abelha voejava e zumbia,
batendo s tontas contra a vidraa. Juvenal contava ao pai a histria
dum tropeiro que conseguira vender a certa charqueada  um love de vacas
magras por preo exorbitante. Florncio sacudia a cabea num gesto que
era metade incredulidade e metade censura. A risada do dr. Resende de
novo  vibrou no ar ensolarado.
  Bibiana abarcava a sala com um olhar morno e tranqilo. Sentia-se feliz.
Tinha ao redor da mesa os parentes mais chegados e queridos. No
princpio daquele ano sua  filha Leonor e o marido tinham vindo passar
um ms no Sobrado. Se o Florncio no fosse to teimoso podia tambm
morar ali com sua gente. Era um casaro enorme que  por assim dizer
vivia vazio. Mas o diabo do sobrinho s um ano depois da morte de Luzia
 que tornara a entrar no Sobrado, e assim mesmo meio trazido  fora.
Agora  l estava ele  cabeceira da mesa, com os seus bigodes cados,
seus olhos tristes, macambzio e contrafeito, como se estivesse num
almoo de cerimnia. Ela tinha  s vezes vontade de agarrar o Florncio
pelos ombros e sacudi-lo, sacudi-lo muito. "Deixe de bobagem, homem!
Esta casa  nossa,  dos Terras. Sempre foi!"
  A criada entrou com a grande terrina de loua branca e dep-la sobre a
mesa,  frente da patroa. Bibiana ergueu-lhe a tampa e o vapor subiu,
envolvendo-lhe o rosto.  Com a grande cucharra de
  748
  prata ela mexeu a sopa loura e cheirosa, e depois, tirando pratos fundos
da pilha que tinha  sua direita, comeou a servir.
  - V passando adiante - disse ela ao dr. Torbio, ao entregar-lhe o
primeiro prato. - E no precisa cheirar a comida!
  - Que delcia - exclamou o advogado. - A ambrsia dos deuses e os
manjares dos banquetes de Sardanapalo no cheiravam to bem quanto esta
sopa! Dona Bibiana, tenho  a honra de pedi-la em casamento.
  - Ento primeiro passe adiante a sopa - retrucou ela. E vendo que
Florncio ia entregar o prato a Curgo, disse: - No, Florncio. Esse 
seu.
  Dentro de alguns segundos estavam todos servidos,  espera de que a dona
da casa comeasse a comer. Bibiana tomou da colher, mexeu a sopa com ar
distrado e por  fim, depois de soltar um profundo suspiro, com cujo
sentido o dr. Winter no pde atinar, sorveu o primeiro gole. Os outros
comearam tambm a tomar sopa, e por  alguns minutos o silncio da sala
ficou cheio de chupes sonoros.
  Bibiana olhou para a terrina: tinha quase vinte anos de uso. Viam-se
sobre aquela mesa outros utenslios antigos aos quais a velha se
afeioara como se eles tambm  fossem membros da famlia: a farinheira
de madeira (com a tampa j muito lascada); os pratos de loua creme com
debrum dourado; o paliteiro de platina - um homem  magro de guarda-sol
aberto e cheio de furinhos onde se espetavam os palitos; os clices de
cristal verde e longas hastes, que vinham do tempo do velho Aguinaldo
(que Deus ou o diabo o tenha!).
  Curgo comia com sofreguido, encurvado sobre a mesa, o nariz quase a
entrar no prato. Era sempre assim quando andava preocupado com algum
problema: havia momentos  em que os pensamentos se lhe atropelavam na
mente e ele se esquecia por completo do que estava fazendo... Agora
comia por assim dizer ao ritmo das coisas em que  pensava. Naquele
instante em sua mente era noite, a festa tinha comeado, danava-se na
sala grande do Sobrado e no quintal os negros pulavam ao redor da
fogueira,  mas ele, Curgo, estava de revlver em punho  janela da
frente esperando
  749
  os capangas de Bento Amaral. Venham, seus capados! Venham se so homens!
E eles vinham... Surgiam de todos os cantos da praa e rompiam fogo.
Sobre a cabea de Licurgo  uma vidraa partiu-se, os cacos de vidro lhe
caram na cara. Ele comeou tambm a atirar. Pei! L caiu um. Pei! L se
foi outro. E com fria assassina Curgo levava  as colheradas de sopa 
boca.
  - Coma mais devagar, menino! - gritou-lhe a av.
  S ento Licurgo voltou  sala de jantar. E, como se os outros tivessem
estado a presenciar aquele combate imaginrio, disse:
  - Mas acho que ele no tem caracu!
  Alice corou e baixou os olhos para o prato. Com exceo de Maria
Valria, todos olharam para Licurgo interrogadoramente.
  - Quem  que no tem caracu? - perguntou Juvenal. A sopa que lhe enchia
a boca, tornava-lhe mole a voz.
  - O velho Amaral - esclareceu Curgo. - Digo que no tem caracu pra
atacar o Sobrado. - Inclinou o busto sobre a mesa, voltou a cabea para
a direita e perguntou:  - Qual  a sua opinio, dr. Winter?
  O mdico passou o guardanapo pelos bigodes, pigarreou e respondeu:
  - Coragem talvez no lhe falte. Mas o velho  esperto demais para fazer
uma loucura dessas.
  - Mas no seria a primeira! - observou Torbio. O alemo sacudiu
negativamente a cabea.
  - No, Curgo. Ele no vai fazer uma asneira assim to grande.
  - E por qu? - indagou Torbio. - Hein? hein? Por qu? Carl Winter
comeou a riscar distraidamente a toalha com a
  ponta da faca, enquanto Bibiana o mirava com ar de reprovao.
  - Por vrias razes - prosseguiu o mdico. - Vejam bem. Primo, atacar
uma casa de famlia onde se realiza uma festa em que h mulheres e
velhos,  um ato reprovvel  que fatalmente repercutiria mal em toda a
provncia. Segundo, esse ataque s poderia prejudicar moralmente o
Partido Liberal e fornecer aos jornais abolicionistas  um motivo para
atacarem a monarquia. Finalmente, porque o coronel Amaral sabe muito bem
que o conselheiro no apro-
  750
  varia um gesto de violncia como esse, principalmente dirigido contra o
Sobrado...
  Havia algum tempo, Gaspar Silveira Martins passara por Santa F, onde
realizara uma conferncia, aps a qual - para surpresa de todos - em vez
de ir ao casaro dos  Amarais, visitara o Sobrado, onde ficara at altas
horas da noite a conversar com Bibiana, Licurgo e o dr. Resende. Tinha
sido uma noitada memorvel, e a casa ficara  toda cheia da voz
trovejante daquele extraordinrio orador cuja legenda o pas inteiro
conhecia. O conselheiro deixara "a gente do Sobrado" impressionadssima.
Era  um homem alto, de largo peito, e postura atltica; tinha um olhar
magntico e uma irresistvel capacidade de seduo. O dr. Torbio, que
quase no tivera a coragem  de abrir a boca na presena do estadista,
dissera dele mais tarde: " um misto de Sanso e Demstenes. E se me
pedissem para pintar Jpiter, barbudo e formidvel  por entre nuvens de
tempestade, com um feixe de raios nas mos, eu o representaria na figura
do conselheiro!"
  Depois que Silveira Martins se retirara, av e neto ficaram ainda por
mais duma hora a conversar, entusiasmados, sobre a personalidade do
visitante da noite. Comentara  Licurgo: " um grande tribuno. Pena que
no seja dos nossos". Fandango, que durante todo o tempo da visita
ficara de longe, "bombeando e escutando" o conselheiro,  resumira sua
admirao numa frase: "Bichinho mui especial". Bibiana dissera
simplesmente: "Tem o jeito do capito Rodrigo.  um homem".
  O dr. Winter tinha razo. O velho Amaral no era to insensato que
quisesse correr o risco de provocar a ira do conselheiro.
  - Mas pelas dvidas - contou Licurgo - j tomei minhas providncias. A
peonada do Angico vai danar de pistola na cinta e olho alerta,
preparada pr que der e vier.   bom a gente no confiar muito. O seguro
morreu de velho.
  - Mas morreu - acrescentou Bibiana. Winter soltou uma risada.
  - Ah! - fez o advogado bruscamente. - J ia me esquecendo... - Recebi de
Cruz Alta um boletim que o Diniz Dias
  751
  mandou distribuir.  a propsito de sua briga com o dr. Gaspar Martins.
  Por motivos polticos, o conselheiro destitura o baro de So Jac da
chefia do diretrio liberal do municpio vizinho.
  - Leve os pratos de sopa, Lindia - ordenou Bibiana. Torbio tirou do
bolso um papel, desdobrou-o e disse:
  - Ouam s esta beleza! - Comeou a ler: "O sr. conselheiro decretou a
deposio do baro de So Jac e a outro se entregou o basto que lhe
fora confiado pelo voto  unnime do partido local". - Torbio fez uma
pausa, fitou em Curgo os olhos inquietos, sorriu e disse: - Quem est
radiante com essa briga  o velho Amaral.
  - So vinho da mesma pipa - resmungou o amigo. O advogado baixou a
cabea e continuou a leitura:
  - "Quarenta anos de lutas, vinte e trs de chefia no valero ao soldado
de quatro campanhas para evitar de ser alijado e magoado pelo sr.
conselheiro. Declaro no  entretanto, perante a provncia e meu partido,
que no  propriedade exclusiva do sr. Gaspar, que no aceito a demisso
de chefe..."
  Juvenal tomou a ltima colherada de sopa e disse:
  - Comearam a se comer uns aos outros.
  - Que se entredevorem! - exclamou Torbio. - Que se estraalhem! Essa
confuso s poder ser benfica para a propaganda republicana. Mas ouam
isto, agora.  de  primeirssima: "Estaremos na Rssia, sob a presso
desptica do czar? Somos servos ou cidados livres?"
  - Somos servos da canalha monarquista! - aparteou Curgo. Torbio tornou
a dobrar e guardar o papelucho.
  - Se o gabinete liberal cair e os conservadores subirem - observou o dr.
Winter - o Bento Amaral  capaz de comear a atacar a monarquia.
  - Sim - concordou o dr. Resende - porque nenhum desses dois partidos 
sinceramente monarquista. O que eles querem  governar. Quando esto com
o osso na boca, defendem  o imperador. Quando perdem o osso, comeam a
rosnar.
  - Por isso eu digo sempre - tornou Winter - que no  de admirar se
amanh os Amarais de novo virarem a casaca. No
  752
  foram j conservadores? Tudo depende de onde sopra o vento...
  - Lanou um olhar trocista e oblquo para Licurgo, acrescentando:
  - O velho Bento ainda vai acabar no Clube Republicano.
  - Essa  que no! - protestou o outro. Juvenal sentenciou:
  - Em poltica nunca devemos dizer "dessa gua no beberei". Curgo bateu
na mesa com o punho fechado.
  - Pois  pra acabar com essas imoralidades que ns queremos a repblica.
  - E quem vai derrubar a monarquia - declarou Resende com voz empestada -
 aquele moo austero que nasceu na estncia da Reserva, e que escreve
artigos em A Federao.  A repblica, tome nota das minhas palavras, dr.
Winter, vai cair aos golpes duma pena e no duma espada.
  O mdico sacudiu a cabea, cptico.
  - Neste pas nunca se far nada sem a interferncia direta ou indireta
da espada. S vir a repblica se o Exrcito quiser.
  Sempre que Licurgo ouvia ou lia a palavra exrcito, a imagem que lhe
vinha  mente era a dum certo major Erasmo Graa, que freqentara o
Sobrado em princpios de  1870.
  - Qual Exrcito qual nada! - vociferou ele, lanando um olhar agressivo
para o dr. Winter.
  - Quando chegar a oportunidade - disse Torbio remexendo-se na cadeira -
o Castilhos saber atirar habilmente o Exrcito contra a monarquia. No
h nada que aquela  pena mgica no possa fazer.
  -  um homem inteligente, no h dvida... - murmurou o dr. Winter com
ar benevolente.
  - Um homem inteligente? S isso, meu caro doutor, apenas isso? Hein?
Hein? - E Resende voltava a cabea dum lado para outro. - Hein? Jlio de
Castilhos  o maior  escritor poltico do Brasil!
  Naquele instante entraram duas pretas trazendo bandejas com travessas
fumegantes, que foram enfileiradas no centro da mesa. Juvenal ficou de
olho alegre. Florncio  mirou a comida com melanclica inapetncia.
Winter mais uma vez se maravilhou ante a
  753
  fartura: havia feijo-preto com lingia; carne assada com batata
inglesa; galinha ensopada; um pratarro de mondongo - que o doutor
detestava; uma travessa de arroz  rosado e lustroso; um prato fundo com
abbora e outro com iscas de rins.
  - Agora, que cada um faa pela vida! - exclamou Bibiana. - Sirvam-se!
  Houve uma troca animada de pratos, e por alguns instantes todos ficaram
a servir-se.
  Curgo levantou-se, foi at a despensa e voltou de l com duas garrafas
abertas.
  - Vamos experimentar um vinho feito pelos italianos de Garibaldina -
disse.
  Encheu o clice de Florncio, depois aproximou-se de Maria Valria.
  - Eu no tomo - murmurou esta sem erguer os olhos.
  - Dr. Winter? Talvez vossunc prefira cerveja...
  - Vinho - disse o mdico. Licurgo encheu-lhe o copo.
  - E a senhora, vov, no bebe um pouquinho?
  - No sou gringa.
  Licurgo serviu Torbio e depois Juvenal.
  - Toma vinho, Alice?
  Ela olhou para o noivo e respondeu com um meio sorriso:
  - No, obrigada.
  Por um breve instante o olhar de Curgo fixou-se, morno, no - doce
relevo dos seios de Alice, e imaginou-a nua em seus braos. Mas repeliu
logo esse pensamento.  Era indecente, absurdo. Alice ia ser sua esposa,
a me de seus filhos. Para "aquelas coisas" ele teria a Ismlia. (Onde
estar ela a estas horas?)
  Fez a volta da mesa, encheu o prprio copo e sentou-se.
  -  Repblica! - exclamou Torbio, erguendo o clice. - Hein? Hein? 
Repblica!
  Juvenal e Curgo participaram imediatamente do brinde. O dr. Winter
imitou-os com um resignado encolher de ombros.
  - V l!  Repblica!
  Florncio olhava sombriamente para seu copo. Os outros homens tomaram um
largo gole.
  - Como , seu Florncio? - interpelou-o Torbio Resende.
  - No nos acompanha no brinde?
  - Acho que o papai  monarquista - disse Juvenal, olhando para o velho
com um sorriso que ainda lhe alargava mais o rosto e obliquava os olhos.
  - Eu sei bem o que o Florncio  - resmungou a velha.
  - Um teimoso.
  - Eu no sou coisa nenhuma, tia Bibiana.
  - Um homem tem de ter opinio! - exclamou Curgo, partindo com
desnecessria fria um pedao de carne.
  - Eu c tenho as minhas. S acho que no preciso andar gritando na rua o
que  que penso...
  - Estou falando de poltica - tornou Curgo. - Nesta hora no  possvel
ser neutro.
  Florncio deu-lhe uma resposta indireta:
  - O imperador  um homem de bem. Eu s queria saber onde  que vossuncs
vo arranjar outro melhor que ele pra botar no governo.
  Curgo lanou um olhar clido para Torbio.
  - Est ouvindo, Torbio? Est ouvindo?
  - Como esse h milhares e milhares em todo o Brasil - exclamou o
advogado.
  -  por isso - interveio o dr. Winter - que eu digo que no se pode
contar com o povo para derrubar a monarquia.
  - Mas no se trata duma revoluo armada, doutor, e sim duma revoluo
de idias. Estamos no sculo do progresso, do caminho de ferro, do
vapor, do telgrafo eltrico,  da fotografia... hein? hein? A era da
barbrie j passou.
  Cari Winter, que estava a tomar um novo gole de vinho, riu dentro do
copo to brusca e violentamente que, engasgado, rompeu numa tosse
convulsa, apertando os lbios  com o guardanapo. Sem a menor mudana de
expresso fisionmica, Maria Valria ergueu o brao direito e desferiu
uma sonora palmada nas costas do mdico.
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  - Que  isso, menina? - repreendeu-a Bibiana.
  - O doutor est engasgado - respondeu a moa, imperturbvel.
  Winter tossia e ria ao mesmo tempo. E quando, muito vermelho, com os
olhos cheios de lgrimas, a respirao arquejante, ele bebia pequenos
goles d'gua, Torbio  lhe perguntou:
  - Mas por que o senhor riu, hein?
  O alemo encarou-o, subitamente srio.
  - Vossunc disse que a era da barbrie passou e que estamos no sculo do
progresso, das idias...
  - E que  que h de to extraordinrio nisso? Acaso no terei enunciado
um axioma irretorquvel?
  Winter atirou o guardanapo sobre a mesa, inclinou o busto para a frente,
e, escandmdo bem as slabas, disse com voz ainda apagada:
  - No se iluda, meu jovem amigo. Os homens inventaram algumas engenhocas
teis, no h dvida, mas no que diz respeito a sentimentos no esto em
muito melhor situao  que seus antepassados das cavernas. Suas reaes
animais so basicamente as mesmas.
  - Experto crede! - exclamou o advogado.
  - No ano passado a Inglaterra ocupou o Egito - prosseguiu o mdico. -
Que significa isso? A vitria da civilizao sobre a barbrie? No.
Significa, a meu ver, que  essa nobre vaca, com o perdo das senhoras
presentes, que essa respeitvel bruaca que  a rainha Vitria vai ter
mais escravos e os comerciantes ingleses mais lucros.
  Os olhos ainda midos, Winter apertava a haste do clice com seus longos
dedos rosados, cobertos duma penugem fulva. Os outros dividiam a ateno
entre a comida  e a polmica.
  - Qual progresso, qual nada! - E o mdico tornou a passar o guardanapo
nos lbios. - Diga antes interesse material, comrcio, ganncia. O homem
 o lobo do homem.  Vosmec deve saber dizer isto em latim, dr.
Resende...
  - Mas o meu caro e irnico esculpio - retorquiu Torbio - achar que a
Inglaterra, com seu adiantamento cientfico, a sua
  
  civilizao, a sua experincia no pode levar o progresso ao Egito?
Hein?
  - Pode mas no leva. Para ela os egpcios no so propriamente homens.
  - No entanto - rebateu Torbio, cujas faces o vinho e o entusiasmo
deixavam afogueadas - no entanto vosmec no negar que foi graas 
grande Inglaterra que abolimos  o trfico de negros. S uma poltica
altamente humanitria seria capaz de conduzir a um gesto to altrusta.
Desde 1807, se no me falha a memria, a Inglaterra  no faz mais o
comrcio de escravos.
  - Mas dizem que ainda vendem negros por baixo do poncho - observou
Juvenal.
  - Qual nobreza, qual humanitarismo, qual nada! - exclamou Winter. - Tudo
interesse comercial.
  - O senhor  um esprito de contradio! - acusou-o Curgo agastado.
  Espetou no garfo um pedao de batata, levou-a  boca num gesto brusco e
ficou a mastig-lo com uma ferocidade cmica.
  - Sou um homem sem paixes - disse Winter. - No tenho partido. Nem
sequer nasci neste pas. Um dia posso ir-me embora para a Alemanha e no
voltar mais. Limito-me  a ler, ouvir, observar e tirar minhas
concluses. Os senhores botam todas essas questes num p puramente
ideolgico. Eu prefiro levar a coisa para o lado do interesse
material...
  - O senhor ento - perguntou Curgo, inflamado - acha que no h no mundo
lugar para o corao, e que as pessoas s fazem as coisas com o olho no
lucro, no benefcio  prprio?
  - No quero dizer exatamente isso... - comeou o mdico. O outro, porm,
no lhe deu tempo para terminar a sentena, pois prosseguiu:
  - Tome o meu caso. Vou hoje dar liberdade a todos os meus escravos. Qual
 o meu lucro material nessa histria? Me diga. Me diga.
  Winter encolheu os ombros.
  - Vossunc  um sentimental.
  - Graas a Deus! E no me envergonho disso.
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  Lanou um olhar rpido para Alice, que naquele instante o contemplava
com expresso amorosa. Depois ergueu o copo e bebeu, como num brinde a
si mesmo, ao seu bom  corao e aos seus sentimentos nobres.
  - A provncia do Cear est libertando seus escravos - ajuntou Torbio.
- A do Amazonas tambm. Que lucro material tm elas nisso?
  Winter lutava com uma sambiquira de galinha. Sem erguer os olhos para os
interlocutores, respondeu:
  - A explicao  simples. Para a lavoura do norte o brao escravo j no
 mais negcio. No fim de contas  muito melhor pagar ao negro um
salrio baixo e seco do  que dar-lhe de comer e vestir.
  Juvenal largou a sua perna de galinha e disse:
  - Mas um dia destes conversei com um fazendeiro de So Paulo que no
quer nem ouvir falar em abolio...
  - Mas est certo - replicou o mdico - rigorosamente certo. A lavoura de
caf  a mais prspera do pas, a mais lucrativa. Os fazendeiros de So
Paulo esto tendo  lucros cada vez maiores.
  Destacando bem as slabas e atirando-as uma a uma na direo de Licurgo
e Torbio, com uma lentido provocadora, o dr. Winter concluiu:
  - Os fazendeiros de caf precisam do trabalho barato do escravo. Por
isso so contra a abolio. O governo por sua vez se encontra entre dois
fogos: o interesse  dos senhores feudais paulistas e a opinio pblica,
que  anti-escravagista.
  - Seja como for - disse Torbio - a idia abolicionista est em marcha
vitoriosa.
  - E vencer! - exclamou Licurgo. Winter sorriu:
  - Espero que no me tomem por um miservel escravagista. Sou apenas um
homem que se quer dar o luxo de ver claro...
  Mas que era "ver claro"? - perguntou ele a si mesmo, chupando a
sambiquira da galinha. Seria coisa sbia procurar a gente viver sempre
com lgica e lucidez? s vezes  lhe parecia que o melhor era participar
de todas as paixes, enlamear-se nelas, no ficar 
  758
  margem da vida, preocupado com examinar todos os lados das pessoas e das
questes, querendo dizer sempre a palavra mais justa e serena, que no
fim era quase sempre  a mais cnica e a menos humana. Apesar de toda a
sua famosa lucidez, aos sessenta e trs anos de idade encontrava-se ele
ainda em Santa F, solteiro, solitrio,  escravo da rotina, pensando
sempre em ir-se embora, em voltar para a Europa, mas ao mesmo tempo
sentindo-se poderosamente preso quela terra como uma velha rvore  de
razes profundas - mas uma rvore que no ama o solo em que est
plantada e no tira dele o alimento de que necessita para vicejar com
toda a plenitude.
  Lenta e meio cansada, como se viesse do fundo dum longo corredor
sombrio, ouviu-se a voz de Florncio:
  - No tenho nem nunca tive escravos. Mas acho que no Rio Grande os
negros so felizes. Nas estncias e nas charqueadas eles trabalham ombro
a ombro com os brancos.  A no ser um ou outro caso, em geral so bem
tratados. Dizem que l no norte os senhores de engenho maltratam os
escravos. No sei. H muita conversa fiada. O que  sei  que aqui na
provncia os negros passam bem.
  Curgo sacudia a cabea, obstinadamente.
  - Mas isso no  razo pra manter a escravatura, primo Florncio.
  O velho fez um gesto vago.
  - Vossuncs so moos, lem nos livros, devem saber o que fazem. Eu sou
um homem antigo.
  Bibiana lanou-lhe um olhar de estranheza. Se Florncio se considerava
"antigo", ela ento, que era? Um caco velho, um trapo. No entanto no se
trocava por nenhum  daqueles moos que ali estavam ao redor da mesa.
  Juvenal voltou-se para Torbio e perguntou:
  - Como  mesmo aquela frase do conselheiro sobre a escravatura?
  - "Amo mais a minha ptria do que ao negro" - citou o advogado.
  - Frase indigna dum grande homem - disse Licurgo. - Nem parece ter sado
duma cabea privilegiada como aquela.
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  Torbio olhou para o amigo:
  - No aprovo a atitude de Gaspar Martins, mas compreendo-a. O que ele
quer dizer  que teme que a luta pelo abolicionismo degenere em guerra
civil como nos Estados  Unidos da Amrica do Norte.
  - E tem razo - observou Florncio. - H esse perigo. Licurgo
levantou-se intempestivamente, foi at a sala de visitas,
  voltou de l trazendo o ltimo nmero de A Federao, que recebera na
vspera, tornou a sentar-se e anunciou:
  - O que vou ler agora foi o dr. Castilhos que escreveu: "Abandonada aos
impulsos naturalmente irregulares da paixo revolucionria que anima
tanto o abolicionismo  intransigente como a escravocracia emperrada, a
questo do elemento servil assume uma gravidade excepcional". Agora
prestem bem ateno a este final: "Se a luta  violenta sobrevier, desabe
todo o peso da responsabilidade sobre o governo medocre que compromete
a paz jpblica".
  Tornou a dobrar o jornal e colocou-o junto do guardanapo com o ar de
quem havia dito a palavra definitiva sobre o assunto. Houve um curto
silncio, ao cabo do qual  Torbio falou:
  - O que o dr. Castilhos quer dizer - explicou ele -  que o governo no
tem seguido uma poltica sensata nesse assunto da abolio.
  - Mas que  que o doutor chama de poltica sensata? - perguntou Winter.
  - Uma poltica que visasse acabar gradualmente, hein, hein?, a
propriedade escravagista por meio, digamos, dum imposto que os senhores
de escravos teriam de pagar  e cujo produto podia ser empregado num
fundo de emancipao. Uma poltica que promovesse o decreto de leis
tendentes a dificultar o negcio de escravos e sua transmisso  por
herana. Por exemplo: devia ser proibido o comrcio de negros entre as
provncias. E a melhor maneira de substituir o brao escravo na lavoura
seria estimular  a imigrao. Tudo isso o governo podia fazer e no faz.
  - S conseguiremos essas coisas com a repblica - firmou Curgo.
  Florncio meneou a cabea.
  760
  - Estou muito velho pra acreditar em conversas - observou ele, de olhos
baixos, como se estivesse se dirigindo ao prprio prato e no aos
outros. - Tenho visto muita  mudana de governo na minha vida e tenho
lido e ouvido muita promessa de polticos. Acho que as coisas no vo
mudar se vier a repblica.
  Curgo olhou vivamente para o tio e, quase agressivo, replicou:
  -  por essa e por outras que o Brasil no vai pra frente. Se homens
como o senhor acham que no h diferena entre repblica e monarquia, o
que  que a gente pode  esperar dum gacho bronco, dum peo, dum...
dum... homem da rua? - Olhou para o advogado e pediu: - Torbio, conte
ao primo Florncio o que  que a repblica quer.
  Torbio cruzou os talheres, fincou os cotovelos na mesa, tranou as mos
 altura do queixo e principiou:
  - Para no fazer uma dissertao muito comprida, direi primeiro que, com
a repblica, as provncias ficaro transformadas em Estados autnomos e
confederados, mas  politicamente unidos.
  Esfregou as mos e fez uma pausa. Bibiana aproveitou o breve silncio
para perguntar:
  - Mais carne, dr. Winter?
  - No, muito obrigado.
  - Teremos tambm um poder legislativo central; um tribunal superior de
justia, colaborao proporcional de todos os Estados para as despesas
da nao...
  Winter sabia que Florncio no estava entendendo nada. Como ele havia no
pas milhes de pessoas para as quais aquelas palavras no tinham
sentido.
  A enumerao continuava. O senado seria temporrio. O voto, alargado.
Todos teriam liberdade de associao e de culto. Os cemitrios seriam
secularizados...
  Neste ponto Bibiana interveio:
  - E os defuntos vo continuar mortos, sem saber de nada... Curgo fuzilou
para a av um olhar de censura.
  - Teremos o casamento civil obrigatrio - prosseguiu Torbio. - A Igreja
ser separada do Estado. Os ministros, responsabilizados. No s os
ministros, mas tambm  todos os agentes da
  761
  administrao. Acabaremos com o poder moderador e com o conselho dos
Estados. Ah! E haver a mais ampla liberdade de ensino... De repente o
advogado calou-se. Florncio  fez apenas este comentrio:
  - Tudo isso  muito bonito. Mas o imperador  um homem de bem.
  Curgo deixou escapar um suspiro de impacincia.
  -  um caixeiro viajante! - explodiu. - Vive passeando na Europa,
fazendo versos e visitando museus, enquanto o pas aqui se vai guas
abaixo!
  Florncio no respondeu. Continuou a comer serenamente. Torbio retomou
a palavra:
  - E um imperador para uso externo, cujo principal motivo de orgulho 
ser amigo ntimo de Victor Hugo!
  Florncio repetiu simplesmente:
  - O imperador  um homem de bem.
  O relgio grande bateu uma hora.
  Os pratos foram recolhidos e veio a sobremesa - doce de coco - numa
grande compoteira de vidro azul, na forma duma galinha no choco. Todos
gostam de doce de coco?  Se no gostarem, tem pessegada, marmelada e
figada... Mas todos gostavam.
  Durante aqueles ltimos dez minutos o dr. Torbio estivera com a
palavra, continuando sua catilinria contra o imperador e seus ministros
enquanto os outros o escutavam  em silncio com uma ateno duvidosa.
  Vendo que o advogado no tocava na sobremesa, Bibiana lhe disse:
  - Coma, moo. Vossunc mais fala do que outra coisa.
  - Mas  da profisso, minha senhora. Se ns os advogados no falarmos,
perdemos as causas, e se perdermos as causas, morreremos de fome.
  762
  - Pois ento coma enquanto tem comida - retorquiu a velha.
  Resende soltou a risada de matraca.
  - A senhora  uma mulher que me agrada. Realista, positiva, hein? hein?
De gente assim  que vamos precisar quando vier a repblica, no 
mesmo, Curgo? Pois sua  av vai ser a primeira presidenta do Estado do
Rio Grande do Sul, hein?
  Bibiana, que partia uma fatia de queijo, sorriu e replicou:
  - Se eu continuar sendo presidenta do Sobrado me dou por muito
satisfeita. - Fez com a cabea um sinal na direo de Alice. - Ali est
quem vai me derrubar. Dentro  dum ms ser a dona desta casa.
  - Ora, titia - protestou Alice debilmente. - Nem diga uma coisas
dessas...
  Maria Valria, que pouco falara durante todo o almoo, 
  observou:
  - Todo o mundo sabe, tia Bibiana, que quem vai continuar mandando aqui
dentro  a senhora.
  Winter voltou a cabea para a moa que estava a seu lado. Tinha uma
simpatia particular por aquela rapariga que toda a gente achava feia,
mas na qual ele descobria  um encanto secreto e meio spero, muito mais
atraente para seu gosto do que a "boniteza" comum de Alice. Sempre que a
via, muito alta, tesa e esbelta, o rosto alongado,  os grandes olhos
negros um pouco saltados, o nariz longo e fino, a boca rasgada de
expresso um tanto sardnica - ele no podia deixar de fazer uma
comparao: "comprida  e aguda como uma lana". A prpria voz de Maria
Valria tinha algo de contundente. Em vrias ocasies, com o intuito de
conhec-la melhor, Winter procurara lev-la  a confidncias, pois
suspeitava de que havia naquela criatura muito mais coisas do que seus
gestos e palavras revelavam. No conseguira, entretanto, quebrar aquela
espcie de armadura de gelo que envolvia a filha mais moa de Florncio
Terra. Aos vinte e quatro anos Maria Valria tinha mentalmente quase a
idade de Bibiana.  Quando as duas mulheres se encontravam, Winter
divertia-se a observ-las. Era evidente que existia entre ambas uma
certa m vontade recproca a que as gentes da
  763
  provncia davam o nome de birra. Eram - comparava o mdico - duas
personalidades de pederneira, que ao se chocarem produziam chispas de
fogo. No entanto ele estava  certo de que, sendo necessrio, qualquer
uma daquelas duas mulheres seria capaz dos maiores sacrifcios pela
outra.
  Bibiana lanou um olhar duro para a sobrinha, mas nada disse. Quando
veio o caf, Resende acendeu um charuto e Florncio e Cari Winter
comearam a fazer seus cigarros.  Licurgo aproximou-se da janela e olhou
para o quintal onde os escravos comiam sentados no cho, sob as rvores,
ou nos degraus da escada que levava  porta da cozinha.  Eram homens,
mulheres, crianas e velhos, todos descalos e molambentos. Uns tinham
nas mos latas ou velhas panelas cheias de arroz e feijo; outros metiam
os dentes  em costelas, arrancando-lhes a pelanca, ao passo que uns
quatro ou cinco caminhavam dum lado para outro, a chupar laranjas e
bergamotas. Comiam num silncio impressionante,  e sobre as carapinhas e
os chapus de palha, as faces, mos, pernas e ps pretuscos que o frio
gretava, brilhava o claro e tpido sol de junho. Licurgo ficou a
imaginar  a cara que os escravos fariam aquela noite quando recebessem
na sala grande do Sobrado seu ttulo de manumisso. Compadecia-se
daquela pobre gente, mas reconhecia  que nem sempre tinha pacincia
suficiente para trat-la com doura. Mais duma vez fora obrigado a dar
de relho em pretos que lhe faltaram com o respeito. Fizera  isso, porm,
de homem para homem, mas nunca, nunca mesmo, mandara aoitar um escravo.
  Acendendo o charuto que o dr. Torbio lhe oferecera, Juvenal disse:
  - Eu s queria saber quem vem  festa hoje aqui no Sobrado e quem vai ao
baile do Pao...
  Licurgo ouviu as palavras do primo e deixou a janela.
  - Pra vir aqui hoje - disse, aproximando-se do outro -  preciso ter
tutano. Quem entra nesta casa fica marcado pelos Amarais pr resto da
vida.
  - Tenho receio que no venha ningum - confessou Bibiana. - Depois que
espalharam que o velho vai mandar atacar o Sobrado, muita gente pode
ficar com medo de vir...
  764
  - Pois quem tiver medo que no aparea! - exclamou Licurgo. - S
queremos aqui dentro gente de coragem e de opinio. Se for preciso,
fazemos o baile com o pessoal  de casa e com a negrada.
  Juvenal puxou uma baforada com gosto e, olhando intencionalmente para
Maria Valria, murmurou:
  - Eu sei dum moo que vem...
  Os outros riram porque sabiam a quem ele se referia. Jos Lrio, o
Liroca, andava perdido de amor por Maria Valria, a qual tinha por ele
invencvel repulsa. E o  que deixava a situao ainda mais cmica era o
fato de o rapaz ser mais baixo e mais moo que sua amada.
  - Se sabe, diga logo! - desafiou Maria Valria.
  Um pontao de lana - refletiu Winter, acendendo o cigarro e olhando
reflexivamente para Bibiana.
  - A senhora se lembra - perguntou ele - quando um dia, faz muito tempo,
nesta mesma sala, nesta mesma mesa, eu lhe disse que Santa F ia
progredir e ter muitas dessas  coisas de cidade grande?
  - Nunca me esqueo de nada, doutor.
  - Pois . No me enganei. Hoje temos lampies nas ruas, nmeros nas
casas, mala postal...
  Curgo interrompeu-o:
  - Mala postal, essa, que devia chegar uma vez por semana mas que chega
sempre com o atraso de duas semanas, quando chega... Belezas da
monarquia!
  Sem fazer caso da interrupo, o mdico prosseguiu:
  - Temos um teatrinho, um telgrafo...
  - E casas de mulheres -toa - ajuntou Bibiana acidamente. Havia para as
bandas da coxilha do cemitrio uns dois ranchos
  onde viviam algumas chinas. Dizia-se que at homens casados freqentavam
essas ordinrias.
  Winter soltou uma risada curta e seca.
  - Que  que a senhora quer? Essa  a mais antiga das profisses.
  - Uma pouca-vergonha, isso sim  que  - replicou a velha. Lanando um
olhar oblquo para o neto e baixando a voz, ajuntou:
  765
  - H homens que nem precisam visitar essas sem-vergonhas, porque tm as
amsias em casa mesmo.
  Licurgo teve a desnorteadora impresso de que a av acabava de
esbofete-lo em pblico. Sentiu um sbito formigamento quente em todo o
corpo e olhou automaticamente  para a noiva, que conversava em voz baixa
com o pai e parecia no ter prestado ateno s palavras da velha.
  Maria Valria ergueu-se da mesa, acercou-se da janela que dava para a
Rua dos Farrapos, e ficou olhando com ateno vaga para a meia-gua
caiada, l do outro lado,  e  frente da qual uma criana brincava com
um cachorro. Desconcertada diante da observao de dona Bibiana, tratara
de afastar-se do grupo, para que ningum lesse  em seu rosto que ela
sabia do caso de Licurgo com Ismlia. Passara todo o tempo do almoo
esforando-se por no olhar para o primo. Que gostava dele, era uma
verdade  que s admitia com relutncia. Morreria de vergonha se algum
viesse a suspeitar desses sentimentos que em vo procurava ocultar at
de si mesma. Temendo trair-se,  chegava a tratar Curgo com aspereza,
dando muitas vezes aos outros a impresso de que lhe queria mal. Sempre,
porm, que o via ou que lhe ouvia a voz, ficava toda  perturbada, com a
garganta seca, as mos trmulas, o corao a bater descompassado. No seu
orgulho, irritava-se com isso, pois lhe fora sempre agradvel a idia
de considerar-se diferente das outras moas que viviam preocupadas com
"essas bobagens de amor". Maria Valria era muito sensvel aos mexericos
da vila, embora declarasse  no dar-lhes a menor importncia. Era
costume chamar aos maldizentes "filhos da candinha". Seria horrvel se
eles um dia comeassem a murmurar: "Sabem da ltima?  A Maria Valria
est apaixonada pelo noivo da irm".
  Com a testa encostada na vidraa, os olhos fitos na rua, ela agora ouvia
mentalmente vozes repetirem aquelas palavras. E "os filhos da candinha"
tinham caras conhecidas:  eram os homens que bebiam cachaa e contavam
histrias sujas na venda do Schultz e na Casa Sol; eram tambm as
mulheres que se encontravam  sada da missa e murmuravam  segredinhos:
"Ouvi dizer que a Maria Valria tem um rabicho danado pelo Curgo. Quem
diria, hein? 
  766
  V a gente se fiar nessas santinhas..." S de pensar em tais coisas ela
ficava com as orelhas vermelhas, as faces quentes como chapa de fogo, e
at a respirao se  lhe tornava difcil, como se ela estivesse cansada
dum esforo fsico.
  - Pois , doutor - dizia Bibiana. - Fique com o seu progresso. Me deixe
c com as minhas antigidades.
  Resende caminhava pela pea, em passos rpidos e aflitos, soltando no ar
a fumaa azulada do charuto. De repente estacou junto de Curgo,
segurou-lhe um dos botes  do palet como se quisesse arranc-lo e
disse:
  - Preciso voltar  redao. Estou preparando um nmero especial de O
Democrata para amanh. Os monarquistas vo ficar com a canela ardendo de
inveja. J comecei  a escrever a notcia da nossa festa.
  - A festa de hoje de noite? - estranhou Bibiana.
  - E que tem isso? No  difcil imaginar o que vai acontecer. No se
esquea de que estamos em 1884. O jornalismo moderno difere do antigo
principalmente na presteza  com que d as notcias.
  A velha sacudiu a cabea lentamente, murmurando: "Ora j se viu?"
Resende beijou-lhe a mo.
  - Muito obrigado pelo almoo - disse. - Foi um banquete digno dum
nababo. - Fez um gesto largo. - At logo para todos! Curgo, por volta
das quatro estarei aqui nas  minhas roupagens vermelhas de mouro, hein?
Derrotaremos os cristos e imperemos ao mundo o Imprio do Crescente.
Viva a Repblica!
  Precipitou-se para o vestbulo, acompanhado de Juvenal que, de olhos j
pesados, pensava na sesta.
  -  bem doido - comentou Bibiana, sorrindo. E depois, mudando de tom: -
S no sei por que  que vossuncs, meninos, vo de mouros e no de
cristos.
  -  porque o vermelho representa a revolta, dona Bibiana - explicou
Winter - a revoluo, e tambm porque  a cor da mocidade, no , Curgo?
  - No. Ns somos mouros porque os Amarais so cristos. Bibiana olhou
para o neto, sobressaltada.
  767
  - No vai haver perigo de sair briga de verdade? No quero que vocs se
lastimem.
  Licurgo sacudiu os ombros.
  - Estamos prontos pr que der e vier.
  Florncio olhava para Maria Valria, que estava ainda ao p da janela.
Sentia pelos filhos uma profunda afeio, embora no soubesse
manifest-la em gestos ou palavras  de carinho. Admirava Maria Valria:
era ela quem, depois da morte da me, tomava conta da casa. Tinha
coragem, bom senso e esprito prtico; no se preocupava com  vestidos
ou enfeites, e no era dessas que vivem na frente do espelho, pensando
em festas e namorados. Sabia fazer queijos, doce e po; era uma
cozinheira de primeira  ordem e herdara as mos habilidosas da me,
sendo hoje talvez a melhor rendeira de Santa F. Quando ela trabalhava
com o bilro, Florncio ficava distrado a olhar  o movimento de seus
dedos a tramarem os fios por entre os alfinetes do almofado. J a Alice
era diferente... Florncio sentia por ela uma afeio misturada de pena.
Sempre a achara menos independente e corajosa que a outra. Parecia ser
dessas moas que precisam permanentemente de proteo, que nasceram para
viver  sombra dum  homem - pai, irmo ou marido. Quanto a Juvenal, era
sem a menor dvida o mais alegre e des.preocupado de toda a famlia. s
vezes Florncio ficava a perguntar a  si mesmo de onde o rapaz teria
herdado aquele gnio. Olhava a vida sem pessimismo, gostava de festas,
era trocista e costumava dizer que no se casaria nunca porque  no era
homem de gostar da mesma mulher a vida inteira. Florncio lembrou-se dum
dia em que chegara  casa abatido e contara aos filhos a decepo que
tivera com  um homem que at ento ele julgara ser seu amigo de verdade.
Alice mirara-o com uma expresso de pesar. Maria Valria, ocupada com
preparar o jantar, no pronunciara  palavra. Mas Juvenal, sorrindo e
encolhendo os ombros, dissera: "Faca que no corta, pena que no
escreve, amigo que no serve, que se perca pouco importa". Era  bom ter
um gnio assim - refletiu Florncio. A gente sofre menos.
  -  um costume portugus - dizia Curgo  av, que lhe perguntara sobre a
origem das cavalhadas. - Foram os aorianos que trouxeram pra c.
  768
  - Mas a coisa vem de mais longe - acrescentou o dr. Winter. E comeou a
dissertar sobre o reino dos visigodos e a citar nomes como Pelgio,
Hermengarda, Roderico,  Vamba...
  Esse alemo sabia coisas - refletiu Florncio. Talvez fosse a nica
pessoa no mundo que sabia o que se tinha passado entre Bolvar e a
mulher em Porto Alegre, no  tempo da peste. Tudo o levava a crer que
pouco antes de ser assassinado pelos capangas de Bento Amaral, Boli
contara a Winter o seu segredo.
  O mdico, porm, conservara a boca fechada. Depois daquele dia em que
Florncio correra para o Sobrado ao ouvir tiros, e fora erguer do meio
da rua o corpo ensangentado  do primo - depois daquele dia horrvel
nunca mais tinham tocado no assunto. Era melhor no remexer naquela
ferida. Era melhor esquecer... No entanto, tudo ali no  Sobrado agora
lhe lembrava Luzia, Bolvar e os anos difceis que se haviam seguido
quele casamento desastroso. Florncio no podia esquecer que Bolvar
ficara indiferente  com ele, a ponto de por fim trat-lo como a um
estranho. Essa era uma das grandes tristezas de sua vida. Outra de suas
mgoas era a de nunca ter podido dar  famlia  uma vida de conforto e
fartura. Perdia dinheiro em todos os negcios em que se metia. Era pura
falta de sorte, porque no jogava, no bebia, nunca fora dado a
mulheres;  pulava da cama com o sol, ao raiar o dia, e com o sol se
deitava ao anoitecer. No rejeitava trabalho, e Deus era testemunha do
quanto ele amava a famlia e do quanto  desejava faz-la feliz. Sempre
que se lembrava da falecida era com uma saudade tocada de remorso: o
remorso de no lhe ter podido dar uma vida melhor. Desde o dia  em que
se casara at o dia em que a puseram no caixo, enrolada numa mortalha
que as prprias filhas coseram, Ondina havia trabalhado sem parar,
cozinhando, lavando  e passando a roupa, cuidando da casa, dos filhos e
do marido e ainda por cima - coitada! - fazendo renda para vender. No
entanto ele no lhe ouvira nunca a menor  queixa.
  Florncio olhou para Curgo, que discutia animadamente com o dr. Winter.
O rapaz era opinitico como os Terras e esquentado como o av. Dentro de
poucas semanas seria  seu genro. Florncio aprovara o noivado mas nada
fizera para encoraj-lo: no queria
  769
  dar motivo para dizerem que estava procurando casamento rico para a
filha. Queria, isso sim, que ela fosse feliz como merecia. Mas
infelizmente aqueles dois iam  comear a vida de casados j com uma
dificuldade muito sria. Curgo tinha uma amsia. Diziam que o rabicho
era forte. Florncio no acreditava que o rapaz abandonasse  a china.
Conhecia dezenas de casos como aquele: duravam quase sempre toda uma
vida. Pensara a princpio em falar francamente no assunto com o futuro
genro, mas desistira  da idia, temendo um atrito. Licurgo tinha o
sangue quente e detestava que lhes dessem conselhos. Que fosse tudo como
Deus quisesse!
  O dr. Winter levantou-se, espichou os braos, espreguiando-se, e disse:
- Bom, vou fazer a parte do cachorro magro que enche a barriga e sai
sacudindo o rabo.
  Despediu-se e saiu. Bibiana acompanhou-o com os olhos e, antes de v-lo
desaparecer, gritou-lhe:
  - Vossunc vem  festa hoje de noite? O mdico voltou-se e respondeu:
  - Est claro que venho. Me acha com cara de capacho dos Amarais?
  A velha fez um muxoxo.
  - U! A gente v de tudo no mundo.
  - Argumentum ad ignorantiam! - exclamou o mdico. E abalou.
  Bibiana ficou rindo seu risinho gutural e lento.
  - Esse dr. Winter sempre empulhando a gente com o seu alemo! - Depois
olhou para o neto, que conversava com a noiva, e disse: - V dormir a
sua sesta, menino.
  Licurgo franziu a testa, contrariado. No lhe era nada agradvel receber
ordens da av diante das primas.
  - No estou com sono - respondeu ele, com uma m vontade que lhe dava
certo fio s palavras.
  - Mas v - insistiu a velha. - Vossunc precisa descansar um pouco. O
dia vai ser brabo e comprido. Sua noiva no repara, no , Alice?
  - No reparo, titia.
  - Pois . V!
  770
  Curgo apertava nos dentes o cigarro agora apagado. De repente sentiu que
a sesta lhe seria uma boa desculpa para deixar a sala: era-lhe difcil
manter conversao  com a noiva.
  - Est bom. Com licena de todos, at mais tarde!
  - At mais tarde - disse Alice. Maria Valria no olhou para o primo.
  Depois que Licurgo se retirou, Florncio ps-se de p.
  - Ns tambm vamos indo. Bibiana ergueu a mo:
  - Fiquem um pouquinho mais.
  - A senhora no vai dormir a sesta?
  - Quem foi que l disse que eu durmo a sesta?
  Florncio no respondeu. Sabia que todos os dias aps o almoo a velha
apanhava um jornal, acavalava os culos no nariz, sentava-se na cadeira
de balano e ficava  a ler e a lutar com o sono, de plpebras pesadas e
meio cadas, mas mesmo assim teimando em manter os olhos abertos. Por
fim, vencida, deixava tombar o jornal e,  de cabea pendida sobre o
peito, dormia profundamente. Acordava dali a meia hora num sobressalto,
piscava estonteada, remexia os lbios e estalava a lngua como  se
estivesse provando alguma coisa e, se via gente perto, tratava de
disfarar, dizendo:
  - Quase peguei no sono... Florncio mirava-a agora, indeciso.
  - Sente-se - ordenou ela. - E vossuncs tambm, meninas. Precisamos
tratar dum assunto.
  Pai e filhas obedeceram.
  - Ento - perguntou Bibiana, que continuava sentada  cabeceira da mesa
- quando  que resolvem se mudar pr Sobrado?
  Por um instante Florncio ficou mudo. Depois, sem olhar para a tia,
murmurou:
  - Eu j lhe disse mais duma vez que no acho direito.
  - O que no  direito  roubar, matar, pregar mentiras, tirar a mulher
do prximo.
  - Se a senhora quer a minha opinio, titia - interveio Maria Valria -
eu estou com o papai. No fica direito.
  - Ningum pediu a sua opinio.
  771
  - Mas eu dei.
  - Que  isso, minha filha? - repreendeu-a Florncio suavemente.
  Bibiana mirou a moa sem rancor. Por mais que Maria Valria s vezes a
irritasse, no podia deixar de admir-la. Gostava de gente franca e
despachada.
  - Pois  - prosseguiu a velha tranqilamente. - Esta casa  grande que
nem potreiro e no entanto vive a bem dizer vazia.. Vossuncs moram
naquele cochicholo velho,  mido, sem vidraas nas janelas, todo cheio
de goteiras. E pagam um despropsito de aluguel. Isso  que no 
direito.
  Florncio sacudia negativamente a cabea, chupando o cigarro com um
certo constrangimento, pois ainda no se habituara a fumar diante da
tia.
  - Tudo isso est bem - concordou. - Mas  que podem dizer que estamos
vivendo  custa da senhora e do Curgo.
  - Pois que digam. No  verdade. - Olhou para Alice e sorriu. - O seu
caso j est resolvido, no , minha filha? - Piscou-lhe o olho, fazendo
um sinal de cabea  na direo de Florncio e de Maria Valria. - Deixe
esses dois velhos cabeudos morando sozinhos naquela baica. Um dia eles
ho de se entregar, no ?
  Ergueu-se, dizendo:
  - Est bom. Agora podem ir.
  Florncio beijou a mo da velha e saiu a manquejar na direo da porta
da rua.
  Alice beijou a tia em ambas as faces, mas Maria Valria limitou-se a
apertar-lhe a ponta dos dedos. Quando, acompanhadas do pai, as moas j
estavam no vestbulo,  Bibiana gritou-lhes:
  - Venham logo que anoitecer! Quero que me ajudem a receber os
convidados.
  Ficou parada junto da mesa, pensando... Ouviu a batida da porta que se
fechava. Sabia que queria uma coisa mas no se lembrava do que era. Por
alguns segundos teve  uma sensao estonteante de vazio na cabea. De
repente, lembrou-se.
  772
  - Lindia! - gritou. E quando a negra apareceu, ela pediu: - O jornal.
  A escrava trouxe-lhe o ltimo nmero de O Democrata, que Bibiana ps
debaixo do brao, e depois, em passos lentos, dirigiu-se para a escada e
comeou a subir devagarinho,  pensando em como ia arranjar-se quando
estivesse velha demais para galgar aqueles degraus. Havia trs solues.
Ficava l em cima e no descia mais; mudava-se para  o andar de baixo e
nunca mais subia; ou ento pediria que dois negros a carregassem no
colo, sempre que precisasse subir. Mas nenhuma das trs solues
prestava!  O melhor mesmo talvez fosse morrer. Assim ficava estendida
dentro do caixo, quieta, debaixo da terra; no tinha de subir nenhuma
escada e no incomodava mais ningum...
  Pronto!
  Pouco antes das quatro da tarde, com o charuto preso entre os dentes,
Torbio Resende irrompeu dramaticamente Sobrado adentro, todo metido nas
suas vestes vermelhas  de mouro, pregando um susto  escrava que lhe
veio abrir a porta. Galgou em dois pulos os degraus do vestbulo e,
arrancando a espada, precipitou-se para o andar  superior e fez algo que
no teria a coragem de fazer em condies normais, isto , se aquele
fosse um dia como os outros e ele envergasse sua roupa preta domingueira
e tivesse o pescoo entalado num colarinho duro: entrou no quarto de
Licurgo sem bater. Abriu a porta num repelo e, erguendo a espada,
bradou:
  - Al! Al! Al! Sangue! Quero muito sangue!
  Estacou  frente do amigo que, tambm metido nas suas roupas de mouro,
se encontrava sentado na cama, numa atitude de profundo desnimo.
Torbio baixou a mo que  segurava a espada, franziu a testa e
perguntou:
  - Mas que cara  essa, homem?
  Curgo ergueu para ele dois olhos infelizes:
  773
  - Que horas so?
  Torbio no respondeu de imediato. Um pouco ofegante da corrida, tratava
de meter a arma na bainha, o que fez com alguma dificuldade. Depois,
encarando o companheiro,  disse:
  - Quase quatro. Mas que foi que houve?
  Curgo levantou-se lentamente. Naquelas roupagens berrantes, com o
turbante de veludo na cabea, parecia ainda mais alto e corpulento do
que realmente era. Estava  de blusa e bombachas de cetim vermelho, botas
de couro negro, muito lustrosas, e esporas de prata.
  Preso ao turbante luzia um crescente de lata; e do lado esquerdo da
blusa, como a indicar ao inimigo o corao do guerreiro, via-se outra
meia-lua ainda maior, bordada  com fio de prata.
  A mo de Curgo crispava-se, nervosa, sobre o cabo do alfanje (de
madeira, feito pelo Tuta Marceneiro) que pendia do cinturo de couro
juntamente com o revlver de  cabo de madreprola.
  - Nunca pensei que ia ficar to esquisito com esta fantasia - resmungou
ele, baixando os olhos. - Quando me olhei no espelho, cheguei a
encabular...
  - Ora, no seja bobo!
  - Pois bobo  como me sinto, vestido deste jeito. No tenho coragem de
sair pra rua.
  Torbio cruzou os braos, puxou uma baforada e ficou a mirar o amigo com
um olhar entre impaciente e irnico. No era de admirar que Licurgo
sentisse aquilo - refletiu.  Parecia ser um trao dos Terras detestar
tudo quanto fosse ostentao e atitude teatral. No gostavam de pessoas
"semostradeiras": eram, homens secos, prosaicos  e reservados, que
viviam por assim dizer em surdina, procurando no chamar sobre si mesmos
a ateno dos demais. Licurgo at que no era dos piores. Florncio,
esse  sim, levava aquelas manias ao extremo.
  - Estou que nem um palhao... E dizer que tenho de montar a cavalo e me
mostrar na frente de centenas de pessoas!
  Tinha horror ao ridculo. Achava que a vida real era muito diferente da
imitao dela que nos apresentam as novelas e as peas de teatro. Nunca
tivera pacincia  para ler um livro at o fim. Ins-
  tado por Torbio, comeara a ler romances de autores famosos como Jos
de Alencar e Bernardo Guimares; nunca, porm, chegara a passar da
pgina 50. Parecia-lhe  uma infantilidade perder tempo com histrias de
gente que nunca tinha existido de verdade e e que, alm do mais,
pensava, fazia e dizia coisas que uma pessoa s  do juzo no pensa, no
diz nem faz. De todos os romances que comeara nenhum lhe parecera mais
absurdo que O guarani. Onde se viu um bugre bronco como Peri falar
bonito e difcil como um advogado ou um deputado?
  Travestido de mouro, Licurgo agora se sentia improvvel e grotesco como
uma personagem de romance. Vira muitas cavalhadas em sua vida. Apreciava
a coisa como jogo,  mas sempre recusara tomar parte nela por causa da
"palhaada das roupas". Daquela vez, porm, havia cedido ante a
insistncia de Torbio e de outros amigos, e levado  tambm pelo carter
excepcional daqueles festejos.
  - Pois eu gosto tanto desta fantasia e desta cor - confessou Torbio com
veemncia - que se pudesse andava sempre vestido assim...
  - Cada qual com o seu gosto, no ?
  - Bom, mas agora  tarde pra voltar atrs. Vamos embora. No te esqueas
de que h mais dez sujeitos vestidos como ns. E mais doze de azul, com
penachos na cabea.
  Tomou do brao do amigo, procurando arrast-lo para fora do quarto.
  - Depois, meu caro, lembra-te de que as cavalhadas so uma tradio
desta provncia. Antes de ti teus avs andaram vestidos assim, e no me
venhas dizer que s melhor  e mais respeitvel que eles.
  Curgo apanhou com relutncia a espada que pertencera ao av e
apresilhou-a  cinta. Soltou um suspiro e postou-se mais uma vez diante
do espelho do lavatrio. O  pior de tudo era aquele turbante feminino a
coroar-lhe o rosto tostado, num ridculo contraste com a bigodeira
preta. Parecia mesmo um turco. Imaginou a cara de  certas pessoas de
Santa F que deviam estar presentes  festa. Viu-as cochichando e rindo
 socapa quando ele passava. Teve
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  gana de precipitar-se sobre elas e dar-lhes umas boas espaldeiradas no
lombo. Canalhas!
  - Coragem, homem! - exclamou Torbio
  - No  questo de coragem...
  Curgo olhava para a imagem do espelho como para um estranho, e um
estranho com quem no simpatizava nem um pouco. Fez meia-volta e
balbuciou:
  - No h outro remdio. Vamos.
  Saram do quarto e desceram a escada, num tinir de espadas e esporas.
  Encontraram Bibiana na sala de visitas, sentada numa cadeira de balano.
Pararam na frente dela perfilados, como para uma revista. Torbio tirou
respeitosamente  o charuto da boca e escondeu-o no cncavo da mo. Na
verdade a expresso de seu rosto equivalia a uma pergunta infantil:
"Estou bonito?" Curgo, entretanto, tinha  um aspecto taciturno:
sentia-se como um menino que acaba de fazer uma travessura e espera a
repreenso do pai. Por alguns segundos os dois quedaram-se na frente  da
velha, silenciosos e expectantes. Bibiana olhou-os criticamente e
depois, com um brilho de malcia nos olhos, disse:
  - Parecem dois burlantins.
  Curgo voltou a cabea para o amigo e vociferou:
  - Eu no te disse?
  Naquele momento a Banda de Santa Ceclia rompeu num dobrado. Em passadas
largas, Curgo aproximou-se da janela e olhou para fora. Sob um cu sem
nuvens, dum azul  intenso, a praa cintilava ao sol, numa mobilidade
colorida de calidoscpio. Soprava uma brisa fria, o ar estava leve e
picante. Coladas a fios suspensos entre os  postes da iluminao e as
rvores, esvoaavam bandeirinhas triangulares azuis, encarnadas, verdes,
amarelas e brancas. Dos ramos da figueira grande pendiam guirlandas  de
flores artificiais. A luz reverberava nas fachadas brancas das casas,
fazia chispar as vidraas e os instrumentos da banda de msica - o que
contribua para aumentar  ainda mais a claridade festiva da tarde. 
frente da igreja erguia-se um coreto rstico, tambm enfeitado de
bandeiras e flores, e no qual j estavam acomodados  o vigrio e as
autoridades
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  municipais com suas famlias. Ao longo dos quatro lados da arena
retangular na qual se iam bater mouros e cristos, homens, mulheres e
crianas, metidos quase todos  em suas roupas domingueiras, achavam-se
sentados em bancos ou cadeiras que haviam trazido de suas casas. O
estandarte dos cristos tremulava ao vento, plantado   frente do
palanque principal. O "castelo" dos mouros, tendo a uma de suas quinas a
bandeira vermelha do crescente, no passava duma plataforma quadrada
feita de  pranchas de madeira que repousavam sobre pilares de tijolos, 
frente da figueira grande.
  O estrado onde os msicos se esfalfavam a tocar o dobrado marcial,
ficava no lado da arena que dava para o Sobrado.
  Licurgo contemplou por alguns segundos o quadro alegre. Pombas voavam ao
redor do campanrio da matriz. O vento que agitava as bandeirinhas
cheirava a campo. (Por  que ser que a Ismlia ainda no chegou?)
  - A senhora no vai  festa? - perguntou Torbio.
  - Vou assistir  coisa aqui da janela. As meninas do Florncio tambm
vm pra c.  melhor do que ficarem naquele amontoamento, tomando sol na
cabea.
  Torbio tocou o ombro do companheiro.
  - Vamos embora!
  Curgo voltou-se e respondeu:
  - Vamos, antes que eu me arrependa. A bno! - pediu, beijando a mo da
av.
  - Deus te abenoe. E tenham juzo. No faam nenhuma loucura. Olhem que
isso  um brinquedo e no uma guerra de verdade.
  Quando viu Licurgo afastar-se, de espada e pistola  cinta, Bibiana
Terra Cambar teve um mau pressentimento. Lembrou-se da hora em que,
havia quarenta e oito anos,  dissera adeus ao marido que ia atacar o
casaro dos Amarais... ("Me frita uma lingia que eu j volto, prenda
minha!") Em sua mente a imagem de Rodrigo fundiu-se  com a de Bolvar,
que atravessava a rua de pistola na mo, gritando como um possesso...
  - Licurgo! - exclamou ela.
  O rapaz estacou e fez meia-volta.
  777
  Naquele momento Bibiana teve a impresso de que o neto era uma mistura
de Pedro Terra, do capito Rodrigo e de Bolvar. Trs homens num s, e
esse um agora tambm  ia para a guerra. Era uma guerra de brinquedo,
sim, mas nela entravam homens, armas, cavalos e perigos. Tudo podia
acontecer. Cambar macho no morre na cama. Ela  no podia esquecer
aquele ditado do capito... Curgo era Cambar e macho. Uma rodada... Um
pontao de lana que algum lhe desse sem querer... ou de propsito,
porque  um Amaral  capaz de tudo...
  - Que , v?
  - Nada. V com Deus.
  Licurgo se foi. Bibiana ficou a ouvir dentro da cabea o eco de suas
prprias palavras. V com Deus. Era sempre o que as mulheres diziam
quando seus homens partiam  para a guerra. V com Deus. Eles iam com
Deus. Uns voltavam inteiros. Outros voltavam estropiados, como o pobre
do Florncio. Outros no voltavam mais, nunca mais,  como o Fandango
Segundo. Adiantava alguma coisa dizer - V com Deus? Deus me perdoe...
  Ficou onde estava, sofrendo no apenas aquele momento, mas os muitos
outros momentos negros do passado em que dissera adeus a entes queridos
que partiam para a guerra,  para longas viagens ou que saam daquela
casa para o cemitrio dentro dum caixo...
  Na rua, ao sol, Licurgo teve a impresso de que as cores de suas vestes
ficavam ainda mais berrantes. Sentia-se perturbado como se estivesse
prestes a desfilar completamente  nu pelo meio de todo aquele povo.
  Os companheiros, os restantes dez mouros, estavam j montados em seus
cavalos,  frente do Sobrado. Cinco deles eram membros do Clube
Republicano; os outros cinco  pertenciam aos partidos Liberal e
Conservador, pois a comisso organizadora das festas achara conveniente
"misturar os rebanhos", a fim de evitar que as cavalhadas  degenerassem
em conflito poltico.
  Ao ver aqueles homens tambm vestidos de vermelho, alguns at com
enfeites de vidrilho no turbante, Licurgo ficou um pouco mais consolado.
  Levaram algum tempo para fazer o dr. Torbio montar. Alm de ser mau
cavaleiro, o homem tinha as pernas curtas, e o espadago que trazia 
cinta embaraava-lhe os  movimentos. Dois companheiros seguraram-lhe as
pernas e ergueram-no para a sela, trocando sorrisos maliciosos, pois
para aqueles gachos nenhum homem era digno desse  nome se no fosse bom
cavaleiro. Curgo achava que teria sido melhor se Torbio houvesse
desistido de tomar parte nas cavalhadas; estava certo de que o amigo ia
fazer  papel ridculo, e isso o deixava inquieto.
  Uma batida de bombo, que ecoou na praa como um tiro de morteiro, ps
fim ao dobrado, o que no impediu que o pistonista, distrado, soltasse
ainda duas notas, que  subiram desgarradas no ar, provocando risos entre
o pblico.
  O sino da igreja deu trs lentas badaladas. Era o sinal convencionado
para comear o torneio.
  Licurgo gritou:
  - Vamos embora, minha gente!
  Pondo os cavalos a trote, os mouros dirigiram-se para o lado do
quadriltero que dava para a igreja, pois era por l que deviam entrar
na arena. Com a mo esquerda  segurando as rdeas e com a direita
empunhando a lana, Licurgo abria a marcha. Sentia no rosto um caloro
de vergonha, o suor comeava a brotar-lhe da testa e seus  olhos estavam
meio ofuscados. (Quem seria o "gracioso" que da janela duma das casas,
l do outro lado da praa, estava focando nele o reflexo cegante dum
espelho?  Cachorro! S a bala!) Curgo no distinguia as pessoas com
clareza: via manchas, vultos, faces mveis mas sem fisionomia...
Passando pela frente do palanque principal,  vislumbrou a silhueta negra
do padre. Mantinha a cabea erguida, os olhos  altura dos telhados das
casas fronteiras. Comearam os aplausos, primeiro tmidos, depois  mais
fortes e coesos. A banda atacou um novo dobrado: Cavalaria farroupilha,
da autoria do Joca Paz, o trombonista. Aos compassos vibrantes da
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  msica Curgo teve, mau grado seu, um estremecimento de entusiasmo, uma
espcie de exaltao patritica que lhe deu um frentico desejo de ao
guerreira e herica.  Procurou dominar esses sentimentos, que iam to
bem com suas roupagens mouriscas e que lhe pareceram to espalhafatosos
e absurdos quanto elas. Bobagem! Aquilo no  passava duma festa, dum
jogo: no havia razo para tais entusiasmos. Mas aquele diabo de msica
sugeria-lhe mesmo uma carga dos cavalarianos de Bento Gonalves.  E ele
tinha na cintura a espada do capito Rodrigo: aquela arma na verdade
tomara parte na Guerra dos Farrapos! Licurgo apertou com fora a haste
da lana. Devia  ser bom a gente entrar numa carga de lanceiros, rachar
um quadrado inimigo.
  Esporeou o animal, que transformou o trote num galope; os outros
cavaleiros mouros o imitaram e assim, sob gritos e aplausos, chegaram ao
seu "castelo", diante do  qual se dispuseram numa fila singela.
  - Que espetculo! - exclamou Torbio.
  - E que dia! - comentou o homem que estava a seu lado. - Parece que foi
feito de encomenda. Um cu azul e lmpido!
  - E bem frescote - observou outro cavaleiro mouro. Curgo permanecia
silencioso. Um suor frio escorria-lhe pelo
  rosto, que ele escanhoara havia menos duma hora. Seu peito arfava ao
ritmo duma respirao comovida, e sua mo apertava ainda com apaixonada
fora a haste da lana.  Olhou para o Sobrado e viu a av, a noiva e
Maria Valria debruadas  janela. Desviou o olhar de sua casa,
demorou-o um instante no palanque principal e depois  passeou-o em torno
da arena. Via agora os bonifrates que se alinhavam nos dois lados mais
longos do quadriltero, com suas caras grotescas e suas cabeas
descomunais  de pano. Licurgo contou-os: havia dez "guerreiros" de cada
lado.
  - L vm os cristos! - exclamou algum.
  O que Licurgo viu a princpio por trs das rvores da praa foi uma
mancha azulada e mvel, picada de rebrilhes. Finalmente Alvarino Amaral,
de penacho ao vento,  entrou na arena  frente de seu grupo, montado num
belo alazo muito bem aperado. Os cristos postaram-se  frente da
igreja. Envergavam blusas e 
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  bombachas dum azul-claro, uma capa curta atirada sobre o ombro esquerdo e
chapus tambm azuis de aba larga, dobrada e costurada  copa, e
encimados por penachos brancos.  Curgo agora observava o garbo com que
se apresentava Alvarino Amaral: seus arreios eram chapeados de ouro e no
bucal, no cabresto, no rabicho e nas rdeas luziam  filigranas de prata.
  - Palhao! - murmurou. O patife no perdia ocasio de ostentar sua
riqueza. A prataria do casaro dos Amarais era famosa pela abundncia e
pela variedade. Prata  roubada - diziam - produto de pilhagens feitas em
muitas guerras e em muitos lugares da provncia e da Banda Oriental por
vrias geraes de Amarais, a comear pelo  famigerado coronel Ricardo,
tronco da famlia.
  - Olhem s a faceirice daqueles fletes - exclamou um dos mouros.
  Os cavalos dos cristos tinham as colas tranadas e amarradas com fitas
azuis e brancas. Para Licurgo todo aquele aparato era vaga e
repulsivamente feminino. - S  por isso - concluiu ele - Alvarino
merecia levar uns pranchaos de espada nas paletas.
  - Moada linda! - exclamou um dos mouros.
  - E bem montada! - elogiou outro. Curgo voltou-se para os companheiros:
  - Preparem-se. Quando derem o sinal, vamos comear as evolues de
picaria.
  Algum se ps de p no palanque das autoridades. Era o juiz de direito.
Ergueu para o cu uma pistola, e disparou-a: a arma cuspiu fogo e seu
estampido seco ecoou  atrs da igreja. Era o sinal.
  - Vamos embora! - exclamou Licurgo. - Primeiro a um de fundo.
  Seguindo seu "mantenedor", os mouros fizeram a volta da arena a galope,
soltando gritos de guerra e brandindo as lanas. Depois, prendendo estas
ao aro da sela,  desembainharam as espadas e simularam uma carga
contra os cristos, fazendo estacar dramaticamente os animais a poucos
metros das fileiras inimigas. Estrugiram palmas.  A banda de msica
interrompeu o dobrado e comeou a tocar uma valsa, cuja melodia era
familiar a Licurgo. Chamava-se Saudades do Reno e tinha sido composta
por um  colono
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  de Nova Pomernia. Olhou para Torbio e viu-o agarrado  cabea do
lombilho, ofegante e suado. Em todas as evolues ficara sempre para
trs, provocando risos da  assistncia, de onde algum j lhe gritara:
"Socando canjica, miservel!"
  Os mouros formaram uma circunferncia e puseram os cavalos a andar a
passo, ao ritmo da msica. Quando j tinham feito um bom nmero de
evolues e figuras, Licurgo  ordenou:
  - Agora, a toda a brida pr castelo!
  Os mouros precipitaram-se na direo de sua bandeira a todo o galope,
gritando fino - hip-hip-hip-hip! Torbio foi o ltimo a chegar. Curgo
lanou-lhe um olhar rancoroso,  mas o advogado como nica resposta lhe
sorriu candidamente.
  Pouco antes de os cristos comearem suas evolues, ergueuse da
assistncia um ah! de admirao. Cabeas voltaram-se na direo da
fortaleza dos infiis. Surgia  de trs da figueira, montada em belo
cavalo branco, uma donzela de cabelos louros soltos ao' vento e com o
rosto escondido sob uma mscara de pano preto. Donzela?  Todos logo
perceberam que se tratava, como de costume, dum homem vestido de mulher.
Era Floripa, a princesa crist que os mouros mantinham prisioneira em
seu castelo,  e que os cristos em breve iriam libertar. Mas quem era
que estava fantasiado de Floripa? - perguntavam-se os espectadores.
Ningum parecia saber ao certo. Alguns  davam palpites...
  Um dos mouros aproximou seu cavalo do de Floripa e perguntou:
  - Como  moa, vamos ou no vamos dormir juntos esta noite?
  A "princesa", porm, permanecia silenciosa. Seu vestido branco, batido
pelo sol, era tambm um foco de luz. Pela abertura da mscara viam-se
dois olhos escuros meio  assustados.
  - Como vai a coisa? - perguntou-lhe Torbio. A resposta veio numa voz
grossa e aflita:
  - Puxa! Estou com falta de ar.
  - No h de ser nada - replicou Curgo. - Os monarquistas, digo, os
cristos j vm a e a folia acaba logo. Pacincia.
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  Do pblico partiam risadas, gritos e dichotes dirigidos a Floripa. A
banda prosseguia na valsa lenta e o contrabaixo fazia umpa-pa...
um-pa-pa... Os cristos comearam  suas evolues. Estavam
magnificamente ensaiados, e nos seus cavalos bem arreados e faceiros,
"fizeram mais vista" que os mouros, como disse o dr. Torbio. Alvarino
comandava-os com o garbo dum gro-senhor. Ao passar pela frente dos
adversrios fez um floreio cavalheiresco com a espada nua e sorriu,
mostrando o canino de ouro  que lhe cintilou sob os bigodes negros,
lustrosos de cosmtico.
  - Filho da me! - resmungou Curgo.
  No centro da arena os cristos agora erguiam para o ar seus bacamartes e
disparavam. O tiroteio deu a impresso de que a praa era uma enorme
panela onde pipocas  gigantescas estivessem a estourar. A assistncia
rompeu em aplausos entusisticos.
  - O velho sentimentalismo popular - comentou Torbio a Licurgo. - O povo
est sempre do lado da justia e do bem, contra o crime e o mal, sempre
do lado dos anjos  contra os demnios.  natural que nesta lia o
corao da turbamulta bata de amor pelos cristos e de dio pelos
mouros. Amigo Curgo, no podemos contar com a simpatia  da assistncia.
O remdio  batizarmo-nos, trocando o crescente pela cruz de Cristo.
  Em obedincia s regras do jogo, Curgo mandou aos cristos o seu
emissrio, o Veiguinha, filho do proprietrio da Casa Sol. O rapaz
aproximou-se a galope do reduto  cristo e bradou ao comandante inimigo
que veio a seu encontro:
  O mui alto e poderoso rei da Mauritnia, Senhor do meio sol e da meia
lua, Mandou-me c  presena tua Impor-te com a maior severidade. Qual
, e qual deve ser sua  vontade!
  Declamou os outros versos a plenos pulmes, mas sua voz, abafada pela
msica, principalmente pelos roncos do contrabaixo, no chegava at a
assistncia.
  783
  Quando Veiguinha terminou, Alvarino Amaral deu-lhe a sua resposta
altiva: os cristos no se renderiam aos mouros, mas lutariam at a
vitria final e a libertao  de Floripa. E declarou:
  Um s de meus guerreiros bastaria
  Para dar cabo de toda a mouraria.
  Volta e vai tuas hostes preparar
  Que dentro em pouco hei de vencer e batizar.
  Veiguinha voltou, sob apupos, a seu castelo, para dar conta da misso ao
chefe.
  A batalha comeou. A um sinal partido do palanque, ambos os grupos
precipitaram-se a toda a brida um contra o outro, em fila simples,
gritando como selvagens e brandindo  no ar suas armas. No centro da
arena fizeram os cavalos estacar, quase peito contra peito, e teraram
lanas, por alguns segundos. Licurgo viu-se a "lutar" contra  um membro
do Clube Republicano. No trocaram palavras nem sorrisos: estavam
demasiadamente compenetrados de seus papis para se lembrarem de que
eram correligionrios  e amigos.
  Depois de rpida escaramua, ambos os grupos voltaram para seus lugares.
No dos mouros, Floripa esperava, sentada agora pacientemente numa
cadeira, no centro do  estrado.
  Estava combinado que um cavaleiro cristo iniciaria os torneios
individuais. Alvarino Amaral esporeou o cavalo e, de lana em riste,
saiu a alvejar os bonifrates.  A cada "homem" que derrubava, a multido
aplaudia com gritos e palmas. Depois de percorrer o lado direito,
Alvarino voltou pelo esquerdo, fazendo tombar ao todo  quinze bonecos.
Quando o comandante cristo tornou a seu lugar, Licurgo saiu a lancear
aodadamente os bonifrates, como se todos eles fossem membros da famlia
Amaral.  Sua fria era to grande e perturbadora, e ele precipitara o
cavalo a tamanha velocidade que errou os primeiros cinco golpes - o que
provocou gargalhadas na multido.  Cada vez mais enfurecido, Curgo
continuou a carregar, acertou num, depois noutro e assim foi at o fim,
deitando por terra os bonecos restantes, sendo que trespassou  a cabea
do ltimo com a lana e ergueu-o dramaticamente no ar.
  784
  A assistncia prorrompeu em grandes aplausos. A banda de msica tocava
um galope. Ofegante, o rosto lustroso, o suor a entrar-lhe incomodamente
nos olhos, Curgo  voltou para junto dos seus homens. Os bonecos foram de
novo postos de p e o torneio prosseguiu, enquanto no palanque o dr.
Winter e o juiz de direito, munidos de  lpis e papel, tomavam nota do
nmero de pontos feitos pelos membros de cada grupo. Quando chegou a vez
de Torbio, o baiano ficou onde estava, todo encolhido e  de olhos
baixos em cima do cavalo, pois sabia que para andar a galope teria de
agarrar-se na cabea do lombilho, o que lhe tornaria impossvel manejar
a lana. Da  assistncia partiam gritos: "Que saia o baiano! Que saia o
baiano!" Estouravam risadas. Muito vermelho, o dr. Resende erguia a mo
para o ar, fazendo que no com  gestos frenticos. Indignado, Licurgo
murmurava:
  - Eu bem te dizia, Torbio. Devia ter dado teu lugar pr Fandanguinho ou
pra qualquer outro. Ests nos fazendo passar uma vergonha danada.
  - No seja bobo - replicou o advogado. - A vergonha  minha. Olha s pra
minha cara. Estou tranqilo, hein?
  Naquele momento ouviu-se um tropel e um cavaleiro surgiu de trs da
figueira. O mascarado! - gritaram vozes. Era costume nas cavalhadas
haver um palhao, um cavaleiro  mascarado que fazia evolues
humorsticas para divertir a assistncia nos intervalos entre os
torneios. Tinha, porm, ficado resolvido pela comisso organizadora  da
festa que no haveria nenhum mascarado naquela cavalhada. Quem era,
pois, o recm-chegado?
  O pblico rompeu a rir. A banda parou de repente de tocar e os msicos
ficaram olhando a sorrir para o mascarado, que vestia um macaco
amarelo, e tinha na cabea  o velho chapu de chamin que pertencera ao
dr. Winter; seu rosto estava escondido por trs duma grotesca mscara de
papelo. O mascarado desembainhou a espada,  aproximou-se do palanque
principal e fez uma continncia.
  O juiz de direito ergueu-se e perguntou:
  - Quem sois?
  O desconhecido no respondeu. Um dos cristos acercou-se dele e disse:
  785
  - V tirando a mscara, moo...
  Sem pronunciar palavra, o homem de amarelo bateu com a espada na lana
do outro, numa provocao. Por alguns instantes ficaram a terar armas,
sob as risadas dos  espectadores. O mascarado soltava gritinhos -
hi-hi-hi-hiii - e num dado momento deu de rdeas, fez o ginete sair a
todo o galope, e, perlongando o quadriltero,  comeou a golpear os
bonifrates. Com uma felicidade e uma destreza raras, foi-lhes decepando
as cabeas uma por uma, errando apenas cinco golpes. Por fim, com um
"crnio" espetado na ponta da espada, sofrenou o cavalo diante dos
juizes, sob grandes aplausos. O padre Romano ps-se de p e sua larga
cara rosada luziu risonha  ao sol.
  - Convido o meu belo amigo a tirar a mscara! - disse ele de maneira
aliciante.
  De vrios pontos da praa partiram gritos: "Tira a mscara! Tira a
mscara!"
  O mascarado saltou do cavalo para o cho, jogou para o ar a cabea do
boneco, embainhou a espada e, voltando-se para o estrado da banda,
pediu:
  - Msica, moada!
  O dr. Winter julgou reconhecer a voz... Mas seria mesmo quem ele
suspeitava? No. Impossvel.
  A banda comeou a tocar uma polca e, quando o homem de amarelo arrancou
a mscara, as pessoas mais prximas exclamaram em unssono:
  - O Fandango!
  O clamor da multido aumentou. Explodiram gargalhadas e palmas, que se
misturaram no ar com a melodia saltitante da polca. E ali na frente do
palanque, os olhinhos  vivos e travessos postos nos juizes, a barbicha
branca esvoaando  brisa da tarde, Jos Fandango sorria, de braos
abertos...
  A novidade chegou aos ouvidos de Curgo.
  - O homem tirou o disfarce - contaram-lhe. -  o Fandango.
  - Velho desfrutvel! - exclamou ele, entre zangado e enternecido. -
Vestido de amarelo, como um palhao de circo de cavalinhos! E nem me
contou que ia fazer isso,  o ingrato!
  786
  Outro mouro comentou:
  - Mas viram que destreza tem o diabo do velhote?
  - Est com mais de setenta no lombo, minha gente. Isso  que 
resistncia.
  - O dr. Torbio devia at ficar envergonhado. O baiano limitou-se a
resmungar:
  - No me amolem.
  O padre Romano desceu do palanque para ir apertar a mo do capataz.
  - Venha sentar-se conosco, sr. Fandango - convidou. - Vossunc  o heri
do dia.
  Fandango deu o brao ao padre e caminhou com ele para o estrado das
autoridades.
  A notcia do inesperado acontecimento chegara j  janela do Sobrado.
Bibiana disse s sobrinhas:
  - Esse velho assanhado ainda vai acabar morrendo numa dessas
travessuras.
  Fingia zanga, mas no fundo estava orgulhosa. Fandango era "gente do
Sobrado" e acabara de dar quele povo uma demonstrao do quanto os
antigos eram melhores que  os "moos de hoje em dia".
  Alice e Maria Valria assistiam com interesse ao espetculo. A primeira
perguntou:
  - E agora, titia?
  - Agora - respondeu Bibiana - os cristos vo salvar a Floripa.
  Na praa o povo preparava-se para o momento culminante da guerra.
Ouviu-se uma clarinada. Era o sinal convencionado para a carga final. Os
mouros desceram de seus  cavalos, amarraram-nos ao tronco da figueira e
depois vieram entrincheirar-se  frente de sua fortaleza, de espingardas
em punho, enquanto Floripa, sempre sentada  na sua cadeira, pernas e
braos cruzados, esperava pachorrenta. Alvarino Amaral ergueu a espada e
gritou: "Avante!" Soltando gritos de guerra, os cristos se atiraram  ao
ataque a todo o galope. Batido pelas patas dos doze animais, o cho
soava como um grande tambor surdo.
  787
  - Fogo! - bradou Curgo. Seus homens dispararam as espingardas quase ao
mesmo tempo. Os cristos fizeram alto subitamente e simularam uma
retirada em desordem. Um  dos mouros, num gesto absolutamente fora do
programa, apanhou a bandeira vermelha que estava plantada a uma das
quinas do "castelo" e comeou a agit-la no ar, gritando:  "J se
entropigaitaram os cristos!" Soltou uma gargalhada rascante, que foi
abafada pelo rudo dos aplausos.
  Voltaram os cavaleiros da cruz ao ataque e, apeando dos cavalos,
lanaram-se contra o forte mouro de espadas desembainhadas. Os infiis
tambm arrancaram as espadas  e o entrevero comeou. Retinindo e
lampejando, ferros chocaram-se no ar. A banda tocava um galope frentico
em que o contrabaixo resfolegava como um homem gordo   cadncia duma
respirao de susto. Os guerreiros vociferavam blasfmias. Licurgo
defrontou-se com o coletor estadual, mas com o rabo dos olhos viu
Alvarino Amaral,  que sorria mostrando o canino de ouro. (Que cara boa
pra uma bofetada!) A princpio mouros e cristos teraram armas, cada
grupo formado numa fila simples mais ou  menos regular, mas depois de
meio minuto de luta a formao foi quebrada, os mouros saltaram do
estrado para o cho e o entrevero ento foi completo. Os contendores
trocavam bravatas:
  - Olha que te degolo!
  - L vai ferro!
  - J te capo!
  - Te defende!
  - Toma esta que a tia Chica te mandou!
  O pblico, exaltado, aplaudia sempre. Muitos daqueles homens que ali
estavam sentados tinham tomado parte em revolues e guerras. Quando
sentiam cheiro de plvora  ou ouviam o tinir de arma branca, ficavam
excitados. Um velho magro, que se achava acocorado nas proximidades do
forte mouro, picando fumo com sua faca de cabo de  osso, gritou para os
vizinhos:
  - Como , moada, vamos tambm entrar no barulho? Um homem de barba
cerrada e chapu de palha exclamou:
  - Sai, velhote! Tu nem pode mais com as calas...
  788
  O velho voltou-se para ele, fulo, e vociferou:
  - Eu te mostro, cachorro!
  E atirou-se contra o outro de faca em riste. "Que  isso, Seu Pires?" -
gritaram. O velho foi agarrado e levado  fora para seu lugar, enquanto
o homem de chapu  de palha desculpava-se, com um sorriso amarelo:
  - Estou brincando, amigo. Ento no se pode nem caoar? O velho ofegava,
lanando para o outro um olhar torvo.
  As atenes tornaram a voltar-se para o torneio. Um cristo naquele
momento saltava para dentro do "castelo", arrebatava Floripa, montava no
seu corcel, iava a  princesa para a garupa e saa a galopar na direo
de seu reduto, sob aplausos gerais. Floripa fora libertada! Mas agora o
pblico queria ver a cara da "princesa".  "Tira
a mmscara!" - gritavam. O cavaleiro que salvara Floripa f-la descer do
ginete. Alguns espectadores no se contiveram: invadiram a arena e ali
mesmo, abaixo de gritos  e risadas, arrancaram-lhe primeiro a mscara e
depois as roupas. " o Liroca!" - exclamaram. "O Liroca!" - "Me
larguem!" - gritava Jos Lrio, quase chorando de  raiva. - "Me larguem,
miserveis!"
  Os outros continuavam a despi-lo sem piedade, e iam agitando no ar as
vestes da "donzela", enquanto Liroca se debatia, todo confuso, em mangas
de camisa, com as  bombachas arregaadas at os joelhos, mostrando as
pernas cabeludas, e tendo ainda na cabea a cabeleira loura de mulher
num contraste com o rosto msculo onde azulava  a barba de dois dias.
Por um instante ficou sem saber que fazer, mas de repente, arrancando e
atirando longe a cabeleira, deitou a correr na direo da igreja.
  As atenes, que se haviam desviado da luta para a cena cmica,
focaram-se de novo no entrevero.
  - Que  aquilo? - perguntou o juiz de direito. - Dois homens ainda
lutando?
  Estava combinado que quando libertassem Floripa, os mouros se renderiam.
  Algum gritou:
  -  o Curgo e o Alvarino se duelando... O dr. Winter ergueu-se num
salto.
  789
  - Ai-ai-ai - fez ele, voltando-se para o padre. -  bom irmos at l.
  Saltou do palanque e saiu a caminhar apressado, com o charutinho
apertado nos dentes, uma das mos segurando a bengala e a outra a aba do
chapu para que ele no  lhe voasse da cabea. O padre seguiu-o, em
passadas largas, fungando. O pblico comeou a invadir a arena. "Abram
cancha!" - gritavam. "Abram cancha!" Pelo meio  da multido desordenada
Florncio Terra tambm corria, arrastando a perna, apalpando j o cabo
do punhal, com uma expresso belicosa no rosto. Juvenal seguia-o de
perto, gritando: "Chegou a hora! Chegou a hora!"
  Tinham formado um crculo compacto em torno dos homens que se batiam.
  - Eu te mostro, cachorro! - gritou Alvarino.
  - Temos contas a ajustar, ladro! - replicou Curgo.
  E atiravam-se como feras um contra o outro. Ouviam-se exclamaes
desencontradas na multido. "Apartem!" "No se metam!" "Mas vo se
matar! " "Que se matem!" "Barbaridade!"  "Olha o padre!" "Abram cancha!"
  Com as caras contorcidas de dio e reluzentes de suor, os dentes 
mostra, a respirao ofegante quase transformada num estertor de fera
malferida, os dois inimigos  batiam ferros, avanavam e recuavam,
brandindo as espadas. Licurgo tinha na testa um ferimento de onde o
sangue brotava, escorrendo-lhe pelo rosto e entrando-lhe  pelos olhos e
pela boca. O peitilho azul da blusa de Alvarino Amaral estava tambm
empapado de sangue.
  O padre Romano conseguiu abrir caminho e penetrar na pequena clareira
onde os homens duelavam.
  - Parem, pelo amor de Deus! - suplicou o vigrio, erguendo os braos. E
por breves segundos seu vozeiro dramtico dominou todos os outros
rudos. O duelo, porm,  continuava com a mesma ferocidade. Alvarino,
muito plido, apertava o peito com a mo esquerda, como a procurar a
ferida, e o sangue j comeava a escorrer-lhe por  entre os dedos.
Licurgo tinha o olho esquerdo completamente vermelho e sua respirao
era to forte que ao expelir o ar ele produzia um chuvisqueiro de saliva
misturada  com sangue.
  790
  O padre teve um instante de hesitao, mas a seguir, baixando a cabea e
estendendo os braos para a frente, investiu como um touro e, procurando
evitar o nvel  em que as espadas se chocavam, meteu-se entre os
adversrios.
  Houve da parte destes um instante de perplexidade e indeciso, do qual
se aproveitaram o dr. Winter, Torbio, Juvenal e outros homens, que
seguraram poderosamente  os duelistas pelos ombros e pelos braos,
imobilizando-os.
  - Me larguem! - cuspinhava Licurgo, tentando libertar-se, e com a espada
ainda na mo. Alvarino, porm, j no opunha aos apartadores a menor
resistncia. Deixou  cair a arma ao solo e, muito plido, ora olhava
para a mo ensangentada ora apalpava o peito, murmurando:
  - O canalha me feriu! O canalha me feriu! Chamem um mdico! Chamem um
mdico!
  O padre andava dum lado para outro, tentando acalmar os nimos. O
coronel Bento Amaral surgiu de repente, seguido do filho mais moo e de
dois genros, todos de pistolas  em punho, faanhudos e ameaadores.
Abriam caminho na multido e procuravam aproximar-se de Licurgo. Ao
v-los, Florncio e Juvenal arrancaram tambm das pistolas  e,
acompanhados de Fandango, que tinha na mo apenas sua faca de picar
fumo, postaram-se defensivamente na frente de Licurgo.
  - Me larguem! - gritava este ltimo. - Por amor de Deus me larguem!
  Seu olho vermelho piscava repetidamente; seus dentes estavam tintos de
sangue.
  - Vamos ajustar contas com a cachorrada do Sobrado! - gritou o velho
Bento, arrastando os ps. A pistola tremia-lhe na mo, e a cicatriz que
tinha no rosto estava  purprea contra a pele cor de palha.
  O padre avanou alguns passos e barrou o caminho aos Amarais.
  - Em nome de tudo quanto h de mais sagrado, no avancem
  nem um centmetro mais!
  791
  Naquele instante muitas das pessoas que haviam invadido a arena
comearam a correr e a fugir, na expectativa dum tiroteio. Atrs do
padre, Florncio, Juvenal e Fandango,  sem tirar os olhos dos Amarais,
esperavam. Torbio dava pulos e gritava:
  - At que um dia o tumor veio a furo!
  - No estrague a parada, padre! - pediu Licurgo. - Me soltem que eu
mostro pra essa corja!
  O velho Bento quis dizer alguma coisa, mas a raiva roubou-lhe a voz,
seus lbios descorados moveram-se, flcidos, sob os bigodes brancos, mas
deles saiu apenas um  silvo.
  Ao redor de Curgo estavam agora reunidos muitos companheiros do Clube
Republicano.
  Alvarino foi carregado pelos amigos na direo de sua casa, enquanto o
dr. Winter se esforava, mas em vo, para que Curgo fosse tambm
afastado daquele lugar.
  - O covarde vai fugir! - gritou o mais moo dos Amarais. Florncio Terra
bradou:
  - Cala a boca, ordinrio!
  O jovem Amaral deu dois passos  frente, apontou a pistola para
Florncio e, quando quis fazer fogo, o padre segurou-lhe a arma com a
mo direita, e ergueu-a para  o ar, enquanto com o brao que tinha livre
enlaava fortemente a cintura do rapaz. Ficaram assim por uns segundos
como que a danar. O vigrio gritou:
  - Pelo amor de Nossa Senhora da Conceio, padroeira desta vila!
  Seu caro vermelho estava alagado de suor, suas narinas palpitavam, e
havia em seus olhos, de ordinrio doces, um brilho belicoso. Conseguiu
finalmente tirar a pistola  das mos do outro, mas continuou a
enla-lo.
  - Solta o meu filho seno eu fao fogo! - ameaou o coronel Bento.
  O padre Romano obedeceu. No se limitou, porm, a afrouxar o abrao;
afastou o moo com um repelo to forte que ele tombou de costas.
  - Padre do diabo! - vociferou o velho Amaral. - Eu te ensino a respeitar
os superiores!
  792
  Avanou com a pistola erguida  altura do peito do vigrio, que se
limitou a abrir os braos e dizer:
  - Pois atire!
  O velho hesitou. Fez-se um silncio sbito e nesse silncio se ouviu a
voz de Florncio:
  - Vai morrer muita gente... - disse ele com uma calma dramtica na sua
falta de dramaticidade.
  Passavam-se os segundos. O padre continuava de braos abertos, como que
pregado a uma cruz invisvel. Por trs dele os amigos de Licurgo, de
armas em punho, esperavam.  Torbio repetia num automatismo nervoso:
  - Saia fora, padre, porque a parada  nossa!
  Bento Amaral desceu o brao e meteu a pistola no coldre. Voltou-se para
seus homens e disse, babando-se de mal contida raiva:
  - No vamos estragar a nossa festa s por causa desses republicanos
mazorqueiros.
  Voltou as costas para o padre e se foi, arrastando os ps na direo de
sua casa, seguido de parentes, amigos e capangas. O padre baixou os
braos e por alguns instantes  ficou a seguir o grupo com o olhar.
Depois, voltando-se para os homens que estavam s suas costas, exclamou:
  - Porca misria! Desta vez quase me arrebentam a alma.
  Comeou a enxugar o rosto com seu grande leno de alcobaa.
  O Sobrado estava cheio de amigos, que comentavam o incidente. Em mangas
de camisa e sentado numa cadeira na sala de visitas, Licurgo deixava que
o dr. Winter lhe  pensasse o ferimento da testa. Era um talho longo mas
no muito profundo. Fora necessrio dar-lhe cinco pontos, que Curgo
suportara sem gemer.
  - Costure direito o menino - dissera-lhe Bibiana, que seguira o curativo
de perto, sem desviar os olhos.
  Curgo era um homem - pensava ela. Quem tivesse antes alguma dvida,
agora a perdia, porque o rapaz no soltara um ai. Estava ali com a
camisa aberta, um pedao do  peito cabeludo e forte  mostra: macho como
o pai e o av.
  793
  - Pronto! - disse o dr. Winter, terminando de amarrar um pano ao redor
da cabea do ferido. E, com o prazer de sempre,
  repetiu um ditado da provncia: "No h de ser nada: quando casar,
  >, sara .
  Bibiana pensou na Alice, coitadinha; que estava l em cima deitada na
cama, muito plida, tomando o ch de folha de laranjeira que Maria
Valria lhe preparara.
  - Canalhas! - murmurava Torbio, ainda vestido de mouro e sentado numa
cadeira a tranar e destranar as pernas.
  Bibiana lanou-lhe um olhar frio:
  - Pare quieto, doutor. Finalmente a coisa podia ter sido pior. Ningum
morreu, que eu saiba.
  Contava-se que Alvarino estava ferido no peito e havia perdido muito
sangue. O coronel Bento, esse continuava a ameaar cus e terra.
  Curgo mirava suas bombachas vermelhas.
  - Preciso tirar estas roupas o quanto antes - disse.
  O dr. Winter fechou a bolsa onde trouxera medicamentos e instrumentos
cirrgicos.
  - Mas conte direito como comeou a coisa - pediu ele, acendendo um
charutinho. - Ainda no pude formar uma idia. Cada qual conta a
histria a seu modo.
  O dr. Torbio pulou da cadeira:
  - Pois eu estava terando armas com o cachorro do Alvarino enquanto o
Curgo, a meu lado, brigava com outro cristo. De repente ouvi o canalha
gritar: "J te corto  a cara, republicano patife!"
  Curgo interrompeu o amigo para corrigi-lo:
  - No, Torbio. Eu me lembro bem. O que ele disse foi: "Eu te mostro,
republicano sem-vergonha!"
  - Pois ento foi isso - concordou Torbio. - Fiquei possesso e gritei...
  Curgo de novo o interrompeu:
  - Quando ouvi isso, deixei o meu parceiro e respondi: "Monarquista
ordinrio,  contigo mesmo que eu quero tirar uma diferena". E nos
atracamos.
  794
  - E se no fosse o padre Romano - concluiu Bibiana - vocs se matavam.
  - Tinha sido melhor assim, v. A gente resolvia o assunto duma vez por
todas.
  - Qual! - exclamou o dr. Winter, soltando uma baforada. - No diga
asneiras. Vossuncs precisam mas  criar juzo e acabar com essas
rivalidades. No digo que fiquem  amigos, mas ao menos parem de brigar.
J que tm de viver na mesma cidade,  melhor que vivam em paz.
  De dentes cerrados Curgo resmungou:
  - Amaral, comigo, s na ponta da faca.
  Naquele momento Fandango, que estivera a contar a "questo  negrada da
cozinha, apareceu  porta da sala de visitas, com as faces iluminadas
por um sorriso.
  Curgo dirigiu-lhe um olhar enviesado:
  - Velho gaiteiro! Como  que vossunc faz uma coisa dessas e nem avisa a
gente antes?
  Todos os olhares se voltaram para o capataz, que encolheu os ombros e
respondeu:
  - U. Eu queria fazer uma surpresinha. - Deu alguns passos na direo de
Bibiana. - Vossunc viu as minhas proezas?
  A velha sacudiu afirmativamente a cabea:
  - Vi. Parecia um palhao de circo.
  Fandango meteu os polegares nas cavas do colete, entortou a cabea e
filosofou:
  - O mundo  mesmo um circo, dona. Tem de tudo. Burlantins que viram
cambota, equilibristas, os que fazem piruetas em riba dum cavalo, os
palhaos. E quem nasce pra  palhao, como eu, morre palhao e nunca
endireita. - Neste ponto o dr. Winter, que observava o velho, julgou
perceber-lhe no tom da voz uma pontinha de tristeza.  (Ou estaria
fantasiando?)
  - Pois  - prosseguiu o capataz. - J pedi ao meu neto que quando eu
morrer me botem no caixo com uma roupa bem bonita. Em vez de velrio,
faam um baile no terreiro,  com bons violeiros. E dancem a
tirana-grande, o anu e a chimarrita em roda
  795
  do meu corpo. Quero que o enterro seja abaixo de gaita. E que seis
morochas bem guapas carreguem o meu caixo.
  Houve um curto silncio, ao cabo do qual Bibiana murmurou:
  - Velho assanhado.
  E lanou para Fandango um olhar entre repreensivo e afetuoso.
  Eram sete horas da noite e Jacob Geibel estava recostado a um poste, 
esquina da praa, olhando para o Sobrado, cujas janelas do andar trreo
se achavam iluminadas.  Havia uma boa hora que o sacristo ali se
encontrava, falando consigo mesmo e olhando os convidados que tinham
comeado a chegar logo depois das seis. Via com uma  raiva surda os
vultos que se moviam por trs das vidraas que o frio embaciara. Fazia
j algum tempo que algum discursava l dentro, e a voz do orador
chegava de  vez em quando, meio apagada, aos ouvidos do sacristo.
Encolhido sob o poncho, com as abas do chapu de feltro puxadas sobre os
olhos, Jacob Geibel contemplava o  Sobrado com ressentimento. Havia ali
fora, no meio da rua, grupos de curiosos que espiavam a festa. No outro
lado da praa, o Pao Municipal tinha suas janelas tambm  iluminadas, e
l de dentro vinham os sons da banda de msica, que tocava uma valsa. A
noite estava estrelada e o ar parado e no muito frio. De quando em
quando  um cachorro latia numa rua distante. Por trs do Sobrado
erguia-se o claro da grande fogueira de So Joo.
  Deviam prender fogo naquela casa - soliloqueava o sacristo. Ele
gostaria de ver aquelas fmeas sarem correndo e gritando l de dentro,
com suas vestes em chamas.  Seria muito bem-feito. Se morressem todos os
convivas, no se perderia nada. E se o vigrio tambm ficasse
carbonizado a coisa ento seria muito melhor.
  Jacob Geibel tirou de baixo do poncho uma garrafa de cachaa, levou-a 
boca e bebeu um gole largo. Depois lambeu os beios e chupou os bigodes,
ao mesmo tempo que  lhe vinha  mente uma
  796
  idia excitante: tirar toda a roupa e entrar nas salas do Sobrado para
escandalizar aquelas mulheres com sua nudez... Por alguns segundos o
sacristo ficou a masturbar-se  com essa idia.
  A msica da valsa de vez em quando ficava mais forte, vinha como que em
rajadas que o envolviam, e Jacob ps-se a pensar num baile da mocidade,
em sua aldeia natal,  havia mais de trinta anos... Viu-se atravessando o
salo na direo duma rapariga: inclinou-se  frente dela, convidou-a
para danar e a Frulein como nica resposta  rompeu numa gargalhada. A
vergonha daquele momento! Todo o mundo olhando e rindo. O cho pareceu
faltar a seus passos quando, perturbado e vermelho, ele voltava  a seu
lugar. Cadelinha! Agora Jacob Geibel tornava a sentir aquele caloro,
aquele formigueiro aflitivo a percorrer-lhe o corpo. Mas no era
vergonha, no. Era a  cachaa. Cadelas! Isso  que eram as mulheres.
Cadelas! Todas, inclusive sua me, que ele nunca conhecera, e que tivera
a coragem de p-lo na roda. Ordinrias!
  Sob o lampio de luz amarelada e tbia, o Barbadinho do Padre olhava
para as janelas do Sobrado e imaginava-se a correr completamente nu pelo
meio daquelas mulheres,  que gritavam e tampavam os olhos com as mos.
Naquele instante a voz do orador se fez mais forte e at aos ouvidos do
sacristo chegaram estas palavras: ...ancha  negra da escravatura.
  De costas para o grande espelho, na sala de visitas, metido no seu bem
cortado crois preto, com uma prola a brilhar-lhe foscamente contra o
fundo escuro do plastro,  o dr. Torbio Resende enchia o ambiente com
sua voz metlica e vibrante. Fazia j vinte minutos que discursava,
traando a histria da escravatura no mundo. Comeara  por dissertar
sobre a ndia, o pas das castas, em que os sudras constituam a classe
inferior, cuja sina era submeter-se e servir. Passara depois para o
Egito,  na descrio de cuja paisagem gastara prodigamente adjetivos,
pedindo emprestado a Castro Alves duas estrofes, "duas jias lapidares
sem par na literatura universal",  e que na sua opinio, melhor do que
qualquer tela, que qualquer daguerretipo, descreviam o pas da esfinge
e das pirmides:
  797
  L no solo onde o cardo apenas medra, Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno cu.
  De Tebas nas colunas derrocadas As cegonhas espiam debruadas
  O horizonte sem fim... Onde branqueja a caravana errante E o camelo
montono, arquejante, Que desce de Efraim.
  - Pois nessa terra que em tempos pretritos atingiu um grau de
civilizao de que o mundo ainda hoje se assombra - prosseguira o orador
- os faras faziam guerras  para se apoderarem de escravos, e o rei
Amenhotep - e Resende repetiu o nome com certa volpia - o rei Amenhotep
chegara a mandar ao Sudo uma expedio com o fim  exclusivo de caar
negros para transform-los em servos!
  Do Egito o dr. Torbio transportou-se para a China, em que os primeiros
escravos, segundo se calculava, haviam surgido durante a dinastia de
Chow. Na ponta dos ps,  Resende atirava aquelas palavras como farpas
contra as muitas dezenas de pessoas que o ouviam, em respeitoso
silncio, na sala do Sobrado. A dinastia de Chow! Ele  arrasava aquela
gente com sua erudio. Aquilo de certo modo lhe era uma compensao
para as frustraes da tarde em que como cavalheiro fizera figura
triste. Agora ele fazia evolues de picaria verbais, e nessa arte sabia
no ter rival em Santa F. Pronunciar aqueles nomes de brmanes, faras,
mandarins e reis; empregar com destreza e naturalidade os adjetivos mais
raros, era o mesmo que derrubar bonifrates a golpes de lana ou espada.
  "Sim, meus senhores e minhas senhoras, na China da Antigidade, os
prisioneiros de guerra, fosse qual fosse a cor de sua epiderme, eram
transformados em escravos." E, sem tomar flego, Torbio Resende saltara
da China para a Babilnia - cuja descrio se prestara  maravilha para
novos jogos florais de eloqncia - e entrara, quase sem flego, na
histria dos hebreus, para depois chegar, com um sorriso nos lbios, 
Grcia, "a gloriosa Hlade, a
  798
  serena Hlade dos filsofos, dos sbios e dos artistas, e cujo grande
vate, Homero, na sua Ilada, menciona Aquiles e Agamemnon como possuindo
escravos em suas tendas...
  Nas salas iluminadas pela luz de dezenas de velas e lampies a
querosene, as damas estavam sentadas e os cavalheiros de p. Bibiana,
vestida de preto, fitava no orador seus olhinhos galhofeiros, sacudindo
a cabea a cada nome arrevesado de guerreiro, monarca ou filsofo que o
baiano soltava no ar com sua voz cantante. Era um moo de fala engraada
- achava ela. Dizia luiz e cruiz em vez de luz e cruz; e sabia que como
revide o baiano troava dela quando a ouvia dizer rs e deps, em vez de
ris e depois.
  Sentado junto da dona da casa o padre Romano de quando em quando sacudia
a cabea numa grave aprovao. E seus lbios se abriram num sorriso
feliz quando Torbio  Resende afirmou que com o advento do cristianismo
a situao dos escravos melhorara, e as manumisses se fizeram mais
freqentes. Entrando na Roma antiga o orador  estudou a situao dos
escravos  luz do direito romano, e, avanando tempo em fora, com botas
de sete lguas, passou dramaticamente sobre a Idade Mdia e - tropeando
em instrumentos de tortura, chamuscando-se em fogueiras de auto-def -
chegou com a testa rorejada de suor aos tempos modernos. Fez uma smula
das conquistas do  homem merc da Revoluo Francesa e depois traou a
histria da escravatura no Brasil, desde o dia em que os primeiros
escravos negros puseram o p em terras de  Santa Cruz at aquele
momento, quela "j histrica" noite de 24 de junho de 1884, no Sobrado,
em que por iniciativa do Clube Republicano de Santa F mais de trinta
escravos iam receber sua carta de manumisso.
  Fez uma pausa para beber um gole de gua dum copo que estava s suas
costas, sobre o consolo. Curgo olhou para a av e sorriu. A velha
piscou-lhe o olho. Trepado  numa cadeira, na sala de jantar, o velho
Fandango "bombeava" o orador por cima das cabeas das pessoas que se
comprimiam na sala. Do quintal vinha de quando em quando  o murmrio das
vozes dos escravos junto com o crepitar da fogueira.
  799
  Passando o leno de leve pelos lbios, Torbio Resende tornou a encarar
o auditrio.
  - Senhoras e senhores - disse. - Do significado desta noite, o Futuro e
a Histria ho de dizer com uma eloqncia muito maior que a de minhas
pobres palavras!
  - No apoiado! - aparteou o padre.
  Enquanto o advogado discursava, Licurgo passeava os olhos em torno -
demorava-os um pouco na face de cada conviva, como a escrutar as reaes
de cada um quele discurso  ao qual ele prprio no prestava muita
ateno. Era engraado - achava ele - ver barbeados e penteados, de
roupa nova e escura, colarinho duro e botinas lustradas,  aqueles homens
que ele estava habituado a ver diariamente de bombachas e botas, casaco
de riscado ou ento metidos nos ponchos, com as barbas geralmente
crescidas.  Como as mulheres ficavam mais bonitas quando vestiam suas
roupas domingueiras e faziam penteados especiais! Com o canto dos olhos
ele mirou por alguns instantes  a noiva, que se achava sentada a seu
lado. Seus cabelos negros e lustrosos de leo estavam puxados para cima,
num penteado alto que lhe acentuava o oval do rosto.  De suas orelhas
pendiam brincos de pedras azuis na forma de losangos. Num contraste com
o vestido de gorgoro preto, muito rodado, a pele de Alice tinha uma
tonalidade  de marfim antigo. Licurgo achava que a fita de veludo negro
que a noiva trazia ao redor do pescoo, e da qual pendia um medalho
dourado, lhe dava um ar de moa  de cidade. Sentada junto dela, com o
busto ereto, Maria Valria tinha as mos cadas sobre o regao, e seu
perfil se recortava ntido e agudo contra o crois negro  dum dos
convivas.
  Licurgo tornou a voltar a cabea para Torbio, que agora atacava o
gabinete liberal e o imperador, dizendo:
  - ... e homens como Rui Barbosa, o do verbo candente, Joaquim Nabuco, o
nobre estilista, e Jos do Patrocnio, que  a prpria voz da raa negra
escravizada, esto,  com um punhado de outros heris, preparando o
advento da Abolio ao mesmo tempo que o da Repblica, porque, minhas
senhoras e meus senhores, abolio e repblica  so sinnimos perfeitos!
  800
  Licurgo pensou em seu duelo com Alvarino Amaral e ficou ruminando o
sabor violento, acre e embriagador daquele momento.
  Havia muito que no sentia uma exaltao assim to grande. Comparados
com ela, a festa do Sobrado, a manumisso dos escravos, seu noivado com
Alice e a prpria idia  de repblica empalideciam, como coisas de menor
importncia.
  Levou a mo  testa e com a ponta dos dedos apalpou de leve as ataduras
bem no ponto em que sentia o ferimento. Estava orgulhoso daquele talho.
O fato de nunca ter  tomado parte em nenhuma guerra ou revoluo sempre
o deixara numa incmoda posio de inferioridade perante seus
conterrneos de meia-idade que haviam lutado no  Paraguai e os velhos
que tinham feito a campanha contra Rosas e a Guerra dos Farrapos. Sempre
fora considerado um "espada virgem". Naquela tarde, porm, tivera seu
batismo de sangue, e isso para ele tinha uma significao
extraordinria. Era como se s agora se pudesse considerar completamente
adulto. E essa sensao de ser  homem, a certeza de que na hora do
perigo a mo no lhe tremera, o corao no lhe falhara, davam-lhe uma
fora nova, uma confiana exaltada em si mesmo, e ao mesmo  tempo uma
certa impacincia que no fundo era desejo de mais ao violenta, de mais
oportunidades para pr  prova sua hombridade. Daquele duelo
interrompido ficara-lhe  tambm um sentimento de frustrao, a impresso
irritante de ter deixado um servio incompleto, bem como acontecera com
seu av, que no pudera fazer o rabinho do  R na cara de Bento Amaral.
Porque - achava Curgo - a coisa s devia terminar quando Alvarino ou ele
ficasse estendido no cho l na praa...
  Licurgo passou o indicador da mo direita entre o pescoo e o colarinho.
Aquela coisa engomada sufocava-o: o discurso tambm comeava a
impacient-lo. Gostava de  Torbio, achava-o inteligente, leal, o melhor
amigo do mundo. Mas o diabo do rapaz falava demais; quando comeava,
Santo Deus!, no havia quem o fizesse parar. L  estava ele a atacar
violentamente a monarquia. Licurgo viu uma expresso de interesse na
fisionomia de muitas das pessoas que o escutavam; mas nos rostos da
maioria  dos convivas o que ele via era fome. Misturado com o perfume de
p-de-arroz e de
  801
  extrato, que emanava das mulheres, andava no ar um cheiro de comida, e
de vez em quando vinha da cozinha um bafejo de frituras. A entrega dos
ttulos de manumisso  levaria algum tempo. Quando era, pois, que aquela
pobre gente ia para a mesa?
  Licurgo estava prestes a fazer para o amigo uma careta de impacincia
quando Torbio ergueu a mo e gritou, rematando o discurso:
  - Viva a Abolio! Viva a Repblica!
  Vozes masculinas uniram-se num coro e repetiram:
  - Viva!
  Romperam os aplausos. Alguns homens avanaram para estreitar Torbio num
abrao. Bibiana soltou um suspiro de alvio e cochichou ao ouvido do
padre:
  - Esse moo fala pelos cotovelos.
  Atlio Romano mostrou os belos dentes num sorriso tolerante: - O dom da
palavra  uma graa divina, bela! - exclamou ele. Costumava chamar aos
amigos belo ou bela.  O dr. Winter at achava que esse era o tratamento
que o vigrio dava na intimidade a Nossa Senhora da Conceio. - E o dr.
Torbio usa da sua palavra em prol da  boa causa! - acrescentou o padre
j em tom declamatrio.
  O mdico inclinou o busto para a frente e voltou a cabea para o
vigrio.
  - Padre Romano - disse ele em voz muito alta para ser ouvido no meio da
balbrdia - ainda no compreendi como  que, sendo o senhor um sacerdote
catlico, pode simpatizar  com a idia republicana...
  - Por que no? Por que no, belo? Acha que um padre no deve ou no pode
ter emoo cvica?
  - No  isso. Um dos pontos do programa republicano  a separao da
Igreja do Estado...
  O padre Romano ergueu-se.
  - E ento! E da? - exclamou, aproximando-se do outro, como se o
quisesse agredir. Segurando o mdico pelos ombros com suas manoplas
peludas, perguntou: - Pensa  o doutor que a Igreja para sobreviver
precisa do amparo do Estado? - Soltou uma risada
  802
  gostosa. - Essa  magnfica! O Estado  que no poder viver se no se
amparar espiritualmente na Igreja!
  O dr. Winter sacudia a cabea, ao passo que Bibiana voltava os olhos ora
para um ora para outro Depois esqueceu-os e passeou o olhar em torno da
sala. Os homens  agora conversavam em voz alta, animadamente, divididos
em pequenos grupos. No meio deles Licurgo parecia uma mosca tonta. Como
ficava esquisito com aquele pano amarrado  na testa! Parecia um bugre -
sorriu Bibiana.
  A entrega dos ttulos de manumisso foi feita no meio dum silncio grave
e comovido. Os escravos estavam no quintal, junto da porta da cozinha, e
entravam  medida  que seus nomes iam sendo chamados. Sob o espelho da
sala de visitas, os ttulos empilhavam-se em cima do consolo de mrmore.
Torbio Resende lia a lista de nomes:  - Antnio Tavares! Marcolino
Almeida! Terncio Rodrigues! - e muitas vezes Licurgo tinha de
soprar-lhe ao ouvido o apelido do negro chamado, pois muitos daqueles
homens j haviam esquecido os nomes de batismo. "Maneco Torto! - gritava
Torbio. - Dente de Porco! Incio Moambique!" Por entre alas de
convidados os pretos entravam  na sala, piscando os olhos  luz forte, e
acanhados, de cabea baixa, sem ousarem olhar para os lados,
aproximavam-se de Licurgo, recebiam o ttulo e beijavam-lhe  a mo;
alguns ajoelhavam-se depois diante da cadeira em que Bibiana estava
sentada e levavam aos lbios a fmbria de sua saia. Retiravam-se,
estonteados, buscando  aflitamente a porta da cozinha. Muitos dos
escravos choraram ao receber a carta de alforria. Houve, porm, um deles
que entrou de cabea erguida, olhou arrogante  para os lados, como num
desafio, recebeu o ttulo e sem o menor gesto ou palavra de
agradecimento, fez meia-volta e tornou a voltar para o quintal,
impassvel como  um rei que acaba de receber a homenagem a que tem
direito. Licurgo acompanhou-o com um olhar furibundo. Era o Joo
Batista! Merecia uns bons chicotaos na cara.  Sempre fora assim altivo
e provocador. Era um bom peo, um bom domador, um trabalhador
incansvel, mas tinha um jeito to atrevido, que por mais duma vez
Licurgo  estivera prestes a "ir-lhe ao lombo.
  803
  A chamada continuava. Negros entravam e saam. Havia entre eles homens e
mulheres, moos e velhos. Licurgo comeava a irritar-se. A cerimnia no
s se estava prolongando demais, como tambm no oferecia metade da
emoo que ele esperava: era uma coisa to lenta e aborrecida como uma
eleio. "Bento Assis!" - gritou Torbio. E como o preto chamado no
aparecesse, ele repetiu em voz mais alta: "Bento Assis!" O peo que
estava  porta da cozinha gritou para fora: "Bento Assis!" Nenhuma
resposta veio. Licurgo, que sacudia a perna nervosamente, bradou de
repente: "Bento Burro! Onde est esse animal?" "Bento Burro!" - repetiu
o peo. Ento uma voz soturna saiu do meio dos escravos que esperavam,
no sereno: "Pronto, patro!" E entrou na casa.
  E o desfile continuou. Licurgo mal podia conter sua impacincia. No
conseguia convencer-se a si mesmo de que aquela era uma grande hora -
uma hora histrica. No achava nada agradvel ver aqueles negros
molambentos e sujos, de olhos remelentos e carapinha encardida, a exibir
toda a sua fealdade e sua misria naquela casa iluminada. E como eram
estpidos em sua maioria! Levavam a vida inteira para atravessar a sala
e depois ficavam com o papel na mo, atarantados, sem saber que fazer
nem para onde ir. Era preciso que ele gritasse: "Agora v embora. No!
Por ali. Volte pr quintal!"
  O pior era que o Sobrado j comeava a cheirar a senzala.
  Foi com um suspiro de alvio que entregou o ltimo ttulo.
  E quando o ltimo escravo desapareceu na cozinha, houve um momento de
silncio e imobilidade, como se os convidados esperassem de Licurgo
algumas palavras. Mas quem falou primeiro foi  a velha Bibiana:
  - Agora abram as janelas pra sair o bodum!
  Licurgo mandou erguer as vidraas. Estava meio decepcionado. Esperara
durante meses por aquele instante e no entanto ele no lhe trouxera a
menor emoo. De repente viu-se cercado por amigos que lhe apertavam a
mo e o abraavam efusivamente. Um deles gritou: "Viva o Clube
Republicano! Viva o nosso correligionrio Licurgo Cambar!" Os outros
gritaram em coro: "Viva!" E comearam todos a bater palmas
estrepitosamente. Os gaiteiros que 
  804
  estavam no vestbulo romperam a tocar uma marcha. Licurgo, ento, sentiu
com tamanha e repentina fora a beleza daquele instante, que esteve
quase a rebentar em lgrimas. Foi com esforo que se conteve.
Entregou-se passivamente queles abraos, alguns dos quais chegavam a
cortar-lhe a respirao. No ouvia as palavras que lhe diziam. S sabia
que aquele momento era glorioso, raro, grande. Com um gesto de suas mos
tinha dado liberdade a mais de trinta escravos! L fora estava acesa uma
grande fogueira ao redor da qual os negros - agora homens livres,
felizes e dignos - iam danar, cantar, comer e beber!
  Uma preta de turbante vermelho, os dentes arreganhados, andava por entre
os convidados com uma bandeja cheia de copos de cerveja. Algum deu a
Licurgo um copo, que ele apanhou e levou avidamente aos lbios,
bebendo-lhe todo o contedo dum sorvo s. Ficou depois lambendo
distraidamente os bigodes, a olhar em torno, meio zonzo, sentindo um
calor e um tremor de febre, as idias confusas e sempre aquela vontade
absurda de chorar. Bibiana aproximou-se dele e abraou-o e - pela
primeira vez em muitos anos - seus lbios midos pousaram na face do
neto num beijo chocho.
  - Deus te abenoe, meu filho - balbuciou ela.
  Licurgo inclinou-se, encostou uma das faces na cabea da av e rompeu a
chorar como uma criana. Bibiana arrastou-o para o vestbulo e depois
para o escritrio, cuja porta fechou apressadamente. No queria que os
convidados vissem aquele acesso de nervos de seu rapaz.
  - Que  isso, Curgo? No chore. Vamos, enxugue as lgrimas. Ora, j se
viu?
  Licurgo passava o leno nos olhos e nas faces e fungava, furioso consigo
mesmo por ter fraquejado, e j com uma vaga vontade de brigar. Mas
brigar com quem e por qu?
  - Vamos botar essa gente na mesa! - exclamou de repente. - Devem estar
morrendo de fome.
  Puxou bruscamente a av pelo brao, e sempre fungando, com vontade de
dizer nomes feios a seus convidados e ao mesmo tempo de abra-los,
voltou para a sala, exclamando:
  805
  
  Vamos comer, minha gente! Vamos pra mesa! Esta casa  de vossuncs!
  Tinham posto na sala de jantar uma longa mesa, coberta de toalhas de
linho muito alvo, e sobre a qual se alinhavam travessas com carne de
porco fria e farofa, pedaos de galinha assada, lingia frita e rodelas
de salame e presunto de Garibaldina. Assim que os convivas se sentaram 
mesa, as negras comearam a trazer os espetos de churrasco quente e
pratarraos cheios de pastis recm-sados da frigideira.
  - So de carne - anunciou Bibiana, que estava j sentada  cabeceira - e
esto quentinhos.
  Os convidados atiravam-se com vontade s comidas. Bibiana ficou a
observar, deliciada, o padre Romano, que comia com tanto apetite, que
era um gosto v-lo. Sentado   frente do vigrio, o dr. Winter, que
andava ultimamente to enfastiado, mordiscava com indiferena uma coxa
de galinha. Ouvia-se o som claro e alegre do vinho  no instante em que
era despejado nos copos. As conversas ganhavam animao  medida em que
os convivas iam bebendo, e os homens agora precisavam gritar para se
fazerem  ouvir, pois todos falavam ao mesmo tempo e os gaiteiros no
tinham parado de tocar.
  Sem fome, Licurgo olhava para a janela, atravs de cujas vidraas via o
claro da fogueira. Onde estaria Ismlia? J teria chegado? No podia
compreender aquela  demora. Segundo suas instrues, a rapariga devia
ter deixado o Angico ao raiar do dia...
  Maria Valria lanou um olhar furtivo para o primo. Achou-o taciturno e
inquieto. Que se estaria passando com ele? Por que no falava com a
Alice, que estava ali  esquecida  sua direita? Olhou para a frente e
deu com os olhos ansiosos de Liroca, do outro lado da mesa. O rapaz lhe
sorriu. A face de Maria Valria permaneceu  impassvel. Jos Lrio
fizera j duas tentativas para puxar conversa, mas ela lhe respondera
com monosslabos secos, a fim de o 
  806
  desencorajar. O diabo do rapaz, porm, era persistente. Apesar de todas as
desfeitas que ela lhe fazia - bater ostensivamente a janela quando ele
se aproximava na calada;  voltar-lhe as costas quando ele a convidava
para danar nos bailes; recusar as flores que ele lhe mandava - apesar
de tudo isso o infeliz continuava a persegui-la  e ultimamente se dava
at ao desfrute de cantar-lhe serenatas com sua voz de taquara rachada.
  Maria Valria baixou a cabea e comeou a comer, meio perturbada,
fazendo o possvel para esquecer que o primo se achava quela mesma
mesa, e que bastava erguer  os olhos e voltar a cabea para v-lo.
  Os gaiteiros tocavam agora uma valsa: Ondas do Danbio, reconheceu ela.
Por um rpido instante imaginou-se a danar nos braos de Licurgo, mas
repeliu logo esse  pensamento, irritada, e j com um sentimento de
culpa, como se s por pensar aquilo tivesse trado a irm.
  Bibiana contemplou Alice por alguns instantes com olho crtico e depois,
inclinando-se para ela, disse:
  - De amanh em diante vossunc vai tomar todos os dias depois do almoo
uma gema de ovo cru com um clice de vinho do Porto.
  Alice fitou na velha seus olhos grados:
  - Mas eu no gosto de ovo cru, titia!
  - Goste ou no goste, tem de tomar. Vossunc anda muito plida e precisa
engordar. Homem no gosta de mulher magra. Faa o que eu digo. E comece
amanh!
  - Est bem, titia - concordou Alice, com um sorriso submisso. Baixou os
olhos para o prato e continuou a comer sem nenhum entusiasmo um pedao
de peito de galinha.
  Bibiana continuava a olhar obliquamente para a futura mulher de Curgo. A
moa tinha os quadris estreitos: no podia ser boa parideira. Mas fosse
tudo pelo amor de  Deus! Ela conhecia muitas mulheres de bacia estreita
que botaram muitos filhos no mundo e s morreram de velhice.
  O ar estava cheio de rumor das conversas e do tinido de pratos, copos e
talheres. Os homens conversavam animadamente e 
  807
  comentavam, muitos deles, o incidente da tarde. Curgo comia devagar e sem
vontade, mas esvaziava em largos goles seu copo de vinho. Tinha o rosto
afogueado e os lbios  muito vermelhos e lustrosos. De vez em quando
voltava-se para a noiva e procurava comear uma conversa: "Est sem
fome?" - dizia. Ou "Olhe s o apetite do padre".  Ou ento: "Est
gostando da festa?" Alice, porm, respondia apenas com monosslabos
acanhados, e a conversa como que se congelava no ar.
  O padre Atlio Romano tinha diante de si um prato de pastis, que ia
devorando rapidamente com tal entusiasmo que s vezes chegava a met-los
inteiros na boca. Mastigava  com bravura e ao mesmo tempo no queria
deixar de falar, porque o dr. Winter, aquele ateu incorrigvel, no o
deixava em paz. Agora estava a repetir-lhe de cor trechos  dum livro de
seu amigo Carlos von Koseritz, outro herege de m morte. Com o busto
inclinado sobre a mesa, o garfo em riste, o mdico olhava fixamente para
o padre  enquanto falava:
  - "O mais crente dentre vs acreditar que a Terra seja o centro do
Universo e que o Sol, a Lua e todos os astros s foram criados para
fazerem o servio de lampies?"
  O vigrio escutava-o, sorrindo e mastigando.
  - E por que no? - exclamou, interrompendo o outro. - Por que no, se
Deus assim o quis? - Recostou-se na cadeira e gritou para uma negra que
passava: - Me traga  mais pastis, bela! - E com os lbios reluzentes de
banha, a face corada, o olho alegre, tornou a voltar a ateno para o
mdico: - E por que no?
  Winter brandia ainda o garfo.
  - "A Bblia  obra de homens ignorantes; a histria da Criao  um
mito, e Laplace tinha razo quando Napoleo I lhe perguntou por que no
falara em Deus ao expor  o seu sistema de mecnica celeste: 'Sire, je n
'avais ps besoin de cette hypothese!'"
  - "Quos Deus vult perdere, prius dementat"- citou o padre, soltando um
arroto feliz.
  - "O estado das camadas terrestres demonstra  evidncia que o homem 
simplesmente fruto da evoluo da matria como a prpria Terra, como so
os mundos todos que  povoam o espao do Universo."
  808
  Atlio Romano bebericava seu vinho, fazendo-o demorar sobre a lngua e
depois engolindo-o com um vagar sensual. Tornou a encher o clice.
  - Nada disso  novidade pra mim, doutor - disse ele. - Todos esses
autores ateus seus amigos so tambm meus conhecidos. Tenho seus livros
 minha cabeceira e isso   um sinal de que no os temo.
  - E no acha que eles tm razo?
  - Toda. Ah! C esto os pastis quentinhos. - Esfregou as mos. -
Sirva-se, belo!
  O dr. Winter no se deixou comover pela presena dos pastis
recm-sados da frigideira e que ali estavam  sua frente, ndios,
cheirosos, trigueiros, polvilhados  de acar e canela. Lanou-lhes um
olhar frio e tornou a encarar o interlocutor:
  - Mas se acha que eles tm razo, como  que continua a exercer o
sacerdcio duma religio baseada num mito pueril?
  A manopla do padre avanou e seus dedos pinaram um pastel.
  - A razo no tem nada a ver com a f! - sentenciou ele, metendo o
pastel na boca e empurrando-o com os dedos.
  - Vosmec leu Darwin e Lamarck, no leu?
  - Li. E talvez melhor que o doutor.
  - Aceita as leis da evoluo e da seleo?
  - Aceito.
  - Ento?
  - Ento qu?
  - Como pode reconhecer ao mesmo tempo a autoridade da Bblia?
  - Mas a Bblia fala uma linguagem simblica, belo!
  - Isso  um sofisma.
  - A hiptese evolucionista no exclui necessariamente Deus. Ela  antes
uma prova da suprema, da incomparvel, da sutil e imaginosa inteligncia
do Todo-Poderoso.  - Limpou com a ponta da toalha os beios engraxados.
- A Bblia no passa duma verso potica do gnesis ao alcance da
inteligncia popular.
  - Isso  uma heresia, padre!
  809
  - E ningum mais autorizado que um padre para proferir uma heresia,
belo! - exclamou o vigrio, soltando uma gargalhada.
  O dr. Winter sacudiu a cabea, rindo o seu riso em falsete. Contemplou o
interlocutor com simpatia. Admirava o padre Romano. Conhecera outros
vigrios de Santa F:  alguns deles eram homens de poucas luzes, que
viviam no sagrado temor de desgostar o chefe poltico local. No liam
nada e tinham medo de discutir tudo. Agora Santa  F possua um vigrio
independente, exuberante de sade e bom humor, um liberal e, por mais
absurdo que parecesse, um livre-pensador. Tinha em casa uma rica
biblioteca,  onde Winter, encantado, encontrava, em belas encadernaes
de couro, alguns de seus autores queridos: Renan, Schopenhauer,
Diderot... Um dos livros de cabeceira  do vigrio era o Candide, de
Voltaire. Um dia o dr. Winter pilhara o padre Romano a ler os contos de
Boccaccio e a soltar gargalhadas homricas.
  - O vigrio lendo Boccaccio! - exclamara, admirado. Fechando o livro com
estrondo e erguendo-se de sbito, o
  padre explicou:
  - Leio este patife por duas razes poderosas. Primo, porque gosto.
Secundo, porque com suas histrias materialistas e frasearias ele me
capacita a sentir melhor  as delcias da castidade e da vida espiritual.
  Era o padre Romano geralmente estimado em sua parquia. Sabia contar com
graa uma anedota e, pastor amvel, no vivia como seus predecessores a
ameaar as ovelhas  com o fogo do inferno. Algum pecou? Vamos ver,
sente-se a, fique  vontade, descanse um pouquinho. No se aflija. Tudo
se pode arranjar, porque Deus  uma boa  pessoa. Atjra-lhe seu corao,
bela. Pronto, estou escutando...
  Nos domingos  tarde montava no seu zaino-perneira e de guarda-sol
aberto tocava-se ao trote do animal, rumo das colnias, seguido pelo
sacristo, que cavalgava  numa mula magra. Dom Quixote e Sancho Pana -
pensava Winter quando os via passar.
  Em Garibaldina o padre comia macarronadas memorveis, bebia vinho 
sombra fresca das bojudas pipas das cantinas, e jogava
  810
  ruidosamente bocha, ou mora com os colonos, em companhia das quais
ficava depois a cantar cantigas do bel paese.
  E Ia Violetta Ia v, Ia v, Ia v, La v nel campo e Ia si sognava Ch
'ei gera. ei s Gigin che Ia rimirava.
  - Perche mi rimiri, Gigin, de amor,
  Gigin d'amor?
  - Io ti rimiro perche sei bella,
  E se vuoi venir con me alia guerra.
  - No, alia guerra non v venir, Non v venir!
  Non v venir con te alia guerra
  Perch si mangia male e si dorme per terra.
  O dr. Winter jamais esquecera o dia em que vira o padre com um copo de
vinho na mo cantar um solo com sua bela voz de bartono:
  Non ti ricordi, oh Adelina, Sotto 1'ombra di quel ramo, Tu dicevi:
T'amo, t'amo! Eri tutta felicita?
  Ao redor dele os colonos, de faces rosadas e lustrosas, cantavam
  o coro:
  Ma perch, Adelina, ma perche Tu non pensi pi a me?
  Certo domingo, quando de volta de Nova Pomernia apeava do cavalo em
Garibaldina para um breve descanso, o dr. Winter ouviu gritos e risadas
vindos dum grupo que  cercava dois homens. Aproximou-se do ajuntamento e
ficou embasbacado com o que viu. De batina erguida, o padre Atlio
Romano jogava uma luta romana
  811
  com Arrigo Cervi, o ferreiro da colnia. De rosto suado, vermelho como
um tomate, o vigrio bufava e gemia, deixando escapar de quando em
quando blasfmias. Porca  misria! Hstia! Figlio dun
  canel
  Os vigrios de Santa F sempre se impacientavam com a falta de religio
dos homens da terra, que em sua maioria nunca iam  missa ou, quando
iam, no se ajoelhavam  nem oravam, limitando-se a ficar de p, atrs do
ltimo banco, com o ar entre sestroso e contrariado; em geral se
retiravam, mal comeava o sermo. Dizia-se que  nenhum vigrio jamais
conseguira levar um daqueles homens ao confessionrio. O padre Romano,
porm, fizera-se amigo de todos, conquistando-lhes a confiana, de sorte
que muitas vezes ouvira, de homem para homem, diante dum copo de cachaa
ou  mesa de jogo, confisses ntimas, e no raro era chamado para
resolver pendncias de  honra ou problemas de famlia que seus
paroquianos queriam ajustar em particular. Escandalizava as beatas pela
irreverncia com que s vezes tratava as coisas de  religio. Mas tinha
um comportamento exemplar e a maledicncia local nunca conseguira
descobrir-lhe na vida o mais leve cheiro de mulher.
  Mirando agora Atlio Romano, que ainda comia com voracidade os pastis
quentes, Winter sacudia a cabea com o ar benevolente dum adulto diante
das travessuras dum  menino. Desviou depois o olhar na direo de
Licurgo e pensou imediatamente em Bolvar. O rapaz tinha o jeito
desinquieto do pai: sugeria um potro de cabea alada,  farejando
perigo, prestes a tomar o freio nos dentes e disparar. Que contraste com
a tranqilidade e a calma fora de Florncio, que parecia ter seus ps
to bem  plantados no cho! Mas - achava Winter - era a tranqilidade e
a fora dum boi que se resigna a passar a vida puxando carreta.
  Tornou a encher o copo de vinho e bebeu-o todo dum sorvo s. O melhor
que tinha a fazer era embriagar-se para poder participar da alegria
geral, para esquecer que  a vida para ele no prometia mais nada. J no
lhe restavam esperanas de sair de Santa F. A distncia em quilmetros
que o separada da Alemanha era enorme. Mas  a distncia em tempo, essa
era ainda mais aterradora. Sentia-se
  812
  solto no tempo e no espao, sem ligao com ningum e com coisa alguma.
Mas no fora sempre esse o seu ideal? No ter compromissos, nem esposa
nem famlia, nem propriedade  nem contratos. Ser fsica e
espiritualmente um viajante sem bagagem. Estar sempre em
disponibilidade, poder, dum minuto para outro, sem ter de dar
satisfaes a  ningum, mover-se dentro da geografia, mudar de paisagem,
de ambiente, de hbitos... Pois bem. Conseguira tudo isso. Mantivera-se
livre, disponvel, sentimentalmente  intocado. Mas que uso fizera de sua
liberdade? Guardara-a apenas como algumas daquelas famlias de Santa F
entesouravam jias antigas dentro dum escrnio, no fundo  duma gaveta,
no as usando nunca, nunca se desfazendo delas nem mesmo nos momentos de
maior necessidade. Um luxo intil, enfim!
  Tornou a encher o copo de vinho. Bebeu um gole, passou o guardanapo nos
bigodes e olhou em torno. L estava a velha Bibiana  cabeceira da mesa,
atenta a tudo, no  perdendo uma palavra do que se dizia a seu redor,
sempre a vigiar o neto com seu olhar vivo e dissimulado. Winter pensou
em Luzia... Segundo as teorias do padre  ela tinha uma alma, e essa alma
devia estar quela hora (ser que no outro mundo existe o tempo?)
purgando seus pecados nas chamas do inferno. O mdico sorriu. A
teiniagu tinha parte com o diabo: o fogo no lhe faria o menor mal ao
corpo verde de rptil. Mas onde estaria a alma do pobre Bolvar? Decerto
penando pelos corredores  do purgatrio.
  - Padre, vossunc  uma besta! - gritou Winter olhando para o vigrio.
Foi como se lhe tivesse de repente atirado na cara o vinho do copo. Sua
voz, porm, perdeu-se  na balbrdia geral. Os homens conversavam em
altos brados. As gaitas enchiam os sales com sua msica rasgada e
chorona. No quintal os pretos cantavam, danavam  e batucavam em
tambores.
  Um homem ergueu-se e bateu palmas, pedindo silncio.
  - Queremos que o dr. Torbio nos recite alguma coisa! - gritou. Vozes o
apoiaram: "Muito bem! Bravos! Que recite o dr. Torbio!"
  O advogado no se fez rogar. Ergueu-se com um entusiasmo avinhado,
amassou o guardanapo nas mos midas e delicadas, e
  813
  ficou um instante de cabea baixa, como que a pensar no que ia dizer.
Quando a msica parou e os convivas fizeram silncio, o baiano passou os
dedos pelos cabelos  e disse com voz macia:
  - Vou recitar um poema do grande vate condoreiro Castro Alves, glria da
Bahia e do Brasil. - Fez uma pausa grave e depois, j em tom de
discurso, acrescentou: -   "O navio negreiro", poema que tem feito pela
causa da abolio da escravatura no Brasil o que Cabana do Pai Toms fez
pela mesma causa sublime na Amrica do Norte.
  Bibiana inclinou-se para Alice e cochichou:
  - L vem discursrio outra vez.
  Curgo voltou vivamente a cabea para a av e, de cenho cerrado,
lanou-lhe um olhar sombrio de repreenso, que a velha rebateu com um
sorriso pcaro.
  O dr. Torbio ps-se na ponta dos ps e, traando no ar com a mo
direita uma semicircunferncia, comeou:
  Estamos em pleno mar... Doudo no espao Brinca o luar - dourada
borboleta.
  Suas mos agitaram-se como borboletas morenas, que imediatamente se
transformaram em ondas quando ele disse:
  E as vagas aps ele correm... cansam Como turba de infantes inquieta.
  Havia no rosto do padre uma expresso de absoluta felicidade. Tinha
comido e bebido bem: agora escutava um belo poema. Alimentava assim o
corpo e o esprito.
  O dr. Torbio lanou ao ar uma pergunta pattica:
  Por que foges assim, barco ligeiro?
  O dr. Winter tinha os cotovelos fincados na mesa e segurava a face
barbuda com ambas as mos. Por que foges, barco ligeiro? Imaginou-se a
bordo dum brigue, sentindo  no rosto o vento picante
  814
  do mar; estava a caminho da Alemanha e ali no convs do navio pensava em
Santa F, especialmente numa certa noite de festa no Sobrado - fazia
tanto tempo! - em que  algum recitara um verso que falava em barco, e
ele se imaginara a bordo dum brigue que o levava de volta  ptria, e
chegara a sentir o vento do mar no rosto, e  ficara pensando numa noite
remota em Santa F, em que numa festa no Sobrado algum recitara um
poema que falava em barco e ele se imaginara... Ach!Estava mas era
embriagado. Bebera demais. Mas beber era bom; fazia-o sentir-se como um
balo leve, areo, colorido, despreocupado - bem como um balo de So
Joo. Achava tudo bom,  tudo bonito, tudo certo. Em todo o caso, seria
melhor tratar de beber uma xcara de caf bem forte sem acar. Um
mdico no deve embriagar-se, mein lieber Doktor.  Que lngua estava
falando o dr. Torbio? Ele j no compreendia nada... Aquelas palavras
no tinham sentido. O poema era puro ritmo. Ra-ta-t... ra-ta-t...
ra-ta-t...  Pensou em Johann Wolfgang von Goethe. Onde estava ele?
Feito p! De nada lhe adiantara ter escrito que Zwei Seelen wohnen achl,
in meiner Brust. Duas almas habitam,  ai!, em meu peito. Seu peito se
havia enchido de vermes. Hoje, no havia mais vermes nem peito. P.
Olhou para o padre que ainda mordiscava um pastel. Onde esto  as almas
do poeta? No Cu, responderia o sacerdote. Goethe entre os anjos. No,
Goethe seria um arcanjo, como Heine, Schiller e tantos outros. Torbio
prosseguia:
  Mas que vejo eu a... Que quadro d'amargura Que funreo cantar! Que
ttricas figuras! Que cu infame e vil... Meu Deus! Meu Deus Qiie
horror!
  A voz do advogado se fez cava e teatral:
  Era um sonho dantesco... o tombadilho, Qtie das luzemas avermelha o
brilho,
  815
  Apontava para a mesa, como se da fosse o tombadilho. E num rompante
dramtico pegou o copo de vinho, despejou-lhe o contedo na toalha
branca, e, mostrando a mancha  vermelha, declarou:
  Em sangue a se banhar
  Bibiana resmungou:
  - No  ele que vai lavar a toalha...
  A voz do advogado agora estava lmpida e empestada:
  Tinir de ferros. . . estalar de aoite Legies de homens negros como a
noite Horrendos a danar...
  Negras mulheres, suspendendo s tetas Magras crianas, cujas bocas
pretas
  Rega o sangue das mes: Outras, moas, mas nuas e espantadas No
turbilho de espectros arrastadas
  Em nsia e mgoas vs...
  Winter tornou a encher o seu copo de vinho. Mulheres suspendendo s
tetas... Seus olhos passearam pelas pessoas que estavam do outro lado da
mesa. A tendncia que  as mulheres daquela provncia tinham para
engordar! Com exceo das filhas de Florncio, as outras moas eram
rechonchudas, tinham ancas largas e seios fartos. Os  gachos pareciam
gostar de mulheres desse tipo, pois talvez as julgassem como julgavam as
vacas leiteiras: quanto maior o bere, mais leite. Depois que casavam,
ento, aquelas fmeas botavam corpo e ficavam como a esposa do Veiga da
Casa Sol, que ali estava junto do vigrio, apertada num vestido de cetim
azulmarinho, com  sua cara de bolo de milho abatumado, o seu duplo
queixo duma moleza e duma brancura de requeijo, a mirar o declamador
com seus olhinhos empapuados em que havia  uma vaga luz de espanto...
Mein Gott!Se Deus existisse, toda aquela comdia talvez tivesse um
sentido. Quem sabe Deus existe?
  816
  Qual num sonho dantesco as sombras voam!... Gritos, ais, maldies,
preces ressoam'. E ri-se Satans'.
  Um dos pees de Curgo entrou na sala na ponta dos ps, aproximou-se do
patro, inclinou-se e cochichou-lhe ao ouvido:
  - Est tudo calmo.
  Era o homem que ele pusera de sentinela na gua-furtada a vigiar a
praa. Havia outro no fundo do quintal e um terceiro debaixo da figueira
grande, com o olho no  pao municipal. Curgo no acreditava que os
Amarais se atrevessem a atacar o Sobrado, mas achava que era bom ficarem
de sobreaviso.
  Sacudiu a cabea e murmurou:
  - Est bem. Diga aos rapazes que venham comer.
  O peo olhou para os lados e, num sussurro ainda mais leve, comunicou:
  - A Ismlia chegou, patro.
  Aquelas palavras caram sobre o peito de Licurgo com o peso duma pedra.
Ele olhou automaticamente para a av.
  - Muito bem, Neco. Onde est ela?
  - No quintal.
  O homem retirou-se na ponta dos ps. Licurgo olhou para Alice, meio
desconcertado. Depois para Torbio, que gesticulava, exclamando:
   mar, por que no apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este
borro?
  Se ele pudesse apagar Ismlia com uma esponja... teria coragem para
tanto? No. Embora os outros pudessem considerar Ismlia um borro em
sua vida, ele no deixava  de sentir por ela o que sentia. Agora tudo
desaparecia: a festa, o declamador, o poema, a abolio, a noiva, a av,
a repblica - tudo. O que ele sentia
  817
  era um desejo urgente de ver a chinoca, de apalp-la, abra-la,
penetr-la. Sua sensao de febre aumentava e ele sentia o pulsar surdo
do prprio corao e comeava  a remexer-se na cadeira como se estivesse
sobre um braseiro. Era sangue ou fogo o que lhe corria nas veias? No
era apenas a ferida da testa que latejava: seu corpo  inteiro pulsava,
quente, dum desejo que chegava a doer. Olhou em torno mais uma vez.
Levantou-se devagar, procurando no fazer barulho. Sentiu que a noiva e
a av  o observavam disfaradamente. O prprio vigrio voltou para ele
uma cara interrogadora. Fossem todos pr inferno. Ele era dono daquela
casa e era dono de sua vida.  Pr inferno! Levantou-se e saiu a caminhar
na ponta dos ps na direo da cozinha, com a desconcertante impresso
de que no s todos os olhos estavam de olhos postos  nele, como tambm
de que era para ele que Torbio dirigia aquelas perguntas desesperadas:
  Quem so estes desgraados Que no encontram em vs Mais que o rir calmo
da turba Que excita a fria do algoz?
  Abriu caminho com gestos impacientes pelo meio da negrada que se
aglomerava na cozinha, e chegou finalmente  porta dos fundos. Parou no
portal e contemplou o quintal,  que a grande fogueira iluminava. Os
negros que danavam ao redor do fogo - as caras reluzentes,
transfiguradas por um xtase de batuque, as dentuas  mostra, olhos
revirados, as narinas arregaadas, as bocas retorcidas a babujar
palavras duma lngua brbara - pareceram-lhe mais demnios que seres
humanos. Teve mpetos de gritar:  "Chega! Vamos parar com esse barulho!"
  Mas num segundo esqueceu os pretos, a fogueira, o batuque. Porque o que
ele queria era Ismlia. Onde estaria a china? Comeou a procur-la,
aflito... Finalmente  avistou-a: estava ela sentada sozinha debaixo duma
bergamoteira, enrolada num poncho, a olhar fixamente para o fogo.
  Desceu a escada quase a correr.
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  10
  Levou-a sem dizer palavra para o fundo do quintal, para uma zona que a
luz da fogueira no atingia. E ali, debaixo duma rvore copada, num
ngulo formado pelo muro,  abraou Ismlia e beijou-lhe repetidamente os
lbios midos e frios. O poncho que envolvia a rapariga, demasiadamente
grande para seu corpo franzino, no s lhe  embaraava o movimento dos
braos como tambm tornava difcil para Licurgo abra-la. Este
continuou a beij-la e seus lbios vidos colaram-se no lbulo da orelha
da amante, depois nas tmporas, na testa, nos olhos, nas faces e outra
vez na boca, onde ficaram por longos instantes.
  Curgo afastou a rapariga de si para melhor ver-lhe o rosto. Na penumbra,
porm, no lhe pde distinguir as feies. Meteu as mos pela abertura
do poncho  apertou-lhe  os braos.
  - Por que demorou tanto a chegar?
  - No tive a culpa.
  - Mas por qu?
  - A aranha saiu tarde do Angico.
  - Mesmo assim tinham tempo de chegar antes do anoitecer.
  - Viemos devagarinho. Eu enjoei com o balano. Paramos no Rincho Bonito
pra descansar.
  - Quem foi que te trouxe?
  - O Bentinho.
  - O Bentinho? - A presso de seus dedos no brao da moa aumentou. - Mas
eu te disse que viesse com o teu irmo.
  - O Lao est doente, de cama.
  - O Bentinho no se passou contigo?
  - No.
  - Jura por Deus?
  Mal fez esta pergunta, arrependeu-se. Estava fazendo uma cena,
colocando-se numa posio ridcula perante Ismlia.
  - Juro.
  Soltou-lhe os braos. A chinoca tocou-lhe a testa com a ponta dos dedos.
- Que foi isso?
  No valia a pena contar tudo. Era melhor resumir:
  819
  - Me lastimei esta tarde.
  - Est doendo muito?
  Ele no respondeu. Seu corpo  que estava doendo e latejando de desejo
por Ismlia.
  A rapariga esperava, imvel, calada, encolhida dentro do poncho. Tinha a
envolver-lhe a cabea um pano branco amarrado sob o queixo. Respirava
pela boca e de seus  lbios entreabertos se escapava um tnue vapor.
  - Vem - ordenou Curgo.
  Fez meia-volta e caminhou para o barraco que se erguia contra o muro
dos fundos do quintal. Abriu a porta e entrou. Ismlia seguiu-o
silenciosamente.
  Dentro estava completamente escuro. Curgo tomou da mo da rapariga e
conduziu-a para cima duns fardos de alfafa.
  - Senta aqui. Ela obedeceu.
  - Est com muito frio? - perguntou ele. - Muito no.
  - Ento tira o poncho.
  Ela tirou e Curgo estendeu-o sobre dois fardos.
  - Deita aqui.
  Ismlia deitou-se. Ele fez o mesmo e em seguida abraou-a e estreitou-a
com fora contra o peito. Por longo tempo ficou a chupar-lhe os lbios,
s fazendo pausas  para tomar flego. Agora ele aspirava, excitado, o
cheiro de Ismlia: corpo quente e moo recendendo a sabo preto. Era uma
pena no ter trazido uma lanterna - pensava  ele. Estava com saudade das
feies da rapariga, daquela cara dum moreno terroso, bem como mingau
respingado de canela, e principalmente daquelas pupilas dum verde
desbotado de malva, com esquisitos pontinhos dourados. Nunca pudera
compreender como duma famlia de posteiros miserveis e molambentos
havia nascido uma criatura  bonita como a Ismlia, com traos mais finos
que os de muita filha de estancieiro rico.
  O sangue martelava as tmporas de Licurgo quando suas mos apalparam os
ombros da china, acariciaram-lhe os seios midos,
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  desceram-lhe pelo ventre, pelas coxas e finalmente comearam a
arrepanhar-lhe a saia, desajeitadas e aflitas.
  - Espere - disse Ismlia. E ela prpria ergueu a saia. Deitado e de
olhos cerrados, Licurgo sentia na nuca a rigidez
  elstica do brao da rapariga. Estava agora saciado mas triste, e
desejava dormir, dormir um profundo sono sem sonhos. Infelizmente tinha
de voltar para a festa,  pois no Sobrado j deviam estar estranhando sua
ausncia. No sentia, porm, o menor desejo de erguer-se. Era boa a
presena daquela criatura, bom o calor de seu  corpo, o contato de sua
carne. Ismlia no pedia nada, no perguntava nada. Era fcil estar ao
lado dela.
  Chegavam at o barraco as vozes dos negros, a msica das gaitas e, de
quando em quando, o amiudar longnquo dum galo ou o latido dum cachorro
em alguma rua prxima.
  - Agora v pra casa da velha Rosa - disse Licurgo. - J falei com ela.
Se puder, amanh vou te visitar. Ouviu?
  - Ouvi.
  - Est precisando de alguma coisa?
  - No.
  Curgo voltou-se para Ismlia, segurou-lhe a cabea com ambas as mos e
tornou a beijar-lhe a boca. Pouco depois, seus lbios lhe tocaram as
faces e sentiram-nas  midas. Levou os dedos aos olhos da rapariga e
descobriu-os cheios de lgrimas.
  - Que  isso? Por que est chorando? - perguntou, j meio irritado.
  - Nada.
  - Est doente?
  - No.
  - Eu te machuquei?
  - No.
  - Ento que ?
  Ela no respondeu. Licurgo arrancou um talo de alfafa, levouo  boca e
comeou a mord-lo, impaciente. Ismlia decerto estava triste porque ele
ia casar. Era a hora  de dizer-lhe que o casamento no ia mudar a
situao, que eles continuariam como antes, como sempre, e que o fato de
ele casar com Alice no significava que...
  821
  Mas no. Dar aquelas explicaes  filha do Mane Car seria rebaixar-se
muito. No dava. De resto, ela no compreenderia... No entanto aquelas
lgrimas o afligiam  e, percebendo que estava prestes a enternecer-se,
ele se agastava e pensava j em fazer algum gesto spero. Tornou a
passar os dedos pelas faces da china e sentiu  que as lgrimas agora
escorriam mais abundantes.
  Cuspiu o talo de alfafa e soltou um fundo suspiro. Era preciso voltar ao
Sobrado. As danas decerto haviam comeado e ele tinha de danar com a
noiva. Sentia mpetos  de entrar em casa e gritar: "A festa acabou,
minha gente. J comeram, no comeram? J beberam, no beberam? J
danaram, no danaram? Pois ento vamos todos dormir.  Boa noite!"
  O silncio continuava. Curgo descansou a mo espalmada sobre o seio
esquerdo da rapariga e ficou sentindo o pulsar de seu corao.
  Foi nesse momento que ela balbuciou:
  - Vou ter um filho.
  Ele no disse nada. Ficou ouvindo por muito tempo, com todo o corpo,
aquelas palavras. Vou ter um filho. Continuou sentindo o pulsar do
corao de Ismlia juntamente  com as batidas violentas de seu prprio
sangue nas tmporas doloridas.
  Com passos lentos Licurgo dirigiu-se para o Sobrado. Parou nas
proximidades da fogueira e ficou olhando para as chamas. As danas e
cantigas haviam cessado. Acocorados  perto das brasas, negros e negras
assavam batatas-doces na ponta de varas. Outros, exaustos, dormiam sob
as rvores, enrolados em molambos. Uma negra mina, acocorada  debaixo
duma laranjeira, gemia uma melopia africana. A parede dos fundos do
Sobrado refletia a luz alaranjada da fogueira.
  Vou ter um filho. Licurgo carregava consigo a voz de Ismlia. Vou ter um
filho. Uma voz fininha, dolorida, triste. Vou ter um filho. O ar
cheirava a sereno, o fogo  crepitava. Que fazer? Que fazer? Talvez o
melhor fosse deixar o problema para o dia seguinte. Estava cansado, com
o corpo modo, a cabea latejando de dor. Talvez  estivesse at com
febre. Mas uma coisa desde j estava decidida: aquela criana no podia
nascer... No entanto, era-lhe 
  822
  repugnante a idia de mandar Ismlia botar o filho fora. Sempre censurara
os que faziam isso... Pensou na av. A velha reprovaria aquilo, sem a
menor dvida... Mas  no. Ele sabia dos dissabores que lhe viriam se a
criana nascesse. Filho natural. Isso  que ela ia ser. Filho natural.
Se fosse um homem a coisa seria m; mas  se fosse mulher, tudo ficaria
ainda pior. Cresceria como a me, ao abandono, no rancho dos Cars.
Quando se fizesse mocinha algum grado a levaria para a cama e  depois a
deixaria ao abandono com um filho na barriga. E pensando nisso, Licurgo
chegou a odiar o homem que >lia" fazer aquilo. De repente compreendeu
que de certo  modo estava se odiando a si mesmo. Sim, ia mandar a
Ismlia fazer o aborto. Isso simplificaria tudo. Mas... se a rapariga
morresse? Conhecia casos. Talvez o melhor  mesmo fosse deixar Ismlia
ter o filho, e quando a criana nascesse, faria tudo para que ela fosse
criada direito e nada lhe faltasse. Um dia contaria tudo a Alice;  ela
havia de compreender, porque aquilo tinha acontecido no tempo em que
ele, Curgo, era solteiro. Mas no. Dentro dum ms estaria casado. Era
at bem possvel que  o primeiro filho de Alice nascesse apenas dois
meses depois do de Ismlia. Iam crescer juntos no Angico. Um na
casa-grande, o outro no rancho dos Cars. Se fossem  de sexo diferente
era at possvel que... Licurgo levou a mo  cabea, que estava a
estourar-lhe de dor. Talvez o talho estivesse infeccionado. Ou tudo no
mundo  estivesse errado, podre. Mas quando  que esses gaiteiros do
inferno vo parar de tocar?
  Tinha a lngua seca, a garganta ardida e estava com sede. Beberia um
caneco de cerveja e mandaria tudo para o diabo. Continuou a andar na
direo da casa, pensando  no que diriam os outros quando o vissem
voltar. Fagulhas voavam no ar. Da fogueira saa um cheiro enjoativo de
laranja assada.
  No. O melhor mesmo era a Ismlia botar o filho fora. A negra Anastcia
conhecia umas ervas infalveis: tudo ia ser fcil. A Anastcia
resolveria o caso... J bastavam  as outras preocupaes de sua vida. O
filho ia dar que falar. Pensou nas exploraes que seus inimigos
polticos podiam fazer. Ele e os outros membros do Clube Republicano
estavam empenhados numa campanha de regenerao em que falavam em
decncia e bons costumes. O Manfredo Fraga
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  era capaz de insinuar nos seus editoriais infetos que o presidente do
Clube Republicano de Santa F havia desonrado a filha dum humilde
posteiro, deixando-lhe no  ventre o fruto do pecado, etc., etc... Estava
decidido. A criana no ia nascer...
  Comeou a subir os degraus que levavam  porta da cozinha. L de dentro
vinham os sons duma polca e o arrastar de ps dos pares, de mistura com
vozes e risadas.  Vendo um vulto enquadrado pela porta da cozinha,
estacou, reconhecendo a av. Bibiana e o neto se miraram por algum tempo
em silncio. Ser que ela desconfia de  alguma coisa? - pensou Licurgo.
Ia falar quando a velha se antecipou, dizendo-lhe com uma calma
arrasadora:
  - V ao menos lavar as mos.
  11
  O dr. Winter entrou no escritrio de Curgo com a inteno de fugir um
pouco  algazarra que ia pelas outras salas. O padre Romano estava
demasiadamente loquaz. O  dr. Torbio, empapado de lcool, derrubava o
Imprio. O baile ficava cada vez mais animado e o Veiga tinha acabado de
gritar: "Polca de dama!" Antes que alguma daquelas  matronas gordas o
viesse convidar para danar, ele batera em retirada. Fechou a porta com
cuidado e foi direito  cadeira de balano.
  - Aonde vai? - perguntou uma voz. Num sobressalto, o mdico voltou a
cabea para o canto da pea donde viera a voz e viu Bibiana sentada numa
poltrona.
  - Como foi que no vi vossunc a?
  - Porque est ficando velho, com a vista avariada. Winter sorriu,
sentou-se perto da amiga e deixou escapar um
  suspiro de alvio.
  -  verdade. Estou envelhecendo. J no agento mais muito barulho. Vim
aqui descansar um pouco, pois j me fizeram danar duas valsas.
  Ficaram por alguns instantes em silncio, escutando a polca que os
gaiteiros tocavam, e as risadas dos pares. O escritrio estava
  alumiado apenas pela luz do lampio que se achava sobre a mesinha junto
da qual Winter se sentara e de onde agora lanava para Bibiana um olhar
oblquo.
  - Por que  que est to abichornada?
  - No estou abichornada.
  - Est, sim. Conheo muito bem a minha freguesia.
  Ela encolheu os ombros mas continuou calada. Vinha agora da sala o tanta
surdo e cadenciado de ps que batiam no soalho.
  - D licena de fumar? - pediu Winter. A velha tornou a sacudir os
ombros.
  - Se eu digo que no, vossunc fica a triste como terneiro desmamado.
Acenda um dos seus mata-ratos. Mas levante um pouco a vidraa pra fumaa
no ficar toda aqui  dentro.
  - Est bem. No fumo. A coisa no  to urgente assim.
  - Fume. J disse que pode. Se no fumar, eu tomo isso como desfeita.
  Winter tirou do bolso um charutinho, acendeu-o, puxou uma baforada e
depois insistiu:
  - Vossunc est abichornada, sim. Alguma coisa aconteceu. Bibiana nada
disse. Encolheu-se mais sob o xale, pigarreou em
  surdina e continuou a olhar para a janela. A polca, os gritos e as
batidas ritmadas continuavam.
  - Que horas so? - perguntou ela.
  Winter tirou o relgio do bolso, aproximou-o do lampio e olhou.
  - Faltam vinte pra meia-noite.
  De novo se fez silncio entre os dois amigos. O mdico reclinou a cabea
contra o respaldo da cadeira e cerrou os olhos. Alguma coisa havia
acontecido, e ele sabia  que Bibiana acabaria por contar-lhe tudo: era
questo apenas de tempo. Podia esperar. A velha era assim. Quando estava
doente - o que era raro - fazia mil rodeios  antes de admitir que sentia
alguma coisa; depois  que, aos poucos, ia contando suas dores, mas
achando que no tinham importncia, iam passar ou podiam ser aliviadas
com seus chs caseiros.
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  825
  A msica de repente cessou. Soaram palmas e gritos, e os gaiteiros
bisaram a polca.
  - A Ismlia chegou - disse de repente Bibiana, sem nenhum prembulo.
  Winter abriu os olhos e entesou o busto.
  - Ao Sobrado?
  - L fora. O Curgo ind'agorinha foi com ela pr fundo do quintal e
ficaram l um tempo.
  O mdico no achou o que dizer. Limitou-se a entortar a cabea e ficar
assim com um jeito hesitante.
  - Imagine s - continuou a velha. - Com festa em casa, a noiva aqui
dentro, nem ao menos...
  Calou-se. O dr. Winter ficou olhando fixamente para a ponta do
charutinho e depois, sem olhar para a amiga, murmurou:
  - Coisas de moo. Isso passa.
  No fundo sabia que no era assim. Conhecia Curgo e conhecia Ismlia. O
rapaz era obstinado em suas paixes e o diabo da rapariga tinha
realmente um certo encanto.
  - Deus l oua! - fez a velha. - Mas eu duvido. Ficaram a conversar
sobre outros tempos e outras aventuras
  amorosas de Curgo. E Bibiana desatou a rir, recordando a "histria da
mulher do mgico". Licurgo devia andar por volta dos vinte anos quando
apareceu em Santa F  uma companhia de circo de cavalinhos que armou o
seu barraco na praa, perto da figueira. Tinha um malabarista, um
equilibrista, um contorcionista, cachorros amestrados,  dois palhaos
que s falavam espanhol, e um mgico italiano, um sujeito gordo e
vermelho, de grandes bigodes pretos, casado (casado? qual! decerto
amasiado...) com  uma mulher ruiva. Trabalhavam os dois num palco, e ele
todo de sobrecasaca preta e gravata branca e ela - a desavergonhada -
vestida de homem, bem como esses pajens  das histrias da carochinha. Os
homens de Santa F andavam assanhados com a piguancha: iam ao circo s
para verem a mulher do mgico. Chamava-se Maria, imagine,  nome de gente
direita, nome da Virgem! Aparecia com carmim nas faces, uma sombra azul
ao redor dos olhos muito saltados e azuis, e ficava todo o tempo rindo
para  os machos que
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  estavam nas arquibancadas ou nas cadeiras. E eles lhe diziam
coisinhas... Imaginem que at o Fandango perdeu a cabea; no queria
mais voltar para o Angico, ia a  todos os espetculos e quando a mulher
do mgico aparecia, o velho gritava das bancadas: "Eta potranca
estrangeira bem linda!" e ficava rindo e se babando. O mgico  fazia
coisas do arco-da-velha, dizia umas bobagens em italiano e tirava ovos
do nariz da mulher, fazia o vinho virar leite, dava um tiro numa caixa
vazia e l de  dentro saa uma pomba voando. Mas o nmero de mais
sucesso era o em que o mgico botava a mulher dentro dum caixo, mandava
dois homens da assistncia amarr-la  com cordas e cobri-la com um pano
preto, depois dizia umas bobagens e zs!, abria de novo o caixo e a
mulher no estava mais l dentro. Mas o Curgo, que no era  mgico nem
nada, fez um dia a mulher do italiano desaparecer. Havia algum tempo que
andava de namoro com ela. Uma bela manh o italiano acordou no seu
quarto no  hotel ali na Rua do Comrcio e no viu a mulher na cama. Onde
est? Onde no est? Mas lugar pequeno  o diabo, a gente d um espirro
e todo o mundo ouve. O italiano  logo descobriu com quem andava a safada
e se tocou como um louco para o Sobrado. Bibiana ria o seu riso macio.
  - Parece que estou vendo a cara do homem - contou ela. - Chegou perto de
mim, com os olhos cheios de lgrimas, e falou l na sua lngua
arrevesada, queria que eu  desse conta da mulher dele. Respondi: "U!
Vossunc no  mgico? Pois faa a sua mulher aparecer".
  Winter levantou-se para ir erguer um pouco a vidraa e, ao voltar para
sua cadeira, disse:
  - Mas confesse que vossunc estava alarmada... A velha franziu os
lbios.
  - Muito no. O Licurgo tinha me deixado um bilhete dizendo que ia pr
Angico passar uns dias com a gringa. Vossunc sabe, doutor, ele sempre
teve muita franqueza  comigo. O menino se criou assim, sempre me contou
todas as patifarias que fazia, a comear com as chinocas do Angico.
Vossunc sabe, ele  neto do capito Rodrigo.  Quem herda no furta.
  827
  Winter sorriu. As proezas erticas do capito Rodrigo, que no passado
tinham sido uma fonte de inquietao e dissabores para dona Bibiana,
agora lhe serviam como  motivo de humorismo e ela parecia orgulhar-se de
ter tido um marido "alarife".
  - Sempre achei que  mil vezes melhor um rapaz fazer todas essas coisas
em solteiro, pra depois de casado sossegar o pito e cuidar das
obrigaes. - Calou-se. Seu  rosto ficou de novo srio.
  -  por isso que a histria com a Ismlia me preocupa. A coisa com a
mulher do mgico durou uma semana. O circo foi embora. O Curgo andou uns
dias abichornado, querendo  seguir os burlantins at Santa Maria, mas
acabou esquecendo. Teve outro rabicho por uma castelhana: durou um ms.
Parece que quando foi a Porto Alegre andou metido  com uma polaca... mas
a coisa no durou muito tambm. Mas com a Ismlia  diferente.
  - Um dia h de acabar - disse Winter sem muita convico. Os gaiteiros
tocavam uma mazurca. A luz do lampio ali no
  escritrio morria aos poucos. Winter estendeu o brao e, fazendo subir a
mecha, avivou a chama.
  - E  por essa e por outras - concluiu Bibiana com um tom magoado na voz
- que o Curgo est com vinte e nove anos e ainda solteiro. Estou
beirando os oitenta e ainda  no vi os meus bisnetos. Eu que tanto
queria a casa cheia de crianas!
  - Pois elas ho de vir. Tudo chegar a seu tempo. O Curgo casa o ms que
vem. L por... deixe ver. - Fez a conta nos dedos.
  - L por abril de 85 podemos ter choro de criana no Sobrado. Em 86 pode
aparecer outro bisneto... No  possvel apressar a natureza. Tenha
pacincia.
  - Pacincia eu tenho, mas  que duma hora pra outra posso bater com a
cola na cerca...
  - Aposto todo o meu dinheiro vossunc passa dos noventa.
  - E se eu morrer antes, quem vai pagar a aposta?
  - Vossunc no morre.
  - A verdade  que ningum quer morrer, nem os que so desgraados, os
que sofrem muito. Medo da morte, medo mesmo no tenho. Mas querer
morrer, isso no quero. -  Encolheu-se
  828
  mais sob o xale. - Vossunc bem podia fechar a vidraa. Est entrando
uma friagem. Dizem que a morte gosta de entrar pelas janelas...
  Winter ps-se de p e foi baixar a vidraa. Lanou um olhar para fora.
Viu os lampies alumiando a solido das ruas e um vulto deitado na
calada da praa. Devia  ser o Jacob Geibel... Que estranha criatura,
aquela! Nas noites de ventania - contava-se - o sacristo saa como um
louco a andar sem destino certo pelas ruas, falando  sozinho e
gesticulando, com o jeito de quem quer fugir de algum ou de alguma
coisa.
  - Pois , doutor - disse a velha, depois que Winter tornou a sentar-se -
a gente se habitua tanto  vida que no fim viver fica sendo uma espcie
de cacoete.
  O mdico soltou uma risada.
  - Estou de pleno acordo. Viver  mesmo um cacoete! Atirou a ponta do
charutinho na escarradeira que tinha a seus
  ps e ficou mirando a velha com olhos cheios de simpatia.
  Quedaram-se ambos por algum tempo calados, a escutar a msica.
  De repente, sem saber bem por qu, Bibiana teve um pressentimento de
desgraa.
  - Acho que alguma coisa de ruim est pra acontecer... - murmurou.
  O dr. Winter franziu a testa e perguntou:
  - Por qu?
  - Tive um palpite... uma coisa aqui... - E a velha espalmou a mo sobre
o peito. - Nunca me engano.
  - Qual! No h razo pra isso. Tudo est bem: o Curgo vendendo sade, os
negcios marchando direito. E depois, que diabo! faz j quatorze anos
que no temos guerra  nem revoluo.
  - Pois  justamente isso que me d medo. Quando a esmola  demais o
pobre desconfia. Depois da guerra com os paraguaios no tem havido
barulho. - Lanando um olhar  malicioso para o amigo, acrescentou: - A
no ser aquela guerrinha contra seus patrcios...
  829
  Winter pigarreou, meio embaraado, mas nada disse. No gostava de falar
no assunto. Bibiana referia-se aos Muckers, uma seita de colonos alemes
que se formara no  Ferrabraz, nas proximidades de So Leopoldo, em torno
dum carpinteiro que virara curandeiro e de sua mulher, Jacobina,
estranha criatura sujeita a ataques peridicos  de catalepsia. Merc de
suas interpretaes da Bblia e de suas "curas milagrosas". Jacobina
conseguira fanatizar seus adeptos, levando-os a estranhas prticas.  E
ludo no teria passado duma tolice inocente se os Muckers no se
pusessem a hostilizar os colonos que no faziam parte da seita, chegando
ao ponto de assassinar  alguns deles e incendiar-lhes as casas. E a
provncia, estarrecida, vira aquele incidente local transformar-se num
srio caso de polcia e degenerar mais tarde numa  pequena guerra
intestina, em que o governo, vendo derrotado o primeiro destacamento
policial que fora atacar os Muckers, tivera de mandar uma segunda
expedio mais  numerosa e com artilharia, a qual s  custa de muitas
baixas e ao cabo de numerosos e encarniados combates conseguiu tomar a
cidadela dos fanticos. Contaram-se,  na poca, histrias sangrentas e
cruis dessa campanha. O curandeiro, que as foras legalistas no tinham
conseguido capturar, fora encontrado mais tarde enforcado  nas matas do
Ferrabraz. E Jacobina, que estava grvida de muitos meses, tivera o
ventre trespassado por uma baioneta.
  Durante a "Guerra dos Muckers" o dr. Winter escrevera a seu amigo Von
Koseritz: "...esse lamentvel episdio vem confirmar a opinio que tenho
de meus compatriotas:  individualmente so excelentes, sensatas pessoas,
mas quando reunidos em grupos acabam sempre fazendo alguma asneira
brutal. Creio, porm, que Goethe j disse isso  antes de mim e em muito
melhor alemo. Seja como for, s vezes chego a achar que a unificao da
Alemanha foi um erro. Temo que depois da vitria de Sedan, embriagados
de orgulho nacional, os alemes tomem gosto pelas guerras (H um ditado
gacho que conheces: "Cachorro que come ovelha uma vez....") e no
possam mais passar sem  elas. Parece-me que homens como Mozart e Heine
s podem ser produzidos por naes que no perdem tempo nem energia em
arquitetar guerras e muito menos em lev-las  a cabo".
  830
  Fingindo no ter percebido a deixa de Bibiana, Winter disse:
  - H de chegar o dia em que no haver mais guerras. Ele prprio no
acreditava no que acabava de dizer. As guerras
  tolas no acabariam nunca pela simples razo de que os homens jamais
deixariam de praticar as tolices que levam os povos  luta.
  Bibiana olhava fixamente para a chama do lampio. Os gaiteiros fizeram
uma pausa dentro da qual se ouviram palmas, gritos, risadas e batidas de
p. Depois comearam  a gemer uma valsa lenta e sentimental. Winter
abafou um bocejo. Olhando para Bibiana, viu que uma estranha
transformao se operava no rosto da velha. Era como se  ela estivesse
sozinha no casaro e de repente ouvisse um rudo de passos suspeitos na
sala contgua... L estava ela de cenho franzido, olhos vidrados, mos
crispadas  sobre a guarda da cadeira, busto retesado...
  Que seria? De repente Winter compreendeu. A valsa que os gaiteiros
tocavam era uma das que Luzia mais gostava de dedilhar na ctara.
  - Sabe duma coisa? - perguntou Bibiana baixinho, como a temer que sua
voz fosse ouvida do outro lado daquelas paredes. - Ultimamente o Curgo
deu pra perguntar coisas  sobre a me...
  O mdico sacudiu vagarosamente a cabea.
  - Quer saber como ela era, donde tinha vindo... - prosseguiu a velha. -
Eu fico meio desajeitada, no sei se devo contar tudo. s vezes tenho
vontade, porque a verdade  nunca fez mal a ningum.
  - A verdade agora nada adianta. Luzia est morta. Bibiana sorriu
enigmaticamente e por alguns segundos ficou
  a menear a cabea lentamente.
  - No est to morta como vossunc pensa...
  Estas palavras foram como gua fria no esprito do mdico. Foi-se-lhe de
repente o sono e ele ficou alerta.
  - Que  que vossunc quer dizer com isso?
  - No se passa um ms que eu no sonhe com ela. Sonhos loucos que me
deixam cansada como se eu tivesse passado a noite em claro. Me vejo
sempre s voltas com ela,  conversando, discutindo, brigando... Enxergo
tudo to claro como se ela ainda estivesse
  831
  viva. Vossunc sabe, o quarto dela est bem direitinho como no tempo que
ela estava neste mundo. No se mexeu em nada.
  Fez uma pausa. A chama do lampio comeava de novo a morrer e Winter j
no podia distinguir bem as feies da amiga.
  - Quem guarda a chave dourada do quarto  o Curgo. No deixa ningum
entrar l. s vezes o menino se levanta no meio da noite, mete-se no
quarto da me e fecha a  porta.
  - E o que  que faz l dentro?
  - Sabe-se l! Acho que fica remexendo nos bas e gavetas dela... e
lendo um caderno onde ela escrevia umas bobagens. Eu at no sei por que
no rasguei h mais  tempo esse caderno... O Curgo tem cada coisa! Agora
deu pra querer saber por que foi que a me no deixou nenhum retrato...
  Winter franziu a testa.
  - Mas eu me lembro que l por 69 ou 70 andou por aqui um fotgrafo
francs que tirou uns retratos da Luzia, no foi?
  Por alguns segundos Bibiana hesitou. Depois, sem olhar para o amigo,
respondeu:
  - No me lembro.
  Mas Winter agora se lembrava com clareza. Vira muitos retratos de Luzia
no Sobrado at o dia de sua morte. Por sinal havia um com moldura
dourada em cima do consolo...  Sim, Luzia de preto sentada numa cadeira
de respaldo alto, as mos cadas sobre o regao, a segurar um leque.
Todos aqueles retratos tinham desaparecido de repente...  Olhou para
Bibiana, pigarreou de leve e sorriu.
  De novo a velha falou:
  - Sabe o que foi que o Curgo me disse um dia destes? Disse: "Vov, s
vezes quando passo no corredor pela porta do quarto da mame, tenho a
impresso que ela est  l dentro me esperando, porque quer falar
comigo..." Ora, j se viu?  uma coisa at diferente do Curgo, dizer
isso. Onde se viu esse amor assim de repente? O menino  no era assim.
Duns dois anos pra c  que mudou. Chegou a me dizer at que tem
remorsos.
  - Remorsos de qu?
  832
  - De no ter sido bom filho, de no ter gostado da me como devia.
Vossunc j ouviu maior disparate? Bom filho ele foi. Ela  que no
soube ser boa me. - Bibiana  teve um estremecimento e, mudando de tom,
disse: - Estou ficando gelada. Ser que est frio mesmo, doutor, ou...
  Winter no ouviu o resto da frase, no s porque Bibiana o pronunciou
num sussurro inaudvel mas tambm porque ele logo se perdeu em
pensamentos. Estava a lembrar-se  duma curiosa conversa que mantivera
com Licurgo, havia menos dum ms. Primeiro com ar fingidamente casual e
depois com indisfarvel interesse, o rapaz lhe fizera  perguntas sobre
a me. Queria saber exatamente de que morrera ela, e se era realmente
bela como ele a tinha em sua memria. Por fim mostrara-lhe o dirio da
me  e fizera-o ler alguns trechos assinalados. Havia um que deixara
Winter particularmente impressionado. Fora escrito nos ltimos dias da
vida de Luzia.
  Estou me acabando devagarinho. Ontem ainda me olhei no espelho. Eu era
bonita, agora estou que nem caveira. Mas gosto de me olhar, e quando me
vejo assim envelhecida,  acabada, horrvel, fico at alegre. Sempre que
me enxergo no espelho digo pra mim mesma: "Bem feito, Luzia, bem feito".
Acho que nunca gostei de mim mesma e que  toda a minha vida no passou
dum suicdio lento, miudinho. S no sei o que foi que eu fiz pra mim
mesma para me odiar dessa maneira.
  Essas palavras haviam deixado Winter perplexo. No se tratava apenas de
mera atitude literria duma moa influenciada pela leitura de Noites na
taverna e dos contos  de Hoffmann. Era algo de mais profundo que ele no
compreendia, mas que o deixava perturbado.
  Winter ficara com a impresso de que Licurgo se atormentava quando lia
as pginas daquele dirio escrito com letra mida e regular, e ao qual
Luzia confiava suas  mgoas, sua revolta contra Santa F e suas
angstias de prisioneira. E o que mais intrigava o rapaz era o fato de
Luzia no ter mencionado seu nome uma vez sequer  naquelas pginas. A
verdade, porm, era que havia no dirio muitas folhas arrancadas. Mas
arrancadas por quem? Com que propsito? E que haveria nessas pginas?
  833
  Quando Licurgo lhe perguntara "Que  que o doutor acha de tudo isto?",
ele lhe respondera com toda a franqueza: "Acho que vossunc deve
esquecer, esquecer tudo.  H na Bblia um versculo que diz:  Deixa que
os mortos sepultem os seus mortos' ."
  - Outro que no esquece  o Florncio - ajuntou Bibiana. - E se ele no
decide vir morar no Sobrado com a famlia  ainda por causa daquela
mulher...
  No vestbulo algum gritou: "Dona Bibiana!" De repente a porta se abriu
e Fandango irrompeu no escritrio, exclamando:
  -  quase meia-noite, minha gente. Venham! Vo soltar o balo. Depois
todo o mundo vai danar a quadrilha dos lanceiros.
  Sem esperar resposta, fez meia-volta e se foi, no seu passo lpido de
bailarim.
  Bibiana suspirou fundo, ergueu-se lentamente, deu alguns passos na
direo do mdico, parou junto dele e murmurou:
  - Nunca me agradei da cara dessa china, a Ismlia. No princpio eu no
sabia por qu. Agora sei...
  Ficou esperando que o dr. Winter perguntasse: "Por qu?" Mas ele
permaneceu calado, os olhos fitos na amiga. Das outras salas vinham,
agora mais fortes, as vozes  dos convivas. Os gaiteiros romperam a tocar
os primeiros compassos duma quadrilha. Bibiana inclinou-se para o mdico
e esclareceu:
  - O diabo da menina tem na cara, nos olhos, no jeito, qualquer coisa que
lembra a me do Curgo.
  Winter encarou por alguns instantes a interlocutora e depois,
levantando-se tambm, disse:
  -  verdade. A Luzia no est to morta como muita gente pensa.
  Lado a lado e silenciosos, os dois amigos voltaram a passo lento para a
festa.
  834
  
  No h em Santa F quem no conhea o velho Maneco Lrio
  major da Guarda Nacional
  veterano do Paraguai
  ledor de almanaques
  charadista consumado
  e monarquista dos quatro costados.
  Todos os dias antes de nascer o sol
  l est ele na frente da casa
  de bombachas e em mangas de camisa, a tomar seu chimarro
  seja inverno, primavera, outono ou vero.
  Depois do almoo vai sempre dar um dedo de prosa na farmcia e  noite
joga sua partidinha de gamo com o coletor federal.
  Sofre de bronquite asmtica
  e fuma com certa relutncia cigarros de cartucho roxo.
  B catlico por tradio mas no reza no vai  missa no gosta de padre.
  Em festas familiares nunca se faz rogar: basta que peam uma
  Recite um verso, major
  835
  (principalmente quando quem pede  uma dama)
  d dois passos  frente, limpa o peito e solta a voz de cascalho
  Aquele Ranchinho, da lavra de Lobo da Costa.
  Tu me perguntas a histria daquele triste ranchinho, que abandonado
encontramos, coberto por negros ramos de pessegueiro maninho, aquele
rancho de palha, aquele  triste ranchinho?
   num tom cavo e macabro que diz o ltimo verso
  No outro dia os destroos
  de um rancho viam-se ento;
  o incndio levara tudo
  e fora cmplice mudo,
  fora cmplice o trovo!
  - a tens a histria que pedes
  do ranchinho do serto.
  O major  vivo e s tem um filho, que  a menina de seus olhos mas
agora vive sozinho, na sua meia-gua branca da Rua Voluntrios da
Ptria.
  Nas paredes midas de sua sala de visitas, trs retratos
  o de Dom Pedro II
  o do conselheiro Gaspar Martins
  e o da Falecida, que Deus a tenha em Sua Santa Glria
  Amm!
  So seis horas da tarde, na primavera de 93. O major olha o calendrio
  uma tricromia onde cisnes brancos nadam num lago azul por entre nelumbos
e vitrias-rgias
  brinde da Casa Sol a seus prezados favorecedores.
  836
  Franze a testa
  Diacho! Hoje  15 de novembro. Arranca a folhinha e l a efemride 1889.
O marechal Deodoro proclama a Repblica. X mico! Antes no tivesse
proclamado coisa alguma e ficasse em casa quieto, deixando a nao em
paz.
  Maneco Lrio vai sentar-se  janela, com a cuia de mate, uma chaleira
d'gua quente e mais suas lembranas e mgoas. Na calada fronteira
meninos jogam sapata no  meio da rua, meninas fazem roda e cantam, no cu
pisca-pisca a estrela vespertina.
  O major volta a cabea para dentro da sala e olha com ternura o retrato
do imperador.
  Expulsarem do pas um homem como esse verdadeiro neto de Marco Aurlio!
  Na rua as menininhas cantam
  O meu belo do Castelo mata-tira-tirarei!
  Amigo de grandes homens como o papa, Lamartine, Pasteur e
  outros
  soberano democrata
  pai dos necessitados
  sbio como poucos.
  Traduziu o Velho Testamento do hebraico para o francs
  o Jlio Csar de Shakespeare para o latim
  os poemas de Longfellow para a lngua materna
  e fazia sonetos adamantinos da mais pura inspirao.
  Versado em Astronomia
  olhava a lua em telescpios
  estudou in loco as runas de Pompia
  conhecia os museus da Europa como a palma de sua augusta mo
  Na calada os meninos tiram a sorte
  837
  Canivetinho
  pintadinho
  gorro,
  mingorro
  tua mo est forro.
  E apesar de tudo isso era a modstia em pessoa.
  O grande Victor Hugo, o vate de Os Miserveis, recebeu o imperador em
sua casa de Paris chamou o netinho e disse Beije a mo de Sua Majestade.
  Vai ento o nosso monarca aponta para o poeta e exclama Esta sala, mon
enfant, agora s tem uma majestade: vosso av.
  Expulsarem do pas um homem como esse!
  Se esta rua fosse minha Eu mandava ladrilhar De pedrinhas de brilhante
Para o meu amor passar
  Doutra feita, na Amrica do Norte, sem cortejos nem fanfarras, como um
simples viajante
  nosso Dom Pedro II visitou a Exposio do Centenrio, na cidade de
Filadlfia
  Falou com Alexandre Graham Bell, mas no se deu a conhecer
  S perguntou
  Que diabo de aparelho  esse que vosmec tem na mo?
  Pois  uma maquinazinha em que botei muito engenho. Quer experimentar?
Encoste este canudo no ouvido e escute.
  O soberano encostou, o inventor foi para outra sala e comeou a falar
dentro dum funil.
  E de repente Sua Majestade sentiu ccega no ouvido, pois do canudo saa
uma voz.
  838
  Santo Deus! Esta coisa fala.
  E da outra ponta do fio Alexandre Graham Bell dizia:
  Isto  o telefone. Dentro de pouco tempo todas as casas do mundo vo
precisar dum aparelho assim.
  Dom Pedro entusiasmado abraou e inventor e disse:
  Quero fazer uma encomenda desses tais de telefones pr governo do meu
pas.
  Mas afinal de contas quem  o senhor?
  Imperador do Brasil.
  O outro quase caiu pra trs.
  E foi um homem como esse que os republicanos mandaram embora.
  Seu Joo das Calas Brancas! Pronto, meu amo! Quantos pes tem no forno?
Vinte e cinco e um queimado. Quem foi que queimou? Foi o Bico de Lato.
Ora pega esse ladro  na panela de feijo.
  Tudo foi obra desses moos da propaganda republicana.
  Viviam com a cabea cheia de idias da estranja.
  queriam a abolio
  Tiveram
  E pioraram a sorte dos negros.
  Queriam a repblica.
  Tiveram
  Derrubaram a monarquia
  Instituram a anarquia
  Mandaram embora o imperador
  que morreu, coitado, no exlio.
  Mudaram a nossa bandeira
  que agora  ordem e progresso.
  S por milagre no mudaram o hino nacional
  O pas est entregue  camarilha positivista.
  839
  Foram mexer com o Exrcito
  que no tempo do imprio vivia quieto no seu canto
  Corremos agora o perigo duma ditadura militar
  E daqui por diante ningum vai fazer mais nada
  Sem primeiro ouvir e cheirar os generais.
  E o resultado dessa beleza  o que vemos
  S aqui no Rio Grande de 89 a 90
  tivemos cinco governos
  Botaram bucal na imprensa
  houve tiroteio nas ruas
  a canhoneira Maraj quis bombardear Porto Alegre.
  E o  que o povo anda descontente
  ds que mandaram o Velhinho embora
  Deodoro fechou o Congresso deu o seu golpe de Estado logo depois
renunciou veio a revolta da esquadra com o Custdio Jos de Melo a
revoluo no Rio Grande e a ditadura  do Floriano. J ningum se entende
mais.
  Ciranda, cirandinha Vamos todos cirandar Vamos dar a meia-volta A
meia-volta vamos dar
  Mas no meu fraco entender, s existe um homem no mundo
  capaz de salvar o pas
  o conselheiro Gaspar Martins, honra e glria da nao
  gigante no fsico e no moral, no saber e na inteligncia
  conhecedor de quinze lnguas entre vivas e mortas
  mais eloqente que Gambetta, Demstenes ou Mirabeau
  E at a grande Eleonora Duse, quando viu o conselheiro
  disse l na sua lngua dela
  Que magnfico Otelo ele no vai dar
  840
  E quando Gaspar Martins solta o verbo de fogo
  com sua voz de trovo
  os pigmeus da Repblica se encolhem.
  Pois o nosso conselheiro  contra esta situao
  E nas campinas do Rio Grande deu o grito de revoluo
  E de todos os quadrantes surgiram federalistas e gasparistas
  de leno colorado no pescoo
  E meu filho Jos Lrio foi o primeiro a se apresentar.
  Os dias do Castilhismo esto contados.
  Rei, capito Soldado, ladro Faca na cinta Pistola na mo.
  Eu no sei o que  que estou fazendo aqui parado
  que no azeito as minhas pistolas nem limpo a minha espada
  e boto um leno vermelho no pescoo e vou tambm pra coxilha
  com as foras dos maragatos.
  No estou to velho assim que no possa dar uns tirinhos
  ou manejar uma espada.
  Porque  bem como o conselheiro diz
  Ideias no so metais que se fundem.
  Senhora Dona Cndida Coberta de ouro e prata Descubra o seu rosto Quero
ver a sua graa.
  Um apito de trem vara como uma lana o devaneio do major. Maneco Lrio
tira o relgio do bolso e olha o mostrador Seis e meia. O trem de carga
de Santa Maria est  no horrio ouro e fio
  O trem agora vai passando
  pela frente do rancho de Quincas Car
  841
  que sai para fora com a mulher e os filhos
  e ficam todos olhando de boca aberta para a locomotiva
  E depois que o trem desaparece na curva do cemitrio Quincas cospe no
cho, volta-se para a mulher e diz com ar de entendido Esse bicho traz
seca.
  O Sobrado - VII
  27 de junho de 1895: Manh
  Ao clarear do dia o sudoeste irrompe em Santa F. De seu posto na
gua-furtada, Fandango, a quem tocou o ltimo quarto da viglia da
noite, contempla o cu e tem  a impresso de que  o minuano que vai
apagando aos poucos com seu sopro de gelo as ltimas estrelas. Das
rvores agitadas cai um chuvisqueiro de sereno. A figueira  grande, que
a geada prateia, parece uma cabea que envelheceu durante a noite.
Tiritando de frio, o rosto muito prximo da vidraa, sentindo na ponta
do nariz o  contato gelado do vidro, o velho capataz agora espia a rua.
L est o maragato morto todo coberto de geada... Quem ser o infeliz?
Decerto algum pai de famlia.  Amanh a revoluo termina, os inimigos
de hoje fazem as pazes, mas os que morreram no voltam mais.
  Fandango suspira. Guerra malvada! Irmo contra irmo, amigo contra
amigo. O Fandanguinho dum lado e o Juvenal do outro. A esta hora decerto
j degolaram tambm o  Antero... No deve ser brinquedo levar um talho
de faca com um frio destes. Cruz credo!
  Fandango pensa nas gargantas abertas que viu desde que a revoluo
comeou. Curgo vive dizendo que os maragatos so bandidos. Mas qual!
Todo o mundo sabe que h  gente boa e gente ruim dos dois lados. Ele se
lembra do Boi Preto, onde a Diviso do Norte pegou duzentos federalistas
dormindo num acampamento e liquidou todos  a arma branca. E o caso do
Gumercindo Saraiva? Foi enterrado num dia pelos companheiros e
desenterrado no outro pelos inimigos. Contam at que um chefe
republicano  gritou: "Quero as orelhas do bandido!" - e passou-lhes a
faca. Uma 
  842
  843
  sangueira braba, uma perda horrvel de vidas, de dinheiro e de tempo! E no
entanto o mundo tem tanta coisa gostosa! Mulher bonita, cavalo bom,
baile, churrasco, mate  amargo... Laranja madura, melancia fresca, uma
guampa de leite gordo ainda quente dos beres da vaca... Uma boa prosa
perto do fogo... Uma pescaria, uma caada,  uma sesta debaixo dum
umbu... Tanta coisa!
  Para esquecer o frio, a fome e as mgoas Fandango pe-se a assobiar.
  E o vento, que assobia mais forte, faz trepidar as janelas do Sobrado,
entra pelos buracos dos vidros quebrados, pelas frestas dos postigos e
vai enchendo a casa  com seu bafo polar. Um jornal que veio no se sabe
donde, esvoaa no ar, sobe e desce em movimentos agnicos de pssaro
ferido, e h um momento em que fica aberto  e como que colado  parede
da igreja, mostrando o cabealho da primeira pgina em letras garrafais:
- OS FEDERALISTAS DERROTADOS EM CAROVL! depois torna a cair,  rola na
calada e  levado pelo minuano num vo rasteiro, Rua dos Farrapos em
fora.
  No Sobrado os homens esto quase todos acordados. Passaram a noite ao
redor do fogo, agarrados uns aos outros, numa busca meio inconsciente
de calor e aconchego,  e agora esto vagamente envergonhados dessa
promiscuidade, como se tivessem feito algo que um homem que se preza no
faz com outro homem. Esfregam as mos, batem  ps, tossem, pigarreiam,
escarram, bocejam... Mas nada dizem, porque decerto acham que nada mais
tm a dizer.
  Quando Fandango desce, seu primeiro cuidado  o de ir ver como Florncio
passou a noite. Encontra-o ainda a dormir, com a cabea atirada para
trs e pousada num  travesseiro. Bem bom que o velho est descansando -
reflete o capataz. O coitado merece.
  Volta-se para os homens e cochicha:
  - No faam muito barulho, que seu Florncio est dormindo.
  O sol j apareceu por trs dos rnuros do cemitrio. A velha Bibiana est
de novo a balanar-se na sua cadeira. E Curgo, que dormiu algumas horas
de sono pesado no  quarto de Florncio, acorda de repente num
sobressalto, com uma sensao de desastre
  844
  iminente. Atira as pernas para fora da cama, e, zonzo, os olhos piscos,
fica tentando varar a nvoa da sonolncia, para ver o que aconteceu...
Que foi? Rompeu de  novo o tiroteio? Morreu algum? Maria Valria ali
est, parada no meio do quarto, o rosto voltado para ele.
  - Que  que quer? - pergunta, irritado com a desagradvel impresso de
que a cunhada esteve a espion-lo.
  - Nada. Vim s ver se vossunc estava dormindo.
  - Me acordei agora.
  - Estou vendo.
  - Aconteceu alguma coisa?
  - No.
  - Como vai a Alice?
  - A febre baixou um pouco.
  Curgo passa a mo pela cabea num gesto perdido.
  - Dormi como uma pedra - murmura, como a penitenciar-se dum ato
reprovvel.
  - Era de sono que vossunc precisava.
  - E o seu pai?
  - Est l embaixo. Parece que finalmente conseguiu dormir.
  - O Antero deu algum sinal de vida?
  - No.
  - Eu bem disse que no ia adiantar nada...
  - Mas algum precisava fazer alguma coisa, no ?
  - Eu sei!
  Sentado na beira da cama, Licurgo mantm os olhos baixos, pois sabe que
no lhe  possvel olhar de frente para a cunhada, cuja presena chega a
ser-lhe quase repulsiva.
  - As laranjas esto se acabando e no tem mais farinha em casa. No sei
o que  que vou dar prs homens comerem hoje.
  Ele tem ganas de responder: "Me matem, me carneiem, me comam!" Imvel na
sua frente, Maria Valria espera. Parece que o bafo gelado que entra no
quarto no vem de  fora, vem dela. E quando esta mulher fala, ele sente
sua voz como uma lixa a raspar-lhe os nervos.
  - Me diga! Que  que vou dar prs homens?
  845
  Por que no dorme com eles? - pergunta-lhe Licurgo em pensamento. Assim
eles esquecem a fome, a senhora fica sossegada e me deixa em paz.
  Continua, porm, calado, de cabea baixa, friccionando nervosamente os
joelhos com as palmas das mos. De repente, vendo as prprias unhas
crescidas e sujas, encolhe  os dedos para que Maria Valria no os veja,
e fica ao mesmo tempo contrariado por ter feito esse gesto. Por que ser
que ela no vai embora?
  - J pensou nas crianas? Todos estes dias sem leite nem po? E na
velha?
  De sbito ele ergue a cabea, encara a cunhada e pergunta, agressivo:
  - Que  que a senhora quer que eu faa?
  - J lhe disse mil vezes. Bote bandeira branca na sacada e pea trgua
enquanto  tempo de salvar Alice.
  Curgo pe-se de p abruptamente, inclina-se sobre a cama e com um gesto
brusco arranca-lhe o lenol.
  - Pois  isso mesmo que eu vou fazer agora! - exclama. - E depois no me
culpem pelo que acontecer.
  Maria Valria fita nele os olhos plcidos e melanclicos e murmura:
  - Era o que o senhor devia ter feito h muito tempo. Aps uma breve
hesitao, Licurgo encaminha-se para a porta,
  arrastando o lenol. Neste momento vem do corredor um rudo de passos
apressados, seguidos duma voz:
  - ... de bandeira branca!
  Licurgo deixa o lenol cair no cho e precipita-se para fora do quarto.
Jango Veiga, que se acha junto da porta da sacada, a espiar pelo postigo
entreaberto, volta  a cabea para ele e exclama, meio engasgado:
  - Um grupo atravessando a praa... na frente um homem com uma bandeira
branca... parece o vigrio...
  Licurgo aproxima-se do companheiro, olha por cima do ombro dele e
avista, por entre as rvores que o vento sacode furiosamente, uns quinze
homens que caminham na  direo do Sobrado, tendo  frente - sim, no h
a menor dvida! - o vigrio de
  846
  Santa F, que carrega uma bandeira branca na ponta duma lana. Um dos
homens ergue o chapu no ar e solta um brado; os outros o imitam mas o
vento leva-lhes as vozes  para longe.
  -  a nossa gente - diz Jango, excitado. - L est o nanico... o dr.
Winter... est vendo?
  - Estou - responde Curgo com impacincia. - No sou cego.
  Abre a porta da sacada e d dois passos  frente. Respira fundo, e com o
olhar abarca a praa. O vento faz esvoaar-lhe os cabelos, as barbas, o
poncho e o leno  branco que ele no tirou do pescoo desde que comeou
o cerco.
  Sente uma repentina tontura e por momentos as imagens se lhe turvam
diante dos olhos. L embaixo, impelido pela ventania, um pedao de
jornal arrasta-se pela rua,  bate nas pernas do maragato morto, sobe-lhe
pelas coxas, fica por um instante preso nas dobras do poncho e acaba por
cobrir-lhe a cara.
  Perfilado, Licurgo Cambar espera...
  O padre Atlio Romano entrega a bandeira a um companheiro, adianta-se do
grupo e, de braos abertos, atravessa a rua.
  - Graas a Deus! - exclama, de rosto iluminado. - Graas ao bom Deus! Os
federalistas abandonaram a cidade antes do dia raiar. As foras
republicanas de Cruz Alta  j entraram no nosso municpio!
  Curgo baixa os olhos para o padre mas no diz palavra. Os homens esto
todos agora no meio da rua, com as faces erguidas para a sacada. O
senhor do Sobrado e do  Angico reconhece os companheiros que foram
aprisionados pelos federalistas durante o combate pela posse da cidade.
Erguem-se no ar espadas, chapus, lenos e lanas.  Viva o Partido
Republicano! Viva o coronel Licurgo Cambar! Viva o Rio Grande do Sul!
Antero pe o chapu na ponta duma lana, levanta-o bem alto e, com sua
voz  estrdula, brada: "Viva o Sobrado!"
  s janelas do casaro assomam aos poucos seus defensores. Curgo volta o
rosto para a torre da igreja e com uma fixidez estpida fica a mirar o
galo do cata-vento,  que rodopia como uma piorra.
  847
  - Curgo! - grita-lhe o padre l de baixo. - No conhece mais seus
amigos? Por que no manda abrir a porta?
  Licurgo faz meia-volta, d alguns passos e no patamar encontra a cunhada
de braos cruzados sob o xale, esperando...
  - A cidade est livre! - exclama ele com a voz cheia duma exultao em
que h tambm um elemento de rancor. - Os federalistas fugiram, nenhum
canalha botou o p  na minha casa!
  Mau grado seu, lgrimas comeam a escorrer-lhe pelas faces e, furioso
por estar fraquejando, e ainda mais desconcertado porque Maria Valria
est percebendo que  ele chora, grita:
  - A senhora e seu pai queriam a todo transe entregar o Sobrado prs
Amarais. Est vendo agora o que aconteceu? Foi ou no foi como eu l
disse?
  Maria Valria diz simplesmente:
  - No se esquea que sua mulher est passando mal. Mande o dr. Winter
subir imediatamente.
  Curgo desce a escada com uma lentido nervosa. No andar trreo encontra
Fandango a cantar e a danar. A alegria do velho deixa-o agastado, pois
para ele o momento   grave e triste: no se trata de danar e dar
vivas, mas de salvar a vida de Alice, enterrar decentemente os mortos,
dar de comer aos vivos e fazer ressuscitar  a cidade.
  - Mas que cara emburrada  essa, muchacho?
  Os outros homens cercam o chefe,  espera de ordens. Licurgo pe na
cabea o chapu em cuja fita se l - "Viva o dr. Jlio de Castilhos!" -
apresilha  cinta a espada  e ordena a Jango Veiga, que neste momento
entra na sala:
  - Abre a porta e mande essa gente entrar!
  Jango precipita-se para o vestbulo, desce os degraus em dois pulos,
tira a tranca da porta, d-lhe volta  chave, puxa-lhe o ferrolho e
abre-a de par em par. O  primeiro a entrar  o vigrio, que tem os olhos
turvos de comoo. Abraa Jango Veiga e sobe apressado, seguido do dr.
Winter e do resto do grupo. E ali no vestbulo  os recm-vindos e os
sitiados ficam a abraar-se, a se fazerem perguntas, a contar coisas
entrecortadas e atabalhoadamente. O vigrio
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  envolve Curgo com seus braos atlticos e d-lhe um beijo estralado em
cada face.
  - Que  isso, padre? - pergunta Curgo, constrangido. E desvencilhando-se
do sacerdote, aproxima-se do dr. Winter, que lhe pergunta:
  - Como vai a Alice?
  As palavras do mdico saem-lhe da boca num bafio de cachaa. Licurgo
agarra-lhe fortemente os braos.
  - Suba, doutor, suba ligeiro e salve a minha mulher.
  - Vou fazer o possvel.
  - Faa o impossvel.
  Ao dizer isto aperta com mais fora os braos do outro.
  - Ento no me quebre os ossos.
  Curgo larga-o. Winter comea a subir a escada grande, levando na cabea
uma pergunta: Salvar pra qu? Salvar pra qu?
  Montados no corrimo, Rodrigo e Torbio passam por ele deslizando
velozmente.
  - Olha o dr. Winter!
  - O alemo batata!
  Sem dar ateno aos meninos, de chapu na cabea, encurvado e tateante
(quebrou os culos h um ms e com esta maldita revoluo no pde
encomendar outros) Winter  sobe penosamente os degraus.
  Na sala de jantar Rodrigo puxa a manga do casaco do irmo.
  - Vamos tocar sino na igreja? Os olhos do outro brilham.
  - Vamos!
  Passam pelo vestbulo, por entre os homens, ganham a rua e deitam a
correr na direo da matriz. Como encontram fechada a porta da frente,
contornam o templo, entram  pela sacristia, fazendo um rpido
sinal-da-cruz ao passarem pelo altar-mor, metem-se no batistrio,
penduram-se na corda do sino e comeam a pux-la com fria desesperada.
A guerra acabou! O Sobrado ganhou a guerra! Viva! Viva! Atordoado pela
zoada do sino, Rodrigo encolhe-se, trmulo, arregala os olhos, assustado
e j meio arrependido  da 
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  travessura. Dizem que o Barbadinho do Padre morreu surdo e louco por causa do
barulho do sino...
  - Estou com medo, Bio! - grita ele.
  Mas o irmo no pode ouvi-lo. Rodrigo larga a corda, ajoelha-se no
cho, fecha os olhos e leva ambas as mos aos ouvidos, tapando-os,
enquanto Bio continua a badalar,  virando cambalhotas como um burlantim.
  Os ares de Santa F atroam, e o minuano como que se enrosca no som do
sino, num corpo-a-corpo frentico, e se vai lutando com ele campo em
fora. O galo do cata-vento  continua a rodopiar. As rvores da praa
farfalham. O pedao de jornal que cobre a cara do morto sobe de repente
e comea a esvoaar sobre os telhados, como uma  pandorga extraviada.
  Estonteado no meio da zoada, Curgo leva os dedos s tmporas e fica um
instante de olhos fechados, procurando pr ordem nos pensamentos. 
preciso fazer alguma coisa.  Acabam de informar-lhe que o trem que
partiu de Cruz Alta de madrugada, conduzindo as tropas republicanas,
chegar dentro de meia hora.
  - Jango! - grita ele para o companheiro. - Providencie imediatamente
para arranjar comida pra nossa gente. Veja primeiro se consegue leite
prs meninos e pra dona  Bibiana. - Volta-se para o vigrio e diz: -
Padre, venha comigo.
  - Aonde vamos?
  - Vou primeiro tomar conta da Intendncia. Acho que vossunc no se
esqueceu que ainda sou intendente de Santa F...
  - Claro que no, coronel.
  - Depois quero passar um telegrama pr dr. Jlio de Castilhos.
  Ergue a voz e pede silncio. Os homens obedecem-lhe, mas o sino continua
a tocar, a tocar...
  - Quem quiser vir comigo que venha! - grita Licurgo. Todos querem. Saem
num grupo compacto, com o dono da
  casa e o padre  frente. Marcham lentamente, numa gravidade religiosa de
enterro:  como se estivessem saindo do Sobrado conduzindo um defunto,
rumo do cemitrio.
  - Por que mandou tocar sino desse jeito, padre? - pergunta Licurgo,
franzindo o cenho.
  - Eu no mandei coisa nenhuma, belo!
  - Devem ser os seus filhos, coronel - esclarece um dos homens. - Vi
quando eles saram ind'agorinha correndo pra igreja.
  No meio da rua Licurgo detm-se ao p do inimigo morto, e, tapando o
nariz com um leno, baixa os olhos para o rosto dele. A princpio tem a
impresso de que aquela  fisionomia lhe  desconhecida. No leva, porm
muito tempo para identific-la, pois v na face do defunto os olhos
verdes e mosqueados de Ismlia.
  - Joo Batista!
  - Pronto, coronel.
  - Mande enterrar imediatamente esses maragatos!
  Diz isto e retoma a marcha. O negro olha para o morto e
  murmura:
  - Quem havia de dizer! O Mauro Car atirando contra o Sobrado. A gente
dele sempre viveu nas costas do coronel Licurgo.  o mesmo que comer e
depois cuspir no prato.  H muita ingratido neste mundo!
  Cuspinha, enojado.
  De longe o padre lhe grita:
  - No enterrem os defuntos sem encomendao. Levem os corpos para a
igreja, que eu j volto.
  Licurgo caminha de cabea erguida, com o sol e o minuano na cara. A seu
lado o padre fala incessantemente, contando-lhe suas provaes daqueles
ltimos dez dias.  Ficou prisioneiro de Alvarino Amaral enquanto durou o
cerco, e por mais de uma vez lhe suplicou que o deixasse ir at o
Sobrado para ver como estavam as mulheres  e as crianas. O chefe
federalista, porm, repelira-lhe a sugesto. Sabia que a revoluo
estava perdida para seu partido, mas tinha esperanas de forar Licurgo
a pedir trgua: queria "quebrar-lhe o corincho".
  O padre tem de gritar para se fazer ouvir, pois o sino continua a
bimbalhar. Aos poucos se vo abrindo as portas e janelas das casas ali
da praa; algumas pessoas  metem a cabea para fora, espiam, ariscas, e
depois, compreendendo o que se est passando,    850
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  aventuram-se a vir para a calada e, descobrindo conhecidos no grupo que
atravessa a praa, comeam a acenar-lhes e gritar-lhes coisas. Na mente
de Licurgo o telegrama  j tomou forma:
 ilmo. sr. dr. Jlio de Castilhos Palcio do Governo Porto Alegre
  Tenho a honra comunicar Vossncia Santa F acaba ser libertada. Aps
vrios dias de cerco minha residncia onde resisti com grupo valorosos
leais correligionrios,  inimigos abandonaram cidade aproximao bravas
foras republicanas Cruz Alta. Viva o Partido Republicano! Viva o Rio
Grande! Viva o Brasil!
  Licurgo Cambar.
  De olhos fitos na fachada da Intendncia, Curgo atravessa a rua em
silncio. Doem-lhe os olhos e o peito; suas pernas esto fracas e
trmulas, a garganta seca, as  mos e os ps gelados. Mas ele se mantm
empertigado, e vai andando sempre, enquanto um sino enorme, um sino
brutal badala-que-badala-que-badala implacavelmente  dentro de sua
cabea, confundindo-lhe as idias, martelando-lhe os nervos, deixando-o
quase louco...
  Sozinho no meio da sala de visitas do Sobrado, Fandango de repente tem a
vaga mas estranha impresso de que algo de anormal est acontecendo. Que
ser? Nos primeiros  segundos no atina com o que seja, mas, ao olhar na
direo da cozinha, percebe o que ... O velho Florncio continua a
dormir, apesar de toda a gritaria que os  homens fizeram h pouco, e
apesar do sino que continua a tocar.
  Com um mau pressentimento aproxima-se do amigo e tocalhe o ombro,
primeiro de leve e depois, como o outro no se mexe, com mais fora, e
repetidamente. V ento,  num susto, que os olhos de Florncio esto
abertos e vidrados, fixamente fitos no teto fuliginoso da cozinha.
Toma-lhe da mo: fria. Apalpa-lhe a testa: gelada.  Encosta o ouvido no
peito do amigo e no lhe ouve o pulsar do corao. Apanha um copo,
aproxima-o dos lbios do
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  outro e deixa-o ali por alguns instantes; depois ergue o copo no ar,
contra o sol, para ver se est embaciado. Nada!
  Fandango coa a cabea, estonteado, sem saber que fazer. Os homens todos
foram embora. As mulheres esto l em cima.  preciso que algum lhes
v contar que o velho  Florncio morreu.
  Se ao menos esse maldito sino parasse... Quem ser o canalha que est
tocando? Decerto  a alma do Barbadinho do Padre, que voltou dos quintos
do inferno. Filho  da me!
  Fandango olha fixamente para o amigo morto. Pobre do velho! Como  que
eu no vi logo que ele se tinha finado? Est que nem um boneco de cera,
j com as ventas meio  roxas. Deus me livre de morrer sentado! Mas deve
ter sido uma morte fcil, sem agonia. Decerto morreu dormindo. Ou no?
Quem sabe acordou de noite, com a pontada  no peito? Era homem de
vergonha, no gostava de dar parte de fraco nem de incomodar o
prximo... No gemeu pra no acordar os outros. E morreu sozinho sem ter
ningum  que botasse uma vela acesa na mo dele...  bem como dizia o
falecido Maneco Lrio: Mundo velho sem porteira!
  P por p, como para no despertar o amigo, o capataz encaminha-se para
a escada e comea a subir os degraus lentamente, com uma vontade danada
de no chegar nunca  l em cima.
  Credo em cruz! Dar notcia de morte  a coisa pior do mundo. Logo eu, o
Fandango, o gaiato, o festeiro, o bom de farra... Como  que vou dizer?
Dona Maria Valria,  seu pai est l embaixo morto. Acho que o bragado
apareceu esta noite e levou ele na garupa pr outro mundo... Mas no se
aflija, dona, a vida  assim mesmo. Todos  morrem, mais cedo ou mais
tarde. A morte no pede licena pra entrar na casa da gente. Seu pai era
mais moo que eu. Seu pai era muito melhor que eu. Me desculpe  por eu
estar ainda vivo... Quem manda  o Velho, l em cima.
  Com os dedos crispados sobre o corrimo, Fandango vai subindo. Sino
desgraado, por que no calas essa boca? Vento do inferno, por que no
paras de zunir? Vo acabar  deixando todo o mundo fora do juzo. E como
 que vou dizer pra Alicinha que o pai dela se finou? E pra velha
Bibiana? Por que foi que esse negcio
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  estourou na minha cacunda? Logo eu, o Fandango, o festeiro, o gaiato, o
bom de farra... Mundo velho sem porteira!
  Os olhos do capataz esto cheios de lgrimas, que lhe escorrem pelas
faces tostadas e entram-lhe pelas barbas. Junto da porta do quarto de
Alice, ele as enxuga com  a ponta do poncho. Depois de alguma
hesitaes, bate de leve... Ouve o rudo de passos macios l dentro. A
porta entreabre-se e na fresta aparece a metade do rosto  de Maria
Valria.
  - Que . Fandango?
  - Preciso falar com vossunc.
  -  muito urgente? O capataz titubeia.
  - Muito... no.
  - Ento espere. Estou ajudando o dr. Winter.
  - Est bem.
  A porta torna a fechar-se. Fandango suspira, aliviado. De repente o sino
cessa de badalar e ele fica com uma zoada nos ouvidos, como se sua
cabea fosse um ninho  de marimbondos.
  Sem saber ao certo por qu, dirige-se para o quarto de Bibiana, bate na
porta e, como no obtm nenhuma resposta, abre-a devagarinho e entra. L
est a velha sentada  na sua cadeira de balano, com o xale nas costas,
mascando fumo, remexendo a boca como uma vaca a ruminar.
  Mas que foi mesmo que vim fazer aqui? A velha est catacega e meio
caduca: no tenho coragem de contar pra ela que seu Florncio morreu.
  - Quem  l? - pergunta Bibiana.
  - Sou eu. O Fandango, dona.
  - Ah!
  - O stio terminou. Os maragatos fugiram. O Curgo est na Intendncia
com os companheiros...
  A velha permanece impassvel como se no tivesse ouvido as palavras do
capataz, ou como se no as tivesse compreendido. Fandango aproxima-se
dela e toca-lhe o ombro.
  - Vossunc est se sentindo bem?
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  O vento uiva, fazendo matraquear as vidraas. Bibiana Terra Cambar
sorri, leva o indicador aos lbios, como a pedir silncio, e, estendendo
a mo na direo da  janela, sussurra:
  - Est ouvindo?
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  O AUTOR E SUA OBRA
  rco Verssimo desprezava os valores do gacho tpico: o machismo
obsessivo, o descaso pela msica, o gosto pelo jogo de cartas, ou o
saber desfrutar to bem de uma arma quanto de uma mulher. Do cdigo
gacho, herdou a franqueza, a lealdade, o empenho da palavra dada, o
arrojo das decises destemidas. E de dentro de sua aparente timidez
erguia-se um grito de revolta quando sentia a liberdade, a dignidade do
ser humano ameaadas em qualquer sentido. Assim foi em 1940, quando da
aproximao do Brasil com o nazismo, e em 1970, quando da instituio da
censura prvia no pas.
  Nascido em Cruz Alta, em 17 de dezembro de 1905, sentiu de perto a
decadncia de sua famlia, que se arruinou no comeo do sculo. Ainda
jovem, exerceu diversas  profisses, ajudante de comrcio, atendente de
farmcia e bancrio. A esse tempo foi atrado pelas obras melanclicas e
irnicas de Machado de Assis, Jonathan Swift  e Bernard Shaw.
  Em 1930, em razo da separao dos pais, por incompatibilidade de
gnios, deixa a regio agrcola das serras do Rio Grande do Sul e vai
para uma cidade grande, Porto  Alegre, onde conhece Augusto Meyer, o
grande nome do modernismo gacho, que o encaminha para o jornalismo
literrio. rico ento se destaca, firmando seu nome com  alguns contos
que reuniria, em 1932, na coletnea "Fantoches", editada pela Globo,
cuja revista secretariava.
  Seus primeiros romances, "Clarissa " (1933) e "Msica ao longe" (1935),
foram escritos com grande sacrifcio, aos sbados e domingos, quando
devia descansar do estafante  trabalho dirio no escritrio da livraria
e das tradues noturnas. A esses se seguiram "Olhai os lrios do campo"
(1938), "Saga" (1940), "O tempo e o vento" ("O  
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  continente", 1949; "O retrato", 1951; "O arquiplago", 1954), "Oataque"
(1959), "O senhor embaixador" (1965), "Incidente em Antares "(1970). Sua
obra inclui ainda as  memrias de viagens, um sonho prometido e cumprido
pelas vrias partes do mundo: "Gato preto em campo de neve" (1941), "A
volta do gato preto " (1946), recordaes  da sua ida aos Estados
Unidos, "Mxico, histria de uma viagem" (1967), "Israel em abril"
(1969).
  rico Verssimo faleceu em 1975, s vsperas da publicao do segundo
volume de "Solo de clarineta", seu livro de memrias, que traduz a vida
de um homem de inquestionveis coerncia e coragem pessoal.

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